23 de setembro de 2015

Capítulo 20 - Impaciência

Quando eu acordei eu estava confusa. Meus pensamentos estavam nebulosos, ainda confusos com sonhos e pesadelos, demorou mais tempo do que devia até que me lembrasse de onde estava.
Esse quarto era insípido demais pra pertencer á outro lugar a não ser um hotel. Os abajures de cabeceira, aparafusados ás mesas, dizia isso por si só, assim como as longas cortinas que combinavam com os forros de cama, e as paredes cobertas com uma tinta genérica aguada.
Tentei me lembrar de como havia chegado aqui, mas não me veio nada de início.
Lembrava do carro preto brilhante, os vidros das janelas eram mais escuros do que os de uma limusine. O motor era quase silencioso, apesar de estarmos correndo na pista escura com o dobro da velocidade permitida por lei.
Lembrava-me de Alice estar sentada á meu lado no banco de couro preto. De alguma forma, ao longo da noite minha cabeça acabou descansando no seu pescoço de granito. Minha aproximação não pareceu incomodá-la nem um pouco, e a sua pele fria, dura, era estranhamente reconfortante para mim. A frente da sua leve camisa de algodão estava fria, encharcada com as lágrimas que jorravam dos meus olhos, até que eles, vermelhos e doloridos, ficaram secos.
O sono já havia desaparecido, meus olhos doloridos continuaram abertos apesar de a noite já ter finalmente acabado e de o sol já ter aparecido em algum pico na Califórnia. A luz cinza fraca, aparecendo no céu sem nuvens, machucou meus olhos. Mas eu não conseguia fechá-los. Quando o fazia, as imagens que apareciam eram vividas demais, como slides atrás das minhas pálpebras, eram insuportáveis. A expressão devastada de Charlie, o rosno brutal de Edward, com os dentes á amostra, o olhar ressentido de Rosalie, o estudo nos olhos do perseguidor, os olhos mortos de Edward quando ele me beijou pela última vez...
Eu não aguentava vê-los.
Então eu lutei contra o meu cansaço enquanto o sol aparecia mais alto no céu.
Ainda estava acordada quando passamos por uma pequena montanha através do sol, que agora estava atrás de nós, refletido nos telhados do Vale do Sol. Não tinha emoções suficientes sobrando para ficar surpresa por termos feito uma viagem de três dias em um. Olhei sem inexpressivamente para a expansão na minha frente. Phoenix, com suas palmeiras, o creosoto inferior, as faixas de pedestres na horizontal no meio da rua, os campos de golfe enfileirados e os splashes de azul turquesa das piscinas, todos submergiam numa leve névoa baixa, serras de pedra que não eram grandes o suficiente para serem chamadas de montanhas. As sombras das palmeiras se inclinavam sobre a rodovia, definidas, mais pontudas do que eu lembrava, mais pálidas do que elas deviam ser.
Nada podia se esconder nessas sombras. A estrada clara, aberta, parecia benigna o suficiente. Mas eu não me sentia aliviada, não me sentia nem um pouco bem vinda ao lar.
— Qual é o caminho para o aeroporto, Bella? — Jasper perguntou, e eu vacilei apresar da sua voz ser suave e sem alarmes.
Esse foi o primeiro som, além do barulho do carro, a quebrar o longo silêncio da noite.
— Fica na 1-10. — Respondi automaticamente. — Nós vamos passar bem na frente.
Meu cérebro trabalhava muito devagar pela névoa da falta do sono.
— Nós vamos para algum lugar de avião? — Perguntei á Alice.
— Não, mas é melhor ficar por perto, na dúvida.
Eu me lembro do início da curva ao redor do Sky Harbor Internacional...Mas não me lembro do final dela. Eu acho que foi aí que eu caí no sono.
Contudo, agora que eu tento me lembrar, eu tenho uma vaga impressão de ter saído do carro, o sol estava se pondo no horizonte, meu braço caiu sobre o ombro de Alice e ela firmou seu braço na minha cintura, me carregando enquanto eu tropeçava nas sombras mornas secas.
Não me lembrava desse quarto.
Olhei para o relógio digital na cabeceira da cama. Os números vermelhos diziam que eram três horas, mas eles não indicavam se era de noite ou de dia. Nem um pouco de luz escapava pela cortina fina, mas o quarto estava claro por causa da luz do abajur.
Levantei-me rigidamente e me arrastei até a janela, puxando as cortinas. Estava escuro lá fora. Três da manhã então.
Meu quarto ficava de frente para um lado deserto da estrada e para o novo estacionamento do aeroporto. Era levemente confortante poder distinguir tempo e espaço.
Olhei para mim mesma. Eu ainda estava usando as roupas de Esme, e elas não me caiam nem um pouco bem. Olhei ao redor do quarto, feliz por encontrar a minha bolsa de viagem numa penteadeira baixa. Estava indo pegar as minhas roupas quando uma batidinha de leve na porta me fez pular.
— Posso entrar? — Alice perguntou.
Eu respirei fundo.
— Claro.
Ela entrou e olhou pra mim cuidadosamente.
— Parece que você poderia dormir um pouco mais. — Ela disse.
Eu só balancei a cabeça.
Ela se moveu até as cortinas e as fechou seguramente antes de se virar pra mim.
— Vamos precisar ficar aqui dentro. — Ela disse pra mim.
— Tudo bem. — Minha voz estava rouca.
— Sede? — Ela perguntou.
Eu levantei os ombros.
— Eu estou bem. E você?
— Nada que não possa ser arranjado. — Ela sorriu. — Eu pedi comida pra você, está na sala da frente. Edward me lembrou de que você tem que comer mais frequentemente que nós.
Eu fiquei mais alerta instantaneamente.
— Ele ligou?
— Não. — Ela falou, e observou meu rosto cair. — Isso foi antes de irmos embora.
Ela pegou minha mão cuidadosamente e me levou até a sala de estar da suíte do hotel. Eu podia ouvir leves ruídos de vozes vindos da televisão. Jasper estava sentado no canto da mesa, seus olhos assistiam as notícias sem nenhuma ponta de interesse.
Sentei no chão perto da mesa de café, onde a badeja de comida estava esperando, comecei a pegar as coisas sem me dar conta do que estava comendo.
Alice se sentou no braço do sofá e começou a olhar para a TV de um jeito vazio que nem Jasper.
Comi devagar, olhando pra ela, me virando de vez em quando pra olhar rapidamente pra Jasper. Eu comecei a perceber que eles estavam rígidos demais. Nunca tiravam os olhos da tela, apesar de os comerciais já terem começado agora. Empurrei a bandeja para o lado, meu estômago estava abruptamente inquieto.
Alice olhou pra mim.
— Qual é problema, Alice? — Perguntei.
— Não há nada errado.
Seus olhos eram grandes e honestos...E eu não acreditava neles.
— O que nós fazemos agora?
— Nós esperamos Carlisle ligar.
— E ele já devia ter ligado?
Podia ver que estava chegando perto. Seus olhos flutuaram para o telefone em cima da sua bolsa preta de couro e de volta pra mim.
— O que isso significa? — Minha voz termia e eu lutei para controlá-la. — Porque ele não ligou ainda?
— Isso só significa que eles ainda não têm nada para nos dizer.
Mas a voz dela estava uniforme demais, e o ar ficou mais difícil de respirar.
Jasper estava de repente ao lado de Alice, mais perto de mim do que o normal.
— Bella— Ele disse numa voz suspeitosamente confortante. — Você não tem nada com o que se preocupar. Você está completamente segura aqui.
— Eu sei disso.
— Então porque você está assustada? — Ele perguntou confuso.
Deve ter sentido a tenacidade das minhas emoções, mas ele não conseguia ler as razões por trás delas.
— Você ouviu o que Laurent disse. — Minha voz era só um sussurro, mas eu tinha certeza de que eles conseguiam me ouvir. — Ele disse que James era letal. E se alguma coisa der errado, e eles se separarem? E se alguma coisa acontecer com algum deles, Carlisle, Emmett... Edward... — Engoli seco. — E se a fêmea machucar Esme... — Minha voz havia ficado mais alta, uma ponta de histeria estava começando a aparecer nela. — Como eu poderia viver comigo mesma sabendo que é minha culpa? Nenhum de vocês devia estar se arriscando por mim.
— Bella, Bella pare. — Ele me interrompeu, as palavras dele vertiam tão rapidamente que era difícil compreendê-las. — Você está se preocupando com as coisas erradas, Bella. Confie em mim, nenhum de nós corre risco. Você já tem coisas de mais com as quais se estressar, não adicione isso tudo á preocupações desnecessárias. Me ouça! — Ele ordenou quando eu desviei o olhar. — Nossa família é forte. Nosso único medo é perder você.
— Mas porque vocês deveriam...
Dessa vez foi Alice que interrompeu, tocando minha bochecha com seus dedos frios.
— Já faz um século que Edward está sozinho. Agora ele encontrou você... Você não consegue ver as diferenças que nós vemos, nós que temos estado com ele há tanto tempo. Acha que algum de nós vai querer olhar nos olhos dele pelos próximos cem anos se ele perder você?
Minha sensação de culpa foi diminuindo enquanto eu olhava para os seus olhos escuros. Mas mesmo com a calma se espalhando pelo meu corpo, eu não conseguia confiar nos meus sentimentos com Jasper lá.
Foi um dia muito longo.
Nós ficamos no quarto. Alice ligou para a recepção e pediu que cancelassem o nosso serviço de camareiras por enquanto. As janelas continuaram fechadas e a TV ligada, apesar de ninguém estar assistindo. O telefone prateado em cima da bolsa de Alice parecia ficar maior enquanto as horas passavam.
Minhas babás conseguiam aguentar o suspense melhor que eu.
Enquanto eu me preocupava e andava pra lá e pra cá, eles só ficavam cada vez mais imóveis aquelas duas estátuas cujos olhos me seguiam imperceptivelmente enquanto eu me movia. Me ocupei em memorizar o quarto, as listras padronizadas do sofá, bronze, pêssego, creme, dourado escuro, e então bronze de novo. Às vezes eu olhava para as pinturas abstratas, ocasionalmente achando desenhos nas formas, como eu encontrava os desenhos nas nuvens quando eu era criança. Eu encontrei uma mão azul, uma mulher penteando o cabelo, um gato se estirando. Mas quando o círculo vermelho se transformou num olho me encarando, desviei o olhar.
Enquanto a tarde passava, voltei para a cama, simplesmente pra ter algo pra fazer. Esperava que estando sozinha no quarto, poderia me entregar aos terríveis medos que pairavam na minha consciência, impossibilitados de se libertarem por causa da supervisão cuidadosa de Jasper.
Mas Alice me seguiu casualmente, como se por coincidência ela tivesse se cansado da sala ao mesmo tempo que eu. Eu estava começando a imaginar exatamente que tipo de instruções Edward havia dado á ela.
Me estirei na cama, e ela sentou, com as pernas cruzadas, perto de mim. No início eu a ignorei, repentinamente cansada o suficiente para dormir. Mas depois de alguns minutos, o pânico que estava se escondendo na presença de Jasper começou a aparecer. Nessa hora eu desisti da ideia de dormir rapidamente, me curvando numa pequena bola, abraçando minhas pernas com os braços.
— Alice? — Perguntei.
— Sim?
Mantive minha voz muito calma.
— O que você acha que eles estão fazendo?
— Carlisle pretendia levar o perseguidor tão longe para o Norte quanto fosse possível, esperar que ele se aproximasse, e então encurralar ele. Esme e Rosalie deviam ir para o oeste enquanto a fêmea ainda estivesse atrás delas. Se ela fosse embora, elas deveriam voltar pra Forks pra tomar conta do seu pai. Então eu imagino que se eles não podem ligar, estão indo bem. Significa que o perseguidor está muito perto e eles não querem que ele os ouça.
— E Esme?
— Acho que ela já deve ter voltado pra Forks. Ela vai ligar se houver alguma chance de que a fêmea ouça. Espero que eles todos estejam apenas sendo cuidadosos.
— Você acha que eles estão a salvo, mesmo?
— Bella, quantas vezes teremos que te dizer que não há perigo pra nós?
— Contudo, você me contaria a verdade?
— Sim. Eu sempre vou te contar a verdade. — A voz dela era intensa.
Pensei por um momento, e decidi que ela estava sendo sincera.
— Então me diga... Como é que você se tornou uma vampira?
Minha pergunta pegou ela fora de guarda. Ela ficou quieta. Eu me virei pra olhar pra ela, e a expressão dela parecia ambivalente.
— Edward não quer que eu te diga. — Ela disse firmemente, mas eu senti que ela não concordava com isso.
— Isso não é justo. Eu acho que tenho o direito de saber.
— Eu sei.
Olhei pra ela, esperando.
Ela suspirou.
— Ele vai ficar extremamente zangado.
— Isso não é da conta dele. Isso é entre eu e você. Alice, como amiga, eu estou te implorando.
E nós éramos amigas agora, de alguma forma, e ela já devia saber que seria assim desde o início.
Ela olhou pra mim com seus olhos esplêndidos, inteligentes... Escolhendo.
— Eu vou te contar o lado mecânico da coisa, — ela disse finalmente — mas nem eu mesma me lembro do que aconteceu, e eu nunca fiz isso ou vi sendo feito, então fique consciente de que só posso te contar o que eu sei na teoria.
Esperei.
— Como predadores, nós temos um excesso de armas em nosso arsenal físico, muito, muito mais do que aquilo que realmente necessitamos. A força, a velocidade, os sentidos aguçados, sem mencionar aqueles como Edward, Jasper e eu, que temos sentidos extras também. E então, como uma flor carnívora, nós somos atraentes para a nossa presa.
Eu estava muito rígida, me lembrando do quão sugestivamente Edward havia me explicado esse mesmo conceito na clareira.
Ela sorriu um sorriso largo, nefasto.
— Nós temos outra arma um tanto quanto supérflua. Nós também somos venenosos. — Ela disse seus dentes brilhando. — O veneno não mata, é meramente incapacitante. Ele se espalha lentamente na corrente sanguínea, pra que, uma vez mordida, a presa sinta dor física demais para escapar. Um tanto quanto supérfluo, como eu disse. Se nós estivermos tão perto, a presa não vai escapar. É claro que sempre existem exceções. Carlisle, por exemplo.
— Então... O veneno é deixado lá pra se espalhar... — Murmurei.
— Levam alguns dias para a transformação estar completa, dependendo de quanto veneno há na corrente sanguínea, de quão devagar o veneno entra no coração. Enquanto o coração continua batendo, o veneno se espalha, curando, mudando o corpo enquanto passa por ele. Eventualmente o coração para, e a conversão chega ao fim. Mas durante todo o tempo, durante cada minuto, a vítima estará desejando estar morta.
Eu tremi.
— Não é muito prazeroso.
— Edward disse que era uma coisa muito difícil de fazer... Não entendi muito bem.
— Nós também somos como tubarões, de certa forma. Quando nós experimentamos o sangue, ou mesmo se tivermos apenas sentido o cheiro dele, se torna muito difícil não se alimentar dele. Às vezes é impossível. Então veja, morder alguém de verdade, experimentar do sangue, isso começaria o frenesi. É difícil para os dois lados, a luxúria pelo sangue de uma lado, a dor horrível do outro.
— Porque você acha que não lembra?
— Eu não sei. Pra todos os outros, a dor da transformação é a memória mais forte da vida humana. Eu não me lembro de como é ser humana.
Sua voz estava severa.
Nós ficamos em silêncio, cada uma envolvida em seus próprios pensamentos.
Os segundos se passaram, e quase me esqueci da presença dela, de tão envolvida que estava nos meus pensamentos.
Então, sem aviso, Alice saltou da cama, pousando levemente nos seus pés. Minha cabeça deu um pulo e eu a encarei, alarmada.
— Algo mudou. — A voz dela estava alarmada, e ela não estava mais falando comigo.
Ela alcançou a porta ao mesmo tempo que Jasper. Ele obviamente estava ouvindo a nossa conversa e ouviu a exclamação súbita. Colocou as mãos nos ombros dela e a guiou de volta para a cama, sentando ela na beirada.
— O que você vê? — Ele perguntou atentamente, olhando dentro dos olhos dela.
Os olhos dela estavam focados em alguma coisa que estava muito longe. Sentei perto de Alice, me inclinando para entender sua voz rápida e baixa.
— Eu vejo um quarto. É longo, e tem espelhos me todo lugar. O chão é de madeira. Ele está nesse quarto, e ele está esperando. Há dourado... Uma faixa dourada por entre os espelhos.
— Onde é o quarto?
— Eu não sei. Está faltando alguma coisa, outra decisão que ainda não foi tomada.
— Quanto tempo?
— Em breve. Ele estará na sala dos espelhos hoje, ou talvez amanhã. Isso depende. Ele está esperando por alguma coisa. E está no escuro agora.
A voz de Jasper estava calma e metódica enquanto ele a interrogava cheio de prática.
— O que ele está fazendo?
— Está assistindo tv... Não, ele está passando uma fita de vídeo, no escuro, em outro lugar.
— Você consegue ver onde é?
— Não, é escuro demais.
— E o quarto dos espelhos, o que mais há lá?
— Só os espelhos, e o dourado. E uma faixa, ao redor da sala. E há uma mesa preta com um grande som e uma TV. Ele está tocando um videocassete lá, mas ele não está assistindo como faz na sala escura. Nessa sala, ele só espera. — Os olhos dela vaguearam, e então se focaram no rosto de Jasper.
— Não há mais nada?
Ela balançou a cabeça. Eles olharam um para o outro, imóveis.
— O que isso significa? — Perguntei.
Nenhum deles respondeu por um momento, e então Jasper olhou pra mim.
— Significa que os planos do perseguidor mudaram. Ele tomou uma decisão que vai guiá-lo ao quarto dos espelhos, e ao quarto escuro.
— Mas nós não sabemos onde esse quarto é?
— Não.
— Mas sabemos que ele não estará nas montanhas á Norte de Washington, sendo caçado. Ele vai enganá-los. — A voz de Alice estava vazia.
— Devemos ligar? — Perguntei.
Eles trocaram um olhar sério, estavam indecisos.
E então o telefone tocou.
Alice já estava do outro lado da sala antes que eu pudesse levantar minha cabeça pra olhar.
Ela apertou um botão e colocou o telefone no ouvido dela, mas ela não foi a primeira a falar.
— Carlisle. — Ela respirou.
Não pareceu surpresa ou aliviada, como eu estava.
— Sim. — Ela disse, olhando pra mim.
Escutou por um momento.
— Eu acabei de vê-lo.
Descreveu de novo a visão que tinha acabado de ter.
— O que quer que tenha colocado ele naquele avião... Está levando ele para aquelas salas. — Ela parou. — Sim. — Alice disse para o telefone, e então falou comigo. — Bella?
Ela segurou o telefone na minha direção. Eu corri pra ele.
— Alô. — Respirei.
— Bella. — Edward disse.
— Edward! Eu estava tão preocupada.
— Bella. — ele suspirou frustrado — te disse pra não se preocupar com nada a não ser você mesma.
Era tão incrivelmente bom poder ouvir a voz dele. Eu senti a nuvem de desespero enfraquecer e ir embora enquanto ele falava.
— Onde vocês estão?
— Nós estamos em Vancouver. Bella, me desculpe, nós o perdemos. Ele parece estar suspeitando de nós, está sendo cuidadoso o suficiente pra não ficar a uma distância que possamos ouvir os pensamentos dele. Mas agora ele foi embora, parece que entrou num avião. Nós achamos que ele voltou pra Forks pra recomeçar tudo.
Eu podia ouvir Alice conversando com Jasper atrás de mim, as palavras rápidas dela saíam acompanhadas de um zumbido.
— Eu sei. Alice disse que ele havia escapado.
— Contudo, você não precisa se preocupar. Ele não encontrará nada que o leve a você. Você só tem que esperar aí até que nós o encontremos de novo.
— Eu vou ficar bem. Esme está com Charlie?
— Sim, a fêmea esteve na cidade. Ela esteve na casa, mas só enquanto Charlie estava no trabalho. Ela não se aproximou dele, então não tenha medo. Ele está a salvo com Esme e Rosalie tomando conta.
— O que ela está fazendo?
— Possivelmente tentando encontrar uma pista. Ela vasculhou a cidade inteira durante a noite. Rosalie a encontrou no aeroporto, em todas as estradas ao redor, na escola... Ela está vasculhando Bella, mas não há nada para encontrar.
— E você tem certeza que Charlie está a salvo?
— Sim, Esme não vai perder ele de vista. E nós estaremos lá em breve. Se o perseguidor chegar perto de Forks, nós o pegamos.
— Eu sinto sua falta. — Sussurrei.
— Eu sei Bella. Acredite em mim, eu sei. É como se você tivesse levado metade de mim com você.
— Então, venha pegá-la. — Desafiei.
— Breve, assim que eu puder. Mas eu vou te deixar a salvo primeiro. — A voz dele estava dura.
— Eu te amo. — O lembrei.
— Será que você poderia acreditar que, mesmo tendo te envolvido nisso tudo, que eu te amo também?
— Sim, na verdade, eu posso.
— Eu vou te buscar logo.
— Eu estarei esperando.
Assim que o telefone ficou mudo, a nuvem de depressão começou a pairar sobre mim de novo.
Me virei pra entregar o celular pra Alice, e encontrei Jasper inclinado sobre a mesa, onde Alice estava fazendo desenhos num papel com o emblema do hotel. Inclinei no sofá, olhando por cima dos ombros dela.
Ela desenhou uma sala: longa, retangular, com uma sessão quadrada, mais fina lá no final.
As placas de madeira estavam expostas na longitudinal em todo o chão da sala. Nas paredes, as linhas denotavam o espaço de um espelho para o outro. E então, atravessando os espelhos, acima da altura cintura, uma longa faixa. A faixa que Alice dizia ser dourada.
— É um estúdio de Balé. — Disse, repentinamente reconhecendo as formas familiares.
Eles olharam pra mim, surpresos.
— Você conhece essa sala? — A voz de Jasper parecia calma, mas havia algo por baixo dela que eu não podia identificar.
Alice abaixou a cabeça para o seu trabalho, agora sua mão voava sobre o papel, o formato da saída de emergência no fundo da sala, o som e a TV numa mesa baixa que ficava no canto da frente da sala.
— Parece com um lugar que eu costumava frequentar para ter aulas de dança, quando eu tinha oito ou nove anos. O formato é o mesmo.
Toquei o papel no local onde a parte quadrada aparecia, estreitando a parte de trás da sala.
— Era aqui que os banheiros, as portas passavam pela outra sala de dança. Mas o som ficava aqui. — Apontei o canto esquerdo — Era mais velho e não havia uma TV. Havia uma janela na sala de espera, você podia ver a sala nessa posição se você olhasse por ela.
Alice e Jasper estavam olhando pra mim.
— Você tem certeza de que é a mesma sala? — Jasper perguntou ainda calmo.
— Não, nem um pouco, creio que todos os estúdios de dança sejam parecidos, os espelhos, as barras. — Eu tracei as barras nos espelhos com o dedo. — É só que o formato me pareceu familiar.
Eu toquei a porta, que ficava exatamente no lugar onde eu lembrava.
— Você teria algum motivo pra ir lá agora? — Alice perguntou me tirando do devaneio.
— Não, faz quase dez anos que eu não vou lá. Eu era uma dançarina horrível, eles sempre me colocavam no fundo dos recitais. — Admiti.
— Então não tem jeito disso estar ligado á você? — Alice perguntou atentamente.
— Não, eu nem acho que o dono seja o mesmo. Estou certa de que é algum outro estúdio de dança, em outro lugar.
— Onde era o estúdio que você frequentava? — Jasper perguntou numa voz casual.
— Era na esquina da casa da minha mãe. Eu costumava ir andando pra lá depois da escola... — Disse minha voz fugindo. Eu não perdi o olhar que eles trocaram.
— Aqui em Phoenix, então? — A voz dele ainda estava casual.
— Sim. — Sussurrei. — Rua cinquenta e oito com Cactus.
Nós todos sentamos em silêncio, olhando para o desenho.
— Alice, o telefone é seguro?
— Sim. — Ela me assegurou. — O número vai ser localizado em Washigton.
— Então eu posso usá-lo para ligar para a minha mãe.
— Eu pensei que ela estivesse na Flórida.
— Ela está, mas vai voltar pra casa em breve, e não pode voltar pra casa enquanto... — Minha voz tremeu.
Estava pensando no que Edward havia dito, sobre a fêmea ter estado na casa de Charlie, na escola, onde meus documentos estariam.
— Como é que você vai encontrá-la?
— Eles não têm números permanentes exceto em casa, ela tem que checar as mensagens regularmente.
— Jasper? — Alice perguntou.
Ele pensou.
— Eu acho que não pode fazer mal nenhum, mas tome o cuidado de não dizer onde está, é claro.
Peguei o telefone ansiosamente e disquei o número familiar. Ele tocou quatro vezes, e então eu ouvi a voz a voz suave da minha mãe me dizendo pra deixar uma mensagem.
— Mãe, — falei depois do bipe — sou eu. Escute, eu preciso que você faça uma coisa. É importante. Assim que você escutar essa mensagem, me ligue neste número. — Alice já estava a meu lado, escrevendo o número pra mim em cima do desenho dela. Eu o li cuidadosamente, duas vezes. — Por favor, não vá a lugar nenhum antes que eu tenha falado com você. Não se preocupe, eu estou bem, mas eu preciso falar com você imediatamente, não importa a hora que você receber esta ligação, está bem? Eu te amo, mãe, tchau.
Fechei meus olhos e rezei com todas as minhas forças pra que ela recebesse a mensagem antes de ir pra casa.
Sentei no sofá, batucando no prato que continha as frutas, antecipando a longa noite. Pensei em ligar pra Charlie, mas eu não sabia se ele estaria em casa agora ou não. Me concentrei no jornal, assistindo histórias sobre a Flórida ou sobre o treinamento de Primavera, greves, furacões ou algum ataque terrorista, qualquer coisa que pudesse fazer eles voltarem mais cedo pra casa.
Imortalidade deve garantir paciência infinita.
Nem Jasper nem Alice pareciam sentir a necessidade de alguma coisa pra fazer. Por algum tempo, Alice desenhou os traços da sala escura que ela havia visto, tudo o que ela podia ver pela leve luz da TV. Mas quando ela terminou, ela simplesmente ficou olhando para o vazio das paredes, com seus olhos eternos. Jasper também parecia não ter nenhuma necessidade de se mover, ou de dar uma olhadinha pelas cortinas, ou então, sair correndo pela porta, como eu queria.
Eu devo ter pegado no sono no sofá, esperando o telefone tocar de novo.
O toque frio de Alice me acordou brevemente enquanto ela me carregava para a cama, mas eu já estava inconsciente antes de encostar no travesseiro.

2 comentários:

  1. Gente o que será que vai acontecer com a família deles...

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  2. To amando ler esse livro...

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