23 de setembro de 2015

Capítulo 3 - Fenômeno

Quando abri meus olhos essa manhã, algo estava diferente. Era a luz.
Ainda tinha a luz cinza-esverdeada de um dia nublado na floresta, mas estava mais claro de alguma forma. Eu percebi que não havia nenhuma névoa vendando minha janela.
Eu me levantei pra olhar lá fora, e então gemi horrorizada.
Uma fina camada de neve cobria o jardim, varria a parte de cima da minha caminhonete, e deixava a estrada toda branca.
Mas essa não era a pior parte.
Toda a chuva de ontem tinha congelado, virado gelo, cobrindo o topo das árvores em fantásticos padrões deslumbrantes, e a calçada com um gelo mortal. Tive bastante dificuldade para não cair no chão seco, poderia ser mais seguro eu voltar agora para cama.
Charlie tinha ido para o trabalho antes de eu descer escada abaixo.
De muitos modos, vivendo com Charlie tinha como eu ter meu próprio lugar, e eu fiquei me divertindo sozinha, mesmo sem ter ninguém.
Eu joguei rapidamente no chão uma tigela de cereal e um pouco de suco de laranja da caixa de papelão. Eu me sentia excitada para ir para a escola, e isso me assustou. Sabia que não era o estímulo do ambiente, percebi que estava me antecipando, ou meu novo grupo de amigos. Eu tinha que ser honesta comigo mesma, sabia que estava ansiosa para chegar a escola porque veria Edward Cullen.
E isso era mesmo muito estúpido.
Deveria o estar evitando completamente depois de minha conversa desmiolada e embaraçosa ontem.
E suspeitava dele... Por que ele deveria mentir sobre os olhos dele? Eu ainda estava amedrontada pela hostilidade que eu às vezes sentia emanando dele, e ainda ficava com a língua-amarrada sempre que olhava a sua face perfeita.
Eu estava plenamente consciente que nós éramos opostos que não se atraíam. Então não devia estar absolutamente tão ansiosa pra ver ele hoje.
Tive que usar toda a minha concentração pra conseguir sobreviver á descida nos tijolos cobertos se gelo da entrada. Quase perdi o equilíbrio quando finalmente cheguei á caminhonete, mas consegui me agarrar no retrovisor e me salvar.
Claramente, hoje seria um pesadelo.
Dirigindo para a escola, eu me distraí do medo de cair e as minhas especulações não desejadas sobre Edward Cullen e pensando em Mike e Eric, e na diferença óbvia em como os garotos adolescentes me tratavam aqui.
Eu tinha certeza que era exatamente a mesma que era em Phoenix.
Talvez fosse só porque os garotos de Phoenix me viram passar por todas as fases estranhas da adolescência e ainda pensavam em mim daquele jeito. Talvez fosse porque eu era novidade aqui, onde as novidades são algo muito raro. Talvez o meu jeito desajeitado fosse visto como uma coisa mais encarecedora do que patética, me transformando numa donzela ao invés de algum tormento.
Qualquer que fosse a razão, o comportamento de cãozinho de Mike e a aparente rivalidade de Eric era desconcertante. Eu não tinha certeza que não preferia ser ignorada.
Minha caminhonete parecia não ter problemas com o gelo preto que cobria a estrada. Apesar disso, eu dirigi bem devagar pra não cravar uma espécie de trilha na rua principal.
Quando eu saí do meu carro na escola, vi porque eu tive tão poucos problemas.
Algo prateado chamou minha atenção, e eu caminhei para o fundo da caminhonete, segurando cautelosamente o suporte lateral, para examinar os meus pneus.
Havia pequenas correntes cruzadas em formatos de diamantes ao redor deles. Charlie deve ter acordado sabe-se lá que horas pra colocar as correntes nos meus pneus.
De repente eu senti minha garganta apertando. Eu não estava acostumada a ser cuidada, e a preocupação de Charlie me pegou de surpresa.
Eu estava no canto de trás da minha caminhonete, tentando lutar com a onda de emoções que as correntes de neve trouxeram, quando eu ouvi um som estranho. Era como um arranhão muito alto e estava rapidamente se tornando dolorosamente alto. Eu olhei para cima, estarrecida.
Eu vi várias coisas simultaneamente.
Nada estava se mexendo em câmera lenta como acontece nos filmes. Ao invés disso, a adrenalina pareceu fazer o meu cérebro trabalhar muito mais rápido, e eu fui capaz de absorver em detalhes claros várias coisas ao mesmo tempo.
Edward Cullen estava parado quatro carros á minha frente, me encarando horrorizado. O rosto dele se destacou do mar de rostos, todos petrificados com a mesma expressão de choque. Mas de mais imediata importância havia uma van azul escura derrapando, pneus guinchando contra os freios, girando selvagemente no gelo do estacionamento. Ia bater num dos cantos traseiros da minha caminhonete, e eu estava entre eles. Eu nem tive tempo de fechar os meus olhos, logo antes de ouvir o barulho de algo se quebrando vindo da carroceria da minha caminhonete, alguma coisa bateu em mim, forte, mas não da direção que eu estava esperando. Minha cabeça bateu contra o gelo, e senti alguma coisa sólida e fria me pressionando no chão. Eu estava deitada no chão atrás do carro de pintura queimada que estava estacionado próximo ao meu.
Mas não tive a chance de prestar atenção em mais nada porque a van ainda estava vindo. Ela havia feito uma curva no fundo da minha caminhonete, e ainda girando e deslizando, estava prestes a colidir comigo de novo.
Uma voz baixa me disse que alguém estava comigo, e a voz era impossível de não reconhecer. Duas mãos longas, brancas ficaram protetoramente na minha frente e a van parou a um palmo de distância, as mãos grandes cabendo perfeitamente num vão profundo na lateral da van. As mãos dele se moveram tão rápido que ficaram fora de foco.
Uma delas estava de repente agarrando o fundo do carro, e alguma coisa estava puxando, empurrando minhas pernas como se elas fossem de uma boneca de trapo até elas encostarem-se ao pneu do carro com a pintura queimada.
O baque de um som metálico fez meus ouvidos doerem, e a van estava estabilizada no chão, vidro caindo no asfalto, exatamente onde minhas pernas haviam estado.
Tudo ficou absolutamente silencioso por um longo segundo antes da gritaria começar. Mas mais claramente que a gritaria, eu podia ouvir a voz baixa, desesperada de Edward no meu ouvido.
— Bella? Você está bem?
— Eu estou bem. — Minha voz soou estranha. Sentei e me dei conta que ele estava me apertando do lado do corpo dele com muita força.
— Tenha cuidado, — ele avisou quando eu relutei — eu acho que você bateu bem forte com a cabeça.
Eu me dei conta de uma dor pulsante centrada bem acima da minha orelha esquerda.
— Ai — disse surpresa.
— Foi o que eu pensei. — A voz dele, incrivelmente, fez parecer que ele estava prendendo uma risada.
— Como diabos... — eu parei, tentando limpar minha mente, me orientar. — Como é que você chegou aqui tão rápido?
— Eu estava parado bem ao seu lado, Bella. — ele disse, seu tom estava sério de novo.
Eu tornei a sentar, e dessa vez ele deixou, soltando o seu braço da minha cintura e escorregando o mais longe de mim que foi possível no espaço limitado.
Olhei para a expressão preocupada, e inocente dele e mais uma vez estava desorientada pela força dos seus olhos dourados.
O que é que eu estava perguntando a ele?
E então eles nos encontraram, uma multidão de pessoas com lágrimas saindo dos olhos e escorrendo pelo rosto, gritando umas para as outras, gritando para nós.
— Não se mexam. — Alguém instruiu.
— Tirem Tyler da van! — Outra pessoa gritou.
Havia um fluxo de atividade ao nosso redor.
Eu tentei levantar, mas as mãos frias de Edward me puxaram pra baixo pelo ombro.
— Fique quieta por enquanto.
— Mas está frio — Reclamei.
Surpreendi-me quando ele gargalhou baixinho. Havia uma margem no som.
— Você estava bem ali, — de repente eu lembrei, e a gargalhada dele parou na hora. — você estava perto do seu carro.
A expressão dele ficou dura.
—Não, eu não estava.
— Eu vi você.
Tudo ao nosso redor estava um caos. Eu pude ouvir a voz áspera de adultos se aproximando da cena. Mas eu obstinadamente me mantive na nossa discussão. Eu estava certa, e ele ia ter que admitir.
— Bella, eu estava em pé com você, e eu te tirei do caminho.
Ele usou todo o poder imenso, devastador do seu olhar em mim, como se estivesse tentando me comunicar algo crucial.
— Não. — Eu apertei minha mandíbula.
O dourado dos seus olhos brilhou.
— Por favor, Bella.
— Por quê? — Perguntei.
— Confie em mim. — Ele alegou com a voz opressiva.
Eu podia ouvir o som de sirenes agora.
— Você promete que vai me explicar tudo depois?
— Tá bom. — Ele disse, subitamente exasperado.
— Tá bom. — Eu repeti enfurecida.
Foi preciso seis paramédicos e dois professores, Sr. Varner e treinador Clapp, para afastar a van o suficiente pra trazer macas até nós. Edward veementemente recusou a dele, e eu tentei fazer o mesmo, mas o traidor contou a eles que eu tinha batido a minha cabeça e que provavelmente tinha tido uma concussão.
Eu quase morri de humilhação quando eles colocaram o suporte de pescoço. Parecia que a escola inteira estava lá, assistindo sobriamente enquanto eles me colocaram no fundo da ambulância. Edward pôde ir na frente.
Era enlouquecedor.
Pra piorar a situação, o chefe Swan chegou antes que eles pudessem me colocar a uma distância segura.
— Bella! — Ele gritou em pânico quando me reconheceu na maca.
— Eu estou completamente bem, Char... Pai. — Eu suspirei. — Não tem nada errado comigo.
Ele se virou para o paramédico mais próximo para pedir uma segunda opinião. O desliguei da minha mente pra tentar considerar a confusão de imagens inexplicáveis se agitando loucamente na minha cabeça.
Quando eles me tiraram de perto do carro, eu pude ver um buraco profundo na lateral do carro com a pintura queimada, uma cavidade muito distinta que se ajustava ao contorno dos ombros de Edward... Como se ele tivesse se forçado contra o carro com força suficiente para danificar a estrutura de metal...
E lá estava a família dele, olhando de longe, com expressões que iam da desaprovação á fúria, mas que não continham nenhuma espécie de preocupação com a segurança do irmão.
Eu tentei encontrar uma solução lógica que pudesse explicar o que havia acabado de ver, uma solução que excluísse a possibilidade de eu ser louca.
Naturalmente, a ambulância conseguiu uma escolta policial. Eu me senti ridícula em cada instante enquanto eles me tiravam de lá.
O que piorou a situação foi que Edward entrou no hospital por suas próprias pernas. Eu apertei meus dentes.
Eles me colocaram na sala de emergência, uma sala longa com uma fileira de camas separadas por cortinas em tom pastel. Uma enfermeira colocou um medidor de pressão arterial no meu braço e um termômetro embaixo da minha língua. Já que ninguém se incomodou em puxar a cortina para me proferir alguma privacidade, eu decidi que não era mais obrigada a usar aquele suporte para pescoço ridículo.
Quando a enfermeira foi embora, eu rapidamente soltei o velcro e o joguei embaixo da cama.
Houve outro fluxo do pessoal do hospital, outra maca foi trazida para o meu lado. Eu reconheci Tyler Crowley da minha aula de História, embaixo das bandagens apertadas na cabeça dele que estava coberta de sangue. Tyler pareceu 100 vezes pior do que eu me sentia. Mas ele estava me encarando ansiosamente.
— Bella me desculpe.
— Eu estou bem, Tyler. Você parece horrível, está tudo bem? — Enquanto falávamos, as enfermeiras começaram a tirar as bandagens encharcadas dele, deixando exposta uma porção de cortes superficiais em toda a sua testa e na bochecha esquerda.
Ele me ignorou.
— Eu pensei que fosse matar você! Eu estava indo rápido demais e bati errado no gelo...
Ele choramingou enquanto a enfermeira tocava o seu rosto de leve.
— Não se preocupe com isso, você errou a pontaria.
— Como é que você saiu do caminho tão rápido? Você estava lá, e de repente não estava mais...
— Humm... Edward me tirou do caminho.
— Quem?
— Edward Cullen, ele estava do meu lado.
Sempre menti muito mal, não pareceu convincente.
— Cullen? Eu não o vi... Uau, foi rápido demais, eu acho. Ele está bem?
— Eu acho que sim. Ele tá aqui, em algum lugar, mas não o fizeram usar uma maca.
Eu sabia que eu não estava louca. O que aconteceu? Não havia nenhuma forma de explicar o que tinha visto.
Então eles me levaram pra fazer um raio X. Disse a eles que não havia nada errado comigo, e eu estava certa. Nenhuma concussão. Eu perguntei se podia ir embora, mas a enfermeira disse que eu tinha que falar com um médico antes.
Então eu estava presa na sala de emergência, esperando, sendo molestada pelos pedidos constantes de desculpa de Tyler e pelas promessas de que ele ia me recompensar.
Eu tentei convencê-lo de que estava bem, mas ele continuou se atormentando. Finalmente, fechei os meus olhos e o ignorei. Ele continuou com o seu discurso cheio de remorso.
— Ela está dormindo? — Perguntou uma voz musical. Meus olhos se abriram.
Edward estava no pé da minha cama, sorrindo.
Eu o encarei. Não foi fácil, seria mais natural admirá-lo.
— Ei, Edward, eu lamento muito — Tyler começou.
Edward levantou a mão para parar ele.
— Sem sangue, sem danos. — Ele disse mostrando seus dentes brilhantes.
Foi se sentar na borda da cama de Tyler, me encarando. Sorriu de novo.
— Então, qual é o veredicto? — Ele me perguntou.
— Não tem absolutamente nada de errado comigo, mas eles não querem me deixar ir embora. — Reclamei.
— Como é que você não está acorrentado numa cama como o resto de nós?
— Tudo depende dos seus contatos. — ele respondeu. — Mas não se preocupe, eu vim libertá-la.
Nessa hora um médico virou no corredor e o meu queixo caiu. Ele era jovem, loiro... E muito mais bonito do que qualquer estrela de cinema que eu já tenha visto. No entanto, ele era pálido e parecia cansado, com círculos embaixo dos olhos. Pelo que Charlie tinha dito, esse tinha que ser o pai de Edward.
— Então senhorita Swan, — Dr. Cullen disse numa voz notavelmente atraente — como é que você está se sentindo?
— Estou bem. — Eu repeti pela última vez, esperava pelo menos que fosse a última.
Ele caminhou para o painel de luz em cima da minha cabeça, e o ligou.
— Seu raio-x parece bom. — Ele disse. — A sua cabeça está doendo? Edward disse que você a bateu com força.
— Eu estou bem. — Eu repeti com um suspiro, olhando de relance na direção de Edward.
Os dedos frios do doutor tatearam levemente no meu crânio. Ele percebeu quando eu gemi.
— Delicado? — Ele perguntou.
— Na verdade não, podia ser pior.
Eu ouvi uma gargalhada e olhei pra ver o sorriso complacente de Edward. Eu revirei os olhos.
— Bem, o seu pai está na sala de espera, pode ir pra casa com ele agora. Mas volte se tiver vertigens ou qualquer problema com a sua visão.
— Eu posso voltar para a escola? — Eu perguntei, imaginando Charlie tentando ser atencioso.
— Talvez você devesse pegar leve hoje.
Dei uma olhada pra Edward.
— Ele vai poder voltar para a escola?
— Alguém tem que espalhar a boa notícia que nós sobrevivemos. — disse Edward, presunçoso.
— Na verdade, — Dr. Cullen corrigiu. — Parece que toda a escola está na sala de espera.
— Ah não. — Gemi cobrindo o rosto com as mãos.
Dr. Cullen ergueu as sobrancelhas.
— Você quer ficar?
— Não, não! — Eu insisti jogando as minhas pernas pelo lado da cama e me colocando rápido de pé.
Rápido demais, cambaleei, e Dr. Cullen me segurou. Ele pareceu preocupado.
— Eu estou bem. — Eu assegurei pra ele. Não tinha porque dizer pra ele que os meus problemas com o equilíbrio não tinham nada a ver com o fato de eu ter batido com a cabeça.
— Tome Tylenol para a dor. — Ele sugeriu enquanto me sustentava.
— Não dói tanto. — Eu insisti.
— Parece que você teve muita sorte. — Dr. Cullen disse enquanto assinava a meu quadro com um gesto floreado.
— Sorte que Edward estava do meu lado. — Emendei com um olhar duro na direção do objeto da minha declaração.
— Oh, bem, sim. — Dr. Cullen concordou, subitamente ocupado com uns papéis na frente dele. Depois ele olhou pro outro lado, pra Tyler, e andou até a cama.
Minha intuição vacilou; o médico deve ter percebido.
— Eu temo que você terá que ficar conosco um pouco mais de tempo. — Ele disse para Tyler e começou a checar os cortes dele.
Assim que o médico ficou de costas, me aproximei de Edward.
— Será que eu posso falar com você por um minutinho? — Eu cochichei por baixo do fôlego.
Ele deu um passo se afastando de mim, sua mandíbula subitamente apertada.
— Seu pai está esperando por você. — Disse entre dentes.
Eu olhei de relance pra Dr. Cullen e Tyler.
— Eu gostaria de falar com você em particular, se você não se incomodar. — Eu pressionei.
Ele me olhou fixamente, e depois me deu as costas e caminhou pelo longo quarto. Eu praticamente tive que correr para acompanhá-lo.
Assim que viramos na curva para um pequeno corredor, ele se virou para me encarar.
— O que você quer? — Ele perguntou, parecendo aborrecido. Seus olhos eram frios.
A expressão nada amigável dele me intimidou. Minhas palavras saíram com menos severidade do que eu pretendia.
— Você me deve uma explicação. — Eu o lembrei.
— Eu salvei a sua vida, não te devo nada
Eu vacilei com o ressentimento na voz dele.
— Você prometeu.
— Bella, você bateu com a cabeça, não sabe do que está falando.
O tom dele era cortante.
Agora o meu temperamento estava em chamas, o encarei desafiadoramente.
— Não tem nada errado com a minha cabeça.
Ele me encarou de volta.
— O que você quer de mim, Bella?
— Eu quero saber a verdade. — Disse. — Eu quero saber por que estou mentindo por você.
— O que você acha que aconteceu? — Ele soltou.
Saiu num sopro.
— Tudo o que eu sei é que você não estava em nenhum lugar perto de mim, Tyler também não viu você, então não diga que eu bati muito forte com a cabeça. Aquela van ia esmagar nós dois, e não esmagou, e as suas mãos deixaram buracos na lateral dela, você deixou um buraco na lateral daquele outro carro, e não está absolutamente machucado. E a van devia ter amassado as minhas pernas, mas você estava segurando ela... — Eu tinha noção do quanto aquilo soava louco, e eu não pude continuar. Eu estava com tanta raiva que podia sentir as lágrimas chegando, tentei forçá-las a desaparecer apertando os meus dentes juntos.
Ele me olhava incrédulo. Mas o seu rosto estava tenso, na defensiva.
— Você acha que eu tirei uma van de cima de você? — O tom dele questionava a minha sanidade, mas só me deixou mais suspeitas. Era como uma fala perfeitamente decorada por um ator talentoso.
Eu simplesmente afirmei com a cabeça uma vez, mandíbula apertada.
— Ninguém vai acreditar nisso. — Agora a voz dele tinha um tom de zombaria.
— Eu não vou contar pra ninguém. — Disse cada palavra vagarosamente, cuidadosamente controlando a minha raiva.
A surpresa apareceu no rosto dele.
— Então porque isso importa?
— Importa pra mim, — eu insisti — não gosto de mentir — então seria melhor se eu tivesse uma boa razão pra fazer isso.
— Será que você não pode só me agradecer e esquecer isso?
— Obrigada. —Eu disse fumegando e esperando.
— Você não vai desistir, vai?
— Não.
— Nesse caso... Espero que você goste do desapontamento.
Nós nos olhamos em silêncio. Fui a primeira a quebrar o silêncio, tentando manter o foco. Corria o risco de me distrair com o seu rosto lívido, glorioso. Era como tentar encarar um anjo destruidor.
— Porque você se incomoda? — Eu perguntei frigidamente.
Ele pausou, por um instante seu rosto estonteante ficou inesperadamente vulnerável.
— Eu não sei. — Ele cochichou.
Aí ele me deu as costas e caminhou pra longe.
Eu estava com tanta raiva que demorou uns minutos até que pudesse me mover. Quando consegui andar, caminhei lentamente para a saída no final do corredor.
A sala de espera estava mais desagradável do que eu temia. Parecia que todos os rostos que eu conhecia em Forks estavam lá, me encarando. Charlie correu para o meu lado, levantei as mãos.
— Não tem nada de errado comigo. — Eu assegurei solenemente. Ainda estava importunada, sem o mínimo humor pra conversinha.
—  O que o doutor disse?
— Dr. Cullen me viu, e ele disse que eu estava bem e que podia ir pra casa. — Suspirei.
Mike e Jéssica e Eric estavam todos lá, começando a vir na nossa direção.
— Vamos logo. — O apressei.
Charlie colocou o braço atrás das minhas costas, não necessariamente me tocando, e me guiou até as portas de vidro da saída.
Acenei timidamente para os meus amigos, esperando convencê-los de que eles não precisavam mais se preocupar comigo.
Foi um enorme alívio, a primeira vez que me senti assim, quando entrei na viatura.
Nós fomos em silêncio. Eu estava tão presa nos meus pensamentos que praticamente nem reparei que Charlie estava lá. Tinha certeza que a postura defensiva de Edward era uma confirmação de todas as bizarrices que eu ainda não podia acreditar que tinha testemunhado.
Quando nós chegamos em casa, Charlie finalmente falou.
— Umm... Você vai precisar ligar pra Renée. — Ele baixou a cabeça, em sinal de culpa.
Eu estava apática.
— Você contou à mamãe!
— Desculpe.
Bati a porta da viatura um pouco mais forte do que o necessário quando saí.
Minha mãe estava histérica, é claro. Eu tive que dizer a ela que estava bem pelo menos umas trinta vezes antes dela se acalmar. Ela me implorou pra voltar pra casa, esquecendo que nossa casa estava vazia naquele momento, mas as súplicas dela foram mais fáceis de resistir do que eu imaginava. Estava consumida pelo mistério que Edward representava. E um pouco mais obcecada pelo próprio Edward.
Burra, burra, burra.
Eu não estava tão ansiosa pra deixar Forks quanto deveria estar, como qualquer pessoa normal e sã deveria estar.
Decidi dormir mais cedo naquela noite. Charlie continuou cuidando de mim ansiosamente, e isso estava me deixando nervosa. Parei no caminho pra pegar três Tylenol no banheiro. Eles ajudaram, e quando a dor passou, peguei no sono.
Essa foi a primeira noite que eu sonhei com Edward Cullen.

10 comentários:

  1. karina aho que era para ser convulsão, tem concussão

    ~Uma pessoa qualquer

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    1. É concussão mesmo, ela bateu a cabeça ^^

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    2. nossa amo crepusculo ja assisti todos os filme e estou muito feliz por poder ler os livros da saga de graça

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  2. Só queria dizer que estou tendo mini ataquezinho cada vez que vejo um "á" perdido pelo texto ;~;

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    1. Gustavo-filho de hades16 de abril de 2016 07:11

      Kkk. Amiga das preposições kkkkkkk

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    2. Gustavo-filho de hades16 de abril de 2016 07:12

      Kkk. Amiga das preposições kkkkkkk

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  3. Esse Edward... ❤Cade o Jacob? ;-;

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  4. Respostas
    1. Kkk eu entendedores entenderão...
      Eita, mistério!

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