29 de setembro de 2015

Capítulo 29 - Deserção

Ficamos sentados ali a noite toda, estátuas de horror e pesar, e Alice não voltou.
Estávamos todos no limite – frenéticos na imobilidade completa. Carlisle mal fora capaz de mover os lábios para explicar tudo a Jacob. Contar a história toda pareceu torná-la pior; até Emmett ficou em silêncio e imóvel a partir daí.
Foi apenas quando o sol nasceu e eu percebi que Renesmee logo estaria se agitando sob as minhas mãos que me perguntei pela primeira vez o que podia estar retardando tanto Alice. Eu esperava saber mais antes de enfrentar a curiosidade de minha filha. Ter algumas respostas. Uma minúscula esperança para eu poder sorrir e evitar que a verdade a apavorasse também.
Meu rosto parecia para sempre fixo numa máscara rígida que exibira a noite toda. Eu não sabia se ainda tinha a capacidade de sorrir.
Jacob roncava no canto, uma montanha de pelos no chão, contorcendo-se ansioso em seu sono. Sam sabia de tudo – os lobos estavam se preparando para o que viria. Não que essa preparação fosse servir para alguma coisa além de matá-los, com o restante de minha família.
O sol entrou pelas vidraças dos fundos, cintilando na pele de Edward. Meus olhos não haviam se desviado dos dele desde a partida de Alice. Nos tínhamos nos olhado a noite toda, fitando o que nenhum de nós suportara perder: o outro. Vi meu reflexo cintilar em seus olhos agoniados quando o sol tocou minha pele.
Suas sobrancelhas se moveram infinitesimalmente, depois os lábios.
— Alice — disse ele.
O som de sua voz era como gelo rachando à medida que derretia. Todos nos fragmentamos um pouco, relaxamos um pouco. Nos movemos de novo.
— Ela está fora há muito tempo — murmurou Rosalie, surpresa.
— Onde poderia estar? — perguntou-se Emmett, dando um passo para a porta.
Esme pôs a mão no braço dele.
— Não queremos perturbar...
— Ela nunca levou tanto tempo — disse Edward. Uma nova preocupação estilhaçou a máscara que seu rosto assumira. Suas feições estavam vivas de novo, os olhos subitamente arregalados por um novo medo, um pânico a mais — Carlisle, não acha... uma medida preventiva... Alice teria tido tempo de ver se eles mandassem alguém atrás dela?
O rosto de pele translúcida de Aro encheu minha cabeça. Aro, que tinha examinado todos os cantos da mente de Alice, que sabia tudo de que ela era capaz...
Emmett praguejou alto o bastante para Jacob pôr-se de pé num salto, com um rosnado. No quintal, seu rosnado foi imitado pela matilha. Minha família já estava em ação acelerada.
— Fique com Renesmee! — eu quase gritei para Jacob enquanto disparava porta afora.
Eu ainda era mais forte do que os outros, e usei essa força para me impelir adiante. Ultrapassei Esme em alguns saltos e Rosalie com algumas passadas a mais. Corri pela floresta densa até estar bem atrás de Edward e Carlisle.
— Será que eles poderiam surpreendê-la? — perguntou Carlisle, a voz estável como se estivesse parado e não correndo a toda velocidade.
— Não vejo como — respondeu Edward. — Mas Aro a conhece melhor do que qualquer outro. Melhor do que eu.
— Será uma armadilha? — gritou Emmett atrás de nós.
— Talvez — disse Edward. — O único cheiro é de Alice e Jasper. Aonde eles foram?
O rastro de Alice e Jasper descrevia um grande arco; estendia-se, primeiro, a leste da casa, mas ia para o norte na outra margem do rio, depois voltava para oeste, após alguns quilômetros. Cruzamos o rio de novo, os seis saltando com um segundo de diferença. Edward corria na frente, totalmente concentrado.
— Sentiu o cheiro? — perguntou Esme alguns momentos depois de saltarmos o rio pela segunda vez. Ela estava mais atrás, na extremidade esquerda nosso grupo de busca. Ela apontou na direção do sul.
— Fiquem na trilha principal... estamos quase na fronteira quileute — ordenou Edward, sucinto. — Permaneçam juntos. Vejam se viraram para o norte ou para o sul.
Eu não estava familiarizada com a fronteira do tratado como o restante deles, mas podia sentir o cheiro de lobo na brisa que soprava do leste. Edward e Carlisle reduziram um pouco, por hábito, e pude ver suas cabeças virar de um lado a outro, esperando que o rastro virasse.
Então o cheiro de lobo tornou-se mais forte, e a cabeça de Edward se ergueu. Ele parou subitamente. Todos também ficamos paralisados.
— Sam? — perguntou Edward numa voz monótona. — O que foi?
Sam saiu das árvores a algumas centenas de metros, andando rapidamente em nossa direção na forma humana, flanqueado por dois lobos grandes, Paul e Jared. Levou algum tempo para que Sam nos alcançasse; sua velocidade humana me deixou impaciente. Eu não queria ter tempo para pensar no que acontecia. Queria estar em movimento, fazer alguma coisa. Queria ter meus braços em torno de Alice, ter certeza absoluta de que ela estava em segurança. Vi o rosto de Edward ficar lívido enquanto ele lia o que Sam pensava. Sam o ignorou, olhando diretamente para Carlisle quando parou de andar e começou a falar.
— Pouco depois da meia-noite, Alice e Jasper vieram a este ponto e pediram permissão para atravessar nosso território até o oceano. Eu lhes dei a permissão e os acompanhei até a costa. Eles entraram imediatamente na água e não voltaram. No trajeto até lá, Alice me disse que era de máxima importância que eu não contasse nada a Jacob sobre tê-la visto até que eu falasse com você. Eu devia esperar aqui que você viesse procurá-la e então lhe entregar este bilhete. Ela me disse para obedecer como se a vida de todos nós dependesse disso.
A expressão de Sam era sombria ao estender a folha de papel dobrada, coberta por um texto em letras pretas miúdas. Era uma folha de livro; meus olhos afiados liam as palavras impressas enquanto Carlisle abria para ver o outro lado. O lado de frente para mim era a página de copyright de O mercador de Veneza. Meu cheiro preencheu levemente o ar enquanto Carlisle abria o papel. Percebi que era uma folha arrancada do meu livro. Eu trouxera algumas coisas da casa de Charlie para o chalé; algumas mudas de roupa normal, todas as cartas da minha mãe e meus livros preferidos. Minha coleção surra de brochuras de Shakespeare estava, na véspera, de manhã, na estante da pequena sala de estar do chalé...
— Alice decidiu nos deixar — sussurrou Carlisle.
— Como é? — gritou Rosalie.
Carlisle virou a folha para que todos pudéssemos ler.

Não procurem por nós. Não há tempo a perder. Lembrem: Tanya, Siobhan, Amun, Alistair, todos os nômades que puderem encontra. Vamos procurar Peter e Charlotte no caminho. Lamentamos muito ter de deixar vocês dessa foram, sem despedidas nem explicações. É o único jeito para nós. Nós os amamos.

Ficamos paralisados de novo, o silêncio completo, exceto pelo som do coração dos lobos, sua respiração. Seus pensamentos deviam ser altos também. Edward foi o primeiro a se mexer, falando em resposta ao que ouvia na mente de Sam.
— Sim, as coisas estão perigosas assim mesmo.
— O bastante para abandonar a família? — perguntou Sam em voz alta, em tom de censura.
Estava claro que ele não lera o bilhete antes de o entregar a Carlisle. Agora estava aborrecido, como se estivesse arrependido por ter dado ouvidos a Alice.
A expressão de Edward era rígida – para Sam devia parecer raiva ou arrogância, mas eu podia ver a dor nas linhas de seu rosto.
— Não sabemos o que ela viu — disse Edward. — Alice não é nem insensível, nem covarde. Só tem mais informações do que nós.
— Nós não... — Sam começou.
— Vocês são ligados de forma diferente de nós — rebateu Edward. — Nós ainda temos nosso livre-arbítrio.
O queixo de Sam se ergueu, e seus olhos de repente adquiriram um negror completo.
— Mas vocês devem dar atenção ao aviso — continuou Edward. — Não se trata de algo em que queriam se envolver. Ainda podem evitar o que Alice viu.
Sam deu um sorriso sombrio.
— Nós não fugimos.
Atrás dele, Paul bufou.
— Não leve sua família a um massacre só por orgulho — interveio Carlisle em voz baixa.
Sam olhou para Carlisle com uma expressão mais branda.
— Como Edward assinalou, não temos o mesmo tipo de liberdade de vocês. Agora Renesmee é parte da nossa família tanto quanto é da sua. Jacob não pode abandoná-la, e nós não podemos abandonar Jacob. — Seus olhos pousaram no bilhete de Alice e os lábios formaram uma linha fina.
— Você não a conhece — disse Edward.
Você conhece? — perguntou Sam bruscamente.
Carlisle pôs a mão no ombro de Edward.
— Temos muito que fazer, filho. Qualquer que tenha sido a decisão de Alice, seríamos tolos de não seguir seu conselho agora. Vamos para casa e pôr mãos a obra.
Edward assentiu, o rosto ainda rígido de dor. Atrás de mim, pude ouvir choro baixo e sem lágrimas de Esme. Eu não sabia como chorar naquele corpo; não conseguia fazer nada a não ser olhar fixamente. Ainda não sentia nada. Tudo parecia irreal, como se eu estivesse sonhando de novo depois de todos aqueles meses. Tendo um pesadelo.
— Obrigado, Sam — disse Carlisle.
— Eu lamento — respondeu Sam. — Não devíamos tê-la deixado passar.
— Você fez o que era certo — disse-lhe Carlisle. — Alice é livre para fazer o que quiser. Eu não negaria a ela essa liberdade.
Eu sempre pensara nos Cullen como um todo, uma unidade indivisível. De repente, lembrei-me de que nem sempre tinha sido assim. Carlisle havia criado Edward, Esme, Rosalie e Emmett; Edward me criara. Éramos fisicamente ligados por sangue e veneno. Nunca pensei em Alice e Jasper como diferentes – como adotados na família. Mas, na verdade, Alice havia adotado os Cullen. Ela havia aparecido com seu passado desconectado, trazendo Jasper com o dele, e se ajustou à família que já estava lá. Tanto ela quanto Jasper haviam conhecido outra vida fora da família Cullen. Será que ela realmente escolhera seguir outro caminho depois de ver que a vida com os Cullen tinha chegado ao fim?
Estávamos condenados, então, não estávamos? Não havia esperança nenhuma. Nem um raio, uma chama que pudesse ter convencido Alice de que tinha uma chance ao nosso lado.
O ar luminoso da manhã de repente pareceu mais espesso, mais escuro, como se enegrecido fisicamente pelo meu desespero.
— Eu não vou desistir sem lutar — rosnou baixo Emmett. — Alice nos disse o que fazer. Vamos fazê-lo.
Os outros concordaram com expressões decididas, e percebi que eles estavam apostando em qualquer possibilidade que Alice nos dera. Que eles não iriam se entregar à desesperança e esperar a morte.
Sim, todos iríamos lutar. O que mais poderíamos fazer? E, aparentemente, envolveríamos outros, porque Alice assim dissera antes de nos deixar.
Como não seguiríamos o último aviso de Alice? Os lobos também lutariam conosco por Renesmee.
Nós iríamos lutar, eles iriam lutar, e todos morreríamos.
Eu não sentia a mesma determinação que os demais pareciam sentir. Alice conhecia as probabilidades. Ela estava nos dando a única chance que podia ver, mas a chance era ínfima demais para que a própria Alice apostasse nela.
Eu já me sentia derrotada quando dei as costas aos olhos críticos de Sam e segui Carlisle para casa.
Agora corríamos automaticamente, não com a mesma pressa apavorada de antes. Quando nos aproximamos do rio, a cabeça de Esme se ergueu. Havia aquele outro rastro. Era fresco.
Ela fez um gesto com a cabeça indicando o caminho à frente, na direção e onde tinha chamado a atenção de Edward no caminho para cá. Enquanto corríamos para salvar Alice...
— Deve ser anterior. Era só de Alice, sem Jasper — disse Edward, desanimado.
O rosto de Esme franziu-se, e ela concordou. Eu vaguei para a direita, ficando um pouco para trás. Tinha certeza de que Edward estava com a razão, mas ao mesmo tempo... Afinal, como o bilhete de Alice acabara na página de um livro meu?
— Bella? — perguntou Edward numa voz sem emoção enquanto eu hesitava.
— Quero seguir o rastro — eu disse a ele, farejando o leve aroma de Alice que se afastava da trilha de sua fuga.
Eu era nova nisso, mas o cheiro era o mesmo para mim, só não havia o de Jasper.
Os olhos dourados de Edward estavam vazios.
— Deve levar de volta à casa.
— Então encontrarei vocês lá.
De início pensei que ele me deixaria ir sozinha, mas depois, quando avancei alguns passos, seus olhos inexpressivos ganharam vida.
— Vou com você — disse ele baixinho. — Encontramos vocês em casa, Carlisle.
Carlisle assentiu, e os outros partiram. Esperei até que eles estivessem fora de vista, e então olhei interrogativamente para Edward.
— Eu não deixaria que você se afastasse de mim — explicou ele em voz baixa. — Dói só de imaginar.
Entendi, sem mais explicações. Pensei em estar separada dele agora e percebi que teria sentido a mesma dor, por mais breve que fosse a separação. Havia muito pouco tempo para ficarmos juntos. Estendi a mão e ele a pegou.
— Vamos correr — disse ele. — Renesmee vai estar acordada.
Eu assenti, e estávamos correndo outra vez.
Provavelmente, era tolice perder tempo longe de Renesmee só para matar minha curiosidade. Mas o bilhete me incomodava. Alice poderia tê-lo entalhado numa pedra ou tronco de árvore se não tivesse onde escrever.
Poderia ter roubado um bloco de Post-its de uma das casas na estrada. Por que meu livro? Quando ela o pegou? De fato, o rastro levava ao chalé por uma rota tortuosa que se mantinha afastada da casa dos Cullen e dos lobos no bosque próximo. As sobrancelhas de Edward se estreitaram em perplexidade quando ficou evidente aonde levava a trilha.
Ele tentou raciocinar.
— Ela deixou Jasper esperando e veio aqui?
Estávamos quase no chalé e eu me sentia inquieta. Fiquei feliz por ter a mão de Edward na minha, mas também tinha a impressão de que devia estar ali sozinha. Arrancar a página e levá-la de volta a Jasper era uma coisa estranha para Alice fazer. Era como se houvesse uma mensagem em sua atitude – um recado que eu não entendia. Mas era o meu livro, então o recado devia ser para mim. Se fosse alguma coisa que ela quisesse que Edward soubesse, não teria arrancado uma página de um dos livros dele...?
— Me dê um minuto — eu disse, soltando a mão quando chegamos à porta.
Sua testa se vincou.
— Bella?
— Por favor. Trinta segundos.
Não esperei que ele respondesse. Entrei rapidamente, fechando a porta depois de entrar. Segui direito para a estante. O cheiro de Alice era fresco, tinha menos de um dia. Um fogo que eu não havia acendido ardia lentamente na lareira. Peguei O mercador de Veneza na estante e abri na folha de rosto.
Ali, ao lado da borda irregular deixada pala página arrancada, debaixo das palavras “O mercador de Veneza, de William Shakespeare”, havia um bilhete.

Destrua isso.

Abaixo lia-se um nome e um endereço em Seattle.
Quando Edward passou pela porta depois de treze segundos, em vez de trinta, eu olhava o livro queimando.
— O que está havendo, Bella?
— Ela esteve aqui. Arrancou uma folha do meu livro para escrever o bilhete.
— Por quê?
— Não sei.
— Por que o está queimando?
— Eu... Eu... — Franzi a testa, deixando que a frustração e a dor transparecessem no meu rosto. Eu não sabia o que Alice estava tentando me dizer, só que ela fizera um grande esforço para esconder de todos, menos de mim. A única pessoa cuja mente Edward não podia ler. Então ela devia querer mantê-lo afastado, e provavelmente por um bom motivo. — Me pareceu adequado.
— Não sabemos o que ela está fazendo — disse ele em voz baixa.
Olhei as chamas. Eu era a única pessoa no mundo que podia mentir para Edward. Era o que Alice queria de mim? Seu último pedido?
— Quando estávamos no avião para a Itália — sussurrei, mas não era uma mentira, talvez só no contexto — a caminho de resgatar você... ela mentiu para Jasper para que ele não viesse atrás de nós. Sabia que ele morreria se enfrentasse os Volturi. Estava disposta a morrer, em vez de colocá-lo em perigo. Disposta a morrer por mim também. Disposta a morrer por você.
Edward não respondeu.
— Ela tem suas prioridades — eu disse. E perceber que minha explicação não parecia mentira fez doer meu coração imóvel.
— Não acredito nisso — disse Edward. Ele não disse isso como se discutisse comigo, mas como se discutisse consigo mesmo. — Talvez só Jasper esteja em perigo. O plano dela funcionaria para o restante de nós, mas ele se perderia se ficasse. Talvez...
— Ela podia ter nos contado isso. Mandá-lo embora.
— Mas Jasper teria ido? Talvez ela estivesse mentindo para ele de novo.
— Talvez — fingi concordar. — Precisamos ir para casa. Não há tempo.
Edward pegou minha mão e corremos. O bilhete de Alice não me deu esperanças. Se houvesse alguma maneira de evitar a carnificina que estava por vir, Alice teria ficado. Eu não via outra possibilidade. Então era outra coisa que ela estava me dando. Não uma maneira de escapar. Mas o que mais ela pensaria que eu iria querer? Talvez uma maneira de salvar alguma coisa? Haveria alguma coisa que eu ainda podia salvar?
Carlisle e os outros não haviam ficado ociosos em nossa ausência. Tínhamos estado separados deles por apenas cinco minutos, e eles já estavam parados para partir. No canto, Jacob era humano de novo, com Renesmee colo, os dois nos fitando de olhos arregalados.
Rosalie tinha trocado o vestido de seda por jeans que pareciam resistentes, tênis de corrida e uma blusa feita do tecido grosso que os mochileiros usam em longas excursões. Esme estava vestida da mesma forma. Havia um globo na mesa de centro, mas eles já o haviam olhado e só estavam à nossa espera.
O clima era mais positivo agora do que antes; era bom para eles estar em ação. Suas esperanças dependiam das instruções de Alice.
Olhei o globo e me perguntei aonde iríamos primeiro.
— Vamos ficar aqui? — perguntou Edward, olhando para Carlisle. Ele não parecia satisfeito.
— Alice disse que teríamos de mostrar Renesmee às pessoas e que precisávamos ter muito cuidado com isso — disse Carlisle. — Vamos enviar quem conseguirmos encontrar para você aqui... Edward, você será o melhor nesse campo minado em particular.
Edward assentiu rapidamente, ainda não satisfeito.
— Tem muito terreno para cobrir.
— Vamos nos dividir — respondeu Emmett. — Rose e eu procuraremos pelos nômades.
— Você ficará muito ocupado aqui — disse Carlisle. — A família de Tanya chegará pela manhã, e eles não têm ideia do motivo. Primeiro, você tem de convencê-los a não reagir como Irina. Segundo, tem de descobrir o que Alice quis dizer sobre Eleazar. Então, depois de tudo isso, será que vão ficar para testemunhar por nós? E recomeça tudo quando os outros vierem... se conseguirmos convencer alguém a vir aqui, em primeiro lugar — Carlisle suspirou. — Sua tarefa pode ser a mais difícil. Voltaremos para ajudar assim que for possível.
Carlisle pôs a mão no ombro de Edward por um segundo e me deu um beijo na testa. Esme abraçou nós dois e Emmett nos deu um soco no braço. Rosalie forçou um sorriso para mim e Edward, soprou um beijo para Renesmee e, então, fez uma careta de despedida para Jacob.
— Boa sorte — disse-lhes Edward.
— Para você também — disse Carlisle. — Todos vamos precisar.
Eu os observei partir, desejando poder sentir a esperança que os animava, e desejando poder ficar sozinha com o computador por alguns segundos. Eu precisava descobrir quem era J. Jenks e por que Alice tinha se esforçado tanto para dar esse nome só a mim.
Renesmee se retorceu nos braços de Jacob para tocar seu rosto.
— Não sei se os amigos de Carlisle virão. Espero que sim. Parece que agora somos bem poucos — murmurou Jacob para ela.
Então ela sabia. Renesmee já entendia perfeitamente bem o que estava acontecendo. Aquela história de lobisomem-imprinted-dá-ao-objeto-de-seu-imprinting-o-que-ele-quer já estava cansando. Protegê-la não era mais importante do que responder a suas perguntas?
Olhei com cuidado o rosto dela. Ela não parecia assustada, só ansiosa e muito séria enquanto conversava com Jacob daquele seu jeito silencioso.
— Não, não podemos ajudar; temos de ficar aqui — continuou ele. — As pessoas virão para ver você, não a paisagem.
Renesmee franziu a testa para ele.
— Não, eu não tenho de ir a lugar nenhum — ele lhe disse. Então olhou para Edward, o rosto atordoado com a percepção de que podia estar errado. — Tenho?
Edward hesitou.
— Desembuche — disse Jacob, a voz rude com a tensão. Ele estava em seu limite, como o restante de nós.
— Os vampiros que virão nos ajudar não são como nós — disse Edward. — A família de Tanya é a única além da nossa que tem respeito pela vida humana, e mesmo eles não têm os lobisomens em alta conta. Acho que pode ser mais seguro...
— Eu posso me cuidar — interrompeu Jacob.
— Mais seguro para Renesmee — continuou Edward — se a escolha de acreditar em nossa história sobre ela não for contaminada por uma associação com lobisomens.
— Alguns amigos. Eles se voltariam contra vocês só por causa das companhias com quem vocês andam agora?
— Acho que eles seriam tolerantes em circunstâncias normais. Mas você precisa entender... aceitar Nessie não vai ser uma coisa simples para nenhum deles. Por que tornar isso mais difícil, o pouco que seja?
Carlisle havia explicado as leis sobre as crianças imortais a Jacob na noite anterior.
— As crianças imortais eram assim tão ruins? — perguntou ele.
— Você nem imagina a profundidade das cicatrizes que deixaram na psique coletiva dos vampiros.
— Edward... — Ainda era estranho ouvir Jacob falar o nome de sem amargura.
— Eu sei, Jake. Sei como é difícil ficar longe dela. Vamos agir de improviso... Ver como eles reagem a ela. De qualquer forma, Nessie deverá ficar incógnita alternadamente nas próximas semanas. Ela vai precisar ficar no chalé até o momento certo de a apresentarmos. Se você puder manter distância segura da casa principal...
— Posso fazer isso. Visitas de manhã, hã?
— Sim. Nossos amigos mais próximos. Neste caso em particular, deve ser melhor se esclarecermos as coisas o quanto antes. Você pode ficar aqui. Tanya sabe sobre você. Ela até conheceu Seth.
— Tudo bem.
— Você deve contar a Sam o que está acontecendo. Pode haver estranhos no bosque em breve.
— Bem lembrado. Embora ele merecesse o silêncio depois da noite passada.
— Ouvir Alice em geral é o certo a fazer.
Os dentes de Jacob trincaram e pude ver que ele compartilhava os sentimentos de Sam sobre o que Alice e Jasper fizeram.
Enquanto os dois conversavam, caminhei até a janela dos fundos, tentando parecer perturbada e ansiosa. Não era difícil fazer isso. Encostei a cabeça na parede que se curvava a partir da sala de estar, levando à sala de jantar, ao lado de uma das mesas de computador. Corri os dedos pelo teclado enquanto olhava para a floresta, tentando fazer parecer uma atitude distraída. Será que os vampiros faziam coisas de forma distraída? Não achei que estivessem prestando atenção em mim, mas não me virei para ter certeza. O monitor ganhou vida. Passei os dedos pelo teclado novamente. Depois tamborilei os dedos suavemente na mesa de madeira, só para parecer ao acaso. Mais um afago no teclado.
Examinei a tela com minha visão periférica.
Nenhum J. Jenks, mas havia um Jason Jenks. Advogado. Rocei o teclado, tentando manter um ritmo, como quem, preocupado, afaga um gato esquecido no colo. A firma de Jason Jenks tinha um site sofisticado, mas o endereço na página era outro. Em Seattle, mas com um código postal diferente. Anotei o número do telefone e depois toquei o teclado no ritmo. Dessa vez procurei o endereço, mas nada apareceu, como se o endereço não existisse. Eu queria olhar um mapa, mas concluí que estava forçando demais a sorte. Mais uma dedilhada, para deletar o histórico...
Continuei olhando pela janela e rocei a mão na mesa algumas vezes. Ouvi passos leves vindo em minha direção e me virei com o que eu esperava fosse mesma expressão de antes.
Renesmee me estendeu os braços e eu abri os meus. Ela se atirou neles, com um forte cheiro de lobisomem, e aninhou a cabeça em meu pescoço.
Eu não sabia se podia suportar aquilo. Por mais que temesse por minha vida, pela de Edward, pelo resto da família, não era a mesma coisa que o terror esmagador que sentia por minha filha. Devia haver um jeito de salvá-la, mesmo que fosse a única coisa que eu pudesse fazer.
De repente, eu soube que isso era tudo o que eu queria. O resto eu suportaria, se fosse necessário, mas não a vida dela em risco. Isso não.
Ela era o que eu simplesmente precisava salvar. Será que Alice sabia como eu me sentiria?
A mão de Renesmee tocou meu rosto de leve.
Ela me mostrou meu próprio rosto, o de Edward, o de Jacob, de Rosalie, Esme, Carlisle, Alice, Jasper, e foi passando cada vez mais rápido pelos rostos de toda a família. Seth e Leah. Charlie, Sue e Billy. Repetidamente. Preocupada, como o resto de nós. No entanto, ela estava só preocupada. Jake a havia poupado do pior, até onde pude perceber. A parte sobre não termos esperança, sobre todos morrermos no prazo de um mês.
Ela parou no rosto de Alice, saudosa e confusa. Onde estava Alice?
— Não sei — sussurrei. — Mas ela é Alice. Está fazendo a coisa certa, como sempre.
A coisa certa para Alice, em todo caso. Odiava pensar nela dessa maneira, mas de que outra maneira a situação poderia ser compreendida? Renesmee suspirou, e a saudade se intensificou.
— Também sinto falta dela.
Senti meu rosto tentando encontrar a expressão que combinasse com o pesar que eu sentia. Meus olhos estavam estranhos e secos; eles piscaram contra a sensação desagradável. Mordi o lábio. Quando respirei novamente, o ar se prendeu em minha garganta, como se eu estivesse sufocando.
Renesmee se afastou para me olhar e vi meu rosto espelhado em seus pensamentos e em seus olhos. Eu tinha a mesma expressão de Esme esta manhã. Então chorar era assim.
Os olhos de Renesmee cintilaram úmidos enquanto ela olhava meu rosto. Ela o afagou, sem me mostrar nada, só tentando me acalmar. Eu nunca tinha pensado em ver o vínculo mãe-filha invertido entre nós, como sempre fora com Renée e comigo. Mas eu não tinha uma visão muito clara do futuro.
Uma lágrima se formou na borda do olho de Renesmee. Eu a enxuguei com um beijo. Ela tocou o olho com surpresa e depois olhou a ponta do dedo molhada.
— Não chore — eu disse a ela. — Vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem. Eu vou encontrar uma maneira de tirar você dessa.
Mesmo que não pudesse fazer mais nada, eu salvaria minha Renesmee. Eu estava mais certa do que nunca de que era isso que Alice me daria. Ela saberia. Ela teria me deixado uma saída.

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