29 de setembro de 2015

Capítulo 23 - Lembranças

— Desculpe, Seth. Eu devia ter ficado mais perto.
Edward ainda estava se desculpando, e eu não achava que fosse justo ou adequado. Afinal, Edward não tinha perdido completa e indesculpavelmente o controle de seu gênio. Edward não tentara arrancar a cabeça de Jacob – Jacob, que nem se metamorfoseou para se proteger – e, então, por acidente, quebrara o ombro e a clavícula de Seth quando ele interviera. Não fora Edward quem tinha quase matado seu melhor amigo.
Não que o melhor amigo não tivesse algumas questões por que responder, mas era evidente que nada que Jacob tivesse feito poderia ter justificado meu comportamento.
Então não deveria ser eu a me desculpar? Tentei novamente.
— Seth, eu...
— Não se preocupe com isso, Bella, eu estou muito bem — disse Seth ao mesmo tempo que Edward dizia:
— Bella, amor, ninguém a está criticando. Você está se saindo muito bem.
Eles ainda não tinham deixado que eu terminasse uma frase sequer. O fato de Edward não conseguir esconder o sorriso só piorava as coisas. Eu sabia que Jacob não merecia minha reação exagerada, mas Edward parecia encentrar alguma satisfação naquilo. Talvez ele só desejasse ter a desculpa de ser um recém-criado para poder fazer alguma coisa física com sua irritação com Jacob também.
Tentei apagar completamente a raiva, mas era difícil, sabendo que Jacob estava lá fora com Renesmee. Protegendo-a de mim, a recém-criada enlouquecida.
Carlisle prendeu outro pedaço de tala no braço de Seth, que se encolheu.
— Desculpe, desculpe! — murmurei, sabendo que nunca conseguiria articular plenamente minhas desculpas.
— Não se apavore, Bella — disse Seth, afagando meu joelho com a mão boa enquanto Edward acariciava meu braço do outro lado.
Seth parecia não sentir aversão ao fato de eu estar sentada ao seu lado no sofá enquanto Carlisle cuidava dele.
— Vou voltar ao normal em meia hora — continuou ele, ainda afagando meu joelho, alheio à sua textura fria e dura. — Qualquer um teria feito o mesmo, com Jake e Ness... — Ele se interrompeu no meio da frase e mudou de assunto rapidamente. — Quer dizer, pelo menos você não me mordeu nem nada. Isso, sim, teria sido ruim.
Enterrei o rosto nas mãos e estremeci com aquele pensamento, uma possibilidade muito real. Podia ter acontecido muito facilmente. E os lobisomens não reagiam ao veneno de vampiro da mesma forma que os humanos, só ali me disseram isso. Para eles era fatal.
— Eu sou uma pessoa má.
— É claro que não é. Eu devia ter... — começou Edward.
— Pare com isso — suspirei. Não queria que ele assumisse a culpa nesse caso, como sempre fazia com tudo.
— Por sorte Ness... Renesmee não é venenosa — disse Seth depois de um incômodo segundo de silêncio. — Porque ela morde Jake o tempo todo.
Minhas mãos caíram de lado.
— Ela morde?
— É. Sempre que ele e Rose não lhe dão comida com rapidez suficiente. Rose acha hilário.
Eu o olhei, chocada, e também me sentindo culpada, porque tinha de admitir que a ideia me agradava um pouquinho, de um jeito petulante.
Naturalmente, já sabia que Renesmee não era venenosa. Fui eu a primeira pessoa que ela mordeu. Não falei em voz alta, já que estava fingindo uma perda de memória com relação aos últimos acontecimentos.
— Bom, Seth — disse Carlisle, endireitando o corpo e afastando-se de nós. — Acho que é o máximo que posso fazer. Procure não se mexer por hã, algumas horas, acho — Carlisle riu. — Quem dera tratar de humanos tivesse tal resultado instantâneo! — Ele pousou a mão por um momento no cabelo preto de Seth. — Fique parado — ordenou ele, depois subiu a escada, desaparecendo. Ouvi a porta do escritório se fechar e me perguntei se eles já haviam retirado as provas de minha estada lá.
— Acho que consigo ficar parado um tempinho — concordou Seth, depois que Carlisle se foi, e então deu um grande bocejo. Com cuidado, certificando-se de não mover bruscamente o ombro, Seth pousou a cabeça nas costas do sofá e fechou os olhos. Segundos depois, sua boca relaxou.
Fiquei olhando seu rosto tranquilo por mais um minuto. Como Jacob, Seth parecia ter o dom de dormir no momento que quisesse. Sabendo que não seria capaz de me desculpar de novo por ora, levantei-me; o movimento não provocou a menor mudança no sofá. Tudo que era físico era fácil.
Edward me seguiu às janelas dos fundos e pegou minha mão.
Leah estava andando junto ao rio, parando de vez em quando para olhar a casa. Era fácil saber quando ela procurava o irmão e quando olhava para mim. Ela alternava olhares ansiosos e homicidas.
Eu podia ouvir Jacob e Rosalie nos degraus da frente discutindo em voz baixa sobre de quem era a vez de alimentar Renesmee. O relacionamento deles era tão antagônico quanto antes; a única coisa em que concordavam era que eu devia ser mantida longe de minha filha até que estivesse cem por cento recuperada de meu ataque de mau gênio. Edward contestou o veredito, mas eu deixei passar. Eu também queria ter certeza. Minha preocupação, porém, era que a minha certeza e a deles pudessem ser coisas muito diferentes.
Afora a contenda dos dois, a respiração lenta de Seth e o ofegar irritado de Leah, estava tudo muito quieto. Emmett, Alice e Esme estavam caçando. Jasper tinha ficado para me observar. Ele agora estava parado sem atrapalhar ninguém atrás da coluna nova, tentando não ser desagradável.
Aproveitei a calma para pensar em todas as coisas que Edward e Seth me disseram enquanto Carlisle colocava o braço de Seth no lugar. Eu tinha perdido muita coisa enquanto queimava, e aquela fora a primeira chance de verdade de me colocar em dia.
O principal era o final da rixa com a matilha de Sam – motivo por que os outros se sentiam novamente seguros para ir e vir como quisessem. A trégua era mais forte do que nunca. Ou mais compulsória, dependendo do ponto de vista, imaginei.
Compulsória pelo fato de que a mais absoluta de todas as leis da matilha era que nenhum lobo jamais mataria o objeto de imprinting de outro lobo.
A dor de uma coisa dessas seria insuportável para toda a matilha. A falha, intencional ou acidental, não podia ser perdoada; os lobos envolvidos lutariam até a morte – não havia alternativa. Aquilo já havia acontecido muito tempo atrás, Seth me contou, mas só por acidente. Nenhum lobo destruiria intencionalmente um irmão dessa maneira.
Então Renesmee era intocável por causa do modo como Jacob se sentia com relação a ela. Tentei me concentrar no alívio desse fato, em vez pesar, mas não era fácil. Minha mente tinha espaço suficiente para sentir duas emoções intensamente e ao mesmo tempo.
E Sam também não podia se enfurecer com minha transformação pois Jacob – falando como o alfa de direito – a autorizara. Era irritante percebe quanto eu devia a Jacob quando eu só queria ficar aborrecida com ele.
Redirecionei deliberadamente meus pensamentos a fim de controlar minhas emoções. Pensei em outro fenômeno interessante; embora ainda existisse o silêncio entre as matilhas separadas, Jacob e Sam descobriram que os alfas podiam se falar enquanto estavam na forma de lobo. Não da mesma forma que antes; eles não podiam ouvir os pensamentos do outro, como antes da cisão. Era mais como falar em voz alta, explicara Seth. Sam só podia ouvir os pensamentos que Jacob queria compartilhar, e vice-versa. Eles descobriram que podiam se comunicar a distância também, agora que estavam se falando novamente.
Eles só descobriram tudo quando Jacob fora sozinho – sob as objeções de Seth e Leah – explicar a Sam sobre Renesmee; fora o único momento em que ele a tinha deixado desde que pusera os olhos nela.
Depois de entender que tudo havia mudado completamente, Sam voltou com Jacob para falar com Carlisle. Eles conversaram na forma humana (Edward tinha se recusado a sair do meu lado para traduzir) e o tratado fora renovado. A sensação amistosa no relacionamento, porém, talvez nunca mais fosse a mesma.
Uma grande preocupação a menos.
Mas havia outra que, embora não fosse fisicamente tão perigosa quanto uma matilha de lobos furiosos, parecia mais urgente para mim. Charlie.       
Ele falara com Esme aquela manhã, mas isso não o impedira de ligar novamente, duas vezes, havia poucos minutos, enquanto Carlisle tratava Seth. Carlisle e Edward tinham deixado o telefone tocar.
Qual seria a coisa certa a dizer a ele? Será que os Cullen tinham razão? Seria melhor e mais generoso dizer a ele que eu tinha morrido? Seria eu capaz de ficar deitada e imóvel num caixão enquanto ele e minha mãe choravam por mim?
Não me parecia correto. Mas, obviamente, estava fora de cogitação colocar Charlie ou Renée em perigo em vista da obsessão dos Volturi com o segredo. Ainda havia a minha ideia – deixar que Charlie me visse, quando eu estivesse pronta, e tirasse suas próprias conclusões erradas. Tecnicamente, as regras dos vampiros continuariam invioladas. Não seria melhor para Charlie se ele soubesse que eu estava viva – mais ou menos – e feliz? Mesmo que eu fosse estranha, diferente e provavelmente assustadora para ele? Meus olhos, em particular, eram muito mais apavorantes agora. Levaria quanto tempo até meu autocontrole e a cor de meus olhos estarem prontos para Charlie?
— Qual é o problema, Bella? — perguntou Jasper em voz baixa, observando minha crescente tensão. — Ninguém está com raiva de você — um rosnado baixo da margem do rio o contradisse, mas ele o ignorou — nem surpreso, na verdade. Bem, acho que surpresos nós estamos. Surpresos por você ter sido capaz de voltar ao controle com tanta rapidez. Você agiu bem. Melhor do que todos esperavam.
Enquanto ele falava, a sala ficou muito calma. A respiração de Seth tornou-se um ronco baixo. Eu me sentia mais tranquila, mas não esqueci minhas angústias.
— Eu estava pensando em Charlie.
Na frente, a contenda foi interrompida.
— Ah! — murmurou Jasper.
— Nós temos mesmo de ir embora, não é? — perguntei. — Por enquanto, pelo menos. Fingir que estamos em Atlanta ou coisa assim.
Eu podia sentir o olhar de Edward em meu rosto, mas eu olhava para Jasper. E foi ele quem me respondeu, num tom grave.
— Sim. É a única maneira de proteger seu pai.
Refleti por um momento.
— Vou sentir muita falta dele. Vou sentir saudade de todo o mundo aqui.
Jacob, pensei, contra a vontade. Embora o anseio tivesse desaparecido e sido esclarecido – e eu estava muito aliviada com isso – ele ainda era meu amigo. Alguém que conhecia meu verdadeiro eu e me aceitava. Mesmo como monstro.
Pensei no que Jacob tinha dito, argumentando comigo antes de eu atacá-lo. Você disse que nosso lugar era um na vida do outro, certo? Que éramos uma família. Você disse que era assim que você e eu devíamos ser. Então... agora somos. Era o que você queria.
Mas não parecia o que eu queria. Não exatamente. Voltei mais um pouco no tempo, às lembranças vagas e indistintas de minha vida humana. Até a parte mais difícil de lembrar – a época sem Edward, uma época tão sombria que eu havia tentado enterrá-la em minha mente. Não conseguia encontrar as palavras exatas; só me lembrava de querer que Jacob fosse meu irmão para que pudéssemos amar um ao outro sem nenhuma confusão ou dor. Família. Mas eu nunca havia incluído uma filha na equação.
Lembrei-me de um pouco depois – numa das muitas vezes em que dissera adeus a Jacob – me perguntar em voz alta com quem ele terminaria, quem daria um jeito em sua vida depois do que eu fiz. Eu tinha dito alguma coisa sobre quem quer que fosse, ela não seria boa o bastante para ele.
Bufei e Edward ergueu uma sobrancelha inquisitiva. Sacudi a cabeça para ele.
Mas, por mais que eu pudesse sentir falta de meu amigo, sabia que havia um problema maior. Será que Sam, Jared ou Quil haviam passado um dia inteiro sem ver o objeto de sua fixação: Emily, Kim e Claire? Será que podiam? O que a separação de Renesmee faria com Jacob? Isso lhe causaria dor?
Ainda havia ira suficiente em meu organismo para me fazer sentir satisfação – não com a dor de Jacob, mas com a ideia de ter Renesmee longe dele. Como eu devia lidar com o fato de ela pertencer a Jacob, quando ela mal parecia pertencer a mim?
O som de movimento na varanda da frente interrompeu meus pensamentos. Ouvi-os se levantar, depois eles saíram pela porta. Exatamente na mesma hora, Carlisle desceu a escada com as mãos cheias de coisas estranhas – uma fita métrica, uma balança. Jasper disparou para o meu lado. Como se tivesse havido algum sinal que eu perdera, até Leah se sentou do lado de fora e olhou pela janela com uma expressão de quem esperava alguma coisa que era familiar e totalmente desinteressante.
— Devem ser seis horas — disse Edward.
— E daí? — perguntei, com os olhos fixos em Rosalie, Jacob e Renesmee.
Eles estavam na porta, Renesmee nos braços de Rosalie, que parecia preocupada. Jacob mostrava-se perturbado. Renesmee estava linda e impaciente.
— Hora de medir Ness... hã, Renesmee — explicou Carlisle.
— Ah. Você faz isso todos os dias?
— Quatro vezes ao dia — corrigiu Carlisle, distraído, enquanto gesticulava para que os outros fossem para o sofá.
Pensei ter visto Renesmee suspirar.
— Quatro vezes? Todos os dias? Por quê?
— Ela ainda está crescendo muito rápido — Edward murmurou para mim, voz baixa e tensa.
Ele apertou minha mão e seu outro braço envolveu firmemente minha cintura, quase como se precisasse de apoio.
Eu não conseguia tirar os olhos de Renesmee para ver a expressão dele. Ela parecia perfeita, inteiramente saudável. Sua pele cintilava como alabastro iluminado por trás; a cor no rosto era de pétalas de rosa. Não poderia haver nada de errado com uma beleza tão radiante. Certamente não poderia haver nada de mais perigoso em sua vida do que a mãe. Poderia?
A diferença entre a criança que dei à luz e aquela que eu reencontrara havia uma hora teria sido evidente a todos. A diferença entre a Renesmee de uma hora trás e da Renesmee de agora era sutil. Os olhos humanos nunca teriam detectado. Mas estava ali.
Seu corpo estava ligeiramente mais comprido. Só um pouquinho mais magro. Seu rosto não estava mais tão redondo; era mais oval, em um grau mínimo. Seus cachos pendiam quinze milímetros mais baixo nos ombros. Ela se esticou, cooperando, nos braços de Rosalie enquanto Carlisle corria a fita métrica ao longo da extensão de seu corpo e depois contornava com ela sua cabeça. Ele não tomou notas; memória perfeita.
Eu tinha consciência de que os braços de Jacob estavam cruzados com tanta força sobre seu peito quanto os braços de Edward à minha volta. Suas sobrancelhas grossas estavam unidas em uma linha acima dos olhos fundos.
Ela havia se transformado de uma única célula em um bebê de tamanho normal no curso de algumas semanas. Poucos dias depois do nascimento, parecia que logo estaria engatinhando. Naquele ritmo de crescimento...
Minha mente de vampira não tinha problemas com a matemática.
— O que vamos fazer? — sussurrei, apavorada.
Os braços de Edward se apertaram. Tinha entendido exatamente o que eu perguntava. Não sei.
— Está desacelerando — murmurou Jacob entredentes.
— Vamos precisar de mais dias de medição para confirmar a tendência, Jacob. Não posso prometer nada.
— Ontem ela cresceu cinco centímetros. Hoje cresceu menos.
— Sete milímetros, se minhas medições estiverem perfeitas — disse Carlisle em voz baixa.
— Que sejam perfeitas, doutor — disse Jacob, tornando as palavras ameaçadoras.
Rosalie enrijeceu.
— Você sabe que farei o melhor que puder — assegurou-lhe Carlise.
Jacob suspirou.
— Acho que é só o que posso pedir.
Senti-me irritada de novo, como se Jacob estivesse roubando minhas frases – e proferindo-as todas erradas.
Renesmee também parecia irritada. Ela começou a se remexer e estendeu a mão imperiosamente para Rosalie, que se inclinou para a frente, para que Renesmee pudesse tocar seu rosto. Depois de um segundo, Rose suspirou.
— O que ela quer? — perguntou Jacob, tomando minha fala de novo.
— Bella, é claro — disse-lhe Rosalie, e suas palavras fizeram com que eu me sentisse um pouco mais aquecida por dentro. Então ela olhou para mim.
— Como você está?
— Preocupada — admiti, e Edward me apertou.
— Nós todos estamos. Mas não foi a isso que me referi.
— Estou sob controle — garanti.
A sede agora ocupava uma posição bem abaixo na lista. Além disso, Renesmee tinha um cheiro bom de uma forma bem diferente de comida.
Jacob mordeu o lábio mas não fez nenhum movimento para impedir Rosalie quando ela me ofereceu Renesmee. Jasper e Edward ficaram por perto, mas permitiram. Eu podia ver o quanto Rose estava tensa, e me perguntei como estava o ambiente para Jasper. Ou ele estava tão concentrado em mim que nem podia sentir os outros?
Renesmee se esticou para mim enquanto eu estendia os braços para ela, um sorriso ofuscante iluminando seu rosto. Ela se encaixava tão bem em meus braços como se tivessem sido feitos para ela. Imediatamente, ela pôs a mãozinha quente em meu rosto.
Embora eu estivesse preparada, ainda me fazia arfar ver a lembrança como uma visão em minha mente. Tão nítida e colorida, mas também completamente transparente.
Ela estava se lembrando de mim atacando Jacob no gramado da frente, lembrando-se de Seth saltando entre nós. Ela vira e ouvira tudo com absoluta clareza. Não parecia eu, aquela predadora elegante saltando para sua presa como uma flecha disparada de um arco. Precisava ser outra pessoa. Isso me fez sentir um pouco menos culpada ao ver Jacob ali parado, indefeso, com as mãos atadas diante do corpo. Suas mãos não tremiam. Edward riu, vendo os pensamentos de Renesmee comigo. E então nós dois estremecemos ao ouvir o estalo dos ossos de Seth. Renesmee abriu seu sorriso luminoso e os olhos de sua memória não deixaram Jacob durante toda a confusão que se seguiu. Senti um novo prazer com a lembrança – não exatamente protetor, mas possessivo – enquanto ela observava Jacob. Tive a clara impressão de que ela ficou feliz por Seth ter se interposto entre mim e Jacob. Ela não queria que Jacob se machucasse. Ele era dela.
— Ah, que maravilha — gemi. — Perfeito.
— Isso é só porque ele tem um gosto melhor do que o resto de nós — garantiu-me Edward, a voz dura de irritação.
— Eu lhe disse que ela gosta de mim também — brincou Jacob do outro lado da sala, os olhos em Renesmee. Sua piada era fria; o ângulo tenso em suas sobrancelhas não havia relaxado.
Renesmee afagou meu rosto com impaciência, exigindo minha atenção. Mais uma lembrança: Rosalie puxando a escova delicadamente em cada um de seus cachos. Era bom.
Carlisle e sua fita métrica, sabendo que tinha de se esticar e ficar parada. Não era interessante para ela.
— Parece que ela vai lhe dar um informe de tudo que você perdeu — comentou Edward em meu ouvido.
Meu nariz franziu enquanto ela me passava a lembrança seguinte. O cheiro que vinha de um copo de metal estranho – duro o bastante para não ser perfurado com facilidade pelos dentes – provocou um ardor repentino em minha garganta. Ai.
E depois Renesmee estava fora de meus braços, que foram presos nas costas. Não lutei com Jasper; só olhei para o rosto assustado de Edward.
— O que foi que eu fiz?
Edward olhou para Jasper atrás de mim, depois para mim de novo.
— Ela estava se lembrando de ter sede — murmurou Edward, a testa franzida. — Ela estava se lembrando do gosto do sangue humano.
Os braços de Jasper apertaram ainda mais os meus. Parte de minha cabeça notou que aquilo não era particularmente desconfortável, e muito menos doloroso, como teria sido a um humano. Era só irritante. Eu sabia que podia me soltar dele, mas não lutei.
— Sim — concordei. — E...?
Edward me olhou de testa franzida mais um segundo, e então sua mão relaxou. Ele deu uma risada.
— E nada, ao que parece. A reação exagerada desta vez é minha. Jazz, solte-a.
As mãos refreadoras desapareceram. Estendi a mão para Renesmee assim que fiquei livre. Edward a entregou a mim sem hesitar.
— Não consigo entender — disse Jasper. — Não consigo suportar isso.
Observei com surpresa Jasper sair pela porta dos fundos. Leah deslocou-se para lhe dar um amplo espaço quando ele se dirigiu ao rio e se lançou sob ele em um salto só.
Renesmee tocou meu pescoço, repetindo a cena da partida, como replay instantâneo. Eu podia sentir a pergunta em seu pensamento, um eco do meu.
Eu já havia me recuperado do choque por seu estranho dom. Parecia uma parte inteiramente natural dela, quase como se fosse esperada. Agora que eu fazia parte do sobrenatural, talvez nunca mais voltasse a ser cética.
Mas qual era o problema com Jasper?
— Ele vai voltar — disse Edward, se para mim ou Renesmee, eu não sabia. — Ele só precisa de um momento a sós para reajustar sua perspectiva da vida. — Vi um sorriso ameaçando se abrir nos cantos de sua boca.
Outra lembrança humana – Edward me dizendo que Jasper se sentiria melhor consigo mesmo se eu “tivesse dificuldades de me adaptar” à minha condição de vampira. Isso no contexto de uma discussão sobre quantas pessoas eu mataria em meu primeiro ano de recém-criada.
— Ele está com raiva de mim? — perguntei em voz baixa.
Os olhos de Edward se arregalaram.
— Não. Por que estaria?
— Qual o problema dele, então?
— Ele está aborrecido com ele mesmo, não com você, Bella. Está preocupado com... uma profecia que se cumpre sozinha. Acho que se pode dizer.
— Como assim? — perguntou Carlisle antes de mim.
— Ele está se perguntando se a loucura dos recém-criados é realmente tão difícil como sempre pensamos, ou se, com o foco e a atitude corretos, qualquer um pode se sair tão bem quanto Bella. Mesmo agora... talvez ele tenha essa dificuldade porque acredita que é natural e inevitável. Talvez, se tivesse esperado mais de si mesmo, teria alcançado essas expectativas. Você o está fazendo questionar muitos pressupostos arraigados, Bella.
— Mas isso não é justo — disse Carlisle. — Todo o mundo é diferente; todo o mundo tem seus próprios desafios. Talvez a reação de Bella esteja além do natural. Talvez seja esse o dom dela.
Fiquei paralisada de surpresa. Renesmee sentiu a mudança e tocou em mim. Ela se lembrou do último segundo e se perguntou por quê.
— É uma teoria interessante e bem plausível — disse Edward, por um tempo mínimo, fiquei decepcionada.
Como é? Sem visões mágicas, nem talentos ofensivos formidáveis, como, hã, lançar raios pelos olhos ou coisa assim? Nada de útil nem bacana?
E então percebi o que podia significar, se meu “superpoder” não passasse de um autocontrole excepcional, pelo menos eu tinha um dom. Podia não ter nada.
Mas, muito mais do que isso, se Edward tinha razão, então eu podia pular a parte que mais temia.
E se eu não tivesse de ser uma recém-criada? Não no sentido da máquina de matar enlouquecida. E se eu pudesse seguir o padrão dos Cullen desde meu primeiro dia? E se nós não tivéssemos de nos esconder num lugar remoto por um ano enquanto eu “amadurecia”? E se, como Carlisle, eu nunca matasse ninguém? E se eu fosse uma boa vampira desde o início?
Eu poderia ver Charlie.
Suspirei assim que a realidade se infiltrou na esperança. Eu não podia ver Charlie agora. Os olhos, a voz, o rosto perfeito. O que eu poderia dizer a ele? Como começaria? Eu estava furtivamente feliz por ter desculpas para adiar as coisas por algum tempo; por mais que eu quisesse encontrar uma maneira de manter Charlie em minha vida, sentia-me apavorada com esse primeiro encontro. Ver seus olhos se esbugalharem enquanto ele observava meu novo rosto, minha nova pele. Saber que ele estava assustado. Imaginar que explicação obscura se formaria em sua mente.
Eu era bastante covarde para esperar um ano enquanto meus olhos esfriavam. E eu que pensei que seria tão destemida quando fosse indestrutível!
— Você já viu um equivalente ao autocontrole como talento? — perguntou Edward a Carlisle. — Acha realmente que é um dom, ou só um produto de toda a preparação dela?
Carlisle deu de ombros.
— Tem uma leve semelhança com o que Siobhan sempre foi capaz de fazer, embora ela não chamasse isso de dom.
— Siobhan, sua amiga do clã irlandês? — perguntou Rosalie. — Eu não sabia que ela possuía alguma coisa especial. Pensei que fosse Maggie a talentosa naquele grupo.
— Sim, Siobhan acha a mesma coisa. Mas ela tem um jeito de decidir suas metas e depois quase... induzi-las a se tornar realidade. Ela pensa que se trata de um bom planejamento, mas sempre me perguntei se seria mais alguma coisa. Quando ela incluiu Maggie, por exemplo. Liam era muito territorialista, mas Siobhan queria que desse certo, e assim foi.
Edward, Carlisle e Rosalie se acomodaram em cadeiras enquanto continuavam com a discussão. Jacob sentou-se ao lado de Seth protetoramente, parecendo entediado. Pelo modo como suas pálpebras caíram, eu tinha certeza de que ele logo estaria inconsciente.
Eu ouvia, mas minha atenção estava dividida. Renesmee ainda me contava como fora seu dia. Eu a segurei perto da parede envidraçada, meus braços balançando-a automaticamente enquanto olhávamos nos olhos uma da outra.
Percebi que os outros não tinham motivos para se sentar. Eu estava perfeitamente confortável de pé. Era tão repousante quanto seria me esticar numa cama. Sabia que seria capaz de ficar assim de pé por uma semana, sem me mexer, e me sentiria tão relaxada no final dos sete dias como no início.
Eles devem se sentar por hábito. Os humanos perceberiam alguém de pé por horas sem mudar o peso do corpo para o outro pé. Mesmo agora, eu via Rosalie passar os dedos no cabelo e Carlisle cruzar as pernas. Pequenos movimentos para evitar ficar parado demais, vampiro demais. Eu teria de prestar atenção ao que eles faziam e começar a treinar.
Desloquei o peso do meu corpo para a perna esquerda. Parecia uma tolice.
Talvez eles só estivessem me dando um tempo sozinha com minha filha – tão sozinha quanto era seguro.
Renesmee me contou de cada pequeno acontecimento de seu dia, e eu tive a sensação, pelo tom de suas historinhas, de que ela queria que eu a conhecesse tanto quanto eu queria conhecê-la. Preocupava-a o fato de eu ter perdido coisas – como os pardais que se aproximaram cada vez mais quando Jacob a segurava, os dois muito imóveis ao lado de uma das grandes cicutas; os passarinhos não se aproximavam de Rosalie. Ou a coisa branca e terrivelmente nojenta – a mistura para bebês - queCarlisle havia colocado em seu copo tinha cheiro de lama azeda. Ou a música que Edward tinha cantarolado para ela, tão perfeita que Renesmee tocou para mim duas vezes; fiquei surpresa que eu estivesse ao fundo dessa lembrança, perfeitamente imóvel mas parecendo ainda muito atrasada. Eu tremi, lembrando aqueles momentos de minha perspectiva. O fogo horrendo...
Depois de quase uma hora – os outros ainda estavam imersos em sua discussão, Seth e Jacob roncando em harmonia no sofá – as histórias das lembranças de Renesmee começaram a diminuir. Ficaram meio indistintas nas bordas e saíam de foco antes de chegar ao desfecho. Eu estava prestes a interromper Edward, em pânico – haveria alguma coisa errada com ela? – quando suas pálpebras tremeram e se fecharam. Ela bocejou, os lábios rosados cheios se esticando num O redondo, e os olhos não voltaram a se abrir.
Sua mão caiu de meu rosto enquanto ela dormia – as pálpebras tinham cor de lavanda-clara, de nuvens finas antes de o sol nascer. Com cuidado para não perturbá-la, devolvi sua mão à minha pele e a mantive ali com curiosidade. De início não houve nada, mas depois de alguns minutos um bruxulear de cores, como um punhado de borboletas, se dispersava de seus pensamentos.
Hipnotizada, fiquei observando seus sonhos. Não tinham sentido. Só cores, formas e rostos. Fiquei feliz em ver a frequência com que meu rosto – tanto o humano horrível quanto o imortal glorioso – aparecia em seus pensamentos inconscientes. Mais que os de Edward ou Rosalie. Eu estava empatada com Jacob. Tentei não deixar que isso me aborrecesse.
Pela primeira vez, entendi como Edward conseguira me olhar dormindo, noite após noite, só para me ouvir falar durante o sono. Eu podia olhar Renesmee sonhando para sempre.
A mudança no tom de Edward chamou minha atenção quando ele disse “Finalmente” e se virou para olhar pela janela. A noite era profunda e púrpura lá fora, mas eu podia ver tão longe quanto antes. Nada estava oculto na escuridão; só as cores haviam mudado.
Leah, ainda de cara amarrada, levantou-se e se esquivou para os arbustos quando Alice entrou no campo de visão do outro lado do rio. Alice se balançou para a frente e para trás em um galho, como uma trapezista, os dedos dos pés tocando as mãos, antes de lançar seu corpo num giro gracioso sobre o rio. Esme fez um salto mais tradicional, enquanto Emmett se atirou no rio, espirrando tanta água que as gotas chegaram à janela da frente. Para minha surpresa, Jasper vinha atrás, seu salto eficiente parecendo discreto, até sutil, e depois dos outros.
O sorriso imenso que se estampava no rosto de Alice era familiar de uma maneira sombria e estranha. Todos de repente estavam sorrindo para mim: Esme, de forma doce; Emmett, excitado; Rosalie, meio superior; Carlisle, urgente, e Edward, com expectativa.
Alice saltou para dentro da sala antes dos outros, a mão estendida paciente formando uma aura quase visível em torno dela. Em sua palma estava uma chave de bronze comum com uma imensa fita de cetim amarrada em laço.
Ela estendeu a chave para mim, e eu automaticamente segurei Renesmee com mais firmeza no braço direito para poder abrir a mão esquerda. Alice colocou a chave na minha mão.
— Feliz aniversário! — gritou ela.
Eu revirei os olhos.
— Ninguém começa a contar no verdadeiro dia do nascimento — lembrei-a. — Seu primeiro aniversário é na marca de um ano, Alice.
Seu sorriso tornou-se afetado.
— Não estamos comemorando seu aniversário de vampira. Ainda. Hoje é a 13 de setembro, Bella. Feliz aniversário de 19 anos!

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