25 de setembro de 2015

Capítulo 2 - Evasão

Eu me senti estranhamente contente enquanto caminhava da aula de Espanhol em direção ao refeitório, e não era só porque eu estava de mãos dadas com a pessoa mais perfeita do planeta, apesar de que essa era certamente parte da razão.
Talvez fosse o conhecimento de que a minha sentença estava acabada e eu era uma mulher livre novamente.
Ou talvez não tivesse nada a ver comigo especificamente. Talvez fosse a atmosfera de liberdade que pairava sobre o campus inteiro. As aulas estavam acabando e, especialmente para a classe do último ano, havia uma alegria perceptível no ar. 
A liberdade estava tão próxima que era tocável, degustável. Os sinais dela estavam em todo lugar. Posters se amontoavam nas paredes do refeitório, e as latas de lixo usavam uma vestimenta colorida amontoada de panfletos: lembretes pra comprarmos os livros do ano, anéis de classes, e anúncios; prazos para as roupas da formatura, chapéus e borlas; panfletos de vendas cor de néon – a campanha dos alunos calouros para a coordenação da sala; anúncios mau-agourentos, decorados com rosas, sobre o baile desse ano. O grande baile era no próximo fim de semana, mas eu tinha uma promessa inquebrável de Edward de que eu não seria submetida àquilo de novo. Afinal de contas, eu já havia passado por aquela experiência humana. 
Não, devia ser a minha liberdade pessoal que me iluminava hoje. O fim do calendário escolar não me trouxe o mesmo prazer que parecia trazer aos outros alunos. Na verdade, eu me sentia nervosa a ponto de sentir náuseas toda vez que pensava nisso. Eu tentava não pensar nisso. 
—Você já enviou seus convites?— Ângela perguntou quando Edward e eu nos sentamos em nossa mesa. Ela tinha o cabelo castanho claro preso para trás em um rabo-de-cavalo em vez de seu liso natural, e havia um olhar ligeiramente frenético em seus olhos.
Alice e Ben já estavam lá também, cada um em um lado de Ângela. Ben estava atento a um Gibi, seus óculos escorregando pelo seu nariz fino. Alice estava examinando meu Jeans-e-camiseta sem graça de um jeito que me deixou constrangida. Provavelmente planejando outro look. Eu suspirei. Minha atitude indiferente em relação à moda aborrecia Alice. Se eu deixasse, ela amaria me vestir todo dia – talvez várias vezes ao dia – como alguma boneca de papel tridimensional extra-grande.
—Não,— eu respondi a Ângela. —Não faz sentido, de verdade. Renée sabe quando eu me formo. Quem mais há?—
—E você, Alice?
Alice sorriu. —Tudo feito.—
—Sorte sua.— Ângela suspirou. —Minha mãe tem uns mil primos e espera que eu escreva o endereço para todo mundo. Vou ficar com dor no pulso. Eu não posso adiar muito isso e estou meio assustada.
—Eu posso ajudá-la,— Eu me ofereci. —Se você não se importar com a minha letra horrível.—
Charlie gostaria isso. Pelo canto do olho, viu Edward sorrir. Ele devia gostar daquilo também - de mim cumprindo as condições de Charlie sem envolver lobisomens.
Ângela pareceu aliviada. —Que legal da sua parte. Eu virei a qualquer hora que você quiser.—
—Na verdade, eu prefiro ir à sua casa se estiver tudo bem - Estou cansada da minha. Charlie me liberou noite passada.— Eu sorri enquanto contava as boas notícias.
—Sério?— Ângela perguntou, um suave excitamento iluminou seus olhos castanhos sempre gentis —Pensei que você tinha dito que estava de castigo pelo resto da vida.—–
—Estou mais surpresa que você. Eu tinha certeza que iria pelo menos ter terminado o ensino médio antes de ele me deixar livre—.
—Bem, isso é ótimo, Bella! Nós temos que sair para comemorar.—
—Você não tem ideia de como isso é bom.—
—O que deveríamos fazer?— Alice meditou, sua face se iluminando com as possibilidades. As ideias de Alice geralmente eram um pouco grandiosas para mim, e eu podia ver isso em seus olhos agora – a tendência de fazer coisas longe demais virando ação.
—O que quer que você esteja pensando, Alice, eu duvido que esteja livre para isso.—
—Livre é livre, certo?— ela insistiu.
—Tenho certeza que eu ainda tenho limites – como o continente estado-unidense, por exemplo.
Ângela e Ben riram, mas Alice fez uma careta de verdadeiro desapontamento.
—Então o que nós vamos fazer hoje à noite?— ela persistiu.
—Nada. Olhe, vamos dar uns dois dias para ter certeza de que ele não estava brincando. É uma noite de escola, de qualquer forma.—
—Nós vamos comemorar esse final de semana, então.— O entusiasmo de Alice era impossível de reprimir.
—Claro – eu disse, esperando aplacá-la. Eu sabia que não estava indo fazer nada longe demais; seria mais seguro ir devagar com Charlie. Dar a ele a chance de avaliar quão merecedora de confiança e madura eu era antes de pedir qualquer favor.
Ângela e Alice começaram a falar sobre opções; Ben se juntou à conversa, colocando seu Gibi de lado. Minha atenção se desviou. Eu estava surpresa por descobrir que o assunto da minha liberdade de repente não era tão agradável quanto há apenas um momento trás. Enquanto eles discutiam coisas para fazer em Port Angeles ou talvez em Hoquiam, eu comecei a me sentir decepcionada.
Não demorei muito para determinar de onde veio minha impaciência.
Desde quando eu disse adeus para Jacob Black na floresta além da minha casa, eu tinha sido infeccionada por uma persistente e desconfortável invasão de uma figura mental específica. Ela entrava nos meus pensamentos em intervalos regulares como algum incômodo despertador programado para tocar a cada meia hora, enchendo minha cabeça com a imagem do rosto de Jacob contorcido de dor. Esta era a última memória que eu tinha dele.

Conforme a perturbadora visão me atingia novamente, eu sabia exatamente por que eu estava insatisfeita com a minha liberdade. Porque era incompleta.
Claro, eu estava livre para ir a qualquer lugar que eu quisesse – exceto La Push; livre para fazer qualquer coisa que eu quisesse – exceto ver Jacob. Olhei a mesa com desagrado. Tinha que haver algum tipo de território intermediário.

—Alice? Alice!—

A voz de Ângela me arrancou do meu devaneio. Ela estava agitando sua mão para frente e para trás diante do rosto pálido de Alice, olhando-a fixamente. A expressão de Alice era algo que eu reconhecia – uma expressão que produziu um automático choque de pânico dentro do meu corpo. O olhar vago em seus olhos me disse que ela estava vendo alguma coisa muito diferente da cena do refeitório mudando que nos cercava, mas algo de que cada pedaço era tão verdadeiro do seu próprio modo. Alguma coisa estava vindo, alguma coisa que aconteceria logo. Eu senti o sangue sumir do meu rosto.

Então Edward riu, um som muito natural, tranquilo. Ângela e Ben olharam em direção a ele, mas meus olhos estavam presos em Alice. Ela pulou de repente, como se alguém a tivesse chutado por debaixo da mesa.
—Já é hora de dormir, Alice?— Edward provocou.
Alice voltou a si novamente. —Desculpem, eu estava sonhando acordada, acho.—
—Sonhar acordada é melhor do que encarar mais duas horas de aula.— Ben disse.
Alice voltou à conversa com mais animação que antes – só um pouquinho demais. Uma vez eu vi seus olhos se prenderem aos de Edward, só por um momento, e então ela olhou de volta para Ângela antes que alguém mais notasse. Edward estava quieto, brincando inconscientemente com um fio do meu cabelo.
Eu esperei ansiosamente por uma chance de perguntar a Edward o que Alice tinha visto em sua visão, mas a tarde se passou sem que pudéssemos ficar um minuto do tempo a sós.
Isso parecia estranho para mim, quase proposital. Depois do almoço, Edward reduziu a velocidade do seu passo para acompanhar Ben, conversando sobre alguma tarefa que eu sabia que ele já tinha terminado. Então havia sempre alguém mais lá entre as aulas, embora nós geralmente tivéssemos uns poucos minutos para nós mesmos. Quando o último sinal tocou, Edward iniciou uma conversa com Mike Newton de todas as pessoas, diminuindo o passo ao lado dele enquanto Mike se direcionava para o estacionamento. Eu me arrastava atrás, deixando Edward me rebocar adiante.
Eu ouvia, confusa, enquanto Mike respondia às incomuns perguntas amigáveis de Edward. Parecia que Mike estava tendo problemas com o carro.

—...mas eu só repus a bateria.— Mike estava dizendo. Seu olhar lançava-se para frente e então de volta para Edward cautelosamente. Mistificado, assim como eu estava.
—Talvez sejam os cabos— Edward sugeriu.
—Talvez. Eu realmente não sei nada sobre carros.— Mike admitiu. —Eu preciso que alguém dê uma olhada, mas eu não posso deixar isso para Dowling.

Eu abri minha boca para sugerir meu mecânico, e então a fechei de novo. Meu mecânico estava ocupado esses dias – ocupado correndo por aí como um lobo gigante.

—Eu sei algumas coisas, eu posso dar uma olhada, se você quiser.— Edward ofereceu. —Só me permita deixar Alice e Bella em casa.
Mike e eu encaramos Edward juntos de bocas abertas.
—Hã... obrigado.— Mike murmurou quando ele se recuperou. —Mas eu tenho que ir trabalhar. Talvez uma outra hora.—
—Absolutamente.—
—Até mais.— Mike entrou em seu carro, sacudindo a cabeça em incredulidade.
O Volvo de Edward, com Alice já dentro, estava só dois carros à distância.
—O que foi aquilo?— eu murmurei enquanto Edward segurava a porta do passageiro para mim.
—Só sendo prestativo.— Edward respondeu.
E então Alice, esperando no banco de trás, estava tagarelando na maior velocidade.
—Você realmente não é tão bom mecânico, Edward. Talvez você devesse fazer Rosalie dar uma olhada nisso esta noite, apenas de modo que você pareça bom se Mike decidir deixar você ajudar, sabe. Não que não fosse ser divertido ver a cara dele se Rosalie descobrisse como ajudar. Mas desde que supõe-se que Rosalie esteja do outro lado do país fazendo faculdade, eu acho que essa não é a melhor ideia. Ruim demais. Embora eu suponha que, para o carro do Mike, você sirva. Só dentro dos tunings mais finos de um bom carro esportivo italiano você está fora do seu departamento. E falando da Itália e de carros esportivos que eu roubei lá, você ainda me deve um Porshe amarelo. Eu não sei se eu quero esperar pelo Natal...—

Eu parei de ouvir depois de um minuto, deixando sua voz rápida se tornar só um zumbido ao fundo enquanto eu me concentrava no meu modo paciente.
Para mim, parecia que Edward estava tentando evitar minhas perguntas. Legal. Ele teria que ficar sozinho comigo breve o bastante. Era só uma questão de tempo.

Edward pareceu entender isso também. Ele deixou Alice na boca da garagem dos Cullen como o habitual, embora a esse ponto eu meio que esperava que ele a levasse à porta e a encaminhasse para dentro.

Enquanto ela saía, Alice lançou um olhar penetrante para o rosto dele. Edward parecia completamente tranquilo.

—Vejo você depois.— ele disse. E então, muito levemente, ele acenou com a cabeça.
Alice virou para desaparecer nas árvores.

Ele estava calado enquanto virava o carro em volta e conduzia de volta a Forks. Eu esperei, imaginando se ele iria começar. Ele não começou, e isso me deixou tensa. O que Alice tinha visto hoje no almoço? Algo que ele não queria me dizer, e eu tentei pensar numa razão pela qual ele iria guardar segredos. Talvez fosse melhor me preparar antes de perguntar. Eu não queria ficar fora de mim e deixá-lo pensar que eu não podia lidar com isso, o que quer que fosse.

Então nós dois ficamos em silêncio até voltarmos à casa de Charlie.
— A carga de dever de casa pode esperar por esta noite—.

—Mmm— eu concordei.

—Você acha que eu possa entrar de novo?—

—Charlie não se alterou quando você me buscou na escola.—

Mas eu tinha certeza que Charlie iria ficar rapidamente zangado quando ele chegasse em casa e encontrasse Edward aqui. Talvez eu devesse fazer algo extra-especial para o jantar.

Lá dentro, eu subi as escadas e Edward me seguiu. Ele espreguiçou-se na minha cama e olhou fixamente para a janela, parecendo esquecer-se do meu nervosismo.
Eu arrumei minha mochila e liguei o computador. Havia um e-mail não respondido da minha mãe para eu me preocupar, e ela entrava em pânico quando eu demorava muito. Eu tamborilei meus dedos enquanto esperava pelo meu computador muito idoso acordar ruidosamente; eles batiam contra a mesa, rápidos e ansiosos.

E então os dedos dele estavam nos meus, segurando-os tranquilos.

—Nós estamos um pouco impacientes hoje?— ele murmurou.

Eu olhei para cima, tencionando fazer uma observação sarcástica, mas o rosto dele estava mais próximo do que eu esperava. Seus olhos dourados estavam queimando, afastados apenas centímetros, e sua respiração estava fria contra meus lábios abertos. Eu podia sentir o gosto do seu cheiro na minha língua.

Eu não consegui lembrar da resposta mordaz que eu quase tinha feito. Eu não conseguia lembrar do meu nome.

Ele não me deu a chance de me recuperar.

Se as coisas fossem do meu jeito, eu passaria a maior parte do meu tempo beijando Edward. Não havia nada que eu tivesse experimentado na minha vida que se comparasse à sensação dos lábios dele, frios e duros como mármore, mas sempre tão gentis, se movendo com os meus.

As coisas geralmente não eram do meu jeito.
Então me surpreendi um pouco quando seus dedos se entrelaçaram no meu cabelo, segurando meu rosto com eles. Meus braços se prenderam ao seu pescoço, e eu desejei que fosse mais forte – forte o bastante para mantê-lo prisioneiro aqui.

Uma mão escorregou para as minhas costas, me pressionando mais apertado contra seu peito de pedra. Mesmo sob seu suéter, a pele dele estava fria o bastante para me fazer tremer – era um tremor de satisfação, de felicidade, mas suas mãos começaram a afrouxar em resposta.

Eu sabia que eu tinha mais ou menos três segundos antes de ele suspirar e me empurrar para longe com jeito, dizendo alguma coisa sobre como nós tínhamos arriscado minha vida o suficiente por uma tarde. Aproveitando-me ao máximo dos meus últimos segundos, me pressionei mais para perto, moldando-me à forma dele. A ponta da minha língua traçou a curva do seu lábio inferior; era tão perfeitamente macio como se tivesse sido envernizado, e o gosto...

Ele colocou meu rosto longe do dele, quebrando meu abraço com facilidade – ele provavelmente não tinha nem percebido que eu estava usando toda a minha força.
Ele soltou um risinho uma vez, um som baixo, gutural. Seus olhos estavam resplancedentes com a excitação que ele tão rigidamente controlava.

—Ah, Bela.— Ele suspirou.

—Eu diria que sinto muito, mas eu não sinto.—

—E eu deveria sentir muito por você não sentir muito, mas eu não sinto. Talvez eu devesse sentar na cama.—

Exalei um pouco vertiginosamente. —Se você acha que isso é... necessário.—

Ele deu um sorriso torto e se soltou.

Balancei a cabeça algumas vezes, tentando clareá-la, e voltei ao computador. Estava tudo animado e cantarolando. Bem, não cantarolando tanto quanto suspirando.

—Diz a Renée que eu estou mandando um oi.—

—Com certeza.—
Olhei atenciosamente o e-mail de Renée, sacudindo minha cabeça de vez em quando por conta de algumas maluquices que ela havia feito. Eu estava tão horrorizada e entretida quanto na primeira vez em que havia lido isto. Ela se esqueceu de como tinha medo de alturas até estar presa num pára-quedas e ter pulado com o instrutor. Me senti um pouco desapontada com Phil, marido dela há quase dois anos, por permitir isso. Eu teria cuidado dela melhor. A conhecia melhor.

Tenho que finalmente deixá-los seguirem o próprio caminho, lembrei a mim. Tenho que deixá-los terem a própria vida...

Eu havia passado a maior parte de minha vida cuidando de Renée, afastando-a de suas loucuras o mais gentilmente possível. Sempre fui boa para minha mãe, me divertia com ela, até mesmo eu era um pouco condescendente a ela. Eu via a cornucópia de erros dela e ria comigo mesma. Renée avoada.

Eu era uma pessoa muito diferente de minha mãe. Alguém pensativa e cautelosa. A responsável, a adulta. Assim é como eu me via. Essa era pessoa que eu conhecia.

Com o sangue ainda palpitando em minha cabeça por conta do beijo de Edward, eu nem podia contar a maioria de erros que mudaram a vida de minha mãe. Tonta e romântica, havia se casado com um homem que ela apenas conhecia sem ter terminado o segundo grau, me tendo um ano depois. Ela sempre me jurou que não tinha nenhum arrependimento, que eu era o melhor presente que vida já havia lhe dado. E ela vivia me repetindo - pessoas inteligentes levam o matrimônio a serio. Pessoas ajuizadas vão para a faculdade e começam carreiras antes que de se aprofundem em um relacionamento. Ela sabia que eu nunca seria tão imprudente, estúpida e provinciana.

Trinquei meus dentes e tentei me concentrar enquanto respondia a carta dela.
Aí eu vi a primeira linha dela e me lembrei do porque de eu haver negligenciado escrever pra ela mais cedo.
Você não diz nada sobre Jacob ha muito tempo., ela tinha escrito. O que está acontecendo nesses dias?
Charlie estava influenciando ela, eu tinha certeza.
Eu suspirei e teclei rapidamente, respondendo à pergunta dela entre dois parágrafos menos sensíveis.

Jacob está bem, eu acho. Eu não o vejo muito; ele passa a maior parte do tempo com o seu bando de amigos lá em La Push ultimamente.

Sorrindo bobamente para mim mesma, eu acrescentei a saudação de Edward e apertei —send—.
Eu não me dei conta de que Edward estava silenciosamente de pé atrás de mim até que eu desliguei o computador e me afastei da mesa. Eu estava prestes a passar um sermão nele por estar lendo por cima do meu ombro quando eu me dei conta de que ele não estava prestando atenção em mim. Ele estava examinando uma caixa achatada com fios encaracolados desordenadamente longe do quadrado principal de uma maneira que não parecia saudável pra o que quer que fosse. Depois de um segundo, reconheci o som para carros que Emmett, Rosalie e Jasper haviam me dado pelo meu último aniversário. Eu havia esquecido dos presentes que estavam escondidos embaixo de uma pilha crescente de poeira no chão do meu closet.
—Porque você fez isso?—, ele perguntou com uma voz horrorizada.
—Ele não queria sair do painel—.
—E você sentiu necessidade de torturá-lo?—
—Você sabe como eu sou com ferramentas. Nenhuma dor foi infligida intencionalmente—.
Ele balançou a cabeça, o rosto dele era uma máscara falsa de tragédia. —Você o matou—.
Eu levantei os ombros. —Oh, bem.—
—Magoaria os sentimentos deles se eles vissem isso—, ele disse. —Eu acho que foi bom você ter ficado confinada em casa. Eu vou ter que colocar outro no lugar antes que eles reparem—.
—Obrigada, mas eu não preciso de um som chique—.
—Não é para o seu bem que eu vou repô-lo—.
Eu suspirei.
—Você não fez muito bom uso dos seus presentes de aniversário do ano passado—, ele disse com uma voz estranha. De repente, ele estava se abanando com um retângulo rígido de papel.
Eu não respondi, com medo de que a minha voz fosse falhar. O meu desastroso aniversário de dezoito anos - com todas as suas consequências a longo prazo - não era uma coisa que eu fazia questão de lembrar, e eu estava surpresa por ele tê-lo mencionado. Ele era ainda mais sensível em relação a isso do que eu.
—Você se dá conta de que elas estão prestes a expirar?— ele perguntou, segurando o papel pra mim. Era outro presente - os vales para passagens de avião que Esme e Carlisle haviam me dado pra que eu pudesse visitar Renée na Flórida.
Eu respirei fundo e respondi com uma voz vazia. —Não. Eu havia esquecido de todos eles, na verdade—.
A expressão dele estava cautelosamente luminosa e positiva; não havia nenhum traço de emoção mais profundo quando ele continuou. —Bem, nós ainda temos um pouco de tempo. Você foi liberada... e nós não temos planos para esse fim de semana, já que você se recusa a ir ao baile comigo—. Ele sorriu. —Porque não celebrar a sua liberdade desse jeito?—
Eu ofeguei. —Indo para a Flórida?—
—Você disse alguma coisa sobre o Estados Unidos continental ser permitido.—
Eu encarei ele, suspeitosamente, tentando entender de onde isso tinha vindo.
—Bem?—, ele quis saber. —Nós vamos ver Renée ou não?—
—Charlie nunca vai permitir—.
—Charlie não pode te impedir de visitar a sua mãe. Ela ainda tem a sua custódia primária—.
—Ninguém tem minha custódia. Eu sou uma adulta—.
Ele deu um sorriso brilhante. —Exatamente—.
Eu pensei nisso por um breve minuto antes de decidir que a briga não valia a pena. Charlie ia ficar furioso - não porque eu ia visitar Renée, mas porque Edward ia vir comigo. Charlie não falaria comigo por meses, e eu provavelmente acabaria de castigo de novo. Eu definitivamente era esperta o suficiente pra nem sequer tocar no assunto. Talvez daqui a algumas semanas,como um favor pela formatura, ou alguma coisa assim.
Mas a ideia de ver minha mãe agora, e não semanas mais tarde, era difícil de resistir. Já fazia tanto tempo desde que eu vi Renée. E ainda mais tempo desde que eu a vi em circunstâncias prazerosas. A última vez em que eu estive com ela em Phoenix, eu passei o tempo inteiro em uma cama de hospital. Da última vez que ela havia vindo aqui, eu estive mais ou menos catatônica. Não exatamente a melhor memória pra deixar com ela.
E talvez, se ela visse o quanto eu estava feliz com Edward, ela podia dizer pra Charlie relaxar.
Edward observou o meu rosto enquanto eu considerava.
Eu suspirei. —Esse fim de semana não—.
—Porque não?—
—Eu não quero brigar com Charlie. Não tão pouco tempo depois de ele ter me perdoado—.
As sobrancelhas dele se uniram. —Eu acho que esse fim de semana é perfeito—, ele murmurou.
Eu balancei minha cabeça. —Outra hora—.
—Você não é a única que esteve presa nessa casa, sabe?— Ele fez uma careta pra mim.
A suspeita retornou. Esse tipo de comportamento não era natural dele. Ele era tão impossivelmente altruísta; eu sabia que isso estava me deixando mimada.
—Você pode ir onde você quiser—, eu apontei.
—O mundo exterior não possui nenhum interesse pra mim sem você—.
Eu rolei os meus olhos à hipérbole.
—Eu estou falando sério—, ele disse.
—Vamos ver o mundo exterior lentamente, tá certo? Por exemplo, nós podíamos começar com um filme em Port Angeles...—
Ele rosnou. —Esqueça. Nós falaremos sobre isso mais tarde—.
—Não há mais nada para falar—.
Ele ergueu os ombros.
—Ok, então, novo assunto—, eu disse. Eu quase havia me esquecido sobre as minhas preocupações dessa tarde - será que essa era a intenção? —O que Alice viu durante o almoço?—
Os meus olhos estavam no rosto dele enquanto ele falava, medindo a sua reação.
A expressão dele estava composta; só havia uma leve dureza em seus olhos de topázio. —Ela viu Jasper em um lugar estranho, algum lugar ao sul, ela acha, perto da sua antiga... família. Mas ele não tem nenhuma intenção consciente de ir embora—. Ele suspirou.
—Isso a deixou preocupada—.
—Oh—. Isso não era nada próximo do que eu estivera esperando. Mas é claro que fazia sentido que Alice estivesse olhando para o futuro de Jasper. Ele era a alma gêmea dela, a sua verdadeira outra metade, eles não eram tão externais com o seu relacionamento quanto Rosalie e Emmett. —Porque você não me disse?—
—Eu não me dei conta de que você havia percebido—, ele disse. —Em qualquer caso, provavelmente não é nada importante—.
A minha imaginação estava tristemente fora de controle. Eu havia pego uma tarde perfeitamente normal e havia distorcido tudo até que parecesse que Edward estava tentando esconder coisas de mim. Eu precisava de terapia.
Nós fomos lá pra baixo para fazer o nosso dever de casa, no caso de Charlie chegar mais cedo. Edward acabou em minutos; eu lutei laboriosamente com os meus cálculos até que eu decidi que estava na hora de fazer o jantar de Charlie. Edward ajudou fazendo caretas de vez em quando para os ingredientes crus - comida humana era praticamente repulsiva para ele. Eu fiz strogonoff com a receita da vovó Swan, porque eu estava sem ideias.
Charlie já parecia estar de bom humor quando chegou em casa. Ele nem começou com a sua maneira rude de tratar Edward. Edward se desculpou por não comer conosco, como sempre. O som do noticiário noturno vinha da sala da frente, mas eu duvidava que Edward realmente estivesse assistindo.
Depois de repetir três vezes, Charlie colocou os pés pra cima da cadeira reserva e cruzou as mãos contentemente em cima do seu estômago inchado.
—Isso estava ótimo, Bells—.
—Eu estou feliz que você gostou. Como foi o trabalho?— Ele estava comendo com muita concentração antes para eu conseguir puxar conversa antes.
—Meio lento. Bem, mortalmente lento, na verdade. Mark e eu jogamos carta em boa parte da tarde—, ele admitiu com um sorriso. —Eu venci, dezenove mãos para sete. E depois eu fiquei no telefone com Billy durante algum tempo—.
Eu tentei manter minha expressão igual. —Como ele está?—
—Bem, bem. As juntas dele estão o incomodando um pouco.—
—Oh. Isso é uma pena—.
—É. Ele nos convidou para uma visita esse final de semana. Ele estava pensando em chamar os Clearwaters e os Uleys também. Uma espécie de festinha...—
—Huh—, foi a minha resposta genial. Mas o que eu ia dizer? Eu sabia que não teria permissão para comparecer a uma festa de lobisomens, mesmo com supervisão do meu pai. Eu me perguntei se Edward teria um problema com Charlie andando por La Push. Ou será que ele iria supor que já que Charlie passaria mais tempo com Billy, que era apenas humano, o meu pai não estaria em perigo?
Eu me levantei e empilhei os pratos sem olhar para Charlie. Eu os coloquei na pia e liguei a água. Edward apareceu silenciosamente e pegou uma toalha de pratos.
Charlie suspirou e desistiu por um momento, apesar de eu imaginar que ele revisitaria o assunto assim que estivéssemos juntos de novo. Ele se pôs de pé e seguiu para a sala de TV, exatamente como na outra noite.
—Charlie—, Edward disse num tom convencional.
Charlie parou no meio da sua pequena cozinha. —Sim?—
—Bella te contou que os meus pais deram passagens de avião pra ela em seu último aniversário, pra que ela pudesse visitar Renée?—
Eu deixei cair o prato que eu estava esfregando. Ele resvalou no balcão e caiu no chão fazendo barulho. Ele não quebrou, mas melou a cozinha, e nós três, com água ensaboada. Charlie nem pareceu reparar.
—Bella?— Ele perguntou numa voz espantada.
Eu mantive os olhos no prato enquanto o pegava de volta. —É, eles me deram—.
Charlie engoliu altamente, e então os olhos dele se estreitaram quando ele olhou de volta para Edward. —Não, ela nunca mencionou isso—.
—Hmm—, Edward murmurou.
—Há uma razão pra você ter tocado no assunto?— Charlie perguntou com um voz dura.
Edward ergueu os ombros. —Elas estão quase expirando. Eu acho que isso pode machucar os sentimentos de Esme se Bella não usar o presente dela. Não que ela fosse dizer alguma coisa—.
Eu encarei Edward sem acreditar.
Charlie pensou por um minuto. —Provavelmente é uma boa ideia você ir visitar a sua mãe, Bella. Ela ia adorar. No entanto, eu estou surpreso que você não tenha falado nada sobre isso.—
—Eu esqueci—, eu admiti.
Ele fez uma careta. —Você esqueceu que alguém te deu passagens da avião?—
—Mmm—, eu murmurei vagamente, e me virei de volta para a pia.
—Eu percebi que você disse que elas estavam prestes e expirar, Edward—, Charlie continuou. —Quantas passagens os seus pais deram pra ela?—
—Só uma pra ela... e uma pra mim—.
O prato que eu derrubei dessa vez caiu na pia, então ele não fez muito barulho. Eu podia ouvir claramente o bufo afiado do meu pai enquanto ele exalava. O sangue correu para o meu rosto, cheio de irritação e vergonha. Porque Edward estava fazendo isso? Eu olhei para as bolhas na pia, entrando em pânico.
—Isso está fora de questão!— Charlie estava abruptamente enraivecido, gritando as palavras.
—Porque?— Edward perguntou, sua voz saturada com uma surpresa inocente. —Você disse que era uma boa ideia ela ver a mãe—.
Charlie ignorou ele. —Você não vai a lugar algum com ele, mocinha!— ele gritou. Eu me virei quando ele estava apontando um dedo para mim.
A raiva pulsou em mim automaticamente, uma reação instintiva ao tom dele.
—Eu não sou uma criança, pai. E eu não estou mais de castigo, lembra?—
—Oh sim, está sim. Começando agora—.
—Por quê?!—
—Porque eu disse que sim—.
—Eu preciso te lembrar de que sou legalmente adulta, Charlie?—
—Essa é a minha casa - você segue as minhas regras!—
O meu olhar ficou frio. —Se é isso que você quer. Você quer que eu me mude essa noite? Ou eu posso ter alguns dias para fazer as malas?—
O rosto de Charlie ficou vermelho brilhante. Eu instantaneamente me senti horrível por usar a tática de me mudar.
Eu respirei fundo e tentei fazer o meu tom ficar mais razoável. —Eu vou ficar de castigo sem reclamar quando eu tiver feito alguma coisa, pai, mas eu não vou pagar pelos seus preconceitos—.
Ele gaguejou, mas conseguiu se manter coerente.
—Agora, eu sei que você sabe que eu tenho todos os direitos de ver a mamãe nos fins de semana. Você não pode me dizer honestamente que estaria contra o plano se eu estivesse indo com Alice ou Ângela—.
—Garotas—, ele rosnou, com um movimento de cabeça.
—Você se incomodaria se eu levasse Jacob?—
Eu só havia escolhido o nome porque eu sabia da preferência do meu pai por Jacob, mas eu rapidamente desejei não o ter feito; os dentes de Edward se trincaram com um estalo audível.
O meu pai lutou pra se recompor antes de responder. —Sim—, ele disse com uma voz que não convencia. —Isso me incomodaria—.
—Você é um péssimo mentiroso, pai—.
—Bella -—
—Não é como se eu estivesse fugindo pra Las Vegas pra ser uma garota de show ou algo assim. Eu vou ver a mamãe—, eu o lembrei. —Ela tem tanta autoridade paterna sobre mim quanto você—.
Ele me passou um olhar contestador.
—Você está implicando alguma coisa sobre a capacidade de mamãe de cuidar de mim?—
Charlie enrijeceu com a ameaça implícita na minha pergunta.
—É melhor você esperar que eu não mencione isso pra ela—, eu disse.
—É melhor você não mencionar—, ele avisou. —Eu não estou feliz com isso, Bella—.
—Não ha nenhum motivo pra você ficar chateado—.
Ele revirou os olhos, mas eu podia sentir que a tempestade estava acabada.
Eu me virei pra tirar o ralo da pia. —Então o meu dever de casa está feito, o seu jantar está pronto, os pratos estão lavados, e eu não estou de castigo. Eu vou sair. Eu vou estar de volta antes das dez e meia—.
—Onde você vai?— O rosto dele, quase de volta ao normal, ficou vermelho de novo.
—Eu não tenho certeza—, eu admiti. —No entanto, eu me manterei num raio de dez milhas. Tudo bem?—
Ele rosnou alguma coisa que não soou como uma aprovação, e marchou pra fora da sala. Naturalmente, assim que terminei de vencer a briga, eu comecei a me sentir culpada.
—Nós vamos sair?—, Edward perguntou, a voz dele estava baixa mas entusiasmada.
Eu me virei para encará-lo. —Sim. Eu acho que gostaria de falar com você a sós—
Ele não pareceu tão apreensivo quanto eu achei que ele deveria estar.
Eu esperei pra começar quando estávamos seguramente no carro dele.
—O que foi aquilo?— Eu quis saber.
—Eu sei que você quer ver a sua mãe, Bella - Você estava falando sobre ela no sono. Preocupada na verdade—.
—Tenho?—
Ele balançou a cabeça. —Mas claramente você era covarde demais pra lidar com Charlie, então eu intercedi em seu nome—.
—Intercedeu? Você atirou para os tubarões!—
Ele rolou os olhos. —Eu não acho que você estava em perigo—.
—Eu te disse que não queria brigar com Charlie—.
—Ninguém disse que você precisava—.
Eu encarei ele. —Eu não consigo me segurar quando ele fica mandão daquele jeito - os meus instintos naturais de adolescente me dominam—.
Ele gargalhou. —Bem, isso não é culpa minha—.
Eu olhei pra ele, especulando. Ele não pareceu notar. O rosto dele estava sereno enquanto ele olhava para o pára-brisa. Algo estava estranho, mas eu não conseguia identificar o que. Ou talvez fosse só a minha imaginação de novo, correndo selvagem como tinha feito essa tarde.
—Essa urgência de ir para a Flórida tem alguma coisa a ver com a festa na casa de Billy?—
A mandíbula dele flexionou. —Absolutamente nada. Não importaria se você estivesse aqui ou do outro lado do mundo, você ainda não iria—.
Era como havia sido com Charlie antes - sendo tratada como uma criança mal comportada. Eu apertei os meus dentes pra não começar a gritar. Eu não queria brigar com Edward também.
Edward suspirou, e quando ele falou a voz dele era cálida e macia novamente. —Então o que você quer fazer essa noite?— ele perguntou.
—Podemos ir à sua casa? Já faz tanto tempo que eu não vejo Esme—.
Ele sorriu. —Ela vai gostar disso. Especialmente quando ela ouvir o que vamos fazer esse fim de semana—.
Eu rosnei em defesa.
Nós não ficamos fora até tarde, assim como eu prometi. Eu não fiquei surpresa de ver as luzes ainda acesas quando nós paramos na frente da casa - eu sabia que Charlie estaria esperando pra gritar um pouco mais comigo.
—É melhor você não entrar—, eu disse. —Isso só vai piorar as coisas—.
—Os pensamentos dele estão relativamente calmos—, Edward zombou. A expressão dele me fez imaginar se havia alguma piada que eu estava perdendo. Os cantos dos lábios dele se contorciam, lutando com um sorriso.
—Eu te vejo mais tarde—, eu murmurei mal humorada.
Ele riu e beijou o topo da minha cabeça. —Eu vou voltar quando Charlie estiver roncando—.
A TV estava alta quando eu entrei. Eu considerei brevemente tentar me arrastar pra passar por ele.
—Você pode vir aqui, Bella?— Charlie chamou, estragando o plano.
Os meus pés se arrastavam enquanto eu dava os cinco passos necessários.
—O que foi, pai?—
—Você se divertiu essa noite?— ele perguntou. Ele parecia doente de tranquilidade. Eu procurei pelos significados nas palavras dele antes de responder.
—Sim—, eu disse hesitantemente.
—O que você fez?—
Eu levantei os ombros. —Saí com Alice e Jasper. Edward venceu Alice no xadrez, e depois eu joguei com Jasper. Ele me enterrou—.
Eu sorri. Edward e Alice jogando xadrez era a coisa mais engraçada que eu já tinha visto. Eles sentavam lá praticamente imóveis, olhando para o tabuleiro, enquanto Alice previa os movimentos que ele faria e ele escolhia fazer os movimentos que ela escolhia em retorno na mente dela. Eles jogavam a maior parte do jogo nas mentes deles; eu acho que eles haviam mexido duas peças quando Alice de repente jogou o rei dela e se rendeu. Tudo isso levou três minutos.
Charlie apertou o botão de —mudo— - uma ação estranha.
—Olha, tem uma coisa que eu preciso dizer— Ele fez uma careta, parecendo muito desconfortável.
Eu sentei ereta, esperando. Ele encontrou meu olhar por um segundo antes de passar os olhos dele para o chão. Ele não disse mais nada.
—O que é, pai?—
Ele suspirou. —Eu não sou bom com esse tipo de coisa. Eu não sei como começar...—
Eu esperei de novo.
—Ok, Bella. O negócio é o seguinte—. Ele se levantou do sofá e começou a andar pra frente e pra trás pela sala, olhando pro pés dele o tempo inteiro.
—Você e Edward parecem ser bastante sérios, e existem coisas com as quais você precisa ter cuidado.. Eu sei que você é uma adulta agora, mas você ainda é jovem, Bella, e existe um monte de coisas importantes que você precisa saber quando você... bem, quando você se envolver fisicamente com -—
—Oh, por favor, por favor não!— eu implorei, ficando de pé. —Por favor me diga que você não está tentando ter uma conversa sobre sexo comigo, Charlie—.
Ele olhou para o chão. —Eu sou o seu pai. Eu tenho responsabilidades. Lembre-se, eu estou tão envergonhado quanto você—.
—Eu não acho que isso seja humanamente possível. De qualquer forma, a mamãe já se encarregou disso a cerca de dez anos atrás. Você está atrasado—.
—Você não tinha um namorado a dez anos atrás—, ele murmurou sem querer. Eu podia reparar que ele estava batalhando com a sua vontade de esquecer o assunto. Nós dois estávamos de pé, olhando para o chão, e desviando o olhar um do outro.
—Eu não acho que as coisas essenciais tenham mudado tanto assim—, eu murmurei, e o meu rosto tinha que estar tão vermelho quanto o dele estava. Isso estava além do sétimo círculo de Hades; pior ainda era me dar conta de que Edward sabia que isso ia acontecer. Não é de admirar que ele estivesse se divertindo no carro.
—Só me diga que você dois estão sendo responsáveis— Charlie implorou, obviamente desejando que um buraco se abrisse no chão pra que ele caísse nele.
—Não se preocupe, pai, não é assim—
—Não que eu não confie em você, Bella, mas eu sei que você não quer me contar nada sobre isso, e você sabe que eu realmente não quero ouvir. No entanto, eu tentarei ser mente aberta. Eu sei que os tempos mudaram—.
Eu ri estranhamente. —Talvez os tempos tenham, mas Edward é muito antiquado. Você não tem nada com o que se preocupar—.
Charlie suspirou. —É claro que ele é—, ele murmurou.
—Ugh!— eu rugi. —Eu realmente queria que você não estivesse me forçando a dizer isso, pai. Realmente. Mas...eu sou... virgem,e eu não tenho planos imediatos para mudar esse status—.
Nós dois enrijecemos, mas ai o rosto de Charlie ficou suave. Ele pareceu acreditar em mim.
—Posso ir a para a cama agora? Por favor?—
—Em um minuto—, ele disse.
—Aw, por favor, pai? Eu estou implorando—.
—A parte embaraçosa já passou, eu prometo—, ele me assegurou.
Eu olhei para ele, e fiquei feliz por ele parecer mais relaxado, que o rosto dele estava de volta a cor regular. Ele afundou no sofá, suspirando de alívio por ele ter passado pelo seu discurso sobre sexo.
—O que é agora?—
—Eu só queria saber como anda aquela coisa de equilíbrio—
—Oh. Bem, eu acho. Eu fiz planos com Ângela hoje. Eu vou ajudar ela com os anúncios da formatura. Só nós garotas—.
—Isso é bom. E quanto a Jake?—
Eu suspirei. —Eu ainda não arranjei isso, pai—.
—Continue tentando, Bella. Eu sei que você fará a coisa certa. Você é uma pessoa boa—.
Isso foi golpe baixo.
—Claro, claro—, eu concordei. A resposta automática quase me fez sorrir - isso foi uma coisa que eu aprendi com Jacob. Eu até usei o mesmo tom padronizado que ele usava com o pai.
Charlie deu um sorriso e religou o som. Ele afundou mais nas almofadas, satisfeito com o seu trabalho dessa noite. Eu podia notar que ele ficaria acompanhando esse jogo por um bom tempo.
—Boa noite, Bells—
—Te vejo de manhã!— Eu corri pelas escadas.
Edward já tinha ido embora a muito tempo e não voltaria até Charlie estar dormindo - ele provavelmente estava lá fora caçando ou fazendo qualquer coisa para passar o tempo - então eu não tive pressa de tirar a roupa para ir pra cama. Eu não estava com humor pra ficar sozinha, mas eu certamente não ia descer e ficar com o meu pai, só no caso de ainda haver algum tópico no assunto do sexo que ele ainda não tenha tocado antes; eu tremi.
Então, graças a Charlie, eu estava ferida e ansiosa. O meu dever de casa estava pronto e eu não estava melodramática o suficiente pra ler ou ouvir música.
Eu considerei ligar para Renée com as notícias da minha visita, mas aí eu me dei conta de que eram três horas a mais na Flórida, e ela devia estar dormindo.
Eu podia ligar pra Ângela, eu achei.
Mas de repente eu me dei conta de que não era com Ângela que eu queria falar. Que eu precisava falar.
Eu olhei para a janela negra vazia, mordendo o meu lábio. Eu não sei quanto tempo eu fiquei lá pesando os prós e os contras - fazer a coisa certa em relação a Jacob, ver o meu amigo mais próximo de novo, ser uma boa pessoa, versus fazer Edward ficar furioso comigo. Dez minutos talvez. Tempo suficiente pra decidir que os prós eram válidos e que os contras não eram. Edward só estava preocupado com a minha segurança, e eu sabia que não havia realmente um problema nesse sentido.
O telefone não ajudava em nada; Jacob se recusava a atender os meus telefonemas desde que Edward retornou.
Além do mais, eu precisava vê-lo - ver ele sorrindo do jeito que ele costumava fazer. Eu precisava repor aquela terrível última memória do rosto dele condoído e se contorcendo de dor se um dia eu quisesse voltar a ter paz de espírito.
Eu provavelmente tinha uma hora. Eu podia ir correndo até La Push e estar de volta antes que Edward se desse conta que eu havia saído. Já passava do meu toque de recolher, mas será que Charlie realmente se preocuparia com isso quando Edward não estava envolvido? Havia um jeito de descobrir.
Eu agarrei o meu casaco e passei os meus braços pelas mangas e corri pelas escadas.
Charlie olhou pra cima do jogo, instantaneamente suspeito.
—Você se importa se eu for ver Jake essa noite?— eu perguntei sem fôlego. —Eu não vou demorar—.
Assim que eu disse o nome de Jake, a expressão de Charlie relaxou em um sorriso bobo. Ele não parecia surpreso pelo discurso dele fazer efeito tão rapidamente. —Claro, guria. Sem problema. Pode ficar fora o quanto quiser—.
—Obrigada, pai—, eu disse enquanto saia pela porta.
Como qualquer fugitiva, eu não pude deixar de olhar por cima do ombro algumas vezes enquanto corria para a minha caminhonete, mas a noite estava tão escura que na verdade não havia sentido nisso. Eu tive que sentir o caminho na lateral da caminhonete até encontrar a maçaneta.
Os meus olhos estavam apenas começando a se ajustar enquanto eu colocava as chaves na ignição. Eu girei elas com força para a esquerda, mas ao invés de ligar rosnando alto, o motor só fez um clique. Eu tentei de novo com os mesmo resultados.
E aí um pequeno movimento na minha visão periférica me fez pular.
—Gah!—, eu ofeguei de choque quando me dei conta de que não estava sozinha na cabine.
Edward estava sentado muito rígido, um fraco ponto brilhante na escuridão, só as mãos dele se moviam enquanto ele girava um misterioso objeto preto pra lá e pra cá. Ele olhava para o objeto enquanto falava.
—Alice ligou—, ele murmurou.
Alice! Droga. Eu tinha me esquecido de levá-la em conta nos meus planos. Ele devia ter pedido pra ela ficar me vigiando.
—Ela ficou nervosa quando o seu futuro desapareceu abruptamente ha cinco minutos atrás—.
Meus olhos, já arregalados de surpresa, abriram ainda mais.
—Porque ela não consegue ver os lobisomens, sabe— ele explicou com o mesmo murmúrio baixo. —Você tinha esquecido isso? Quando você resolve juntar o seu destino ao deles, você desaparece também. Você não podia saber dessa parte, eu me dou conta disso. Mas será que você pode entender que isso pode me deixar um pouco... ansioso? Alice te viu desaparecer, e ela nem podia me dizer se você voltaria pra casa ou não. O seu futuro ficou perdido, assim como o deles.
—Nós não temos certeza de porque isso acontece. Alguma defesa natural com a qual eles nasceram?— Ele falava como se estivesse falando sozinho agora, ainda olhando para o pedaço do motor da minha caminhonete enquanto ele o girava nas mãos.
—Isso não parece ser inteiramente provável, já que eu não tive nenhum problam em ler a mente deles. Da de Black, pelo menos.—
A teoria de Carlisle é de que a vida deles é muito governada pela transformação. É mais uma reação involuntária do que uma decisão. É altamente imprevisível, e isso muda tudo neles. Naquele instante quando eles se transformam de um para outro, eles nem sequer existem. O futuro não pode mantê-los...—
Eu escutei os pensamentos dele em silêncio de pedra.
—Eu vou reconcertar o seu carro a tempo para a escola amanhã, no caso de você querer ir sozinha—, ele me assegurou depois de um minuto.
Com os meus lábios grudados um no outro, eu retirei as minhas chaves rapidamente e saí da cabine rigidamente.
—Feche a janela se você quiser que eu fique longe essa noite. Eu vou entender—, ele sussurrou bem antes de eu bater a porta.
Eu entrei em casa, batendo a porta também.
—Qual é o problema?— Charlie quis saber do sofá.
—A caminhonete não quer ligar—, eu rosnei.
—Quer que eu dê uma olhada?—
—Não. Eu vou tentar de manhã—.
—Quer usar o meu carro?—
Eu não devia dirigir a viatura policial dele. Charlie devia estar muito desesperado pra eu ir à La Push. Quase tão desesperado quanto eu estava.
—Não. Eu estou cansada—, eu murmurei. —Boa noite—.
Eu subi as escadas me arrastando, e fui direto para a minha janela. Eu puxei e estrutura de metal com força - ela bateu quando fechou e o vidro tremeu.
Eu olhei para o vidro negro tremendo por um longo momento, até que ele parou. Aí eu suspirei e abri a janela o máximo que ela podia abrir.

12 comentários:

  1. Fernanda Boaventura12 de outubro de 2015 14:20

    kkkkkkkkkkkkkkk Essa parte é hilária!

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  2. " Eu subi as escadas me arrastando, e fui direto para a minha janela. Eu puxei e estrutura de metal com força - ela bateu quando fechou e o vidro tremeu.
    Eu olhei para o vidro negro tremendo por um longo momento, até que ele parou. Aí eu suspirei e abri a janela o máximo que ela podia abrir." kkkkk muito minh cara!

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  3. Há Bela .

    Assi: Apaixonada por livros.

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  4. Aquele momento q fico tipo "Miga, se decide" 😂😂

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  5. A ultima parte foi hilaria kkkkkk e o amor!

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    1. Eu manteria as janelas fechadas! Edward é muito mandão e possessivo!

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  6. Muito engraçada essa parte!!! kkkkkkkkkkkkkkkkk

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  7. Eu ri mas ao mesmo tempo morri de amores por que ela não consegue ficar com tanta raiva dele♥

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  8. por mim, a bella deveria deixar o jacob em paz e viver feliz com o edward. q saco. desse jeito ela só faz o vampiro sofrer...

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  9. Eu concordo plenamente. As vezes eu fico com raiva do Jacob existir, ele só atrapalha a vida da Bella e do Edward JUNTOS...S2 (Minha opinião)

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  10. Se eu fosse a Bella eu fecharia as janelas e as deixaria fechadas! O Edward é muito mandão!

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  11. A escritora tem que decidir se os labios de Edward são duros como o mármore ou se são macios.... Estou ficando confusa....

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