29 de setembro de 2015

Capítulo 24 - Surpresa

— Não! De jeito nenhum! — Sacudi a cabeça ferozmente e olhei para o sorriso presunçoso no rosto de meu marido de 17 anos. — Não, isso não conta. Eu parei de envelhecer há três dias. Tenho 18 para sempre.
— Que seja — disse Alice, desprezando meu protesto com um dar de ombros rápido. — Vamos comemorar de qualquer jeito, então você vai ter de aceitar.
Suspirei. Raras vezes tinha sentido discutir com Alice. Seu sorriso ficou incrivelmente mais largo enquanto ela lia a aquiescência em meus olhos.
— Está pronta para abrir seu presente? — cantarolou Alice.
— Presentes — corrigiu Edward, e pegou no bolso outra chave, maior e prateada, com um laço azul menos pomposo.
Lutei para não revirar os olhos. Eu soube imediatamente para que era a chave – o “carro de depois”. Perguntei-me se devia ficar animada. Parecia que a conversão em vampira não me dera nenhum interesse repentino por carros esportivos.
— Primeiro o meu — disse Alice, depois mostrou a língua, prevendo a resposta dele.
— O meu está mais perto.
— Mas olhe como ela está vestida. — As palavras de Alice eram quase um gemido. — Isso está me matando o dia todo. Obviamente, essa é a prioridade.
Minhas sobrancelhas se uniram enquanto eu me perguntava como uma chave poderia me dar roupas novas. Será que ela me comprara um caminhão inteiro?
— Eu sei... Vamos tirar a sorte — sugeriu Alice. — Pedra, papel tesoura.
Jasper riu e Edward suspirou.
— Por que não me diz logo quem venceu? — disse Edward irônico.
Alice ficou radiante.
— Eu. Ótimo.
— Provavelmente, é melhor esperar pela manhã mesmo — Edward lançou um sorriso torto e fez um gesto na direção de Jacob e Seth, que pareciam prontos para dormir ali a noite toda; perguntei-me quanto tempo teriam ficado acordados dessa vez. — Acho que pode ser mais divertido se Jacob estiver acordado para a grande revelação, não concorda? Assim alguém será capaz de expressar o nível certo de entusiasmo.
Retribuí o sorriso. Ele me conhecia bem.
— Oba — cantarolou Alice. — Bella, passe Ness... Renesmee para Rosalie
— Onde ela costuma dormir?
Alice deu de ombros.
— Nos braços de Rose. Ou de Jacob. Ou de Esme. Você entendeu. Ela nunca deixou o colo de alguém nem por um minuto de sua vida. Vai ser a meia-vampira mais estragada do mundo, de tanto mimo.
Edward riu enquanto Rosalie pegava Renesmee nos braços com habilidade.
— Ela também é a meia-vampira menos estragada do mundo — disse Rosalie. — Essa é a graça de ser única em sua espécie.
Rosalie sorriu para mim e fiquei feliz ao ver que a nova camaradagem entre nós ainda estava lá em seu sorriso. Eu não tinha muita certeza se duraria depois que a vida de Renesmee não estivesse mais ligada à minha. Mas talvez tenhamos lutado do mesmo lado por tempo suficiente para agora sermos sempre amigas.
Finalmente eu havia feito uma escolha que também teria sido a dela se estivesse no meu lugar. Isso parecia ter acabado com seu ressentimento por todas as minhas outras escolhas.
Alice enfiou a chave com o laço na minha mão, depois pegou meu cotovelo e me guiou para a porta dos fundos.
— Vamos, vamos — trinou ela.
— É lá fora?
— Mais ou menos — disse Alice, empurrando-me.
— Aproveite o presente — disse Rosalie. — É de todos nós. Especialmente de Esme.
— Vocês não vêm também? — Percebi que ninguém tinha se mexido.
— Vamos lhe dar a oportunidade de apreciá-lo sozinha — disse Rosalie. — Você pode nos contar sobre ele... depois.
Emmett riu. Alguma coisa no riso dele me deu a sensação de corar, embora eu não soubesse bem por quê. Percebi que muitas coisas em mim – como odiar surpresas e não gostar muito mais de presentes em geral - nãohaviam mudado nem um pouco. Era um alívio e uma revelação descobrir quanto de minhas características essenciais fora comigo para aquele novo corpo.
Eu não esperara continuar a ser eu mesma. Abri um sorriso largo. Alice puxou meu cotovelo, e não reprimi o sorriso enquanto a seguia na noite púrpura. Só Edward veio conosco.
— É esse entusiasmo que eu quero — murmurou Alice com aprovação.
Então largou meu braço, deu dois passos ágeis e saltou sobre o rio.
— Vamos, Bella — chamou do outro lado.
Edward pulou ao mesmo tempo que eu; foi tão divertido quanto fora aquela tarde. Talvez um pouco mais, porque a noite dava a tudo cores novas e ricas.
Alice saiu andando, nós dois a seguindo de perto, no sentido norte. Era mais fácil seguir o som de seus pés sussurrando no chão e o rastro fresco de seu cheiro que manter os olhos nela, através da vegetação densa.
A um sinal que eu não podia ver, ela girou e voltou correndo até onde eu parei.
— Não me ataque — alertou ela, e se lançou sobre mim.
— O que está fazendo? — perguntei, retorcendo-me enquanto ela subia nas minhas costas e cobria meu rosto com as mãos. Senti o impulso de afastá-la, mas me controlei.
— Cuidando para que você não possa ver.
— Eu poderia ter feito isso sem ser teatral — propôs Edward.
— Você poderia deixá-la trapacear. Pegue a mão dela e a leve adiante.
— Alice, eu...
— Nem se incomode, Bella. Vamos fazer isso do meu jeito.
Senti os dedos de Edward entrelaçando-se nos meus.
— Só mais alguns segundos, Bella. Depois ela vai irritar outra pessoa.
Ele me puxou para a frente. Eu seguia com facilidade. Não tive medo de bater numa árvore; nessa hipótese, a única a se ferir seria a árvore.
— Você podia ser um pouco mais agradecido — Alice o repreendeu. — O presente é tanto para você quanto para ela.
— É verdade. Obrigado de novo, Alice.
— Sim, sim. Tudo bem. — A voz de Alice de repente se elevou, excitada. — Pare aqui. Vire-a um pouquinho para a direita. Isso, assim. Tudo bem. Está pronta? — guinchou ela.
— Estou.
Havia cheiros novos ali, instigando meu interesse, aumentando minha curiosidade. Cheiros que não pertenciam à mata. Madressilva. Fumaça. Rosas. Serragem? Algo metálico também. A fertilidade da terra cavada e exposta. Inclinei-me na direção do mistério.
Alice desceu de minhas costas, liberando meus olhos. Olhei para a escuridão violeta. Ali, aninhado em uma pequena clareia na floresta, estava um pequeno chalé de pedra, lavanda-acizentado, à luz das estrelas.
Combinava com tanta perfeição com o lugar que parecia ter crescido da rocha, uma formação natural. Madressilvas subiam por uma parede como uma treliça, serpenteando sobre as grossas placas de madeira. Rosas floresciam num jardim minúsculo sob as janelas escuras. Havia um caminho de pedras lisas, ametistas na noite, que levava à porta de madeira arqueada de maneira pitoresca.
Fechei a mão em torno da chave que segurava, chocada.
— O que você acha? — A voz de Alice agora era suave, combinando com a quietude completa da cena de conto de fadas.
Abri a boca, mas não disse nada.
— Esme achou que iríamos gostar de ter um lugar só nosso por um tempo, mas ela não queria que ficasse muito longe — murmurou Edward. — E ela adora qualquer desculpa para uma reforma. Essa casinha estava em ruínas aqui por pelo menos cem anos.
Continuei olhando, a boca escancarada como a de um peixe.
— Não gostou? — O rosto de Alice se fechou. — Quer dizer, com certeza podemos reformar de outro jeito, se preferir. Emmett queria acrescentar mais algumas centenas de metros quadrados, um segundo andar, colunas e uma torre, mas Esme achou que você iria gostar mais se mantivesse o estilo da construção. — Sua voz começou a se elevar, a ficar mais rápida. — Se ela estiver errada, podemos voltar a trabalhar. Não vai levar muito tempo...
— Psiu! — consegui dizer.
Ela apertou os lábios e esperou. Precisei de alguns segundos para me recuperar.
— Vocês estão me dando uma casa de aniversário? — sussurrei.
— Dando a nós — corrigiu Edward. — E é só um chalé. Acho que a palavra casa implica mais espaço.
— Não desmereça minha casa — murmurei para ele.
Alice estava radiante.
— Você gostou.
Sacudi a cabeça negativamente.
— Adorou?
Assenti.
— Mal posso esperar para contar a Esme!
— Por que ela não veio?
O sorriso de Alice diminuiu um pouco, retorcendo-se um pouco, como se minha pergunta fosse difícil de responder.
— Ah, sabe como é... Todos eles se lembram de como você é com presentes. Eles não queriam pressioná-la a gostar.
— Mas é claro que eu amei. Como poderia não amar?
— Eles vão gostar disso. — Ela afagou meu braço. — Bem, seu armário está abastecido. Use com sensatez. E... acho que é tudo.
— Não vai entrar?
Ela recuou alguns passos despreocupadamente.
— Edward já conhece a casa, sabe onde está tudo. Farei uma visitinha... mais tarde. Me ligue se não conseguir combinar as roupas. — Ela lançou um olhar de dúvida e então sorriu. — Jazz quer caçar. A gente se vê.
Ela disparou para a mata como um gracioso projétil.
— Foi estranho — eu disse quando o som de seu voo desapareceu completamente. — Eu sou assim tão ruim? Eles não precisavam ficar longe. Agora eu me sinto culpada. Nem agradeci direito a ela. Precisamos voltar, dizer a Esme...
— Bella, não seja tola. Ninguém acha que você é tão irracional.
— Então o que...
— Um tempo a sós é outro presente deles. Alice estava tentando ser sutil em relação a isso.
Foi o que bastou para fazer a casa desaparecer. Podíamos estar em qualquer lugar. Eu não via mais as árvores, as pedras ou as estrelas. Só via Edward.
— Vou lhe mostrar o que eles fizeram — disse ele, puxando minha mão.
Estaria ele alheio ao fato de que uma corrente elétrica pulsava pelo meu corpo como sangue misturado a adrenalina?
Mais uma vez eu me senti estranhamente sem equilíbrio, à espera de reações de que meu corpo não era mais capaz. Meu coração deveria estar trovejando como uma locomotiva prestes a nos atingir. Ensurdecedor. Minhas bochechas deviam estar muito vermelhas.
Aliás, eu devia estar exausta. Aquele fora o dia mais longo da minha vida. Eu ri – uma risadinha baixa de choque – quando percebi que o dia nunca terminaria.
— Posso saber qual é a piada?
— Não é muito boa — eu disse enquanto ele me conduzia para a porta arqueada. — Eu só estava pensando... Hoje é o primeiro e o último dia da eternidade. É meio difícil apreender isso. Mesmo com todo o espaço extra para pensar. — Eu ri de novo.
Ele riu comigo. Então estendeu a mão para a maçaneta, esperando que eu fizesse as honras. Coloquei a chave na fechadura e girei.
— Você é tão espontânea nisso, Bella. Eu me esqueço de como tudo deve ser estranho para você. Eu queria poder ouvir você. — Ele se abaixou e me puxou para seus braços, tão rápido que não vi o que ia acontecer... e isso era extraordinário.
— Ei!
— Carregá-la pela porta é parte do trabalho — lembrou ele. — Mas estou curioso. Diga-me o que está pensando agora.
Ele abriu a porta – que se moveu com um estalo que mal era audível – e entrou na pequena sala de estar de pedra.

— Tudo — eu disse a ele. — Tudo ao mesmo tempo, você sabe. Coisas boas, coisas preocupantes e coisas que são novas. E que continuo usando muitos superlativos em meus pensamentos. Neste momento, estou pensando que Esme é uma artista. É tão perfeito!
A sala do chalé parecia ter saído de um conto de fadas. O piso era uma colcha de retalhos de pedras planas e lisas. O teto baixo tinha longas vigas expostas, nas quais alguém alto como Jacob certamente bateria a cabeça. As paredes eram de madeira em alguns lugares, mosaicos de pedra em outros. A lareira no canto tinha os restos de um fogo que bruxuleava lentamente. Queimando ali, havia madeira que flutuara no mar – as chamas baixas eram azuladas e verdes por causa do sal.
A mobília era composta de peças ecléticas, mas ainda assim harmoniosas. Uma cadeira tinha certo traço medieval, enquanto um divã baixo perto lareira era mais contemporâneo e a estante abastecida de livros na janela mais distante me lembrava filmes ambientados na Itália. De algum modo, cada peça se encaixava com as outras como um grande quebra-cabeças tridimensional. Nas paredes viam-se algumas pinturas que reconheci – algumas das minhas preferidas da casa grande. Originais de valor inestimável, sem dúvida, mas que também pareciam pertencer àquele lugar, como todo o resto.

Era um lugar onde qualquer um podia acreditar que a magia existia. Um lugar onde você esperava que a Branca de Neve entrasse com a maçã na mão, ou um unicórnio parasse para mordiscar as roseiras.
Edward sempre achara que pertencia ao mundo das histórias de terror. É claro que eu sabia que ele estava tremendamente errado. Era evidente que ele pertencia àquele lugar. A um conto de fadas.
E agora eu estava na história, com ele.
Eu estava prestes a me aproveitar do fato de que ele ainda não tinha me colocado no chão e que seu rosto lindo de enlouquecer estava a apenas centímetros de distância, quando ele disse:
— Temos sorte por Esme pensar em criar um cômodo a mais. Ninguém pensou em Ness... Renesmee.
Franzi a testa para ele, meus pensamentos canalizados por um caminho menos agradável.
— Você também, não — me queixei.
— Desculpe-me, amor. Eu ouço isso nos pensamentos deles o tempo todo, sabe? É como se esfregassem na minha cara.
Suspirei. Minha filha, o “monstro do lago”. Talvez não tivesse jeito. Bom, eu não iria desistir.
— Sei que está morrendo de vontade de ver o armário. Ou, pelo menos, vou dizer a Alice que você estava, para deixá-la feliz.
— Devo ter medo?
— Pavor.
Ele me carregou por um corredor estreito de pedra com pequenos arcos no teto, como se fosse nosso próprio castelo em miniatura.
— Este será o quarto de Renesmee — disse ele, apontando para um cômodo vazio com piso de madeira clara. — Ainda não tiveram tempo de fazer muita coisa aqui, com os lobisomens irritados...
Eu ri baixo, maravilhada com a rapidez com que as coisas haviam se ajeitado quando, fazia apenas uma semana, tudo parecia um pesadelo tão grande.
Que droga que tenha sido Jacob a deixar tudo perfeito daquela maneira.
— Aqui é nosso quarto. Esme tentou trazer algumas coisas da ilha dela para nós. Imaginou que teríamos nos afeiçoado.
A cama era imensa e branca, com nuvens de tecido etéreo flutuando do dossel ao chão. O piso de madeira clara era igual ao do outro quarto, e ali compreendi que era precisamente da cor da praia da ilha. As paredes eram daquele azul quase branco de um dia de sol forte, e a parede dos fundos tinha grandes portas de vidro que se abriam para um pequeno jardim secreto. Rosas trepadeiras e um pequeno lago, plano como um espelho e cercado de pedras reluzentes. Um oceano minúsculo e calmo para nós.
— Ah! — foi só o que consegui dizer.
— Eu sei — ele sussurrou.
Ficamos ali por um minuto, lembrando. Embora fossem humanas e turvas, as lembranças tomaram completamente minha mente. Ele abriu um sorriso largo e radiante e então deu uma gargalhada.
— O closet fica naquelas portas duplas. Mas eu devo alertá-la... é maior do que este quarto.
Eu nem mesmo olhei para as portas. Novamente não havia mais nada no mundo que não fosse ele – os braços me envolvendo, o hálito doce em meu rosto, os lábios a centímetros dos meus – e não havia nada que pudesse me distrair agora, fosse eu vampira recém-criada ou não.
— Vamos dizer a Alice que eu corri para as roupas — sussurrei, torcendo os dedos em seu cabelo e aproximando ainda mais meu rosto do dele. — Vamos dizer a ela que eu passei horas brincando de me produzir. Vamos mentir.
Ele alcançou meu estado de espírito de imediato, ou talvez já estivesse nele e só estivesse tentando me fazer apreciar plenamente meu presente de aniversário, como um cavalheiro. Puxou meu rosto para o dele com uma ferocidade súbita, um gemido baixo em sua garganta. O som produziu uma corrente elétrica por meu corpo quase num frenesi, como se eu não pudesse me aproximar dele com rapidez suficiente.
Ouvi o tecido se rasgar sob nossas mãos, e fiquei feliz que pelo menos as minhas roupas já estivessem destruídas. Era tarde demais para as dele. Era quase uma grosseria ignorar a cama branca e linda, mas não íamos conseguir chegar tão longe.
Essa segunda lua de mel não foi como a primeira. Nosso tempo na ilha fora o epítome da minha vida humana, dela. Eu só estivera disposta a estender meu tempo de humana para me agarrar por mais tempo ao que tivera lá com ele. Porque a parte física nunca mais seria a mesma. Eu devia ter imaginado, depois de um dia como aquele, que seria melhor.
Agora podia realmente apreciá-lo – com meus olhos novos e poderosos podia ver devidamente cada linda linha de seu rosto perfeito, de seu corpo longo impecável, cada ângulo e cada superfície dele. Podia sentir seu cheiro puro e vívido em minha língua e sentir a maciez inacreditável de sua pele de mármore sob meus dedos sensíveis.
Minha pele era igualmente sensível sob as mãos dele. Tudo nele era novo, uma pessoa diferente, enquanto nossos corpos se enroscavam graciosamente em um só, no piso cor de areia. Sem prudência, sem restrições. Sem medo – especialmente isso. Podíamos amar juntos – ambos participantes ativos. Finalmente iguais.
Como nossos beijos antes, cada toque era mais do que eu estava acostumada a ter. Tanto de si mesmo que ele estivera refreando! Necessário naquela época, mas eu nem acreditava em quanto havia perdido.
Tentei me lembrar de que eu era mais forte do que ele, mas era difícil me concentrar em qualquer coisa com sensações tão intensas atraindo minha atenção a um milhão de lugares diferentes de meu corpo a cada segundo; se eu o machuquei, ele não se queixou.
Uma parte muito, muito pequena de minha mente refletiu sobre o interessante enigma apresentado por aquela situação. Eu nunca ficaria cansada, nem ele. Não precisávamos recuperar o fôlego nem descansar, comer ou usar o banheiro; não tínhamos mais nenhuma necessidade mundana comum aos humanos. Ele tinha o corpo mais lindo e mais perfeito do mundo, e eu o tinha todo para mim, e não parecia que um dia fosse chegar a um ponto em que pensasse: Agora já chega por hoje. Eu sempre iria querer mais. E o dia nunca terminaria. Então, numa situação daquelas, como iríamos parar?
Não me incomodava nada não ter uma resposta. Percebi, distraída, quando o céu começou a clarear. O minúsculo mar do lado e fora passou do preto ao cinza e uma cotovia começou a cantar em algum lugar muito perto – talvez ela tivesse um ninho nas roseiras.
— Sente falta disso? — perguntei a ele quando o canto acabou.
Não era a primeira vez que falávamos, mas não estávamos exatamente conversando.
— Falta do quê? — murmurou ele.
— De tudo... o calor, a pele macia, o cheiro gostoso... Não estou perdendo nada, só me perguntei se seria meio triste para você.
Ele riu, baixo e delicadamente.
— Seria difícil encontrar alguém menos triste do que eu agora. Impossível, eu me arriscaria. Não há muita gente que consiga tudo o que quer, mais todas as coisas que nunca pensou pedir, no mesmo dia.
— Está evitando minha pergunta?
Ele colocou a mão em meu rosto.
— Você é quente — ele me disse.
Era verdade, de certo modo. Para mim, a mão dele era quente. Não era a mesma coisa que tocar a pele em chamas de Jacob, mas era mais confortável. Mais natural.
Então ele correu os dedos muito lentamente em meu rosto, acompanhando levemente minhas feições da mandíbula ao pescoço e depois todo o caminho até a cintura. Meus olhos se reviraram um pouco.
— Você é macia.
Seus dedos eram como cetim em minha pele, então entendi o que ele quis dizer.
— E quanto ao cheiro, bom, não posso dizer que sinto falta disso. Lembra-se do cheiro daqueles montanhistas em nossa caçada?
— Estou fazendo muita força para não lembrar.
— Imagine beijar aquilo.
Minha garganta ardeu em chamas, como se puxassem a corda de um balão de ar quente.
— Ah!
— Exatamente. Então a resposta é não. Sou pura alegria, porque não sinto falta de nada. Ninguém tem mais do que eu agora.
Eu estava prestes a lhe falar de uma exceção à sua declaração, mas meus lábios de repente ficaram muito ocupados. Quando o pequeno lago ficou perolado com o nascer do sol, pensei em outra pergunta para ele.
— Por quanto tempo isso vai continuar? Quer dizer, Carlisle e Esme, Emmet e Rose, Alice e Jasper... eles não passam o dia todo trancados no quarto, ficam em público, vestidos, o tempo todo. Será que esse... desejo um dia acaba?
Me retorci, chegando mais perto dele, uma verdadeira façanha, para deixar claro do que eu estava falando.
— É difícil dizer. Todos são diferentes e, bem, até agora você é a mais diferente de todos. O vampiro jovem típico é obcecado demais com a sede para perceber qualquer outra coisa durante algum tempo. Isso não parece se aplicar a você. Com o vampiro típico, porém, depois do primeiro ano, necessidades se apresentam. A sede e outros desejos não desaparecem. Então, é simplesmente uma questão de aprender a equilibrá-los, aprender a priorizar, a administrar...
— Quanto tempo?
Ele sorriu, franzindo um pouco o nariz.
— Rosalie e Emmett foram os piores. Levou uma década inteira antes que eu suportasse ficar num raio de dez quilômetros deles. Até Carlisle e Esme tiveram dificuldade para aguentar. Eles por fim se cansaram do casal feliz. Esme também construiu uma casa para eles. Era maior do que esta, mas Esme sabe do que Rose gosta, e sabe do que você gosta.
— E depois de dez anos, o que acontece? — Eu tinha certeza de que Rosalie e Emmett não levavam nenhuma vantagem sobre nós, mas podia parecer convencido se eu fosse além de uma década. — Todo mundo fica normal de novo? Como eles são agora?
Edward sorriu de novo.
— Bem, não sei o que você chama de normal. Você viu minha família levando a vida de uma forma mais humana, mas você dormia à noite. — Ele piscou para mim. — Há uma quantidade tremenda de tempo de sobra quando não se precisa dormir. Isso faz com que equilibrar nossos... interesses seja muito fácil. Há um motivo para eu ser o melhor músico da família, para que... além de Carlisle... eu tenha lido mais livros, estudado mais ciência, me tornado fluente na maioria das línguas... Emmett a faria acreditar que eu sou um sabe-tudo por ler as mentes, mas a verdade é que eu tinha muito tempo livre.
Rimos juntos, e o movimento de nosso riso provocou reações interessantes na maneira como nossos corpos estavam conectados, efetivamente dando um fim à conversa.

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