29 de setembro de 2015

Capítulo 20 - Novidade

Tudo estava tão claro. Nítido. Definido.
A luz forte no alto ainda era ofuscante, e no entanto eu podia ver muito bem os filamentos cintilantes dentro da lâmpada. Podia ver cada cor do arco-íris na luz branca, e na extremidade do espectro uma oitava cor para a qual eu não tinha nome.
Por trás da luz eu podia distinguir cada fibra da madeira escura no teto. À luz, conseguia ver os grãos de poeira no ar, os lados que a claridade tocava e os lados escuros, distintos e separados. Giravam como pequenos planetas, movendo-se em torno uns dos outros numa dança celeste.
A poeira era tão linda que eu inalei, chocada; o ar assoviou por minha garganta, fazendo rodopiar os grãos de pó. A ação parecia errada. Pensei no assunto e percebi que o problema era que não havia alívio ligado à ação. Eu não precisava de ar. Meus pulmões não esperavam por aquilo. Eles reagiram com indiferença ao influxo.
Eu não precisava de ar, mas gostava dele. Com ele eu podia saborear o quarto à minha volta – saborear os adoráveis grãos de poeira, a mistura do ar estagnado com o fluxo levemente mais frio que entrava pela porta aberta. Saborear um luxuriante sopro de seda. Uma leve sugestão de alguma coisa quente e desejável, algo que devia ser úmido, mas não era... Esse cheiro fez minha garganta arder, seca, um fraco eco do ardor do veneno, embora o odor estivesse contaminado pela intensidade do cloro e da amônia. E, mais que tudo, eu podia sentir o gosto de um cheiro parecido com mel, lilás e sol, que era o mais forte e o mais próximo a mim.
Ouvi o barulho dos outros, voltando a respirar agora que eu também respirava. O hálito deles se misturava ao cheiro que lembrava mel, lilás e sol, trazendo novos sabores. Canela, jacinto, pera, água do mar, pão no forno, pinho, baunilha, couro, maçã, musgo, lavanda, chocolate... Fiz uma dezena de comparações diferentes em minha mente, mas nenhuma se encaixava com exatidão. Muito doce e agradável.
A tevê no primeiro andar estava sem som e ouvi alguém lá embaixo – Rosalie? – mudando de posição.
Também ouvi uma batida baixa e monótona, com uma voz gritando, irritada, no mesmo ritmo. Rap? Fiquei aturdida por um momento depois o som foi sumindo, como se um carro tivesse passado por ali com as janelas abertas.
Com um sobressalto, percebi que podia mesmo ser isso. Será que dali conseguia ouvir a rodovia?
Só percebi que alguém segurava minha mão quando a pessoa a apertou suavemente. Como havia feito antes, para esconder a dor, meu corpo se contraiu, pego desprevenido. Não era um toque que eu esperasse. A pele era perfeitamente lisa, mas a temperatura estava errada. Não era fria.
Depois do primeiro segundo paralisada pelo choque, meu corpo reagiu ao toque desconhecido de um jeito que me chocou ainda mais.
O ar sibilou por minha garganta, passando entre meus dentes trincados com um som baixo e ameaçador, como o de um enxame de abelhas. Antes que o som saísse, meus músculos se enrijeceram e contraíram, afastando-se do desconhecido. Eu girei tão rápido que o quarto devia ter se transformado em um borrão incompreensível – mas não foi o que aconteceu. Vi cada grão de poeira, cada lasca nas paredes revestidas de madeira, cada fio solto em detalhes microscópicos quando meus olhos dispararam por eles.
Então, quando me vi agachada contra a parede, na defensiva – um dezesseis avos de segundo depois – já tinha entendido o que me assustara, e que minha reação fora exagerada.
Ah. Claro. Edward não era mais frio para mim. Agora tínhamos a mesma temperatura.
Mantive a pose por mais um oitavo de segundo, adaptando-me à cena à minha frente.
Edward estava debruçado sobre a mesa de cirurgia que tinha si o minha pira, a mão estendida para mim, a expressão ansiosa.
O rosto de Edward era o que mais importava, mas minha visão periférica catalogou todo o resto, só por precaução. Algum instinto de defesa fora acionado, e eu automaticamente procurava por qualquer sinal de perigo. Minha família de vampiros esperava cautelosamente junto à parede mais distante, perto da porta, com Emmett e Jasper na frente. Como se houvesse mesmo perigo. Minhas narinas dilataram, procurando pela ameaça. Eu não sentia nenhum cheiro que não devesse estar ali. O aroma fraco de algo delicioso – mas arruinado por substâncias desagradáveis – fez cócegas em minha garganta de novo, provocando dor e ardência. Alice espiava por trás do cotovelo de Jasper com um sorriso imenso; a luz a em seus dentes, outro arco-íris de oito cores.
O sorriso me tranquilizou e as peças se encaixaram. Jasper e Emmett ficavam na frente para proteger os outros, como eu supus. O que não compreendera logo era que o perigo era eu.
Tudo isso foi secundário. A maior parte de meus sentidos e minha mente ainda se concentrava no rosto de Edward. Jamais percebera antes daquele segundo.
Quantas vezes havia olhado Edward e me maravilhado com sua beleza? Quantas horas – dias, semanas – de minha vida eu havia passado sonhando com o que eu julgava ser a perfeição? Pensava que conhecia aquele rosto melhor que o meu próprio. Pensava que essa fosse a única certeza física em meu mundo: o rosto impecável de Edward.
Eu devia estar cega. Pela primeira vez, com as sombras turvadoras e a fraqueza limitadora da humanidade extraídas de meus olhos, eu vi seu rosto. Arquejei e depois lutei com meu vocabulário, incapaz de encontrar as palavras certas. Eu precisava de palavras melhores.
A essa altura a outra parte de minha atenção tinha se assegurado de que não havia perigo ali além de mim mesma, e eu automaticamente fiquei de pé; quase um segundo inteiro havia se passado desde que saíra da mesa.
Por um momento fiquei preocupada com o modo como meu corpo se movia. No instante em que considerei ficar ereta, já estava de pé. Não houve um breve fragmento de tempo no qual a ação ocorreu; a mudança foi instantânea, quase como se não tivesse havido movimento nenhum.
Continuei a fitar o rosto de Edward, novamente imóvel. Ele contornou a mesa lentamente – cada passo levando quase meio segundo, cada passo fluindo sinuosamente como a água de um rio ondulando por pedras suaves – a mão estendida. Eu observava a beleza de seu movimento, absorvendo-a com meus novos sentidos.
— Bella? — disse ele num tom baixo e tranquilizador mas a preocupação em sua voz revestiu de tensão meu nome.
Não pude responder imediatamente, perdida como estava nas nuances aveludadas de sua voz. Era a sinfonia mais perfeita, uma sinfonia só instrumento, um instrumento mais profundo que qualquer outro pelo homem...
— Bella, amor? Desculpe; eu sei que é desorientador. Mas você está bem. Tudo está bem.
Tudo? Minha mente girava, espiralando de volta à minha última hora humana. A memória já parecia difusa, como se eu estivesse vendo por um véu escuro e grosso – porque meus olhos humanos eram um pouco cegos. Tudo era muito embaçado.
Quando ele disse que estava tudo bem, será que incluía Renesmee? Onde ela estava? Com Rosalie? Tentei me lembrar de seu rosto – eu sabia que ela era linda – mas era irritante tentar ver através das lembranças humanas. O rosto dela estava amortalhado na escuridão, tão mal iluminado...
E quanto a Jacob? Ele estava bem? Será que meu amigo, que sofria havia tanto tempo, agora me odiava? Ele teria voltado para a matilha de Sam? Seth e Leah também?
Os Cullen estavam seguros ou minha transformação teria incitado a guerra com a matilha? Será que o manto tranquilizador de Edward se referia a tudo isso? Ou ele só estava tentando me acalmar?
E Charlie? O que eu diria a ele agora? Ele devia ter ligado enquanto eu queimava. O que lhe disseram? O que ele pensava que havia acontecido comigo?
Enquanto eu refletia por uma pequena fração de segundo sobre qual pergunta fazer primeiro, Edward estendeu a mão, inseguro, e afagou meu rosto com a ponta dos dedos. Liso como cetim, macio como pena, e agora na temperatura exata de minha pele.
Seu toque pareceu se estender sob a superfície de minha pele, atravessando os ossos de meu rosto. A sensação era de formigamento, eletrizante – percorreu meus ossos, descendo pela coluna, e vibrou em meu estômago.
Espere aí, pensei enquanto a vibração florescia em um calor, um anseio. Eu não devia ter perdido isso? Abrir mão dessa sensação não fazia parte do trato?
Eu era uma vampira recém-criada. A dor seca e abrasadora em minha garganta comprovava isso. E sabia o que ser uma recém-criada provocava.
As emoções e os desejos humanos voltariam a mim mais tarde, de alguma maneira, mas eu tinha entendido que não os sentiria no início. Somente sede. Esse era o acordo, o preço. Eu concordara em pagar.
Mas enquanto a mão de Edward se moldava ao meu rosto como aço revestido de cetim o desejo percorreu minhas veias ressecadas, da cabeça aos pés. Ele arqueou uma sobrancelha perfeita, esperando que eu falasse. Eu o abracei com ímpeto.
Mais uma vez, foi como se não houvesse movimento. Em um momento estava ereta e imóvel como uma estátua; no mesmo instante, ele estava em meus braços. Quente ou, pelo menos, essa era minha percepção. Com o cheiro doce delicioso que eu nunca fora capaz de sentir com meus sentidos humanos embotados, mas que era cem por cento Edward. Apertei o rosto contra seu peito acetinado.
E, então, ele balançou o corpo, desconfortável. Afastou-se de meu abraço. Ergui o rosto para ele, confusa e assustada com a rejeição.
— Hã... cuidado, Bella. Ai.
Retirei os braços, cruzando-os nas costas assim que compreendi. Eu era forte demais.
— Epa — murmurei.
Ele abriu o tipo de sorriso que teria feito meu coração parar se ele ainda estivesse batendo.
— Não entre em pânico, amor — disse ele, erguendo a mão para tocar meus lábios, separados de pavor. — Você só está um pouco mais forte do que eu no momento.
Minhas sobrancelhas se uniram. Eu também soubera disso antes, mas parecia mais surreal do que qualquer outra parte daquele momento definitivamente surreal. Eu era mais forte do que Edward. Eu o fizera gemer de dor. Sua mão afagou meu rosto de novo, e eu quase me esqueci de toda a aflição enquanto outra onda de desejo percorria meu corpo imóvel.
As emoções que eu sentia agora eram tão mais fortes do que aquelas a que eu estava acostumada, que era difícil me prender a uma linha de raciocínio, apesar do espaço extra em minha mente. Cada nova sensação me subjugava.
Lembrei-me de Edward ter dito certa vez – sua voz em minha cabeça uma sombra fraca, comparada à clareza musical e cristalina que eu ouvia agora – que sua espécie, a nossa espécie, se distraía com muita facilidade. Eu podia entender por quê.
Esforcei-me para me concentrar. Havia algo que precisava dizer. O mais importante.
Com muito cuidado, tanto cuidado que foi possível perceber o movimento, tirei o braço direito das costas e ergui a mão para tocar o rosto de Edward. Recusei-me a me deixar distrair pela cor perolada de minha mão, pela pele sedosa dele ou pela energia que zunia na ponta de meus dedos.
Olhei em seus olhos e ouvi minha voz pela primeira vez.
— Amo você — eu disse, mas parecia estar cantando. Minha voz soou e ressoou como um sino.
Seu sorriso de resposta me deslumbrou mais do que quando eu era humana; eu agora podia vê-lo de verdade.
— Como eu amo você — disse ele.
Edward pegou meu rosto entre as mãos e aproximou o dele – bem devagar para me lembrar de ter cuidado. Ele me beijou, delicadamente como um sussurro, no início, depois subitamente mais forte, mais feroz. Tentei me lembrar de ser gentil com ele, mas era difícil lembrar qualquer coisa com aquele violento ataque de sensações, era difícil me agarrar a algum pensamento coerente.
Era como se ele nunca me tivesse beijado – como se fosse nosso primeiro beijo. E, na verdade, ele nunca me beijara mesmo daquele jeito.
Quase me fez sentir culpa. Certamente, eu estava rompendo alguma parte do contrato. Eu não podia ter aquilo também.
Embora não precisasse de oxigênio, minha respiração acelerou, tão rápido quanto nos momentos em que eu estivera queimando. Mas era um tipo diferente de fogo.
Alguém pigarreou. Emmett. Reconheci imediatamente o som grave, brincalhão e irritado ao mesmo tempo.
Havia me esquecido de que não estávamos sós. E então percebi que o modo como eu me agarrava a Edward não era lá muito educado, na presença de outras pessoas.
Constrangida, afastei-me meio passo em outro movimento instantâneo.
Edward riu e se moveu comigo, mantendo os braços em minha cintura. Seu rosto estava radiante – como se uma chama branca ardesse por trás de sua pele de diamante.
Respirei, sem necessidade, para me acalmar.
Como foi diferente aquele beijo! Li a expressão dele enquanto eu comparava as lembranças humanas indistintas àquela sensação clara e intensa. Ele parecia... meio presunçoso.
— Você escondeu isso de mim — acusei em minha voz cantada, os olhos estreitando um pouquinho.
Ele riu, radiante de alívio que tudo tivesse acabado – o medo, a dor, as incertezas, a espera, tudo ficara para trás.
— De certa forma, foi necessário na época — lembrou-me ele. — Agora é a sua vez de não me quebrar.
Ele riu de novo. Franzi a testa enquanto considerava aquilo, e então Edward não era o único que ria.
Carlisle contornou Emmett e aproximou-se de mim rapidamente; os olhos com um pouquinho de preocupação, mas Jasper acompanhou seus passos. Também não havia olhado o rosto de Carlisle antes. Não de verdade. Senti um estranho impulso de piscar – como se estivesse olhando para o sol.
— Como se sente, Bella? — perguntou Carlisle.
Pensei naquilo por um sessenta e quatro avos de segundo.
— Sufocada. São tantas coisas... — Eu me interrompi, ouvindo o tom de sino de minha voz de novo.
— Sim, pode ser muito confuso.
Assenti rapidamente.
— Mas ainda me sinto eu. Mais ou menos. Eu não esperava isso.
Os braços de Edward estreitaram-se um pouco em minha cintura.
— Eu lhe disse isso — sussurrou ele.
— Você é muito controlada — murmurou Carlisle. — Mais do que eu esperava, mesmo com o tempo que teve para se preparar psicologicamente.
Pensei nas loucas oscilações de humor, na dificuldade de me concentrar, e sussurrei:
— Não tenho muita certeza disso.
Ele assentiu gravemente, e seus olhos de joia cintilaram com interesse.
— Parece que dessa vez acertamos com a morfina. Diga-me: do que se lembra do processo de transformação?
Hesitei, ciente demais da respiração de Edward roçando meu rosto, lançando sussurros de eletricidade por minha pele.
— Tudo ficou... muito indistinto antes. Lembro que o bebê não conseguia respirar...
Olhei para Edward, de repente assustada com a lembrança.
— Renesmee é saudável e está bem — garantiu ele, com um brilho que eu nunca vira em seus olhos. Ele disse o nome dela com um fervor contido. Uma reverência. Como devotos falavam de seus deuses.
— Do que se lembra depois disso?
Concentrei-me em minha máscara. Eu nunca fora uma boa mentirosa.
— É difícil lembrar. Era tudo tão escuro antes. E, então... abri os olhos e pude ver tudo.
— Incrível — sussurrou Carlisle, os olhos iluminados.
A vergonha me inundou, e esperei que o calor que ardia em mim cedesse. Depois lembrei que eu nunca mais enrubesceria. Talvez isso protegesse Edward da verdade.
Mas eu devia encontrar uma maneira de contar a Carlisle. Um dia. Se um dia precisasse criar outro vampiro. Essa possibilidade parecia muito improvável, o que fazia com que eu me sentisse melhor por mentir.
— Quero que você pense... que me conte tudo o que lembra — pressionou Carlisle, animado, e eu não consegui reprimir a careta que cruzou meu rosto.
Eu não queria ter de continuar mentindo, porque podia cometer um deslize. Não queria pensar no fogo. Ao contrário das recordações humanas, essa parte era perfeitamente clara e descobri que podia me lembrar dela com precisão demais.
— Ah!, desculpe-me, Bella — disse Carlisle imediatamente. — É claro que sua sede deve ser desagradável. Essa conversa pode esperar.
Até ele falar no assunto, a sede realmente não era incontornável. Havia muito espaço em minha mente. Uma parte separada de meu cérebro controlava a ardência em minha garganta, quase como um reflexo. Como meu antigo cérebro tinha lidado com a respiração e o piscar.
Mas a suposição de Carlisle trouxe o fogo para o primeiro plano em minha mente. De repente, só conseguia pensar na dor seca, e quanto mais pensava nela, mais doía. Minha mão voou para o pescoço, como se por fora eu pudesse atenuar as chamas. A pele de meu pescoço era estranha ao contato de meus dedos. Tão lisa que, de algum modo, era macia, embora fosse dura como pedra também.
Edward baixou os braços e pegou minha mão livre, puxando-a gentilmente.
— Vamos caçar, Bella.
Meus olhos se arregalaram e a dor da sede cedeu, substituída pelo choque.
Eu? Caçar? Com Edward? Mas... como? Eu não sabia o que fazer.
Ele leu o sobressalto em minha expressão e sorriu, encorajando-me.
— É muito fácil, amor. É instintivo. Não se preocupe, vou lhe mostrar. — Já que eu não me mexia, ele abriu seu sorriso torto e ergueu as sobrancelhas. — Eu tinha a impressão de que você sempre quis me ver caçar.
Eu ri, em uma explosão curta de humor (parte de mim ouviu, pasmada, o sino repicar), enquanto as palavras dele me faziam lembrar vagas conversas humanas. E depois precisei de um segundo para rapidamente repassar em minha cabeça aqueles primeiros dias com Edward – o verdadeiro começo de minha vida – de modo que nunca me esquecesse deles.
Eu não esperava que fosse tão desagradável lembrar. Como tentar ver através de uma água lamacenta Eu sabia, pela experiência de Rosalie, que se pensasse bastante em minhas lembranças humanas não as perderia com o tempo. Eu não queria me esquecer de um só minuto que passei com Edward, mesmo ali, quando a eternidade se estendia diante de nós. Precisava me certificar de que aquelas lembranças humanas fossem sedimentadas em minha mente infalível de vampira.
— Vamos? — perguntou Edward. Ele estendeu o braço para pegar a mão que ainda estava em meu pescoço. Seus dedos deslizaram por ali. — Não quero que fique sofrendo — acrescentou, num murmúrio baixo. Que, antes, eu não teria sido capaz de ouvir.
— Estou bem — eu disse, por um hábito humano que permanecia. — Espere. Primeiro.
Havia tantas coisas! Eu não chegara a minhas perguntas. Havia coisas mais importantes que a dor. Então foi Carlisle que falou.
— Sim?
— Quero vê-la. Renesmee.
Era estranhamente difícil dizer seu nome. Minha filha – mais difícil ainda era pensar nessas palavras. Tudo parecia muito distante. Tentei me lembrar de como me sentia três dias antes e automaticamente minhas mãos se libertaram das de Edward e pousaram na barriga. Plana. Vazia. Agarrei a seda clara que cobria minha pele, em pânico de novo enquanto uma parte insignificante de minha mente concluía que Alice devia ter me vestido.
Sabia que não restava nada dentro de mim e me lembrei vagamente da cena sangrenta que foi retirá-la, mas ainda era difícil processar a prova física.
Só o que eu sabia era que amava minha pequena cutucadora dentro de mim. Fora dali, ela parecia fruto da minha imaginação. Um sonho que desbotava – um sonho que era meio pesadelo.
Enquanto lutava com minha confusão, vi Edward e Carlisle trocando um olhar cauteloso.
— O que foi? — perguntei.
— Bella — disse Edward de forma tranquilizadora. — Essa não é uma boa ideia. Ela é um pouco humana, amor. O coração dela bate e corre sangue em suas veias. Até que sua sede esteja definitivamente sob controle, não quer colocá-la em perigo, não é?
Franzi a testa. É claro que não iria querer isso. Estava descontrolada? Confusa, sim. Sem concentração, sim. Mas era perigosa? Para ela? Minha filha?
Eu não podia ter certeza de que a resposta era não. Então teria de ser paciente. Isso parecia difícil. Porque, até que eu a visse outra vez, ela não seria real. Só um sonho que se apagava... com uma estranha...
— Onde ela está? — Concentrei-me, e então pude ouvir o coração batendo no piso abaixo. Pude ouvir mais de uma pessoa respirando... baixo como se estivessem escutando também. Havia também um som palpitante um zumbido, que eu não conseguia situar...
E o som do coração batendo era tão molhado e atrativo que minha boca começou a salivar. Então eu, sem dúvida, teria de aprender a caçar antes de vê-la. Meu bebê desconhecido.
— Rosalie está com ela?
— Sim — respondeu Edward, num tom mais brusco, e pude ver que algum pensamento o aborrecia.
Achava que ele e Rose tivessem superado suas diferenças. Será que a animosidade surgira de novo? Antes que eu pudesse perguntar, ele tirou minhas mãos da barriga lisa, puxando-as gentilmente de novo.
— Espere — protestei novamente, tentando me concentrar. — E Jacob? E Charlie? Me contem tudo o que perdi. Quanto tempo eu fiquei... inconsciente?
Edward não pareceu perceber minha hesitação com a última palavra. Em vez disso, trocou outro olhar preocupado com Carlisle.
— Qual é o problema? — sussurrei.
— Não há problema nenhum — disse-me Carlisle, destacando a palavra de uma forma estranha. — Nada mudou muito, na verdade... Você só ficou inconsciente por pouco mais de dois dias. Foi muito rápido, como essas coisas acontecem. Edward fez um trabalho excelente. Muito inovador... A injeção de veneno direto em seu coração foi ideia dele. — Ele parou para sorrir com orgulho para o filho, e depois suspirou. — Jacob ainda está aqui e Charlie ainda acredita que você está doente. Ele acha que você está em Atlanta neste exato momento, submetendo-se a exames no Centro de Controle de Doenças. Demos um número errado a ele e ele está frustrado. Ele tem falado com Esme.
— Eu devia ligar para ele... — murmurei comigo mesma, mas, ouvindo minha voz, entendi as novas dificuldades. Ele não reconheceria aquela voz. Isso não o tranquilizaria. E depois a primeira surpresa me assaltou. — Espere aí... Jacob ainda está aqui?
Outra troca de olhares.
— Bella — disse Edward rapidamente. — Há muito o que discutir, mas devemos cuidar de você primeiro. Você deve estar sentindo dor...
Quando ele assinalou isso, lembrei-me do ardor em minha garganta e engoli convulsivamente.
— Mas Jacob...
— Temos todo o tempo do mundo para explicações, amor — lembrou-me ele delicadamente.
É claro. Eu podia esperar um pouco mais pela resposta; seria mais fácil ouvir quando a dor feroz da sede abrasadora não dispersasse mais minha concentração.
— Está bem.
— Espere, espere, espere — cantarolou Alice da porta. Ela dançou pela sala, graciosa como em um sonho. E como acontecera com Edward e Carlisle, senti certo choque quando realmente olhei seu rosto pela primeira vez. Tão lindo. — Você prometeu que eu podia estar presente na primeira vez! E se vocês dois passarem por alguma coisa reflexiva?
— Alice... — Edward protestou.
— Só vai levar um segundo! — E com isso Alice deixou o quarto em disparada.
Edward suspirou.
— Do que ela está falando?
Mas Alice já estava de volta, trazendo o espelho imenso com moldura dourada do quarto de Rosalie, que tinha quase duas vezes a altura dela e várias vezes sua largura.
Jasper estivera tão imóvel e silencioso que eu não dera por sua presença até ele seguir atrás de Carlisle. Agora ele se moveu novamente, pairando perto de Alice, os olhos fixos em minha expressão. Porque o perigo ali era eu. Sabia que ele também estava sentindo o clima ao meu redor, então deve ter sentido meu sobressalto ao examinar seu rosto, olhando-o de perto pela primeira vez.
Através de meus olhos humanos cegos as cicatrizes deixadas por sua vida anterior com os exércitos de recém-criados no sul tinham sido quase invisíveis. Só com uma luz forte, dando definição às suas formas em leve relevo, eu podia perceber sua existência.
Agora que eu enxergava, as cicatrizes eram a característica dominante de Jasper. Era difícil tirar os olhos de seu pescoço e do queixo devastados, difícil acreditar que mesmo um vampiro pudesse sobreviver a tantos dente rasgando seu pescoço.
Por instinto, retesei o corpo para me defender. Qualquer vampiro que visse Jasper teria a mesma reação. As cicatrizes eram como um letreiro luminoso. Perigo, gritavam elas. Quantos vampiros tentaram matar Jasper? Centenas? Milhares? O mesmo número que morrera tentando.
Jasper tanto viu quanto sentiu minha avaliação, minha cautela, e sorriu ironicamente.
— Edward me deu uma bronca por não a ter colocado diante de um espelho antes do casamento — disse Alice, desviando minha atenção de seu amante assustador. — Não vou levar bronca de novo.
— Bronca? — perguntou Edward ceticamente, uma sobrancelha arqueando-se.
— Talvez eu tenha exagerado — murmurou ela, distraída, enquanto virava o espelho de frente para mim.
— E talvez isso tenha unicamente a ver com sua própria satisfação de voyeuse — argumentou ele.
Alice piscou para ele.
Eu só percebi essa troca de ideias com a porção menos focada de minha concentração. A maior parte estava focalizada na pessoa no espelho.
Minha primeira reação, sem pensar, foi de prazer. A criatura estranha no espelho era indiscutivelmente bonita, tão bonita quanto Alice ou Esme. Ela era fluida até mesmo imóvel, e seu rosto imaculado era pálido como a lua, em contraste com a moldura do cabelo escuro e pesado. Seus braços e suas pernas eram lisos e fortes, a pele cintilava um pouco, luminosa como uma pérola.
Minha segunda reação foi de pavor.
Quem era ela? À primeira vista, eu não conseguia encontrar meu rosto naquelas feições perfeitas.
E os olhos! Embora eu soubesse o que esperar, ainda assim seus olhos me provocaram um arrepio de pavor.
Durante todo o tempo em que eu analisava e reagia, seu rosto estava perfeitamente composto, o entalhe de uma deusa, sem nada mostrar do turbilhão que tinha lugar dentro mim. E, então, os lábios cheios se moveram.
— Os olhos? — sussurrei, sem querer dizer meus olhos. — Quanto tempo?
— Vão escurecer daqui a alguns meses — disse Edward numa voz suave e confortante. — O sangue animal dilui a cor mais rapidamente do que uma dieta de sangue humano. Primeiro ficarão âmbar, depois dourados.
Meus olhos cintilariam como chamas vermelhas cruéis por meses?
— Meses? — Minha voz agora soou mais alta, estressada.
No espelho, as sobrancelhas perfeitas se ergueram incredulamente acima dos olhos carmim reluzentes, mais brilhantes que quaisquer olhos que eu já tivesse visto.
Jasper deu um passo à frente, alarmado com a intensidade de minha súbita ansiedade. Ele conhecia os vampiros jovens muito bem; será que aquela emoção pressagiava algum tropeço de minha parte?
Ninguém respondeu à minha pergunta. Desviei os olhos, para Edward e Alice. Os olhos dos dois pareciam ligeiramente fora de foco – reagindo à inquietação de Jasper. Procurando ouvir sua causa, olhando o futuro imediato.
Respirei fundo e desnecessariamente de novo.
— Não, eu estou bem — garanti a eles. Meus olhos foram à estranha no espelho e voltaram. — É só que... é muito para absorver.
A testa de Jasper se franziu, destacando as duas cicatrizes sobre o olho esquerdo.
— Não sei — murmurou Edward.
A mulher no espelho também franziu a testa.
— Que pergunta eu perdi?
Edward sorriu.
— Jasper se pergunta como você está conseguindo.
— Conseguindo o quê?
— Controlar suas emoções, Bella — respondeu Jasper. — Nunca vi um recém-criado fazer isso... deter uma emoção no meio do caminho assim. Você estava aborrecida, mas quando viu nossa preocupação, segurou as rédeas, recuperando o poder sobre si. Eu estava preparado para ajudar, mas você não precisou.
— Isso é ruim? — perguntei.
Meu corpo automaticamente paralisou enquanto eu esperava seu veredito.
— Não — disse ele, mas havia incerteza em sua voz. Edward afagou meu braço, como se me encorajasse a relaxar. — É mesmo impressionante, Bella, mas não entendemos. Não sabemos quanto tempo isso pode durar.
Considerei aquilo por uma fração de segundo. A qualquer momento eu iria atacar? Viraria um monstro? Eu não conseguia sentir isso vindo... Talvez não existisse um jeito de prever ver uma coisa assim.
— Mas o que você acha? — perguntou Alice, agora um pouco impaciente, apontando o espelho.
— Não sei bem — limitei-me a dizer, sem querer admitir o quanto estava assustada.
Fitei a linda mulher com os olhos apavorantes, procurando partes de mim. Havia alguma coisa ali no formato dos lábios – se olhasse além da beleza deslumbrante, era verdade que seu lábio superior era meio desproporcional um pouco cheio demais comparado ao inferior. Encontrar esse pequeno de feito conhecido fez com que eu me sentisse um pouquinho melhor. Talvez o restante de mim estivesse ali também.
Experimentei erguer a mão, e a mulher no espelho imitou o movimento, tocando seu rosto. Seus olhos carmim me olhavam com preocupação.
Edward suspirou. Desviei-me dela e olhei para ele, erguendo uma sobrancelha.
— Decepcionado? — perguntei, minha voz tilintante e impassível.
Ele riu.
— Sim — admitiu.
Senti o choque romper a máscara composta de meu rosto, seguido de imediato pela dor. Alice rosnou. Jasper se inclinou para a frente de novo, esperando que eu atacasse. Mas Edward os ignorou e passou os braços firmemente por minha nova forma paralisada, apertando os lábios contra o meu rosto.
— Eu esperava ser capaz de ouvir sua mente, agora que é mais semelhante à minha — murmurou ele. — E aqui estou, frustrado como sempre, perguntando-me o que pode estar se passando em sua cabeça.
Eu me senti imediatamente melhor.
— Ah, bom — eu disse, aliviada que meus pensamentos ainda meus. — Acho que meu cérebro nunca vai funcionar direito. Pelo menos eu sou bonita.
Estava ficando mais fácil brincar com ele enquanto eu me adaptava. Pensar em linhas retas. Ser eu mesma.
Edward grunhiu em minha orelha.
— Bella, você nunca foi apenas bonita.
Depois seu rosto se afastou do meu e ele suspirou.
— Tudo bem, tudo bem — disse ele a alguém.
— O que foi? — perguntei.
— Você está deixando Jasper mais tenso a cada segundo. Ele vai poder relaxar um pouco depois que você tiver caçado.
Olhei a expressão preocupada de Jasper e assenti. Eu não queria ter uma crise ali, se isso fosse acontecer. Era melhor estar cercada de árvores do que da família.
— Tudo bem. Vamos caçar — concordei, um tremor de nervosismo e expectativa fazendo meu estômago vibrar. Afastei os braços de Edward, segurando uma de suas mãos, e dei as costas para a estranha e linda mulher no espelho.

5 comentários:

  1. Eu aki esperando dela um poder superfodástico como da Jane e num tem :\

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    1. ela vai ter um poder sim so que nao e tao legal quanto se imagina mais ela vai ter sim

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  2. Eu esperava uma reaçao melhor da bella mais superfodastica

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  3. Edward estava debruçado sobre a mesa de cirurgia que tinha si o minha pira, a mão estendida para mim, a expressão ansiosa. Não consegui decifrar rsrs tem um erro..si o minha pira??

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  4. Acho que quer dizer .'.. que tinha sido a minha pira ..'.

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