30 de setembro de 2015

Capítulo 26

Se o assovio e ronronar de Skylar não tivessem chamado minha atenção, eu nunca teria visto Aphrodite caída no pequeno canto do corredor da sala de Neferet.
— O que é Skylar? — Eu ergui as mãos cuidadosamente lembrando o que Neferet disse sobre seu gato ser um mordedor conhecido. Eu também estava sinceramente feliz por Nala não estar comigo como sempre - Skylar provavelmente comeria minha pobre gata no almoço. “Gatinho, gatinho,” o enorme e laranja me deu um olhar considerado (provavelmente considerando se iria ou não morder minha mão). Então ele tomou sua decisão, e se mexeu até a minha direção. Ele se esfregou nas minhas pernas, então ele soltou um ótimo assovio antes de desaparecer pelo corredor na direção da sala de Neferet.
— Qual diabos é o problema dele? — Eu olhei hesitante para o canto, me perguntando o que faria um gato como Skylar baforar e assoviar, e então senti uma onda de choque. Ela estava sentada no chão, difícil de ver na sombra embaixo da beirada da estátua de Nyx. A mão dela estava virada para trás, e os olhos dela estavam virados então só a parte branca estava aparecendo.
Ela quase me matou de susto. Eu me senti congelar, esperando a qualquer segundo ver o sangue derramando pelo rosto dela. Então ela gemeu e murmurou algo que eu não consegui entender enquanto os globos oculares dela viravam pelos olhos voejados dela como se ela estivesse vendo algo. Eu percebi o que deveria estar acontecendo. Aphrodite estava tendo uma visão. Ela provavelmente a sentiu vindo e se escondeu no conto para que ninguém a visse e pudesse manter a informação sobre morte e destruição que ela podia impedir para ela mesma. Vaca. Bruxa.
Bem, eu não iria mais deixar ela escapar com essa merda. Eu me abaixei e agarrei-a pelo braço, a levantando. (Deixe-me te dizer, ela é muito mais pesada do que parece.)
— Anda — eu rugi meio que carregando ela enquanto ela se lançava cegamente para frente comigo. — Vamos dar uma volta pelo corredor e ver que tipo de tragédia você não queria comentar.
Graças a Deus, o quarto de Neferet não era muito longe. Nós entramos e Neferet pulou de trás da sua mesa e se apressou em nossa direção.
— Zoey! Aphrodite! O que? — Mas assim que ela olhou para Aphrodite, o alarme dela mudou para um calmo entendimento. — Me ajude a colocar ela aqui na minha cadeira. Ela ficará mais confortável lá.
Levamos Aphrodite para enorme cadeira de couro de Neferet, e a deixamos se afundar nela.
Então Neferet se abaixou para o lado dela e pegou a mão dela.
— Aphrodite, com a voz da deusa eu te suplico que conte a Sacerdotisa dela o que você vê. — A voz de Neferet era suave, mas que compelida, e eu podia sentir o poder no comando dela.
As pálpebras de Aphrodite imediatamente começaram a se abrir, e ela deu um profundo suspiro.
Então ela as abriu de repente. Os olhos dela pareciam enormes e vidrados.
— Tanto sangue! Tinha tanto sangue saindo do corpo dele!
— Quem, Aphrodite? Se concentre. Se foque e limpe a visão — Neferet ordenou.
Aphrodite deu outro profundo suspiro. — Eles estão mortos! Não. Não. Isso não pode ser! Não está certo. Não. Não é natural! Eu não entendo... Eu não... —Ela piscou os olhos de novo, e o deslumbre dela pareceu clarear. Ela olhou pela sala, como se não reconhecesse nada. Os olhos dela tocaram os meus. — Você... — ela disse fracamente. — Você sabe.
— Sim — eu disse, pensando que eu sabia que ela estava tentando esconder sua visão, mas tudo que eu disse foi: — eu te encontrei no corredor e... — Neferet ergueu a mão para me parar.
— Não, ela não terminou. Ela não deveria estar voltando a si tão cedo. A visão ainda é muito abstrata — Neferet me disse rapidamente, e então abaixou a voz de novo e assumiu o tom de comando compilador. — Aphrodite, volte. Veja o que é que você testemunhou, e o que você deve mudar.
Há! Te peguei agora. Eu não pude me impedir de ficar um pouco presunçosa. Afinal de contas, ela tinha tentado arrancar meu olho ontem.
— O morto... — Ficando cada vez mais difícil de entender, Aphrodite murmurou algo que soava como — Túneis... Eles... Mataram... Alguém... Lá... Eu... Não... Eu... Não posso... — Ela estava frenética, e eu quase senti pena dela. Claramente, o que quer que fosse que ela estivesse vendo estava assustando ela também. Então os olhos dela encontraram Neferet, e eu vi reconhecimento passar por eles e comecei a relaxar. Ela estava voltando e toda essa coisa estranha seria esclarecida. E quando pensei nisso, os olhos de Aphrodite, que pareciam estar trancados no de Neferet, se alargaram sem acreditar. Um olhar de terror passou pelo rosto dela e ela gritou.
Neferet bateu as mãos nos ombros trêmulos de Aphrodite. — Acorde! — Ela mal olhou pelos ombros para me dizer: — Vá agora Zoey. A visão dela é confusa. A morte de Elliott a chateou. Eu preciso ter certeza que ela voltou a si novamente.
Eu não precisava ser mandada duas vezes. Com a obsessão de Heath esquecida, eu sai correndo de lá e fui para a aula de espanhol.
Eu não conseguia me concentrar na aula. Eu continuava repassando a estranha cena com Neferet e Aphrodite de novo e de novo. Ela obviamente estava tendo uma visão sobre pessoas morrendo, mas pela reação de Neferet não tinha sido uma visão normal (se existe tal coisa).
Stevie Rae tinha dito que as visões de Aphrodite eram tão claras que ela pode direcionar as pessoas para o aeroporto certo e especificar até o avião que iria cair. Ainda sim hoje, de repente, nada estava claro. Bem, nada a não ser me vendo e dizer aquelas coisas estranhas, e gritando pra caramba com Neferet. Não fazia sentido. Eu estava quase ansiosa para ver como ela iria agir essa noite. Quase.
Eu guardei a escova de Persephone e peguei Nala, que estava empoleirada no topo do cocho do cavalo observando e fazendo seus estranhos me-eeh-uf-ows para mim, e comecei a devagar voltar para o dormitório. Dessa vez Aphrodite não brigou comigo, mas quando passei pelo canto do carvalho Stevie Rae, Damien, e as Gêmeas estavam empoleirados juntos conversando muito - que de repente parou quando eu apareci. Todos eles olharam de forma culpada para mim. Era bem fácil adivinhar sobre o que eles estavam falando.
— O que? — eu perguntei.
— Estávamos esperando por você — Stevie Rae disse. A felicidade usual dela estava desaparecida.
— Qual o problema com você? — eu perguntei.
— Ela está preocupada com você — Shaunee respondeu.
— Nós estamos preocupados com você — Erin corrigiu.
— O que está acontecendo com seu ex? — Damien perguntou.
— Ele está incomodando, só isso. Se ele não incomodasse, não seria meu ex. — Eu tentei falar indiferente, sem olhar para nenhum dos olhos dele por muito tempo. (Embora nunca tenha sido uma boa mentirosa.)
— Achamos que eu deveria ir com você hoje à noite — Stevie Rae disse.
— Na verdade, achamos que nós deveríamos ir com você hoje à noite — Damien corrigiu.
Eu franzi a testa para eles. De jeito nenhum eu iria querer que todos eles me vissem beber o sangue do perdedor que eles conseguissem arranjar misturado com o vinho hoje à noite.
— Não.
— Zoey, foi um péssimo dia. Todos estão estressados. Além do mais, Aphrodite está querendo te pegar. Faz sentido que fiquemos juntos hoje à noite — Damien disse logicamente.
Sim, era lógico, mas eles não sabiam a história toda. Eu não queria que eles soubessem a história toda. Ainda. A verdade era que eu me importava demais com eles. Eles me fizeram sentir aceita e segura - eles me fizeram sentir como se eu encaixasse aqui. Eu não podia arriscar perder isso agora, não quando tudo isso ainda era tão novo e assustador. Então eu fiz o que aprendi a fazer bem demais em casa quando estava assustada e chateada e não queria que ninguém soubesse - eu fiquei fula e na defensiva.
— Vocês dizem que eu tenho poderes que algum dia vão fazer de mim Alta Sacerdotisa? — Todos acenaram com vontade e sorriram para mim, o que fez meu coração se apertar. Eu cerrei os dentes e fiz minha voz soar realmente fria. — Então vocês precisam ouvir quando eu digo não. Eu não quero vocês lá hoje à noite. Isso é algo que eu tenho que lidar. Sozinha. E não quero falar mais sobre isso.
E então me afastei deles.
Naturalmente, dentro de meia hora eu me senti culpada por ter sido tão má. Eu andei de um lado para o outro de baixo do grande carvalho que de alguma forma tinha virado meu santuário, irritando Nala e desejando que Stevie Rae aparecesse para que eu pudesse me desculpar. Meus amigos não sabiam por que eu não os queria lá. Eles só estavam cuidando de mim. Talvez... Talvez eles entendessem o negócio do sangue. Erik pareceu entender. Ok, claro, ele era um quintanista, mas ainda sim. Todos deveríamos passar por isso. Todos deveríamos desejar sangue - ou morremos. Eu me alegrei um pouco e acariciei a cabeça de Nala.
— Quando a alternativa é a morte, beber sangue não parece tão ruim. Certo?
Ela ronronou então eu aceitei isso como um sim. Eu olhei a hora no relógio. Merda. Eu tinha que voltar para o dormitório, mudar de roupa, e ir me encontrar com as Filhas das Trevas. Com indiferença eu comecei a seguir o muro para trás. Era uma noite com nuvens de novo, mas não me importei com a escuridão. Na verdade, eu estava começando a gostar da noite. Eu deveria.
Seria meu elemento por um longo tempo. Se eu vivesse. Como se pudesse ler meu pensamento mórbido, Nala "me-eeh-uf-owed" emburrada para mim enquanto ela andava ao meu lado.
— Sim, eu sei. Eu não deveria ser tão negativa. Eu vou trabalhar nisso logo depois que eu... — O baixo rosno de Nala me surpreendeu. Ela parou. As costas dela estavam arqueadas e o pelo dela estava erguido, a fazendo parecer uma gorda bola de pelos, mas os olhos afiados dela não eram brincadeira, e nem a feroz assovio que saiu da boca dela. — Nala, o que...
Um terrível calafrio passou pela minha espinha mesmo antes deu virar para olhar na direção que minha gata estava encarando. Mais tarde, eu não pude descobrir porque eu não gritei. Eu me lembro da minha boca abrir para buscar ar, mas eu estava absolutamente silenciosa. Eu parecia estar entorpecida, mas isso era impossível. Se eu estivesse entorpecida não tem como eu ter ficado tão perfeitamente petrificada.
Elliott estava parado a menos de um metro de distância de mim na escuridão que engolia o espaço próximo ao muro. Ele deveria estar indo na mesma direção que Nala e eu estávamos andando. Então ele ouviu Nala, e meio que se virou na nossa direção. Ela assoviou de novo para ele e, com um rápido movimento assustado ele se virou para nos olhar diretamente.
Eu juro que eu não conseguia respirar. Ele era um fantasma - ele tinha que ser, mas ele parecia solido tão real. Se eu não tivesse visto o corpo dele rejeitar a Mudança, eu teria pensando que ele só estava muito pálido e... E... Estranho. Ele estava anormalmente branco, mas tinha mais coisas erradas com ele do que isso. Os olhos dele tinham mudado. Eles refletiam a pouca luz que tinha e brilhavam em um terrível vermelho rústico, como sangue seco.
Exatamente do jeito que os olhos do fantasma de Elizabeth brilhavam. Tinha mais alguma coisa diferente nele também.
O corpo dele parecia estranho - mais magro. Como isso era possível? O cheiro veio até mim.
Velho e seco e deslocado, como um armário que não era aberto há muitos anos ou um porão assustador. Era o mesmo cheiro que eu notei logo antes de ver Elizabeth.
Nala rugiu e Elliott jogado de um jeito estranho e meio corcunda assoviou de volta para ela.
Então ele juntou os dentes e eu pude ver que ele tinha presas! Ele deu um passo em direção a Nala como se ele fosse atacar ela. Eu não pensei, eu só reagi.
— Deixe ela em paz e sai daqui! —Me surpreendi como eu soei como se eu não estivesse fazendo nada mais excitante do que gritar com um cachorro mau, porque eu totalmente estava apavorada.
A cabeça dele virou na minha direção e o brilho nos olhos dele tocaram os meus pela primeira vez. Errado! A voz intuitiva dentro de mim que tinha se tornado familiar estava gritando. Isso é uma abominação!
— Você... — A voz dele era horrível. Era áspera e grossa, como se algo tivesse machucado a garganta dele. — Eu vou ter você! — E ele começou a vir na minha direção.
O medo me engolfou como um vento amargo.
A batalha de rugidos de Nala rasgou a noite quando ela se jogou contra o fantasma de Elliott.
Em completo choque eu assisti, esperando que a gata atravessasse o ar vazio. Ao invés disso ela pousou na cocha dele, as garras estendidas, arranhando e ganindo como um animal três vezes do tamanho dela. Ele gritou, agarrou ela pela nuca, e a jogou para longe. Então, com uma velocidade impossível e força ele literalmente pulou para o topo do muro, e desapareceu na noite que cercava a escola.
Eu estava tremendo tanto que eu tropecei. — Nala! — Eu chorei. — Onde você está garotinha?
Bufando e rosnando, ela se aproximou de mim, mas os olhos cortantes dela ainda estavam focados no muro. Eu me arrastei para o lado dela, e com as mãos tremendo a chequei para me certificar que ela estava inteira. Ela parecia não ter quebrado nada, então eu a coloquei para cima e comecei a me afastar do muro o mais rápido que eu pude.
— Está tudo bem. Estamos bem. Ele foi embora. Que garota corajosa você é. — Eu fiquei falando para ela. Ela se empoleirou no meu ombro para poder ver atrás de nós, e continuou a rosnar.
Quando eu vi a primeira luz, não muito longe da sala de recreação, eu parei e mudei a posição de Nala para olhar mais perto se ela estava bem. O que eu encontrei fez meu estômago se apertar com tanta força que eu pensei que fosse vomitar. Nas patas dela havia sangue. Mas não eram de Nala. E não tinha um cheiro delicioso como outros sangues que eu tinha cheirado.
Ao invés disso carregava o cheiro de um mofado e seco, velho de porão. Eu me forcei a não tentar vomitar enquanto limpava as patas dela na grama. Então eu a ergui de novo e me apressei pela calçada que levava para o dormitório. Nala nunca parou de olhar para trás de nós e rosnar.
Stevie Rae, as Gêmeas, e Damien estavam suspeitosamente ausentes do dormitório. Eles não estavam assistindo TV - não estavam na sala do computador ou na biblioteca, e também não estavam na cozinha. Eu subi rapidamente pelas escadas, esperando desesperadamente que pelo menos Stevie Rae estivesse no quarto. Não tive sorte.
Eu sentei na cama, acariciando a ainda distraída Nala. Eu deveria tentar encontrar meus amigos? Ou deveria apenas ficar aqui? 
Stevie Rae iria eventualmente voltar para o quarto. Eu olhei para o relógio do Elvis dela. Eu tinha cerca de dez minutos para me trocar e ir para a sala de recreação. Mas como eu podia seguir com o ritual depois do que tinha acontecido?
O que tinha acontecido?
Um fantasma tentou me atacar. Não. Não estava certo. Como poderia haver um fantasma que sangra? Mas tinha sido sangue? Não cheirava a sangue. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
Eu deveria ir diretamente até Neferet e dizer a ela o que tinha acontecido. Eu deveria levantar agora e me levar e minha gata surtada para Neferet e contar a ela sobre Elizabeth na noite passada e agora Elliott hoje à noite. Eu deveria... Eu deveria...
Não. Dessa vez não foi um grito dentro de mim. Foi uma certeza. Eu não podia contar a Neferet, pelo menos não agora.
— Eu tenho que ir para o ritual. — Eu disse em voz alta às palavras que estavam ecoando na minha mente. — Eu tenho que estar nesse ritual.
Enquanto eu colocava o vestido preto e procurava no armário pela minha rasteirinha eu me senti ficando muito calma. As coisas aqui não jogavam as mesmas regras do meu antigo mundo - na minha vida antiga - e era hora deu aceitar isso e começar a me acostumar.
Eu tinha uma afinidade com os cinco elementos, o que significava que eu tinha sido presenteada com incríveis poderes por uma antiga deusa. Como vovó me lembrou, grande poder traz grande responsabilidade. Talvez eu estivesse sendo permitida de ver essas coisas por uma razão. Eu não sabia o que isso significa ainda. Na verdade, eu não sabia muito a não ser os dois pensamentos que estavam clareando na minha mente: eu não podia contar a Neferet, e eu tinha que ir para o ritual.
Me apressando para a sala de recreação, eu tentei pelo menos pensar positivamente. Talvez Aphrodite não aparecesse hoje à noite, ou estivesse lá, mas esquecesse de me perseguir.
Acabou como mandava minha sorte, não ser nenhum dos casos.

2 comentários:

  1. Caramba, Aphrodite preocupada com o Elliot? Que desculpa mais esfarrapada essa que a Neferet deu, tava mais que óbvio que ela não queria que a Aphrodite contasse sobre a visão. Essa mulher é uma cobra disfarçada de boa moça.
    E esses alunos que deviam estar mortos acho que é coisa dela, pq a Stevie disse que é ela que leva eles pra morte depois que o corpo rejeita a mudança.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!