24 de setembro de 2015

Capítulo 21 - Veredicto

Nós estávamos num corredor claro, pouco notável.
As paredes eram de um branco apagado, o chão era de carpete industrial cinza. Lâmpadas fluorescentes retangulares estavam espaçadas uniformemente por todo o teto. Estava mais quente aqui, e por isso eu fiquei grata.
Esse corredor parecia muito benigno depois da escuridão grotesca das paredes do esgoto.
Edward não parecia concordar com a minha opinião.
Ele olhava obscuramente para o fim do longo corredor, na direção da figura pequena, com ombros pretos lá no fim, esperando no elevador.
Ele me puxou com ele, e Alice andou no meu outro lado. Aporta pesada se fechou atrás de nós, e então houve o barulho de um ferrolho deslizando.
Jane esperou no elevador, uma mão segurando a porta aberta pra nós. A expressão dela estava apática.
Dentro do elevador, os três vampiros que pertenciam aos Volturi ficaram mais relaxados. Eles jogaram suas mantas pra trás, deixando o capuz cair sobre seus ombros. Tanto Felix quanto Demetri tinham uma pele de um leve tom oliva - parecia estranho em combinação com a sua extrema palidez.
O cabelo preto de Felix era cortado curto, mas o de Demetri tocava os seus ombros. As íris dos dois eram vermelhas nas beiras, e iam escurecendo até que ficavam completamente pretas na pupila. Embaixo de suas capas suas roupas eram modernas, pálidas, e indescritíveis.
Eu me acovardei num canto, me apertando contra Edward. A mão dele ainda esfregava o meu braço. Ele nunca tirava os olhos de Jane.
O passeio no elevador foi curto; nós entramos numa área elegante que parecia uma recepção. As paredes eram cobertas de madeira, o chão era atapetado com uma cobertura grossa, verde. Não havia janelas, mas sim grandes quadros, de uma luz brilhante que retratavam a região Toscana e que estavam pendurados em toda parte como se fossem uma substituição.
Sofás de couro pálido estavam arrumados em grupos aconchegantes, e as mesas brilhantes sustentavam vasos de cristal cheios de buques com cores vibrantes. O cheiro flores me lembrou do funeral em Forks.
No meio da sala havia um balcão alto, de mogno polido. Eu me engasguei de pasmo com a mulher que ficava atrás dele.
Ela era alta, com uma pele escura e olhos verdes. Ela teria sido muito bonita em qualquer outra companhia - mas não aqui. Porque ela era exatamente tão humana quanto eu. Eu não conseguia compreender o que uma humana estava fazendo aqui, totalmente tranquila, cercada de vampiros.
Ela sorriu educadamente nos recebendo.

— Boa tarde, Jane — ela disse.
Não havia surpresa no rosto dela quando ela viu a companhia de Jane.
Nem Edward, com o seu peito nu brilhando fracamente na luzes brancas, e nem mesmo eu, descabelada e comparativamente horrível.
Jane acenou com a cabeça.
— Gianna — Ela continuou andando na direção de uma porta dupla que ficava na parte de atrás da sala, e nós acompanhamos.
Enquanto Félix passava pela mesa, ele piscou para Gianna, ela deu uma risadinha.
No outro lado das portas de madeira havia uma outra espécie de recepção. O garoto pálido com um terno cinza perolado podia ser o gêmeo de Jane. O cabelo dele era mais escuro, e os lábios dele não eram tão cheios, mas ele era igualmente adorável. Ele veio nos receber. Ele sorriu, se aproximando dela.
— Jane.
— Alec — ela respondeu, abraçando o garoto. Eles beijaram um ao outro nas duas bochechas. Depois ele olhou pra nós.
— Eles te mandam buscar um e você volta com dois... e meio — ele notou, olhando pra mim. — Bom trabalho.
Ela sorriu - o som radiante de deleite como a gargalhada de um bebê.
— Bem vindo de volta, Edward — Alec o saudou. — Você parece de melhor humor.
— Marginalmente — Edward concordou com uma voz plana. Eu olhei para o rosto de Edward, e me perguntei como seria possível ele estar com um humor pior antes.
Alec gargalhou, e me examinou quando eu me colei ao lado de Edward.
— E essa é a causa de todos os seus problemas? — ele perguntou, ceticamente.
Edward só sorriu, sua expressão depreciativa. Depois ele congelou.
— É minha — Felix chamou casualmente atrás de nós.
Edward se virou, um lento rosnado se construindo no fundo do seu peito. Felix sorriu - a mão dele estava erguida, com a palma pra cima; ele curvou o dedo duas vezes, convidando Edward a ir em frente.
Alice tocou o braço de Edward.
— Paciência — ela avisou pra ele.
Eles trocaram um longo olhar, e eu desejei poder ouvir o que ela estava dizendo pra ele. Eu imaginei que fosse alguma coisa relacionada a não enfrentar Felix, porque Edward respirou fundo e se virou de volta pra Alec.
— Aro ficará agradado em te ver novamente — Alec disse, como se nada tivesse acontecido.
— Não vamos deixá-lo esperando — Jane sugeriu.
Edward acenou com a cabeça uma vez.
Alec e Jane, de mãos dadas, guiaram o caminho para outro grande corredor ornamentado - será que isso ia acabar?
Eles ignoraram as portas no final do corredor - portas inteiramente cobertas de ouro - parando no meio do corredor e deslizando um painel para expor uma porta normal de madeira. Não estava trancada. Alec a segurou aberta pra Jane.
Eu queria gemer quando Edward me puxou para o outro lado da porta. Era o mesmo quadrado ancião de pedras, como a ruela, e como os esgotos. Ficou escuro e frio de novo.
A antecâmara de pedra não era muito grande. Ela se abriu rapidamente pra uma sala mais clara, cavernosa, perfeitamente redonda como uma enorme torre de castelo... que provavelmente era exatamente o que ela era.
Dois andares acima, longas janelas jogavam finos retângulos de luz do sol no chão de pedra abaixo. Não havia luzes artificiais. Os únicos móveis na sala eram enormes cadeiras de madeira, como tronos, que ficavam em espaços desiguais, esguichadas pelas paredes arredondadas. Bem no meio do círculo, em um pequeno declive, havia outro buraco. Eu me perguntei se eles usavam aquilo como saída, como o outro buraco na rua.
A sala não estava vazia. Várias pessoas estavam reunidas numa conversa que parecia relaxada. O murmúrio de vozes baixas, suaves, eram um gentil zumbido no ar.
Enquanto eu observava, um par de mulheres pálidas com vestidos de verão param num ponto de luz, e, como se fossem prismas, a pele delas mandaram reflexões de arco-íris nas paredes.
Todos os rostos notáveis se viraram na nossa direção quando o nosso grupo entrou na sala. A maioria dos imortais estavam vestidos com calças e camisas acima de qualquer suspeita - coisas que não se destacariam nas ruas lá em baixo.
Mas o homem que falou primeiro usava um longo robe. Ele era de um preto cor de piche, e se arrastava no chão. Por um momento, eu pensei que o seu cabelo longo, muito preto, fosse o capuz da sua manta.
— Jane, minha querida, você retornou! — ele falou, evidentemente deliciado. A voz dele era só um suspiro suave.
Ela caminhou em frente, e o movimento fluía com uma graça tão surreal que eu fiquei admirando, com a boca aberta. Mesmo Alice, que sempre se movimentava como se estivesse dançando, não podia se comparar.
Eu fiquei ainda mais aturdida quando ele andou em frente e eu consegui ver o rosto dele. Não era como os rostos sobrenaturalmente bonitos que o cercavam (já que ele não se aproximou de nós sozinho; o grupo inteiro se convergiu ao redor dele, alguns seguindo, outros andando na frente dele de maneira alerta como se fossem guarda costas) . Eu não conseguia decidir se o rosto dele era bonito ou não. Eu acho que as feições dele eram perfeitas. Mas ele era tão diferente dos vampiros ao seu redor quanto eles eram diferentes de mim. A pele dele era translucidamente branca, como pele de cebola, e parecia igualmente delicada - era um contraste chocante com o cabelo que cercava seu rosto. Eu me senti estranha, com uma horrível urgência de tocar a bochecha dele, pra ver se era mais macia que a de Edward ou Alice, ou se era porosa, como giz. Os olhos dele eram vermelhos, assim como os das pessoas ao seu redor, mas a cor era nebulosa, leitosa; eu me perguntei se a visão dele era afetada pela nebulosidade.
Ele deslizou pra Jane, pegou o rosto dela em suas mãos de papiro, e a beijou levemente diretamente nos lábios, e depois deu um passou pra trás.
— Sim, Mestre — Jane sorriu; a expressão fez ela parecer uma criança angelical. — Eu o trouxe de volta vivo, assim como você desejou.
— Ah, Jane — ele sorriu também. —Você é um conforto tão grande pra mim.
Ele virou seus olhos nebulosos na nossa direção, e o sorriso dele brilhou - se tornou estático.
— E Alice e Bella, também! — ele se alegrou, batendo suas mãos magras uma na outra.
— Essa é uma feliz surpresa! Maravilhosa!
Eu fiquei encarando chocada quando ele chamou nossos nomes informalmente, como se nós fôssemos velhos amigos passando pra uma visita inesperada.
Ele se virou para o nosso acompanhante grosseiro.
— Felix, seja bonzinho e diga aos meus irmãos que nós temos companhia. Eu tenho certeza de que eles não vão querer perder isso.
— Sim, Mestre — Felix balançou a cabeça e desapareceu pelo caminho por onde havíamos vindo.
— Você vê, Edward? — o estranho vampiro se virou e sorriu para Edward como se fosse um avô afetuoso dando uma bronca. — O que eu te disse? Você não está feliz que eu não te dei o que você queria ontem?
— Sim, Aro, eu estou — ele concordou, apertando seu braço na minha cintura.
— Eu adoro um final feliz — Aro suspirou. — Eles são tão raros. Mas eu quero a história toda. Como isso aconteceu? Alice? — ele virou o olhar para Alice com olhos curiosos, mistificados. — Seu irmão parecia pensar que você era infalível, mas aparentemente houve algum erro.
— Oh, eu estou longe de ser infalível — ela deu um sorriso deslumbrante. Ela pareceu perfeitamente tranquila, exceto por suas mãos estarem curvadas em bolas em seus pequenos punhos. — Como você pôde ver hoje, eu causo problemas com a mesma frequência que os conserto.
— Você é muito modesta — Aro chiou. — Eu vi algumas de suas incríveis façanhas, e eu devo admitir que nunca observei nada como o seu talento. Maravilhoso!
 Alice deu uma olhada pra Edward. Aro não perdeu isso.
— Me desculpe, nós não fomos apropriadamente apresentados, fomos? É só que eu sinto que já te conheço, e eu tenho a tendência de me apressar. O seu irmão nos apresentou ontem, de uma forma peculiar. Veja, eu e o seu irmão dividimos um talento, só que eu sou limitado de uma forma que ele não é — Aro balançou a cabeça; o tom dele estava invejoso.
— E também exponencialmente mais poderoso — Edward adicionou secamente. Ele olhou pra Alice enquanto ele rapidamente se explicava. — Aro precisa de contato físico pra ouvir os pensamentos, mas ele consegue ouvir muito mais do que eu. Você sabe que eu só posso ouvir o que se passa na sua cabeça no momento. Aro ouve cada pensamento que a sua mente já teve.
Alice levantou as delicadas sobrancelhas, e Edward inclinou a cabeça pra ela.
Aro não perdeu isso também.
— Mas ser capaz de ouvir à distância...— Aro suspirou, fazendo um gesto na direção dos dois, e a troca que havia acabado se passar. — Isso seria tão conveniente.
Aro olhou por cima dos ombros. Todas as outras cabeças se viraram na mesma direção, incluindo Jane, Alec e Demetri, que estavam silenciosamente ao nosso lado.
Eu fui a mais lenta pra me virar. Felix estava de volta, e atrás dele flutuaram outros dois homens com robes pretos. Os dois homens pareciam muito com Aro, um deles até tinha o mesmo cabelo preto. O outro tinha um cabelo cor de neve - o mesmo tom de cor da pele dele - que encostava nos ombros dele. Os rostos deles três tinham a mesma pele, fina como papel.
O trio da pintura de Carlisle estava completo, exatamente o mesmo de trezentos anos atrás quando o quadro foi pintado.
— Marcus, Caius, olhem! — Aro sussurrou. — Bella está viva afinal, e Alice está aqui com ela! Isso não é maravilhoso?
Nenhum dos dois parecia escolher maravilhoso como a primeira palavra que vinha na mente deles. O homem de cabelos escuros parecia extremamente entediado, como se ele já estivesse de saco cheio do entusiasmo de Aro. O olhar do outro estava ácido por baixo do cabelo cor de neve.
A falta de interesse não mudou o divertimento de Aro.
— Vamos ouvir a história — Aro quase cantou na sua voz plumosa.
O vampiro ancião com o cabelo branco se afastou, deslizando na direção de um dos tronos de madeira. O outro parou ao lado de Aro, a alcançou sua mão, a no começo eu pensei que ele fosse segurar a mão de Aro. Mas ele só tocou a palma de Aro brevemente e depois colocou a sua mão de lado. Aro ergueu uma sobrancelha preta.
Eu me perguntei como a sua pele de papel não se rompeu com o esforço.
Edward rosnou muito baixinho, e Alice olhou pra ele, curiosa.
— Obrigado, Marcus — Aro disse. — Isso é muito interessante.
Eu me dei conta, um segundo atrasada, de que Marcus estava deixando Aro ver seus pensamentos.
Marcus não parecia interessado. Ele deslizou pra longe de Aro para se juntar a aquele que só podia ser Caius, sentado contra a parede.
Dois vampiros atendentes seguiram silenciosamente atrás dele - guarda costas, como eu havia pensado antes.
Eu podia ver que as duas mulheres com vestido de verão foram ficar ao lado de Caius da mesma maneira. A ideia de vampiros precisando de guarda costas era extremamente ridícula pra mim, mas talvez os vampiros anciões fossem tão frágeis quanto a pele deles sugeria.
Aro estava balançando a cabeça.
— Incrível — ele disse. — Absolutamente incrível.
A expressão de Alice estava frustrada. Edward se virou pra ela e explicou de novo numa voz rápida e baixa.
— Marcus vê relacionamentos. Ele está surpreso pela intensidade do nosso.
Aro sorriu.
— Tão conveniente — ele repetiu pra si mesmo. E então ele falou pra nós. — É um pouco difícil surpreender Marcus, eu lhes asseguro.
Eu olhei para o rosto morto de Marcus, e acreditei nisso.
— É tão difícil de entender, mesmo agora — Aro meditou, olhando para o braço de Edward agarrado em mim. Pra mim era difícil acompanhar a caótica linha de pensamento de Aro. Eu lutava pra acompanhar. — Como é que você consegue ficar assim tão perto dela?
— Não é sem esforço — Edward respondeu calmamente.
— Mas mesmo assim... La tua cantante! Que desperdício!
Edward gargalhou uma vez sem humor.
— Eu considero isso mais como um preço.
Aro estava cético.
— Um preço muito alto.
— O preço da oportunidade.
Aro sorriu.
— Se eu não tivesse cheirado ela através das suas memórias, eu nunca teria acreditado que o chamado do sangue de alguém pudesse ser tão forte. Eu mesmo nunca senti nada assim. A maioria de nós trocaria qualquer coisa por tal dom, e ainda assim você...
— Desperdiça —Edward finalizou, a voz dele estava sarcástica agora.
Aro sorriu de novo.
— Ah, como eu sinto falta de meu amigo Carlisle! Você me lembra dele - só que ele não era tão raivoso.
— Carlisle me excede em muitos outros sentidos também.
— Eu certamente nunca esperei ver Carlisle perdendo o auto-controle entre todas as coisas, mas você consegue superá-lo.
— Dificilmente — Edward parecia impaciente. Como se ele estivesse cansado das preliminares. Isso me deixou com mais medo; eu não conseguia deixar de imaginar o que ele achava que viria a seguir.
— Eu estou gratificado com o sucesso dele — Aro meditou. — As suas memórias dele são um verdadeiro presente pra mim, apesar de elas terem me deixado extenuosamente aturdido. Eu estou surpreso de como isso... me agrada, o seu sucesso com os métodos incomuns que ele escolheu. Eu esperava que ele fosse desistir, enfraquecer com o tempo. Eu ridicularizei seus planos de encontrar outros que dividissem a sua visão particular. Mesmo assim, de alguma forma, eu estou feliz por estar errado.
Edward não respondeu.
— Mas a sua resistência! — Aro suspirou. — Eu não sabia que tal força era possível. Ignorar a si mesmo á um chamado tão urgente, não apenas uma vez mas de novo e de novo - se eu mesmo não tivesse sentido isso, eu nunca teria acreditado.
Edward olhou de volta para a admiração de Aro sem nenhuma expressão. Eu conhecia o rosto dele bem o suficiente - o tempo não havia mudado isso - pra adivinhar que tinha alguma coisa se passando por sua superfície.
Eu lutei pra manter minha respiração uniforme.
— Só de me lembrar o quanto ela é apelativa pra você...—  Aro gargalhou. — Eu já fico com sede.
Edward ficou tenso.
— Não fique perturbado — Aro o assegurou. — Eu não represento perigo pra ela. Mas eu estou tão curioso, sobre uma coisa em particular — Ele me olhou brilhando de interesse. — Posso? — ele perguntou ansiosamente, levantando uma mão.
— Pergunte a ela — Edward sugeriu numa voz plana.
— É claro, que rude da minha parte! — Aro exclamou. — Bella — ele se dirigia diretamente a mim agora. — Eu estou fascinado que você é a única exceção para o impressionante talento de Edward - é muito interessante que uma coisa assim ocorra! E eu estava imaginando, já que os nossos talentos são similares de tantas formas, se você seria gentil de me deixar tentar - pra ver te você é uma exceção pra mim, também?
Meus olhos olharam pra Edward aterrorizados. Apesar da evidente educação de Aro, eu não acreditava que realmente tivesse uma escolha. Eu estava horrorizada com o pensamento de deixar ele me tocar, e ainda assim perseveramente intrigada pela chance de sentir a sua estranha pele.
Edward acenou com a cabeça me encorajando - fosse porque ele tinha certeza de que Aro não me machucaria, ou porque não havia outra escolha, eu não sabia dizer.
Eu me virei de volta pra Aro e ergui a minha mão lentamente na minha frente. Ele estava tremendo.
Ele deslizou pra mais perto, e eu acredito que ele pretendia fazer a expressão dele ser tranquilizadora. Mas as feições de papel dele eram estranhas demais, muito alienígenas e assustadoras, para tranquilizarem. O olhar no rosto dele era mais confiante do que as suas palavras haviam sido.
Aro se aproximou, como se fosse pra apertar minha mão, e pressionou a sua pele de aparência insubstancial na minha.
Ela era dura, mas parecia ser frágil - parecia mais xisto do que granito - e era muito mais fria do que eu esperava.
Seus olhos fumacentos sorriam para os meus, e era impossível desviar o olhar.
Eles eram hipnóticos de uma maneira estranha, desagradável.
O rosto de Aro se modificou enquanto eu observava. A confiança desapareceu, e primeiro se transformou em dúvida, depois em incredulidade antes que se acalmasse numa máscara amigável.
— Muito interessante — ele disse enquanto soltava a minha mão e voltava pra trás.
Meus olhos passaram pra Edward, e, apesar do rosto dele estar composto, eu achei que ele parecia um pouco presumido.
Aro continuou a se afastar com uma expressão pensativa. Ele ficou quieto por um momento, seus olhos passando rapidamente por nós três. Então, abruptamente, ele balançou a cabeça.
— A primeira — ele disse pra si mesmo. — Eu me pergunto se ela é imune aos nossos outros talentos... Jane, querida?
— Não! — Edward rosnou com a palavra. Alice agarrou o braço dele com uma mão de restrição. Ele a sacudiu.
A pequena Jane sorriu alegremente para Aro.
— Sim, Mestre?
Edward estava realmente rosnando agora, o som rasgando e escapando de dentro dele, ele estava olhando pra Aro com olhos violentos.
A sala inteira havia ficado imóvel, todo mundo olhando pasmo de descrença, como se ele estivesse cometendo algum tipo de falha social grave. Eu vi Felix sorrir esperançosamente e dar um passo à frente. Aro olhou pra ele uma vez, e ele congelou no lugar, o seu sorriso se transformando numa expressão mal humorada.
Depois ele falou com Jane.
— Eu estava imaginando, minha querida, se Bella é imune a você.
Eu mal podia ouvir Aro por cima dos rosnados furiosos de Edward. Ele me soltou, se movendo pra ficar na minha frente.
Caius se moveu na minha direção, com suas acompanhantes, para observar.
Jane se virou na nossa direção com um sorriso angelical.
— Não! — Alice gritou quando Edward se lançou em cima da menininha.
Antes que eu pudesse reagir, antes que alguém pudesse se colocar entre eles, antes que os guarda costas de Aro pudessem ficar tensos, Edward estava no chão.
Ninguém havia tocado nele, mas ele estava no chão se contorcendo com evidente agonia, enquanto eu observava horrorizada.
Jane estava sorrindo pra ele agora, e tudo fez sentido.
O que Alice disse sobre dons formidáveis, o porque que todo mundo tratava Jane com tanto respeito, e porque Edward havia se jogado no caminho dela antes que ela pudesse chegar até mim.
— Pare! — eu implorei, minha voz ecoando no silêncio, eu pulei para a frente pra me colocar no caminho deles. Alice colocou os braços ao meu redor num aperto inquebrável e ignorou minha luta. Nenhum som escapou dos lábios de Edward enquanto ele se contorcia no chão de pedras. Eu pensei que a minha cabeça ia explodir de dor por ficar observando isso.
— Jane — Aro chamou ela numa voz tranquila. Ela olhou pra cima, ainda sorrindo de prazer, os olhos dela questionando. Assim que Jane desviou o olhar, Edward ficou imóvel.
Aro inclinou sua cabeça na minha direção.
Jane virou o seu sorriso na minha direção.
Eu nem olhei de volta pra ela. Eu observei Edward da prisão dos braços de Alice, ainda lutando sem sucesso.
— Ele está bem — Alice cochichou com uma voz dura. Enquanto ela falava, ele se sentou, e então saltou levemente para os pés. Os olhos dele encontraram os meus, e eles estavam golpeados de horror. Primeiro eu pensei que o horror era pelo que ele tinha acabado de sofrer. Mas ele olhou rapidamente pra Jane, e de volta pra mim - e o rosto dele relaxou de alívio.
Eu olhei pra Jane também, e ela não estava mais sorrindo. Ela estava me encarando, a sua mandíbula apertada com a intensidade da sua concentração. Eu me encolhi, esperando pela dor.
Nada aconteceu.
Edward estava ao meu lado de novo. Ele tocou o braço de Alice, e ela me rendeu pra ele.
Aro começou a rir.
— Ha, ha, há — ele gargalhou. — Isso é maravilhoso!
Jane bufou de frustração, se inclinando pra frente como se ela estivesse pronta pra atacar.
— Não fique chateada, querida — Aro disse num tom reconfortante, colocando uma mão branca como talco no ombro dela. — Ela confunde todos nós.
O lábio superior de Jane se curvou por cima de todos os seus dentes enquanto ela continuava a me encarar.
— Ha, ha, há — Aro gargalhou de novo. — Você é muito corajoso, Edward, por ter suportado em silêncio. Eu pedí pra Jane fazer isso comigo uma vez - só por curiosidade — Ele balançou a cabeça com admiração.
Edward encarou, enojado.
— Então o que fazemos com vocês? — Aro suspirou.
Edward e Alice enrijeceram. Essa era a parte pela qual eles estavam esperando. Eu comecei a tremer.
— Eu não acho que exista alguma chance de você ter mudado de ideia? — Aro perguntou a Edward esperançosamente. — O seu talento seria uma grande adição para a nossa pequena companhia.
Edward hesitou. Do canto do meu olho, eu ví Felix e Jane fazendo careta.
Edward pareceu pesar cada palavra antes de falar.
— Eu... prefiro... não.
— Alice? — Aro perguntou, ainda esperançoso.  — Será que você poderia estar interessada em se juntar a nós?
— Não, obrigada — Alice disse.
— E você, Bella? — Aro ergueu as sobrancelhas.
Edward assobiou, baixinho no meu ouvido. Eu olhei pra Aro como uma página em branco. Ele estava fazendo piada? Ou será que ele realmente estava me perguntando se eu queria ficar para o jantar?
Foi o Caius de cabelo branco quem quebrou o silêncio.
—O que? — ele quis saber de Aro; a voz dele, apesar de não ser mais que um sussurro, era plana.
— Caius, você certamente vê o potencial — Aro o repreendeu afetivamente. — Eu não vejo um talento tão promissor desde que encontramos Jane e Alec. Você pode imaginar as possibilidades se ela se transformar em uma de nós?
Caius desviou o olhar com uma expressão cáustica. Os olhos de Jane brilharam de indignação pela comparação.
Edward fumaçou ao meu lado. Eu podia ouvir o estrondo no peito dele, se transformando em um rosnado. Eu não podia deixar que o seu temperamento acabasse o machucando.
—Não, obrigada — eu falei numa voz que não passava de um sussurro, minha voz quebrando de medo.
Aro suspirou.
— Isso é uma pena. Tanto desperdício.
Edward assobiou.
— Se juntar ou morrer, não é isso? Eu já suspeitava quando nós fomos trazidos a essa sala. Tanto por suas leis.
O tom de voz dele me surpreendeu. Ele parecia irado, mas havia alguma coisa deliberada na sua fala - como se ele houvesse escolhido as palavras com grande cuidado.
— É claro que não — Aro piscou, abismado. — Nós já estávamos reunidos aqui, Edward, esperando pelo retorno de Heidi. Não por você.
— Aro — Caius assobiou. — A lei clama por eles.
Edward olhou pra Caius.
— Como assim? — ele quis saber. Ele já devia saber o que Caius estava pensando, mas ele parecia determinado a fazê-lo falar em voz alta.
Caius apontou um dedo esquelético pra mim.
— Ela sabe demais. Você expôs os nossos segredos — A voz dele era fina como papel, assim como a pele dele.
— Tem alguns humanos nessa sua piadinha aqui, também — Edward lembrou ele, eu pensei na recepcionista bonita lá embaixo.
O rosto de Caius se transformou em outra expressão. Era pra ele estar sorrindo.
— Sim — ele concordou. — Mas quando eles já não forem mais úteis para nós, eles vão servir pra nos sustentar. Esse não é o seu plano pra essa aí. Se ela trair o nosso segredo, você estaria preparado pra destruí-la? Eu acho que não — ele fez escárnio.
— Eu não iria — eu comecei, ainda cochichando. Caius me silenciou com um olhar gelado.
— Você também não tem a intenção de torná-la uma de nós — Caius continuou. — Portanto, ela é uma vulnerabilidade. Apesar disso ser verdade, por isso, só a vida dela deve ser penalizada. Vocês podem ir embora se quiserem.
Edward mostrou os dentes.
— Foi isso que eu pensei — Caius disse, agradado com alguma coisa. Felix se inclinou para a frente, ansioso.
— A não ser... — Aro interrompeu. Ele não parecia contente com o rumo que a conversa havia tomado. — A não ser que você tenha a intenção de dá-la a imortalidade.
Edward torceu os lábios, hesitando por um momento antes de responder.
— E se eu tiver?
Aro sorriu, feliz de novo.
— Ora, então você pode ir pra casa e dar as minhas lembranças ao meu amigo Carlisle — A expressão dele se tornou mais hesitante. — Mas eu temo que você tenha que ser sincero.
Aro ergueu a mão na frente dele.
Caius, que havia começado e fazer caretas furiosas, relaxou.
Os lábios de Edward se pressionaram até se tornarem uma linha estreita. Ele me olhou nos olhos, e eu olhei de volta.
—Seja sincero — eu sussurrei. —Por favor.
Ele realmente achava essa uma ideia tão abominável? Será que ele preferiria morrer a me mudar? Eu me sentia como se tivesse sido chutada no estômago.
Edward olhou para a minha expressão torturada.
E então Alice se separou de nós, e foi na direção de Aro. Nós nos viramos pra olhá-la.
A mão dela estava erguida como a dele.
Ela não disse nada, e Aro mandou seus ansiosos guardas embora com um gesto quando eles se aproximaram pra bloquear a aproximação dela. Aro se encontrou com ela no meio do caminho, e pegou a mão dela com um brilho ansioso, aquisitivo, nos olhos.
Ele inclinou sua cabeça na direção de suas mãos juntas, seus olhos se fechando enquanto ele se concentrava. Alice estava imóvel, o rosto dela vazio. Eu ouvi os dentes de Edward se fechando.
Ninguém se mexeu. Aro parecia estar congelado em cima da mão de Alice. Os segundos se passaram e eu fiquei mais e mais estressada, me perguntando quanto tempo se passaria antes que houvesse se passado tempo demais. Antes que isso significasse que havia alguma coisa errada - mais do que já havia.
Outro momento de agonia se passou, e então a voz de Aro quebrou o silêncio.
— Ha, ha, há — ele riu, a cabeça dele ainda inclinada para a frente. Ele olhou pra cima lentamente, seus olhos estavam brilhando de excitação. — Isso foi fascinante!
Alice sorriu secamente.
— Eu fico feliz que você tenha gostado.
— Ver as coisas que você viu - especialmente aquelas que ainda não aconteceram! — ele balançou a cabeça maravilhado.
— Mas que irão — ela o lembrou, com a voz calma.
— Sim, sim, isso já está bem determinado. Certamente não há nenhum problema.
Caius pareceu um pouco desapontado - um sentimento que ele parecia compartilhar com Felix e Jane.
— Aro — Caius reclamou.
— Querido Caius — Aro sorriu. — Não tema. Pense nas possibilidades! Eles não se juntam a nós hoje, mas nós podemos sempre esperar pelo futuro. Imagine a alegria que a pequena Alice traria para a nossa casa... Além do mais, eu estou tão terrivelmente curioso pra ver como Bella se sai!
Aro pareceu convencido. Ele não se dava conta de como as visões de Alice podiam ser subjetivas. Será que ele não via que ela podia estar convencida a me transformar hoje, e mudar de ideia amanhã? Um milhão de pequenas decisões, dela e de tantos outros também - as de Edward - podiam alterar o caminho dela, e com isso, alterar o futuro.
E será que realmente fazia diferença o que Alice queria, será que faria tanta diferença se eu me tornasse uma vampira, já que a ideia era tão repulsiva para Edward? Se a morte era, pra ele, uma alternativa melhor do que me ter por perto pra sempre, uma chatice imortal?
Aterrorizada como eu estava, eu senti vontade de me afundar na depressão, de me afogar nela..
— Então estamos livres pra ir agora? — Edward perguntou com uma voz unifome.
— Sim, sim — Aro disse, absolutamente agradado. — Mas por favor, visitem de novo. Isso foi absolutamente fascinante.
— E nós também visitaremos vocês — Caius prometeu, os olhos dele ficaram meio fechados de repente como se fossem pálpebras pesadas de um lagarto. — Pra ter certeza de que você fará o que promete. Se eu fosse você, eu não demoraria muito. Nós não damos segunda chance.
A mandíbula de Edward se apertou forte, mas ele acenou com a cabeça uma vez.
Caius sorriu e deslizou para onde Marcus continuava sentado, sem se mexer e desinteressado.
Felix gemeu.
— Ah, Felix — Aro sorriu, divertido. — Heidi estará aqui a qualquer momento. Paciência.
— Hmm — A voz de Edward tinha um som diferente. — Nesse caso, é melhor irmos logo do que deixar pra depois.
— Sim — Aro concordou. — Essa é uma boa ideia. Acidentes podem acontecer. Por favor esperem aqui até anoitecer, se vocês não se importarem.
— É claro — Edward concordou, enquanto eu me contorcia com a ideia de esperar até o dia terminar pra poder escapar.
— E aqui — Aro adicionou, fazendo um gesto pra Felix com um dedo. Felix se aproximou imediatamente, e Aro tirou a manta cinza que o enorme vampiro usava, tirando-a de seus ombros. Ele passou ela pra Edward. — Pegue isso. Você parece um pouco suspeito.
Edward colocou a longa manta, deixando o capuz abaixado.
Aro suspirou.
— Combina com você.
Edward gargalhou, mas parou de repente, olhando por cima do ombro.
 — Obrigado, Aro. Nós esperaremos lá embaixo.
— Adeus, jovens amigos — Aro disse, com os olhos brilhantes enquanto olhava na mesma direção.
— Vamos — Edward disse, urgente agora.
Demetri fez um gesto para que o seguíssemos, e depois nós guiou pelo caminho de onde viemos, a única saída pelo que parecia.
Edward me puxou rapidamente ao lado dele. Alice estava perto pelo meu outro lado, o rosto dela estava duro.
—Não fomos rápidos o suficiente —ela murmurou.
Eu olhei pra ela, assustada, mas ela só pareceu pesarosa. Foi aí que eu ouvi vozes tagarelando - vozes altas, ásperas - vindas da antecâmara.
— Isso não é normal — a voz grossa de um homem estrondou.
— É tão medieval — um esguicho desagradável, uma voz feminina se fez ouvir no fundo.
Uma grande multidão estava passando pela porta, enchendo a câmara menor. Demetri fez um gesto para descermos esse espaço. Nós nos pressionamos na parede fria pra deixá-los passar.
Um casal na frente, americanos pelo jeito deles, olharam ao redor com olhos avaliadores.
— Bem vindos, visitantes! Bem vindos à Volterra! — eu podia ouvia a voz de Aro cantar de dentro da grande sala redonda.
O resto deles, talvez quarenta ou mais, entraram depois do casal. Alguns estudavam panfletos como turistas. Alguns deles até tiravam fotos. Outros pareciam confusos, como se a história que os guiou até ali já não fizesse sentido.
Eu notei em uma mulher pequena, escura, em particular. Ela tinha um rosário ao redor do pescoço, e ela segurava a cruz com força em uma das mãos. Ela caminhava mais devagar do que os outros, tocando alguém de vez em quando pra fazer perguntas em uma língua desconhecida. Ninguém parecia entendê-la, e a voz dela começou a parecer mais cheia de pânico.
Edward puxou meu rosto para o peito dele, mas já era tarde demais. Eu já tinha entendido.
Assim que a menor brecha apareceu, Edward me puxou rapidamente para a porta. Eu podia sentir a expressão horrorizada no meu rosto, e as lágrimas começando a se aglomerar nos meus olhos.
O corredor ornamentado com ouro estava quieto, vazio exceto por uma linda mulher, parecida com uma estátua. Ela olhou curiosamente pra mim, em particular.
— Bem vinda ao lar, Heidi — Demetri a saudou atrás de nós.
Heidi sorriu ausentemente. Ela me lembrava de Rosalie, apesar delas duas não se parecerem em nada - era só que a beleza dela, também, era excepcional, inesquecível. Eu não parecia ser capaz de desviar a vista.
Ela estava vestida para enfatizar a sua beleza. Suas penas incrivelmente longas, escurecidas com meias, estavam expostas pela mais curta das mini-saias. O top dela tinha mangas longas e colarinho alto, mas era extremamente justo, e feito de vinil vermelho. Seu longo cabelo cor de mogno era lustroso, e os olhos dela eram de um estranho tom violeta - a cor devia ser resultado de lentes de contato azuis com os olhos vermelhos.
— Demetri — ela respondeu com uma voz sedosa, seus olhos passando rapidamente entre o meu rosto e a manta cinza de Edward.
— Boa pesca — Demetri a cumprimentou, e eu finalmente compreendi a roupa chamativa que ela usava... ela não era só a pescadora, mas era também a isca.
— Obrigada — ela mostrou um sorriso formidável. —Você não vem?
— Em um minuto. Guarde alguns pra mim.
Heidi balançou a cabeça e passou pela porta com uma última olhada curiosa pra mim.
Edward começou a andar num ritmo que me fez correr pra acompanhar.
Nós ainda não havíamos conseguido alcançar a porta ornamentada no fim do corredor quando a gritaria começou.

2 comentários:

  1. "Eu me senti estranha, com uma horrível urgência de tocar a bochecha dele, pra ver se era mais macia que a de Edward ou Alice, ou se era porosa, como giz."
    Sempre foi descrito que são duros como o mármore, como podem então ter bochechas macias???

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  2. Marian Volturi Singer del Santt27 de novembro de 2016 00:35

    Ele deslizou pra Jane, pegou o rosto dela em suas mãos de papiro, e a beijou levemente diretamente nos lábios, e depois deu um passou pra trás.
    _________________
    Eu não lembrava disso pqp kskssksosksosko

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