23 de setembro de 2015

Capítulo 24 - Um impasse

Meus olhos abriram para uma brilhante e branca luz. Eu estava em um quarto que não me era familiar, um quarto branco. A parede perto de mim estava coberta por longas venezianas verticais, acima da minha cabeça, as ofuscantes luzes me cegaram. Estava apoiada em uma dura e irregular cama, uma cama com grades. O travesseiro era liso e macio. Havia um irritante som de bip vindo de algum lugar. Eu tinha esperanças de que significasse que eu ainda estava viva. Morte não devia ser tão desconfortável.
Minhas mãos estavam completamente deformadas com tubos claros, e alguma coisa estava amarrada cruzando meu rosto, embaixo do meu nariz. Eu levantei minha mão para tirar aquilo.
— Não, não faça isso. — E dedos frios alcançaram minha mão.
— Edward? — Virei minha cabeça vagarosamente.
Seu delicado rosto estava apenas à uma polegada do meu, seu queixo apoiado na beira da minha grade. Eu percebi que eu estava viva, dessa vez com agradecimento e sublimidade.
— Oh, Edward. Eu sinto muito!
— Shh, — ele me silenciou — tudo está bem agora.
— O que aconteceu?
Eu não conseguia lembrar perfeitamente, e minha mente se rebelava contra mim enquanto eu tentava relembrar.
— Eu quase cheguei tarde demais. Eu podia ter chegado tarde demais. — Ele sussurrou sua voz atormentada.
— Eu fui tão estúpida, Edward. Eu achei que ele estava com minha mãe.
— Ele enganou a todos nós.
— Tenho que ligar para Charlie e para minha mãe. — Percebi.
— Alice ligou para eles. Renée está aqui no hospital. Ela está comendo alguma coisa nesse momento.
— Ela está aqui? — Tentei sentar, mas o giro da minha cabeça ficou mais rápido, e sua mão me empurrou gentilmente para o travesseiro.
— Ele vai estar de volta logo. — Ele prometeu. — E você tem que ficar tranquila.
— Mas o que você disse a ela? — Entrei em pânico.
Não queria ficar tranquila. Minha mãe estava lá e eu estava me recuperando do ataque de um vampiro.
— Porque você disse a ela que eu estou aqui?
— Você caiu por dois andares de uma escada e por uma janela. — Ele pausou. — Tem que admitir, isso podia ter acontecido.
Suspirei, e isso doeu. Eu olhei para baixo para meu corpo embaixo do lençol, para o grande bloco que era minha perna.
— O quão mal eu estou? — Perguntei.
— Você tem uma perna e quatro costelas quebradas, algumas fendas em seus ossos, machas roxas cobrindo cada polegada de seu corpo, perdeu um monte de sangue. Eles fizeram algumas transfusões em você. Eu não gostei disso, isso fez você cheirar completamente diferente por um tempo.
— Isso deve ter sido uma boa mudança pra você.
— Não, eu gosto de como você cheira.
— Como fez aquilo? — Perguntei calmamente. Ele soube o que eu quis dizer de primeira.
— Eu não tenho certeza.
Ele olhou pra longe dos meus olhos curiosos, levantando minha mão enfaixada da cama e segurando gentilmente com a dele, cuidadoso em não romper o fio que me conectava aos monitores.
Eu esperei pacientemente pelo resto. Ele continuou sem responder.
— Era impossível... Parar. — Ele sussurrou. — Impossível. Mas eu fiz. — Ele olhou pra cima finalmente, com um meio sorriso. — Ainda bem que te amo.
— Eu não tenho um gosto tão bom quanto o cheiro? — Sorri em resposta. Aquilo machucou meu rosto.
— Até melhor, melhor do que eu imaginava.
— Sinto muito. — Me desculpei.
Ele levantou seus olhos para o teto.
— De todas, se desculpa por isso...
— Pelo o que mais eu devia me desculpar?
— Por chegar muito perto de ficar pra longe de mim pra sempre.
— Sinto muito. — Me desculpei novamente.
— Eu sei por que você fez isso. — Sua voz era reconfortante. — Foi completamente absurdo, é claro. Você deveria ter me esperado, deveria ter me contado.
— Você não me deixaria ter ido.
— Não. — Ele concordou em um tom amargo. — Eu não deixaria.
Algumas memórias muito desagradáveis estavam começando a voltar para mim. Estremeci, e então recuei.
Ele estava instantaneamente inquieto.
— Bella, o que foi?
— O que aconteceu com James?
— Depois que eu o separei de você, Emmet e Jasper tomaram conta dele. — Havia uma feroz conotação de pesar em sua voz.
Isso me confundiu.
— Eu não vi Emmet e Jasper lá.
— Eles tiveram que sair do quarto... Tinha muito sangue.
— Mas você ficou.
— Sim, eu fiquei.
— E Alice, e Carlisle... — Falei curiosa.
— Eles também te amam.
Um flash de imagens dolorosas da última vez que eu tinha visto Alice me lembrou de uma coisa.
— Alice viu a fita? —Perguntei ansiosamente.
— Sim. — Um novo som obscureceu a voz dele, um tom de ódio.
— Ela sempre esteve no escuro, por isso não conseguia lembrar.
— Eu sei. Ela entende agora. — A voz dele estava uniforme, mas seu rosto estava negro de fúria.
Tentei alcançar o rosto dele com a minha mão livre, mas alguma coisa me parou. Eu olhei pra baixo pra ver o tubo puxando minha mão.
— Ugh. — Estremeci.
— O que foi? — Ele perguntou ansiosamente, distraído, mas não o suficiente.
A escuridão não abandonou os olhos dele completamente.
— Agulhas. — Expliquei, desviando o olhar daquela que estava na minha mão.
Eu me concentrei nos ladrilhos do teto e tentei respirar fundo mesmo com a dor nas minhas costelas.
— Medo de agulhas... — Ele murmurou pra si mesmo por baixo do fôlego, balançando a cabeça.
— Oh, um vampiro sádico, tentando torturar ela até a morte, claro, sem problema, ela corre pra encontrá-lo. Um tubo na mão, por outro lado...
Eu revirei meus olhos. Eu fiquei satisfeita de ver que pelo menos isso não doía. Eu decidi mudar de assunto.
— Porque você está aqui? — Perguntei.
Ele olhou pra mim, primeiro a confusão depois a dor tocou os olhos dele. As sobrancelhas dele ficaram juntas quando ele fez uma careta.
— Você quer que eu vá embora?
— Não! — Protestei, horrorizada pelo pensamento. — Não, eu quis dizer isso, porque minha mãe acha que você está aqui? Eu preciso me lembrar da história direitinho pra quando ela voltar.
— Oh. — Ele disse, e a testa dele se suavizou num mármore de novo. — Eu vim pra Phoenix pra colocar algum senso na sua cabeça, te convencer a voltar pra Forks. — Os olhos dele eram tão intensos e tão sinceros, que eu mesma quase acreditei nele. — Você concordou em me ver e foi dirigindo até o hotel onde eu estava com Carlisle e Alice, é claro de que estava aqui com a supervisão de meu pai, — ele inseriu virtuosamente — mas você tropeçou nas escadas á caminho do meu quarto e... Bem, você já sabe o resto. Porém, você não precisa se lembrar dos detalhes, tem uma desculpa muito boa pra não se lembrar dos detalhes mais importantes.
Eu pensei nisso por um momento.
— Tem algumas falhas nessa história. Como nenhuma janela quebrada.
— Na verdade não. — Ele disse. — Alice se divertiu um pouco demais fabricando as evidências. Tudo já foi cuidado de forma muito convincente, você poderia provavelmente até processar o hotel se você quisesse. Não tem nada com o que se preocupar. — Ele prometeu, alisando minha bochecha com o mais leve dos toques. — Seu único trabalho agora é sarar.
Eu não estava tão envolvida pelas dores ou pela névoa dos medicamentos pra não responder ao toque dele. O bipe do monitor pulou erraticamente, agora ele não era mais o único que podia ouvir o meu coração se comportando mal.
— Isso é tão vergonhoso. — Murmurei pra mim mesma.
Ele gargalhou, e um olhar especulativo apareceu nos olhos dele.
— Humm, eu imagino...
Ele se inclinou, o barulho do bipe acelerou selvagemente antes mesmo que seus lábios me tocassem. Mas quando me tocaram, mesmo que com a mais leve pressão, o bipe parou completamente.
Ele pulou pra trás abruptamente, sua expressão ansiosa se tornando de alívio enquanto o monitor reportava meu coração voltando a bater.
— Parece que eu vou ter que ser mais cuidadoso com você do que o normal. — Ele fez uma careta.
— Eu não terminei de beijar você. — Reclamei. — Não me faça ter que ir até aí.
Ele sorriu largamente, e se inclinou pra pressionar seus lábios gentilmente nos meus. O monitor ficou louco. Mas então seus lábios se esticaram. Ele se afastou.
— Eu acho que estou ouvindo sua mãe. — Ele disse, sorrindo largamente de novo.
— Não vai embora. — Chorei, uma sensação irracional de pânico passando por mim.
Não podia deixá-lo ir, ele podia desaparecer de novo.
Ele leu o terror nos meus olhos por um breve segundo.
— Eu não vou. — Ele prometeu solenemente, e então sorriu. — Vou tirar uma soneca.
Ele saiu da cadeira de plástico ao meu lado e foi para um sofá de couro falso azul-turquesa reclinável que havia no pé da cama, e fechou seus olhos.
Ele ficou perfeitamente imóvel.
— Não se esqueça de respirar. — Sussurrei sarcasticamente.
Ele respirou fundo, os olhos ainda fechados.
Podia ouvir minha mãe agora. Ela estava falando com alguém, talvez uma enfermeira, parecia cansada e aborrecida. Eu queria pular da cama e correr pra ela, pra a acalmar, prometer que estava tudo bem. Mas eu não estava em forma pra pular, então eu esperei pacientemente.
A porta abriu um pouquinho, e ela observou pela abertura.
— Mãe! — Sussurrei minha voz cheia de amor e alívio.
Ela olhou para a figura imóvel de Edward no sofá reclinável, e foi na ponta dos pés até minha cama.
— Ele não vai embora nunca, não é? — Ela murmurou pra si mesma.
— Mãe, eu estou tão feliz de ver você!
Ela se inclinou pra me abraçar gentilmente, e eu senti lágrimas quentes rolando nas bochechas dela.
— Bella, eu estava tão preocupada!
— Me desculpe mãe. Mas vai ficar tudo bem agora, está tudo bem. — Eu a confortei.
— Estou feliz só por ver seus olhos abertos. — Ela sentou na borda da cama.
De repente eu me dei conta de que não sabia quando era.
— Por quanto tempo eu fiquei apagada?
— É sexta, querida, você esteve fora por algum tempo.
— Sexta? — Eu estava chocada.
Tentei me lembrar de que dia era quando... Mas eu não queria pensar nisso.
— Eles tiveram que te manter sedada por algum tempo, querida, você tem um monte de ferimentos.
— Eu sei.
Podia senti-los.
— Você teve sorte porque o Dr. Cullen estava lá. Ele é um homem muito legal... Porém novo demais. E ele parece mais um modelo do que um médico...
— Você conheceu Carlisle?
— E a irmã de Edward. Ela é uma garota adorável.
— Ela é. — Concordei sinceramente.
Ela olhou por cima do ombro para Edward, que ainda estava com os olhos fechados no sofá.
— Você não me contou que tinha tão bons amigos em Forks.
Fiz uma careta e então gemi.
— O que dói? — Ela perguntou ansiosamente, se virando pra mim de novo.
Os olhos de Edward vieram na minha direção.
— Eu estou bem. — Assegurei aos dois. — Só tenho que me lembrar de não mexer.
Ele voltou á sua sonora soneca.
Eu usei a vantagem da distração pelo comentário da minha mãe pra evitar que assunto não fosse para o meu comportamento menos-cuidadoso.
— Onde está Phil? — Perguntei rapidamente.
— Flórida, oh, Bella! Você nunca vai adivinhar! Estamos prestes a ir embora, as melhores notícias!
— Phil conseguiu um contrato? — Adivinhei.
— Sim! Como você adivinhou? Com os Suns, dá pra acreditar?
— Isso é ótimo, mãe. — Disse com todo o entusiasmo que pude, apesar de não ter a mínima ideia de quem ela estava falando.
— E você vai gostar tanto de Jacksonsville. — Ela esguichava enquanto eu olhava vagamente pra ela. — Fiquei um pouco preocupada quando Phil começou a falar de Akron, com toda aquela neve e tudo mais, porque você sabe que eu odeio o frio, mas Jacksonsville! É sempre ensolarado, e a umidade não é tão ruim assim. Nós achamos a casa mais fofa, amarela, com a ornamentação branca, e com uma entrada como a dos filmes antigos, um enorme carvalho, e é só a alguns minutos do oceano, e você terá seu próprio banheiro...
— Espera mãe. — Interrompi.
Edward ainda estava com os olhos fechados, mas estava tenso demais pra fingir que estava adormecido.
— Do que é que você tá falando? Eu não vou para a Flórida. Eu moro em Forks.
— Mas você não tem que morar mais, sua boba. — Ela riu. — Phil vai conseguir ficar mais parado agora... Nós falamos muito sobre isso, e o que eu vou fazer é deixar de ir a alguns jogos, metade do tempo com ele, metade do tempo com você.
— Mãe... — hesitei, imaginando o melhor jeito de ser diplomática sobre isso. — Eu quero continuar em Forks. Eu já estou acostumada com a escola, tenho algumas amigas. — Ela olhou pra Edward de novo quando eu falei das amigas, então eu tentei outra direção.
— Charlie precisa de mim. Ele fica sozinho lá, e ele não sabe cozinhar nem um pouco.
— Você quer ficar em Forks? — Ela perguntou desnorteada.
Essa era uma ideia inconcebível para ela. E então os olhos dela Foram parar em Edward de novo.
— Por quê?
— Eu te disse, escola, Charlie, ai! — Levantei os ombros. Má ideia.
As mãos dela flutuaram por cima de mim sem poder fazer nada, tentando encontrar um lugar onde ela pudesse segurar em segurança. Ela encontrou minha testa, não havia bandagens lá.
— Bella, querida, você odeia Forks. — Ela me lembrou.
— Não é tão ruim assim.
Ela fez uma careta olhando pra frente e pra trás entre Edward e eu, dessa vez muito deliberadamente.
— É esse garoto? — Ela sussurrou
Abri minha boca para mentir, mas os olhos dela estavam me analisando, e eu sabia que ela veria além da mentira.
— Ele é parte disso. — Admiti. Eu não precisava contar qual era o tamanho da parte. — Então, você teve uma chance de conversar com Edward? — Perguntei.
— Sim. — Ela hesitou olhando para a sua forma perfeitamente imóvel. — E eu quero falar com você sobre isso.
Uh-oh.
— Sobre o que? — Perguntei.
— Eu acho que esse garoto está apaixonado por você. — Ela acusou, mantendo a voz baixa.
— Eu também acho que sim.
— E como você se sente em relação a ele? — Ela escondeu muito mal a curiosidade na voz dela.
Suspirei, desviando o olhar. Não importava o quanto eu amasse minha mãe, essa não era uma conversa que eu queria ter com ela.
— Eu estou louca por ele.
Aí, isso parece com algo que uma adolescente diria sobre o primeiro namorado dela.
— Bem, ele parece muito legal, e, minha nossa, ele é incrivelmente lindo, mas você é tão jovem, Bella... — A voz dela estava incerta, até onde eu podia lembrar essa era a primeira vez desde que eu tinha oito anos que eu ouvi alguma coisa aproximada de autoridade materna.
Eu reconheci aquele tom razoável, mas firme que nós tínhamos nas nossas conversas sobre homens.
— Eu sei, mãe. Não se preocupe. É só uma paixonite. — A acalmei.
— Isso mesmo. — Ela concordou facilmente agradada.
Então ela suspirou e deu uma olhada cheia de culpa para o grande relógio redondo na parede.
— Você precisa ir?
Ela mordeu o lábio.
— Phil deve ligar em pouco tempo... Eu não sabia quando você acordaria...
— Sem problemas, mãe. — Tentei não mostrar muito o alívio pra que ela se sentisse um pouco culpada. — Eu não vou ficar sozinha.
— Eu volto logo. Eu estive dormindo aqui, sabe. — Ela anunciou, orgulhosa de si mesma.
— Oh, mãe, você não precisava fazer isso! Podia ter dormido em casa, eu nunca iria reparar.
A onda de medicamentos pra dor fazia a minha concentração difícil mesmo agora, apesar de, aparentemente, eu ter ficado dormindo durante dias.
— Eu estava nervosa demais. — Ela admitiu timidamente. — Aconteceu um crime no bairro, e eu não gosto de ficar lá sozinha.
— Crime? — Perguntei alarmada.
— Alguém invadiu aquele estúdio de dança na esquina da nossa casa e tocou fogo nele, não sobrou nada! Eles deixaram um carro roubado lá na frente. Você lembra de quando tinha aulas de dança lá, querida?
— Eu me lembro. — Me arrepiei e estremeci.
— Eu posso ficar bebê, se você precisar de mim.
— Não, mãe, eu vou ficar bem. Edward vai ficar comigo.
Pareceu que esse era o motivo pelo qual ela queria ficar.
— Eu vou voltar á noite. — Isso pareceu tanto um aviso quanto uma promessa, e ela olhou para Edward de novo quando disse isso.
— Eu te amo, mãe.
— Eu te amo também, Bella. Tente ser mais cuidadosa quando anda, querida. Eu não quero perder você.
Os olhos de Edward continuaram fechados, mas um sorriso largo apareceu no rosto dele.
Uma enfermeira invadiu o quarto nessa hora pra checar meus tubos e fios. Minha mãe beijou minha testa, deu uma tapinha na minha mão com o curativo e foi embora.
A enfermeira estava checando o papel da minha avaliação e o monitor do meu coração.
— Você está se sentindo ansiosa, querida? O seu coração está parecendo um pouco rápido aqui.
— Eu estou bem. — Assegurei a ela.
— Eu vou dizer á medica que está cuidando de você que está acordada. Ela vai vir te ver em um minuto.
Assim que ela fechou a porta, Edward estava á meu lado.
— Você roubou um carro? — Ergui minhas sobrancelhas.
Ele sorriu, sem arrependimento.
— Era um bom carro, muito rápido.
— Como foi a sua soneca? — Perguntei.
— Interessante. — Os olhos dele estreitaram.
— O que?
Ele olhou pra baixo enquanto falava.
— Eu estou surpreso. Eu pensei que a Flórida... E a sua mãe... Bem, eu pensei que isso era tudo o que você podia querer.
Eu olhei pra ele sem compreender.
— Mas você ficaria preso o dia inteiro em casa na Flórida. E só poderia sair durante a noite, como um vampiro de verdade.
Ela quase sorriu, mas não exatamente. E o rosto dele estava grave.
— Eu ficaria em Forks, Bella. Ou algum lugar assim. — Ele explicou. — Algum lugar onde eu não te machucasse mais.
No início eu não me toquei. Continuei a olhar pra ele com o olhar vazio enquanto as palavras se encaixavam uma a uma na minha cabeça como um horrível quebra-cabeça. Mal tinha consciência do som do meu coração acelerando, apesar de que, a minha respiração que estava hiperventilando, me deixou consciente da dor aguda das minhas costelas protestando.
Ele não disse nada, observou meu rosto cautelosamente enquanto uma dor que não tinha nada a ver com meus ossos quebrados, um dor que era muito pior, ameaçava me deixar aos pedaços.
E então outra enfermeira entrou propositalmente no quarto. Edward estava rígido como uma pedra enquanto ela olhava pra mim, primeiro com um olho treinado e depois para o monitor.
— Está na hora dos remédios pra dor agora, querida? — Ela perguntou carinhosamente, dando tapinhas no tubo de entrada.
— Não, não. — Murmurei, tentando esconder a agonia que havia na minha voz. — Eu não preciso de nada agora. — Eu não podia me dar ao luxo de fechar os olhos agora.
— Não precisa ser corajosa, querida. É melhor se você não se estressar, você deve descansar.
Ela esperou, mas eu só balancei minha cabeça.
— Ok. — Ela suspirou. — Aperte o botão quando estiver pronta.
Ela deu uma olhada pra Edward e depois deu outra olhada ansiosa pra o monitor, antes de ir.
As mãos frias dele estavam no meu rosto, eu olhei pra ele com os olhos bem abertos.
— Shh, Bella, acalme-se.
— Não me deixe. — Implorei com uma voz quebrada.
— Eu não vou. — Ele prometeu. — Agora relaxe antes que eu chame a enfermeira pra te sedar.
Mas meu coração não conseguia se aquietar.
— Bella. — Ele acariciou meu rosto ansiosamente. — Eu não vou a lugar nenhum. Eu vou ficar aqui até quando você precisar de mim.
— Você promete que não vai me deixar? — Sussurrei.
Tentei controlar a minha respiração, pelo menos. Minhas costelas estavam reclamando.
O cheiro do hálito dele era um calmante. Pareceu diminuir as dores da minha respiração. Ele continuou segurando o meu olhar enquanto meu corpo relaxava lentamente e o bipe voltava ao ritmo normal. Os olhos dele estavam escuros, mais próximos do preto do que do dourado hoje.
— Melhor? — Ele perguntou.
— Sim. — Disse cautelosamente.
Ele balançou a cabeça e murmurou alguma coisa impossível de entender. Eu achei ter entendido a palavra “reação”.
— Porque você disse isso? — Sussurrei, tentando evitar que a minha voz tremesse. — Você se cansou de ter que ficar me salvando o tempo inteiro? Quer que eu vá embora?
— Não, eu não quero ficar sem você, Bella, é claro que não. Seja racional. E eu também não tenho problema nenhum em salvar você, isso se não fosse pelo fato de que sou eu que está te colocando em risco... Que eu sou a razão pela qual você está aqui.
— Sim, você é a razão, — eu fiz uma careta — a razão pela qual eu estou aqui, viva.
— Por pouco... — A voz dele era um sussurro. — Coberta de gaze e de gesso, quase impossibilitada de se mexer.
— Eu não estava me referindo á mais recente experiência de quase morte. — Disse rugindo, irritada. — Eu estava falando das outras, você pode escolher uma. Se não fosse por você eu estaria dando um passeio pelo cemitério de Forks.
Ele estremeceu com as minhas palavras, mas o olhar de culpa não deixou os olhos dele.
— No entanto, essa não é a pior parte. — Ele continuou a sussurrar.
Ele agia como se eu não tivesse falado.
— Não ver você lá no chão... Amassada e quebrada. — A voz dele estava chocada. — Não foi pensar que eu estava atrasado. Nem mesmo ouvir você gritando de dor, todas essas memórias insuportáveis que eu vou carregar comigo por toda a eternidade. Não, a pior parte foi sentir... Saber que eu não podia parar. Acreditar que eu ia mesmo matar você.
— Mas você não matou.
— Mas eu podia. Tão facilmente.
Eu precisava ficar calma... Mas ele estava tentando se convencer a me deixar, e o pânico fluía nos meus pulmões, tentando sair.
— Me prometa. — Sussurrei.
— O que?
— Você sabe o que. — Estava começando a ficar com raiva agora.
Ele estava tão teimosamente determinado a continuar na negativa.
Ele ouviu a mudança na minha voz, seus olhos se estreitaram.
— Eu não pareço ser forte o suficiente pra ficar longe de você, então acho que isso não vai acontecer... Quer isso mate você ou não. — Ele acrescentou duramente.
— Bom.
Ele, porém não prometeu um fato que eu não deixei passar.
O pânico só estava meio controlado, eu não tinha mais controle para segurar a raiva.
— Você me disse como parou... Agora eu quero saber o porquê.
— Por quê? — Ele perguntou cautelosamente.
— Porque você fez isso? Porque você não deixou o veneno se espalhar? A essas horas eu seria como você.
Os olhos de Edward pareceram ficar completamente negros, e eu me lembrei que isso era uma coisa que ele nunca quis que eu soubesse. Alice deve ter estado preocupada com as coisas que descobriu sobre si mesma... Ou então foi muito cuidadoso com os pensamentos dela perto dele, claramente ele não sabia que ela tinha me enchido com todas as conversas sobre os mecanismos dos vampiros.
Ele estava surpreso, e furioso.
As narinas dele inflaram e a boca dele parecia ter sido esculpida numa pedra.
Ele não ia responder isso estava claro.
— Eu serei a primeira a admitir que não tenho nenhuma experiência com relacionamentos... — Disse. — Mas me parece lógico... Um homem e uma mulher tem que ser parecidos em algo... Como, um deles não pode sempre estar sendo abatido e o outro salvando. Eles têm que salvar uma ao outro igualmente.
Ele dobrou os braços do lado da minha cama e descansou o queixo nos braços. Sua expressão era suave, a raiva havia abrandado. Evidentemente ele havia decidido que não estava com raiva de mim. Esperava ter uma chance de avisar Alice antes que ele se encontrasse com ela.
— Você me salvou. — Ele disse baixinho.
— Eu não posso ser Lois Lane. — Insisti. — Eu quero ser o Superman.
— Você não sabe o que está pedindo. — A voz dele era suave, ele olhava intencionalmente para a pontinha do travesseiro.
— Eu acho que sei.
— Bella, eu não sei. Eu já tive quase noventa anos pra pensar nisso e ainda não tenho certeza.
— Você queria que Carlisle não tivesse salvado você?
— Não, eu não desejo isso. — Ele parou antes de continuar. — Mas a minha vida estava acabada. Eu não estava desistindo de nada.
— Você é a minha vida. Você é a única coisa que eu me incomodaria em perder. — Eu estava ficando melhor nisso.
Era muito mais fácil admitir o quanto eu precisava dele.
No entanto, ele estava muito calmo. Decidido.
— Eu não posso fazer isso, Bella. Eu não vou fazer isso com você.
— Porque não? — Minha garganta arranhou e as palavras não saíram tão altas como eu havia planejado. — Não me diga que é muito difícil! Depois de hoje, ou eu acho alguns dias atrás... De qualquer forma, depois daquilo, isso não devia ser nada.
Ele olhou pra mim.
— E a dor? — Ele perguntou.
Eu embranqueci. Não pude evitar. Mas eu tentei evitar que a minha expressão mostrasse que eu lembrava da dor... Do fogo nas minhas veias.
— Isso é problema meu. — Disse. — Eu posso aguentar.
— É impossível aguentar a coragem a partir do momento que ela se transforma em loucura.
— Isso não é problema. Três dias. Grande coisa.
Edward fez outra careta quando as minhas palavras relembraram ele de que eu estava mais bem informada do que deveria estar. Eu observei ele reprimir, observei os olhos dele ficarem especulativos.
— Charlie? — Ele perguntou curtamente. — Renée?
Os minutos se passaram em silêncio enquanto eu lutava pra responder a pergunta dele. Eu abri a minha boca, mas nenhum som saiu dela. Eu a fechei de novo.
Ele esperou, e a sua expressão se tornou triunfante porque ele sabia que eu não tinha nenhuma resposta de verdade.
— Olha, isso também não é nenhum problema. — Finalmente murmurei, minha voz não estava convincente, como sempre quando eu mentia.
— Renée sempre fez as escolhas que funcionavam pra ela, e ela sempre quis que eu fizesse o mesmo. E a alegria de Charlie, ele está acostumado a ficar sozinho. Eu não posso tomar conta dele pra sempre. Eu tenho a minha própria vida pra viver.
— Exatamente. — Ele cortou. — E eu não vou acabar com ela pra você.
— Se você está esperando pra ficar comigo no meu leito de morte, eu tenho notícias pra você! Eu estarei lá!
— Você vai se recuperar. — Ele me lembrou.
Eu respirei fundo pra me acalmar, ignorando o espasmo de dor que isso causava. O encarei, ele me encarou de volta. Não havia compromisso no rosto dele.
— Não, — disse lentamente — eu não vou.
A testa dele se enrugou.
— É claro que vai. Você pode ficar com uma cicatriz ou duas...
— Você está errado... — Insisti. — Eu vou morrer.
— Sério Bella. — Ele estava ansioso agora. — Você vai sair daqui em alguns dias. Duas semanas no máximo.
Eu olhei pra ele.
— Eu posso não morrer agora... Mas eu vou morrer alguma hora. A cada minuto do dia, eu chego mais perto. Eu vou ficar velha.
Ele fez uma careta quando se tocou do que eu estava falando, pressionando seus longos dedos nas têmporas e fechando os olhos.
— Isso é o que supostamente acontece. É assim que deve acontecer. Aconteceria se eu não existisse, e eu não deveria existir.
Eu soprei. Ele abriu os olhos surpreso.
— Isso é estúpido. Isso é como alguém que acabou de ganhar na loteria, pegando o dinheiro, e dizendo, “Olha, vamos voltar a ser como as coisas deviam ser. É melhor assim”. Eu não vou aceitar isso.
— Eu não sou bem um prêmio de loteria. — Ele rugiu.
— Isso mesmo. Você é muito melhor.
Ele rolou os olhos e ajeitou os lábios.
— Bella, nós não vamos mais continuar com essa discussão. Eu me recuso a te amaldiçoar a noite eterna e esse é o fim.
— Se você acha que acaba aqui, não me conhece muito bem. — O avisei. — Você não é o único vampiro que eu conheço.
Os olhos dele ficaram pretos de novo.
— Alice não ousaria.
E por um momento ele pareceu tão assustador que eu não pude deixar de acreditar.Não podia imaginar uma pessoa corajosa o suficiente pra passar por cima dele.
— Alice já viu isso, não foi? — Adivinhei. — É por isso que as coisas que ela fala aborrecem você. Ela sabe que eu serei como vocês... Um dia.
— Ela está errada. Ela também viu você morta. Nunca apostaria contra Alice.
Nós olhamos um para o outro por um longo tempo. Estava silencioso, exceto pelo barulho das máquinas, o bipe, as gotas, o tique do grande relógio na parede. Finalmente a expressão dele se suavizou.
— Então onde isso nos deixa? — Imaginei.
Ele gargalhou sem humor.
— Eu acredito que se chama impasse.
Eu suspirei.
— Oh— Murmurei.
— Como você está se sentindo? — Olhando para o botão da enfermeira.
— Eu estou bem. — Menti.
— Eu não acredito em você. — Ele disse gentilmente.
— Eu não vou voltar a dormir.
— Você precisa descansar. Toda essa discussão não faz bem a você.
— Então desista. — Provoquei.
— Boa tentativa. — Ele alcançou o botão.
— Não!
Ele me ignorou.
— Sim? — O comunicador na parede respondeu.
— Eu acho que estamos prontos para mais remédios para a dor. — Ele disse calmamente, ignorando minha expressão furiosa.
— Eu vou mandar a enfermeira. — A voz parecia muito entediada.
— Eu não vou tomar. — Prometi.
Ele olhou na direção do saco de fluídos pendurado do lado da minha cama.
— Eu acho que eles não vão te pedir pra engolir nada.
O meu coração começou a bater forte. Ele viu o medo nos meus olhos e suspirou frustrado.
— Bella, você está sentindo dor. Precisa relaxar pra se curar. Porque você está sendo tão difícil? Eles não vão mais colocar agulhas em você.
— Eu não estou com medo das agulhas. — Murmurei. — Eu estou com medo de fechar meus olhos.
Então ele sorriu o seu sorriso torto, e pegou meu rosto entre as mãos dele.
— Eu disse que não vou pra lugar nenhum. Não tenha medo. Enquanto isso te fizer feliz, eu vou ficar aqui.
Eu sorri de volta, ignorando a dor nas minhas bochechas.
— Você está falando de pra sempre, sabe.
— Oh, você vai superar isso, é só uma paixonite.
Eu balancei minha cabeça sem acreditar, isso me deixou tonta.
— Eu fiquei chocada quando Renée comprou essa. Eu sei que você sabe mais que isso.
— Isso é a beleza de ser humano. — Ele me disse. — As coisas mudam.
Meus olhos reviraram.
— Não segure o fôlego.
Ele estava sorrindo quando a enfermeira entrou, segurando uma seringa.
— Com licença. — Ela disse bruscamente pra Edward.
Ele se levantou e cruzou o pequeno quarto, se encostando a parede.
Cruzou os braços e esperou. Eu mantive meus olhos nele, ainda apreensiva. Ele encontrou meus olhos calmamente
— Aí está, meu bem. — A enfermeira sorriu enquanto injetava o medicamento no tubo. — Você vai se sentir melhor agora.
— Obrigada. — Murmurei, sem entusiasmo.
Não demorou muito. Eu pude sentir a sonolência invadir minha corrente sanguínea quase imediatamente.
— Acho que isso será suficiente. — Ela disse enquanto minhas pálpebras se fechavam.
Ela deve ter deixado o quarto, porque alguma coisa suave e gelada estava tocando o meu rosto.
— Fique. — A palavra saiu mal articulada.
— Eu fico. — Ele prometeu. A voz dele era linda, como uma canção de ninar.
— Como eu já disse, enquanto isso te fizer feliz... Enquanto isso for o melhor pra você.
Eu tentei balançar a minha cabeça, mas ela estava pesada demais.
— Não é a mesma coisa. — Murmurei.
Ele riu.
— Não se preocupe com isso agora, Bella. Você pode discutir comigo quando se acordar.
Eu acho que sorri.
— Tá.
Pude sentir os lábios dele no meu ouvido.
— Eu te amo. — Ele sussurrou.
— Eu também.
— Eu sei. — Ele sorriu baixinho.
Virei minha cabeça levemente... Procurando. Ele sabia o que eu estava procurando. Seus lábios tocaram o meus gentilmente.
— Obrigada. — Suspirei.
— Á disposição.
Eu já não estava mais completamente lá. Mas eu lutei contra o torpor lentamente. Havia só mais uma coisa que eu queria dizer pra ele.
— Edward? — Lutei pra pronunciar o nome dele claramente.
— Sim?
— Eu aposto em Alice. — Murmurei.
E então a noite se fechou sobre mim.

6 comentários:

  1. Camilla (Filha de Atena e Estudante de Hogwarts na Casa Corvinal)16 de novembro de 2015 21:22

    Que Lindo!!!!!!!!
    Eu Amo Roamance.
    (Principalmente de Edward e Bella)
    Vou Chorar Aqui.
    o o
    || - |||

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  2. Concordo...é o romance. mais lindo que eu ja li (sem contar a seleção);)

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    Respostas
    1. Acho que é até melhor(mais romântico) que America e Maxon

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  3. "O bipe do monitor pulou erraticamente, agora ele não era mais o único que podia ouvir o meu coração se comportando mal.
    — Isso é tão vergonhoso. — Murmurei pra mim mesma.
    Ele gargalhou, e um olhar especulativo apareceu nos olhos dele.
    — Humm, eu imagino..."

    kkkkkkkkk

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  4. Foi tão romântico que fiquei na bad

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