29 de setembro de 2015

Capítulo 21 - Primeira caçada

— A janela? — perguntei, olhando dois andares abaixo.
Eu nunca tivera medo de altura, mas ser capaz de ver os detalhes com tanta clareza tornava a perspectiva menos atraente. Os ângulos das pedras abaixo eram mais agudos do que eu teria imaginado.
Edward sorriu.
— É a saída mais conveniente. Se estiver com medo, posso carregá-la.
— Temos toda a eternidade e você está preocupado com o tempo que levaria para andar até a porta dos fundos?
Ele franziu levemente a testa.
— Renesmee e Jacob estão lá embaixo...
— Ah!
Certo. Eu agora era o monstro. Tinha de me manter afastada dos cheiros que pudessem incitar meu lado selvagem. Das pessoas que eu amava, em particular. Mesmo aqueles que eu ainda nem conhecia.
— Renesmee está... bem... com Jacob lá embaixo? — sussurrei. Só então percebia que devia ser o coração de Jacob que eu ouvira no primeiro andar. Tornei a apurar o ouvido, mas só pude distinguir uma pulsação. — Ele não gosta muito dela.
Os lábios de Edward se contraíram de forma estranha.
— Acredite em mim, ela está perfeitamente segura. Eu sei exatamente o que Jacob está pensando.
— Claro — murmurei, e olhei para o chão de novo.
— Protelando? — ele me desafiou.
— Um pouco. Não sei como...
E eu estava muito consciente de minha família atrás de mim, olhando em silêncio. A maior parte em silêncio. Emmett já tinha dado uma risada abafada. Um erro e ele estaria rolando no chão. Depois começariam as piadas sobre a única vampira desajeitada do mundo... Além disso, aquele vestido – que Alice devia ter enfiado em mim em algum momento enquanto eu estava absorta demais no fogo para perceber – não era o que eu teria escolhido para pular nem caçar. Seda azul-claro colada no corpo? Para que ela achava que eu iria precisar daquilo? Haveria algum coquetel mais tarde?
— Observe-me — disse Edward.
E, então, muito casualmente, ele saiu pela janela alta e caiu.
Olhei com atenção, analisando o ângulo em que ele curvava os joelhos para absorver o impacto. O som de seu pouso foi muito baixo – um baque surdo que podia ser uma porta sendo fechada suavemente, ou um livro gentilmente posto numa mesa. Não parecia difícil.
Trincando os dentes enquanto me concentrava, tentei imitar seu passo despreocupado no espaço vazio.
Ah! O chão pareceu se mover na minha direção tão lentamente que não foi nada demais colocar os pés – que sapatos eram aqueles com que Alice havia me calçado? Salto agulha? Ela perdera o juízo – colocar aqueles sapatos bobos na posição exata para que a aterrissagem não fosse diferente de levar um pé à frente numa superfície plana.
Absorvi o impacto com a parte da frente dos pés, não querendo quebrar os saltos finos. Meu pouso pareceu tão silencioso quanto o dele. Sorri para ele.
— Tudo bem. Fácil.
Ele sorriu também.
— Bella?
— Sim?
— Foi muito graciosa... até para uma vampira.
Pensei no comentário dele por um momento, e então fiquei radiante. Se ele estivesse falando por falar, Emmett teria rido. Ninguém achou a observação dele engraçada, então devia ser verdade. Era a primeira vez que alguém aplicava a palavra graciosa a mim em toda a minha vida... ou, bem, minha existência.
— Obrigada — eu disse a ele.
E então tirei os sapatos de cetim prateados e os lancei, juntos, de volta pela janela aberta. Com força demais, talvez, mas ouvi que alguém os pegou antes que eles pudessem danificar alguma coisa.
Alice grunhiu.
— O senso de moda dela não melhorou tanto quanto o equilíbrio!
Edward pegou minha mão – eu não deixava de me maravilhar com a suavidade, a temperatura confortável de sua pele – e disparou pelo quintal até a beira do rio. Eu o acompanhei sem esforço. Tudo que era físico parecia muito simples.
— Vamos nadar? — perguntei a ele quando paramos junto da água.
— E estragar seu lindo vestido? Não. Vamos pular.
Franzi os lábios, pensando. O rio tinha uns cinquenta metros de largura naquele trecho.
— Primeiro você — eu disse.
Ele tocou meu rosto, deu dois passos para trás, e voltou correndo, lançando- se de uma pedra achatada firmemente incrustada na margem. Examinei o lampejo de movimento enquanto ele descrevia um arco acima da água, dando por fim uma cambalhota pouco antes de desaparecer nas árvores densas do outro lado do rio.
— Exibido — murmurei, e ouvi seu riso invisível.
Recuei cinco passos, só por precaução, e respirei fundo.
De repente, me senti ansiosa de novo. Não com medo de cair ou me machucar – estava mais preocupada em causar algum dano à floresta.
Surgira devagar, mas agora eu podia sentir – a força bruta, maciça, vibrando em meus membros. De repente eu tinha certeza de que se quisesse abrir um túnel debaixo do rio, abrir caminho a unha ou a murros pelo leito rochoso, não levaria muito tempo. As coisas à minha volta – as árvores, os arbustos, as pedras... a casa – haviam começado a parecer muito frágeis.
Torcendo muito para que Esme não tivesse um apreço especial por nenhuma árvore específica do outro lado do rio, dei meu primeiro passo. E então parei quando o cetim apertado se rasgou uns quinze centímetros coxa acima. Alice!
Bom, Alice sempre parecia lidar com as roupas como se fossem descartáveis e existissem para ser usadas uma única vez, então ela não deveria se importar com aquilo. Curvei-me para pegar com cuidado a bainha no lado intacto e, exercendo a menor pressão possível, abri o vestido até o alto da coxa. Depois fiz o mesmo com o outro lado, para igualar.
Muito melhor assim.
Eu podia ouvir o riso abafado na casa, e até o som de alguém trincando os dentes. O riso vinha dos dois andares, e reconheci facilmente a risada rouca e gutural do primeiro andar.
Então Jacob também estava olhando? Eu não conseguia imaginar o que ele estaria pensando agora, ou o que ainda estava fazendo ali. Eu imaginara nosso reencontro – se ele pudesse me perdoar – acontecendo no futuro, quando eu estivesse mais estável e o tempo tivesse curado as feridas que infligi a seu coração.
Não me virei para olhá-lo agora, preocupada com minhas oscilações de humor. Não seria bom deixar que qualquer emoção dominasse meu estado de espírito. Os temores de Jasper haviam me deixado tensa. Eu tinha de caçar antes de lidar com qualquer outra coisa. Tentei me esquecer de todo o resto para me concentrar.
— Bella? — Edward chamou do bosque, a voz ficando mais próxima. — Quer ver de novo?
Mas eu me lembrava de tudo com perfeição, é claro, e não queria que Emmett tivesse um motivo para achar mais graça de meu treinamento. Aquilo era físico – devia ser instintivo. Então respirei fundo e corri para o rio.
Sem a obstrução da saia, foi preciso só uma passada longa para chegar à beira da água. Apenas oitenta e quatro avos de segundo, e no entanto foi tempo suficiente – meus olhos e minha mente se moviam tão rapidamente que um passo foi bastante. Foi simples posicionar meu pé direito na pedra lisa e exercer a pressão certa para mandar meu corpo voando pelo ar. Estava mais atenta ao objetivo do que à força, e errei na quantidade de força necessária – mas pelo menos não errei para o lado que teria me deixado molhada. A extensão de cinquenta metros era uma distância meio fácil demais...
Foi uma coisa estranha, vertiginosa, eletrizante, mas curta. Um segundo inteiro ainda por passar, e eu estava do outro lado.
Eu esperara que as árvores densamente agrupadas fossem um problema, mas elas foram surpreendentemente úteis. Foi uma simples questão de estender uma mão firme enquanto caía na direção do solo, no meio da floresta, e me vi em um galho conveniente; balancei levemente e pousei, apoiando-me nos dedos dos pés, ainda a quinze metros do chão, no maior galho de um abeto.
Foi fabuloso.
Acima do som retinido de meu riso deliciado, pude ouvir Edward correndo ao meu encontro. Meu salto fora duas vezes mais longo que o dele.
Quando chegou à minha árvore, estava com os olhos arregalados. Saltei com agilidade do galho para o seu lado, tornando a pousar silenciosamente com a parte dianteira dos pés.
— Foi bom? — perguntei, minha respiração acelerada com a empolgação.
— Muito bom. — Ele sorriu, aprovando, mas seu tom despreocupado não combinava com a expressão de surpresa nos olhos.
— Podemos repetir?
— Foco, Bella... Estamos numa excursão de caça.
— Ah, sim — assenti. — Caçar.
— Siga-me... Se puder. — Ele sorriu, a expressão de repente debochada e saiu correndo.
Ele era mais rápido do que eu. Eu não conseguia imaginar como ele movia as pernas numa velocidade tão intensa, mas aquilo estava além de mim. No entanto, eu era mais forte, e cada passada minha equivalia a três dele. E assim voei com ele pela teia verde e viva, a seu lado, não atrás. Enquanto eu corria, não consegui deixar de rir baixinho com a emoção; o riso não me atrasava nem perturbava meu foco.
Finalmente eu podia entender por que Edward nunca batia nas árvores quando corria – uma questão que sempre fora um mistério para mim. Era uma sensação peculiar, o equilíbrio entre a velocidade e a clareza.
Porque, enquanto eu disparava acima, debaixo e através do espesso labirinto de jade, a uma velocidade que deveria reduzir tudo à minha volta a uma mancha verde indistinta, eu podia ver muito bem cada folhinha em todos os pequenos galhos de cada insignificante arbusto por que passava.
O vento de minha velocidade lançava meu cabelo e meu vestido rasgado para trás, e embora eu soubesse que não deveria ser assim, parecia quente na minha pele. Da mesma forma, o chão irregular da floresta não devia parecer veludo sob meus pés descalços e os galhos que me chicoteavam a pele não deviam parecer plumas me acariciando.
A floresta era muito mais viva do que eu jamais imaginara – pequenas criaturas, cuja existência nunca imaginei, fervilhavam nas folhas à minha volta. Todas ficavam em silêncio depois de passarmos, sua respiração se acelerando de medo. Os animais tinham uma reação muito mais sensata ao nosso cheiro que os humanos pareciam ter. Certamente, tivera o efeito contrário em mim.
Continuei esperando sentir-me sem fôlego, mas minha respiração vinha sem esforço. Esperei que meus músculos começassem a queimar, mas minha força só parecia aumentar enquanto eu me acostumava com o ritmo. Meus saltos se estenderam mais, e logo ele estava tentando me acompanhar. De novo, exultante, quando o ouvi ficar para trás. Meus pés descalços tocavam o chão com tão pouca frequência agora que mais pareciam voar do que correr.
— Bella — chamou ele, a voz serena, preguiçosa. Não consegui ouvir mais nada; ele tinha parado. Pensei brevemente em me amotinar.
Mas com um suspiro fiz meia-volta e saltei levemente para o lado dele, algumas centenas de metros atrás. Olhei para ele cheia de expectativa. Ele sorrindo, com uma sobrancelha arqueada. Era tão lindo que eu só estava conseguia ficar olhando.
— Você queria ficar no país? — perguntou ele, divertido. — Ou estava planejando prosseguir até o Canadá?
— Está bom aqui — concordei, concentrando-me menos no que ele dizia e mais na forma hipnótica com que seus lábios se mexiam quando falava. Era difícil não me deixar distrair por tudo o que era novidade para os meus olhos novos e poderosos. — O que estamos caçando?
— Alces. Pensei numa coisa fácil para a primeira vez... — Ele se interrompeu quando meus olhos se estreitaram com a palavra fácil.
Mas não ia discutir; estava com sede demais. Assim que comecei a pensar no ardor seco em minha garganta, essa era a única coisa em que conseguia focalizar. Estava, sem dúvida, ficando pior. Minha boca parecia as quatro horas de uma tarde de verão no Vale da Morte.
— Onde? — perguntei, examinando com impaciência as árvores.
Agora que eu dera atenção à sede, ela parecia contaminar todos os meus outros pensamentos, escoando para os pensamentos mais agradáveis, como correr, os lábios de Edward, beijar e... a sede abrasadora. Eu não conseguia me livrar dela.
— Fique parada um minuto — disse ele, colocando as mãos de leve em meus ombros.
A urgência de minha sede cedeu por um momento ao toque dele.
— Agora feche os olhos — ele murmurou.
Quando obedeci, ele levou as mãos ao meu rosto, afagando-o. Senti minha respiração se acelerar e novamente esperei, por um breve instante, pelo rubor que não viria.
— Ouça — instruiu Edward. — O que está ouvindo?
Tudo, eu poderia ter dito; sua voz perfeita, sua respiração, seus lábios roçando um no outro enquanto ele falava, o sussurro de aves alisando as penas nas copas das árvores, seus batimentos cardíacos palpitantes, as folhas de bordo raspando umas nas outras, o leve estalido de formigas seguindo por uma longa fila na casca da árvore mais próxima. Mas eu sabia que ele se referia a algo específico, então deixei que meus ouvidos ampliassem o alcance, procurando algo diferente do leve zumbido de vida que me cercava.
Havia um espaço aberto perto de nós – o vento tinha um som diferente quando atravessava a relva exposta – e um pequeno riacho, com um leito rochoso. E ali, perto do barulho da correnteza, o ruído de línguas mergulhando na água o martelar de corações pesados, bombeando volumosas torrentes de sangue. Parecia que as laterais de minha garganta tinham se fechado.
— No riacho, a nordeste? — perguntei, os olhos ainda fechados.
— Sim — a voz dele era de aprovação. — Agora... espere pela brisa de novo... Que cheiro sente?
Principalmente o dele – seu estranho perfume de lilás, mel e sol. Mas também o cheiro rico e terroso de putrefação e musgo, a resina nas sempre-vivas, o aroma quente e quase amendoado dos pequenos roedores passando por baixo das raízes das árvores. E depois, de novo, o cheiro limpo da água que surpreendentemente me era indiferente, apesar da sede. Concentrei-me na água e descobri o cheiro que devia acompanhar as lambidas e o coração pesado. Outro cheiro quente, denso e penetrante, mais forte do que os outros. E no entanto quase tão pouco atraente quanto o riacho. Franzi o nariz.
Ele riu.
— Eu sei... Leva algum tempo para nos acostumarmos.
— Três? — tentei adivinhar.
— Cinco. Há outros dois nas árvores atrás deles.
— O que eu faço agora?
A julgar por sua voz, ele estava sorrindo.
— O que tem vontade de fazer?
Ponderei, os olhos ainda fechados enquanto escutava e sentia o cheiro. Outro surto de sede ardente invadiu minha consciência e de repente o odor quente e penetrante não era tão desagradável. Pelo menos seria alguma coisa quente e molhada em minha boca ressecada. Meus olhos se abriram de repente.
— Não pense — sugeriu ele enquanto retirava as mãos de meu rosto e recuava um passo. — Apenas siga seus instintos.
Deixei-me levar pelo cheiro, quase inconsciente de meus movimentos enquanto flutuava pelo declive até a campina estreita onde corria o regato. Meu corpo inclinou-se automaticamente e eu me agachei, enquanto hesitava na entrada do bosque margeado de samambaias. Podia ver o grande macho, com uma galhada de duas dezenas de cornos, na margem do regato, e as formas manchadas de sombras dos outros quatro seguindo para o leste, entrando na floresta num passo tranquilo.
Concentrei-me no cheiro do macho, no ponto quente em seu pescoço peludo onde o calor pulsava mais forte. Só trinta metros – duas ou três passadas – entre nós. Eu me retesei para o primeiro salto.
Mas enquanto meus músculos se contraíam, na preparação, o vento mudou soprando mais forte, vindo do sul. Não parei para pensar, partindo das árvores em um caminho perpendicular ao meu plano original, assustando o alce, que entrou na floresta, e correndo atrás de uma nova fragrância tão atraente que não era uma opção. Era compulsório.
O cheiro me dominava completamente. Eu estava obcecada enquanto o rastreava, ciente apenas da sede e do cheiro que prometia mitigá-la. A sede ficou pior, tão dolorosa agora que confundia todos os outros pensamentos e começava a me lembrar do veneno queimando em minhas veias.
Só havia uma coisa que tinha alguma possibilidade de penetrar meu foco, um instinto mais poderoso, mais básico do que a necessidade de mitigar o fogo – era o instinto de me proteger do perigo. A autopreservação.
De repente fiquei alerta para o fato de que estava sendo seguida. A atração do cheiro irresistível lutava com o impulso de me virar e defender minha caça. Um gorgolejo se formou em meu peito, meus lábios recuaram por sua própria vontade e expuseram os dentes, numa advertência. Meus pés desaceleraram, a necessidade de proteger minhas costas lutando contra o desejo de saciar a sede.
E então pude ouvir meu perseguidor ganhando terreno, e a defesa venceu. Enquanto eu girava, o som crescente abriu caminho por minha garganta e saiu.
O rosnado bestial, saindo de minha boca, foi tão inesperado que me fez parar. Ele me inquietou e clareou minha cabeça por um segundo – a névoa da sede recuou, embora a sede em si ainda ardesse.
O vento mudou, soprando o cheiro de terra molhada e chuva próxima em meu rosto, libertando-me ainda mais das garras abrasadoras do outro cheiro um aroma tão delicioso, que só podia ser humano.
Edward hesitou, a alguns passos, os braços estendidos como se para me abraçar – ou me conter. Seu rosto estava concentrado e cauteloso, e eu me vi imobilizada, horrorizada.
Percebi que estivera prestes a atacá-lo. Com um movimento brusco, saí de minha posição abaixada, defensiva. Prendi a respiração enquanto voltava a me concentrar, temendo o poder da fragrância que vinha do sul.
Ele viu a razão voltar ao meu rosto e deu um passo na minha direção, baixando os braços.
— Tenho de sair daqui — cuspi entre os dentes, usando a respiração que prendia.
O choque atravessou seu rosto.
— Você consegue sair?
Não havia tempo para perguntar o que ele quis dizer com aquilo. Eu que a capacidade de pensar com clareza só duraria o tempo em que conseguisse me reprimir de pensar em...
Disparei numa corrida outra vez, seguindo direto para o norte, concentrando-me unicamente na sensação desagradável de privação sensorial que parecia ser a única reação de meu corpo à falta de ar. Minha única meta era correr para o mais longe possível a fim de que o cheiro atrás de mim se perdesse completamente. Impossível de encontrar, mesmo que eu mudasse de ideia...
Novamente eu estava ciente de que era seguida, mas dessa vez eu estava sã. Reprimi o instinto de respirar – de usar os odores no ar para me certificar de que era Edward. Não precisei lutar muito; embora estivesse correndo mais rápido do que nunca, como um cometa, pelo caminho mais reto que conseguia encontrar entre as árvores, Edward me alcançou depois de um breve minuto.
Um novo pensamento me ocorreu, e me detive. Eu tinha certeza de que era seguro ali, mas prendi a respiração, só por segurança.
Edward passou por mim, surpreso com minha parada repentina. Ele girou e estava a meu lado em um segundo. Pôs as mãos em meus ombros e me fitou nos olhos, o choque ainda a emoção dominante em seu rosto.
— Como você fez aquilo? — perguntou ele.
— Você me deixou vencer antes, não foi? — perguntei, ignorando sua pergunta. E eu que pensara estar indo tão bem!
Quando abri a boca, pude sentir o gosto do ar – ali não era poluído, não havia vestígios do irresistível perfume para atormentar minha sede. Respirei com cautela. Ele deu de ombros e sacudiu a cabeça, recusando-se a desviar-se do assunto.
— Bella, como você fez isso?
— Fugir? Eu prendi a respiração.
— Mas como foi capaz de interromper a caçada?
— Quando você veio por trás de mim... Desculpe-me por aquilo.
— Por que está se desculpando comigo? Eu é que fui horrivelmente descuidado. Presumi que ninguém estaria tão longe das trilhas, mas devia ter verificado primeiro. Um erro tão idiota! Você não tem de se desculpar por nada.
— Mas eu rosnei para você! — Ainda estava horrorizada que fosse fisicamente capaz de tal atitude.
— É claro que rosnou. Isso é natural. Mas não consigo entender como você fugiu.
— O que mais eu poderia fazer? — perguntei. A atitude dele me confundia. O que ele queria que tivesse acontecido? — Poderia ser alguém que conheço!
Ele me assustou, explodindo de repente numa gargalhada, lançando a cabeça para trás e deixando o som ecoar nas árvores.
— Por que está rindo de mim?
Ele parou imediatamente, e pude ver que estava cauteloso de novo. Mantenha o controle, pensei comigo mesma. Eu precisava tomar cuidado com meu gênio. Como se eu fosse um lobisomem jovem, não uma vampira.
— Não estou rindo de você, Bella. Estou rindo porque estou chocado. E estou em estado de choque porque estou completamente pasmo.
— Por quê?
— Você não devia ser capaz de fazer nada disso. Não devia ser tão... racional. Não devia ser capaz de estar aqui discutindo isso comigo, calma e friamente. E, muito mais do que isso: você não devia ser capaz de interromper uma caçada com o cheiro de sangue humano no ar. Até vampiros maduros têm dificuldade com isso... Somos sempre muito cuidadosos com o local de caça para não nos colocarmos no caminho da tentação. Bella, você está se comportando como se tivesse décadas, e não dias de idade.
— Ah! — Mas eu sabia que ia ser difícil. Era por isso que eu estava tão precavida. Esperava que fosse difícil.
Ele pôs as mãos em meu rosto de novo, e seus olhos estavam cheios de assombro.
— O que eu não daria para poder ver sua mente, neste único momento.
Emoções tão poderosas! Eu estava preparada para a parte da sede, mas não para aquilo. Estivera tão certa de que não seria a mesma coisa quando ele me tocasse. Bom, na verdade, não era a mesma coisa.
Era mais forte. Estendi a mão para traçar a superfície de seu rosto; meus dedos permaneceram longo tempo em sua boca.
— Eu achei que ainda fosse levar muito tempo para sentir isso? — Minha incerteza fez das palavras uma pergunta. — Mas eu ainda quero você.
Ele piscou, perplexo.
— Como pode se concentrar nisso? Não está com uma sede insuportável?
É claro que estava, agora que ele abordara o assunto de novo! Tentei engolir e então suspirei, fechando os olhos como fizera antes, para me concentrar mais facilmente. Deixei que meus sentidos se expandissem à minha volta, dessa vez tensa, para o caso de vir outra onda do delicioso cheiro tabu.
Edward baixou as mãos, sem sequer respirar enquanto eu ouvia cada vez mais longe na teia de vida verde, examinando cheiros e sons, procurando alguma coisa que não fosse totalmente repulsiva à minha sede. Havia algo diferente, um rastro fraco a leste...
Meus olhos se abriram de repente, mas meu foco ainda estava nos sentidos mais agudos enquanto eu me virava e disparava em silêncio para o leste. O chão assumiu um aclive acentuado quase imediatamente, e corri em postura de caça, perto do chão, preferindo as árvores quando era mais fácil. Sentia, mais do que ouvia, Edward comigo, flutuando em silêncio pelo bosque, deixando-me seguir na frente.
A vegetação rareava à medida que subíamos; o cheiro de breu e resina ficava mais forte, assim como o rastro que eu seguia – era um cheiro quente, mais intenso do que o cheiro do alce, e mais agradável. Alguns segundos depois eu podia ouvir o som abafado de pés imensos, muito mais sutis do que o de cascos. O som estava no alto – nos galhos, não no chão. Automaticamente, disparei para os galhos também, me colocando em uma posição estratégica mais elevada, no meio de um altaneiro abeto-branco.
O ruído surdo e suave de patas prosseguiu furtivamente, abaixo de mim; o cheiro forte estava muito próximo. Meus olhos localizaram o movimento ligado ao som e vi o couro fulvo do imenso felino movendo-se pelo grande galho de um abeto pouco abaixo e à esquerda de onde eu estava. Era grande – tinha tranquilamente quatro vezes a massa do meu corpo. Seus olhos estavam fixos no chão, o puma também caçava. Senti o cheiro de alguma coisa menor, suave, perto do aroma de minha presa, agachando-se no arbusto abaixo da árvore. A cauda do felino se movia espasmodicamente enquanto ele se preparava para atacar.
Com um salto leve, deslizei pelo ar e pousei no galho do puma. Ele sentiu o tremor da madeira e girou, rosnando em surpresa e desafio. Ele percorreu espaço entre nós, os olhos brilhando de fúria. Enlouquecida pela sede, ignorei as presas expostas e as garras e me lancei contra ele, derrubando nós dois no chão da floresta.
Não foi bem uma briga.
Suas garras pontiagudas bem podiam ser dedos carinhosos, a julgar pelo impacto que tiveram na minha pele. Seus dentes não conseguiram encontrar maneira de perfurar meu ombro e meu pescoço. Seu peso não era nada. Meus dentes procuraram, certeiros, seu pescoço, e sua resistência instintiva foi melancolicamente débil contra minha força. Minhas mandíbulas se fecharam com facilidade no ponto preciso onde o fluxo de calor se concentrava. Foi tão fácil quanto morder manteiga. Meus dentes eram lâminas de aço; cortaram o pelo, a gordura e os tendões como se não estivessem ali.
O sabor era inconveniente, mas o sangue era quente e molhado, e atenuou a sede intensa e implacável enquanto eu bebia com avidez. A luta do felino se tornou cada vez mais débil e seus urros sufocaram com um gorgolejar. O calor do sangue se irradiou por todo o meu corpo, aquecendo até as pontas dos dedos das mãos e dos pés.
O puma se acabou antes de minha sede. A sensação ardeu de novo quando ele ficou seco; desgostosa, afastei sua carcaça de meu corpo. Como eu ainda podia ter sede depois daquilo tudo?
Pus-me de pé num único movimento. Então percebi que estava toda desarrumada. Limpei meu rosto no braço e tentei ajeitar o vestido. As garras que haviam sido tão ineficazes em minha pele obtiveram mais sucesso com o tecido fino.
— Humm — disse Edward.
Levantei a cabeça e o vi encostado despreocupadamente em um tronco de árvore, olhando-me com uma expressão pensativa.
— Acho que podia ter feito melhor.
Eu estava coberta de terra, o cabelo embaraçado, o vestido sujo de sangue e em farrapos. Edward não chegava das caçadas daquele jeito.
— Você se saiu perfeitamente bem — garantiu-me ele. — É só que... olhar foi muito mais difícil do que deveria ter sido.
Ergui as sobrancelhas, confusa.
— Vai contra minha natureza — explicou ele — deixar que você lute com pumas. Fiquei ansioso o tempo todo.
— Bobo.
— Eu sei. Os velhos hábitos custam a morrer. Mas gostei das melhorias em seu vestido.
Se eu pudesse corar, teria corado. Mudei de assunto.
— Por que ainda estou com sede?
— Por que você é jovem.
Suspirei.
— E não creio que haja outros pumas por perto.
— Mas há muitos cervos.
Fiz uma careta.
— O cheiro deles não é tão bom.
— Herbívoros. Os carnívoros têm um cheiro mais parecido com o dos humanos — explicou ele.
— Não tanto — discordei, tentando não me lembrar.
— Podemos voltar — disse ele solenemente, mas havia um brilho debochado em seus olhos. — Se eram homens que estavam lá, provavelmente nem se importariam de morrer se fosse você a responsável por isso.
Seu olhar percorreu meu vestido esfarrapado de novo.
— Na realidade, eles pensariam que já estavam mortos e no paraíso, no momento em que a vissem.
Revirei os olhos e bufei.
— Vamos caçar uns herbívoros fedorentos.
Encontramos um grande rebanho de alces enquanto corríamos de volta para casa. Dessa vez ele caçou comigo, agora que eu tinha pegado o jeito. Eu abati um macho grande, fazendo quase tanta sujeira quanto fizera com o puma. Ele terminou com dois antes que eu tivesse acabado com o primeiro, sem um só fio de cabelo fora do lugar, nenhuma mancha na camisa branca. Perseguimos o rebanho disperso e apavorado, mas, em vez de me alimentar novamente, dessa vez observei com cuidado para ver como ele conseguia caçar com tanta elegância.
Todas as vezes que desejei que Edward não tivesse de me deixar para trás quando caçava, eu no fundo sentira certo alívio. Porque eu tinha certeza de que ver aquilo seria assustador. Apavorante. De que vê-lo caçar finalmente o faria parecer um vampiro para mim.
É claro que era muito diferente daquela perspectiva, como vampira. Mas eu duvidava de que mesmo com olhos humanos tivesse deixado de ver a beleza naquilo.
Era uma experiência surpreendentemente sensual observar Edward caçando. Seu ataque suave era como o bote sinuoso de uma cobra; suas mãos eram tão seguras, tão fortes, tão completamente inescapáveis; seus lábios cheios eram perfeitos ao se afastarem sobre os dentes reluzentes. Ele era glorioso.
Senti uma onda repentina de orgulho e desejo. Ele era meu. Nada podia me separar dele agora. Eu era forte demais para ser afastada dele. Ele era muito rápido. Virou-se para mim e olhou com curiosidade minha expressão de prazer.
— Não está mais com sede? — perguntou.
Eu dei de ombros.
— Você me distraiu. Você é muito melhor do que eu.
— Séculos de prática. — Ele sorriu. Seus olhos agora tinham um tom dourado adorável e desconcertante.
— Só um — corrigi.
Ele riu.
— Acabou por hoje? Ou quer continuar?
— Acho que acabei.
Eu me sentia saciada, até meio empanzinada. Não sabia quanto líquido a mais caberia no meu corpo. Mas o fogo em minha garganta estava apenas abafado. Eu já sabia que a sede era uma parte inseparável daquela vida.
E valia a pena!
Eu me sentia controlada. Talvez meu sentido de segurança fosse falso, mas eu estava muito satisfeita por não ter matado ninguém hoje. Se eu podia resistir a humanos desconhecidos, não seria capaz de lidar com o lobisomem e uma criança metade vampira que eu amava?
— Quero ver Renesmee — eu disse.
Agora que minha sede estava domada (ainda que não erradicada), era difícil esquecer minhas preocupações anteriores. Eu queria reconciliar a estranha que era minha filha com a criatura que eu amava três dias atrás. Era tão estranho, tão errado não tê-la mais dentro de mim. Abruptamente, senti-me vazia e inquieta.
Ele me estendeu a mão. Eu a peguei, e sua pele parecia mais quente que antes. Seu rosto estava ligeiramente corado, as olheiras haviam desaparecido.
Eu era incapaz de resistir a afagar seu rosto de novo. E de novo.
Quase me esqueci de que esperava uma resposta ao meu pedido, enquanto fitava seus olhos dourados.
Era quase tão difícil quanto fora me afastar do sangue humano, mas de algum modo mantive firme em minha mente a necessidade de ser cuidadosa ao me esticar na ponta dos pés e o envolver em meus braços. Gentil.
Ele não foi tão hesitante nos movimentos; seus braços se fecharam em minha cintura e me puxaram com força para seu corpo. Seus lábios esmagaram os meus, mas pareciam macios. Meus lábios não se modelavam mais aos dele; agora eles ofereciam resistência.
Como antes, era como se o toque de sua pele, seus lábios, suas mãos, estivesse penetrando minha pele lisa e dura, até chegar aos ossos. Até a essência do meu corpo. Eu não imaginara que podia amá-lo mais do que antes.
Minha mente antiga não fora capaz de conter tanto amor. Meu antigo coração não era forte o bastante para suportar aquilo.
Talvez essa fosse a parte de mim que eu guardara para ser intensificada em minha nova vida. Como a compaixão de Carlisle e a devoção de Esme. Eu provavelmente nunca seria capaz de fazer nada de interessante ou especial como Edward, Alice e Jasper. Talvez eu só amasse Edward mais do que qualquer um na história do mundo pôde amar alguém.
Eu podia viver com isso.
Lembrava de algumas coisas – torcer os dedos em seu cabelo, deslizar a mão pela superfície de seu peito – mas outras eram novas. Ele era novo. Era uma experiência totalmente diferente com Edward me beijando com tamanho destemor e intensidade. Eu correspondi ao seu vigor, e então, de repente, estávamos no chão.
— Epa — eu disse, e ele riu debaixo de mim.
— Eu não pretendia agarrar você desse jeito. Você está bem?
Ele afagou meu rosto.
— Um pouco melhor do que bem. — E, então, uma expressão perplexa atravessou seu rosto. — Renesmee? — perguntou, vacilando, tentando averiguar o que eu mais queria naquele momento. Uma pergunta de resposta muito difícil, porque eu queria muitas coisas ao mesmo tempo.
Dava para ver que ele não era exatamente avesso ao adiamento de nossa viagem de volta, e era difícil pensar em alguma coisa além de sua pele na minha – de fato não restara mesmo muito do vestido. Mas minha lembrança de Renesmee, antes e depois de seu nascimento, estava se tornando cada vez mais onírica para mim. Mais improvável. Todas as minhas lembranças dela eram humanas; uma aura de artificialidade se agarrava a elas. Nada que eu não tivesse visto com aqueles olhos, tocado com aquelas mãos, parecia real.
A cada minuto a realidade daquela pequena estranha escapava cada vez para mais longe.
— Renesmee — concordei, pesarosa, e rapidamente fiquei de pé, puxando-o comigo.

5 comentários:

  1. Meu Deus!! A Bella é muito chata!!

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    1. concordo tem partes que passo pra frente de tão entediante que fico.

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    2. Não acho...ela só pensa bastante...

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  2. Se a Renesmee é meio vampira e meio humana, ela tipo, acha que o Jacob fede? O.o

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    1. Acho que não, uma criança falaria na alta uma coisa dessas. Ela deve achá-lo normal...

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