23 de setembro de 2015

Capítulo 22 - Esconde-esconde

Levou muito menos tempo do que esperava, todo o terror, o desespero, a dor do meu coração partido.
Os minutos estavam se passando mais devagar do que o normal. Jasper ainda não tinha voltado quando eu retornei para Alice. Estava com medo de ficar no mesmo quarto com ela, com medo que ela adivinhasse... E com medo de me esconder dela pela mesma razão.
Eu teria pensado que estava longe da possibilidade de me surpreender, meus pensamentos estavam torturados e desestabilizados, mas fiquei surpresa quando vi Alice se inclinar na mesa, agarrando a borda com as duas mãos.
—  Alice?
Ela não reagiu quando eu chamei o nome dela, mas a cabeça dela estava se balançando lentamente de um lado para o outro, e eu vi o rosto dela.
Seus olhos estavam vazios, ofuscados... Meus pensamentos viajaram para a minha mãe. Eu já estava atrasada?
Corri para o lado dela, me lançando automaticamente pra pegar na mão dela.
— Alice! — A voz de Jasper cortou, e então ele estava atrás dela, as mãos dele sobre as mãos dela, fazendo-as soltarem a borda da mesa.
Do outro lado da sala, a porta estava se fechando com um click baixinho.
— O que foi? — Ele quis saber.
Ela desviou o rosto de mim e o colocou no peito dele.
— Bella. — Ela disse.
A cabeça dela se virou pra mim, os olhos dela se prendendo aos meus, a expressão deles ainda estava estranhamente vazia. Eu me dei conta na hora de que ela não estava falando comigo, ela estava respondendo á pergunta de Jasper.
— O que você viu? — Disse, e não havia pergunta nenhuma no tom vazio, sem importância da minha voz.
Jasper olhou pra mim asperamente. Eu mantive a expressão vazia e esperei. Os olhos dele estavam confusos enquanto passavam rapidamente do rosto de Alice para o meu, sentindo o caos...
— Imagino que tenha sido pelo que Alice havia acabado de ver.
Eu senti uma atmosfera tranquila pousar ao meu redor. Eu a recebi bem, usando ela pra manter os meus sentimentos em disciplina, sobre controle.
Alice, também se recuperou.
— Nada, de verdade. — Ela respondeu finalmente, a voz dela incrivelmente calma e convincente. — Só o mesmo quarto de antes.
Ela finalmente olhou pra mim, sua expressão estava suave e reservada.
— Você queria tomar o café da manhã?
— Não, eu vou comer no aeroporto. — Eu estava muito calma também.
Fui para o banheiro pra tomar um banho. Quase como se eu estivesse desenvolvendo o estranho poder de Jasper, eu podia sentir o desespero, bem dissimulado, selvagem de Alice para que eu saísse da sala, para estar sozinha com Jasper. Assim ela poderia dizer a ele que os dois estavam fazendo alguma coisa errada, que eles iam falhar...
Eu me aprontei metodicamente, me concentrando em cada pequena tarefa. Deixei meu cabelo solto, se torcendo, cobrindo meu rosto.
O sentimento de paz que Jasper criou funcionou e me ajudou a pensar com clareza. Ajudou-me a planejar. Eu procurei na minha bolsa até que encontrei minha meia cheia de dinheiro. Eu coloquei tudo que havia nela no meu bolso.
Eu estava ansiosa para chegar ao aeroporto, e feliz quando nós saímos por volta das sete. Dessa vez eu me sentei sozinha no fundo do carro escuro. Alice estava inclinada na porta, seu rosto estava virado pra Jasper, mas por trás dos óculos escuros, seus olhos se viravam pra mim a cada segundo.
— Alice? — Perguntei indiferente.
Ela estava sendo cautelosa.
— Sim?
— Como isso funciona? As coisas que você vê? — Olhei pra fora pela janela, e minha voz soou aborrecida. — Edward disse que não era definitivo... Que as coisas mudam?
Dizer o nome dele era mais difícil do que eu pensei. Deve ter sido isso que alertou Jasper, porque um flash de serenidade invadiu o carro.
— Sim... As coisas mudam. — Ela murmurou, esperançosamente, eu esperava. — Algumas coisas são mais certas que outras... Como o clima. As pessoas são mais difíceis. Eu só vejo os caminhos onde as pessoas estão quando elas ainda estão neles. Somente elas podem mudar suas mentes, tomar uma decisão, não importa o quanto ela seja pequena, muda todo o futuro.
Eu balancei a cabeça pensativamente.
— Então você não conseguiu ver James em Phoenix até que ele decidiu vir pra cá.
— Sim. — Ela respondeu cautelosa de novo.
E ela não tinha me visto na sala dos espelhos com James até que eu decidi ir encontrá-lo lá. Tentei não pensar no que mais ela havia visto. Tentei não fazer o meu pânico deixar Jasper ainda mais suspeito. De qualquer forma, eles iam estar me observando ainda mais cuidadosamente depois da visão de Alice.
Isso ia ser impossível.
Nós chegamos ao aeroporto. A sorte estava comigo, ou talvez fosse somente pontos de desvantagem. O avião de Edward estava aterrissando no terminal quatro, o maior terminal, onde a maioria dos voos desembarcava, então não era uma grande surpresa que o dele fosse aterrissar lá.
Mas esse era o terminal que eu precisava: o maior o mais confuso. E havia uma porta no nível três que podia ser a minha única chance.
Nós paramos no quarto andar da enorme garagem. Eu guiei o caminho, por conhecer melhor o trajeto do que eles. Nós pegamos o elevador até o nível três, onde os passageiros desembarcavam.
Alice e Jasper ficaram um longo tempo no balcão procurando os voos que haviam chegado. Eu os ouvia discutindo os prós e contras de Nova York, Atlanta, Chicago. Lugares que eu nunca havia visitado. E nunca visitaria.
Esperei pela minha oportunidade, impaciente, sem conseguir fazer meu pé parar de se mexer.
Nós nos sentamos numa longa fileira de cadeiras perto dos detectores de metal, Jasper e Alice estavam fingindo observar as pessoas, mas na verdade estavam observando a mim. Cada centímetro que eu me mexia na cadeira era acompanhado por olhares nos cantos dos olhos deles. Eu não tinha esperanças.
Será que eu deveria correr? Eles ousariam me deter fisicamente nesse local público? Ou eles simplesmente me seguiriam?
Puxei o envelope sem lacre da minha bolsa e o coloquei em cima da bolsa de couro preto de Alice.
Ela olhou pra mim.
— Minha carta. — Disse.
Ela afirmou com a cabeça e o colocou embaixo da bolsa. Ele a encontraria rápido o suficiente.
Os minutos foram se passando e o momento da chegada de Edward se aproximava. Era impressionante como cada célula do meu corpo parecia saber que ele estava chegando, e ansiava pela sua chegada.
Isso dificultou as coisas. Eu me peguei tentando inventar desculpas pra ficar, pra vê-lo antes e depois escapar. Mas eu sabia que isso era impossível se eu queria ter alguma chance de escapar.
Várias vezes Alice se ofereceu pra ir pegar meu café da manhã comigo. Depois, eu disse pra ela, ainda não.
Eu olhei para o painel de vôos, observando enquanto vôo após vôo chegavam no horário. O de Seattle se aproximava a cada segundo do topo do painel.
E então, quando eu só tinha meia hora para escapar, os números mudaram. Ele estava dez minutos adiantado. Eu não tinha mais tempo.
— Eu acho que vou comer agora. — Disse rapidamente.
Alice ficou de pé.
— Eu vou com você.
— Você se importa se Jasper vier? — Perguntei. — Eu estou me sentindo um pouco... — Não terminei a frase.
Meus olhos já estavam selvagens o suficiente pra convencê-los do que eu não precisei dizer.
Jasper ficou de pé. Os olhos de Alice estavam confusos, mas eu vi aliviada, que não havia suspeitos. Ela deve estar atribuindo à visão dela á alguma manobra do perseguidor, e não a uma traição minha.
Jasper caminhou silenciosamente ao meu lado, sua mão na curva das minhas costas, como se ele estivesse me guiando. Eu fingi um pouco de interesse pelos poucos restaurantes do aeroporto, minha cabeça estava procurando aquilo que eu realmente queria. E lá estava ele, virando o corredor, fora da visão aguda de Alice: o banheiro feminino do terceiro nível.
— Você se importa? — Perguntei a Jasper enquanto passávamos. — Só vai demorar um momentinho.
— Eu vou ficar aqui. — Ele disse.
Assim que a porta se fechou atrás de mim, eu já estava correndo. Eu me lembrei da outra vez que me perdi nesse banheiro, porque ele tem duas saídas.
Do lado de fora das portas, eu tinha que correr uma curta distância até os elevadores, e se Jasper ficasse onde ele disse que ficaria ele jamais poderia me ver. Eu não olhei pra trás enquanto corria. Essa era a minha única chance, e mesmo que ele me visse, eu tinha que continuar correndo. As pessoas me olharam, mas eu ignorei elas. Virando na esquina, os elevadores estavam me esperando, eu corri em frente, jogando minha mão nas portas que estavam se fechando de um elevador que estava descendo. Dentro, eu me espremi entre os passageiros irritados, e chequei pra ter certeza de que haviam apertado o botão para o nível um. Ele já estava aceso e as portas se fecharam.
Assim que a porta se abriu eu já estava fora de novo, e ouvi o som de murmúrios aborrecidos atrás de mim. Me controlei enquanto passava pelos guardas nos carrosséis de bagagem, mas comecei a correr de novo quando as portas da saída começaram a aparecer.
Eu não tinha como saber se Jasper já estava procurando por mim.
Se ele estivesse sentindo o meu cheiro, eu só tinha alguns segundos. Pulei pra fora pelas portas automáticas, quase me chocando com os vidros porque elas se abriram devagar demais.
Não havia nenhum táxi á vista na longa curva lotada.
Não tinha tempo. Alice e Jasper não demorariam a se dar conta que eu tinha ido embora, se é que já não haviam percebido. Eles me achariam num piscar de olhos.
Um transporte público para o Hyatt estava fechando as portas a alguns metros de distância atrás de mim.
— Espere! — Chamei, correndo, acenando para o motorista.
— Esse é o transporte para o Hyatt. — O motorista disse confuso enquanto abria as portas.
— Sim. — Gritei, — É pra lá que eu estou indo.
Subi os degraus correndo.
Ele olhou curioso para as minhas poucas bagagens, mas então levantou os ombros, sem se importar o suficiente pra perguntar.
A maioria dos bancos estava vazia. Eu me sentei tão longe dos viajantes quanto foi possível, e olhei pra fora da janela enquanto primeiro a calçada, depois o aeroporto iam se afastando.
Não pude deixar de imaginar Edward, onde ele iria ficar na pista quando descobrisse até onde o meu cheiro ia.
Eu não choraria ainda, eu disse pra mim mesma. Ainda tinha um grande caminho a percorrer.
Minha sorte continuou. Na frente do Hyatt um casal de aparecia cansado e estava tirando a última mala deles da mala de um táxi. Eu pulei pra fora do transporte e corri para o táxi, deslizando no banco atrás do motorista. O casal cansado e o motorista do transporte público olharam pra mim surpresos.
Eu disse o endereço da minha mãe ao surpreso motorista de táxi.
— Eu preciso chegar aí o mais rápido possível.
— Isso é em Scottsdale. — Ele reclamou.
Eu joguei quatro notas de vinte no banco.
— Isso vai ser suficiente?
— Claro, garota, sem problemas.
Me encostei no banco, cruzando meus braços no colo. A cidade familiar começou a passar correndo por mim, mas eu não olhava para a janela.
Disse para mim mesma para manter o controle. Estava determinada a não estragar as coisas a esse ponto, agora que o meu plano estava completamente sucedido. Não havia motivo pra mergulhar em mais medo, mais ansiedade. Minha tarefa estava passada, agora eu só tinha que cumpri-la.
Então, ao invés de entrar em pânico, eu fechei meus olhos e passei os vinte minutos da viagem com Edward.
Imaginei que tinha ficado no aeroporto pra me encontrar com ele. Visualizei como eu ficaria na ponta dos pés, pra ver o seu rosto mais rápido. Como ele se moveria rapidamente, graciosamente entre as pessoas que nos separavam. E então eu correria para fechar os metros restantes entre nós, descuidada, como sempre, e eu estaria nos seus braços de mármore, finalmente a salvo.
Perguntei-me pra onde nós teríamos ido.
Pra algum lugar ao Norte, pra que ele pudesse sair durante o dia. Ou talvez algum lugar muito remoto, para que pudéssemos sair juntos no sol de novo.
Eu o imaginei numa costa, sua pele brilhando como o mar. Não importaria quanto tempo nós tivéssemos que nos esconder.
Ficar presa num quarto de hotel com ele seria uma espécie de paraíso. Tantas perguntas que eu ainda tinha que fazer pra ele. Eu podia falar com ele pra sempre, não dormir nunca, nunca sair de perto.
Podia ver o rosto dele tão claramente agora... Quase ouvir a voz dele. E, mesmo com todo o terror e da falta de esperança, eu estava flutuando de felicidade. Estava tão envolvida nos meus sonhos de fuga, que perdi a noção dos segundos passando.
— Ei, qual é o número?
A pergunta do motorista perfurou minhas fantasias, deixando todas as cores escaparem das minhas adoráveis ilusões. Medo, vazio e dor estavam esperando pra preencher o vazio que elas deixaram pra trás.
— Cinquenta e oito vinte e um. — Minha voz saiu estrangulada. O motorista olhou pra mim, nervoso por eu estar tendo uma crise ou alguma coisa assim.
— Então, aqui estamos. — Ele estava ansioso pra me ver fora do carro dele, provavelmente com medo que eu pedisse o troco.
— Obrigada, — Murmurei.
Não havia necessidade de ter medo, eu lembrei pra mim mesma.
A casa estava vazia. Eu tinha que correr, minha mãe estava esperando por mim, assustada, dependendo de mim.
Eu corri para a porta, me abaixando automaticamente pra pegar a chave embaixo do tapete e a destranquei. Estava escuro lá dentro, vazio, normal. Eu corri para o telefone, ligando a luz da cozinha no caminho. Lá, no balcão branco, estava um número de dez dígitos escritos com uma letra pequena, organizada. Meus dedos tremiam no teclado, cometendo erros. Eu tive que desligar e começar tudo de novo. Dessa vez eu me concentrei só nos botões, cuidadosamente apertando um de cada vez. Eu consegui. Eu segurei o telefone na minha orelha com a mão tremendo. Só chamou uma vez.
— Olá, Bella. — A voz calma atendeu. — Isso foi muito rápido. Eu estou impressionado.
— Minha mãe está bem?
— Ela está perfeitamente bem. Não se preocupe Bella, eu não estou disputando ela. A não ser que você não tenha vindo sozinha, é claro. — Leve e divertido.
— Eu estou sozinha.
Eu nunca estive tão sozinha a minha vida inteira.
— Muito bom. Agora, você sabe onde é o estúdio de balé que fica na esquina da sua casa?
— Sim, eu sei como chegar aí.
— Bem, então, eu te vejo em breve.
Desliguei.
Corri pela porta, para o calor escaldante.
Não havia tempo de olhar pra trás para a minha casa, e eu não queriam vê-la como ela estava agora, vazia, um símbolo de medo e não um santuário. A última pessoa a andar entre aquelas paredes familiares era o meu inimigo.
Pelo canto do meu olho, eu quase conseguia ver aminha mãe na sombra do eucalipto onde eu brincava quando era criança. Ou ajoelhada no monte de sujeira perto da caixa de correio, o cemitério de todas as flores que ela tentou plantar. As memórias eram melhores do que qualquer realidade que eu pudesse ver hoje. Mas eu corri pra longe delas, virei a esquina, deixando tudo pra trás.
Eu me sentia tão lenta, como se eu estivesse correndo na areia molhada, não parecia conseguir me impulsionar o suficiente no concreto. Tropecei várias vezes, caindo uma, me segurando com as mãos, arranhando elas na calçada, e então me levantando pra continuar correndo em frente.
Mas pelo menos eu consegui chegar à esquina. Só mais uma rua agora, eu corri, o suor caindo pelo meu rosto, eu estava ofegante. O sol estava quente ne minha pele, brilhando demais quando entrava em contato com o concreto branco e me cegava. Eu me senti perigosamente exposta. Mais impetuosa do que eu jamais sonhei ser capaz, eu desejava as florestas verdes, protetoras de Forks... De casa.
Quando eu virei a esquina na Cactus, eu podia ver o estúdio, exatamente como eu lembrava. O estacionamento estava vazio, as venezianas verticais estavam fechadas. Eu não conseguia mais correr, não conseguia mais respirar, o esforço e o medo me esgotaram. Pensei na minha mãe pra manter meus pés se movendo, um na frente do outro.
Enquanto eu me aproximava eu consegui ver a subscrição dentro da porta.
Estava escrito á mão num papel rosa escuro; dizia que o estúdio estava fechado para as férias de primavera. Eu toquei a maçaneta e virei ela cuidadosamente. Estava aberta. Eu lutei pra respirar e abri a porta.
O saguão estava escuro e vazio, frio, o ar-condicionado estava funcionando. As cadeiras de plástico estavam expostas ao longo das paredes, e o tapete tinha cheiro de shampoo. O palco de dança oeste estava vazio, e eu podia ver pela janela de visão aberta. O palco de dança leste, a maior sala, estava com as luzes acesas. Mas as cortinas estavam fechadas na janela.
O terror me pegou tão forte que eu estava, literalmente, presa por ele. Eu não conseguia fazer meus pés se moverem.
E então a voz da minha mãe me chamou.
— Bella, Bella? — O mesmo tom histérico de pânico.
Eu me grudei na porta para ouvir o som da voz dela.
— Bella, você me assustou! Nunca faça isso comigo de novo! — A voz dela continuou enquanto eu corria pela sala longa, de teto baixo.
Olhei em volta, tentando descobrir de onde a voz dela estava vindo. Eu ouvi uma risada, e me virei pra ver de onde ela estava vindo.
Lá estava ela, na tela da TV, espalhando meu cabelo de alívio. Era o dia de ação de graças, e eu tinha doze anos. Nós tínhamos ido para a Califórnia visitar minha avó no ano anterior à morte dela. Nós fomos para a praia um dia, e eu fui muito longe à beira do píer. Eu vi meus pés falhando, procurando equilíbrio.
— Bella? Bella? — Ela chamou por mim amedrontada.
E a tela da tv ficou azul.
Eu me virei lentamente. Ele estava em pé muito rígido perto da saída de emergência no fundo, então eu não havia notado ele antes. Na mão dele havia um controle remoto. Nós olhamos um para o outro por um longo momento, então ele sorriu.
Ele caminhou na minha direção, perto demais, e então passou por mim pra colocar o controle perto do vídeo cassete. Eu me virei cuidadosamente pra observá-lo.
— Me perdoe por isso, Bella, mas não é melhor que a sua mãe não tenha que se envolver nisso? — A voz dele era cortês, carinhosa.
E então eu me toquei. Minha mãe estava a salvo. Ela ainda estava na Flórida. Ela nunca recebeu minha mensagem. Ela nunca sentiu medo pelos olhos vermelhos escuros no rosto anormalmente pálido que estava na minha frente agora. Ela estava a salvo.
— Sim. — Respondi com minha voz saturada de alívio.
— Você não parece estar com raiva por eu ter te enganado.
— Eu não estou.
Minha súbita situação me encorajou.
O que importava agora?Estaria acabado em breve.
Charlie e minha mãe não se machucariam nunca, não haveria nada a temer. Eu me senti quase vertiginosa. Alguma parte analítica da minha mente me disse que eu estava perto de romper de tanto estresse.
— Que estranho. Você está falando a verdade. — Seus olhos me estudaram com interesse. Sua íris estava quase preta, só um pouco da cor rubi perto dos cantos. Sede. — Eu vou dar esse crédito ao seu bando, vocês humanos podem ser bem interessantes. Eu acho que consigo ver a graça de observar vocês. É impressionante, alguns de vocês não tem o menor senso de interesse por si próprios.
Ele estava a alguns passos de mim, com os braços cruzados, me olhando cheio de curiosidade.
Não havia nenhuma ameaça no seu rosto ou na sua posição. Ele tinha uma aparência muito comum, nada de especial nem no seu rosto nem no seu corpo. Só a pele branca e os círculos embaixo dos olhos aos quais eu já estava tão acostumada. Ele usava uma camisa azul clara de mangas compridas e jeans de um azul desgastado.
— Eu acho que você vai me dizer que o seu namorado vai te vingar? — Ele me perguntou, parecendo esperançoso.
— Não, eu acho que não. Pelo menos eu pedi pra ele não fazer isso.
— E o que foi que ele respondeu?
— Eu não sei. — Era estranhamente fácil conversar com esse gentil caçador. — Eu deixei uma carta pra ele.
— Que romântico, uma última carta. E você acha que ele vai honrar seu pedido? — Sua voz estava um pouco mais dura agora, o sarcasmo casando com o seu tom educado.
— Eu espero que sim.
— Hm. Então as nossas esperanças são diferentes. Veja, isso tudo foi fácil demais, rápido demais. Pra ser honesto, eu estou desapontado. Eu esperava um desafio muito maior. E, no final, tudo que eu precisei foi de um pouco de sorte.
Eu esperei em silêncio.
— Quando Victória não conseguiu pegar seu pai, eu tive que saber um pouco mais sobre você. Não havia nenhum sentido em correr o planeta inteiro a sua procura quando eu podia confortavelmente esperar por você no lugar de minha escolha. Então, depois que eu falei com Victória, eu decidi vir a Phoenix pra fazer uma visita a sua mãe. Ouvi você dizendo que estava indo pra casa. Primeiro eu nem sonhei que você estivesse falando sério. Mas depois eu imaginei. Os humanos podem ser muito previsíveis, eles gostam de estar em algum lugar familiar, algum lugar seguro. E seria a estratégia perfeita ir para o único lugar onde você não deveria estar se escondendo, o lugar pra onde você disse que iria. Mas é claro que eu não tinha certeza, foi só um chute. Eu geralmente tenho um pressentimento em relação á minha presa, um sexto sentido, se você preferir. Eu escutei a sua mensagem para a sua mãe quando cheguei na casa dela, mas é claro que eu não sabia de onde você estava ligando. Foi muito útil ter o seu telefone, mas pelo que eu sabia você podia estar até na Antártida, e o jogo não ia funcionar a não ser que você estivesse por perto. Então o seu namorado pegou um avião pra Phoenix. Victória estava monitorando eles pra mim, naturalmente, num jogo com tantos jogadores, não se pode estar sozinho. E então eles me disseram o que eu esperava saber, que você estava aqui afinal. Eu estava preparado, já tinha assistido aos charmosos vídeos caseiros. E aí foi só uma questão de blefe. Fácil de mais, você vê realmente não se aplica aos meus padrões. Então, você entende, eu estava esperando que você estivesse errada sobre o seu namorado. Edward, não é?
Eu não respondi. O desafio já estava cansando. Eu senti que ele já estava acabando de se regozijar. O discurso não era pra mim. Não havia nenhuma glória em me derrotar, uma humana fraca.
— Você se importaria, muito, se eu mesmo deixasse uma carta para o seu Edward?
Ele deu um passo pra trás e tocou uma câmera do tamanho de uma mão que estava cuidadosamente posicionada em cima do som. Uma pequena luz vermelha indicava que ela já estava ligada.
Ele a ajustou algumas vezes, abriu o visor. Eu olhei pra ele horrorizada.
— Me desculpe, mas eu não acho que ele será capaz de resistir de me caçar depois que ele assistir isso. E eu não quero que ele perca nada. Era tudo pra ele, é claro. Você é simplesmente uma humana, que infelizmente estava no lugar errado, na hora errada, e com o grupo errado, eu devo dizer.
Ele deu um passo em minha direção sorrindo.
— Antes de começarmos...
Eu senti uma pontada de náusea no meu estômago enquanto ele falava. Isso era algo que eu não estava esperando.
— Eu só gostaria de esfregar isso, só um pouco. A resposta estava lá o tempo inteiro, e eu estava com medo que Edward a visse e estragasse toda a minha diversão. Isso aconteceu, oh, há muitos anos atrás. A única vez que uma presa me escapou. Veja, esse vampiro que estava tão apaixonado pela vítima, fez a escolha que seu Edward foi fraco demais pra fazer. Quando o velho que eu conhecia estava atrás da amiguinha dele, ele a roubou do asilo onde trabalhava, eu nunca vou entender essa obsessão que alguns vampiros têm por vocês humanos, e assim que ele a libertou ele a deixou em segurança. Ela nem pareceu notar a dor, a pobre criaturinha. Ela esteve presa naquele buraco negro da cela durante tanto tempo. Cem anos antes ela teria sido queimada numa estaca pelas visões dela. Na década de 1920 ela foi jogada num asilo com tratamentos de choque. Quando ela abriu os olhos, forte com a fresca juventude foi como se ela nunca tivesse visto o sol antes. O vampiro velho a transformou numa nova forte vampira, então não havia mais motivo pra eu tocar nela. — Ele suspirou. — Eu destruí o outro velho em vingança.
— Alice. — Respirei aturdida.
— Sim, sua amiguinha. Eu fiquei surpreso por vê-la naquela clareira. Então eu acho que o seu grupo vai tirar algum conforto disso tudo. Eu peguei você, mas eles a têm. A única vítima que me escapou uma honra, na verdade. E ela cheirava tão bem. Eu ainda lamento não ter podido prová-la. Ela cheirava ainda melhor que você. Desculpe, eu não pretendia te ofender. Você tem um cheiro bom. Floral, de alguma forma...
Ele deu outro passo na minha direção, até ficar a apenas alguns centímetros de distância. Levantou uma mecha do meu cabelo e cheirou ela deliciado. Então ele gentilmente colocou a mecha de volta no lugar, e eu senti os dedos gelados dele na minha garganta. Ela alisou rapidamente a minha bochecha com o polegar, seu rosto estava curioso. Eu queria tanto correr, mas estava congelada. Não conseguia nem balançar.
— Não. — Ele murmurou pra si mesmo enquanto abaixava a mão. — Eu não entendo. — Ele suspirou. — Bem, eu acho que devemos começar logo. Então eu vou poder ligar pra os seus amigos e dizer onde te encontrar, com a minha pequena mensagem.
Eu definitivamente estava passando mal agora. Havia dor se aproximando, eu podia ver nos olhos dele. Pra ele não seria suficiente ganhar, se alimentar e ir embora. Não haveria um fim rápido como eu esperava. Meus joelhos começaram a tremer, eu temia que fosse cair.
Ele deu um passo pra trás e começou a andar em círculos, casualmente, como se ele estivesse tentando ter uma visão melhor da estátua de um museu. Seu rosto ainda estava aberto e amigável enquanto ele decidia por onde começar.
Então ele rastejou pra frente, se arrastando daquele jeito que eu já conhecia, e seu sorriso prazeroso cresceu lentamente, até que não era mais um sorriso e sim uma contorção dos dentes, expostos e brilhantes.
Eu não consegui me conter, tentei correr. Foi tão inútil quanto eu imaginei que seria como meus joelhos já estavam fracos, o pânico tomou conta e eu tropecei no caminho á saída de emergência.
Ele estava na minha frente num flash. Eu não vi se ele usou as mãos ou os pés de tão rápido que foi. Um golpe destruidor atingiu meu peito, eu me senti voando pra trás, e então eu ouvi o crash quando minha cabeça bateu contra os espelhos. O vidro rachou alguns pedaços tremendo e alguns caindo no chão perto de mim.
Estava atordoada demais pra sentir a dor. Eu ainda não conseguia respirar.
Ele andou lentamente na minha direção.
— Esse é um efeito muito bom. — Ele disse, examinando o estado do vidro, sua voz amigável de novo. — Eu achei que essa sala daria um toque visual dramático ao meu filmezinho. Foi por isso que eu escolhi esse lugar pra te encontrar. É perfeito não é?
Eu ignorei ele, lutando pra me equilibrar nas mãos e nos joelhos, rastejando até a outra porta.
Ele estava em cima de mim na hora, seu pé pisando com força na minha perna. Eu ouvi o estalo antes de sentir a dor. Mas então eu senti, e não pude segurar o meu grito de agonia. Me virei pra alcançar minha perna, e ele estava de pé ao meu lado, sorrindo.
— Você gostaria de repensar o seu último pedido? — Ele perguntou prazerosamente.
A ponta do pé dele cutucou minha perna e eu ouvi um grito penetrante, eu fiquei chocada ao perceber que ele era meu.
— Você não iria preferir que Edward tentasse me encontrar? — Ele testou.
— Não! — Resmunguei. — Não, Edward, não.
Então alguma coisa atingiu meu rosto, me jogando de novo na direção dos espelhos.
Além da dor da minha perna, eu senti o rasgo do vidro na minha cabeça onde ele entrou.
Então, uma umidade quente começou a se espalhar no meu cabelo com uma velocidade alarmante. Podia sentir ela inundar o ombro da minha camisa, podia ouvi-la pingando no chão de madeira. O cheiro dela fez meu estômago revirar.
Apesar da náusea e do enjoo eu vi algo que me deu uma repentina, final ponta de esperança. Seus olhos meramente intencionados antes, agora queimavam com uma necessidade incontrolável.
O sangue, espalhando o vermelho na minha blusa branca, formando rapidamente uma poça no chão, estava deixando ele louco de sede. Não importava o quanto as intenções fossem originais, ele não poderia continuar com isso por muito tempo.
Que seja rápido agora, era tudo o que eu podia esperar enquanto o fluxo de sangue que saia da minha cabeça levava minha consciência com ele. Meus olhos estavam se fechando.
Eu ouvi, como se estivesse embaixo da água, o rosno final do caçador. Eu podia ver, através dos longos túneis em que meus olhos haviam se transformado, a figura escura dele vindo na minha direção. Como meu esforço final, eu levantei minha mão num gesto instintivo pra proteger meu rosto. Meus olhos se fecharam e eu flutuei.

4 comentários:

  1. #sem_comentarios U.u

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  2. Ho Bella .!

    Assim: Apaixonada por livros

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  3. ela narrou o prólogo nesse capítulo ou não?

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    Respostas
    1. O prólogo mostra uma parte desse capítulo, sim

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