30 de setembro de 2015

Capítulo 1

Bem quando eu achei que meu dia não podia ficar pior, vi o cara morto parado perto do meu armário. Kayla estava falando besteiras sem parar na sua tagarelice usual, e ela nem o notou. No início. Na verdade, agora que penso sobre isso, ninguém o notou até que ele falou o que é, tragicamente, mais uma evidência da minha incapacidade de me ajustar.
— Não, mas Zoey, eu juro por Deus. Heath não ficou tão bêbedo depois do jogo. Você não deveria ser tão dura com ele.
— É — eu disse distraída. — Claro.
Então eu tossi. De novo. Eu me sentia como lixo. Devo estar pegando aquilo que o Sr. Wise, meu professor meio louco de biologia chama de Praga Adolescente. Se eu morrer, escapo do meu teste de geometria amanhã? Uma pessoa pode sonhar.
— Zoey, por favor. Você está ouvindo? Acho que ele só tomou sei lá, quatro – ou talvez seis – cervejas, e tipo umas três doses. Mas isso está completamente fora de questão. Ele provavelmente nem teria tomado nada daquilo se seus pais idiotas não tivessem feito você ir pra casa logo depois do jogo.
Nós partilhamos um olhar longo e sofrido, em total concordância sobre a última injustiça cometida contra mim por minha mãe e o meu padrasto-perdedor com quem ela se casou há três longos anos. Então, depois de meio suspiro, K estava de volta a sua tagarelice.
— E mais, ele estava celebrando. Quero dizer, nós vencemos o Union! — K balançou meus ombros e pôs o rosto perto do meu. — Olá! Seu namorado...
— Meu quase namorado — eu a corrigi, tentando não tossir nela.
— Tanto faz. Heath é nosso quarterback, então é claro que ele ia celebrar. Fazia tipo um milhão de anos desde que a Broken Arrow derrotou o Union.
— Dezesseis anos — eu sou péssima em matemática, mas a matemática de K faz a minha parecer genial.
— De novo, tanto faz. O ponto é, ele estava feliz. Você deveria dar um tempo a ele.
— O ponto é que ele estava bêbado pela quinta vez essa semana. Sinto muito, mas não quero sair com um cara cuja maior preocupação na vida mudou de tentar jogar futebol para a faculdade a tentar beber um Pack de cerveja sem vomitar.
Eu tive que parar para tossir. Estava me sentindo um pouco tonta e me forcei a respirar devagar quando o ataque de tosse parou. Não que a tagarela da K tenha notado.
— Eca! Heath gordo! Não é um visual que eu queira ver.
Consegui ignorar mais uma vontade de tossir.
— E beijá-lo é como beijar um pé ensopado de álcool.
K levantou o rosto.
— Ok, nojento. Pena que ele é tão gostoso.
Eu revirei os olhos, sem me incomodar em tentar esconder meu aborrecimento com a típica superficialidade dela.
— Você é tão mal-humorada quando está doente. De qualquer forma, você não tem ideia do quão cachorro perdido o Heath parecia depois que você o ignorou no almoço. Ele não podia nem mesmo...
Então eu o vi. O cara morto. Ok, eu percebi bem rápido que ele não era tecnicamente um “morto.” Ele era um morto vivo. Ou não humano. Tanto faz. Cientistas dizem uma coisa, pessoas dizem outra, mas o resultado final é o mesmo. Não tinha erro sobre o que ele era e mesmo que eu não tivesse sentido o poder e as trevas que irradiavam dele, não tinha jeito que eu pudesse ignorar a Marca, a lua crescente cor de safira em sua testa e a tatuagem adicional que emoldurava seus olhos igualmente azuis.
Diabos, que merda! Ele estava perto do meu armário.
— Zoey você não está me ouvindo!
Então o vampiro falou e suas palavras cerimoniais cruzaram o espaço entre nós, perigoso e sedutor, como sangue misturado com chocolate derretido.
“Zoey Montgomery! A noite escolheu-te; tua morte será teu nascimento. A noite chama-te; Escuta a doce voz Dela. Teu destino te aguarda na House of Night!”
Ele levantou um dedo longo e branco e apontou para mim. Enquanto minha testa explodia de dor, Kayla abriu sua boca e gritou.
Quando os pontos brancos finalmente saíram dos meus olhos eu olhei pra cima e vi o rosto sem cor de K me olhar. Como sempre, eu disse a primeira coisa ridícula que veio na minha mente. — K, seus olhos estão saltados para fora da sua cabeça como um peixe.
— Ele Marcou você. Oh, Zoey! Você tem o contorno daquela coisa na sua testa! — Então ela pressionou uma mão tremula contra seus lábios brancos, falhando em segurar o choro.
Eu sentei e tossi. Eu tinha uma dor de cabeça que estava me matando, e eu esfreguei o ponto bem entre minhas sobrancelhas. Ela estava pinicando como se uma vespa tivesse me mordido e irradiava dor para os meus olhos, até as minhas bochechas. Eu senti que talvez fosse vomitar.
— Zoey! — K estava realmente chorando agora e tinha que falar entre soluços. — Oh. Meu. Deus. Aquele cara era um rastreador - um vampiro Rastreador!
— K. — Eu pisquei com força, tentando limpar a dor da minha cabeça. — Pare de chorar. Você sabe que eu odeio quando você chora. — Eu me ergui tentando dar uma palmada reconfortante nos ombros dela. E ela automaticamente contraiu os músculos, e se afastou de mim.
Eu não podia acreditar. Ela tinha mesmo se contraído, como se ela tivesse medo de mim. Ela deve ter visto a magoa nos meus olhos porque ela instantaneamente começou a tagarelar.
— Oh Deus, Zoey! O que você vai fazer? Você não pode ir para aquele lugar. Você não pode ser uma daquelas coisas. Isso não pode estar acontecendo! Com quem eu devo ir a todos aqueles jogos de futebol?
Eu notei que durante todo seu discurso ela nem uma vez se aproximou de mim. Eu me senti doente, e magoada ameaçava começar a chorar. Meus olhos secaram imediatamente. Eu era boa em esconder lágrimas. Eu deveria ser; eu tive três anos pra ficar boa nisso.
— Está tudo bem. Eu vou descobrir o que fazer. Provavelmente é algum... Algum erro bizarro. — eu menti. Eu não estava realmente falando, eu estava só fazendo palavras saírem da minha boca.
Ainda fazendo careta por causa da dor em minha cabeça, eu levantei. Olhando ao redor eu senti um pouco de alivio que K e eu éramos as únicas no corredor, então eu tive que segurar o que eu sabia que era uma risada histérica.
Se eu não tivesse completamente enlouquecido por causa da prova de geometria dos infernos de amanhã, e não tivesse voltado para o meu armário para pegar meus livros para que eu pudesse tentar obsessivamente (e sem conseguir) estudar hoje à noite, o Rastreador teria me encontrado parada no lado de fora da escola com mais ou menos mil e trezentos adolescentes que iam para o colégio Broken Arrow esperando pelo o que a minha irmã estupidamente parecia com a Barbie gostava de chamar de “as grandes e amarelas limusines.”
Eu tenho um carro, mas ficar com os menos afortunados que tem que andar de ônibus é uma tradição honrada, sem mencionar que é um jeito excelente de ver quem está dando em cima de quem. Como era, só tinha mais um garoto parado no corredor - um idiota alto com dentes problemáticos, que eu não pude, infelizmente, ver muito porque ele estava parado lá com sua boca aberta me encarando como se eu tivesse dado a luz a porcos voadores.
Eu tossi de novo, dessa vez realmente forte, tosse nojenta. O idiota fez um som agudo e correu pelo corredor até a sala da Sra. Day agarrado a uma tábua que ele pôs no peito. Parece que o clube de xadrez tinha mudado suas reuniões para segundas depois da aula.
Vampiros jogam xadrez? Teria vampiros CDF´S? E que tal líderes de torcida parecidas com a Barbie? Vampiros tocavam numa banda? Existiam vampiros emo com aquela esquisitice de caras usando calças para garotas e aquelas franjas horríveis para cobrir metade do rosto deles?
Ou eles são todos aqueles góticos esquisitos que não gostavam de tomar muito banho? Eu iria me transformar numa Gótica? Ou pior, num Emo? Eu não gostava muito de usar preto, pelo menos não exclusivamente, e eu não estava sentindo uma repentina aversão a sabonete ou água, e também não tinha um desejo obsessivo de mudar meu corte de cabelo e usar muito delineador.
Tudo isso girava na minha mente enquanto eu sentia outra histérica risada tentando escapar da minha garganta, e eu fiquei quase agradecida quando saiu como uma tosse.
— Zoey? Você está bem? — A voz de Kayla parecia muito alta, como se alguém estivesse aumentando ela, e ela deu outro passo para longe de mim.
Eu suspirei e senti raiva. Não era como se eu tivesse pedido por isso. K e eu éramos amigas desde a terceira série, e agora ela estava olhando para mim como se eu tivesse me transformado em um monstro.
— Kayla, sou só eu. A mesma que eu era dois segundos atrás e duas horas atrás e dois dias atrás. — Eu fiz um gesto frustrante para a minha cabeça dolorida. — Isso não muda quem eu sou!
Os olhos de K se encheram de lágrimas de novo, mas graças a Deus, o telefone dela começou a cantar “Material Girl” da Madonna. Automaticamente, ela olhou para o identificador de chamada. Eu podia notar pelo seu olhar que era o seu namorado, Jared.
— Vai nessa — eu disse numa voz chata e cansada. — Vá pra casa com ele. — Seu olhar de alivio foi como um tapa na minha cara.
— Me liga depois? — Ela saiu correndo pelo corredor.
Eu observei ela se apressar até o estacionamento. Eu podia ver que ela tinha seu telefone amassado em seu ouvido e ela estava falando animada com Jared. Eu tenho certeza que ela já estava contando pra ele que eu tinha virado um monstro.
O problema é claro, de me transformar em um monstro era o brilho das minhas duas opções.
Opção número 1: Eu viro um vampiro, o que é igual a um monstro na mente humana. Opção número 2: Meu corpo rejeita a Mudança e eu morro. Pra sempre.
Veja a boa notícia é que eu não ia ter que fazer o teste de geometria amanhã. A má notícia é que eu tinha que me mudar para a House Of Night, um internato em Tulsa, conhecido pelos meus amigos como a Escola Particular dos Vampiros, onde eu passaria os próximos quatro anos passando por mudanças físicas bizarras, assim como uma mudança total e permanente na minha vida. E isso apenas se todo o processo não me matasse.
Ótimo. Eu não queria isso também. Eu só queria tentar ser normal, apesar dos pais mega-conservadores, meu irmão mais novo parecido com um troll, e minha tão perfeita irmã mais velha. Eu queria passar em geometria. Eu queria manter minhas notas altas para que eu pudesse ser aceita na faculdade veterinária da OSU e queria sair de Broken Arrow, Oklahoma.
Mas o principal, eu queria me encaixar - pelo menos na escola. Minha casa era sem esperança, então tudo que eu tinha eram meus amigos e minha vida longe da minha família. Agora tudo estava sendo tirado de mim, também. Eu esfreguei minha testa e então mexi no meu cabelo até que ele cobrisse meus olhos em parte, e, com alguma sorte, a marca que aparecia em cima deles. Mantendo minha cabeça abaixada, como se eu estivesse fascinada pela meleca que grudou na minha boca, eu corri em direção à porta que levava para o estacionamento.
Mas eu parei assim que cheguei lá fora. Pelas janelas lado a lado do meu pude ver Heath. As garotas se amontoavam perto dele, fazendo pose e virando seus cabelos, enquanto os caras colocavam em movimentos picapes ridiculamente enormes e tentavam (e quase falhavam) parecer legais. E eu escolhi aquilo para me sentir atraída? Não, para ser honesta comigo mesma eu deveria lembrar que Heath costumava ser incrivelmente doce, e mesmo agora ele tinha seus momentos. Principalmente quando ele estava sóbrio.
Garotas afetadas se viraram pra mim no estacionamento. Ótimo. Kathy Richter, a maior vadia da escola, estava fingindo beijar Heath. Mesmo de onde eu estava parada era óbvio que ela pensava que dar em cima dele era algum timo de ritual de acasalamento. Como sempre, sem notar Heath estava só parado lá rindo. Bem, diabo não iria ficar melhor. E meu Bug azul VW 1966 estava bem no meio deles. Não. Eu não podia ir até lá. Eu não podia andar até o meio deles com aquela coisa na minha testa. Eu nunca seria capaz de ser parte deles de novo. Eu já sabia muito bem o que eu tinha que fazer. Eu lembrava do último garoto que um Rastreador tinha escolhido na escola.
Começou no início do ano escolar ano passado. O Rastreador tinha vindo antes de a aula começar e tinha apontado para o garoto enquanto ele estava andando para seu primeiro período. Eu não vi o Rastreador, mas eu vi o garoto depois, por só um segundo, depois que ele derrubou seus livros e saiu correndo do prédio, sua nova Marca brilhado na sua testa pálida e lágrimas correndo por suas bochechas. Eu nunca esqueci o quão lotado os corredores estavam àquela manhã, e como todos se afastaram dele como se ele tivesse a peste negra enquanto ele corria para escapar da escola. Eu tinha sido um dos que se afastaram dele e o encararam, apesar de sentir pena dele. Eu só não queria ser rotulada como a única garota que era amiga daquelas aberrações. Meio irônico agora, não é?
Ao invés de ir para o meu carro eu fui para o restaurante mais próximo, que estava, graças a Deus, vazio. Havia três bancos - sim, eu chequei cada um duas vezes. Na parede havia duas pias, e que em cima estavam perdurados dois espelhos de tamanho médio. Do outro lado da pia o lado oposto da parede era coberto com um grande espelho que tinha uma prateleira abaixo para colocar maquiagem ou qualquer coisa assim. Eu coloquei minha bolsa e meu livro de geometria na prateleira, respirei fundo, e em um movimento levantei minha cabeça e tirei o cabelo do rosto.
Era como olhar para o rosto de um estranho familiar. Sabe aquela pessoa que você vê numa multidão e jura que conhece, mas na verdade não conhece? Agora ela era eu – a estranha familiar.
Ela tinha meus olhos. Tinha aquela mesma cor que nunca consegue decidir se é verde ou marrom, mas meus olhos nunca foram grandes e redondos. Ou eles eram? Ela tinha meu cabelo - comprido e reto e quase tão escuro quanto o da minha avó tinha sido antes dele começar a ficar branco. A estranha tinha minhas bochechas, um longo e forte nariz, e uma boca larga - mais características da minha avó e dos seus ancestrais Cherokee. Mas meu rosto nunca foi tão pálido. Ele sempre foi meio azeitonado, uma cor muito mais escura que qualquer um na minha família. Mas talvez não fosse minha pele que de repente estava tão branca... Talvez só parecesse mais pálida em comparação com as linhas azul escuro que desenhavam uma lua crescente que estava perfeitamente posicionada no meio da minha testa. Ou talvez fosse aquela terrível luz fluorescente. Eu esperava que fosse a luz.
Eu encarei aquela exótica tatuagem. Misturada com minhas feições fortes dos Cherokee parecia me dar um toque de selvagem... Como se eu pertencesse a uns tempos antigos quando o mundo era maior... Mais bárbaro.
Desse dia em diante minha vida nunca seria a mesma. E por um momento – só um instante – eu esqueci o horror de não pertencer a lugar nenhum e senti uma chocante explosão de prazer, enquanto profundamente dentro de mim o sangue do povo da minha avó se alegrava.

19 comentários:

  1. sinistro!! e interessante!!

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  2. Eba! Voltou :-)

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  3. Karina. Como vc faz para ter mais páginas no seu blog?

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  4. respondo o que achei, depois de ler o livro inteiro,nada de resultados precipitados.,mas gostei do capitulo

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  5. A marca de vampiro tinha que aparecer bem grande e brilhante logo no meio da testa ? Que azar

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  6. Hã ???? Tipo hã ?????Eles todos sabem da Nix ???
    Tipo HÃ ????????
    Lembrei a Piper !!!!! Ambas cherokee !!!!
    Mas , tipo ... HÃ ???????

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    1. TB lembrei da Piper na parte do cherokee

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  7. Gente q do dela com uma lua no meio da testa e bem brilhante!! To começando a gostar do livro!!

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  8. Amp muitoooo essa saga ja e a 4 vez que estou lendo e nunca me canso ❤❤ zoey ❤

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  9. House of Night a melhor série de livros,que eu já li! Amo e amo Zoey Redbird <3

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  10. Alguém me ajuda?
    Qual os gêneros desse livro?

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    1. Romance, ficção, fantasia, amizade, vampiros

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  11. Haha, ganhei a destinada hoje só que é a primeira vez q estou lendo essa saga , então pra ler oq ganhei preciso ler os primeiros *.*

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  12. Pera... O povo da avó dela se alegrava?
    Tá bom entao...
    Mas tadinha. Uma marca bem no meio da testa? Gzuis.

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  13. eba, serie nova (pra mim) vms la kkk
    nix? tipo a nix? kkkkkkkkk FOOOOOOOOOODAAA

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