29 de setembro de 2015

Capítulo 33 - Falsificação

— Charlie, ainda temos o problema do que é estritamente necessário saber. Sei que faz mais de uma semana que você não vê Renesmee, mas uma visita neste momento não é uma boa ideia. Que tal eu levar Renesmee para ver você?
Charlie ficou em silêncio por tanto tempo que me perguntei se ele tinha ouvido a tensão por baixo de minha fachada. Mas depois ele resmungou: “O que é necessário saber, argh”, e percebi que foi só sua cautela com o sobrenatural que o fez demorar a responder.
— Tudo bem, garota — disse Charlie. — Pode trazê-la esta manhã? Sue vai me trazer o almoço. Ela ficou tão apavorada com minha comida quanto você quando veio para cá.
Charlie riu, depois suspirou pelos velhos tempos.
— Hoje de manhã está perfeito. — Quanto mais cedo, melhor. Eu já havia adiado aquilo demais.
— Jake virá com vocês?
Embora Charlie não soubesse de nada sobre imprinting de lobisomens, ninguém deixaria de perceber a ligação entre Jacob e Renesmee.
— Provavelmente. — Não havia como Jacob perder voluntariamente um tempo com Renesmee e sem os sanguessugas.
— Talvez eu deva convidar Billy também — refletiu Charlie. — Mas... humm. Talvez outra hora.
Eu só estava prestando atenção em Charlie parcialmente – mas era o suficiente para perceber a estranha relutância em sua voz quando falou de Billy, mas não o suficiente para me preocupar com o motivo. Charlie e Billy eram adultos; se havia alguma coisa acontecendo entre eles, podiam resolver sozinhos. Eu tinha muito mais coisas importantes com que me preocupar.
— A gente se vê daqui a pouco — eu falei, e desliguei.
Havia mais nessa viagem do que proteger meu pai dos vinte e sete vampiros naquela estranha reunião – que tinham jurado, todos, não matar ninguém num raio de quinhentos quilômetros, mas ainda assim... Evidentemente, nenhum ser humano devia chegar perto daquele grupo. Essa foi a desculpa que eu dera a Edward: eu ia levar Renesmee para Charlie, para que ele não decidisse ir ali. Era um bom motivo para sair da casa, mas não era minha verdadeira razão.
— Por que não podemos ir na sua Ferrari? — reclamou Jacob quando me encontrou na garagem.
Eu já estava no Volvo de Edward com Renesmee.
Edward tinha tido a chance de revelar meu carro de depois; como ele havia suspeitado, eu não fora capaz de mostrar o entusiasmo adequado. É claro, era um carro lindo e veloz, mas eu gostava de correr.
— É chamativo demais — respondi. — A gente podia ir a pé, mas isso deixaria Charlie apavorado.
Jacob grunhiu, mas sentou-se no banco da frente. Renesmee passou do meu colo para o dele.
— Como você está? — perguntei-lhe enquanto saía da garagem.
— Como acha que estou? — respondeu Jacob com amargura. — Estou enjoado de todos esses sanguessugas fedorentos. — Ele viu minha expressão e falou antes que eu pudesse responder. — É, eu sei, eu sei. Eles são boa gente, estão aqui para ajudar, vão salvar todos nós etc. etc. Diga o que quiser, ainda acho que Drácula Um e Drácula Dois são de arrepiar.
Eu tive de sorrir. Os romenos também não eram meus hóspedes preferidos.
— Nisso eu não discordo de você.
Renesmee sacudiu a cabeça, mas não disse nada; ao contrário do restante de nós, ela achava os romenos estranhamente fascinantes. Ela fizera o esforço de falar com eles em voz alta já que eles não a deixaram tocar neles. Sua pergunta foi sobre sua pele incomum, e embora eu tivesse medo de que eles se ofendessem, fiquei feliz que ela perguntasse. Eu também estava curiosa.
Eles não pareceram se aborrecer com o interesse dela. Talvez um pouco.
— Ficamos sentados imóveis por muito tempo, criança — respondeu Vladimir, com Stefan assentindo mas sem continuar as frases de Vladimir, como costumava fazer. — Contemplando nossa própria divindade. Era um sinal de nosso poder que tudo viesse a nós. Presas, diplomatas, aqueles que buscavam nossos favores. Ficávamos sentados em nossos tronos e nos considerávamos deuses. Por muito tempo não percebemos que estávamos mudando... quase nos petrificando. Creio que os Volturi nos fizeram um favor quando queimaram nossos castelos. Stefan e eu pelo menos paramos de nos petrificar. Agora os olhos dos Volturi estão cobertos por uma camada poeirenta, mas os nossos são brilhantes. Imagino que isso nos dará uma vantagem quando arrancarmos os deles das órbitas.
Tentei manter Renesmee longe deles depois disso.
— Quanto tempo vamos ficar com Charlie? — perguntou Jacob, interrompendo meus pensamentos.
Ele ia relaxando visivelmente à medida que nos afastávamos da casa e de todos os novos companheiros. Fiquei feliz de não contar como vampira para ele. Eu ainda era apenas Bella.
— Por um bom tempo, na verdade.
O tom de minha voz atraiu sua atenção.
— Há alguma coisa aqui, além de visitar seu pai?
— Jake, você sabe como é bom em controlar seus pensamentos perto de Edward?
Ele ergueu uma sobrancelha preta e grossa.
— Sim?
Eu apenas assenti, desviando os olhos para Renesmee. Ela olhava pela janela, e não sabia até que ponto estava interessada em nossa conversa, mas decidi não me arriscar a continuar.
Jacob esperou que eu acrescentasse alguma coisa, depois seu lábio inferior se projetou enquanto ele pensava no pouco que eu tinha dito.
Enquanto seguíamos em silêncio, eu apertava os olhos com as lentes de contato irritantes, olhando a chuva fria; não estava frio o bastante para nevar. Meus olhos não eram mais tão assustadores como no início – estavam mais para um laranja-avermelhado opaco do que para o carmim vivo. Logo eles estariam âmbar, o que me permitiria livrar-me das lentes. Eu esperava que a mudança não perturbasse Charlie demais.
Jacob ainda ruminava nossa conversa truncada quando chegamos à casa de Charlie. Não falamos enquanto andávamos num passo humano rápido pela chuva. Meu pai esperava por nós; abriu a porta antes que batêssemos.
— Oi, meninos! Parece que já se passaram anos! Olhe só você, Nessie. Venha com o vovô! Eu juro que você cresceu uns quinze centímetros. E parece tão magrinha, Ness. — Ele me lançou um olhar zangado. — Não estão alimentando você direito por lá?
— É só um surto de crescimento — murmurei. — Oi, Sue — cumprimentei sobre o ombro dele.
O cheiro de frango, tomate, alho e queijo vinha da cozinha; provavelmente, era um cheiro bom para todo o mundo. Eu também senti cheiro de pinheiro fresco e espuma de embalagem.
Renesmee mostrou suas covinhas. Ela nunca falava na frente de Charlie.
— Bom, vamos sair do frio, crianças. Onde está meu genro?
— Recebendo amigos — disse Jacob, e então bufou. — Tem muita sorte de estar fora do circuito, Charlie. É só o que vou dizer.
Eu dei um soco de leve no rim de Jacob enquanto Charlie se encolhia.
— Ai — gemeu Jacob baixinho.
Bom, eu pensei que tivesse socado de leve.
— Na verdade, Charlie, eu tenho umas coisas para fazer.
Jacob me olhou, mas não disse nada.
— Atrasada em suas compras de Natal, Bells? Só tem alguns dias, sabe disso.
— É, compras de Natal — eu disse, pouco convincente.
Isso explicava a espuma. Charlie devia estar arrumando a velha decoração.
— Não se preocupe, Nessie — sussurrou ele no ouvido dela. — Eu compenso se sua mãe falhar.
Revirei os olhos para ele, mas na verdade eu não tinha me lembrado das festas de fim de ano.
— O almoço está na mesa — chamou Sue da cozinha. — Vamos, meninos.
— Até mais tarde, pai — eu disse, e troquei um rápido olhar com Jacob.
Mesmo que ele não pudesse deixar de pensar nisso perto de Edward, pelo menos não havia muito para ele compartilhar. Ele não fazia a menor ideia do que eu estava aprontando.
Não que eu fizesse alguma ideia tampouco, pensei comigo mesma enquanto entrava no carro.
As estradas estavam escorregadias e escuras, mas dirigir não me intimidava mais. Meus reflexos davam conta da tarefa e eu mal prestava atenção na estrada. O problema era evitar que minha velocidade chamasse atenção quando eu tinha companhia. Queria terminar a missão naquele dia, para ter o mistério resolvido e poder voltar à tarefa vital de aprender. Aprender a proteger alguns e a matar outros.
Estava ficando cada vez melhor com meu escudo. Kate não sentia necessidade de me motivar mais – não era difícil encontrar motivos para sentir raiva, agora que eu sabia que era essa a chave – e assim eu trabalhava principalmente com Zafrina. Ela estava satisfeita com minha extensão: eu era capaz de cobrir uma área de quase três metros por mais de um minuto embora isso me deixasse exausta. Nessa manhã, ela tentara descobrir se eu conseguia afastar completamente o escudo da minha mente. Eu não via a utilidade disso, mas Zafrina achava que ajudaria a me fortalecer, como se exercitasse os músculos da barriga e das costas em vez de apenas os dos braços. Você acaba conseguindo erguer mais peso quando todos os músculos estão mais fortes.
Eu não era muito boa naquilo. Só tive um vislumbre do rio na selva que ela tentava me mostrar.
Mas havia diferentes maneiras de me preparar para o que vinha e, restando apenas duas semanas, eu me preocupava que pudesse estar negligenciando a mais importante. Naquele dia corrigiria essa omissão.
Havia memorizado os mapas adequados e não tive problemas para encontrar o endereço que não existia on-line, o de J. Jenks. Meu próximo passo seria Jason Jenks, no outro endereço, o que Alice não me dera.
Dizer que aquele não era um bom bairro seria pouco. O carro mais discreto dos Cullen ainda era uma afronta naquela rua. Meu antigo Chevy teria parecido robusto ali. Como humana, eu teria trancado as portas e fugido dali o mais rápido que me fosse possível. Agora eu me sentia um pouco fascinada. Tentei imaginar Alice naquele lugar, mas não consegui.
Os prédios – todos de três andares, estreitos, meio inclinados, como se curvados pela chuva – eram, em sua maioria, construções antigas, divididas em vários apartamentos. Era difícil saber de que cor deveria ser a pintura que descascava. Tudo havia desbotado em tons de cinza. Alguns edifícios tinham um comércio no térreo: um bar sujo com as janelas pintadas de preto, uma loja de produtos esotéricos com mãos de néon e cartas de tarô brilhando espasmodicamente na porta, um estúdio de tatuagem e uma creche com fita adesiva segurando a janela da frente quebrada. Não havia lâmpadas dentro de nenhum dos estabelecimentos, embora lá fora estivesse bastante escuro para que os humanos precisassem de luz. Eu podia ouvir o murmúrio baixo de vozes ao longe; parecia da tevê.
Havia algumas pessoas por ali, duas andando pela chuva em direções opostas e uma sentada na pequena varanda de um escritório de advocacia vagabundo, cuja janela era coberta de compensado, lendo um jornal úmido e assoviando. O som era animado demais para o ambiente.
Fiquei tão confusa com o assovio despreocupado que de início não percebi que o prédio abandonado ficava exatamente onde deveria estar o endereço que eu procurava. Não havia números na placa dilapidada, mas o estúdio de tatuagem ao lado ficava a apenas dois números depois.
Parei junto ao meio-fio e deixei o carro em ponto morto por um segundo. Eu ia entrar nessa espelunca de uma maneira ou de outra, mas como fazer isso sem que o cara do assovio desse pela minha presença? Eu podia estacionar na rua seguinte e voltar... Mas devia haver mais testemunhas daquele lado. Quem sabe pelo telhado? Estava bem escuro para esse tipo de coisa?
— Ei, moça — chamou-me o homem do assovio.
Abri a janela do carona como se não conseguisse ouvi-lo.
O homem deixou o jornal de lado e suas roupas me surpreenderam, agora que eu podia vê-las. Por baixo do sobretudo esfarrapado ele estava um pouco bem vestido demais. Não havia brisa para me trazer o cheiro, mas o brilho de sua camisa vermelho-escura me pareceu de seda. Seu cabelo crespo preto estava embaraçado, mas a pele morena era lisa e perfeita, os dentes brancos e bonitos. Uma contradição.
— Talvez não seja bom estacionar o carro aqui, moça — disse ele. — Pode não estar aqui quando voltar.
— Obrigada pelo aviso — eu disse.
Desliguei o motor e saí. Talvez meu amigo do assovio pudesse me dar as respostas de que eu precisava mais rápido do que entrando no prédio. Abri minha grande sombrinha cinza – não que eu me importasse em proteger meu vestido de cashmere. Era uma coisa que uma humana faria.
O homem estreitou os olhos, tentando ver meu rosto na chuva, e então seus olhos se arregalaram. Ele engoliu em seco e ouvi seu coração se acelerar à medida que eu me aproximava.
— Estou procurando uma pessoa — comecei.
— Eu sou uma pessoa — propôs ele com um sorriso. — O que posso fazer por você, linda?
— Você é J. Jenks? — perguntei.
— Ah! — disse ele, e sua expressão mudou da expectativa para a compreensão. Ele se levantou e me examinou com os olhos semicerrados. — Por que está procurando J?
— Isso é problema meu. — Mesmo porque eu não tinha a menor ideia. — Você é J?
— Não.
Ficamos nos encarando por um longo momento enquanto seus olhos afiados subiam e desciam pelo vestido cinza-perolado que eu usava. Seu olhar finalmente parou no meu rosto.
— Você não parece uma cliente comum.
— Provavelmente porque não sou comum — admiti. — Mas preciso vê-lo o mais rápido possível.
— Não sei bem o que fazer — admitiu ele.
— Por que não me diz seu nome?
Ele sorriu.
— Max.
— É um prazer conhecê-lo, Max. Agora, por que não me diz o que entende por comum?
Seu sorriso se transformou numa careta.
— Bem, os clientes comuns de J não se parecem nada com você. Gente como você não se dá ao trabalho de vir ao escritório do centro. Vai direto para o escritório elegante dele no arranha-céu.
Repeti o outro endereço que eu tinha, em tom de pergunta.
— Sim, o lugar é esse — disse ele, desconfiado de novo. — Por que não foi até lá?
— Foi este o endereço que recebi... de uma fonte muito confiável.
— Se tivesse boas intenções, não estaria aqui.
Eu franzi os lábios. Eu nunca fui muito boa com blefes, mas Alice não havia me deixado muitas alternativas.
— Talvez eu não seja do bem.
A expressão dele era de desculpas.
— Olhe, moça...
— Bella.
— Certo. Bella. Escute, eu preciso desse emprego. J me paga muito bem para ficar por aqui o dia todo. Quero ajudá-la, sinceramente, mas... e é claro que estou falando por hipótese, está bem? Ou extraoficialmente, ou o que servir para você... mas se eu deixar passar alguém que possa metê-lo numa encrenca, eu perco o emprego. Entende minha situação?
Pensei por um minuto, mordendo o lábio.
— Nunca viu ninguém como eu aqui? Bom, mais ou menos como eu. Minha irmã é bem mais baixa e tem cabelo preto espigado.
— O J conhece sua irmã?
— Acho que sim.
Max ponderou por um momento. Eu sorri para ele e sua respiração falhou.
— Vou fazer o seguinte: vou ligar para J e descrever você a ele. Deixe que ele tome a decisão.
O que J. Jenks sabia? Será que minha descrição significaria alguma coisa para ele? Eram pensamentos inquietantes.
— Meu sobrenome é Cullen — eu disse a Max, perguntando-me se não estava passando informações demais.
Eu estava começando a ficar irritada com Alice. Será que eu realmente tinha de ficar tão no escuro? Ela podia ter me dito uma ou duas coisinhas...
— Cullen, entendi.
Eu o vi discar, pegando facilmente o número. Bom, eu poderia ligar eu mesma para J. Jenks, se não desse certo.
— Oi, J, é Max. Sei que não devia ligar para esse número, a não ser numa emergência...
É uma emergência?, ouvi fraquinho do outro lado da linha.
— Bom, não exatamente. Tem uma garota que quer ver você...
Não vejo emergência nenhuma nisso. Por que você não seguiu o procedimento?
— Não segui o procedimento normal porque ela não parece nada normal...
Ela é policial?!
— Não.
Você não pode ter certeza disso. Ela parece uma dos Kubarev....?
— Não... Deixe-me falar, está bem? Ela disse que você conhece a irmã dela ou coisa assim.
Não é provável. Como ela é?
— Ela é... — Seus olhos foram do meu rosto até meus sapatos, mostrando aprovação. — Bom, ela parece uma supermodelo, é o que parece. — Eu sorri e ele piscou para mim, depois continuou: — Um corpo de arrasar, branca feito algodão, cabelo castanho-escuro quase na cintura, precisa de uma boa noite de sono... Alguma coisa disso é familiar?
Não, não é. Não estou satisfeito que você tenha deixado que seu fraco por mulheres bonitas interrompesse...
— É, eu sou um idiota quando se trata de mulheres; bonitas, qual é o problema disso? Lamento ter incomodado você, cara. Esqueça.
— Nome — sussurrei.
— Ah, sim. Espere — disse Max. — Ela diz que o nome dela é Bella Cullen. Isso ajuda?
Houve um silêncio mortal, e então a voz do outro lado começou de repente a gritar, usando um monte de palavras que não se ouve com frequência do lado de fora das paradas de caminhoneiros. A expressão de Max mudou; as piadas desapareceram e seus lábios ficaram pálidos.
— Porque você não perguntou! — gritou Max de volta, em pânico.
Houve outra pausa enquanto J se recompunha.
Bonita e pálida?, perguntou J, um pouco mais calmo.
— Foi o que eu disse, não foi?
Bonita e pálida? O que aquele homem sabia de vampiros? Ele era um de nós? Eu não estava preparada para esse tipo de confronto. Trinquei os dentes. No que Alice tinha me metido?
Max esperou um minuto ouvindo outra rodada de insultos e instruções aos gritos, depois me fitou com olhos que estavam quase assustados.
— Mas você só recebe os clientes do centro às quintas... Tudo bem, tudo bem! Entendi. — E desligou o celular.
— Ele quer me ver? — perguntei animada.
Max tinha a expressão carregada.
— Poderia ter me dito que era uma cliente prioritária.
— Eu não sabia que era.
— Pensei que você fosse policial — admitiu ele. — Quer dizer, você não parece uma policial, mas age de uma forma estranha, linda.
Eu dei de ombros.
— Cartel de drogas? — conjecturou ele.
— Quem, eu? — perguntei.
— É. Ou seu namorado ou coisa assim.
— Não, desculpe. Não sou muito fã de drogas, nem meu marido. Drogas, tô fora, essas coisas.
Max praguejou baixo.
— Casada. Não tenho mesmo sorte.
Eu sorri.
— Máfia?
— Não.
— Contrabando de diamantes?
— Francamente! É com esse tipo de gente que você lida, Max? Talvez esteja precisando de um emprego novo.
Eu tinha de admitir, estava me divertindo um pouco. Eu não havia interagido com humanos, além de Charlie e Sue. Era divertido vê-lo se atrapalhar. Também fiquei satisfeita ao constatar como era fácil não o matar.
— Deve estar envolvida em alguma coisa grande. E ruim — refletiu ele.
— Não é nada disso.
— É o que todos dizem. Mas quem mais precisa de documentos? Ou pode pagar o preço de J por eles, eu deveria dizer. Não é da minha conta, seja como for — disse ele, depois murmurou a palavra casada de novo.
Ele me deu um endereço inteiramente novo, com orientações básicas, e então ficou observando, com olhos desconfiados e desapontados, enquanto eu me afastava.
Àquela altura, eu estava preparada para quase tudo – uma espécie de covil high-tech de vilão de James Bond me parecia adequado. Então pensei que Max devia ter me dado o endereço errado, como um teste. Ou talvez o covil fosse subterrâneo, debaixo desse centro comercial comum, aninhado contra uma encosta arborizada em um belo bairro residencial.
Parei numa vaga e olhei uma placa discreta e de bom gosto onde se lia: JASON SCOTT, ADVOGADO.
Por dentro, o escritório era bege com toques de verde-claro, inofensivo e comum. Não havia cheiro de vampiro, e isso me ajudou a relaxar. Nada a não ser cheiros humanos desconhecidos. Via-se um aquário engastado na parede, e uma recepcionista de beleza suave sentada atrás da mesa.
— Olá — ela me cumprimentou. — Como posso ajudá-la?
— Quero ver o Sr. Scott.
— Tem hora marcada?
— Não exatamente.
Ela deu um leve sorriso.
— Então pode demorar um pouco. Por que não se senta enquanto eu...
April!, uma voz exigente de homem gritou pelo telefone em sua mesa. Estou esperando a Sra. Cullen em breve. Eu sorri e apontei para mim. Mande-a entrar imediatamente. Entendeu? Não importa o que interromper. Pude ouvir mais alguma coisa em sua voz além da impaciência. Estresse, nervosismo.
— Ela acaba de chegar — disse April assim que pôde falar.
O quê? Mande-a entrar! O que está esperando?
— Agora mesmo, Sr. Scott! — Ela se levantou, agitando as mãos enquanto ia na frente pelo corredor curto, oferecendo-me café, chá ou qualquer outra coisa que eu quisesse.
— Aí está — disse ela ao me fazer entrar em um escritório imponente com mesa de madeira pesada e estante.
— Feche a porta depois de sair — ordenou uma voz estridente de tenor.
Examinei o homem atrás da mesa enquanto April fazia uma retirada apressada. Ele era baixo e careca, devia ter uns 55 anos e uma barriga volumosa. Usava gravata de seda vermelha com uma camisa listrada de azul e branco, e o blazer azul-marinho estava pendurado nas costas da cadeira. Ele também tremia, pálido, com um tom doentio, o suor porejando-lhe a testa, imaginei uma úlcera se agitando sob o pneu em sua cintura.
J se recuperou e levantou-se, vacilante, da cadeira. Estendeu a mão acima da mesa.
— Sra. Cullen. Que prazer enorme.
Fui até ele e apertei sua mão rapidamente. Ele se encolheu um pouco com o toque de minha pele fria, mas não pareceu particularmente surpreso com isso.
— Sr. Jenks. Ou prefere Scott?
Ele tremeu de novo.
— Como quiser, é claro.
— Que tal me chamar de Bella e eu chamá-lo de J?
— Como velhos amigos — ele concordou, passando um lenço de seda na testa. Indicou com um gesto que eu me sentasse e se acomodou em sua cadeira. — Devo perguntar: finalmente estou conhecendo a adorável esposa do Sr. Jasper?
Pensei nisso por um segundo. Então aquele homem conhecia Jasper e não Alice. Conhecia-o e parecia ter medo dele também.
— A cunhada dele, na verdade.
Ele franziu os lábios, como se estivesse procurando significados com o mesmo desespero que eu.
— Espero que o Sr. Jasper esteja bem de saúde — disse ele com cautela.
— Tenho certeza de que está com uma saúde excelente. Atualmente esta em férias prolongadas.
Isso pareceu esclarecer parte da confusão de J. Ele assentiu consigo mesmo e entrelaçou os dedos.
— Pois bem. Devia ter vindo ao escritório principal. Meus assistentes lá a teriam colocado diretamente em contato comigo... Não precisava passar por canais menos hospitaleiros.
Eu me limitei a assentir. Não sabia por que Alice me dera o endereço do gueto.
— Ah, bem, mas está aqui agora. O que posso fazer por você?
— Documentos — eu disse, tentando fazer com que minha voz desse a impressão de que eu sabia do que falava.
— Certamente — concordou J de pronto. — Estamos falando de certidões de nascimento, certidões de óbito, carteiras de habilitação, passaportes, cartões do seguro social...?
Respirei fundo e sorri. Eu devia muito a Max. E depois meu sorriso desapareceu. Alice havia me mandado ali por um motivo, e eu tinha certeza de que era para proteger Renesmee. Seu último presente para mim. O que ela sabia que eu precisava.
A única razão para Renesmee precisar de um falsificador era se precisasse fugir. E o único motivo para Renesmee fugir seria se perdêssemos.
Se Edward e eu fugíssemos com ela, não íamos precisar desses documentos. Eu sabia que Edward tinha como conseguir ou fazer ele mesmo carteiras de identidade, e tinha certeza de que ele conhecia maneiras de escapar sem elas. Podíamos correr com ela por milhares de quilômetros. Podíamos nadar com ela um oceano inteiro.
Se nós estivéssemos por perto para salvá-la.
E a questão de guardar segredo de Edward. Porque havia uma boa possibilidade de que tudo que ele sabia, Aro soubesse. Se perdêssemos, Aro certamente conseguiria a informação que desejava antes de destruir Edward.
Era como eu suspeitava. Não podíamos vencer. Mas devíamos ter uma boa chance de matar Demetri antes de perdermos, dando a Renesmee chance de fuga.
Meu coração imóvel parecia uma rocha em meu peito – um peso esmagador, toda a minha esperança desapareceu como névoa no sol. Meus olhos formigavam.
Quem eu encarregaria disso? Charlie? Mas ele era tão indefeso como humano. E como eu faria Renesmee chegar a ele? Ele não estaria perto daquela luta. Então, só restava uma pessoa. Na verdade, nunca houve mais ninguém.
Eu pensara tudo isso com tanta rapidez que J nem percebeu minha pausa.
— Duas certidões de nascimento, dois passaportes, uma carteira de habilitação — eu disse numa voz baixa e tensa.
Se ele percebeu a mudança em minha expressão, fingiu que não.
— Nomes?
— Jacob... Wolfe. E... Vanessa Wolfe. — Nessie parecia um bom apelido para Vanessa. Jacob se divertiria com a história do Wolfe.
A caneta dele arranhou rapidamente um bloco de papel.
— Nomes do meio?
— Basta colocar alguma coisa genérica.
— Como quiser. Idades?
— Vinte e sete para o homem, 5 para a menina.
Jacob podia passar por 27. Ele era imenso. E no ritmo que Renesmee crescia, era melhor estimar para cima. Ele podia ser o padrasto dela...
— Vou precisar de fotos, se preferir os documentos acabados — disse J interrompendo meus pensamentos. — O Sr. Jasper, em geral, preferia terminados ele mesmo.
Bom, isso explicava por que ele não sabia como Alice era.
— Espere — eu disse.
Essa foi sorte. Eu tinha várias fotos da família em minha carteira, e uma perfeita – Jacob segurando Renesmee nos degraus da varanda – tirada apenas um mês antes. Alice tinha me dado havia alguns dias...
Oh! Talvez não fosse tanta sorte afinal. Alice sabia que eu tinha aquela foto. Talvez ela até tenha tido algum leve lampejo de que eu precisaria dela antes de me dar.
— Aqui está.
J examinou a foto por um momento.
— Sua filha é muito parecida com a senhora.
Eu fiquei tensa.
— É mais parecida com o pai.
— Que não é este homem. — Ele tocou o rosto de Jacob.
Meus olhos se estreitaram e novas gotas de suor surgiram na cabeça brilhante de J.
— Não. Este é um amigo muito íntimo da família.
— Perdoe-me — murmurou ele, e a caneta começou a arranhar de novo. — Em quanto tempo precisa dos documentos?
— Posso recebê-los em uma semana?
— Este é um pedido urgente. Custará o dobro... Mas perdoe-me. Esqueci com quem estou falando.
Estava claro que ele conhecia Jasper.
— Basta me dar o valor.
Ele pareceu hesitar em dizer em voz alta, embora eu tivesse certeza, tendo lidado com Jasper, que devia saber que o preço não seria empecilho. Mesmo sem levar em consideração que existiam em todo o mundo gordas contas nos vários nomes dos Cullen, havia, escondido em toda a casa, dinheiro suficiente para manter um pequeno país por uma década; isso me lembrou que sempre havia cem anzóis nos fundos de qualquer gaveta da casa de Charlie. Eu duvidava de que alguém daria falta da pequena pilha que eu havia retirado nos meus preparativos para aquele dia.
J escreveu o valor na base do bloco.
Assenti calmamente. Eu tinha mais do que isso. Abri a bolsa de novo e contei o valor correto – eu tinha tudo preso com clipes em bolos de cinco mil dólares, então não demorei nada.
— Aqui está.
— Ah, Bella, não precisa me dar toda a soma agora. Costuma-se guardar a metade para garantir a entrega.
Eu sorri languidamente para o homem nervoso.
— Mas eu confio em você, J. Além disso, vou lhe dar uma bonificação... A mesma quantia quando receber os documentos.
— Isso não é necessário, eu lhe asseguro.
— Não se preocupe. — Não que eu pudesse levar comigo aquela quantia. — Então vamos nos encontrar aqui na semana que vem, no mesmo horário?
Ele me olhou, preocupado.
— Na verdade, prefiro fazer essas transações em lugares não relacionados com meus vários negócios.
— Claro. Sei que não estou fazendo isso da maneira esperada.
— Estou acostumado a não ter expectativas quando se trata da família Cullen. — Ele fez uma careta e rapidamente recompôs o rosto. — Vamos nos encontrar daqui a uma semana, às oito da noite, no restaurante The Pacifico? Fica em Union Lake e a comida é extraordinária.
— Perfeito. — Não que eu fosse acompanhá-lo no jantar. Ele na verdade não ia gostar muito se eu o fizesse.
Levantei-me e apertei sua mão de novo. Dessa vez ele não se retraiu. Mas parecia ter uma nova preocupação. Sua boca estava repuxada, as costas tensas.
— Você vai ter algum problema com esse prazo? — perguntei.
— Como? — Ele me olhou, pego de surpresa por minha pergunta. — O prazo? Ah, não. Problema nenhum. Certamente terei seus documentos prontos a tempo.
Teria sido bom ter Edward ali, para saber quais eram as verdadeiras preocupações de J. Suspirei. Guardar segredos de Edward já era bastante ruim; ter de ficar longe dele era ainda pior.
— Então o verei daqui a uma semana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!