29 de setembro de 2015

Capítulo 27 - Planos de viagem

Desde que me tornara vampira, eu levava a mitologia muito mais a sério. Em geral, quando pensava nos meus três primeiros meses como imortal imaginava como o fio de minha vida devia se mostrar no tear do Destino. Quem sabia se isso realmente existia? Eu tinha certeza de que meu fio devia ter mudado de cor; pensava que provavelmente começara como um belo bege, algo que dava apoio e não era nada agressivo, algo que ficaria bem ao fundo. Agora eu tinha a sensação de que devia ser vermelho vivo, ou talvez ouro radiante.
A tapeçaria da família e dos amigos que se entrelaçava à minha volta era algo belo e cintilante, cheio das cores vivas e complementares dos outros.
Fiquei surpresa com algumas das tramas que vim a incluir em minha vida. Os lobisomens, com suas cores sóbrias e amadeiradas, não eram algo que eu esperara; Jacob, é claro, e Seth também. Mas meus velhos amigos Quil e Embry tornaram-se parte do tecido quando se uniram à matilha de Jacob, e até mesmo Sam e Emily eram cordiais. As tensões entre nossas famílias se atenuaram, principalmente por causa de Renesmee. Era fácil amá-la.
Sue e Leah Clearwater também estavam entrelaçadas em nossa vida. Outras duas que eu não previra.
Sue parecia ter tomado a si a tarefa de facilitar a transição de Charlie para o mundo do faz de conta. Ela ia com ele à casa dos Cullen na maioria das vezes, embora nunca parecesse verdadeiramente à vontade ali, como o filho e a maior parte da matilha de Jake. Ela não falava muito; só rondava Charlie, protetora. Ela era sempre a primeira pessoa para a qual ele olhava quando Renesmee fazia alguma coisa perturbadoramente precoce – o que acontecia com frequência Em resposta, Sue olhava Seth como quem diz: É, nem me fale.
Leah sentia-se ainda menos à vontade do que Sue e era a única parte de família recém-ampliada francamente hostil à fusão, mas ela e Jacob tinham uma nova camaradagem que a mantinha perto de todos nós. Uma vez perguntei a ele sobre isso – hesitante; eu não queria me intrometer, mas a relação era tão diferente do que eu me acostumara que me deixou curiosa. Ele deu de ombros e me disse que era coisa de matilha. Ela agora era a segunda em comando, sua “beta”, como havia muito eu o chamara.
— Cheguei à conclusão de que, se tinha de entrar para valer nessa história de alfa — explicou Jacob — era melhor acatar as formalidades.
A nova responsabilidade fez Leah sentir a necessidade de consultá-lo com frequência, e como ele estava sempre com Renesmee...
Leah não se sentia feliz perto de nós, mas era uma exceção. A felicidade era o principal componente de minha vida, o padrão dominante na tapeçaria. Tanto que meu relacionamento com Jasper agora era muito mais próximo do que eu jamais havia sonhado.
No início, porém, isso me deixava muito irritada.
— Puxa! — queixei-me com Edward numa noite depois que colocamos Renesmee no berço de ferro batido. — Se não matei Charlie e Sue até agora, provavelmente isso não vai mais acontecer. Queria que Jasper parasse de me rondar o tempo todo!
— Ninguém duvida de você, Bella, nem de leve — garantiu-me ele. — Você sabe como Jasper é... Ele não consegue resistir a um bom clima emocional. Você está tão feliz o tempo todo, amor, que ele gravita para você sem pensar.
E, então, Edward me abraçou com força, porque nada o deixava mais feliz do que meu êxtase transbordante naquela nova vida. E eu vivia eufórica na maior parte do tempo. Os dias não eram longos o bastante para que eu me fartasse de adorar minha filha; as noites não tinham horas suficientes para satisfazer minha necessidade de Edward.
Mas havia um avesso nessa alegria. Se virasse o tecido de nossa vida, eu imaginava que o desenho no verso exibiria opacos tons de cinza – de dúvida e medo.
Renesmee falou sua primeira palavra quando tinha exatamente uma semana de idade. A palavra foi mamãe, o que me teria feito ganhar o dia, não fosse eu ficar tão assustada com seu avanço, que mal consegui forçar um sorriso para ela em meu rosto paralisado. Não ajudou nada que ela passasse da primeira palavra à primeira frase num fôlego só. “Mamãe, cadê o vovô?”, ela havia perguntado, numa potente e límpida voz de soprano, só se dando ao trabalho de falar porque eu estava do outro lado da sala. Já havia perguntado a Rosalie, usando meios de comunicação normais (ou anormais, de outro ponto de vista). Rosalie não soubera a resposta, então Renesmee recorrera a mim.
Quando ela andou pela primeira vez, menos de três semanas depois, foi semelhante. Ela simplesmente observou Alice por um longo tempo, vendo a tia arrumar buquês nos vasos espalhados pela sala, bailando de um lado para o outro com os braços cheios de flores. Renesmee ficou de pé, nem um pouco vacilante, e atravessou a sala demonstrando quase a mesma elegância.
Jacob explodira num aplauso, porque claramente era essa a reação que Renesmee queria. A ligação que ele tinha com ela tornava suas próprias reações secundárias; seu primeiro reflexo era sempre dar a Renesmee o que ela precisava. Mas nossos olhos se encontraram e eu vi todo o pânico dos meus refletido nos dele. Bati palmas também, tentando esconder o medo. Edward aplaudiu silenciosamente, ao meu lado, e não precisamos falar para saber que pensávamos o mesmo.
Edward e Carlisle se lançaram à investigação, procurando qualquer resposta, alguma coisa a esperar. Havia muito pouco a ser encontrado, e nada era passível de verificação.
Alice e Rosalie, em geral, começavam nosso dia com um desfile de moda. Renesmee nunca usava a mesma roupa duas vezes – em parte porque crescia rápido demais e as roupas ficavam pequenas, em parte porque Alice e Rosalie estavam tentando fazer um álbum de bebê que parecesse abranger anos, não semanas. Elas tiravam milhares de fotos, documentando cada fase de sua infância acelerada.
Aos três meses, Renesmee podia ser uma menina grande de um ano, ou uma de dois, pequena. Seu corpo não tinha o formato exato do de uma criança dessa idade; ela era mais magra e mais graciosa, as proporções mais equilibradas, como as de um adulto. Seus cachos de bronze pendiam até a cintura, eu não suportava a ideia de cortá-los, mesmo que Alice permitisse. Renesmee podia falar com gramática e articulação impecáveis, mas raras vezes se dava ao trabalho, preferindo simplesmente mostrar às pessoas o que queria. Ela não só podia andar, como também correr e dançar. Até mesmo ler ela sabia.
Estava lendo Tennyson para ela uma noite porque o fluxo e o ritmo de sua poesia pareciam repousantes. (Eu tinha de pesquisar constantemente em busca de material novo; Renesmee não gostava de repetição em suas histórias antes de dormir, como supostamente outras crianças queriam, e não tinha eficiência com livros de imagens.) Ela estendeu a mão e tocou meu rosto, sua mente a imagem de nós duas, só que com ela segurando o livro. Eu o entreguei a ela, sorrindo.
— “Há uma doce melodia aqui” — ela leu sem hesitar — “que cai mais suave do que pétalas de rosa na relva, ou o orvalho em águas tranquilas entre paredes de granito escuras, em um...”
Estendi a mão como um robô para pegar o livro de volta.
— Se você ler, como vai dormir? — perguntei numa voz que mal ocultava o tremor.
Pelos cálculos de Carlisle, o crescimento do corpo dela desacelerava aos poucos; sua mente continuava a disparar à frente. Mesmo que a taxa de diminuição se mantivesse, ela ainda assim seria uma adulta em no máximo quatro anos.
Quatro anos! E uma velha aos quinze. Só quinze anos de vida!
Mas ela era tão saudável. Cheia de vida, brilhante, radiante e feliz. Seu bem-estar evidente me facilitava aproveitar a felicidade com ela no momento deixar o futuro para depois.
Carlisle e Edward discutiam nossas opções para o futuro, de cada ângulo, em vozes baixas que eu tentava não ouvir. Eles nunca tinham essas discussões quando Jacob estava por perto, porque havia uma maneira segura de deter o envelhecimento, e não era uma coisa que deixaria Jacob animado. Eu não ficava.
É perigoso demais!, gritavam meus instintos para mim. Jacob e Renesmee pareciam semelhantes de tantas maneiras, ambos seres híbridos, duas coisas ao mesmo tempo. E toda a tradição dos lobisomens insistia que o veneno de vampiro era uma sentença de morte e não um caminho para a imortalidade... Carlisle e Edward tinham esgotado a pesquisa que podiam fazer a distância, e agora estávamos nos preparando para rastrear antigas lendas em sua fonte. Íamos voltar ao Brasil, começando por lá. Os ticunas tinham lendas sobre crianças como Renesmee... Se outras crianças como ela já tinham existido, talvez ainda perdurasse alguma história da expectativa de vida de crianças semimortais...
A única pergunta real que restava era quando iríamos exatamente. Eu era o empecilho. Em parte porque queria ficar perto de Forks até depois dos feriados, por causa de Charlie. Mais do que isso, porém, havia uma viagem diferente que eu sabia que viria primeiro – essa era claramente a prioridade. Além disso, devia ser uma viagem solitária.
Aquela foi a única discussão que Edward e eu tivemos desde que eu me tornara vampira. O ponto principal de discórdia era a parte “solitária”. Os fatos eram o que eram, e meu plano era o único racional. Eu tinha de ir ver os Volturi, e tinha de fazer isso absolutamente só. Mesmo livre dos antigos pesadelos, de todos os sonhos, era impossível esquecer os Volturi. Nem eles nos deixavam sem lembretes.
Até o dia em que o presente de Aro apareceu, eu não sabia que Alice havia mandado um convite do casamento aos líderes Volturi; estávamos longe, na ilha de Esme, quando ela teve uma visão da guarda Volturi – Jane e Alec, os gêmeos de poder arrasador, entre eles. Caius pretendia mandar batedores para ver se eu ainda era humana, contra o édito deles (por eu saber sobre o mundo secreto dos vampiros, deveria me tornar um deles ou ser silenciada... para sempre). Então Alice mandara o convite pelo correio, vendo que isso faria com que eles adiassem a viagem enquanto decifravam o significado por trás daquilo. Mas um dia eles viriam. Era certo.
O presente em si não era abertamente ameaçador. Extravagante, sim, quase apavorante na extravagância. A ameaça estava na frase de despedida do bilhete de congratulações de Aro, escrito em tinta preta de próprio punho em um papel branco e pesado:

Espero ansiosamente a oportunidade de ver pessoalmente a nova Sra. Cullen.

O presente se apresentava em uma antiga caixa de madeira entalhada e incrustada com ouro e madrepérola, ornamentada com um arco-íris de pedras preciosas. Alice disse que a caixa em si era um tesouro inestimável, que superaria qualquer joia, menos aquela que continha.
— Sempre me perguntei onde foram parar as joias da coroa quando João da Inglaterra as penhorou no século XIII — disse Carlisle. — Acho que não me surpreende que os Volturi tenham algumas delas.
O colar era simples – ouro trançado em uma corrente grossa, quase e escamas, como uma serpente lisa que se fechava em torno do pescoço. Uma joia pendia da corrente: um diamante branco do tamanho de uma bola golfe.
O lembrete nada sutil no bilhete de Aro me interessou mais do que a joia. Os Volturi precisavam ver que eu era imortal, que os Cullen tinham obedecido às suas ordens, e precisavam ver isso logo. Não podíamos permitir que se aproximassem de Forks. E só havia uma maneira de manter segura nossa vida ali.
— Você não irá sozinha — insistira Edward entredentes, as mãos se fechando com força.
— Eles não vão me machucar — eu disse, tão tranquilizadora quanto pude, forçando minha voz a parecer segura. — Eles não têm motivos. Eu sou uma vampira. Caso encerrado.
— Não. De forma alguma.
— Edward, é a única maneira de protegê-la.
E ele não conseguira argumentar contra isso. Minha lógica era categórica.
Mesmo no curto tempo em que estivera com Aro, pude ver que ele era um colecionador – e seus tesouros mais valiosos eram suas peças vivas. Ele cobiçava a beleza, o talento e a raridade em seus seguidores imortais mais do que qualquer joia trancada em seus cofres. Já era muita infelicidade que ele tivesse começado a cobiçar as habilidades de Alice e de Edward. Eu não lhe daria nenhum outro motivo para ter inveja da família de Carlisle. Renesmee era linda, dotada e única – ela era singular. Não podíamos permitir que ele a visse, nem mesmo através dos pensamentos de alguém.
E eu era a única cujos pensamentos ele não podia ouvir. É claro que eu iria só.
Alice não via nenhum problema com minha viagem, mas estava preocupada com o caráter indistinto de suas visões. Disse que algumas vezes elas eram igualmente nebulosas quando havia decisões externas que podiam entrar em conflito, mas que ainda não tinham sido resolvidas. Essa incerteza fez Edward, já hesitante, opor-se veementemente ao que eu tinha de fazer. Ele queria ir comigo até minha conexão em Londres, mas eu não deixaria Renesmee sem ambos os pais. Carlisle iria, então, o que nos deixou – Edward e eu – um pouco mais relaxados, sabendo que Carlisle só estaria a algumas horas de distância de mim.
Alice continuou investigando o futuro, mas as coisas que encontrava não eram relacionadas com o que procurava. Uma nova tendência no mercado de ações; uma possível visita de reconciliação de Irina, embora a decisão dela não fosse firme; uma tempestade de neve que só chegaria dali a seis semanas; uma ligação de Renée (eu estava ensaiando minha voz “áspera”, e me aprimorava a cada dia – para Renée, eu ainda estava doente, mas me recuperando).
Compramos a passagem para a Itália um dia depois de Renesmee completar três meses. Eu pretendia que fosse uma viagem muito curta, então não contei a Charlie sobre ela. Jacob sabia e concordava com Edward. Mas naquele dia a discussão era sobre o Brasil. Jacob estava decidido a ir conosco.
Nós três, Jacob, Renesmee e eu, estávamos caçando juntos. A dieta de sangue animal não era a preferida de Renesmee – e era por isso que Jacob tinha permissão para nos acompanhar. Jacob criara uma competição entre eles, e isso a deixava mais disposta a ir que qualquer outra coisa.
Renesmee sabia com muita clareza a história do bem e do mal no que dizia respeito a caçar humanos; ela só pensava que o sangue doado era uma boa solução conciliatória. O alimento humano a satisfazia e parecia compatível com seu organismo, mas ela reagia a todas as variedades de alimentos sólidos com a mesma resistência martirizada que um dia eu tivera com couve-flor e feijão. O sangue animal era melhor do que isso, pelo menos Renesmee tinha uma natureza competitiva, e o desafio de derrotar Jacob a deixava animada para caçar.
— Jacob — eu disse, tentando argumentar com ele de novo, enquanto Renesmee dançava à nossa frente na longa clareira, procurando um cheiro de que gostasse. — Você tem obrigações aqui. Seth, Leah...
Ele bufou.
— Não sou a babá da minha matilha. Seja como for, todos eles têm responsabilidades em La Push.
— Como você? Oficialmente, você está largando a escola? Se não quer ficar atrás de Renesmee, vai ter de estudar muito mais.
— É só uma licença. Vou voltar à escola quando as coisas... se acalmarem.
Perdi minha concentração na discussão quando ele disse isso, e automaticamente nós dois olhamos para Renesmee. Ela fitava os flocos de neve flutuando acima de sua cabeça, derretendo antes de chegar à relva amarelada na longa campina em forma de uma ponta de flecha, onde estávamos. Seu vestido marfim de babados era um tom mais escuro do que a neve, e o cachos castanho-avermelhados brilhavam, embora o sol estivesse escondido atrás das nuvens.
Enquanto olhávamos, ela se agachou por um instante e então saltou cinco metros no ar. Suas mãozinhas agarraram um floco e ela caiu de pé com leveza.
Ela se virou para nós com seu sorriso perturbador – sinceramente, não era algo com que você pudesse se acostumar – e abriu as mãos para nos mostrar a estrela de gelo numa forma perfeita de oito pontas em sua palma antes de derreter.
— Lindo — disse Jacob a ela. — Mas acho que você está protelando, Nessie.
Ela saltou para Jacob; ele estendeu os braços no momento exato em que ela pulou neles. Eles tinham a sincronia perfeita. Ela fazia isso quando tinha algo a dizer. Ainda preferia não falar.
Renesmee tocou o rosto dele, numa careta adorável, quando todos ouvimos o som de um pequeno rebanho de alces andando na floresta.
— Claaro que não está com sede, Nessie — respondeu Jacob, meio sarcástico, porém mais indulgente que qualquer outra coisa. — Você tem medo que eu pegue o maior de novo!
Ela pulou dos braços de Jacob, pousando suavemente no chão, e revirou os olhos – parecia tanto com Edward quando fazia isso! Então correu na direção das árvores.
— Deixe que eu vou — disse Jacob quando eu me inclinei para segui-la. Ele arrancou a camiseta enquanto disparava atrás dela na floresta, já tremendo — Não conta se você trapacear — gritou ele para Renesmee.
Eu sorri para as folhas que eles deixaram flutuando, sacudindo a cabeça. Às vezes, Jacob era mais criança do que Renesmee.
Fiquei parada, dando a meus caçadores alguns minutos de dianteira. Seria muito simples localizá-los, e Renesmee adoraria me surpreender com o tamanho de sua presa.
A campina estreita estava muito silenciosa, muito vazia. A neve que flutuava afinava acima de mim, quase sumindo. Alice tinha visto que não ia durar muitas semanas.
Em geral, Edward e eu íamos juntos nessas excursões de caça. Mas Edward estava com Carlisle, planejando a viagem ao Rio, conversando na ausência de Jacob... Franzi o cenho. Quando voltasse, eu ficaria do lado de Jacob. Ele devia ir conosco. Ele tinha tanto interesse nisso quanto qualquer um de nós – toda a sua vida estava em risco, como a minha.
Enquanto meus pensamentos se perdiam no futuro próximo, meus olhos varreram a encosta da montanha por rotina, procurando presas, procurando perigos. Eu não pensava nisso; o impulso era automático.
Ou talvez houvesse um motivo para minha varredura, algum estímulo minúsculo que meus sentidos aguçados tinham captado antes que eu o percebesse conscientemente. Enquanto meus olhos percorriam a beira de um penhasco distante, destacando o cinza-azulado contra a floresta verde-escura, um brilho de prata – ou seria ouro? – chamou minha atenção.
Meu olhar concentrou-se na cor que não devia estar lá, tão longe na névoa que uma águia não teria sido capaz de distinguir. Eu a fitei. Ela me fitou de volta.
Que era uma vampira, isso era evidente. Sua pele era branca como o mármore, a textura um milhão de vezes mais lisa do que a pele humana. Mesmo sob as nuvens, ela cintilava um pouco. Se sua pele não a tivesse entregado, sua imobilidade o teria feito. Só os vampiros e as estátuas poderiam ficar tão perfeitamente imóveis.
Seu cabelo era de um louro muito, muito claro, quase prateado. Fora esse o brilho que meus olhos perceberam. Pendia reto como uma régua até a altura do queixo, dividido no meio.
Ela era estranha para mim. Eu tinha certeza absoluta de nunca tê-la visto mesmo como humana. Nenhum dos rostos em minha memória enevoada era igual àquele. Mas soube imediatamente de quem se tratava, devido aos olhos dourados escuros.
Irina decidira vir, afinal. Por um momento eu olhei, e ela retribuiu o olhar. Perguntei-me se ela também deduziria logo quem eu era. Eu ergui a mão a meio caminho, prestes a acenar, mas seu lábio se retorceu levemente, tornando seu rosto hostil de repente.
Ouvi o grito de vitória de Renesmee na floresta, ouvi o uivo de Jacob e vi o rosto de Irina se virar por reflexo para o som quando ele ecoou até ela, alguns segundos depois. Seu olhar se voltou para a direita, e eu sabia o que ela estava vendo. Um enorme lobisomem ruivo, talvez o mesmo que havia matado seu Laurent. Quanto tempo ela estivera nos observando? O suficiente para ver nossa conversa afetuosa antes, eu tinha certeza.
Seu rosto teve um espasmo de dor. Por instinto, abri as mãos na minha frente num gesto de quem se desculpa. Ela se voltou para mim e seu lábio recuou sobre os dentes. Seu queixo travou enquanto ela grunhia. Quando o som fraco chegou até mim, ela já havia se virado e desaparecido na floresta.
— Droga! — gemi.
Disparei para a floresta atrás de Renesmee e Jacob, sem querer tê-los fora de minhas vistas. Eu não sabia que direção Irina tomara, ou exatamente até que ponto estava furiosa. A vingança era uma obsessão comum para os vampiros, uma obsessão que não era fácil de reprimir.
Correndo a toda, só precisei de dois segundos para alcançá-los.
— O meu é maior — ouvi Renesmee insistir quando irrompi pelos arbustos densos até o pequeno espaço aberto onde eles estavam.
As orelhas de Jacob se achataram quando ele viu minha expressão; ele se agachou, mostrando os dentes, seu focinho estava sujo do sangue de sua presa. Os olhos percorreram a floresta. Eu podia ouvir o rosnado se formando em sua garganta.
Renesmee estava tão alerta quanto Jacob. Abandonando o cervo morto a seus pés, ela saltou em meus braços estendidos, pressionando as mãos curiosas contra o meu rosto.
— Estou exagerando — assegurei-lhes rapidamente. — Está tudo bem, eu acho. Esperem.
Peguei o celular e acionei a discagem rápida. Edward atendeu no primeiro toque. Jacob e Renesmee ouviam com atenção enquanto eu informava Edward.
— Venha e traga Carlisle. — Eu falava tão rápido, que me perguntei se Jacob podia me acompanhar. — Vi Irina e ela me viu, mas depois ela viu Jacob, ficou louca e saiu correndo, eu acho. Ela não apareceu aqui... pelo menos não ainda... mas parecia muito perturbada, então talvez venha. Se não vier, você e Carlisle têm de ir atrás dela para conversar. Eu me sinto muito mal.
Jacob rosnou.
— Chegaremos em meio minuto — Edward me asseverou, e pude ouvir silvo do vento provocado por sua disparada.
Corremos de volta à longa campina e esperamos em silêncio, enquanto Jacob e eu nos mantínhamos atentos ao som de uma aproximação que não reconhecêssemos.
Quando o som chegou, porém, era muito familiar. E então Edward estava ao meu lado, Carlisle alguns segundos atrás. Fiquei surpresa ao ouvir o ruído de patas pesadas atrás de Carlisle. Ocorreu-me que eu não devia estar surpresa. Com Renesmee correndo um risco mesmo remoto, era claro que Jacob chamaria reforços.
— Ela estava naquela beirada — eu lhes contei, apontando para o local. Se Irina estava fugindo, já teria uma boa dianteira. Será que pararia e ouviria Carlisle? Sua expressão de antes me fez pensar que não. — Talvez vocês devessem ligar para Emmett e Jasper e pedir para irem com vocês. Ela parecia... muito perturbada. Ela grunhiu para mim.
— Como é? — perguntou Edward com raiva.
Carlisle pôs a mão no braço dele.
— Ela está de luto. Vou atrás dela.
— Eu vou com você — insistiu Edward.
Eles trocaram um longo olhar – talvez Carlisle estivesse sopesando a irritação de Edward com a utilidade dele como leitor de pensamentos. Por fim Carlisle assentiu e eles partiram à procura do rastro, sem chamar por Jasper ou Emmett.
Jacob bufou de impaciência e cutucou minhas costas com o focinho. Ele devia querer Renesmee de volta à segurança da casa, só por precaução. Concordei e corremos para casa, com Seth e Leah em nossos flancos.
Renesmee estava complacente em meus braços, uma das mãos ainda pousada em meu rosto. Como a excursão de caça fora abortada, ela teria de se virar com sangue doado. Seus pensamentos eram meio insolentes.

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