24 de setembro de 2015

Capítulo 2 - Sutura

Carlisle foi o único que permaneceu calmo. Séculos de experiência nas salas de emergência ficavam evidentes na sua voz calma, autoritária.
— Emmett, Rose, tirem Jasper daqui.
Sem sorrir pela primeira vez, Emmett balançou a cabeça.
— Vamos lá, Jasper.
Jasper lutou contra o aperto inquebrável de Emmett, se remexendo, avançando na direção do irmão com os dentes à amostra, os olhos ainda estavam sem razão.
O rosto de Edward estava mais branco que papel quando ele se arrastou pra se curvar sobre mim, numa postura claramente defensiva.
Um rugido baixo de aviso escapou por entre seus dentes trincados.
Eu podia perceber que ele não estava respirando.
Rosalie, seu divino rosto estranhamente presumido, ficou na frente de Jasper — mantendo uma distância cuidadosa dos seus dentes — e ajudou Emmett a levar ele pra fora pela porta de vidro que Esme segurou aberta, com uma mão tapando a boca e o nariz.
O rosto com formato de coração de Esme estava envergonhado.
— Eu sinto muito, Bella — ela lamentou enquanto seguia os outros até o jardim.
— Me deixe passar, Edward — Carlisle murmurou.
Um segundo se passou, e então Edward balançou a cabeça lentamente e relaxou de sua posição.
Carlisle se ajoelhou á meu lado, se inclinando mais pra perto pra examinar meu braço. Eu podia sentir o choque congelado no meu rosto e tentei me recompor.
— Aqui, Carlisle — Alice disse o entregando uma toalha.
Ele balançou a cabeça.
 — Tem muito vidro na ferida — Ele se aproximou e arrancou uma tira longa e fina da toalha que cobria a mesa. Ele torceu a tira no meu braço logo acima do cotovelo como um torniquete. O cheiro do sangue estava me deixando tonta. Meus ouvidos zumbiam.
— Bella — Carlisle disse levemente. — Você quer que eu te leve até o hospital, ou você prefere que eu cuide disso aqui?
— Aqui, por favor — eu sussurrei. Se ele me levasse pra o hospital, não ia ter jeito de esconder de Charlie.
— Eu vou pegar sua maleta — Alice disse.
— Vamos levá-la para a mesa da cozinha — Carlisle disse pra Edward.
Edward me levantou sem esforço enquanto, Carlisle mantinha a pressão firme no meu braço.
— Como você está, Bella? — Carlisle me perguntou.
— Eu estou bem — minha voz estava razoavelmente firme, o que me deixou contente.
O rosto de Edward parecia pedra.
Alice estava lá. A maleta de Carlisle já estava sobre a mesa, uma mesa pequena, mas brilhante com uma luz plugada na parede. Edward me sentou gentilmente na cadeira, e Carlisle puxou outra. Ele começou a trabalhar imediatamente.
Edward ficou ao meu lado, ainda me protegendo, ainda sem respirar.
—Vai, Edward — suspirei.
— Eu agüento — ele insistiu. Mas a mandíbula dele estava rígida; seus olhos queimavam com a intensidade da sede que ele sentia que ele lutava, que era muito pior pra ele que para os outros.
— Você não precisa ser um herói — eu disse. — Carlisle pode cuidar de mim sem sua ajuda. Vá tomar um ar fresco.
Eu gemi quando Carlisle fez alguma coisa no meu braço que doeu como uma picada.
— Eu fico — ele disse.
— Porque você é tão masoquista? — eu murmurei.
Carlisle decidiu interceder.
— Edward, você deve encontrar Jasper antes que ele vá longe demais, e eu duvido que ele vá ouvir alguém que não seja você agora.
— Sim — eu disse ansiosamente. — Vá encontrar Jasper.
— Você deve fazer alguma coisa útil — Alice acrescentou.
Os olhos de Edward se estreitaram enquanto nós o atacávamos em grupo, mas, finalmente, ele balançou a cabeça uma vez e saiu suavemente pela porta de trás da cozinha. Eu tinha certeza de que ele não havia respirado desde o momento que eu cortei o dedo.
Uma sensação entorpecida, morta, estava se espalhando pelo meu braço.
Apesar de isso acabar com a dor, me lembrou do corte, e eu observei cuidadosamente o rosto de Carlisle pra me distrair do que ele estava fazendo no meu braço. O seu cabelo irradiava dourado na luz brilhante enquanto ele se inclinava sobre o meu braço. Eu podia sentir as leves sensações de incomodo, mas eu estava determinada a não deixar as minhas fraquezas tomarem conta de mim.
Não havia dor agora, só uns puxõezinhos, que eu estava tentando ignorar. Não era motivo pra ficar enjoada como um bebê.
Se ela não estivesse na minha linha de visão, eu nem teria visto Alice desistir e sair da cozinha. Com um pequeno sorriso que pedia desculpas nos lábios, ela desapareceu pela porta da cozinha.
— Bom, já foram todos — eu suspirei. — Eu posso limpar uma sala, pelo menos.
— Não é culpa sua — Carlisle me confortou com uma risada. — Poderia acontecer com qualquer um.
— Poderia — eu repeti. — Mas geralmente só acontece comigo.
Ele riu de novo.
Sua calma relaxada era ainda mais incrível em contraste com a reação dos outros. Eu não consegui achar nem um traço de ansiedade nos olhos dele. Ele trabalhava com movimentos rápidos, certeiros.
O único som além das nossas respirações calmas era o som do plinc, plinc enquanto os pequenos fragmentos de vidro caíam um a um na mesa.
— Como é que você consegue fazer isso? — eu quis saber. — Até Alice e Esme...— eu parei, balançando minha cabeça em dúvida. Apesar do resto da família também ter desistido da tradicional dieta dos vampiros tão absolutamente quanto Carlisle, ele era o único que podia sentir o cheiro de sangue sem sofrer com a intensa tentação.
Claramente, isso era muito mais difícil do que ele queria fazer parecer.
— Anos e anos de prática — ele me disse. — Eu quase não sinto mais o cheiro.
— Você acha que seria mais difícil se você tirasse umas longas férias do hospital, e não houvesse nenhum sangue por perto?
— Talvez — ele levantou os ombros, mas suas mãos continuaram firmes.
— Eu nunca senti necessidade de longas férias. — Ele mostrou um grande sorriso brilhante na minha direção. — Eu gosto muito do meu trabalho.
Plinc, plinc, plinc. Eu estava surpresa de ver quanto vidro parecia ter no meu braço. Eu estava tentada em olhar para a pilha crescendo, só pra checar o tamanho, mas eu sabia que a ideia não seria de grande ajuda para a minha estratégia de não vomitar.
— Do que é que você gosta? — eu imaginei.
Pra mim não fazia sentido — os anos de luta e negação que ele deve ter passado até alcançar o ponto que ele conseguiria lidar com isso tão facilmente. Além do mais, eu queria manter ele falando; a conversa mantinha minha cabeça longe da sensação de enjoo do meu estômago.
Seus olhos escuros estavam calmos e pensativos enquanto ele falava.
— Hmm. O que eu gosto mais é quando minhas... habilidades adquiridas me deixam salvar uma pessoa que poderia estar perdida. É bom saber que, graças ao que eu faço, a vida de algumas pessoas é melhor porque eu existo. Até o cheiro do sangue é uma ferramenta que me ajuda às vezes. — Um dos lados da boca dele se levantou num meio sorriso.
Eu pensei nisso enquanto ele me cutucava, pra ter certeza que todos os cacos do meu braço haviam saído. Então ele procurou na sua maleta por outras ferramentas, e eu tentei não reparar na agulha e na linha.
— Você dá muito duro pra tentar se redimir de uma coisa que nunca foi culpa sua — eu sugeri enquanto outro tipo de picada começou a puxar os cantos da minha pele. — O que eu quero dizer é, você não pediu por isso. Você não escolheu esse tipo de vida, e mesmo assim você tem que trabalhar tão duro pra ser bom.
— Eu não acho que esteja me redimindo por nada — ele discordou suavemente. — Como tudo na vida, eu só tive que escolher o que fazer com o que me foi dado.
— Isso faz tudo parecer fácil.
Ele examinou meu braço de novo.
 — Pronto — ele disse, cortando a linha.
— Está terminado — Ele pegou uma gaze grande, molhando-a com uma espécie de xarope colorido, e a colocou ao redor da saturação.
O cheiro era estranho; fez minha cabeça rodar. O xarope queimou minha pele.
— No começo, porém — eu pressionei enquanto ele amarrava outro pedaço de gaze seguramente no lugar, lacrando ela no meu braço. — Porque é que você sequer pensou em viver de outra maneira que não da maneira mais óbvia?
Seus lábios se ergueram num sorriso privado.
— Edward já não te contou essa história?
— Sim. Mas eu estou tentando entender o que você estava pensando...
Seu rosto estava repentinamente sério de novo, e eu me perguntei se os pensamentos dele teriam ido para o mesmo lugar que os meus. Imaginando em que eu estaria pensando quando - eu me recusava a pensar em um se — fosse eu.
— Você sabe que meu pai era um clérigo — ele meditou enquanto limpava cuidadosamente a mesa, esfregando tudo com uma gaze molhada, e depois fazendo tudo de novo. O cheiro de álcool queimou no meu nariz. — Ele tinha uma visão muito dura do mundo, que eu já estava começando a questionar quando eu fui mudado — Carlisle pôs a gaze suja e os pedaços de vidro dentro de um vaso de cristal vazio.
Eu não entendi o que ele estava fazendo, mesmo quando ele acendeu o fósforo. Então ele o jogou nas fibras encharcadas de álcool, e a explosão me fez pular.
— Desculpe — ele se desculpou. — Isso vai dar conta... Então eu não concordava com o ponto de visto do meu pai sobre fé particularmente. Mas nunca, nesses quase quatrocentos anos desde que eu nasci , eu vi alguma coisa que me fizesse duvidar da existência de Deus, de uma forma ou de outra. Nem mesmo a reflexão do espelho.
Eu fingi examinar o curativo no meu braço pra esconder a minha surpresa com o curso que a nossa conversa havia tomado. Religião era a única coisa que eu não esperava, de todas as coisas que eu considerei. Minha própria vida era muito destituída de crenças.
Charlie se considerava um Luterano, porque os seus pais haviam sido, mas durante os Domingos ele só rezava se fosse na beira do rio com uma vara de pesca na mão. Renée havia tentado ir à igreja de vez em quando, mas, assim como os seus casos com o Tênis, as aulas de cerâmica, Ioga e de Francês, ela resolvia desistir quando ficava sabendo de outra novidade.
— Eu sei que tudo isso parece bizarro, especialmente vindo de um vampiro — Ele sorria, sabendo que o uso da palavra sempre acabava me chocando. —Mas eu espero que haja um sentido nessa vida, mesmo pra nós. É um longo período, eu admito — ele continuou num tom desinteressado. — De todas as formas, estamos decididamente amaldiçoados. Mas eu espero, talvez como um tolo, que nós ganhemos alguma espécie de crédito por tentar.
— Eu não acho que isso é tolice— eu murmurei. Eu não conseguia imaginar, todo mundo incluído, alguém que não ficasse impressionado com Carlisle. Além do mais, o único tipo de paraíso que eu iria apreciar tinha que incluir Edward. — Eu não acho que as outras pessoas achariam também.
— Na verdade, você é a primeira a concordar comigo.
— Os outros não acham o mesmo? — eu perguntei surpresa, pensando em uma pessoa em particular.
Carlisle adivinhou a direção dos meus pensamentos de novo.
— Edward concorda comigo em um ponto. Deus e o paraíso existem... e o inferno também. Mas ele não acredita em outra vida pra o nosso tipo — Carlisle falava com uma voz muito suave; ele olhava pela grande janela em cima da pia, olhando para a escuridão. —Imagine, ele acha que somos almas perdidas.
Imediatamente eu pensei nas palavras de Edward nessa tarde: a não ser que você queira morrer — ou o que quer que seja que nós fazemos. Uma pequena lâmpada estalou na minha cabeça.
— Esse é o problema real, não é? — eu adivinhei. — É por isso que ele está sendo tão difícil em relação a mim.
Carlisle falou vagarosamente.
—Eu olho para o meu... filho. Sua força, sua bondade, seu brilho que esplandece por fora dele — e isso só enche aquela esperança, aquela fé, mais do que nunca. Como poderia não haver algo mais para alguém como Edward?
Eu afirmei com a cabeça, concordando fervorosamente.
— Mas se eu acreditasse no que ele acredita...— ele olhou pra baixo pra mim com olhos insondáveis. — Se você acreditasse no que ele acredita. Você poderia tirar a alma dele?
O jeito como ele colocou a frase obstruiu minha resposta.
Se ele tivesse me perguntado se eu arriscaria minha alma por Edward, a resposta seria óbvia. Mas será que eu poderia arriscar a alma de Edward? Eu torci meus lábios infeliz. Isso não era muito justo.
— Você vê o problema.
Eu balancei minha cabeça, consciente da posição teimosa do meu queixo.
Carlisle suspirou.
— É minha escolha — insisti.
— E dele também — Ele levantou a mão quando viu que eu estava disposta a discutir. — Ele será responsável por fazer isso com você.
— Ele não é o único que pode fazer isso — eu olhei pra Carlisle sugestivamente.
Ele riu, abruptamente suavizando o humor.
— Oh, não! Você vai ter que acertar isso com ele — Mas então ele suspirou. — É dessa parte que eu nunca tenho certeza. Eu acho, na maioria das maneiras, que eu fiz o melhor com o que eu tinha. Mas será que foi certo impor os outros a esse tipo de vida? Eu não consigo decidir.
Eu não respondi. Eu imaginei como minha vida seria se Carlisle tivesse resistido a tentação de viver um vida menos solitária... e tremi.
— Foi a mãe de Edward que fez minha cabeça.
A voz de Carlisle era quase um suspiro. Ele olhou pelas janelas escuras sem ver nada.
— A mãe dele? — Toda vez que eu tentava falar com Edward sobre os seus pais, ele só dizia que eles haviam morrido há muito tempo e que as lembranças dele eram vagas. Eu me dei conta de que as memórias de Carlisle, apesar da brevidade do contato deles, seriam perfeitamente claras.
— Sim. O nome dela era Elizabeth. Elizabeth Masen. O pai dele, Edward pai, nunca recobrou a consciência no hospital. Ele morreu no primeiro ataque da Gripe. Mas Elizabeth estava alerta até quase o final. Edward se parece muito com ela — o mesmo estranho tom de bronze do cabelo, e os olhos eram exatamente do mesmo tom de verde.
— Os olhos dele eram verdes? — eu murmurei, tentando imaginar.
— Sim... — Os olhos escuros de Carlisle estavam a cem anos de distância agora. — Elizabeth estava obsessivamente preocupada com o filho. Ela acabou com as próprias chances que tinha de viver por ter ficado como enfermeira dele no leito. Eu esperava que ele morresse primeiro, ele estava muito pior do que ela. Quando o fim chegou pra ela, foi muito rápido. Foi logo depois do pôr do sol, e eu cheguei pra aliviar os médicos que haviam trabalhado o dia inteiro. Essa era uma péssima hora pra fingir — havia tanto trabalho pra ser feito, e eu não precisava de mais nada. Como eu odiava voltar pra minha casa, me esconder no escuro e fingir que estava dormindo quando havia tantas pessoas morrendo!
Ele continuou.
— Eu fui checar Elizabeth e seu filho primeiro. Eu acabei me apegando; sempre uma coisa perigosa a se fazer levando em conta a natureza frágil dos humanos. Eu podia ver que ela havia piorado. A febre estava fora de controle, e o seu corpo estava fraco demais pra continuar lutando. Porém, ela não parecia fraca quando olhou pra mim na sua maca. “Salve ele!”, ela me comandou com uma voz rouca que era tudo o que a garganta dela conseguia. “Eu farei tudo em meu poder”, eu prometi, pegando a mão dela. A febre dela estava tão alta que eu acho que ela nem podia sentir o quanto a minha era sobrenaturalmente fria. Tudo era muito frio para a pele dela. “Deve fazer isso” , ela insistiu, apertando minha mão com tanta força que eu até cheguei a imaginar se ela não superaria a crise no final. Os olhos dela estavam duros, como pedras, como esmeraldas. “Você deve fazer qualquer coisa sobre o seu poder. O que os outros não podem fazer, é isso que você deve fazer pelo meu Edward”. Isso me assustou. Ela me olhou com aqueles olhos penetrantes, e, por um instante, eu tive certeza de que ela sabia o meu segredo. E então a febre tomou conta dela, e ela nunca mais recobrou a consciência. Ela morreu uma hora depois de fazer o seu pedido. Eu havia passado décadas considerando a ideia de criar alguma companhia pra mim. Só outra criatura que me conhecesse de verdade, pra que eu não precisasse fingir ser o que não era. Mas eu não podia justificar isso pra mim mesmo — fazer com alguém o que havia sido feito comigo. Lá estava Edward, morrendo. Era claro que ele só tinha mais algumas horas. Ao lado dele, a mãe, seu rosto de certa forma ainda não estava em paz, nem na morte.
Carlisle via tudo de novo, sua memória enterrada no século que entrevia.
Eu podia ver claramente também, enquanto ele falava — o desespero no hospital, a atmosfera dominante de morte. Edward queimando de febre, sua vida se esvaindo a cada tique do relógio... eu tremi de novo, e forcei a ideia a sair da minha mente.
— As palavras de Elizabeth ecoavam na minha mente. Como ela podia ter adivinhado o que eu fazia? Será que alguém realmente poderia querer isso pra um filho? Eu olhei pra Edward. Doente como estava, ele ainda era lindo. Havia algo puro e bom em seu rosto. O tipo de rosto que eu queria que meu filho tivesse. Depois de todos aqueles anos de indecisão, eu simplesmente agi num impulso. Eu levei a sua mãe para o necrotério antes, e depois voltei para pegá-lo. Ninguém percebeu que ele ainda estava respirando. Não havia mãos suficientes, olhos suficientes, pra dar conta de metade do que os pacientes precisavam. O necrotério estava vazio- de vivos, pelo menos. Eu o roubei pela porta traseira, e o carreguei pelos telhados até a minha casa. Eu não tinha certeza do que precisava ser feito. Eu me preparei pra recriar as mesmas feridas que eu mesmo havia recebido, tantos séculos atrás em Londres. Eu me senti mal por isso depois. Foi mais doloroso e mais demorado do que precisava ter sido. Eu não estava arrependido, todavia. Eu nunca lamentei ter salvado Edward.
 Ele balançou a cabeça, voltando ao presente. Ele sorriu pra mim.
— Eu acho que devia te levar pra casa agora.
— Eu faço isso — Edward disse. Ele veio pela sala de jantar escura, caminhando muito devagar pra ele. O rosto dele estava suave, ilegível, mas havia algo errado com os olhos dele — algo que ele estava dando muito duro pra esconder. Eu senti um espasmo de incômodo no estômago.
— Carlisle pode me levar — eu disse. Eu olhei pra baixo pra minha camiseta; o algodão azul estava encharcado e manchada com meu sangue. Meu ombro direito estava coberto com uma cor rosada que estava grudada.
— Eu estou bem — a voz de Edward não passava emoção. — Você vai precisar se trocar, de qualquer jeito. Você vai fazer Charlie ter um ataque do coração desse jeito. Eu vou pedir pra Alice te dar alguma coisa. Ele saiu pela porta da cozinha de novo.
Eu olhei pra Carlisle ansiosamente.
— Ele está muito chateado.
— Sim — Carlisle concordou. — Essa noite era exatamente o tipo de coisa que ele mais temia. Você ser colocada em risco, devido ao que somos.
— Isso não é culpa dele.
— E nem sua.
Eu olhei pra longe de seus olhos lindos, sábios. Eu não podia concordar com isso.
Carlisle me ofereceu a mão e me ajudou a descer da mesa. Eu o acompanhei até a sala principal. Esme havia voltado; Ela estava limpando o chão onde eu havia caído — com desinfetante puro, pelo cheiro.
— Esme, me deixe fazer isso — Eu podia sentir que meu rosto estava de um vermelho brilhante de novo.
— Eu já terminei —. Ela sorriu pra mim. — Como você se sente?
— Eu estou bem — eu assegurei. — Carlisle costura mais rápido do que qualquer outro médico que eu já conheci.
Os dois gargalharam.
Alice e Edward entraram pela porta traseira. Alice correu para o meu lado, mas Edward ficou pra trás, seu rosto indecifrável.
— Vamos — Alice disse. — Eu vou arranjar algo menos macabro pra você usar.
Ela encontrou uma blusa de Esme que era de uma cor parecida com a minha. Charlie não ia reparar, eu tinha certeza. O grande curativo no meu braço já não parecia mais ser tão sério agora que não estava mais coberto de sangue. Charlie nunca ficava surpreso ao me ver com um curativo.
— Alice — eu sussurrei enquanto ela voltava para a porta.
— Sim? — ela manteve a voz baixa também, e olhou pra mim curiosamente, com a cabeça caída para o lado.
— É muito ruim? — eu não sabia se os meus sussurros eram um sacrifício inútil. Mesmo estando aqui em cima, com a porta fechada, talvez ele pudesse me ouvir.
O rosto dela ficou tenso.
— Eu ainda não tenho certeza.
— Como está Jasper?
Ela suspirou.
— Ele está muito descontente consigo mesmo. Ainda é um grande desafio pra ele, e ele odeia se sentir fraco.
— Não é culpa dele. Você vai dizer que eu não estou com raiva dele, nem um pouco, não vai?
— É claro.
Edward estava me esperando na porta da frente. Quando eu cheguei no pé das escadas ele a segurou aberta sem nenhuma palavra.
— Pegue as suas coisas! — Alice pediu enquanto eu andava cautelosamente na direção de Edward. Ela segurou os dois pacotes, um meio aberto, e minha câmera que estava em baixo do piano, e colocou tudo no meu braço bom. — Você me agradece depois quando os tiver aberto.
Esme e Carlisle deram um boa noite baixinho. Eu podia vê-los dando olhadas furtivas para o seu filho impassível, assim como eu.
Eu fiquei aliviada em estar do lado de fora; eu me apressei pra passar pelas lanternas e pelas rosas, elas não eram boas memórias.
Edward acompanhou meu passo silenciosamente. Ele abriu a porta do passageiro pra mim, e eu entrei sem reclamar.
No painel havia um grande laço de fita, preso ao som novo. Eu o arranquei, jogando no chão. Enquanto Edward entrava pelo outro lado, eu chutei o laço pra debaixo do banco.
Ele não olhou pra mim ou para o som. Nenhum de nós o ligou, e de alguma forma o silêncio se intensificou com o estrondo do motor. Ele dirigiu rápido demais pela escura estrada em formato de serpente.
O silêncio estava me deixando louca.
— Diga alguma coisa — eu finalmente implorei enquanto ele entrava na auto-estrada.
— O que você quer que eu diga? — ele me perguntou com uma voz desinteressada.
Eu bajulei a imparcialidade dele.
 — Diga que me perdoa.
Isso trouxe uma pontada de vida para o rosto dele — uma pontada de raiva.
— Perdoar você? Pelo que?—
— Se eu tivesse sido mais cuidadosa, nada disso teria acontecido.
— Bella, você se cortou com papel — eu duvido que isso mereça uma pena de morte.
— Ainda assim é minha culpa.
Minhas palavras abriram a comporta.
— Sua culpa? Se você tivesse se cortado na casa de Mike Newton, com Jéssica e Ângela e os seus outros amigos normais, o que poderia ter acontecido de tão horrível? Talvez eles não tivessem encontrado um curativo? Se você tivesse tropeçado e esbarrado numa pilha de pratos de vidro — sem que alguém tivesse te jogado em cima deles — mesmo assim, o que seria tão ruim? Você derramar sangue no banco do carro enquanto eles te levavam pra o pronto socorro? Mike Newton poderia ter segurado a sua mão enquanto eles te davam os pontos — e ele não precisaria lutar contra a ânsia de te matar enquanto estivesse lá dentro. Não tente jogar isso pra cima de você, Bella. Isso só vai me deixar ainda mais enojado comigo mesmo.
— Como diabos Mike Newton veio parar nessa conversa? — eu quis saber.
— Mike Newton veio parar nessa conversa porque seria muito mais saudável pra você estar com Mike Newton — ele rosnou.
— Eu preferia morrer do que ficar com Mike Newton — eu protestei. — Eu prefiro morrer do que ficar com uma pessoa que não seja você.
— Não seja melodramática, por favor.
— Tudo bem então, não seja ridículo.
Ele não respondeu. Seus olhos olhavam pelo para brisa, sua expressão estava obscura.
Eu fucei no meu cérebro pra encontrar uma forma de salvar a noite. Quando ele parou na frente da minha casa, eu ainda não tinha pensado em nada.
Ele desligou o motor, mas suas mãos continuaram fechadas no volante.
— Você vai ficar essa noite? — eu perguntei.
— Eu devia ir pra casa.
A última coisa que eu queria era que ele fosse embora sentindo remorso.
— Pelo meu aniversário — eu pressionei.
— Você não pode ter as duas coisas... ou você quer que as pessoas ignorem seu aniversário ou não. Um ou outro.
A voz dele estava dura, mas não tão séria quanto antes. Eu dei um leve suspiro de alívio.
— Tudo bem, eu decidi que não quero que você ignore meu aniversário. Te vejo lá em cima.
Eu saí, e me inclinei pra dentro de novo pra pegar meus presentes. Ele fez uma careta.
— Você não tem que pegar isso.
— Eu quero eles — eu respondi automaticamente, e depois imaginei se ele estaria usando psicologia reversa.
— Não quer não. Carlisle e Esme gastaram dinheiro com você.
— Eu vou sobreviver — Eu enfiei os presentes de forma estranha embaixo do meu braço bom e bati a porta atrás de mim. Ele estava fora da caminhonete e atrás de mim em menos de um segundo.
— Me deixe carregá-los, pelo menos — ele disse enquanto os tirava de mim. — Eu estarei no seu quarto.
Eu sorri.
— Obrigada.
— Feliz aniversário — ele disse, e se inclinou pra tocar seus lábios nos meus.
Eu me inclinei na pontas dos pés pra fazer o beijo durar mais quando ele se afastou. Ele deu meu sorriso torto favorito, e então desapareceu na escuridão.
O jogo ainda estava sendo transmitido; assim que eu entrei eu pude ouvir os anúncios das jogadas em meio aos gritos da torcida.
— Bell? —Charlie chamou.
— Oi, pai — eu disse enquanto aparecia no corredor. Eu segurei meu braço bem do meu lado. A leve pressão queimou e eu torci meu nariz. Aparentemente o anestésico estava perdendo o efeito.
— Como foi? — Charlie se espreguiçou no sofá com seus pés descalços num dos braços. O que ainda sobrava do seu cabelo marrom cacheado estava grudado em um dos lados.
— Alice enlouqueceu. Flores, bolo, velas, presentes... A coisa toda.
— O que eles te deram?
— Um som para o meu carro — E vários não conhecidos.
— Uau.
— É — eu concordei. — Bem, por hoje chega.
— Te vejo amanhã de manhã.
Eu acenei.
— A gente se vê.
— O que aconteceu com seu braço?
Eu corei e xinguei baixinho.
— Eu caí. Não é nada.
— Bella — ele suspirou, balançando a cabeça.
— Boa noite, pai.
Eu subi correndo pra o banheiro, onde eu mantinha o meu pijama para noites como essa. Eu entrei na camiseta combinando com a calça de algodão que eu comprei pra repor as antigas que eu usava na cama, gemendo com o movimento que puxou os pontos.
Eu lavei meu rosto com uma mão, escovei os dentes, e estão me mandei pro meu quarto.
Ele estava sentado no centro da minha cama, brincando á toa com uma das caixas prateadas.
— Oi — ele disse. Ele disse. Sua voz estava triste. Ele estava se remexendo.
Eu fui para a cama, puxei os presentes das mãos dele, e me arrastei para o colo dele.
— Oi —,= eu ronronei no seu peito de pedra. — Posso abrir meus presentes agora?
— De onde foi que veio todo esse entusiasmo? — ele se perguntou.
— Você me deixou curiosa.
Eu peguei o grande retângulo achatado que devia ser o presente de Carlisle e Esme.
— Me permita — ele sugeriu. Ele pegou o pacote da minha mão e arrancou o papel prateado com um único movimento fluido. Ele devolveu a caixa retangular branca pra mim.
— Você tem certeza que eu vou conseguir levantar a tampa? — eu murmurei, mas ele me ignorou.
Dentro da caixa havia um longo papel grosso com um monte de palavras impressas. Me levou um minuto pra entender as informações que elas passavam.
— Nós vamos pra Jacksonville? — e eu estava excitada, a despeito de mim mesma. Era um comprovante de passagens de avião, pra mim e pra Edward.
— Essa é a ideia.
— Eu não posso acreditar. Renée vai enlouquecer! Contudo, você não se importa, não é? Lá faz sol, você terá que ficar em casa o dia inteiro.
— Eu acho que posso agüentar — ele disse, e então fez uma careta.
— Se eu soubesse que você responderia tão apropriadamente ao presente, eu teria feito você abrir na frente de Esme e Carlisle. Eu pensei que você fosse reclamar.
— Bem, é claro que isso é demais. Mas eu vou levar você comigo!
Ele gargalhou.
— Agora eu queria ter gasto mais dinheiro no seu presente. Eu não sabia que você era capaz de ser razoável.
Eu coloquei as passagens de lado e me inclinei pra pegar o presente dele, minha curiosidade redobrou. Ele o tomou de mim e arrancou o papel que nem o primeiro.
Ele me devolveu uma caixa de CD transparente, com só um disco prateado dentro.
— O que é? — eu perguntei, perplexa.
Ele não disse nada; ele pegou o CD e se curvou por trás de mim pra colocá-lo no CD player na mesa do lado da minha cama. Ele apertou Play, e nós esperamos em silêncio. E então a música começou.
Eu escutei, sem palavras, com os olhos esbugalhados. Eu sabia que ele estava esperando pela minha reação, mas eu não consegui falar nada.
As lágrimas começaram a aparecer, e eu tentei limpá-las antes que elas começassem a rolar.
— Seu braço está doendo? — ele perguntou ansiosamente.
— Não, não é o meu braço. É lindo, Edward. Você não poderia ter me dado uma coisa que eu amasse mais. Eu não consigo acreditar. —Eu calei a boca pra poder ouvir.
Era a música dele, suas composições. A primeira faixa do CD era a minha canção de ninar.
— Eu não achei que você me deixaria comprar um piano pra tocar pra você aqui — ele explicou.
— Você está certo.
— Como está o seu braço?
— Está ótimo. — Na verdade, ele estava começando a queimar em baixo do curativo. Eu queria gelo. Eu teria colocado a mão dele, mas isso teria me entregado.
—Eu vou pegar um Tylenol pra você.
— Eu não preciso de nada — eu protestei, mas ele me tirou do colo dele e começou a andar na direção da porta.
— Charlie — eu assobiei. Charlie não estava necessariamente consciente de que Edward ficava aqui com certa frequencia. Na verdade, ele teria um enfarto se isso chegasse aos ouvidos dele. Mas eu não me sentia muito culpada por estar enganado ele. Não era como se eu estivesse fazendo algo que ele não gostaria que eu fizesse. Edward e suas regras...
— Ele não vai me pegar — Edward prometeu enquanto desaparecia silenciosamente pela porta... e voltava, segurando a porta antes que ela se fechasse. Ele estava segurando um copo e a caixa de remédio em uma das mãos.
Eu peguei os remédios que ele me ofereceu sem reclamar- eu sabia que sairia perdendo da discussão, e meu braço realmente estava começando a me incomodar.
Minha canção de ninar continuou, num adorável fundo musical.
— Está tarde — Edward notou. Ele me levantou da cama com um braço, e colocou o lençol de volta com a outra. Ele me colocou com a cabeça no travesseiro e jogou a colcha por cima de mim. Ele se deitou perto de mim- em cima das cobertas pra que eu não ficasse com frio- e colocou o braço por cima de mim.
Eu encostei minha cabeça no ombro dele e suspirei alegremente.
— Obrigada de novo — eu sussurrei.
— De nada.
Eu fiquei quieta por algum tempo enquanto esperava minha canção de ninar acabar. Outra música começou. Eu reconheci a favorita de Esme.
— No que você está pensando? — eu imaginei num sussurro.
Ele hesitou por um longo segundo antes de me dizer.
— Na verdade, eu estava pensando no certo e errado.
Eu senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Lembra de quando eu decidi que queria que você não ignorasse meu aniversário? — eu perguntei rapidamente, esperando que não ficasse claro demais que eu que eu estava tentando distraí-lo.
— Sim — ele concordou, cautelosamente.
— Bem, eu estava pensando, que já que é meu aniversário, você poderia me beijar de novo.
— Você está muito gananciosa hoje.
— Sim, eu estou — mas por favor, não faça nada que você não quiser fazer.
Ele sorriu e então suspirou.
— Que os céus não permitam que eu tenha que fazer algo que não quero fazer — ele disse num tom estranhamente desesperado enquanto colocava a mão dele embaixo do meu queixo e puxava o meu rosto pra o dele.
O beijo começou como sempre — Edward estava tão cuidadoso como sempre, e meu coração começou e responder como sempre. E então alguma coisa pareceu mudar. De repente seus lábios ficaram muito mais urgentes, as mãos dele foram para o meu cabelo e ele segurou meu rosto seguramente no seu.
E, apesar de minhas mãos estarem no cabelo dele também, e apesar de eu estar claramente começando a cruzar as linhas de segurança, pela primeira vez ele não me parou. O corpo dele estava frio através da colcha, mas eu me apertei contra ele ansiosamente.
Quando ele parou foi abrupto; ele me afastou com mãos gentis, firmes.
Eu caí no meu travesseiro, ofegando, minha cabeça rodando. Alguma coisa estalou na minha memória, evasivamente, só nas beiradas.
— Desculpe — ele disse, sem fôlego também. — Isso passou dos limites.
— Eu não me importo. — eu garanti.
Ele fez uma careta pra mim no escuro.
— Tente dormir, Bella.
— Não, eu quero que você me beije de novo.
— Você está superestimando meu auto-controle.
— O que é mais tentador pra você, meu sangue ou meu corpo? — eu desafiei.
—Dá empate. — Ele deu um breve sorriso, a despeito de si mesmo. —Agora, porque é que você não para de testar sua sorte e vai dormir?
— Tá — eu concordei, chegando mais pra perto dele. Eu realmente me sentia exausta. Foi um dia longo de várias maneiras, e mesmo assim eu não me sentia aliviada por ele estar acabando. Eu quase sentia que algo pior estava vindo amanhã. Era uma premonição boba — o que podia ser pior do que hoje? Só o choque tomando conta de mim, sem dúvida.
Tentando me esquivar dessa sensação, eu encostei meu braço ferido no ombro dele, para que o seu braço gelado o fizesse parar de queimar. Eu me senti melhor na hora.
Eu já estava meio caminho do sono, talvez mais, quando eu me dei conta do que aquele beijo me lembrava: primavera passada, quando ele teve que se separar de mim pra tirar James da minha cola, Edward me deu um beijo de despedida, sem saber quando — ou se — nós nos veríamos de novo. Esse beijo tinha quase a mesma pontada de dor por alguma razão que eu não conseguia imaginar. Eu tremi já inconsciente, como se estivesse tendo um pesadelo.

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