25 de setembro de 2015

Capítulo 22 - Fogo e gelo

O vento estremeceu a tenda de novo, e eu estremeci junto com ela.
A temperatura estava caindo. Eu podia sentir isso através do saco, através da minha jaqueta. Eu estava completamente vestida, as minhas botas de caminhada ainda estavam no lugar. Isso não fez nenhuma diferença. Como é que podia estar tão frio? Como é que podia continuar esfriando. Ele tinha que estabilizar alguma hora, não tinha?
—Q-q-q-q-q-que h-h-h-h-horas são?— Eu forcei as palavras a sair pelos meus dentes se batendo.
—Duas—, Edward respondeu.
Edward estava sentado tão longe de mim quanto era possível em um espaço apertado, com medo até de respirar em cima de mim quando eu já estava com tanto frio. Estava escuro demais pra que eu visse seu rosto, mas a voz dele estava selvagem de preocupação, indecisão e frustração.
—Talvez...—
—Não, eu tô b-b-b-b-b-bem, m-m-m-mesmo. Eu não q-q-q-quero i-i-ir lá fora—.
Ele já tinha tentado me convencer a fazer uma corrida uma dúzia de vezes, mas eu estava morta de medo de deixar o meu abrigo. Se estava tão frio aqui, protegido do vendo rasante, eu podia imaginar o quão ruim seria se estivéssemos correndo por ele.
E isso ia estragar todos os esforços dessa tarde. Será que nós teríamos tempo de recomeçar tudo depois que a tempestade tivesse acabado? E se ela não acabasse?
Não fazia sentido me mexer agora. Eu podia ficar tremendo por uma noite.
Eu estava preocupada que o rastro que eu tinha deixado pudesse ter se perdido, mas ele me prometeu que isso ainda seria suficiente pra os monstros que estavam pra chegar.
—O que eu posso fazer?—, ele quase implorou.
Eu só balancei a minha cabeça.
Lá fora na neve, Jacob choramingou infeliz.
—S-s-s-sai d-d-d-daqui—, eu ordenei de novo.
—Ele só está preocupado com você—, Edward traduziu. —Ele está bem. O corpo dele é equipado pra lidar com isso—.
—E-e-e-e-e-e—, eu queria dizer que ele devia ir embora mesmo assim, mas eu não consegui fazer isso passar pelos meus dentes. Eu quase arranquei a minha língua fora.
Pelo menos, Jake parecia estar bem equipado para a neve, melhor até do que os outros do bando com o seu pelo ruivo mais grosso, mais longo, desarrumado. Eu me perguntei o porque disso.
Jacob choramingou, um rugido alto, um incômodo de reclamação.
—O que você quer que eu faça?—, Edward rosnou, ansioso demais pra continuar se incomodando em ser educado.
—Carregá-la em meio a isso? Eu não estou vendo você se fazer útil. Porque você não vai pescar um aquecedor ou alguma coisa assim?—
—Eu tô b-b-b-b-b-bem—, eu protestei. Julgando pelo gemido de Edward e pelo rosnado murmurado do lado de fora da tenda, eu não tinha convencido ninguém. O vento balançou a tendo com força, e eu estremeci em harmonia com ela.
Um rugido repentino soou pelo ronco do vento, e eu cobri os meus ouvidos com o barulho. Edward fez uma careta.
—Isso não era muito necessário—, ele murmurou. —E essa é a pior ideia que eu já ouvi—, ele chamou mais alto.
—É melhor do que alguma coisa que você tenha sugerido—, Jacob respondeu, a voz humana dele me assustando. —Vá pescar um aquecedor—, ele murmurou. —Eu não sou um São Bernardo—.
Eu ouvi o som do zíper da porta tenda sendo puxado rapidamente pra baixo.
Jacob escorregou pelo menor espaço que conseguiu, enquanto o vento ártico fluía ao redor dele, alguns flocos de neve caindo no chão à porta da tenda. Eu tremi tanto que era como uma convulsão.
—Eu não gosto disso—, Edward assobiou enquanto Jacob fechava o zíper da porta da tenda. —Simplesmente dê o casaco a ela e se mande—.
Os meus olhos só estavam ajustados o suficiente pra ver as formas - Jacob estava carregando o casaco de pele que esteve pendurado em uma árvore próxima a tenda.
Eu tentei perguntar sobre o que eles estavam falando, mas tudo o que saiu da minha boca foi, —O-o-o-o-o-o-o—, enquanto os tremores me faziam balançar incontrolavelmente.
—A pele é para amanhã - ela está com frio demais pra aquecê-la sozinha. A pele está congelada— Ele a largou na porta.
—Você disse que precisava de uma aquecedor, e aqui estou eu—, Jacob abriu os braços tanto quanto a tenda permitiu. Como sempre, quando ele havia estado correndo por aí como lobo, ele só estava carregando o que era essencial - um par de calças de moletom, sem camisa, sem sapatos.
—J-J-J-J=Jake, você vai c-c-c-congel-l-l-lar—, eu tentei reclamar.
—Eu não—, ele disse alegremente. —Eu estou com uns sólidos cinquenta e dois graus esses dias. Eu vou começar a te fazer suar rapidinho—
Edward rosnou, mas Jacob nem sequer olhou pra ele. Ao invés disso, ele começou a rastejar pra o meu lado e a abrir o zíper do saco de dormir.
A mão de Edward estava dura no braço dele de repente, restringindo, branca como neve na pele escura. A mandíbula de Jake se contraiu, as narinas dele inflando, o corpo dele se afastando do toque frio. Os músculos dos longos braços dele se flexionaram automaticamente.
—Mantenha a sua mão longe de mim—, ele rosnou por entre os dentes.
—Mantenha as suas mãos longe dela— Edward respondeu com um tom vazio.
—N-n-n-não b-b-b-briguem—, eu implorei. Outro tremor me balançou. Eu pensei que os meus dentes fossem se partir, de tão forte que eles estavam se batendo.
—Eu tenho certeza de que ela vai te agradecer por isso quando começar a ficar preta e a se decompor—, Jacob disparou.
Edward hesitou, e depois a mão dele caiu e ele voltou para a sua posição no canto.
A voz dele era vazia e assustadora. —Se cuide—.
—Chega mais, Bella—, ele disse, abrindo ainda mais o zíper do saco de dormir.
Eu encarei ele ultrajada. Não era de surpreender que Edward estivesse reagindo desse jeito.
—N-n-n-n-n—, eu tentei protestar.
—Não seja estúpida—, ele disse, exasperado. —Você não gosta de ter dez dedos nos pés?—
O corpo dele encheu um espaço inexistente, forçando o zíper a se abrir atrás de si mesmo.
Aí eu não pude mais me opor - eu não queria mais me opor. Ele era tão quente. Os braços dele se apertaram ao meu redor, me segurando largadamente em seu peito nu.
O calor era irresistível, como se fosse ar depois de ficar muito tempo embaixo da água. Ele se afastou quando eu pressionei meus dedos frios ansiosamente na pele dele.
—Nossa, você tá congelando, Bella—, ele reclamou.
—D-d-d-d-desculpa— eu gaguejei.
—Tente relaxar—, ele sugeriu enquanto outro tremor me balançou violentamente. —Você vai estar aquecida em um minuto. É claro, você se aqueceria mais rapidamente se eu pudesse tirar as suas roupas—.
Edward rosnou afiadamente.
—Esse é simplesmente um fato—, Jacob se defendeu. —Primeiros-Socorros—.
—C-c-c-corta essa, Jake—, eu disse com raiva, apesar do meu corpo se recusar a sequer tentar se afastar dele. —N-n-n-ninguém p-p-p-precisa de verdade de todos os dez d-d-dedos do pé—.
—Não se preocupe com o sugador de sangue—, Jacob sugeriu, o tom da voz dele estava um pouco presumido. —Ele só está com ciúmes—.
—É claro que eu estou—. A voz de Edward era veludo de novo, sob controle, um murmúrio musical na escuridão. —Você não tem nem a mais distante ideia do que eu daria pra estar fazendo o que você está fazendo por ela, mongol—
—Esses são os pontos—, Jacob disse levemente, mas o tom dele estava um pouco azedo. —Pelo menos você sabe que ela gostaria que fosse você—.
—Verdade—, Edward concordou.
Os tremores diminuíram, ficaram suportáveis enquanto iam embora.
—Aí está—, Jacob disse, agradado. —Se sentindo melhor?—
Eu finalmente fui capaz de falar claramente. —Sim—.
—Os seus lábios ainda estão azuis—, ele meditou. —Quer que eu os aqueça pra você também? Você só precisa pedir—.
Edward suspirou pesadamente.
—Se comporte—, eu murmurei, pressionando o meu rosto no ombro dele. Ele se afastou de novo quando a minha pele fria tocou a dele, e sorriu com uma satisfação levemente vingativa.
Já estava quente e confortável dentro do saco de dormir. O corpo de Jacob parecia radiar calor de todos os lugares - talvez porque houvesse tanto dele. Eu tirei as minhas botas, e empurrei os meus dedos nas pernas dele.
Ele deu um pequeno pulo, e aí inclinou a cabeça pra baixo pra pressionar a sua bochecha quente na minha orelha dormente.
Eu reparei que a pele de Jake tinha um cheiro amadeirado, de almíscar - combinava com a ocasião, aqui no meio da floresta. Eu me perguntei se os Cullen e os Quileute não estariam apenas inventando aquele problema todo dos odores por causa de seus preconceitos. Todo mundo cheirava bem pra mim.
A tempestade rosnava como um animal atacando a tenda, mas agora ele não me preocupava. Jacob estava fora do frio, e eu também. Além do mais, eu estava simplesmente exausta demais pra me preocupar com alguma coisa - cansada apenas por ficar acordada até tão tarde, dolorida pelos espasmos dos músculos. O meu corpo relaxou lentamente enquanto descongelava, pedaço congelado a pedaço congelado, e depois ficaram flácidos.
—Jake?—, eu murmurei sonolenta. —Posso te pedir uma coisa? Eu não estou tentando ser uma boboca nem nada assim, eu estou honestamente curiosa—. Eram as mesmas palavras que ele havia usado na minha cozinha... quanto tempo fazia isso agora?
—Claro—, ele gargalhou, lembrando.
—Porque você é tão mais peludo do que os seus amigos? Se eu estiver sendo rude, você não precisa responder— Eu não conhecia as regras de etiqueta quando elas se tratavam da cultura dos lobisomens.
—Porque o meu cabelo é mais longo—, ele disse, divertido - pelo menos a minha pergunta não tinha ofendido ele. Ele balançou a cabeça pra que seu cabelo rebelde - que agora estava perto da altura do queixo - fizesse cócegas na minha bochecha.
—Oh—, eu estava surpresa, mas isso fazia sentido. Então foi por isso que eles todos cortavam os cabelos, quando se juntavam ao bando. —Então porque você não corta ele? Você gosta de ser tão felpudo?—
Dessa vez ele não respondeu imediatamente, e Edward riu por baixo do fôlego.
—Desculpa—, eu disse, parando pra bocejar. —Eu não quis ser intrometida. Você não precisa me dizer—.
Jacob fez um som aborrecido. —Oh, ele vai te dizer do mesmo jeito, então eu também posso... Eu estava deixando o cabelo crescer porque... parecia que você gostava mais dele longo—.
—Oh—, eu me senti estranha. —Eu, er, gosto dos dois jeitos, Jake. Você não precisa... ter inconvenientes—.
Ele levantou os ombros. —Acontece que ele foi bem conveniente essa noite, então não se preocupe—.
Eu não tinha mais nada pra dizer. Enquanto o silêncio aumentou, as minhas pálpebras caíram e se fecharam, e a minha respiração ficou mais lenta, mais uniforme.
—Isso mesmo, meu bem, vá dormir—, Jacob sussurrou.
Eu suspirei, contente, já meio adormecida.
—Seth está aqui—, Edward murmurou pra Jacob, e de repente eu entendi a necessidade do rosnado.
—Perfeito. Agora você pode ficar de olho nas outras coisas, enquanto eu cuido da sua namorada pra você—.
Edward não respondeu, mas eu gemi grogue. —Pare com isso—, eu murmurei.
Ai tudo ficou silencioso, pelo menos do lado de dentro. Do lado de fora, o vento soprava insanamente entre as árvores. A dança da tenda tornou difícil dormir. Os postes estremeciam e balançavam de repente, me trazendo de volta da beira da inconsciência toda vez que eu já estava afundando. Eu me senti tão mal pelo lobo, pelo garoto que estava preso do lado de fora na neve.
A minha mente vagava e esperava até que o sono me achasse. O pequeno espaço quente me fez pensar nos dias anteriores com Jacob, e eu me lembrei de como as coisas costumavam quando ele era o meu sol de reserva, o calor que tornava a minha vida suportável. Já fazia um tempo que eu não pensava em Jake dessa forma, mas aqui estava ele, me aquecendo de novo.
—Por favor!—, Edward assobiou. —Você se importa!—
—O que?—, Jacob sussurrou de volta, seu tom estava surpreso.
—Será que você acha que podia tentar controlar os seus pensamentos?— O sussurro baixo de Edward estava furioso.
—Ninguém disse que você precisava ouvir—, Jacob murmurou, desafiador, e mesmo assim um pouco envergonhado.
—Saia da minha cabeça—.
—Eu queria poder. Você não faz ideia de como as suas pequenas fantasias são altas. É como se você estivesse gritando elas pra mim—.
—Eu vou tentar manter o volume baixo—, Jacob sussurrou sarcasticamente.
Houve um breve momento de silêncio.
—Sim—, Edward respondeu a um pensamento não falado em um murmúrio tão baixo que eu mal conseguia ouvir. —Eu estou com ciúme disso também—.
—Eu imaginei que fosse assim—, Jacob sussurrou presumidamente. —Isso meio que iguala um pouco o jogo, não é?—
Edward gargalhou. —Nos seus sonhos—.
—Sabe, ela ainda pode mudar de ideia—, Jacob cutucou ele. —Considerando todas que eu posso fazer com ela que você não pode. Isso é, pelo menos, não sem matar ela—.
—Vá dormir, Jacob—, Edward murmurou. —Você está começando a me deixar nervoso—.
—Eu acho que eu vou. Eu estou muito confortável—.
Edward não respondeu.
Eu estava apagada demais pra pedir que eles parassem de falam de mim como se eu não estivesse lá. A conversa havia tomado características de sonho pra mim, e eu não tinha certeza de que realmente estava acordada.
—Talvez eu fosse—, Edward disse depois de um momento, respondendo a uma pergunta que eu não havia ouvido.
—Mas você seria honesto?—
—Você sempre pode perguntar e ver—, o tom de Edward me fez imaginar se eu não estaria perdendo uma piada.
—Bem, você vê dentro da minha cabeça - me deixe ver dentro da sua hoje, é o justo—. Jacob disse.
—A sua cabeça está cheia de perguntas. Qual você quer que eu responda?—
—Esse ciúme... ele esteve te comendo. Você não pode estar tão seguro de sí quanto parece. A não ser que você não tenha emoções—.
—É claro que está.— Edward concordou, não mais divertido. —Nesse momento está tão ruim que eu mal posso controlar a minha voz. É claro, isso é ainda pior quando ela está longe de mim, com você, e eu não posso vê-la—.
—Você pensa nisso o tempo inteiro?—, Jacob sussurrou. —É difícil pra você se concentrar quando ela não está com você?—
—Sim e não—, Edward disse; ele parecia determinado a responder honestamente. —A minha mente não funciona exatamente como a sua. Eu posso pensar em mais coisas ao mesmo tempo. É claro que isso significa que eu sempre sou capaz de pensar em você, sempre capaz de me perguntar se é aí que a mente dela está, quando ela está quieta e pensativa—.
Eles dois ficaram quietos por um minuto.
—Sim, eu acho que ela pensa em você com frequência—, Edward murmurou em resposta aos pensamentos de Jacob. —Com mais frequência do que eu gosto. Ela se preocupa que você esteja infeliz. Não que você não saiba disso. Não que você não use isso—.
—Eu tenho que usar qualquer coisa que eu puder—, Jacob murmurou. —Eu não estou trabalhando com as suas vantagens - vantagens como saber que ela está apaixonada por você—.
—Isso ajuda—, Edward disse com um tom moderado.
Jacob estava desafiador. —Ela está apaixonada por mim também, sabe—.
Edward não respondeu.
Jacob suspirou. —Mas ela não sabe ainda—.
—Eu não sei dizer se você está certo—.
—Isso incomoda você? Você queria ver o que ela está pensando também?—
—Sim... e não, de novo. Ela prefere que seja assim, e, apesar de que isso as vezes me deixa louco, eu prefiro que ela fique feliz—.
O vento soprou na tenda, estremecendo como se fosse um terremoto. Os braços de Jacob me apertaram protetoramente.
—Obrigado—, Edward sussurrou. —Mesmo que isso pareça estranho, eu estou feliz que você esteja aqui, Jacob—.
—Você quer dizer 'mesmo que eu fosse adorar matar você, eu estou feliz que ela esteja aquecida', certo?—
—É uma trégua desconfortável, não é?—
O sussurro de Jacob estava presumido de repente. —Eu sabia que você estava tão louco de ciúmes quanto eu—.
—Eu não sou tão idiota pra usar isso como uma carta na manga como você. Isso não ajuda o seu caso, sabe—.
—Você é mais paciente do que eu—.
—Eu devia. Eu tive cem anos pra ganhá-la. Cem anos de espera por ela—.
—Então... em que ponto você resolveu bancar o cara bonzinho e paciente?—
—Quando eu vi o quanto estava machucando ela ter que decidir. Isso geralmente não é tão difícil de controlar. Eu posso amortecer os... sentimentos menos civilizados que eu possa ter por você muito mais facilmente na maior parte do tempo. As vezes eu acho que ela vê através de mim, mas eu não posso ter certeza—.
—Eu acho que você só está preocupado que se você realmente a forçasse a escolher, ela podia não te escolher—.
Edward não respondeu imediatamente. —Isso é uma parte—, ele admitiu finalmente. —Mas só uma parte pequena. Todos nós temos nossos momentos de dúvida. Em grande parte, eu estava preocupado que ela pudesse se machucar fugindo pra ver você. Depois que eu aceitei que ela estava mais ou menos segura com você - tão segura quanto Bella sempre é - pareceu ser melhor parar de levar ela aos limites—.
Jacob suspirou. —Eu teria dito tudo isso a ela, mas ela nunca teria acreditado em mim—.
—Eu sei—, pareceu que Edward estava sorrindo.
—Você acha que sabe de tudo—, Jacob murmurou.
—Eu não sei o futuro—, Edward disse, sua voz insegura de repente.
Houve uma pausa mais longa.
—O que você faria se ela mudasse de ideia?—, Jacob perguntou.
—Eu também não sei isso—.
Jacob gargalhou baixinho. —Você tentaria me matar?— Sarcástico de novo, como se estivesse duvidando da capacidade de Edward de fazer isso.
—Não—.
—Porque não?— o tom de Jacob ainda estava zombador.
—Você realmente acha que eu magoaria ela desse jeito?—
Jacob hesitou por um segundo, e depois suspirou. —É, você está certo. Eu sei que isso está certo. Mas as vezes...—
—As vezes é uma ideia intrigante—.
Jacob pressionou o rosto no saco de dormir pra abafar os risos. —Exatamente—, ele concordou eventualmente.
Que sonho estranho esse era. Eu me perguntei se era o vento incessante que estava me fazendo imaginar todos esses sussurros. Só que o vento estava gritando mais do que sussurrando...
—Como é? Perder ela?— Jacob perguntou depois de um momento quieto, e não havia nenhum traço de humor na sua voz repentinamente rouca.
—Quando você pensou que tinha perdido ela pra sempre? Como você... continuou?—
—É muito difícil pra mim falar disso—.
Jacob esperou.
—Houveram duas horas diferentes nas quais eu pensei nisso—, Edward falou cada palavra um pouco mais devagar que o normal. —A primeira vez, quando eu pensei que podia deixar ela... isso foi... quase suportável. Porque eu pensei que ela esqueceria de mim e seria como se eu nunca tivesse tocado a vida dela. Por mais de seis meses eu fui capaz de me manter longe, de manter a minha promessa de que não interferiria de novo. Estava chegando perto - eu estava lutando, mas eu sabia que não ia vencer; eu teria que voltar... só pra checar ela. Pelo menos, isso era o que eu teria dito a mim mesmo. E se eu tivesse encontrado ela razoavelmente feliz... eu gosto de pensar que teria sido capaz de ir embora de novo.
—Mas ela não estava feliz. E eu teria ficado. Foi assim que ela me convenceu a ficar com ela amanhã, é claro. Você estava se perguntando sobre isso antes, o que poderia ter me motivado... porque ela estava se sentindo tão desnecessariamente culpada por causa disso. Ela me lembrou do que eu fiz com ela quando fui embora - o que ainda faz quando eu tenho que ir embora. Ela se sente horrível por tocar no assunto, mas ela está certa. Eu nunca serei capaz de acertar as coisas, mas mesmo assim eu nunca vou parar de tentar—.
Jacob não respondeu por um momento, escutando a tempestade ou digerindo o que havia acabado de ouvir, eu não sabia qual dos dois.
—E a outra vez - quando você pensou que ela estava morta?— Jacob sussurrou asperamente.
—Sim—, Edward respondeu a uma pergunta diferente. —Isso provavelmente vai parecer assim pra você, não vai? Pela forma como você nos persegue, você pode não ser capaz de vê-la mais como Bella. Mas essa é que ela será—.
—Não foi isso que eu perguntei—.
Os braços de Jacob se flexionaram ao meu redor.
—Mas você se foi porque não queria transformá-la em uma sugadora de sangue. Você quer que ela seja humana—.
Edward falou lentamente. —Jacob, desde o segundo em que eu me dei conta de que amava ela, eu sabia que só haveriam quatro possibilidades. A primeira alternativa, a melhor pra Bella, seria que ela não tivesse sentimentos tão fortes por mim - e que ela me esquecesse e seguisse em frente. Eu teria aceitado isso, apesar de que isso nunca mudaria a forma como eu me sinto. Você pensa em mim como... uma pedra viva - dura e fria. Isso é verdade. Nós somos presos da forma como somos, e é muito raro pra nós experimentar uma mudança de verdade. Quando isso acontece, como quando Bella entrou em minha vida, é uma mudança permanente. Não há como voltar atrás...
—A segunda alternativa, a que eu havia escolhido originalmente, era ficar com ela durante a sua vida humana. Essa não era uma boa opção pra ela, desperdiçar a sua vida com alguém que não podia ser tão humano quanto ela, mas essa era a alternativa que eu podia aceitar com mais facilidade. Sabendo o tempo inteiro que, quando ela morresse, eu encontraria uma forma de morrer também. Seis anos, sessenta anos - isso pareceria um tempo muito, muito curto pra mim... Mas depois ficou comprovado que era perigoso demais pra ela viver em uma proximidade tão grande com o meu mundo. Parecia que tudo o que podia dar errado, deu. Ou estava ao nosso lado... esperando pra dar errado. Eu estava morrendo de medo de não conseguir aqueles sessenta anos se eu ficasse perto dela enquanto ela era humana.
—Então, eu escolhi a terceira opção. Que acabou sendo o pior erro que eu cometi em minha longa vida, como você sabe. Eu escolhi tirar a mim mesmo do mundo dela, esperando forçá-la a primeira alternativa. Não deu certo, e isso quase matou a nós dois.
—O que eu tinha de sobra a não ser a quarta opção? É o que ela quer - pelo menos, ela acha que quer. Eu estive tentando atrasá-la, pra dar a ela tempo de encontrar um motivo que a fizesse mudar de ideia, mas ela é muito... teimosa. Você sabe disso. Eu terei sorte se conseguir esticar isso por mais alguns meses.—
—Ela tem horror a envelhecer, e o aniversário dela é em Setembro...—
—Eu gosto da primeira opção—, Jacob murmurou.
Edward não respondeu.
—Você sabe exatamente o quanto eu odeio aceitar isso—, Jacob sussurrou lentamente, —mas eu posso ver que você ama ela... da sua maneira. Eu não posso mais discutir com isso.
—Dito isso, eu não acho que você devia desistir da primeira alternativa, ainda não. Eu acho que há uma chance muito boa de que ela ficaria bem. Depois de um tempo. Sabe, se ela não tivesse pulado do penhasco em março... e se você tivesse esperado mais seis meses até ver checar ela... Bem, você podia ter encontrado ela razoavelmente feliz. Eu tinha um plano de jogo—.
Edward gargalhou. —Talvez ele tivesse dado certo. Foi um plano bem pensado—.
—É—, Jake suspirou. —Mas... — de repente ela estava sussurrando tão rápido que as palavras estavam se misturando, —me dê um ano su- Edward. Eu realmente acho que poderia fazê-la feliz. Ela é teimosa, ninguém sabe disso melhor do que eu, mas ela é capaz de se curar. Ela teria se curado antes. Ela poderia ser humana, com Charlie e Renée, e ela poderia crescer, e ter filhos e... ser Bella.
—Você ama ela o suficiente pra ver as vantagens do plano. Ela acha que você é muito altruísta... você é mesmo? Será que você pode considerar a ideia de que eu sou melhor pra ela do que você?—
—Eu tenho considerado isso—, Edward respondeu rapidamente. —De algumas formas, você serviria mais pra ela do que qualquer outro humano. Bella requer alguns cuidados, e você é forte o suficiente pra poder protegê-la de si mesma, e de tudo o que conspira contra ela. Você já fez isso, e eu vou te dever por isso enquanto eu viver - pra sempre - o que vier primeiro...
—Eu até perguntei a Alice se ela podia ver isso - ver se Bella estaria melhor com você.
Ela não conseguiu, é claro. Ela não pode ver você, e também, Bella está segura do seu curso, por enquanto—.
—Mas eu não sou estúpido o suficiente pra cometer o mesmo erro que eu cometi antes, Jacob. Eu não vou tentar ela a seguir a primeira opção de novo. Enquanto ela me quiser, eu estou aqui—.
—E se ela decidisse que me queria?—, Jacob desafiou. —Tudo bem, é difícil, eu te concedo isso—.
—Eu a deixaria ir—.
—Simplesmente assim?—
—No sentido de que eu jamais mostraria a ela o quão difícil isso seria pra mim, sim. Mas eu continuaria observando ela. Veja, Jacob, você pode deixar ela algum dia. Como Sam e Emily, você não teria escolha. Eu estaria sempre esperando na reserva, esperando que isso acontecesse—.
Jacob bufou baixinho. —Bem, você foi muito mais honesto do que eu tinha o direito de esperar... Edward. Obrigado por me deixar entrar em sua cabeça—.
—Como eu disse, eu estou me sentindo estranhamente grato por sua presença na vida dela essa noite. Isso era o mínimo que eu podia fazer... Sabe, Jacob, se não fosse pelo fato de sermos inimigos naturais e de que você também está tentando roubar a razão da minha existência, eu até podia gostar de você—.
—Talvez... se você não fosse um vampiro nojento que está planejando sugar a vida da garota que eu amo... bem, não, nem mesmo assim—.
Edward gargalhou.
—Posso te perguntar uma coisa?—, Edward perguntou.
—Porque você precisa pedir?—
—Eu só posso ouvir se você pensar nisso. É só uma história que Bella pareceu relutante em me dizer no outro dia. Alguma coisa sobre uma terceira esposa...?—
—O que tem isso?—
Edward não respondeu, escutando a história nos pensamentos de Jacob. Eu ouvi seu assobio baixo na escuridão.
—O que?—, Jacob quis saber de novo.
—É claro—, Edward ferveu. —É claro! Eu teria preferido se os seus anciões tivessem quardado essa história pra si mesmos, Jacob—
—Você não gosta que as sanguessugas estão sendo pintadas como os malvados?—, Jacob zombou. —Sabe, eles são. Antes e agora—.
—Eu não podia me importar menos com essa parte. Será que você não consegue adivinhar com qual personagem Bella se identifica?—
Jacob levou um minuto. —Oh. Ugh. A terceira esposa. Ok, eu entendo o seu ponto—.
—Ela quer estar lá na clareira. Pra fazer o pouco que ela puder, como ela o colocou.— Ele suspirou. —Essa era a segunda razão pra que eu ficasse com ela amanhã. Ela é bastante inventiva quando quer alguma coisa—.
—Sabe, aquele seu irmão militar deu a ideia tanto quanto a história—.
—Nenhum dos lados pretendia nenhum mal—, Edward sussurrou, agora promovendo a paz.
—E quando essa pequena trégua acaba?—, Jacob perguntou. —Logo pela manhã? Ou queremos esperar até depois que a luta acabar?—
Eles dois pausaram enquanto consideravam.
—Logo pela manhã—, eles sussurraram juntos, e depois riram baixinho.
—Durma bem, Jacob—, Edward murmurou. —Aproveite o momento—.
Tudo ficou silencioso de novo, e a tenda ficou quieta por alguns minutos. O vento parecia ter decidido que, afinal, não ia nos aplainar, e estava desistindo de lutar.
Edward gemeu suavemente. —Eu não estava falando tão literalmente—.
—Desculpe—, Jacob sussurrou. —Você podia ir embora, sabe - nos dar um pouco de privacidade—.
—Você gostaria que eu te ajudasse a dormir, Jacob?—, Edward ofereceu.
—Você podia tentar—, Jacob disse, despreocupado. —Ia ser interessante ver quem ia desistir, não ia?—
—Não me tente demais, lobo. A minha paciência não é perfeita assim—.
Jacob sussurrou uma risada. —Eu preferiria não me mover agora, se você não se importa—.

Edward começou cantar pra si mesmo, mais alto do que o normal - tentando ignorar os pensamentos de Jacob, eu presumi. Mas era a minha canção de ninar que ele estava cantando, e, apesar do meu crescente desconforto com esse sonho sussurrado, eu mergulhei mais fundo na inconsciência... em outros sonhos que faziam mais sentido.

3 comentários:

  1. se eu fose Edward eu jogaria na cara dele na tenda msm q ela tinha aceitado se casar comigo.
    mas Edward sendo ele vai contar no próximo capitulo.

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  2. Eu tbm adoraria isso mas..

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  3. Vdd falaria logo, mas Edward é um príncipe lindo

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