29 de setembro de 2015

Capítulo 25 - Favor

Foi só um pouquinho mais tarde que Edward me lembrou de minhas prioridades. Ele só precisou de uma palavra.
— Renesmee...
Eu suspirei. Ela acordaria logo. Devia ser quase sete da manhã. Será que ela procuraria por mim? De repente, alguma coisa próxima do pânico deixou meu corpo paralisado. Como Renesmee estaria hoje?
Edward sentiu meu completo aturdimento, minha tensão.
— Está tudo bem, amor. Vista-se e estaremos de volta à casa em dois segundos.
Eu devia estar parecendo um desenho animado, pelo modo como me pus de pé num salto e olhei para ele – seu corpo de diamante cintilando levemente na luz difusa – então olhei para o oeste, onde Renesmee esperava, depois voltei a ele de novo, depois para ela, minha cabeça virando de um lado para o outro meia dúzia de vezes em um segundo. Edward sorriu, mas não riu; ele era um homem forte.
— É tudo uma questão de equilíbrio, amor. Você é tão boa em tudo isso, imagino que não levará muito tempo para ter uma visão melhor da situação.
— E temos a noite toda, não é?
Ele abriu um largo sorriso.
— Acha que suportaria a ideia de deixar você se vestir agora, se não fosse assim?
Isso teria de ser o suficiente para me fazer atravessar as horas do dia. Eu equilibraria aquele desejo esmagador e arrasador para ser uma boa... Era difícil pensar na palavra. Embora Renesmee fosse muito real e essencial em minha vida, ainda era difícil pensar em mim como mãe. Mas acho que qualquer uma sentiria o mesmo, sem nove meses para se acostumar com a ideia. E com uma criança que mudava a cada hora. O pensamento na vida acelerada de Renesmee me estressou de novo. Nem parei nas portas duplas entalhadas para recuperar o fôlego antes de descobrir o que Alice tinha feito. Eu simplesmente irrompi no closet, decidida a vestir a primeira roupa que me aparecesse à frente. Eu devia saber que não seria fácil.
— Quais são minhas? — sibilei.
Como prometido, o closet era maior do que nosso quarto. Talvez fosse maior o que o resto da casa, mas eu teria de medir para ter certeza. Tive um breve lampejo de Alice tentando convencer Esme a ignorar as proporções clássicas e permitir aquela monstruosidade. Perguntei-me como Alice vencera.
Estava tudo guardado em sacos de roupas, imaculados e brancos, fila após fila.
— Até onde eu sei, tudo, exceto este suporte aqui — ele tocou uma barra que se estendia por meia parede à esquerda da porta — é seu.
— Tudo isso?
Ele deu de ombros.
— Alice — dissemos juntos.
Ele proferiu o nome dela como uma explicação; eu, como um expletivo.
— Muito bem — murmurei, e abri o zíper do saco mais próximo. Gemi entredentes quando vi o vestido de seda longo dentro dele: rosa-bebê.
Eu levaria o dia todo para encontrar alguma coisa normal para vestir!
— Deixe-me ajudar — ofereceu Edward.
Ele farejou com cuidado o ar então seguiu algum cheiro até o fundo do cômodo comprido. Havia uma cômoda embutida ali. Com um sorriso de triunfo, ele estendeu uma calça jeans desbotada.
Voei para o lado dele.
— Como fez isso?
— O jeans tem seu próprio cheiro, como tudo. Agora... algodão de stretch?
Ele seguiu o nariz até uma armação, desenterrando uma camiseta branca de manga comprida. Atirou-a para mim.
— Obrigada — eu disse com ardor. Aspirei os dois tecidos, memorizando cheiro para buscas futuras por aquele hospício. Eu me lembrava da seda e do cetim; esses eu iria evitar. Ele só precisou de segundos para encontrar as próprias roupas – se eu não tivesse visto nu, teria jurado que nada era mais lindo do que Edward com a calça cáqui e o pulôver bege-claro – e, então, ele pegou minha mão. Disparamos pelo jardim secreto, saltando sobre o muro de pedra, e chegamos à floresta num átimo. Soltei a mão para corrermos de volta. Desta vez ele me venceu.
Renesmee estava acordada; sentada no chão com Rose e Emmett a velando, brincando com uma pequena pilha de talheres retorcidos. Estava uma colher mutilada na mão direita. Assim que me viu pelo vidro, ela atirou a colher no chão – onde deixou uma marca na madeira – e apontou imperiosamente na minha direção. Sua plateia riu; Alice, Jasper, Esme e Carlisle estavam sentados no sofá, olhando-a como se ela fosse o filme mais interessante do mundo.
Passei pela porta quando a risada deles mal havia começado, atravessando a sala num salto e pegando-a do chão no mesmo segundo. Sorrimos uma para a outra.
Ela estava diferente, mas não muito. Um pouco maior novamente, seu tamanho passando do de bebê para o de criança. O cabelo estava cerca de meio centímetro mais comprido, os cachos balançando como molas a cada movimento. Eu tinha me deixado dominar pela imaginação durante o trajeto até ali, e imaginara algo pior do que aquilo. Graças a meus medos exagerados, essas pequenas mudanças eram quase um alívio. Mesmo sem as medições de Carlisle, tinha certeza de que as mudanças eram mais lentas do que na véspera.
Renesmee deu palmadinhas em meu rosto. Eu estremeci. Ela estava com fome de novo.
— Há quanto tempo ela está acordada? — perguntei enquanto Edward desaparecia pela porta da cozinha.
Eu tinha certeza de que ele tinha ido pegar o café da manhã dela, tendo visto o que ela acabara de pensar com a mesma clareza que eu. Perguntei-me se ele teria percebido sua pequena peculiaridade se fosse o único a conhecê-la. Para ele, provavelmente, seria o mesmo que ouvir alguém.
— Só alguns minutos — disse Rose. — Já íamos chamar você. Ela estava chamando você... exigindo talvez seja uma descrição melhor. Esme sacrificou seu segundo melhor faqueiro de prata para manter a monstrinha entretida. — Rose sorriu para Renesmee com tanto afeto que a crítica não teve peso nenhum. — Não queríamos... hã... incomodar.
Rosalie mordeu o lábio e desviou o olhar, tentando não rir. Eu podia sentir a risada silenciosa de Emmett atrás de mim, provocando vibrações fundações da casa. Mantive o queixo erguido.
— Vamos terminar seu quarto logo — eu disse a Renesmee. — Você vai gostar do chalé. É mágico. — Olhei para Esme. — Obrigada, Esme. Muito. É absolutamente perfeito.
Antes que Esme pudesse responder, Emmett estava rindo de novo.
— Então ainda está de pé? — ele conseguiu dizer entre as gargalhadas. — Pensei que vocês dois o teriam destruído a essa altura. O que fizeram ontem à noite? Discutiram a dívida interna do país?
Ele uivava de tanto rir. Trinquei os dentes e lembrei a mim mesma das consequências negativas quando deixara que meu gênio levasse a melhor, na véspera. É claro que Emmett não era tão frágil quanto Seth... Pensar em Seth me fez perguntar:
— Onde estão os lobos hoje? — Olhei pela parede de vidro, mas não havia sinal de Leah por ali.
— Jacob saiu hoje de manhã bem cedo — disse Rosalie, com um pequeno vinco na testa. — Seth o seguiu.
— O que o incomodou? — perguntou Edward, voltando para a sala com o copo de Renesmee.
Devia haver mais na lembrança de Rosalie do que eu vira em sua expressão. Sem respirar, entreguei Renesmee a Rosalie. Eu podia ter um superautocontrole, talvez, mas de forma alguma conseguiria alimentá-la. Ainda não.
— Não sei... nem ligo — grunhiu Rosalie, mas respondeu à pergunta de Edward mais completamente. — Ele estava vendo Nessie dormir, de boca aberta, como o idiota que é, e então se levantou sem motivo nenhum... pelo menos que eu tivesse percebido... e disparou para fora. Eu fiquei feliz por me livrar dele. Quanto mais tempo ele passa aqui, menor é a probabilidade de nos livrarmos do cheiro.
— Rose — repreendeu Esme delicadamente.
Rosalie jogou o cabelo para trás.
— Acho que não importa. Não vamos ficar muito tempo por aqui.
— Eu ainda acho que devemos ir direto para New Hampshire e preparar as coisas — disse Emmett, obviamente continuando uma conversa anterior. — Bella já esta matriculada em Dartmouth. Não parece que levará muito tempo conseguir lidar com a faculdade. — Ele se virou e olhou para mim com um sorriso zombeteiro. — Sei que vai ser a melhor aluna da turma... Ao que parece, não há nada de interessante para você fazer à noite além de estudar.
Rosalie deu uma risadinha.
Não perca a calma, não perca a calma, entoei para mim mesma. E então senti orgulhosa por não perder a cabeça. Assim, fiquei muito surpresa que Edward perdesse a dele. Ele rosnou – um som áspero, chocante e abrupto – e a fúria mais sombria tomou sua expressão como nuvens de tempestade.
Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, Alice estava de pé.
— O que ele está fazendo? O que aquele cachorro está fazendo, que apagou todo o meu cronograma do dia? Não consigo ver nada! Não! — lançou um olhar torturado. — Olhe para você! Vou ter de lhe mostrar como usar o closet.
Por um segundo fiquei grata por qualquer coisa que Jacob estivesse aprontando. E depois as mãos de Edward se fecharam, e ele rosnou.
— Ele conversou com Charlie. Acha que Charlie o está seguindo. Vindo para cá. Hoje.
Alice disse uma palavra que soou muito estranha em sua voz marcante e refinada, e então partiu num movimento indistinto, pela porta dos fundos.
— Ele disse a Charlie? — ofeguei. — Mas... ele não entende? Como ele pôde fazer isso? — Charlie não podia saber sobre mim! Sobre vampiros! Isso o colocaria numa lista negra da qual nem os Cullen poderiam salvá-lo. — Não!
Edward falou entredentes.
— Jacob está entrando agora.
Devia ter começado a chover para leste. Jacob passou pela porta sacudindo o cabelo molhado, como um cão, jogando gotas no carpete e no sofá, que formaram pequenas manchas cinzentas no branco. Seus dentes cintilavam contra os lábios escuros; seus olhos estavam brilhantes e animados. Ele andava aos arrancos, como se estivesse todo empolgado por destruir a vida de meu pai.
— Oi, pessoal — ele nos cumprimentou, sorrindo.
O silêncio era completo.
Leah e Seth entraram atrás dele, em suas formas humanas – por ora; as mãos dos dois tremiam com a tensão na sala.
— Rose — eu disse, estendendo os braços.
Sem dizer nada, Rosalie me passou Renesmee. Coloquei-a perto de meu coração parado, segurando como um talismã contra o comportamento imprudente. Eu a manteria meus braços até ter certeza de que minha decisão de matar Jacob se baseasse inteiramente em uma avaliação racional e não na fúria.
Ela ficou muito quieta, vendo e ouvindo. Quanto ela entendia?
— Charlie vai chegar logo — disse-me Jacob despreocupadamente. — Só um aviso. Imagino que Alice tenha ido comprar óculos de sol para você ou coisa assim.
— Você imagina demais — cuspi entredentes. — O. Que. Você. Fez?
O sorriso de Jacob vacilou, mas ele ainda estava animado demais para responder a sério.
— A Loura e Emmett me acordaram hoje de manhã falando sem parar sobre vocês se mudarem para o outro lado do país. Como se eu pudesse deixar vocês irem embora. Charlie era o maior problema aqui, não é? Bom, problema resolvido.
— Será que você percebe o que fez? O perigo em que o colocou?
Ele bufou.
— Não o coloquei em perigo nenhum. A não ser por você. Mas você tem uma espécie de autocontrole sobrenatural, não é? Não é tão bom quanto ler a mente, se quiser minha opinião. É muito menos empolgante.
Edward então se mexeu, disparando pela sala e colocando-se diante de Jacob. Embora ele fosse meia cabeça mais baixo, Jacob se afastou de sua raiva, cambaleando, como se Edward se avultasse sobre ele.
— Isso é só uma teoria, vira-lata — ele rosnou. — Acha que vamos testar com Charlie? Você considerou a dor física que está infligindo a Bella, mesmo que ela consiga resistir? Ou a dor emocional, se não conseguir? Imagino que o que acontece com Bella não preocupe mais você! — Ele cuspiu a última palavra.
Renesmee apertou os dedos com ansiedade em meu rosto, a angústia tingindo a reprise em sua mente. As palavras de Edward finalmente atravessaram o humor estranhamente elétrico de Jacob. Sua boca se franziu.
— Bella vai sentir dor?
— Como se você enfiasse um ferro em brasa em sua garganta!
Eu me encolhi, lembrando o cheiro do sangue humano puro.
— Eu não sabia disso — sussurrou Jacob.
— Então talvez devesse ter perguntado primeiro — grunhiu Edward.
— Você teria me impedido.
— Você devia ter sido impedido...
— Não se trata de mim — interrompi. Eu estava completamente imóvel, segurando Renesmee e minha sanidade. — Trata-se de Charlie, Jacob. Como pode colocá-lo em perigo dessa maneira? Percebe que agora para ele é a morte ou a vida de vampiro também? — Minha voz tremia com as lágrimas que meus olhos não podiam mais derramar.
Jacob ainda estava perturbado com as acusações de Edward, mas as minhas não pareceram incomodá-lo.
— Relaxe, Bella. Eu não contei a ele nada que você não pretendesse falar.
— Mas ele está vindo para cá!
— É, a ideia é essa. Não era parte de seus planos deixar que ele “tirasse suas próprias conclusões erradas”? Acho que dei uma boa pista falsa, é o que eu diria.
Meus dedos se afastaram de Renesmee. Eu os fechei de volta, com firmeza.
— Fale abertamente, Jacob. Não estou com paciência para isso.
— Eu não contei nada a ele sobre você, Bella. Não mesmo. Contei sobre mim. Bom, mostrei deve ser uma palavra melhor.
— Ele se metamorfoseou na frente de Charlie — sibilou Edward.
— Você o quê? — sussurrei.
— Ele é corajoso. Corajoso como você. Não desmaiou, não vomitou, nem nada parecido. Devo dizer que fiquei impressionado. Mas devia ver a cara dele quando comecei a tirar a roupa. Não tem preço. — Jacob riu.
— Você é um imbecil completo! Ele podia ter tido um ataque cardíaco!
— Charlie está bem. Ele é durão. Se você pensar só por um minuto, verá que lhe fiz um favor.
— Você tem metade disso, Jacob. — Minha voz era monótona, de aço. — Tem trinta segundos para me dizer cada palavra antes que eu entregue Renesmee a Rosalie e arranque sua cabeça infeliz. Seth não poderá me deter dessa vez.
— Meu Deus, Bells. Você não era assim tão melodramática. Isso é uma coisa de vampiro?
— Vinte e seis segundos.
Jacob revirou os olhos e desabou na cadeira mais próxima. Sua pequena matilha se moveu para se colocar em seus flancos, nem um pouco relaxados, como ele parecia estar; os olhos de Leah estavam em mim, os dentes ligeiramente expostos.
— Então eu bati na porta de Charlie hoje de manhã e pedi a ele que fosse dar uma volta comigo. Ele ficou confuso, mas quando lhe disse que era sobre você e que você estava de volta à cidade, ele me seguiu até o bosque. Eu disse que você não estava mais doente e que as coisas estavam um pouco estranhas, mas estavam bem. Ele estava prestes a sair correndo para vir vê-la, mas eu disse que antes tinha de mostrar uma coisa. E então me transformei. — Jacob deu de ombros.
Parecia que meus dentes estavam comprimidos por um torno.
— Quero cada palavra, seu monstro.
— Bom, você disse que eu só tinha trinta segundos... Tudo bem, tudo bem. — Minha expressão deve tê-lo convencido de que eu não estava com humor para brincadeiras. — Deixe-me ver... Voltei a me transformar em humano e me vesti, e depois que ele começou a respirar novamente eu disse algo como: “Charlie, você não vive no mundo em que pensava que vivia. A boa notícia é que nada mudou... só que agora você sabe. A vida vai seguir, como sempre. Você pode voltar a fingir que não acredita em nada disso.
“Ele precisou de um minuto para se recuperar, depois quis saber o que realmente tinha acontecido com você, com essa história de doença rara. Disse a ele que você tinha mesmo adoecido, mas que agora estava bem... só que acabou mudando um pouco no processo de recuperação. Ele queria saber o que eu queria dizer com ‘mudando’, e eu falei que você agora estava mais parecida com Esme que com Renée.
Edward sibilou enquanto eu o fitava, apavorada; aquilo estava tomando um rumo perigoso.
— Depois de alguns minutos, ele perguntou, muito baixo, se você tinha se transformado em um animal também. E eu disse: Bem que ela queria ser assim tão bacana! — Jacob riu.
Rosalie fez um ruído de nojo.
— Comecei a contar mais a ele sobre os lobisomens, mas nem precisei falar muito... Charlie me interrompeu e disse que não queria “saber dos detalhes”. Depois perguntou se você sabia no que estava se metendo quando se casou com Edward e eu disse: “Claro, ela sabe tudo isso há anos, desde que veio para Forks.” Ele não gostou muito disso. Deixei que praguejasse até se acalmar. Depois, ele só queria duas coisas. Queria ver você, e eu disse que seria melhor se ele me desse uma dianteira para eu poder explicar.
Respirei fundo.
— Qual era a outra coisa que ele queria?
Jacob sorriu.
— Dessa você vai gostar. Seu principal pedido é que lhe digam o mínimo possível de tudo isso. Se não for absolutamente essencial que ele saiba de alguma coisa,então guarde para si mesma. Só quer saber o necessário.
Pela primeira vez desde que Jacob entrara na casa eu senti alívio.
— Posso lidar com essa parte.
— Além disso, ele prefere fingir que as coisas estão normais — Jacob exibiu um sorriso de satisfação; devia desconfiar de que àquela altura eu começaria a sentir os primeiros sinais de gratidão.
— O que você disse a ele sobre Renesmee? — Lutei para manter a aspereza na voz, reprimindo a gratidão relutante. Era prematuro. Ainda havia tanta coisa errada naquela situação. Mesmo que a intervenção de Jacob tive provocado em Charlie uma reação melhor do que eu jamais esperara.
— Ah, sim. Eu disse a ele que você e Edward tinham herdado uma nova boquinha para alimentar. — Ele olhou para Edward. — Ela é sua protegida órfã... Como Bruce Wayne e Dick Grayson. — Jacob resfolegou. — Não achei que se importariam de que eu mentisse. Isso tudo faz parte do jogo, não é? — Edward não respondeu, então Jacob continuou. — A essa altura o choque de Charlie já havia passado, mas ele perguntou se vocês a estavam adotando. “Como uma filha? Quer dizer que sou avô?”, foram as palavras dele. Eu disse que sim. “Parabéns, vovô”, e tudo isso. Ele até sorriu um pouco.
O prurido voltou aos meus olhos, mas dessa vez não por medo ou angústia. Charlie sorrindo com a ideia de ser avô? Charlie iria conhecer Renesmee?
— Mas ela está mudando tão rápido — sussurrei.
— Eu comentei que ela era mais especial do que todos nós juntos — disse Jacob com a voz suave. Ele se levantou e veio direto a mim, dispensando Leah e Seth quando eles começaram a segui-lo. Renesmee estendeu os braços para ele, mas eu a segurei com mais força. — Eu disse a ele: Confie em mim, não vai querer saber sobre isso. Mas, se puder ignorar todas as partes estranhas, vai ficar assombrado. Ela é a pessoa mais maravilhosa do mundo. E então eu falei que se ele pudesse lidar com isso, vocês todos ficariam aqui por mais tempo, e ele teria chance de conhecê-la. Mas que, se fosse demais para ele, vocês iriam embora. Ele disse que desde que ninguém lhe desse informações demais, por ele estava tudo bem.
Jacob me fitou com um meio sorriso, à espera.
— Não vou dizer obrigada — afirmei. — Você ainda está pondo Charlie em grande risco.
— Lamento muito que isso a machuque. Não sabia que era assim. Bella, as coisas agora estão diferentes conosco, mas você sempre será minha melhor amiga e eu sempre vou amar você. Só que agora vou amar da forma certa. Finalmente existe um equilíbrio. Nós dois temos pessoas sem as quais podemos viver. — Ele me dirigiu seu sorriso mais característico. — Ainda amigos?
Por mais que eu tentasse resistir, tive de sorrir também. Só um pouquinho. Ele estendeu a mão: uma oferta. Respirei fundo e transferi o peso de Renesmee para um só braço. Pus a mão esquerda na dele – ele nem se encolheu com o toque de minha pele fria.
— Se eu não matar Charlie esta noite, vou pensar em perdoar você por isso.
— Quando você não matar Charlie esta noite, vai me dever muito.
Revirei os olhos. Ele estendeu a outra mão para Renesmee, dessa vez com um pedido.
— Posso?
— Na verdade eu a estou segurando a fim de não ter as mãos livres para matar você, Jacob. Talvez em outra hora.
Ele suspirou, mas não insistiu. Sensato da parte dele. Alice entrou correndo pela porta, as mãos cheias e a expressão prometendo violência.
— Você, você e você — disparou ela, fuzilando os lobisomens com os olhos. — Se vão ficar aqui, vão para o canto e fiquem ali por um tempo. Eu preciso ver. Bella, é melhor entregar o bebê a ele também. Vai precisar dos braços livres, de qualquer forma.
Jacob sorriu, triunfante. O mais puro medo rasgou meu estômago enquanto a monstruosidade do que eu estava prestes a fazer me atingiu. Eu ia apostar no meu duvidoso autocontrole, e meu pai imaculadamente humano seria a cobaia. As palavras anteriores de Edward se chocaram em meus ouvidos de novo.
Você considerou a dor física que esta infligindo a Bella, mesmo que ela consiga resistir? Ou a dor emocional, se não conseguir?
Eu não podia imaginar a dor do fracasso. Minha respiração transformou-se em arquejos.
— Pegue-a — sussurrei, passando Renesmee para os braços de Jacob.
Ele assentiu, a preocupação vincando sua testa. Ele gesticulou para os outros, e foram para o canto mais distante da sala. Seth e Leah agacharam-se no chão mesmo tempo, mas Leah sacudiu a cabeça e franziu os lábios.
— Tenho permissão para sair? — queixou-se.
Leah parecia pouco à vontade no corpo humano, usando a mesma camiseta e shorts de algodão sujos que usou para me passar um sermão no outro dia, o cabelo curto espetado em tufos irregulares. Suas mãos ainda tremiam.
— É claro — disse Jake.
— Fique a leste para não atravessar o caminho de Charlie — acrescentou Alice.
Leah não olhou para Alice; saiu pela porta e partiu para os arbustos de se metamorfosear. Edward estava de volta ao meu lado, afagando meu rosto.
— Você pode fazer isso. Sei que pode. Eu vou ajudá-la; nós todos vamos.
Fitei os olhos de Edward com o pânico estampado no meu rosto. Seria ele forte o bastante para me deter se eu fizesse um movimento errado?
— Se eu não acreditasse que você pode enfrentar isso, iríamos embora hoje. Neste minuto. Mas você pode. E vai ficar mais feliz se puder ter Charlie em sua vida.
Tentei acalmar minha respiração. Alice estendeu a mão. Havia uma caixinha branca em sua palma.
— Elas vão irritar seus olhos... Não doem, mas embaçam a visão. É irritante. Também não são da sua antiga cor, mas é ainda melhor do que o vermelho vivo, não é?
Ela jogou a caixa de lentes de contato e eu peguei.
— Quando foi que você...
— Antes de vocês saírem em lua de mel. Eu me preparei para vários futuros possíveis.
Assenti e abri o recipiente. Eu nunca usara lentes de contato, mas não devia ser difícil. Peguei a pequena meia esfera marrom e a comprimi, com o lado côncavo para dentro, em meu olho.
Eu pisquei e uma película interrompeu minha visão. Eu podia ver através dela, é claro, mas também podia ver a textura da tela fina. Meu olho insistia em focalizar os arranhões e imperfeições microscópicos.
— Entendo o que quer dizer — murmurei enquanto colocava a outra lente.
Dessa vez, tentei não piscar. Meu olho automaticamente quis desalojar a obstrução.
— Como estou?
Edward sorriu.
— Linda. É claro...
— Sim, sim, ela está sempre linda — Alice terminou o pensamento dele com impaciência. — É melhor que vermelho, mas é o maior elogio que posso fazer. Castanho-lamacento. Seu castanho era muito mais bonito. Lembre-se que elas não duram para sempre... o veneno em seus olhos as dissolverá em algumas horas. Assim, se Charlie ficar mais tempo do que isso, você terá de pedir licença para substituí-las. O que de qualquer maneira é uma boa ideia, porque os humanos precisam de intervalos para usar o banheiro — ela sacudiu a cabeça. — Esme, dê a ela algumas dicas sobre como agir como humana enquanto eu abasteço o lavabo com lentes de contato.
— Quanto tempo eu tenho?
— Charlie chegará em cinco minutos. Simplifique.
Esme assentiu e veio pegar minha mão.
— O principal é não se sentar imóvel demais nem se mover rápido demais — disse-me ela.
— Sente-se, se ele se sentar — intrometeu-se Emmett. — Os humanos não gostam de ficar de pé.
— Deixe que seus olhos vaguem a cada trinta segundos mais ou menos. — acrescentou Jasper. — Os humanos não encaram uma coisa por tempo demais.
— Cruze as pernas por uns cinco minutos, depois cruze os tornozelos por mais cinco — disse Rosalie.
Assenti a cada sugestão. Eu os observara fazendo algumas dessas coisas na véspera. Acreditava que podia imitar sua atitude.
— E pisque pelo menos três vezes por minuto — disse Emmett. Ele franziu o cenho, depois disparou para onde estava o controle remoto da tevê, na mesa lateral. Ligou a tevê num jogo de futebol americano e assentiu para si mesmo.
— Mexa as mãos também. Jogue o cabelo para trás ou finja coçar alguma coisa — disse Jasper.
— Eu disse Esme — queixou-se Alice ao voltar. — Vocês a estão confundindo.
— Não, acho que entendi tudo — eu disse. — Sentar, olhar em volta, piscar, me mexer.
— Isso mesmo — aprovou Esme.
E abraçou meus ombros. Jasper franziu a testa.
— Você vai prender a respiração o máximo que puder, mas precisará mover um pouco os ombros para dar a impressão de que está respirando.
Eu inspirei e assenti novamente. Edward me abraçou do outro lado.
— Você consegue fazer isso — repetiu ele, murmurando o estímulo em meu ouvido.
— Dois minutos — disse Alice. — Talvez você devesse começar já no sofá. Afinal, você estava doente. Assim ele não verá você se mexer já de cara.
Alice me puxou para o sofá. Tentei me mover devagar, deixar meus membros mais desajeitados. Ela revirou os olhos, então eu não devia estar fazendo um bom trabalho.
— Jacob, preciso de Renesmee — eu disse.
Jacob franziu a testa, sem se mexer.
Alice sacudiu a cabeça.
— Bella, isso não me ajuda a ver.
— Mas eu preciso dela. Ela me deixa calma. — A pontada de pânico em minha voz era inconfundível.
— Tudo bem — gemeu Alice. — Segure-a o mais imóvel possível e vou tentar ver em volta dela. — Ela soltou um suspiro pesado, como se tivesse sido solicitada a fazer hora extra num feriado.
Jacob suspirou também, mas me trouxe Renesmee, depois recuou rapidamente do olhar de Alice.
Edward sentou-se ao meu lado e pôs os braços em torno de Renesmee e de mim. Inclinou-se para a frente e fitou os olhos de Renesmee com muita seriedade.
— Renesmee, uma pessoa especial está vindo ver você e sua mãe — disse ele numa voz solene, como se esperasse que ela entendesse cada palavra. Será que entendia? Ela o encarou com os olhos graves e claros. — Mas ele não e igual a nós, nem igual a Jacob. Temos de ter muito cuidado com ele. Você não deve dizer coisas a ele como diz a nós.
Renesmee tocou o rosto dele.
— Exatamente — disse ele. — E ele vai deixar você com sede. Mas você não deve mordê-lo. Ele não vai se curar como o Jacob.
— Ela pode entender você? — sussurrei.
— Ela entende. Você vai ter cuidado, não é, Renesmee? Vai nos ajudar.
Renesmee tocou-o de novo.
— Não, não ligo se você morder Jacob. Isso pode.
Jacob riu.
— Talvez você deva sair, Jacob — disse Edward com frieza, fuzilando-o com os olhos.
Edward não perdoara Jacob, porque sabia que, independentemente do que acontecesse ali, eu ia sentir dor. Mas eu aceitaria feliz a ela fosse a pior coisa que eu enfrentaria então.
— Eu disse a Charlie que estaria aqui — disse Jacob. — Ele vai precisar de apoio moral.
— Apoio moral — disse Edward em tom de zombaria. — Até onde Charlie sabe, você é o monstro mais repulsivo de todos nós.
— Repulsivo? — Jake protestou, depois riu baixo consigo mesmo.
Ouvi os pneus saírem da rodovia e entrarem na terra úmida da silenciosa estrada dos Cullen, e minha respiração acelerou de novo. Meu coração devia estar martelando. Eu me sentia angustiada por meu corpo não ter as reações certas.
Concentrei-me no batimento constante do coração de Renesmee para me acalmar. Funcionou bastante rápido.
— Muito bem, Bella — sussurrou Jasper, aprovando.
Edward estreitou os braços em meu ombro.
— Tem certeza? — perguntei a ele.
— Positivo. Você pode fazer qualquer coisa. — Ele sorriu e me beijou.
Não foi exatamente um selinho, e minhas reações desvairadas de vampira me pegaram de guarda baixa de novo. Os lábios de Edward eram como uma dose de uma substância viciante direto no meu sistema nervoso. Instantaneamente, eu quis mais. Foi preciso toda minha concentração para me lembrar do bebê em meus braços.
Jasper sentiu a mudança de humor.
— Hã, Edward, pode não distraí-la, como está fazendo agora? Ela precisa se concentrar.
Edward se afastou.
— Epa — disse ele.
Eu ri. Aquela fala era minha desde o começo, desde o primeiro beijo.
— Mais tarde — eu disse, e a expectativa me revirou o estômago.
— Foco, Bella — insistiu Jasper.
— Tudo bem. — Afugentei as sensações trêmulas. Charlie, isso agora era o principal. Manter Charlie seguro ali. Teríamos a noite toda... — Desculpe, Jasper.
Emmett riu.
O som da viatura de Charlie estava cada vez mais próximo. O segundo de leveza passou e todos ficaram imóveis. Cruzei as pernas e treinei as piscadelas. O carro parou na frente da casa e ficou em ponto morto por alguns segundos. Perguntei-me se Charlie estaria tão nervoso quanto eu. Depois o motor foi desligado e uma porta bateu. Três passos na grama e oito com eco nos degraus de madeira. Mais quatro passos com eco pela varanda. Depois silêncio. Charlie respirou fundo duas vezes.
Toc, toc, toc.
Inspirei o ar pelo que podia ser a última vez. Renesmee se aconchegou mais em meus braços, escondendo o rosto em meu cabelo.
Carlisle atendeu à porta. Sua expressão estressada se alterou para uma de boas-vindas, como se mudasse o canal da tevê.
— Olá, Charlie — disse ele, parecendo adequadamente envergonhado.
Afinal, todos devíamos estar em Atlanta, no Centro de Controle de Doenças. Charlie sabia que haviam mentido para ele.
— Carlisle — Charlie o cumprimentou rigidamente. — Onde está Bella?
— Bem aqui, pai.
Ai! Minha voz era tão errada. Além disso, eu usara parte do meu suprimento de ar. Reabasteci rapidamente, feliz que o cheiro de Charlie ainda não tivesse saturado a sala.
A expressão perplexa de Charlie me dizia como minha voz estava estranha. Seus olhos se detiveram em mim e se arregalaram. Li as emoções que iam passando pelo seu rosto.
Choque. Incredulidade. Dor. Perda. Medo. Raiva. Desconfiança. Mais dor. Mordi o lábio. Era estranho. Meus novos dentes eram mais afiados em minha pele de granito do que meus dentes humanos na pele humana macia.
— É você, Bella? — sussurrou ele.
— Sou — estremeci com minha voz de sino de vento. — Oi, pai.
Ele respirou fundo para se controlar.
— Ei, Charlie. — Jacob o cumprimentou do canto. — Como estão as coisas?
Charlie fechou a cara para Jacob, estremeceu com a lembrança e então me fitou de novo. Devagar, Charlie atravessou a sala até ficar a pouca distância de mim. Disparou um olhar acusador a Edward, depois seus olhos voltaram a mim. O calor de seu corpo quente vinha de encontro a mim a cada pulsação de seu coração.
— Bella? — perguntou ele de novo.
Falei num tom mais baixo, tentando eliminar o sino da voz.
— Sou eu mesma.
Seu queixo travou.
— Desculpe-me, pai.
— Você está bem?
— Ótima, de verdade — garanti. — Saudável como um cavalo.
E lá se foi meu oxigênio.
— Jake me disse que isso foi... necessário. Que você estava morrendo. — Ele disse as palavras como se não acreditasse nem um pouco nelas.
Eu me enrijeci, concentrada no peso quente de Renesmee, recostada em Edward como apoio, e respirei fundo.
O cheiro de Charlie foi um murro de chamas, socando direto por minha garganta adentro. Mas era muito mais do que dor. Era também uma punhalada quente de desejo. Charlie tinha um cheiro mais delicioso que qualquer coisa eu houvesse imaginado. Tão agradável quanto o dos montanhistas que estiveram na caçada, Charlie era duplamente tentador. E ele só estava a poucos centímetros de distância, derramando o calor e a umidade apetitosos no ar seco. Mas eu agora não estava caçando. E aquele era o meu pai. Edward apertou meus ombros, solidário, e Jacob lançou um olhar de desculpas para mim do outro lado da sala.
Tentei me recompor e ignorar a dor e o desejo da sede. Charlie esperava minha resposta.
— Jacob lhe contou a verdade.
— Isso o torna o único — grunhiu Charlie.
Eu esperava que Charlie pudesse ver além das mudanças em meu novo rosto e enxergasse o remorso ali. Sob meu cabelo, Renesmee se mexeu quando registrou o cheiro de Charlie. Eu a apertei um pouco mais. Charlie me viu olhar ansiosa para baixo e seguiu meu olhar.
— Ah! — disse ele, e toda a raiva sumiu de seu rosto, deixando apenas o choque. — É ela. A órfã que Jacob disse que vocês estão adotando.
— Minha sobrinha — mentiu Edward tranquilamente. Ele deve ter concluído que a semelhança entre Renesmee e ele era evidente demais para ser ignorada. Era melhor afirmar que eram parentes desde o início.
— Pensei que tivesse perdido sua família — disse Charlie, a acusação voltando à sua voz.
— Perdi meus pais. Meu irmão mais velho foi adotado, como eu. Nunca mais o vi depois disso. Mas os tribunais me localizaram quando ele e a mulher sofreram um acidente de carro, deixando a única filha sem outra família.
Edward era tão bom naquilo. Sua voz ficava tranquila, com o nível certo de inocência. Eu precisava treinar para poder fazer igual. Renesmee espiou por baixo de meu cabelo, cheirando de novo. Ela olhou timidamente para Charlie sob os longos cílios e voltou a se esconder.
— Ela... ela, bom, ela é linda.
— É — concordou Edward.
— Mas é uma grande responsabilidade. Vocês dois estão começando agora.
— O que mais poderíamos fazer? — Edward passou os dedos de leve no rosto de Renesmee. Eu o vi tocar os lábios dela por um breve momento... um lembrete. — Você a teria rejeitado?
— Humm. Bom. — Ele sacudiu a cabeça, ausente. — Jake disse vocês a chamam de Nessie...
— Não chamamos, não — eu disse, minha voz aguda e penetrante de mais. — O nome dela é Renesmee.
Charlie voltou a se concentrar em mim.
— Como se sente com isso? Talvez Carlisle e Esme possam...
— Ela é minha — interrompi. — Eu a quero.
Charlie franziu a testa.
— Vai me fazer ser avô assim tão novo?
Edward sorriu.
— Carlisle é avô também.
Charlie lançou um olhar incrédulo a Carlisle, ainda parado na porta da frente; ele parecia o irmão mais novo e mais bonito de Zeus. Charlie bufou e riu.
— Acho que isso faz com que eu me sinta melhor. — Seus olhos voltaram a Renesmee. — Ela é mesmo uma beleza. — Seu hálito quente soprou de leve pelo espaço entre nós.
Renesmee se inclinou para o cheiro, livrando-se do meu cabelo e olhando em cheio no rosto dele pela primeira vez. Charlie arquejou. Eu sabia o que ele estava vendo. Meus olhos – os olhos dele – copiados à exatidão em seu rosto perfeito.
Charlie começou a ofegar. Seus lábios tremeram, e pude ler os números que ele murmurava. Estava contando, tentando encaixar nove meses em um. Tentando encaixar as peças, mas sem conseguir que a prova diante dele fizesse algum sentido.
Jacob se levantou e veio afagar as costas de Charlie. Inclinou-se para sussurrar alguma coisa no ouvido dele; só Charlie não sabia que todos podíamos ouvir.
— Só saber o necessário, Charlie. Está tudo bem. Eu garanto.
Charlie engoliu em seco e assentiu. E depois seus olhos arderam enquanto ele dava mais um passo na direção de Edward com os punhos fechados.
— Eu não quero saber de tudo, mas chega de mentiras!
— Desculpe — disse Edward, calmamente — mas você precisa saber a história pública mais do que precisa saber a verdade. Se vai fazer parte deste segredo, a história pública é a que conta. É para proteger Bella e Renesmee, assim como o restante de nós. Pode aceitar as mentiras por eles?
A sala estava cheia de estátuas. Eu cruzei os tornozelos. Charlie bufou e se virou para me olhar fixamente.
— Podia ter me alertado de alguma maneira, menina.
— Isso realmente teria tornado as coisas mais fáceis?
Ele franziu o cenho, então se ajoelhou no chão diante de mim. Eu podia ver o movimento do sangue no pescoço, sob a pele. Podia sentir a vibração quente dele. E Renesmee também. Ela sorriu e estendeu a mãozinha rosada para ele. Eu a segurei. Ela colocou a outra mão em meu pescoço – sede, curiosidade e o rosto de Charlie em seus pensamentos. Havia um toque sutil na mensagem que me fez pensar que ela havia entendido perfeitamente as palavras de Edward; ela reconheceu a sede, mas a superou no mesmo pensamento.
— Caramba — Charlie arfou, olhando seus dentes perfeitos. — Que idade ela tem?
— Hã...
— Três meses — disse Edward, acrescentando devagar: — Ou melhor, ela é do tamanho de uma criança de três meses, mais ou menos. É mais nova em alguns aspectos, mais madura em outros.
Muito deliberadamente, Renesmee acenou para ele. Charlie piscou espasmodicamente. Jacob o cutucou.
— Eu lhe disse que ela era especial, não disse?
Charlie se retraiu com o contato.
— Ah, o que é isso, Charlie? — gemeu Jacob. — Sou a mesma pessoa que sempre fui. Finja que nada disso aconteceu.
A lembrança fez os lábios de Charlie ficarem brancos, mas ele assentiu.
— E qual é sua parte disso, Jake? — perguntou ele. — Até que ponto Billy sabe? Por que você está aqui? — Ele olhou para o rosto de Jacob, que reluzia enquanto olhava para Renesmee.
— Bom, posso lhe falar tudo... Billy sabe de absolutamente tudo... Mas isso envolve muita coisa sobre os lobiso...
— Argh! — Charlie protestou, cobrindo as orelhas. — Deixe para lá.
Jacob sorriu.
— Vai ficar tudo ótimo, Charlie. Só procure não acreditar em tudo o que vê.
Meu pai murmurou alguma coisa ininteligível.
— Aí! — Emmett de repente explodiu em seu grave profundo. — Vamos, Gators!
Jacob e Charlie deram um pulo. O restante de nós ficou paralisado. Charlie se recuperou, então olhou para Emmett por cima do ombro
— Flórida está vencendo?
— Acabaram de marcar o primeiro touchdown — confirmou Emmett. Ele olhou na minha direção, erguendo as sobrancelhas como um vilão de vaudeville. — Já estava na hora de alguém marcar um ponto por aqui.
Reprimi um silvo. Na frente de Charlie? Aquilo passava dos limites.
Mas Charlie não estava em condições de perceber insinuações. Ele respirou fundo de novo, sugando o ar como se tentasse fazê-lo descer até os pés. Eu o invejei. Ele se levantou, contornou Jacob e meio que desabou numa poltrona vaga.
— Bom — ele suspirou — vamos ver se eles podem manter a liderança.

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