29 de setembro de 2015

Capítulo 19 - Queimando

A dor era atordoante.
Exatamente isso – eu estava atordoada. Não conseguia entender, não conseguia perceber o que estava acontecendo.
Meu corpo tentava rejeitar a dor, e eu era sugada repetidas vezes para uma escuridão que apagava segundos ou, talvez, até minutos inteiros da agonia, tornando ainda mais difícil acompanhar a realidade.
Tentei separá-las.
A não realidade era escura e não doía tanto.
A realidade era vermelha e me trazia a sensação de estar sendo serrada ao meio, atropelada por um ônibus, nocauteada por um campeão de boxe, pisoteada por touros e mergulhada em ácido, tudo ao mesmo tempo.
A realidade era sentir meu corpo se retorcer e saltar quando eu nem ao menos conseguia me mexer, devido à dor.
A realidade era saber que havia algo infinitamente mais importante do que aquela tortura e não conseguir lembrar o que era.
A realidade chegara rápido demais.
Em um momento, tudo era como devia ser. Eu estava cercada das pessoas que amava. De sorrisos. De certo modo, por mais incrível que fosse, parecia que eu estava prestes a conseguir tudo por que vinha lutando.
E, então, uma coisa mínima e inconsequente dera errado.
Eu vira meu copo tombar, o sangue escuro se derramando e manchando o branco perfeito, e me inclinara para pegar o copo por reflexo. Tinha visto as outras mãos mais rápidas, mas meu corpo continuava a tentar alcançar, a se esticar...
Dentro de mim, algo se moveu na direção oposta.
Rasgando. Rompendo. Agonia.
A escuridão havia tomado conta de mim, depois dera lugar a uma onda de tortura. Eu não conseguia respirar – já havia me afogado antes, mas aquilo era diferente; minha garganta estava quente demais.
Partes de mim se despedaçavam, rompiam-se, separavam-se... Mais escuridão.
Vozes, dessa vez gritos, enquanto a dor voltava. “A placenta deve ter se descolado!”
Alguma coisa mais afiada do que faca me rasgou – as palavras, fazendo sentido apesar das outras torturas. Placenta descolada – eu sabia o que significava. Significava que meu bebê estava morrendo dentro de mim.
“Tirem ele!”, gritei para Edward. Por que ele não ainda não tinha feito isso? “Ele não consegue respirar! Tirem agora!”
“A morfina...”
Ele queria esperar, me dar analgésicos, enquanto nosso filho estava morrendo?!
“Não! Agora...” Eu sufoquei, incapaz de terminar a frase.
Manchas pretas bloqueavam a luz da sala quando um ponto gélido de uma nova dor apunhalou meu estômago como gelo. Parecia errado – lutei, automaticamente, para proteger meu útero, meu bebê, meu pequeno Edward Jacob, mas eu estava fraca. Meus pulmões doíam, o oxigênio se esgotava.
A dor cedeu de novo, embora agora eu me agarrasse a ela. Meu bebê, meu bebê, morrendo...
Quanto tempo havia se passado? Segundos ou minutos? A dor se fora. Torpor. Eu não conseguia sentir. Ainda não conseguia ver também, mas podia ouvir. Havia ar em meus pulmões novamente, bolhas ásperas descendo e subindo por minha garganta, arranhando.
“Agora fique comigo, Bella! Está me ouvindo? Fique! Você não vai me deixar. Mantenha seu coração batendo!”
Jacob? Jacob, ainda ali, ainda tentando me salvar.
É claro, eu queria dizer a ele. É claro que eu ia manter meu coração batendo. Eu não tinha prometido isso aos dois? Tentei sentir meu coração, encontrá-lo, mas estava completamente perdida dentro de meu próprio corpo. Não conseguia sentir as coisas que deveria, e nada parecia estar no lugar certo. Pisquei e encontrei meus olhos. Eu podia ver a luz. Não era o que eu procurava, mas era melhor do que nada.
Enquanto meus olhos lutavam para entrar em foco, Edward suspirou: “Renesmee.”
Renesmee?
Não era o menino pálido e perfeito de minha imaginação? Senti um momento de choque. E, depois, uma onda de ternura.
Renesmee.
Forcei meus lábios a se moverem, forcei as bolhas de ar a se transformarem em sussurros em minha língua. Obriguei minhas mãos entorpecidas a “Me deixe... Me dê ela aqui.”
A luz dançou, refletindo-se nas mãos de cristal de Edward. As centelhas eram tingidas de vermelho, com o sangue que cobria sua pele. E havia vermelho em suas mãos. Alguma coisa pequena se debatendo, gotejando sangue. Ele colocou o corpo quente em meus braços fracos, quase como se eu o estivesse segurando. A pele molhada era quente – tão quente quanto a de Jacob.
Meus olhos focalizaram; de repente tudo ficou absolutamente claro.
Renesmee não chorou, mas respirava num arfar rápido e sobressaltado. Seus olhos estavam abertos, a expressão tão assustada que era quase engraçada. A cabecinha perfeitamente redonda era coberta por uma grossa camada de cachos emaranhados e sangrentos. Suas íris eram de um tom chocolate familiar – mas impressionante. Sob o sangue, a pele parecia clara, de um marfim cremoso. Tudo, exceto as bochechas, que ardiam de cor.
Seu rostinho mínimo era tão perfeito que me deixou atordoada. Ela era ainda mais bonita do que o pai. Inacreditável. Impossível.
— Renesmee — sussurrei. — Tão... linda.
O rosto inacreditável de repente sorriu – um sorriso largo e consciente. Por trás dos lábios cor-de-rosa estavam duas fileiras completas de dentes de leite branquinhos.
Ela encostou a cabeça em meu peito, enroscando-se no calor. Sua pele era quente e macia, mas não cedia como a minha.
Então houve dor de novo – um golpe único e quente. Eu arfei.
E ela se foi. Meu bebê com carinha de anjo não estava em lugar nenhum. Eu não podia vê-la nem senti-la.
Não!, eu queria gritar. Devolva minha filha!
Mas a fraqueza era demais. Por um momento meus braços pareceram mangueiras de borracha vazias, depois não pareciam mais nada. Eu não os sentia. Não conseguia me sentir.
A escuridão cobriu meus olhos, mais densa do que antes. Como uma venda grossa firme e rápida. Cobrindo não só meus olhos, mas todo o meu eu com um peso esmagador. Era exaustivo lutar contra aquilo. Eu sabia que seria muito mais fácil ceder. Deixar que a escuridão me empurrasse para baixo, cada vez mais fundo, até um lugar em que não havia dor, cansaço, preocupação nem medo. Se fosse apenas por mim, eu não teria sido capaz de lutar por muito tempo, era apenas humana, não tinha mais que a força humana. Eu vinha tentando conviver com o sobrenatural por tempo demais, como dissera Jacob. Mas aquilo não se referia apenas a mim.
Se naquele instante eu escolhesse o caminho fácil, se deixasse a escuridão do nada me apagar, eu os faria sofrer.
Edward. Edward. Minha vida e a dele estavam entrelaçadas, formando um único fio. Corte um e estará cortando ambos. Se ele se fosse, eu não conseguiria sobreviver. Se eu partisse, ele tampouco sobreviveria. E um mundo sem Edward não fazia sentido nenhum. Edward tinha de existir.
Jacob – que me dissera adeus repetidas vezes, mas que sempre voltava quando eu precisava dele. Jacob, que eu magoara tantas vezes que chegava a ser criminoso. Eu o magoaria de novo, da pior maneira possível? Ele tinha ficado por minha causa, apesar de tudo. Agora, tudo o que ele pedia era que eu ficasse, por ele.
Mas estava tão escuro ali que eu não conseguia ver o rosto de nenhum dos dois. Nada parecia real. Isso tornava mais difícil não desistir.
Ainda assim, continuei lutando contra a escuridão, quase por reflexo. Eu não tentava erguê-la. Só resistia. Não permitia que me esmagasse completamente. Eu não era Atlas, e a escuridão tinha o peso de um planeta; eu não podia sustentá-la nos ombros. Tudo que podia fazer era não ser inteiramente aniquilada.
Esse era mais ou menos o padrão de minha vida – eu nunca fora forte o bastante para lidar com as coisas que estavam fora de meu controle, atacar os inimigos ou superá-los. Evitar a dor. Sempre humana e fraca, a única coisa de que eu capaz era continuar. Suportar. Sobreviver. Até ali tinha sido suficiente. Teria de ser suficiente de novo. Eu suportaria aquilo até que a ajuda chegasse.
Eu sabia que Edward faria tudo que fosse possível. Ele não desistiria. Mantive a escuridão da não existência a uma distância de centímetros.
Aquela determinação, porém, não bastava. Enquanto o tempo diminuía cada vez mais, e as trevas me ganhavam por milímetros, eu precisava de algo mais de onde tirar forças.
Não conseguia evocar nem o rosto de Edward em minha mente. Nem os de Jacob, Alice, Rosalie, Charlie, Renée, Carlisle ou Esme... Nada. Isso me apavorou, e me perguntei se era tarde demais.
Eu me senti escorregando – não havia nada em que me segurar.
Não! Eu tinha de sobreviver àquilo. Edward dependia de mim Jacob, Charlie, Alice, Rosalie, Carlisle, Renée, Esme...
Renesmee.
E então, embora eu ainda não conseguisse ver nada, de repente pude sentir uma coisa. Como membros fantasmas, imaginei que pudesse sentir meus braços de novo. E, neles, alguma coisa pequena, sólida e muito, muito quente.
Meu bebê. Minha pequena cutucadora.
Eu tinha conseguido. Contrariando todas as probabilidades, fora bastante forte para sobreviver a Renesmee, para mantê-la até que ela fosse forte o suficiente para viver sem mim.
Aquele foco de calor em meus braços fantasmas parecia muito real. Eu o apertei contra o peito. Era exatamente onde meu coração devia estar. Agarrando-me com firmeza à lembrança calorosa de minha filha, eu sabia que seria capaz de combater a escuridão pelo tempo que fosse necessário.
O calor junto ao meu coração foi ficando cada vez mais real, aquecendo cada vez mais. Mais quente. O calor era tão real que era difícil acreditar que eu o estivesse imaginando.
Mais quente.
E, então, estava desagradável. Quente demais. Muito, muito quente.
Era como pegar o lado errado de um baby-liss – minha reação automática foi soltar a coisa escaldante de meus braços. Mas não havia nada em meus braços. Eles não estavam dobrados junto ao meu peito. Meus braços eram peças mortas que jaziam em algum lugar ao meu lado. O calor estava dentro de mim.
O ardor cresceu – aumentou, foi ao máximo, depois tornou a aumentar até que suplantou qualquer coisa que eu já sentira na vida.
Senti a pulsação por trás do fogo devorar meu peito e percebi que tinha encontrado meu coração, bem a tempo de desejar o contrário. De desejar ter abraçado a escuridão enquanto ainda havia essa possibilidade. Queria levantar os braços e rasgar meu peito, arrancar o coração dali – qualquer coisa para me livrar daquela tortura. Mas não conseguia sentir meus braços, não conseguia mover um único dedo.
James, quebrando minha perna sob seu pé. Aquilo não fora nada. Era um lugar macio numa cama de plumas. Preferiria aquilo, multiplicado por cem. Cem fraturas. Eu aceitaria, e ficaria grata.
O bebê, quebrando minhas costelas, abrindo caminho dentro de mim, pedaço por pedaço. Aquilo não era nada. Era como flutuar numa piscina de água fria. Preferiria aquilo multiplicado por mil. Aceitaria, e ficaria grata.
O fogo ardeu mais quente e eu quis gritar. Implorar para que alguém me matasse antes que eu vivesse mais um segundo daquela dor. Mas não consegui mover meus lábios. O peso ainda estava ali, me comprimindo.
Percebi que não era a escuridão que me prendia à mesa; era meu corpo. Pesado demais. Enterrando-me nas chamas que agora abriam caminho a dentadas a partir do meu coração, propagando-se com uma dor insuportável pelos ombros e pela barriga, escaldando minha garganta, lambendo meu rosto.
Por que eu não conseguia me mexer? Por que não conseguia gritar? Aquilo não estava nas histórias. Minha mente estava insuportavelmente lúcida – aguçada pela dor feroz – e eu encontrei a resposta quase no mesmo instante em que formulei s perguntas.
A morfina.
Parecia que tínhamos discutido aquilo um milhão de mortes atrás – Edward, Carlisle e eu. Edward e Carlisle tinham esperança de que uma quantidade suficiente de analgésico ajudasse a combater a dor do veneno. Carlisle havia tentado com Emmett, mas o veneno tinha queimado mais rápido que remédio, selando-lhe as veias. Não houvera tempo para que o analgésico espalhasse.
Eu havia mantido a expressão tranquila, balançado a cabeça – e agradecia às minhas raras estrelas da sorte por Edward não poder ler minha mente.
Porque eu já tivera morfina e veneno juntos em meu corpo, e sabia a verdade. Sabia que o torpor do remédio era completamente irrelevante com o veneno incendiando minhas veias. Mas não iria mencionar esse fato. Nem nada que deixasse Edward menos disposto a me transformar.
Não tinha imaginado que a morfina teria aquele efeito – de me imobilizar e amordaçar. De me manter paralisada enquanto eu queimava.
Eu conhecia todas as histórias. Sabia que Carlisle tinha ficado em silêncio enquanto ardia, para evitar ser descoberto. Sabia que, segundo Rosalie, não ajudaria em nada gritar. E esperara que talvez pudesse ser como Carlisle. Que pudesse acreditar nas palavras de Rosalie e mantivesse a boca fechada. Porque eu sabia que cada grito que escapasse de meus lábios seria um tormento para Edward.
Agora parecia uma piada de mau gosto que eu tivesse meu desejo atendido.
Se não conseguia gritar, como diria a eles que me matassem?
Tudo o que eu queria era morrer. Nunca ter nascido. Toda a minha existência não compensava aquela dor. Não valia a pena suportar aquilo nem por mais um batimento cardíaco.
Deixem-me morrer, deixem-me morrer, deixem-me morrer.
E por um período interminável era só o que havia. Só a tortura causticante e meus gritos mudos, implorando pela morte. Nada mais, nem mesmo o tempo – o que tornava aquilo infinito, sem início nem fim. Um momento infinito de dor.
A única mudança veio quando de repente, inacreditavelmente, a dor duplicou. A metade inferior do meu corpo, entorpecida desde antes da morfina, de repente também estava em chamas. Alguma conexão rompida tinha sido curada – refeita pelos dedos abrasadores do fogo.
O ardor interminável prosseguia em sua fúria.


Poderiam ter sido segundos ou dias, semanas ou anos, mas por fim o tempo voltou a significar alguma coisa.
Três coisas aconteceram simultaneamente, surgindo uma da outra de modo que eu não sabia dizer o que veio primeiro: o tempo voltou a passar, o peso da morfina diminuiu e eu fiquei mais forte.
Podia sentir o controle de meu corpo me voltando progressivamente, e esses foram meus primeiros sinais da passagem do tempo. Soube disso quando fui capaz de contrair os dedos dos pés e fechar as mãos. Eu soube, mas não fiz nada disso.
Embora o fogo não tivesse abrandado nem um grau – na verdade, comecei a desenvolver uma nova capacidade de vivenciá-lo, uma nova sensibilidade para apreciar, separadamente, cada chama devastadora que lambia minhas veias – descobri que podia pensar em meio àquilo.
Pude lembrar por que não devia gritar. Pude me lembrar do motivo pelo que estava empenhada em suportar aquela agonia intolerável. Pude me lembrar de que havia algo que talvez valesse a tortura, embora naquele momento parecesse impossível.
Isso aconteceu a tempo de eu me segurar quando os pesos livraram meu corpo. Para qualquer um que me observasse, não haveria mudança nenhuma. Mas para mim, enquanto lutava para manter os gritos e os movimentos convulsivos presos dentro de mim, onde não podiam causar sofrimento a mais ninguém, era como se eu tivesse deixado de estar presa a uma estaca na fogueira e passado a me agarrar a essa estaca, para me manter no meio das chamas.
Eu tinha força suficiente para ficar deitada ali, imóvel, enquanto era queimada viva. Minha audição estava cada vez mais clara, e eu podia contar o batimento frenético do meu coração para marcar o tempo.
Eu podia contar a respiração fraca que arfava através dos meus dentes.
Podia contar a respiração baixa e regular que vinha de algum lugar bem perto de mim. Essa era mais lenta, então me concentrei nela. Significava mais tempo passando. Mais regular que um pêndulo de relógio, essa respiração me impelia pelos segundos abrasadores na direção do fim.
Continuei a ficar mais forte, meus pensamentos, mais claros. Quando novos ruídos surgiam, eu podia ouvi-los.
Ouvi passos leves, o sussurro do ar deslocado por uma porta que se abria. Os passos ficaram mais próximos e senti a pressão na face interna de meu pulso. Não consegui sentir a frieza dos dedos. O fogo afugentava toda e qualquer lembrança do frio.
— Nenhuma mudança ainda?
— Nenhuma.
Uma pressão levíssima, a respiração contra minha pele em brasa.
— Não há mais cheiro de morfina.
— Eu sei.
— Bella? Pode me ouvir?
Eu sabia, sem dúvida nenhuma, que se destrinçasse os dentes estaria perdida – iria gritar, berrar, me retorcer, me debater. Se abrisse os olhos, se mexesse um dedo que fosse – qualquer mudança seria o fim do meu controle.
— Bella? Bella, amor? Pode abrir os olhos? Pode apertar minha mão?
A pressão em meus dedos. Era mais difícil não reagir àquela voz, mas continuei paralisada. Sabia que a dor na voz dele não era nada se comparada com o que poderia ser. Naquele instante, ele só temia que eu estivesse sofrendo.
— Talvez... Carlisle, talvez eu tenha agido tarde demais — a voz soava sufocada; falhou na palavra tarde.
Minha resolução vacilou por um segundo.
— Ouça o coração dela, Edward. Está mais forte do que até mesmo o de Emmett esteve. Nunca ouvi nada tão vital. Ela vai ficar perfeita
Sim, eu tinha razão em ficar quieta. Carlisle o tranquilizaria Ele não precisava sofrer comigo.
— E a... a coluna?
— As lesões não foram piores do que as de Esme. O veneno a curará, como fez com Esme.
— Mas ela está tão imóvel... Eu devo ter feito alguma coisa errada.
— Ou alguma coisa certa, Edward. Filho, você fez tudo o que eu poderia ter feito, e ainda mais. Não sei se eu teria a persistência, a fé que foi preciso para salvá-la. Pare de se censurar. Bella vai ficar bem.
Um sussurro fraco.
— Ela deve estar em agonia.
— Não sabemos. Havia muita morfina em seu corpo. Não sabemos o efeito que isso terá na experiência dela.
Uma leve pressão na dobra do meu cotovelo. Outro sussurro.
— Bella, eu amo você. Bella, me desculpe.
Eu queria muito responder, mas não iria aumentar sua dor. Não enquanto tivesse forças para me manter quieta.
Durante todo esse tempo o fogo continuava me queimando. Mas, então, havia muito mais espaço em minha mente. Espaço para refletir sobre a conversa deles, para lembrar o que tinha acontecido, para olhar o futuro, testando ainda um espaço interminável para aquele sofrimento.
E também para a preocupação.
Onde estava meu bebê? Por que ela não estava ali? Por que eles não falavam dela?
— Não, vou ficar aqui mesmo — sussurrou Edward, respondendo a pensamento que não fora verbalizado. — Eles vão se entender.
— Uma situação interessante — respondeu Carlisle. — E eu que pensava ter visto de tudo.
— Vou cuidar disso mais tarde. Nós vamos cuidar disso. — Alguma coisa pressionou suavemente a palma de minha mão em chamas.
— Sei que nós cinco podemos evitar que isso se transforme num banho de sangue.
Edward suspirou.
— Não sei de que lado ficar. Eu adoraria dar uma surra nos dois. Bom, mais tarde.
— Imagino o que Bella vai pensar... de que lado ela vai ficar — Carlisle pensou.
Um riso baixo e tenso.
— Tenho certeza de que ela vai me surpreender. Sempre faz isso.
Os passos de Carlisle desapareceram novamente, e fiquei frustrada por não haver mais explicações. Eles estavam conversando tão misteriosamente só para me irritar?
Voltei a contar a respiração de Edward para marcar o tempo. Dez mil, novecentas e quarenta e três respirações depois, passos diferentes entraram no quarto. Mais leves. Mais... ritmados.
Estranho que eu pudesse distinguir diferenças mínimas entre modos de andar, o que jamais pude ouvir antes.
— Quanto tempo mais? — perguntou Edward.
— Não vai demorar muito — disse Alice. — Vê como ela está ficando pálida? Posso vê-la muito melhor agora. — Ela suspirou.
— Ainda está meio chateada?
— Sim, muito obrigada por mencionar — grunhiu ela. — Você também ficaria mortificado se percebesse que estava algemado por ser o que é. Eu enxergo melhor os vampiros, porque sou um deles; enxergo bem os humanos, porque já fui uma. Mas não consigo ver esses híbridos esquisitos porque eles não são nada do que eu tenha vivenciado. Bah!
— Foco, Alice.
— Tudo bem. É quase fácil demais ver Bella agora.
Houve um longo momento de silêncio, e então Edward suspirou. Era um som novo, mais feliz.
— Ela vai mesmo ficar bem — ele sussurrou.
— É claro que vai.
— Você não estava tão otimista há dois dias.
— Eu não conseguia ver direito há dois dias. Mas agora que ela está livre de todos os pontos cegos, é moleza.
— Pode se concentrar, por mim? Por alto... me dê uma estimativa.
Alice suspirou.
— Mas que impaciência. Tudo bem. Preciso de um segun...
Respiraram quietos.
— Obrigado, Alice. — A voz dele soou mais animada.
Quanto tempo? Será que eles não podiam pelo menos dizer em voz alta para eu saber? Era demais pedir isso? Quantos segundos a mais eu arderia? Dez mil? Vinte? Mais um dia – oitenta e seis mil e quatrocentos? Mais que isso?
— Ela vai ficar deslumbrante.
Edward gemeu baixinho.
— Ela sempre foi.
Alice bufou.
— Você entendeu o que eu quis dizer. Olhe para ela.
Edward não respondeu, mas as palavras de Alice me deram esperança de que talvez eu não estivesse parecida com o carvão em brasa que me sentia. Parecia que àquela altura eu não passava de uma pilha de ossos calcinados. Cada célula de meu corpo tinha sido reduzida a cinzas.
Ouvi Alice sair flutuando do quarto. Ouvi o zunido do tecido que ela usava roçando em seu corpo. Ouvi o zumbido baixo da lâmpada do teto. Ouvi o vento fraco passando do lado de fora da casa. Eu podia ouvir tudo.
No primeiro andar, alguém via um jogo de beisebol na tevê. Os Mariners estavam ganhando.
— É minha vez — ouvi Rosalie dizer a alguém, e houve um rosnado baixo em resposta.
— Ei, calma — advertiu Emmett.
Alguém sibilou.
Procurei ouvir mais, mas não havia nada além do jogo. O beisebol não era bastante interessante para me distrair da dor, então voltei a escutar a respiração de Edward, contando os segundos.
Vinte e um mil, novecentos e dezessete segundos e meio depois, a dor mudou.
A boa notícia é que tinha começado a diminuir na ponta dos dedos das mãos e dos pés. Diminuir lentamente; mas pelo menos algo novo estava acontecendo. Tinha que ser isso. A dor estava passando...
E depois a má notícia. O fogo em minha garganta não era o mesmo de antes. Eu não estava só em chamas, mas agora também estava ressecada. Seca como osso. Com muita sede. Ardendo em chamas e ardendo de sede...
Outra má notícia: o fogo em meu coração ficou mais quente.
Como aquilo era possível?
Meu batimento cardíaco, já rápido demais, acelerou – o fogo impelia as batidas a um ritmo novo e frenético.
— Carlisle — chamou Edward. A voz era baixa, mas nítida. Eu sabia que Carlisle ouviria se estivesse dentro ou próximo da casa.
O fogo abandonou minhas mãos, deixando-as felizmente sem dor e frias. Mas recuou para o coração, que ardia como o sol e batia numa velocidade nova e furiosa.
Carlisle entrou no quarto, Alice a seu lado. Seus passos eram tão distintos que eu podia até perceber que Carlisle estava à direita, alguns centímetros à frente de Alice.
— Ouçam — disse-lhes Edward.
O som mais alto do quarto era o de meu coração frenético, martelando no ritmo do fogo.
— Ah! — disse Carlisle. — Está quase acabando.
Meu alívio com as palavras dele foi toldado pela dor excruciante em meu coração. Meus pulsos, porém, estavam livres, assim como os tornozelos. O fogo havia se extinguido completamente ali.
— Logo — concordou Alice com ansiedade. — Vou chamar os outros. Será que Rosalie deve...
— Sim... Mantenha a bebê longe daqui.
Como é? Não. Não! O que ele queria dizer com manter meu bebê longe? O que ele estava pensando? Meus dedos se retorceram – a irritação rompendo minha fachada imóvel. O quarto ficou em silêncio, a não ser pela britadeira em meu coração, quando todos pararam de respirar por um segundo.
A mão de alguém apertou meus dedos rebeldes.
— Bella? Bella, amor?
Eu conseguiria responder a ele sem gritar? Pensei nisso por um momento, e então o fogo ardeu ainda mais quente em meu peito, abandonando os cotovelos e os joelhos. Era melhor não arriscar.
— Vou trazê-los agora — disse Alice, com certa urgência na voz, e ouvi o silvo de vento enquanto ela saía em disparada.
E então... ah!
Meu coração saltou, batendo como hélices de helicóptero, o som quase uma nota única e contínua; parecia que ia moer minhas costelas. O fogo subiu pelo centro do peito, sugando as chamas do restante do meu corpo para servir de combustível ao calor ainda mais abrasador. A dor foi suficiente para me deixar atordoada, para irromper por meu abraço de ferro na estaca. Minhas costas arquearam, curvadas como se o fogo estivesse me puxando o alto, pelo coração. Não permiti que nenhuma outra parte do corpo fugisse ao controle quanto meu tronco tombava na mesa.
Teve início uma batalha dentro de mim – meu coração disparado correndo contra o fogo que atacava. Os dois perdiam. O fogo estava condenado, tendo consumido tudo o que era combustível; meu coração galopava para sua última batida.
O fogo diminuiu, concentrando-se naquele único órgão ainda humano em uma última e insuportável onda. Recebida com um baque profundo oco. Meu coração falhou duas vezes, e então bateu novamente, baixinho outra única vez.
Não havia som. Nem respiração. Nem mesmo a minha. Por um momento, a ausência de dor era tudo que eu podia compreender.
E então abri os olhos e fitei o alto, maravilhada.

5 comentários:

  1. Francamente, a Bella é muito forte! A Stephenie tem razão, ela não é como nenhum recém-criado normal...

    ResponderExcluir
  2. Conserteza não !

    Assi: Apaixonada por livros.

    ResponderExcluir
  3. Que capítulo incrível! Amei a descrição da transformação <3

    ResponderExcluir
  4. Que capítulo incrível! Amei a descrição da transformação <3

    ResponderExcluir
  5. Queria q o filme mostrasse os pensamentos dela ai

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!