29 de setembro de 2015

Capítulo 32 - Companhia

A enorme casa dos Cullen estava mais apinhada de hóspedes do que qualquer um julgaria poder ser confortável. Só deu certo porque nenhum dos visitantes dormia. A hora das refeições, porém, era arriscada. Nossos hóspedes cooperavam como lhes era possível. Deram a Forks e a La Push uma boa distância, só caçando fora do estado; Edward era um anfitrião gentil, emprestando seus carros quando necessário, sem pensar duas vezes. A transigência me deixava muito pouco à vontade, embora eu tentasse dizer a mim mesma que, de qualquer maneira, todos estariam caçando em algum lugar do mundo.
Jacob estava mais perturbado ainda. Os lobisomens existiam para evitar a perda de vidas humanas, e ali estava o assassinato desenfreado sendo tolerado pouco além das fronteiras das matilhas. Mas, nessas circunstâncias, com Renesmee em tamanho perigo, ele mantinha a boca fechada e com os olhos fuzilava o chão, em vez dos vampiros.
Eu estava impressionada com a tranquila acolhida dos vampiros visitantes a Jacob; os problemas que Edward previra nunca se materializaram. Jacob parecia mais ou menos invisível a eles, não era bem uma pessoa, mas também não era comida. Eles o tratavam como as pessoas que não gostam de animais tratam os bichinhos de estimação dos amigos.
Leah, Seth, Quil e Embry foram designados a correr com Sam por ora, e Jacob os teria acompanhado com satisfação, mas não suportava a ideia de ficar longe de Renesmee, e Renesmee estava ocupada fascinando a estranha coleção de amigos de Carlisle.
Repassamos a cena da apresentação de Renesmee ao clã Denali uma meia dúzia de vezes. Primeiro para Peter e Charlotte, que Alice e Jasper nos mandaram sem lhes dar qualquer explicação; como a maioria das pessoas que conheciam Alice, eles confiaram em suas instruções, apesar da falta de informações. Alice não lhes dissera nada sobre a direção que ela e Jasper estavam seguindo. Ela tampouco prometera vê-los novamente no futuro.
Peter e Charlotte nunca tinham visto uma criança imortal. Embora conhecessem a regra, sua reação negativa não foi tão forte quanto a dos vampiros Denali. A curiosidade os impeliu a permitir a “explicação” de Renesmee. E pronto. Agora eles estavam tão empenhados em testemunhar quanto a família de Tanya.
Carlisle havia mandado amigos da Irlanda e do Egito. O clã irlandês chegou primeiro, e foi surpreendentemente fácil convencê-los. Siobhan – uma mulher de forte presença cujo corpo imenso era ao mesmo tempo lindo e hipnotizante ao se movimentar em suaves ondulações era a líder, mas tanto ela quanto o parceiro, de expressão severa, Liam, estavam havia muito acostumados a confiar no julgamento da integrante mais nova do clã. A pequena Maggie, com os flexíveis cachos ruivos, não era fisicamente imponente como os outros dois, mas tinha um dom para saber quando estavam lhe dizendo uma mentira, e seus vereditos nunca eram contestados. Maggie declarou que Edward falava a verdade, e Siobhan e Liam aceitaram nossa história antes mesmo de tocar Renesmee.
Amun e os outros vampiros egípcios eram outra história. Mesmo depois de dois membros jovens de seu clã, Benjamin e Tia, terem sido convencidos pela explicação de Renesmee, Amun recusou-se a tocar nela e ordenou a seu clã que fosse embora. Benjamin – um vampiro estranhamente animado que mais parecia um menino e era totalmente confiante e totalmente descuidado ao mesmo tempo – convenceu Amun a ficar, com algumas ameaças sutis sobre desfazer sua aliança. Amun ficou, mas continuou se recusando a tocar Renesmee e não permitiu que sua parceira, Kebi, tampouco o fizesse.
Formavam um grupo improvável – embora os egípcios fossem tão parecidos, com o cabelo preto e a tez azeitonada, que facilmente passariam por uma família biológica. Amun era o membro mais antigo e o líder sem papas na língua. Kebi nunca se afastava de Amun mais do que sua sombra, e nunca a ouvi dizer uma única palavra. Tia, a parceira de Benjamin, também era uma mulher silenciosa, embora houvesse, quando falava, um grande discernimento e gravidade em tudo o que dizia. Ainda assim, era em torno de Benjamin que todos pareciam girar, como se ele tivesse um magnetismo invisível de que os outros dependiam para ter equilíbrio. Vi Eleazar fitar o rapaz com os olhos arregalados e imaginei que Benjamin tivesse um talento que atraía os outros para ele.
— Não é isso — disse-me Edward quando ficamos a sós naquela noite. — Seu dom é tão singular que Amun tem pavor de perdê-lo. Exatamente como havíamos planejado evitar que Aro tomasse conhecimento de Renesmee — ele suspirou — Amun vem mantendo Benjamin longe da atenção de Aro. Amun criou Benjamin, sabendo que ele seria especial.
— O que ele faz?
— Uma coisa que Eleazar nunca viu. Uma coisa de que eu nunca ouvi falar. Algo contra o qual nem seu escudo poderia agir. — Ele me dirigiu seu sorriso torto. — Ele pode influenciar os elementos... a terra, o vento a água e o fogo. Uma manipulação física verdadeira, sem ilusões mentais. Benjamin ainda está testando suas habilidades, e Amun tenta moldá-lo como uma arma. Mas você vê como Benjamin é independente. Ele não será usado.
— Você gosta dele — deduzi pelo seu tom de voz.
— Ele tem um senso muito claro do certo e do errado. Eu gosto da atitude dele.
A atitude de Amun era bem diferente, e ele e Kebi mantinham-se reservados, embora Benjamin e Tia estivessem se tornando bons amigos do clã Denali e do clã irlandês. Tínhamos esperança de que a volta de Carlisle atenuasse a tensão com Amun.
Emmett e Rose mandaram os amigos nômades de Carlisle que conseguiram localizar.
Garrett chegou primeiro – um vampiro alto e magro, com ávidos olhos rubi e cabelos compridos cor de areia, que ele mantinha amarrados atrás com uma tira de couro – e imediatamente ficou claro que se tratava de um aventureiro. Imaginei que poderíamos ter-lhe apresentado qualquer desafio e ele aceitaria, só para se testar. Rapidamente se entendeu com as irmãs Denali, fazendo perguntas intermináveis sobre seu estilo de vida incomum. Perguntei-me se o vegetarianismo era outro desafio que ele tentaria, só para ver se poderia conseguir.
Mary e Randall também vieram – já amigos, embora não tivessem viajado juntos. Eles ouviram a história de Renesmee e ficaram para testemunhar, como os outros. Como os Denali, refletiam sobre o que fariam se os Volturi não parassem para ouvir explicações. Os três nômades brincavam com a ideia de tomar nosso partido.
Evidentemente, Jacob ia ficando mais taciturno a cada novo acréscimo. Ele mantinha distância quando podia, e quando não podia resmungava com Renesmee que alguém precisaria providenciar um índice se esperasse que ele fosse guardar todos os nomes dos novos sanguessugas. Carlisle e Esme voltaram uma semana depois de partirem; Emmett e Rosalie alguns dias mais tarde, e todos nos sentimos melhor quando eles chegaram em casa. Carlisle trouxe mais um amigo, embora amigo pudesse não ser o termo certo. Alistair era um vampiro inglês misantropo que considerava Carlisle seu conhecido mais próximo, embora mal tolerasse mais de uma visita por século. Alistair preferia vagar só, e Carlisle havia lhe cobrado uma série de favores para levá-lo ali. Ele esquivava-se a qualquer companhia, e ficou claro que não tinha admiradores nos clãs reunidos.
O taciturno vampiro de cabelos escuros aceitou a palavra de Carlisle sobre a origem de Renesmee, recusando-se, como Amun, a tocar nela. Edward contou a Carlisle, a Esme e a mim que Alistair tinha medo de estar ali, mas estava mais temeroso de não saber as consequências. Ele desconfiava profundamente de qualquer autoridade, e portanto tinha uma suspeita natural dos Volturi. O que estava acontecendo agora parecia confirmar todos os seus temores.
— É claro que eles vão saber que eu estive aqui — ouvimos Alistair resmungar consigo mesmo no sótão, seu lugar preferido para ficar amuado. — A essa altura, não há como esconder isso de Aro. Séculos de fuga, é o que vai significar. Todos com quem Carlisle falou na última década estarão na lista deles. Nem acredito que me deixei envolver nessa confusão. Que bela maneira de tratar os amigos!
Mas se ele tivesse razão sobre ter de fugir dos Volturi, pelo menos tinha mais esperanças de fazer isso do que o restante de nós. Alistair era um rastreador, embora não tão preciso e eficiente quanto Demetri. Alistair só sentia um impulso evasivo na direção do que procurava. Mas o impulso seria suficiente para dizer a ele que direção tomar: a direção contrária à de Demetri.
E, então, chegou outro par de amigos inesperados – inesperados porque nem Carlisle nem Rosalie tinham conseguido entrar em contato com as Amazonas.
— Carlisle — a mais alta das duas mulheres muito altas e selvagens o cumprimentou quando chegaram.
As duas pareciam ter sido esticadas: braços e pernas compridos, dedos longos, tranças pretas longas e rostos compridos, com nariz comprido. Elas se vestiam com peles de animais: coletes e calças justas de couro, amarradas nas laterais com tiras também de couro. Não eram apenas suas roupas excêntricas que as faziam parecer selvagens, mas tudo nelas, dos olhos carmim inquietos aos movimentos repentinos velozes. Eu nunca havia conhecido vampiros menos civilizados.
Mas Alice as enviara, e essa era uma notícia no mínimo interessante. Por que Alice estava na América do Sul? Só porque ela vira que ninguém mais conseguiria entrar em contato com as Amazonas?
— Zafrina e Senna! Mas onde está Kachiri? — perguntou Carlisle. — Nunca vi vocês três separadas.
— Alice nos disse que precisávamos nos separar — respondeu Zafrina, com a voz grave e áspera que combinava com sua aparência selvagem. — É desagradável estarmos afastadas, mas Alice nos garantiu que vocês precisavam de nós aqui, enquanto ela precisava muito de Karachi em outro lugar. Foi só o que nos disse, além de que havia muita pressa...? — A declaração de Zafrina terminou em pergunta, e com o tremor de nervosismo que nunca cedia por mais que eu repetisse o gesto, eu trouxe Renesmee para conhecê-las.
Apesar da aparência feroz, elas ouviram com muita calma nossa história, depois permitiram que Renesmee provasse o argumento. Ficaram tão encantadas com Renesmee quanto os outros vampiros, mas eu não conseguia deixar de me preocupar ao observar seus movimentos rápidos e repentinos tão perto dela. Senna sempre estava ao lado de Zafrina, nunca falava, mas não eram como Amun e Kebi. As atitudes de Kebi pareciam obedientes; Senna e Zafrina eram mais como dois membros de um organismo – só que Zafrina era a porta-voz.
A notícia sobre Alice foi estranhamente reconfortante. Era evidente que ela estava em alguma missão oculta enquanto evitava o que Aro planejava para ela.
Edward ficou emocionado por ter as Amazonas conosco, porque Zafrina era enormemente talentosa; seu dom podia ser uma arma ofensiva muito perigosa. Não que Edward fosse pedir a Zafrina que ficasse do nosso lado na batalha, mas se os Volturi não parassem quando vissem nossas testemunhas, talvez parassem por um tipo de cena diferente.
— É uma ilusão muito realista — explicou Edward quando ficou claro que eu não conseguia ver nada, como sempre. Zafrina estava intrigada e maravilhada com minha imunidade, algo que ela nunca havia encontrado, adejava inquieta enquanto Edward descrevia o que eu não estava vendo. Os olhos de Edward se desfocaram um pouco enquanto ele continuava. — Ela pode fazer a maioria das pessoas ver apenas o que ela quer que vejam... Por exemplo, agora mesmo estou sozinho no meio de uma floresta tropical. É tão claro que eu poderia mesmo acreditar, a não ser pelo fato de que ainda sinto você em meus braços.
Os lábios de Zafrina se retorceram em sua versão de sorriso. Um segundo depois, os olhos de Edward entraram em foco de novo e ele sorriu.
— Impressionante — disse ele.
Renesmee estava fascinada com a conversa e estendeu a mão sem medo para Zafrina.
— Posso ver? — perguntou ela.
— O que gostaria de ver? — indagou Zafrina.
— O que mostrou a papai.
Zafrina assentiu e fiquei observando ansiosa os olhos de Renesmee fitarem o vazio. Um segundo depois, o sorriso deslumbrante de Renesmee iluminou seu rosto.
— Mais — exigiu ela.
Depois disso, foi difícil manter Renesmee longe de Zafrina e de seus lindos quadros. Eu me preocupava, porque tinha certeza de que Zafrina era capaz de criar imagens nada bonitas. Mas, pelos pensamentos de Renesmee, eu também pude ter as visões de Zafrina – eram tão nítidas quanto as lembranças de Renesmee, como se fossem reais – e assim julguei por mim mesma se eram adequadas ou não.
Embora não abrisse mão dela facilmente, eu tinha de admitir que era bom que Zafrina mantivesse Renesmee entretida. Eu precisava de minhas mãos. Tinha tanto o que aprender, física e mentalmente, e o tempo era muito pouco.
Minha primeira tentativa de aprender a lutar não foi boa. Edward me derrubou em dois segundos. Mas, em vez de me deixar lutar para me libertar – o que eu certamente poderia ter feito – ele saltou e se afastou de mim. Eu logo entendi que alguma coisa estava errada; ele estava imóvel como pedra, olhando o outro lado da campina onde treinávamos.
— Desculpe-me, Bella — disse ele.
— Eu estou bem — afirmei. — Vamos fazer de novo.
— Não posso.
— Como assim, não pode? Acabamos de começar.
Ele não respondeu.
— Escute, sei que não sou boa nisso, mas não posso ficar melhor se você não me ajudar.
Ele não disse nada. De brincadeira, saltei sobre ele. Ele não se defendeu nós dois caímos no chão. Ele se manteve imóvel enquanto eu pressionava os lábios em sua jugular.
— Ganhei — anunciei.
Seus olhos se estreitaram, mas ele não disse nada.
— Edward? Qual é o problema? Por que não quer me ensinar?
Um minuto inteiro se passou antes que ele falasse.
— Eu simplesmente não... suporto. Emmett e Rosalie sabem tanto quanto eu. Tanya e Eleazar devem saber mais. Peça a outra pessoa.
— Isso não é justo! Você é bom nisso. Você ajudou Jasper antes... Lutou com ele e todos os outros também. Por que não comigo? O que eu fiz de errado?
Ele suspirou, exasperado. Seus olhos estavam escuros, sem ouro nenhum para clarear o preto.
— Olhar você assim, analisá-la como um alvo. Ver todas as maneiras como posso matá-la... — Ele se encolheu. — Torna tudo real demais para mim. Não temos muito tempo, então não fará diferença quem é seu professor. Qualquer um pode lhe ensinar os fundamentos.
Eu fechei a cara. Ele tocou meu lábio inferior que fazia beicinho e sorriu.
— Além disso, é desnecessário. Os Volturi vão parar. Vamos fazê-los entender.
— E se não pararem? Eu preciso aprender.
— Encontre outro professor.
Essa não foi nossa última conversa sobre o assunto, mas eu não o demovi nem um milímetro de sua decisão.
Emmett estava mais do que disposto a ajudar, embora suas aulas me parecessem mais uma vingança por todas as quedas-de-braço perdidas. Se eu ainda pudesse ter hematomas, estaria roxa da cabeça aos pés. Rose, Tanya e Eleazar eram pacientes e me davam apoio. Suas aulas lembravam-me das instruções de luta de Jasper aos outros em junho passado, embora essas lembranças fossem indistintas e nebulosas. Alguns dos visitantes achavam minha educação divertida, e alguns até ofereciam ajuda. O nômade Garrett assumiu algumas rodadas – ele era um professor surpreendentemente bom, interagia com tanta facilidade com os outros, que me perguntei por que ele nunca havia encontrado um clã. Até lutei uma vez com Zafrina, enquanto Renesmee assistia, nos braços de Jacob. Aprendi vários truques, mas não pedi a ajuda dela de novo. Na verdade, embora eu gostasse muito de Zafrina e soubesse que ela não iria me ferir, eu morria de medo daquela mulher selvagem.
Aprendi muitas coisas com meus professores, mas tinha a sensação de meu conhecimento ainda era tremendamente básico. Não fazia ideia de quantos segundos resistiria a Alec e Jane. Só rezava para que fosse tempo suficiente para ajudar.
Cada minuto do dia em que não estava com Renesmee ou aprendendo a lutar eu estava no quintal dos fundos trabalhando com Kate, tentando estender meu escudo interno além do meu cérebro, para proteger outra pessoa. Edward me estimulava nesse treinamento. Sabia que ele esperava que eu encontrasse uma maneira de contribuir que me satisfizesse e ao mesmo tempo me mantivesse fora da linha de fogo.
Era muito difícil. Não havia onde me agarrar, nada sólido com que trabalhar. Eu só tinha meu desejo feroz de ser útil, de ser capaz de manter Edward, Renesmee e o maior número possível dos membros de minha família seguros comigo. Tentei repetidas vezes forçar o escudo nebuloso para fora, com um pequeno sucesso vez ou outra. Era como se eu estivesse lutando para esticar um elástico invisível – um elástico que mudava a qualquer momento da tangibilidade concreta para a fumaça imaterial.
Só Edward estava disposto a ser nossa cobaia – a receber choque após choque de Kate enquanto eu lutava sem competência nenhuma com o interior de minha mente. Trabalhávamos por horas seguidas a cada vez, e parecia que eu devia estar coberta de suor pelo esforço, mas é claro que meu corpo perfeito não me traía dessa maneira. Meu cansaço era inteiramente mental.
Matava-me que fosse Edward que tivesse de sofrer, meus braços inutilmente em volta dele enquanto ele se encolhia uma vez atrás da outra com a carga “baixa” de Kate. Tentei ao máximo esticar meu escudo em torno de nós; de vez em quando eu conseguia, e então voltava a fracassar.
Eu odiava aquele treino, e queria que Zafrina ajudasse, em vez de Kate. Então, só o que Edward teria de fazer era olhar as ilusões de Zafrina até que eu pudesse impedi-lo de ver. Mas Kate insistia sobre eu precisar de uma motivação melhor – e com isso ela se referia ao meu ódio ao ver a dor de Edward. Eu estava começando a duvidar de sua declaração no primeiro dia em que nos conhecemos – que não era sádica no uso de seu dom. Ela parecia estar se divertindo à minha custa.
— Ei — disse Edward animadamente, tentando esconder qualquer prova de sofrimento na voz. Qualquer coisa para evitar que eu quisesse treinar luta. — Essa mal foi uma picada. Bom trabalho, Bella.
Respirei fundo, tentando apreender exatamente o que fizera certo. Testei o elástico, lutando para forçá-lo a continuar sólido enquanto o estendia para longe de mim.
— De novo, Kate — grunhi entre os dentes trincados.
Kate colocou a palma da mão no ombro de Edward. Ele suspirou de alívio.
— Desta vez, nada.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Esse não foi baixo.
— Que bom — bufei.
— Prepare-se — ela me disse, estendendo mão para Edward de novo.
Dessa vez ele tremeu e um silvo baixo saiu por entre seus dentes.
— Desculpe! Desculpe! Desculpe! — entoei, mordendo o lábio. Por que eu não conseguia fazer isso direito?
— Está fazendo um trabalho maravilhoso, Bella — disse Edward, apertando-me contra o seu peito. — Você só está trabalhando nisso há alguns dias e já projeta esporadicamente. Kate, diga a ela como está se saindo bem.
Kate franziu os lábios.
— Não sei. Evidentemente, ela tem uma capacidade tremenda, e só estamos começando a explorá-la. Ela pode fazer melhor, eu tenho certeza. Só precisa de incentivo.
Eu a fitei, incrédula, meus lábios automaticamente recuando sobre os dentes. Como Kate podia pensar que me falta motivação com ela dando choques em Edward bem na minha frente?
Ouvi murmúrios da plateia que vinha amentando constantemente, à medida que eu treinava – só Eleazar, Carmen e Tanya no início; depois Garrett havia se aproximado; em seguida, Benjamim e Tia, Siobhan e Maggie, e agora até Alistair espiava de uma janela no terceiro andar. Os espectadores concordavam com Edward: achavam que eu estava me saindo bem.
— Kate... — disse Edward num tom de advertência enquanto um novo curso de ação ocorria a ela; mas Kate já estava em ação.
Ela disparou ao longo da curva do rio até onde Zafrina, Senna e Renesmee andavam devagar, a mão de Renesmee na de Zafrina enquanto elas trocavam imagens. Jacob as acompanhava, alguns passos atrás.
— Nessie — disse Kate (os recém-chegados haviam rapidamente adotado o apelido irritante) — gostaria de vir ajudar sua mãe?
— Não — eu disse, quase um rosnado.
Edward me abraçou, tentando me tranquilizar. Eu me livrei de seus braços assim que Renesmee voou pelo quintal até mim, com Kate, Zafrina e Senna atrás dela.
— De jeito nenhum, Kate — sibilei.
Renesmee estendeu a mão para mim e, automaticamente, abri os braços. Ela se enroscou em mim, colocando a cabeça na concavidade sob meu ombro.
— Mas, mamãe, eu quero ajudar — disse ela, num tom decidido.
Sua mão pousou em meu pescoço, reforçando seu desejo com imagens de nós duas juntas, uma equipe.
— Não — eu disse, recuando rapidamente. Kate, deliberadamente, dera um passo na minha direção, a mão estendida para nós.
— Fique longe de nós, Kate — eu a alertei.
— Não.
Ela começou a avançar. Sorria como uma caçadora acuando a presa.
Movi Renesmee de modo que ela se segurasse nas minhas costas, ainda recuando num passo que acompanhava o de Kate. Agora minhas mãos estavam livres, e se Kate quisesse que as mãos dela continuassem presas nos pulsos, era melhor manter distância.
Kate, provavelmente, não entendia, sem jamais ter conhecido a paixão de uma mãe pela filha. Ela não devia ter percebido o quanto já tinha ido longe demais. Eu estava tão furiosa que minha visão assumiu um estranho tom avermelhado e minha língua tinha gosto de metal em brasa. A força que em geral eu reprimia fluía em meus músculos, e eu sabia que podia esmagá-la até transformá-la em um pedregulho duro feito diamante se ela me forçasse a isso.
A raiva destacou cada aspecto de meu ser. Eu podia até sentir a elasticidade de meu escudo mais exatamente agora – sentir que não era tanto um elástico, mas uma camada, uma película fina que me cobria da cabeça aos pés. Com a raiva ondulando pelo meu corpo, eu o percebia melhor, tinha mais domínio sobre ele. Eu o estendi em torno de mim, projetando-o para fora, envolvendo Renesmee completamente nele, para o caso de Kate ultrapassar minha defesa.
Kate deu outro passo calculado para a frente, e um rosnado feroz raspou minha garganta e passou por meus dentes trincados.
— Cuidado, Kate — alertou Edward.
Kate deu outro passo, e então cometeu um erro que até uma inexperiente como eu podia reconhecer. A apenas um curto salto de mim ela desviou o olhar, passando sua atenção de mim para Edward.
Renesmee estava segura em minhas costas; eu me preparei para saltar.
— Pode ouvir alguma coisa de Nessie? — perguntou Kate a ele a voz calma e estável.
Edward disparou para o espaço entre nós, bloqueando meu trajeto até Kate.
— Não, absolutamente nada — respondeu ele. — Agora dê a Bella um tempo para se acalmar, Kate. Você não devia irritá-la desse jeito. Sei que ela não parece ter a idade que tem, mas só tem meses de idade.
— Não temos tempo para fazer isso com gentileza, Edward. Vamos precisar pressioná-la. Só temos algumas semanas, e ela tem o potencial para...
— Recue um minuto, Kate.
Kate franziu a testa, mas levou o aviso de Edward mais a sério do que o meu.
A mão de Renesmee estava em meu pescoço; ela estava se lembrando do ataque de Kate, mostrando-me que não houvera intenção de mal nenhum, que papai estava envolvido...
Isso não me apaziguou. O espectro de luz que eu via ainda parecia tingido de carmim. Mas eu estava mais controlada e podia ver a sabedoria das palavras de Kate. A raiva me ajudava. Eu aprenderia mais rápido sob pressão.
Isso não queria dizer que eu gostasse.
— Kate — grunhi.
Pousei a mão na parte inferior das costas de Edward. Ainda podia sentir meu escudo como um manto forte e flexível em torno de Renesmee e de mim. Eu o estendi mais um pouco, forçando-o em volta e Edward. Não havia sinal de falha no tecido elástico, nenhuma ameaça de rasgar. Eu arquejava com o esforço, e minhas palavras saíram ofegantes em vez de furiosas.
— De novo — eu disse a Kate. — Só Edward.
Ela revirou os olhos, mas avançou e colocou a palma da mão no ombro Edward.
— Nada — disse Edward. Ouvi o sorriso em sua voz.
— E agora? — perguntou Kate.
— Nada ainda.
— E agora? — Dessa vez, havia tensão em sua voz.
— Absolutamente nada.
Kate grunhiu e se afastou.
— Podem ver isso? — perguntou Zafrina em sua voz grave e selvagem, olhando fixamente para nós três. Ela falava com um sotaque estranho, as palavras ganhando intensidade em sílabas inesperadas.
— Não vejo nada que não devesse — disse Edward.
— E você, Renesmee? — perguntou Zafrina.
Renesmee sorriu para Zafrina e sacudiu a cabeça.
Minha fúria havia passado quase inteiramente, e eu trincava os dentes, arfando mais rápido enquanto forçava o escudo elástico; parecia ficar mais pesado quanto mais tempo eu o estendia. Ele puxava de volta, arrastando-se para dentro.
— Ninguém entre em pânico — alertou Zafrina ao pequeno grupo que me olhava. — Quero ver até que ponto ela pode estendê-lo.
Houve uma arfar de choque de todos os presentes – Eleazar, Carmen, Tanya, Garrett, Benjamin, Tia, Siobhan, Maggie – todos exceto Senna, que parecia preparada para o que Zafrina estava fazendo. Os olhos dos outros ficaram vazios, a expressão ansiosa.
— Levantem a mão quando recuperarem a visão — instruiu Zafrina. — Agora, Bella. Veja quantos você consegue incluir em seu escudo.
Minha respiração saiu numa baforada. Kate era a pessoa mais próxima de mim, depois de Edward e Renesmee, mas mesmo ela estava a uns três metros de distância. Eu tranquei o queixo e fiz força, tentando lançar a proteção resistente e teimosa àquela distância. Centímetro por centímetro, eu a impeli até Kate, lutando com a reação que puxava de volta a cada fração que eu conquistava. Enquanto eu trabalhava, olhava apenas a expressão ansiosa de Kate, e gemi de alívio quando seus olhos piscaram e ganharam foco. Ela levantou a mão.
— Fascinante! — murmurou Edward. — É como um vidro espelhado. Posso ler tudo o que eles estão pensando, mas eles não podem me alcançar por trás disso. E posso ouvir Renesmee, embora não pudesse quando eu estava de fora. Aposto que Kate agora pode me dar um choque, porque ela está sob o guarda-chuva. Mas ainda não posso ouvir você... Hummm. Como isso funciona? Eu me pergunto se...
Ele continuou a murmurar consigo mesmo, mas eu não podia ouvir as palavras. Cerrei os dentes, lutando para forçar o escudo até Garrett, que era quem estava mais perro de Kate. Sua mão se levantou.
— Muito bom — Zafrina me cumprimentou. — Agora...
Mas ela falara cedo demais; com um arquejo agudo, senti meu escudo se retrair como um elástico esticado demais, voltando num estalo à forma original. Renesmee, experimentando a cegueira que Zafrina havia conjurado para os outros, tremeu em minhas costas. Fatigada, lutei contra o elástico, forçando o escudo a incluída novamente.
— Posso descansar um minuto? — ofeguei.
Desde que me tornar vampira, não sentira necessidade de descanso uma única vez até aquele momento. Era enervante sentir-me tão exausta e tão forte ao mesmo tempo.
— Claro — disse Zafrina, e os espectadores relaxaram quando ela os deixou enxergar de novo.
— Kate — chamou Garrett enquanto os outros murmuravam e se afastavam um pouco, perturbados com o momento de cegueira; os vampiros não estavam acostumados a se sentir vulneráveis.
Garrett era o único imortal sem dons que parecia atraído a minhas sessões de treino. Perguntei-me qual seria a isca para o aventureiro.
— Eu não faria isso, Garrett — alertou Edward.
Garrett continuou caminhando na direção de Kate, apesar da advertência, os lábios franzidos com a curiosidade.
— Dizem que você pode derrubar um vampiro de costas.
— Sim — ela concordou. Depois, com um sorriso, agitou os dedos de brincadeira em sua direção. — Curioso?
Garrett deu de ombros.
— É algo que nunca vi. Parece um certo exagero...
— Talvez — disse Kate, o rosto sério de repente. — Talvez só funcione com os fracos e os jovens. Não sei bem. Mas você parece forte. Talvez possa resistir ao meu dom.
Ela estendeu a mão para ele, a palma voltada para cima, num convite claro. Seus lábios se retorceram, e eu tinha certeza de que sua expressão grave era uma tentativa de convencê-lo.
Garrett sorriu diante do desafio. Muito confiante, tocou a palma da mão dela com o indicador.
E depois, com um arquejo sonoro, seus joelhos se dobraram e ele caiu para trás. Sua cabeça atingiu um pedaço de granito com um estalo agudo. Foi chocante assistir. Meus instintos se retraíram ao ver um imortal incapacitado daquela maneira; era profundamente errado.
— Eu avisei — murmurou Edward.
As pálpebras de Garrett tremeram por alguns segundos e, então, seus olhos se arregalaram. Ele fitou a sorridente Kate, e um sorriso maravilhado iluminou seu rosto.
— Uau! — disse ele.
— Gostou dessa? — perguntou ela ceticamente.
— Eu não sou louco — ele riu, sacudindo a cabeça enquanto se ajoelhava devagar — mas isso foi qualquer coisa!
— É o que me dizem.
Edward revirou os olhos.
E, então, houve uma pequena comoção no jardim diante da casa. Ouvi a voz de Carlisle acima de um balbucio de vozes surpresas.
— Alice mandou vocês? — perguntou ele a alguém, a voz insegura, levemente contrariada.
— Outro hóspede inesperado?
Edward entrou correndo na casa e a maioria dos outros o imitou. Segui mais devagar, Renesmee ainda empoleirada em minhas costas. Eu daria um momento a Carlisle. Deixaria que ele recebesse os novos hóspedes, preparando-os para a ideia do que estava por vir.
Puxei Renesmee para os meus braços enquanto contornava a casa, com cautela, para entrar pela porta da cozinha, ouvindo o que não podia ver.
— Ninguém nos mandou — uma voz grave e sussurrada respondeu à pergunta de Carlisle.
Imediatamente recordei as vozes antigas de Aro e Caius, e fiquei paralisada na cozinha.
Eu sabia que a sala da frente estava lotada – quase todos tinham ido para lá ver os visitantes mais recentes – mas não havia ruído nenhum. Respiração superficial, era só.
A voz de Carlisle estava desconfiada quando perguntou:
— Então, o que os traz aqui agora?
— As notícias se espalham — respondeu uma voz diferente, tão suave quanto a primeira. — Ouvimos insinuações de que os Volturi estavam agindo contra vocês. E boatos de que vocês não iriam enfrentá-los sozinhos. Obviamente, os boatos eram verdadeiros. É uma reunião impressionante.
— Não estamos desafiando os Volturi — respondeu Carlisle num tom tenso. — Houve um mal-entendido, é só isso. Um mal-entendido muito grave, certamente, mas que esperamos esclarecer. O que vocês veem são testemunhas. Só precisamos que os Volturi ouçam. Nós não...
— Não nos importamos com o que eles dizem que vocês fizeram — interrompeu a primeira voz. — E não ligamos se infringiram a lei.
— Por mais extraordinária que tenha sido a infração — acrescentou segunda.
— Estamos esperando há um milênio e meio que a escória da Itália seja desafiada — disse a primeira. — Se há alguma chance de eles caírem, estaremos aqui para ver.
— Ou até para ajudar a derrotá-los — acrescentou a segunda. Eles falavam numa sequência suave, as vozes tão parecidas que ouvidos menos sensíveis suporiam que se tratava de uma só pessoa. — Se acharmos que vocês têm alguma chance de sucesso.
— Bella? — Edward me chamou com a voz severa. — Traga Renesmee aqui, por favor. Talvez devamos testar as declarações de nossos visitantes romenos.
Ajudava saber que provavelmente metade dos vampiros no outro cômodo viria em defesa de Renesmee se os romenos ficassem perturbados com ela. Eu não gostava de suas vozes, nem da ameaça sombria em suas palavras.
Quando entrei na sala, pude ver que não estava sozinha nessa avaliação. A maioria dos vampiros imóveis os encarava fixamente com olhos hostis, e alguns – Carmen, Tanya, Zafrina e Senna – sutilmente reposicionaram-se, em defensiva, entre os recém-chegados e Renesmee.
Os vampiros na porta eram magros e baixos, um de cabelos pretos e outro com o cabelo de um louro tão claro que parecia cinza-claro. Tinham a mesma pele pulverulenta dos Volturi, embora não parecesse ser tanto quanto a dos italianos. Mas eu não podia ter certeza disso, pois nunca vira os Volturi, a não ser com olhos humanos; não podia fazer uma comparação perfeita. Seus olhos estreitos e penetrantes eram vinho-escuro, sem a película leitosa. Eles usavam roupas pretas muito simples, que podiam passar por modernas, mas sugeriam modelos mais antigos.
O de cabelos pretos sorriu quando entrei em seu campo de visão.
— Ora, ora, Carlisle. Vocês foram mesmo desobedientes, não é?
— Ela não é o que você pensa, Stefan.
— E não nos importamos nem um pouco — respondeu o louro. — Como já dissemos.
— Então são bem-vindos para observar, Vladimir, mas não está em nosso planos desafiar os Volturi, como nós já dissemos.
— Então vamos só cruzar os dedos — começou Stefan.
— E esperar que tenhamos sorte — concluiu Vladimir.


No fim, tínhamos reunido dezessete testemunhas – os irlandeses, Siobhan, Liam e Maggie; os egípcios, Amun, Kebi, Benjamin e Tia; as Amazonas, Zafrina e Senna; os romenos, Vladimir e Stefan, e os nômades, Charlotte e Peter, Garrett, Alistair, Mary e Randall – para complementar nossa família de onze. Tanya, Kate, Eleazar e Carmen insistiam em contar como parte de nossa família.
Além dos Volturi, devia ser a maior reunião amistosa de vampiros maduros na história dos imortais. Todos estávamos começando a ter um pouco de esperança. Nem eu mesma consegui evitar isso. Renesmee havia conquistado tantos em tão pouco tempo! Os Volturi só tinham de ouvir por uma mínima fração de segundo...
Os últimos dois romenos sobreviventes – concentrados apenas em seu amargo ressentimento contra aqueles que tinham tomado seu império mil e quinhentos anos antes – acompanhavam tudo sem interferir. Eles não tocavam em Renesmee, mas não demonstravam aversão a ela. Pareciam misteriosamente deliciados com nossa aliança com os lobisomens. Observavam meu treinamento do escudo com Zafrina e Kate, viam Edward responder a perguntas mudas, olhavam Benjamin formar gêiseres de água do rio ou lufadas repentinas de vento do ar parado apenas com a mente, e seus olhos brilhavam com a esperança feroz de que os Volturi finalmente houvessem encontrado adversários à altura.
Não esperávamos as mesmas coisas, mas todos tínhamos esperança.

3 comentários:

  1. A a curiosidade esta alta 😮😰😶
    ☁☁☁😍☁☁☁
    ☁☁☁☁😃☁☁
    😊☁☁☁☁😏☁
    ☁☁😝☺☁😚☁
    😁☁☁☁☁😉☁
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    ☁☁☁☁~~LOL*

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  2. Serio eu queria muito q tivesse uma briga aposto q os volturi vao perder c tiver

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