29 de setembro de 2015

Capítulo 30 - Irresistível

Havia muito em que pensar.
Como eu iria conseguir ficar sozinha para pesquisar sobre J. Jenks e por que Alice queria que eu soubesse dele? Se a pista de Alice não tivesse nenhuma relação com Renesmee, o que eu poderia fazer para salvar minha filha? Como Edward e eu iríamos explicar tudo à família de Tanya de manhã? E se eles reagissem como Irina? E se tudo acabasse numa luta?
Eu não sabia lutar. Como eu aprenderia em apenas um mês? Haveria alguma chance de que fosse rápido o bastante para representar perigo para qualquer um dos Volturi? Ou eu estava condenada a ser totalmente inútil? Só mais uma recém-criada liquidada com facilidade?
Eu precisava de muitas respostas, mas não tinha chance de fazer as perguntas.
Querendo alguma normalidade para Renesmee, eu insistira em levá-la para nosso chalé na hora de dormir. Jacob ficava mais à vontade na forma de lobo no momento; era mais fácil lidar com o estresse quando ele se sentia preparado para uma luta. Queria poder sentir o mesmo, poder me sentir preparada. Ele corria pelo bosque, novamente em guarda.
Depois de Renesmee adormecer profundamente, eu a coloquei em sua cama e fui para a sala, a fim de fazer minhas perguntas a Edward. Pelo menos aquelas que eu podia fazer; um dos problemas mais difíceis era tentar esconder alguma coisa dele, mesmo com a vantagem de meus pensamentos indecifráveis.
Ele estava de costas para mim, olhando o fogo.
— Edward, eu...
Ele girou e atravessou a sala, sem que parecesse transcorrer tempo nenhum, nem mesmo a menor fração de segundo. Eu só tive tempo de registrar a expressão feroz em seu rosto antes de seus lábios pressionarem os meus e seus braços se fecharem à minha volta como vigas de aço.
Não pensei em minhas perguntas pelo resto daquela noite. Não precisei de muito tempo para entender o motivo de seu estado de espírito, muito menos para sentir exatamente o mesmo.
Eu estivera projetando anos de carência antes que pudesse organizar de alguma forma a paixão avassaladora que sentia fisicamente por ele. E, em seguida, séculos para desfrutá-la. Se tínhamos só um mês juntos... Bom, eu não via como suportar esse fim. No momento eu não podia deixar de ser egoísta. Só queria amá-lo ao máximo no tempo limitado que me fora dado.
Foi difícil me afastar dele quando o sol nasceu, mas tínhamos um trabalho a fazer, um trabalho que podia ser mais difícil do que a busca que o restante da família empreendia. Assim que me deixei pensar no que estava por vir, fiquei tensa; parecia que meus nervos estavam sendo esticados, cada vez mais.
— Queria que houvesse uma maneira de conseguirmos a informação de Eleazar antes de contarmos a eles sobre Nessie — murmurou Edward enquanto nos vestíamos às pressas no imenso closet, que me fazia lembrar de Alice mais do que eu queria no momento. — Só por precaução.
— Mas ele não entenderia a pergunta — concordei. — Acha que eles vão nos deixar explicar?
— Não sei.
Tirei Renesmee da cama, ainda adormecida, e a segurei tão perto que meu rosto se enterrou em seus cachos; seu cheiro doce, tão próximo, superava qualquer outro aroma.
Eu não podia perder um segundo que fosse do dia de hoje. Havia respostas que eu procurava, e não sabia quanto tempo Edward e eu teríamos a sós. Se corresse tudo bem com a família de Tanya, com sorte teríamos companhia por um longo tempo.
— Edward, você me ensina a lutar? — pedi a ele, atenta à sua reação, enquanto ele segurava a porta para mim.
Foi o que eu esperava. Ele ficou paralisado, depois seus olhos me percorreram com um significado profundo, como se me vissem pela primeira ou pela última vez. Seus olhos demoraram-se em nossa filha dormindo em meus braços.
— Se houver uma luta, não há muito que qualquer um de nós possa fazer — esquivou-se ele.
Mantive a voz tranquila.
— Você me deixaria totalmente indefesa?
Ele engoliu em seco convulsivamente, e a porta estremeceu, as dobradiças protestando, enquanto sua mão a apertava. Depois ele assentiu.
— Considerando dessa maneira... Creio que devemos pôr mãos à obra assim que pudermos.
Eu também concordei, e partimos para a grande casa. Não corremos.
Perguntei-me o que eu poderia fazer que, concretamente, fizesse alguma diferença. Eu era um pouquinho especial, à minha maneira – se ter um crânio extraordinariamente denso pudesse mesmo ser considerado especial. Teria alguma utilidade para ele?
— Na sua opinião, qual é a maior vantagem deles? Eles têm algum ponto fraco?
Edward não teve de perguntar para saber que eu falava dos Volturi.
— Alec e Jane são sua maior força de ataque — disse ele sem emoção, como se estivéssemos falando de um time de basquete. — Seus defensores raras vezes veem alguma ação.
— Porque Jane pode queimar você onde você estiver... pelo menos mentalmente. O que Alec faz? Você não disse uma vez que ele era ainda mais perigoso que Jane?
— Sim. De certo modo, ele é o antídoto de Jane. Ela faz você sentir a pior dor imaginável. Alec, por outro lado, faz com que você não sinta nada. Absolutamente nada. Às vezes, quando estão se sentindo generosos, os Volturi deixam que Alec anestesie a pessoa antes de executá-la. Se ela se rendeu ou agradou a eles de alguma forma.
— Anestesiar? Mas como isso pode ser mais perigoso do que Jane?
— Porque ele elimina completamente seus sentidos. Sem dor, mas também sem visão, nem audição, nem olfato. Privação sensorial completa. Você fica absolutamente só no escuro. Nem sente quando o queimam.
Estremeci. Era o melhor que podíamos esperar? Não ver nem sentir a morte quando ela viesse?
— Isso o torna tão perigoso quanto Jane — continuou Edward, na mesma voz neutra — no sentido de que ambos podem incapacitá-la, fazer de você um alvo indefeso. A diferença entre eles é como a diferença entre mim e Aro. Aro ouve a mente de uma pessoa de cada vez. Jane só pode machucar o objeto de seu foco. Eu posso ouvir todos ao mesmo tempo.
Senti frio ao perceber aonde ele queria chegar.
— E Alec pode incapacitar todos nós ao mesmo tempo? — sussurrei.
— Sim — disse ele. — Se ele usar seu dom contra nós, todos ficaremos cegos e surdos até que eles nos matem... Talvez eles simplesmente nos queimem, sem se incomodar em nos dilacerar primeiro. Ah, podemos tentar lutar, mas é mais provável que nos machuquemos uns aos outros do que atinjamos algum deles.
Andamos em silêncio por alguns segundos. Uma ideia se formava em minha mente. Não era muito promissora, mas era melhor que nada.
— Acha que Alec é um bom lutador? — perguntei. — Além do pode fazer, quero dizer. Se ele tivesse de lutar sem o dom. Pergunto-me se ele já tentou...
Edward me olhou bruscamente.
— No que está pensando?
Eu olhava à frente.
— Bom, provavelmente ele não pode fazer isso comigo, pode? Se ele for como Aro, Jane e você. Talvez... se ele nunca teve de se defender... e eu aprendesse alguns truques...
— Ele está com os Volturi há séculos — Edward me interrompeu, a voz de repente em pânico. Ele devia estar vendo em sua mente a mesma imagem que eu: os Cullen indefesos, pilares insensíveis no campo da morte – todos, menos eu. Eu seria a única que poderia lutar. — Sim, você, sem dúvida, é imune ao poder dele, mas ainda é uma recém-criada, Bella. Não posso fazer de você uma lutadora assim tão boa em apenas algumas semanas. Tenho certeza de que ele recebeu treinamento.
— Talvez sim, talvez não. É a única coisa que posso fazer, e ninguém mais pode. Mesmo que eu só consiga distraí-lo por algum tempo... Será que poderia durar tempo suficiente para dar uma chance aos outros?
— Por favor, Bella — disse Edward entredentes. — Não vamos falar disso.
— Seja razoável.
— Vou tentar lhe ensinar o que eu puder, mas, por favor, não me faça pensar em você se sacrificando para retardá-lo... — Ele engasgou e não terminou a frase.
Assenti. Eu guardaria meus planos para mim, então. Primeiro Alec, e depois, se eu milagrosamente tivesse a sorte de vencer, Jane. Se eu conseguisse só equilibrar as coisas – eliminar a vantagem ofensiva esmagadora – talvez então houvesse uma possibilidade... Minha mente disparava. E se eu fosse mesmo capaz de distraí-los, ou até de eliminá-los? Sinceramente, por que Jane ou Alec teriam tido a necessidade de aprender habilidades de batalha? Eu não podia imaginar a pequena e petulante Jane abrindo mão de sua vantagem, mesmo que fosse para aprender.
Se eu conseguisse matá-los, que diferença isso faria!
— Tenho de aprender tudo. O máximo que você puder enfiar em minha cabeça no próximo mês — murmurei.
Ele agiu como se eu não tivesse dito nada.
Quem seria o próximo, então? Era melhor eu ter meus planos em ordem para que não houvesse hesitação em meu ataque, se eu sobrevivesse ao de Alec. Tentei pensar em outra situação em que meu crânio espesso me daria vantagem. Eu não sabia o bastante sobre o que os outros faziam. Evidentemente, lutadores como o imenso Felix estavam além de minha capacidade. Eu só podia tentar dar a Emmett uma luta justa com ele. Não sabia muito sobre o restante da guarda Volturi, além de Demetri...
Meu rosto estava perfeitamente impassível enquanto eu pensava em Demetri. Sem dúvida, ele seria um lutador. Não havia outra maneira de ele ter sobrevivido por tanto tempo, sempre como ponta-de-lança de qualquer ataque. E ele devia sempre liderar, porque era o rastreador – o melhor rastreador do mundo, sem dúvida. Se houvesse um melhor, os Volturi já teriam trocado. Aro não se cercava do segundo escalão.
Se Demetri não existisse, então poderíamos fugir. Os que restassem entre nós, em todo caso. Minha filha, quente em meus braços... Alguém podia fugir com ela. Jacob ou Rosalie, quem restasse.
E... se Demetri não existisse, então Alice e Jasper poderiam ficar seguros para sempre. Fora isso o que Alice vira? Que parte de nossa família continuaria? Eles dois, pelo menos.
Poderia eu invejá-la por isso?
— Demetri... — eu disse.
— Demetri é meu — disse Edward numa voz dura e tensa.
Olhei para ele rapidamente, e vi que sua expressão se tornara violenta.
— Por quê? — sussurrei.
Ele não respondeu, de início. Estávamos no rio quando ele finalmente murmurou:
— Por Alice. A única forma de eu agradecer a ela os últimos cinquenta anos.
Então seus pensamentos estavam em linha com os meus. Ouvi as patas pesadas de Jacob no chão congelado. Em segundos, ele estava andando a meu lado, os olhos escuros pousados em Renesmee.
Assenti para ele, depois voltei às minhas perguntas. Havia tão pouco tempo!
— Edward, por que acha que Alice nos disse para perguntar a Eleazar sobre os Volturi? Ele esteve na Itália recentemente ou coisa assim? O que ele pode saber?
— Eleazar conhece tudo sobre os Volturi. Eu me esqueci de que você não sabia. Ele foi um deles.
Eu sibilei involuntariamente. Jacob grunhiu a meu lado.
— Como é? — perguntei, imaginando o belo homem de cabelos escuros de nosso casamento envolto num manto longo e cinzento.
O rosto de Edward agora era mais suave – ele sorria um pouco.
— Eleazar é uma pessoa muito gentil. Ele não estava inteiramente satisfeito com os Volturi, mas respeitava a lei e sua necessidade de ser mantida. Ele achava que estava trabalhando para o bem maior. E não lamenta o período que passou com eles. Mas, quando conheceu Carmen, descobriu seu lugar no mundo. Eles são muito parecidos, muito compassivos para dois vampiros. — Ele sorriu de novo. — Então conheceram Tanya e as irmãs, e nunca olharam para trás. Eles combinam bem com esse estilo de vida. Se não tivessem encontrado Tanya, imagino que teriam descoberto por conta própria uma maneira de viver sem sangue humano.
As imagens em minha mente se chocavam. Eu não conseguia combiná-las. Um soldado Volturi compassivo?
Edward olhou para Jacob e respondeu a uma pergunta silenciosa.
— Não, ele não era um dos guerreiros, por assim dizer. Tinha um dom que os Volturi achavam conveniente.
Jacob deve ter feito a pergunta óbvia.
— Ele tinha uma percepção instintiva dos dons dos outros... As habilidades extras que alguns vampiros têm — disse-lhe Edward. — Ele podia dar a Aro uma ideia geral do que determinado vampiro era capaz, bastando que se aproximasse dele. Isso era útil quando os Volturi entravam em batalha. Ele podia alertá-los se alguém no grupo oposto tivesse uma habilidade que lhes pudesse trazer problemas. Isso era raro; era preciso uma habilidade e tanto para criar algum inconveniente para os Volturi por um instante. Com mais frequência, o alerta daria a Aro a chance de salvar alguém que poderia ser útil a ele. O dom de Eleazar funciona com humanos também, até certo ponto. Mas, como ele precisa se concentrar muito, porque a capacidade latente é muito nebulosa, Aro o fazia testar as pessoas que queriam se juntar a eles, para ver se tinham algum potencial. Aro lamentou vê-lo ir embora.
— E o deixaram ir? — perguntei. — Simples assim?
Seu sorriso agora ficou mais sombrio, meio torto.
— Não se presume que os Volturi sejam os vilões, como parecem a você. Eles são a fundação de nossa paz e civilização. Cada membro da guarda escolhe servi-los. Dá muito prestígio; todos têm orgulho de estar lá, não são obrigados a isso.
Olhei mal-humorada para o chão.
— Eles só são considerados horrendos e cruéis pelos criminosos, Bella.
— Nós não somos criminosos.
Jacob bufou, concordando.
— Eles não sabem disso.
— Acha realmente que podemos fazê-los parar e ouvir?
Edward hesitou por um instante mínimo, e deu de ombros.
— Se encontrarmos um número suficiente de amigos que possam ficar ao nosso lado. Talvez.
Se. De repente eu senti a urgência do que tínhamos pela frente. Edward e eu começamos a nos movimentar mais rápido, partindo numa corrida. Jacob nos alcançou rapidamente.
— Tanya não deve demorar muito — disse Edward. — Precisamos estar preparados.
Mas como nos preparar? Nós organizamos e reorganizamos, pensamos e repensamos. Renesmee à plena vista? Ou escondida de início? Jacob na sala? Ou do lado de fora? Ele disse à matilha que ficasse por perto, mas invisível. Deveria ele fazer o mesmo?
No final, Renesmee, Jacob – de novo em sua forma humana – e eu ficamos à espera na sala de jantar, fora do campo de visão de quem estivesse porta de entrada, sentados à grande mesa polida. Jacob me deixou segurar Renesmee; ele queria espaço para o caso de ter de se metamorfosear rapidamente.
Embora eu estivesse feliz por tê-la em meus braços, isso fazia com que eu me sentisse inútil. Lembrava-me de que, numa luta com vampiros maduros, eu não passava de um alvo fácil; eu não precisava de minhas mãos livres. Tentei me lembrar de Tanya, Kate, Carmen e Eleazar no casamento. Seus rostos eram obscuros em minhas lembranças mal iluminadas. Eu só sabia que eram bonitos: duas louras e dois morenos. Não conseguia lembrar se havia alguma gentileza em seus olhos.
Edward estava imóvel junto à vidraça dos fundos, olhando a porta da frente. Não parecia ver a sala diante de si. Ouvíamos os carros zunindo pela rodovia, nenhum deles reduzindo a velocidade.
Renesmee se aninhou em meu pescoço, a mão em meu rosto, mas não vinha nada em minha mente. Ela não tinha imagens para o que sentia agora.
— E se eles não gostarem de mim? — ela sussurrou, e nossos olhos se voltaram para seu rosto.
— É claro que vão... — Jacob começou a dizer, mas eu o silenciei com um olhar.
— Eles não entendem você, Renesmee, porque nunca viram nada parecido — eu disse a ela, sem querer lhe fazer promessas que poderiam não se cumprir. — O problema é fazê-los entender.
Ela suspirou, e em minha mente lampejaram imagens de todos nós em uma única explosão. Vampiros, humanos, lobisomens. Ela não se encaixava em nenhum deles.
— Você é especial, e isso não é ruim.
Ela sacudiu a cabeça, discordando. Pensou em nossos rostos tensos e disse:
— A culpa é minha.
— Não — Jacob, Edward e eu dissemos exatamente no mesmo momento, mas antes que pudéssemos argumentar ouvimos o som que esperávamos: o motor de um carro reduzindo a velocidade na rodovia, os pneus passando do asfalto para a terra macia.
Edward correu para ficar à espera perto da porta. Renesmee escondeu o rosto em meu cabelo. Jacob e eu nos olhamos por sobre a mesa, o desespero em nossos rostos.
O carro passou rapidamente pelo bosque, mais rápido do que Charlie ou Sue. Nós o ouvimos entrar na campina e parar junto à varanda da frente. Quatro portas se abriram e se fecharam. Eles não falaram ao se aproximar da porta. Edward a abriu antes que pudessem bater.
— Edward! — disse, entusiasmada, uma voz de mulher.
— Olá, Tanya. Kate, Eleazar, Carmen.
Três cumprimentos murmurados.
— Carlisle falou que precisava conversar conosco imediatamente — disse a primeira voz, Tanya. Eu podia perceber que estavam todos ainda do lado fora. Imaginei Edward na porta, bloqueando a entrada. — Qual é o problema? Aborrecimentos com os lobisomens?
Jacob revirou os olhos.
— Não — disse Edward. — Nossa trégua com os lobisomens está mais forte que nunca.
Uma mulher riu.
— Não vai nos convidar a entrar? — perguntou Tanya. E então caminhou, sem esperar uma resposta. — Onde está Carlisle?
— Carlisle teve de sair.
Houve um curto silêncio.
— O que está havendo, Edward? — perguntou Tanya.
— Se puder me conceder o benefício da dúvida por alguns minutos — respondeu ele — tenho algo difícil de explicar e vou precisar que vocês sejam receptivos até que entendam.
— Carlisle está bem? — uma voz de homem perguntou ansiosamente. Eleazar.
— Nenhum de nós está muito bem, Eleazar — disse Edward, e então afagou alguma coisa, talvez o ombro de Eleazar. — Mas fisicamente Carlisle está bem.
— Fisicamente? — perguntou Tanya. — O que quer dizer?
— Quero dizer que toda a minha família corre um grave risco. Mas, antes que eu explique, peço que me prometam uma coisa. Ouçam tudo o que eu disser antes de reagir. Eu imploro que me ouçam.
Um silêncio mais longo recebeu seu pedido. Durante o silêncio tenso, Jacob e eu nos fitamos sem dizer nada. Seus lábios castanho-avermelhados estavam pálidos.
— Estamos ouvindo — disse Tanya por fim. — Vamos ouvir tudo antes de julgar.
— Obrigado, Tanya — agradeceu Edward com fervor. — Não iríamos envolver vocês nisso se tivéssemos alternativa.
Edward se moveu. Ouvimos quatro conjuntos de passos porta adentro. Alguém farejou.
— Eu sabia que havia lobisomens envolvidos — murmurou Tanya.
— Sim, e estão do nosso lado. De novo.
O lembrete silenciou Tanya.
— Onde está sua Bella? — perguntou umas das vozes de mulher. — Como está ela?
— Ela estará conosco em breve. Está bem, obrigado. Está se adaptando à imortalidade com uma finesse impressionante.
— Fale-nos do perigo, Edward — disse Tanya em voz baixa. — Vamos ouvir e estaremos do seu lado, que é o nosso lugar.
Edward respirou fundo.
— Gostaria que primeiro testemunhassem por si mesmos. Escutem outro cômodo. O que estão ouvindo?
Fez-se silêncio, depois houve movimento.
— Só ouçam primeiro, por favor — pediu Edward.
— Um lobisomem, imagino. Posso ouvir seu coração — disse Tanya.
— O que mais? — perguntou Edward. Houve uma pausa.
— O que é essa palpitação? — perguntou Kate, ou Carmen. — É... uma espécie de ave?
— Não, mas lembre-se do que está ouvindo. Agora, que cheiro estão sentindo? Além do do lobisomem.
— Há um humano aqui? — sussurrou Eleazar.
— Não — discordou Tanya. — Não é humano... mas... mais perto do humano que os outros cheiros daqui. O que é isso, Edward? Não acho que tenha sentido essa fragrância antes.
— Certamente não sentiu, Tanya. Por favor, por favor, lembrem-se de que se trata de algo inteiramente novo para vocês. Deixem de lado as ideias preconcebidas.
— Eu lhe prometi que ouviria, Edward.
— Tudo bem, então. Bella? Traga Renesmee, por favor.
Minhas pernas pareciam estranhamente entorpecidas, mas eu sabia que a sensação estava toda em minha cabeça. Obriguei-me a não me refrear, a não me movimentar lentamente, enquanto me levantava e andava os poucos passos até a esquina da sala. O calor do corpo de Jacob ardia atrás de mim enquanto ele seguia de perto os meus passos.
Dei um passo para a sala maior e então parei, incapaz de me obrigar a avançar. Renesmee respirou fundo e espiou por baixo de meu cabelo, os ombrinhos rígidos, esperando uma rejeição.
Pensei estar preparada para a reação deles. Para acusações, para gritos, para a imobilidade de seu estresse profundo.
Tanya recuou quatro passos, os cachos vermelhos tremendo, como um humano confrontado com uma cobra venenosa. Kate saltou até a porta te e se apoiou na parede. Um silvo de choque saiu por seus dentes trincados. Eleazar se lançou na frente de Carmen, agachando-se, numa atitude protetora.
— Ah, por favor — ouvi Jacob queixar-se a meia voz.
Edward pôs o braço em volta de mim e de Renesmee.
— Vocês prometeram ouvir — lembrou ele.
— Algumas coisas não podem ser ouvidas! — exclamou Tanya. — Como pôde, Edward? Sabe o que isso significa?
— Temos de sair daqui — disse Kate com ansiedade, a mão na maçaneta.
— Edward... — Eleazar parecia não ter palavras.
— Esperem — pediu Edward, a voz agora um pouco mais dura. — Lembrem-se do que estão ouvindo, do cheiro que estão sentindo. Renesmee não é o que vocês pensam.
— Não há exceções a essa regra, Edward — rebateu Tanya.
— Tanya — disse Edward bruscamente — você pode ouvir o coração dela batendo! Pare e pense no que isso significa.
— O coração dela batendo? — sussurrou Carmen, espiando por trás do ombro de Eleazar.
— Ela não é uma criança totalmente vampira — respondeu Edward, dirigindo sua atenção para a expressão menos hostil de Carmen. — Ela é parte humana.
Os quatro vampiros o fitaram como se ele falasse uma língua que nenhum deles conhecia.
— Ouçam-me. — A voz de Edward mudou para um tom aveludado de persuasão. — Renesmee é única. Eu sou o pai dela. Não o seu criador... mas o pai biológico.
A cabeça de Tanya sacudia, um movimento mínimo. Ela não parecia estar ciente disso.
— Edward, não pode esperar que nós... — começou Eleazar.
— Me dê outra explicação possível, Eleazar. Você pode sentir o calor do corpo dela no ar. O sangue corre em suas veias, Eleazar. Você pode sentir o cheiro.
— Como? — sussurrou Kate.
— Bella é a mãe biológica — disse-lhe Edward. — Ela concebeu e deu à luz Renesmee enquanto ainda era humana. Isso quase a matou. Fui obrigado a injetar veneno em seu coração para salvá-la.
— Nunca ouvi falar numa coisa assim — disse Eleazar. Seus ombros ainda estavam rígidos, a expressão, fria.
— As relações físicas entre vampiros e humanos não são comuns — respondeu Edward com um toque de humor negro na voz. — Os sobreviventes humanos desses encontros são ainda menos comuns. Não concordam, primas?
Tanto Kate quanto Tanya o olharam de cara fechada.
— Ora, vamos, Eleazar. Sem dúvida, você pode ver a semelhança.
Foi Carmen quem respondeu às palavras de Edward. Ela contornou Eleazar, ignorando seu alerta semiarticulado, e andou com cuidado para se colocar bem à minha frente. Inclinou-se levemente, olhando com atenção o rosto de Renesmee.
— Você parece ter os olhos de sua mãe — disse ela numa voz calma e baixa — mas o rosto é de seu pai.
E, então, como se não pudesse evitar sorriu para Renesmee.
O sorriso de resposta de Renesmee foi deslumbrante. Ela tocou meu rosto sem desviar os olhos de Carmen. Imaginou tocar o rosto de Carmen, perguntando-se se haveria algum problema.
— Importa-se se Renesmee lhe falar? — perguntei a Carmen. Eu ainda estava estressada demais para que minha voz parecesse mais do que um sussurro. — Ela tem um dom para explicar as coisas.
Carmen ainda sorria para Renesmee.
— Você fala, pequenininha?
— Sim — respondeu Renesmee em seu impressionante tom de soprano. Toda a família de Tanya se retraiu ao som de sua voz, exceto Carmen. — Mas posso lhe mostrar mais do que posso falar.
Ela colocou a mão gordinha no rosto de Carmen. Carmen enrijeceu como se tivesse sido atingida por um choque elétrico. Eleazar estava ao seu lado num instante, as mãos em seus ombros como se fosse puxá-la para longe.
— Espere — disse Carmen sem fôlego, os olhos fixos nos de Renesmee.
Renesmee “mostrou” a Carmen sua explicação por um longo tempo.
O rosto de Edward estava concentrado enquanto ele observava com Carmen, e eu desejei poder ouvir o que ele ouvia. Jacob mudou o peso do corpo com impaciência atrás de mim, e eu sabia que ele desejava o mesmo.
— O que Nessie está mostrando a ela? — grunhiu ele.
— Tudo — murmurou Edward.
Mais um minuto se passou e Renesmee baixou a mão do rosto de Carmen. Ela sorriu, cativante, para a vampira perplexa.
— Ela é mesmo sua filha, olhe para isso! — sussurrou Carmen, voltando seus olhos topázio arregalados para Edward. — Um dom tão nítido! Só podia ter vindo de um pai muito talentoso.
— Acredita no que ela lhe mostrou? — perguntou Edward, a expressão intensa.
— Sem dúvida — disse Carmen simplesmente.
O rosto de Eleazar estava rígido de aflição.
— Carmen!
Carmen tomou as mãos dele nas suas e as apertou.
— Por mais impossível que pareça, Edward não falou nada além da verdade. Deixe que a criança lhe mostre.
Carmen puxou Eleazar para mais perto de mim e assentiu para Renesmee.
— Mostre a ele, mi querida.
Renesmee sorriu, claramente deliciada com a aceitação de Carmen, e tocou de leve a testa de Eleazar.
— Ay caray! — cuspiu ele, e afastou-se dela bruscamente.
— O que ela fez com você? — perguntou Tanya, chegando mais perto com cautela.
Kate também avançou um pouco.
— Ela só está tentando lhe mostrar o lado dela da história — disse-lhe Carmen numa voz tranquilizadora.
Renesmee franziu a testa com impaciência.
— Observe, por favor — ela ordenou a Eleazar. Esticou a mão para ele e então deixou alguns centímetros entre seus dedos e o rosto dele, esperando.
Eleazar olhou-a com desconfiança e em seguida para Carmen, em busca de ajuda. Ela assentiu, estimulando-o. Eleazar respirou fundo e se inclinou para mais perto, até que sua testa tocasse a mão dela novamente.
Ele estremeceu no início, mas dessa vez manteve-se parado, os olhos fechados, concentrado.
— Ahh! — ele suspirou, quando os olhos reabriram alguns minutos depois. — Entendo.
Renesmee sorriu para ele. Ele hesitou, e então devolveu um sorriso levemente indeciso.
— Eleazar? — perguntou Tanya.
— É tudo verdade, Tanya. Esta não é uma criança imortal. Ela é meio humana. Venha. Veja por si mesma.
Em silêncio, Tanya assumiu seu lugar cautelosamente na minha frente, e depois Kate, as duas demonstrando surpresa com a primeira imagem que lhes veio com o toque de Renesmee. Mas em seguida, como Carmen e Eleazar, elas pareceram completamente conquistadas assim que acabou.
Olhei para o rosto tranquilo de Edward, perguntando-me se podia ser assim tão fácil. Seus olhos dourados estavam claros, não havia sombra nele. Isso não era nenhuma ilusão, então.
— Obrigado por ouvirem — disse ele em voz baixa.
— Mas você nos alertou de um grave risco — disse Tanya. — Não diretamente desta criança, pelo que vejo, mas certamente dos Volturi. Como eles descobriram sobre ela? Quando eles virão?
Não foi surpresa que ela compreendesse rapidamente. Afinal, o que poderia ser uma ameaça para uma família tão forte como a minha? Só os Volturi.
— Quando Bella viu Irina naquele dia nas montanhas — explicou Edward — ela estava com Renesmee.
Kate sibilou, os olhos estreitando-se em fendas.
— Irina fez isso? Com você? Com Carlisle? Irina?
— Não — sussurrou Tanya. — Outra pessoa...
— Alice a viu procurar os Volturi — disse Edward.
Perguntei-me se os outros perceberam o modo como ele estremeceu um pouco quando falou o nome de Alice.
— Como Irina pôde fazer isso? — perguntou Eleazar a ninguém em particular.
— Imagine se você tivesse visto Renesmee à distância. Se não tivesse esperado por nossa explicação.
Os olhos de Tanya endureceram.
— Não importa o que ela tenha pensado... Vocês são nossa família.
— Não há nada que possamos fazer agora sobre a decisão de Irina. É tarde demais. Alice nos deu um mês.
Tanya e Eleazar inclinaram a cabeça. A testa de Kate se franziu.
— Tanto tempo? — perguntou Eleazar.
— Todos eles estão vindo. Isso requer alguns preparativos.
Eleazar arquejou.
— A guarda toda?
— Não só a guarda — disse Edward, o queixo tenso. — Aro, Caius, Marcus. Até as esposas.
O choque vidrou-se nos olhos de todos.
— Impossível — disse Eleazar monotonamente.
— Eu teria dito o mesmo dois dias atrás — disse Edward.
Eleazar fechou a cara e quando falou foi quase um grunhido.
— Mas isso não faz nenhum sentido. Por que eles colocariam a si e às esposas em perigo?
— Não faz sentido desse ângulo. Alice disse que havia mais nisso do que só a punição pelo que eles pensam que fizemos. Ela achou que você poderia nos ajudar.
— Mais do que punição? Mas o que mais pode haver? — Eleazar começou a andar, indo para a porta e voltando como se estivesse sozinho, as sobrancelhas franzidas enquanto fitava o chão.
— Onde estão os outros, Edward? Carlisle, Alice e os outros? — perguntou Tanya.
A hesitação de Edward foi quase imperceptível. Ele respondeu a parte da pergunta apenas.
— Procurando amigos que possam nos ajudar.
Tanya se inclinou para ele, estendendo as mãos.
— Edward, não importa quantos amigos possa reunir, não podemos ajudá-los a vencer. Só podemos morrer com vocês. Você deve saber disso. É claro que talvez nós quatro mereçamos isso, depois do que Irina fez, depois de termos decepcionado vocês no passado... por causa dela também.
Edward sacudiu a cabeça rapidamente.
— Não estamos pedindo que lutem e morram conosco, Tanya. Você sabe que Carlisle jamais pediria isso.
— Então o que é, Edward?
— Queremos testemunhas. Se pudermos fazer com que eles parem, só por um momento. Se nos deixarem explicar... — Ele tocou o rosto de Renesmee; ela pegou a mão dele e a colocou em sua pele. — É difícil duvidar de nossa história quando se vê por si mesmo.
Tanya assentiu devagar.
— Acha que o passado dela vai importar muito a eles?
— Só como uma previsão de seu futuro. A questão da restrição era para nos proteger da exposição, dos excessos de crianças que não podiam ser domadas.
— Eu não sou perigosa — interveio Renesmee. Ouvi sua voz clara e alta com ouvidos novos, imaginando como soava aos outros. — Nunca machuquei vovô, nem Sue, nem Billy. Eu adoro os humanos. E as pessoas-lobo, como o meu Jacob. — Ela soltou a mão de Edward para afagar o braço de Jacob.
Tanya e Kate trocaram um rápido olhar.
— Se Irina não tivesse vindo tão cedo — refletiu Edward — podíamos ter evitado tudo isso. Renesmee cresce a um ritmo sem precedentes. Quando o mês chegar ao fim, ela terá alcançado mais meio ano de desenvolvimento.
— Bom, isso é algo que certamente podemos testemunhar — disse Carmen num tom decidido. — Podemos jurar que vimos nós mesmos seu amadurecimento. Como os Volturi podem ignorar essa evidência?
— Sim, como? — murmurou Eleazar, mas ele não tirou os olhos do chão e continuou andando como se não estivesse prestando atenção em nada.
— Sim, podemos ser suas testemunhas — disse Tanya. — Certamente. Vamos considerar o que mais podemos fazer.
— Tanya — protestou Edward, ouvindo mais em seus pensamentos do que havia em suas palavras — não esperamos que lutem conosco.
— Se os Volturi não quiserem ouvir nosso testemunho, não podemos simplesmente ficar parados — insistiu Tanya. — É claro que estou falando por mim.
Kate bufou.
— Duvida tanto assim de mim, irmã?
Tanya abriu um sorriso largo para ela.
— É uma missão suicida, afinal.
Kate abriu um sorriso e então deu de ombros, indiferente.
— Estou dentro.
— Eu também farei o que puder para proteger a criança — concordou Carmen. Depois, como se não conseguisse resistir, estendeu os braços para Renesmee. — Posso segurar você, bebé linda?
Renesmee se lançou, ávida, para Carmen, deliciada com a nova amiga. Carmen a abraçou, sussurrando para ela em espanhol.
Exatamente como acontecera com Charlie e, antes, com todos os Cullen. Renesmee era irresistível. O que havia nela que atraía todos, que os fazia dispostos até a arriscar a vida em sua defesa?
Por um momento, pensei que talvez fosse possível o que estávamos tentando. Talvez Renesmee pudesse fazer o impossível, e conquistar nossos inimigos como fez com nossos amigos.
Mas, então, me lembrei de que Alice nos havia deixado, e minha esperança desapareceu com a mesma rapidez com que surgira.

5 comentários:

  1. — Nunca machuquei vovô, nem Sue, nem Billy. Eu adoro os humanos. E as pessoas-lobo, como o meu Jacob. — kk eu quero um Jacob pra chamar de meu tmb ashuashuashua


    Fabiana Santos

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    1. Tmb qro, mas ela qr tudo pra ela...meninha egoísta.

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  2. É sério q o Eleazar falou "Ay caray"?!

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    1. Kkkkkkkkkkkkkkkkk achei estranho tbm

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  3. Kkkkkkkkkkkkkkkkk achei estranho tbm....

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