24 de setembro de 2015

Capítulo 18 - O enterro

Eu voei pelas escadas abaixo e abri a porta.
Era Jacob, é claro. Mesmo cega, Alice não era lenta.
Ele estava parado à uns dois metros da porta, o nariz contorcido de desgosto, mas de outras formas o seu rosto estava suave - uma máscara. Ele não me enganou; eu podia ver as mãos dele tremendo fracamente.
A hostilidade rolava nele como ondas. Ela parecia trazer de volta aquela horrível tarde quando ele havia preferido Sam a mim, e eu senti o meu queixo se erguer defensivamente em resposta.
O Rabbit de Jacob estava parado perto da esquina com Jared atrás de uma das rodas e Embry no banco do passageiro. Eu entendi o que isso queria dizer: eles estavam com medo de deixá-lo vir sozinho. Isso me deixou triste, e um pouco aborrecida. Os Cullen não eram daquele jeito.
— Oi — eu finalmente disse quando ele não falou.
Jake torceu os lábios, ainda permanecendo longe da porta. Os olhos dele estavam revistando a frente da casa.
Eu tranquei os dentes.
— Ela não está aqui. Você precisa de alguma coisa?
Ele hesitou.
— Você está sozinha?
— Sim—, eu suspirei.
— Eu posso falar com você por um minuto?
— É claro que você pode, Jacob. Entre.
Jacob olhou por cima do ombro para os seus amigos no carro. Eu vi Embry balançar a cabeça só um pouquinho. Por alguma razão, isso me incomodou imensamente.
Meus dentes se apertaram de novo.
— Covarde — eu murmurei por baixo do meu fôlego.
Os olhos de Jake voltaram pra mim, as suas sobrancelhas grossa, pretas se juntando num ângulo furioso em cima dos seus olhos fundos.
A mandíbula dele se apertou e ele marchou - não há outro jeito de descrever o jeito que ele se moveu - pela calçada e levantou os ombros pra passar por mim e entrar na casa.
Eu prendi o olhar primeiro com Jared e depois com Embry - eu não gostava do jeito como eles me olhavam; será que eles realmente achavam que eu ia deixar alguma coisa machucar Jacob? - antes de fechar a porta pra eles.
Jacob estava na sala atrás de mim, olhando para a bagunça de lençóis na sala de estar.
— Festa do pijama? — ele perguntou, seu tom sarcástico.
— É — eu respondi no mesmo tom de voz ácido. Eu não gostava quando Jacob agia dessa forma. — O que você tem com isso?
Ele torceu o nariz de novo e cheirou alguma coisa desagradável.
— Onde está a sua 'amiga'? — eu podia ouvir o tom o tom de citação na voz dele.
— Ela foi dar uma corrida sem rumo. Olha, Jacob, o que você quer?
Alguma coisa na sala pareceu deixar ele mais nervoso - seus longos braços estavam tremendo. Ele não respondeu a minha pergunta. Ao invés disso ele foi até a cozinha, seus olhos se mexiam por todo lugar sem descanso.
Eu segui ele. Ele andou pra cima e pra baixo pelo pequeno balcão.
— Ei — eu disse me colocando no caminho dele. Ele parou de caminhar e olhou pra mim. — Qual é o seu problema?
— Eu não gosto de ter que estar aqui.
Essa doeu. Eu estremeci e os olhos dele se apertaram.
— Então eu lamento que você tenha vindo — eu murmurei. — Porque você não me diz o que você precisa pra que aí você possa ir embora?
— Eu só tenho que te perguntar algumas coisas. Não vai demorar muito.Nós temos que voltar para o funeral.
— Ok. Então acabe logo com isso — eu provavelmente estava exagerando no antagonismo, mas eu não queria que ele visse o quanto isso estava doendo. Eu sabia que não estava sendo justa. Afinal, eu havia escolhido a sugadora de sangue a ele na noite passada.
Eu havia machucado ele primeiro.
Ele respirou fundo, e de repente seus dedos tremendo estavam parados. O rosto dele se suavizou e se transformou numa máscara de serenidade.
— Um dos Cullen está ficando aqui com você — ele declarou.
— Sim. Alice Cullen.
Ele balançou a cabeça pensativo.
— Por quanto tempo ela vai ficar?
— Até quando ela quiser ficar — A beligerância ainda estava no meu tom. — É um convite em aberto.
— Será que você acha que podia... por favor... explicar pra ela sobre aquela outra - Victória?
Eu fiquei pálida.
— Eu contei pra ela.
Ele balançou a cabeça.
— Você já deve saber que nós só podemos vigiar as nossas terras com um Cullen aqui. Você só vai estar a salvo em La Push. Eu não posso mais te proteger aqui.
— Ok — eu disse com uma voz pequena.
Nessa hora ele desviou o olhar, pra fora pelas janelas. Ele não continuou.
— Isso é tudo?
Ele continuou com os olhos no vidro enquanto respondeu.
— Só mais uma coisa.
Eu esperei, mas ele não continuou.
— Sim — eu finalmente incitei.
— O resto deles também vai voltar agora? — ele perguntou numa voz gelada, quieta. Isso me lembrou do jeito calmo de Sam. Jacob estava ficando mais parecido com Sam... eu me perguntei porque isso me incomodava tanto.
Agora eu não falei. Ele olhou de volta pro meu rosto com olhos provadores.
— Bem? — ele perguntou. Ele lutou pra conciliar a tensão atrás da sua expressão serena.
— Não — eu disse finalmente. Mal humorada. — Eles não vão voltar.
A expressão dele não mudou.
— Tudo bem. Isso é tudo.
Eu olhei pra ele, minha irritação cintilando.
— Bem, pode correr agora. Pode ir dizer pra Sam que os monstros assustadores não vão vir pegar vocês.
— Tudo bem — ele repetiu, ainda calmo.
Isso parecia ser tudo. Jacob caminhou rapidamente saindo da cozinha.
Eu esperei pra ouvir a porta da frente, mas eu não ouvi nada. Eu podia ouvir o tique taque do relógio na parede, e fiquei mais uma vez impressionada de ver o quanto ele havia ficado silencioso.
Que desastre. Como é que eu posso ter alienado ele tão completamente num espaço tão curto de tempo?
Será que ele ia me perdoar quando Alice fosse embora? E se ele não perdoasse?
Eu me joguei no balcão e coloquei o rosto nas mãos. Como é que eu tinha bagunçado tudo desse jeito? Mas o que eu podia ter feito diferente? Mesmo olhando para a situação, eu não vejo uma saída melhor, em nenhum dos caminhos da situação.
— Bella...? — Jacob perguntou com uma voz perturbada.
Eu tirei o meu rosto das mãos pra ver Jacob hesitante na porta da cozinha; ele não havia ido embora como eu pensei.
Foi só quando eu vi as gotas claras pingando em minhas mãos que eu vi que eu percebi que estava chorando.
A expressão calma de Jacob havia desaparecido; o rosto dele estava ansioso e incerto. Ele caminhou silenciosamente de volta e ficou na minha frente, abaixando a cabeça pra que seus olhos ficassem na mesma altura dos meus.
— Eu fiz de novo, não fiz?
— Fez o que? — eu perguntei, minha voz falhando.
— Quebrei minha promessa. Desculpe.
— Tudo bem — eu murmurei. —Fui eu quem começou dessa vez.
O rosto dele se torceu.
— Eu sabia como você se sentia em relação a eles. Isso não devia ter me pego de surpresa desse jeito.
Eu podia ver a repulsa nos olhos dele. Eu queria explicar como Alice realmente era para defender ela do julgamento que ele fazia, mas alguma coisa me avisou que essa não era a hora, então eu me limitei a dizer:  
— Desculpa —
— Não vamos nos preocupar com isso, tá bom? Ela só está visitando, certo? Ela vai embora, e as coisas vão voltar ao normal.
— Será que eu não posso ser amiga dos dois ao mesmo tempo? — eu perguntei, minha voz não escondia a dor que eu sentia.
Ele balançou a cabeça lentamente.
— Não, eu não acho que pode.
Ele respirei e olhei para os pés grandes dele.
— Mas você vai esperar, certo? Você ainda vai ser meu amigo, mesmo que eu ame Alice também?
Eu não olhei pra cima, com medo de ver o que ele pensaria sobre essa última parte. Ele levou um minuto pra responder, então eu provavelmente estava certa por não olhar.
— É, eu sempre vou ser seu amigo — ele disse mal humorado. — Não importa o que você ame.
— Promete?
— Prometo.
Eu senti os braços dele ao meu redor, e eu me inclinei para o peito dele, ainda inalando.
— Isso é uma droga.
— É — então ele cheirou o meu cabelo e disse — Eca.
— O quê? — eu quis saber. Eu olhei pra cima pra ver que o nariz dele estava torcido de novo. — Porque que todo mundo fica fazendo isso? Eu não cheiro mal!
Ele sorriu um pouquinho.
— Cheira sim – você cheira como eles. Eca. Muito doce – doentemente doce. E... gelada. Queima meu nariz.
— Mesmo? — Isso era estranho. Alice tinha um cheiro inacreditavelmente maravilhoso. Pra um humano, pelo menos. — Mas, porque Alice achou que eu estava cheirando mal também?
Isso levou o sorriso dele embora.
— Huh. Talvez eu também não cheire muito bem pra ela. Huh.
— Bem, vocês dois cheiram bem pra mim — eu descansei a minha cabeça nele de novo. Eu ia sentir terrivelmente a falta dele quando ele saísse pela porta. Eu era uma péssima pessoa - por um lado, eu queria que Alice ficasse pra sempre. Eu ia morrer - metaforicamente - quando ela fosse embora. Mas como era que eu podia ficar sem ver Jake por qualquer espaço de tempo? Que bagunça, eu pensei de novo.
— Eu vou sentir sua falta — Jacob cochichou, ecoando os meus pensamentos. — A cada minuto. Eu espero que ela vá embora logo.
— Isso realmente não precisa ser desse jeito, Jake.
Ele suspirou.
— Sim. Tem sim. Bella. Você... ama ela. Então é melhor eu não chegar nem perto dela. Eu não tenho certeza de que sou controlado o suficiente pra lidar com isso. Sam ficaria louco se eu quebrasse o acordo, e-— a voz dele ficou sarcástica —- você provavelmente não ia gostar muito de mim se eu matasse a sua amiga.
Eu me separei dele quando ele disse isso, mas ele me apertou mais forte, se recusando a me deixar escapar.
— Não há necessidade de esconder a verdade. As coisas são do jeito que são, Bells.
— Eu não gosto do jeito que elas são.
Jacob me soltou com um braço pra que ele pudesse usar a mão pra levantar o meu queixo pra me fazer olhar pra ele.
— É. Era mais fácil quando nós dois éramos humanos, não era?
Eu suspirei.
Nós olhamos um pra o outro por um longo momento. A mão dele queimava na minha pele. No meu rosto, eu sabia que não havia nada além de uma tristeza saudosa - eu não queria ter que dizer adeus agora, não importava por quão pouco tempo fosse. No início o rosto dele refletia o meu, mas depois, quando nenhum de nós desviou o olhar, a expressão dele mudou.
Ele me soltou, usando a outra mão pra alisar a minha bochecha com as pontas dos dedos, trilhando com eles até a minha mandíbula. Eu podia sentir os dedos dele tremendo - dessa vez não era com raiva.
Ele pressionou a palma na minha bochecha, pra que assim o meu rosto ficasse preso entre suas mãos que pegavam fogo.
— Bella — ele sussurrou.
Eu estava congelada.
Não! Eu ainda não havia tomado essa decisão. Eu não sabia se poderia fazer isso, e agora eu estava sem tempo pra pensar nisso. Mas eu seria uma boba se eu pensasse que rejeitá-lo não teria nenhuma consequência.
Eu encarei ele de volta. Ele não era o meu Jacob, mas ele podia ser. O rosto dele era familiar e amado. De muitas maneiras verdadeiras, eu amava ele. Ele era meu conforto, meu porto seguro.
Agora mesmo, eu podia escolher que ele pertenceria a mim.
Alice estava de volta por um momento, mas isso não mudava nada. O amor verdadeiro estava perdido pra sempre. O príncipe nunca mais ia voltar pra me beijar e me acordar do meu sono encantado. Eu não era uma princesa, afinal. Então qual era o protocolo dos contos de fadas contra outros beijos? Eles eram de uma espécie mundana que não quebravam nenhum feitiço?
Talvez isso fosse fácil - como segurar a mão dele ou sentir os braços dele ao meu redor. Talvez fosse uma sensação boa. Talvez eu não me sentisse como uma traidora. Além do mais, quem eu estava traindo, afinal? Só eu mesma.
Mantendo os olhos dele nos meus, Jacob começou a inclinar seu rosto na direção de meu. E eu estava absolutamente indecisa.
O toque estridente do telefone fez a gente pular, mas isso não quebrou a concentração dele. Ele tirou a mão dele que estava em baixo do meu queixo e alcançou pra pegar o aparelho, mas ele ainda segurava o meu rosto seguramente com uma das mãos em minha bochecha. Os olhos escuros dele não libertaram os meus. Eu estava confusa demais pra reagir, mesmo pra tomar vantagem da distração.
— Residência dos Swan — Jacob disse, sua voz rouca estava baixa e intensa.
Alguém respondeu, e Jacob se alterou num instante. Ele se enrijeceu, e a mão dele caiu do meu rosto. Os olhos dele ficaram vazios, o rosto dele ficou branco, e eu podia apostar qualquer coisa de que era Alice.
Eu me recuperei e estiquei minha mão pra pegar o telefone. Jacob me ignorou.
— Ele não está aqui — Jacob disse, e as palavras eram ameaçadoras.
Houve uma resposta muito curta, pareceu ser um pedido de mais informação, porque ele respondeu sem vontade.
— Ele está no funeral.
Então Jacob desligou o telefone.
— Sugador de sangue sujo — ele murmurou por baixo do fôlego. O rosto dele havia voltado para aquela máscara azeda de novo.
— Com quem foi que você acabou de falar? — eu asfixiei, furiosa. — Na minha casa, no meu telefone?
— Calma! Ele desligou na minha cara!
— Ele? Quem era?!
Ele zombou do título.
— Dr. Carlisle Cullen.
— Porque você não me deixou falar com ele?!
— Ele não perguntou por você — Jacob disse friamente. O rosto dele estava suave, sem expressão, mas as mãos dele estavam tremendo. — Ele perguntou onde Charlie estava e eu disse. Eu não quebrei nenhuma regra de etiqueta.
— Me escute aqui, Jacob Black...
Mas ele obviamente não estava me escutando, ele olhou rapidamente por cima do ombro, como se alguém tivesse chamado o nome dele na outra sala. Os dele ficaram arregalados e o corpo dele ficou rígido, e aí ele começou a tremer. Eu escutei também, automaticamente, mas eu não ouvia nada.
— Tchau, Bells — ele soltou, e se virou na direção da porta da frente.
Eu corri atrás dele.
— O que foi?
E aí eu esbarrei nele, quando ele se virou nos calcanhares, xingando por baixo do fôlego. Ele girou de novo, me colocando de lado. Eu me prendi e caí no chão, minhas pernas entrelaçadas com as dele.
— Droga, ow! — eu protestei enquanto ele rapidamente desentrelaçava as suas pernas das minhas.
Eu lutei pra me colocar de pé enquanto ele se apressava para a porta da frente; de repente ele congelou de novo.
Alice ficou imóvel no pé das escadas.
— Bella — ela gaguejou.
Eu me atrapalhei ficando de pé e corri para o lado dela. Os olhos dela estavam confusos e distantes, o rosto dela estava cansado e mais branco que osso. O pequeno corpo dela tremia como se houve um redemoinho dentro dela.
— Alice, qual é o problema? — eu perguntei. Eu coloquei minhas mãos no rosto dela, tentando acalmá-la.
Os olhos dela se focaram nos meus abruptamente, arregalados de dor.
— Edward — ela sussurrou.
O meu corpo reagiu mais rápido do que a minha mente foi capaz de captar as implicações das palavras dela.
No começo eu não entendia porque a sala estava rodando ou de onde o zumbido vazio dos meus ouvidos estava vindo.
Minha mente trabalhou, incapaz de tirar um sentido do rosto esbranquiçado de Alice e o que Edward poderia ter a ver com isso, enquanto meu corpo já estava balançando, procurando o alívio na inconsciencia antes mesmo que ela me encontrasse.
As escadas ficaram num ângulo estranho.
A voz furiosa de Jacob de repente estava no meu ouvido, soltando uma fileira de palavras profanas. Eu senti uma vaga desaprovação. Os novos amigos dele claramente eram uma má influência.
Eu estava no sofá sem entender como havia chegado lá, e Jacob ainda estava xingando.
Eu podia sentir que estava havendo um terremoto - o sofá estava tremendo embaixo de mim.
— O que você disse pra ela? — ele quis saber.
Alice ignorou ele.
 — Bella? Bella sai dessa. Nós temos que nos apressar.
— Afaste-se — Jacob avisou.
— Acalme-se, Jacob Black—, Alice ordenou. — Você não quer fazer isso tão perto dela.
— Eu não acho que vou ter nenhum problema pra encontrar meu alvo — ele respondeu, mas a voz dele parecia um pouco mais calma.
— Alice? — minha voz estava fraca. — O que aconteceu? —eu perguntei, mesmo sem querer ouvir a resposta.
— Eu não sei — ela gemeu de repente. — O que ele está pensando?!
Eu trabalhei pra me colocar de pé apesar da tontura. Eu me dei conta de que era no braço de Jacob que eu estava me agarrando pra ter apoio. Era ele quem estava tremendo, não o sofá.
Alice estava tirando um pequeno celular prateado da bolsa quando eu a relocalizei. Os dedos dela discaram os números tão rapidamente que eram só um vulto.
— Rose, eu preciso falar com Carlisle agora — a voz dela chicoteava as palavras. — Tá, assim que ele estiver de volta. Não, eu vou estar num avião. Olha, vocês tiveram alguma notícia de Edward?
Alice pausou agora, escutando com uma expressão que ficava mais e mais pasma a cada segundo. A boca dela se abriu em um pequeno O de tão horrorizada, e o telefone tremia na mão dela.
— Por quê? — ela asfixiou. — Por que você faria isso, Rosalie?
Qualquer que tenha sido a resposta, ela fez a mandíbula dela trincar de raiva. Os olhos dela brilharam e se estreitaram.
— Bem, no entanto, você está errada nas duas situações, Rosalie, então isso deve ser um problema, você não acha? — ela perguntou acidamente. — Sim, é isso mesmo. Ela está absolutamente bem - eu estava errada... É uma longa história... Mas você está errada nessa parte também, foi por isso que eu liguei... Sim, foi exatamente isso o que eu vi.
A voz de Alice estava muito dura e seus lábios estavam curvados em cima dos dentes.
— É um pouco tarde demais pra isso, Rose. Guarde o seu remorso para alguém que acredite nele — Alice fechou o telefone com um rápido movimento dos dedos.
Os olhos dela estavam torturados quando ela olhou pro meu rosto.
— Alice — eu soltei rapidamente. Eu não podia deixá-la falar ainda. Eu precisava de mais alguns segundos antes que ela falasse e as palavras dela destruíssem o que havia restado da minha vida.
— Alice, mas Carlisle está de volta. Ele acabou de ligar antes de...
Ela olhou pra mim com um olhar vazio.
— Há quanto tempo? — ela perguntou com uma voz confusa.
— Meio minuto antes de você aparecer.
— O que foi que ele disse? — Ela realmente estava prestando atenção agora, esperando pela minha resposta.
— Eu não falei com ele — meus olhos voaram pra Jacob.
Alice virou o seu olhar penetrante pra ele. Ele tremeu, mas continuou sentado ao meu lado.
Ele sentou de um jeito estranho, quase como se fosse usar seu corpo como um escudo pra mim.
— Ele perguntou por Charlie, e eu disse que Charlie não estava aqui—, Jacob murmurou ressentido.
— Isso é tudo? — Alice quis saber, a voz dela era como gelo.
— Depois ele desligou na minha cara — Jacob mandou de volta. Um tremor desceu a espinha dele, me fazendo tremer junto.
— Você disse pra ele que Charlie estava no funeral — eu lembrei ele.
Alice jogou a cabeça dela de volta pra mim.
— Quais foram as palavras exatas dele?
— Ele disse 'Ele não está aqui' e Carlisle perguntou onde Charlie estava, Jacob disse 'No funeral'.
Alice gemeu e caiu e joelhos.
— Me conte Alice — eu sussurrei.
— Aquele não era Carlisle no telefone — ela disse desesperançosa.
— Você está me chamando de mentiroso? — Jacob rosnou do meu lado.
Alice ignorou ele, focando em meu rosto desnorteado.
— Era Edward — as palavras eram só um soluço sussurrado. — Ele acha que você está morta.
Minha mente começou a trabalhar de novo. Essas não eram as palavras que eu estava esperando, e o alívio clareou minha cabeça.
— Rosalie disse a ele que eu me matei, não disse? — eu perguntei, suspirando enquanto relaxava.
— Sim — Alice admitiu, seus olhos brilhavam duramente de novo.
— Em defesa dela, ela realmente pensava isso. Eles confiam demais nas minhas visões para uma coisa que funciona tão imperfeitamente. Mas para fazer ela rastrear ele desse jeito! Será que ele não se dava conta... ou se importa...? — A voz dela desapareceu de horror.
— E quando Edward ligou pra cá, ele pensou que Jacob estava se referindo ao meu funeral — eu me dei conta. Me machucou saber o quanto eu estive perto, a apenas alguns centímetros da voz dele. As minhas unhas cravaram no braço de Jacob, mas ele nem se mexeu.
Alice olhou pra mim estranhamente.
— Você não está triste — ela sussurrou.
— Bem, esse não é um senso de timing muito bom, mas tudo vai se esclarecer. Da próxima vez que ele ligar, alguém vai dizer pra ele... o que... realmente — minha voz falhou.
O olhar dela estrangulou as palavras na minha garganta.
Porque ela estava tão apavorada? Porque o rosto dela estava se torcendo com piedade e com horror? O que foi isso que ela havia acabado de dizer à Rosalie no telefone? Alguma coisa relacionada ao que ela viu... e o remorso de Rosalie; Rosalie jamais sentiria remorso por alguma coisa que acontecesse comigo. Mas se ela machucasse a sua família, o seu irmão...
— Bella — Alice cochichou. — Edward não vai ligar de novo. Ele acreditou nela.
— Eu. Não. Entendo — minha boca formou cada palavra silenciosamente. Eu não conseguia soltar o ar pra realmente dizer as palavras e fazer ela me explicar.
— Ele vai para a Itália.
Me levou a velocidade de um pulsar do meu coração pra entender.
Quando a voz de Edward voltou na minha cabeça agora, ela não era a perfeita imitação das minhas ilusões. Era só o tom fraco, vazio, das minhas memórias. Mas só as palavras já foram suficientes pra atingir o meu peito e fazê-lo se abrir de novo. Palavras de um tempo quando eu podia ter apostado tudo o que eu tinha e tudo que podia pegar emprestado no fato de que ele me amava.
Bem, eu não ia viver sem você, ele disse enquanto assistíamos Romeu e Julieta juntos, aqui nessa mesma sala. Mas eu não tinha certeza de como fazer isso... eu sabia que Emmett e Jasper jamais iriam me ajudar... então eu pensei que talvez eu pudesse ir para a Itália e fazer alguma coisa pra provocar os Volturi... Você não deve irritá-los. Não a menos que você queira morrer.
Não a menos que você queira morrer.
— NÃO! — Essa negação meio gritada foi tão alta, depois das palavras sussurradas, que fez todo mundo pular. Eu senti o sangue correndo para o meu rosto enquanto me dava conta do que ela havia visto.
— Não! Não, não, não! Ele não pode! Ele não pode fazer isso!
— Ele se convenceu assim que o seu amigo o convenceu que era tarde demais pra te salvar.
— Mas ele... ele foi embora! Ele não me queria mais! Que diferença isso faz agora? Ele sabia que eu ia morrer alguma hora!
— Eu não acho que ele estava planejando viver muito mais que você — Alice disse baixinho.
— Como ele se atreve! — eu gritei. Agora eu estava de pé, e Jacob se levantou sem muita certeza pra se colocar entre Alice e eu.
— Oh, saia do caminho, Jacob!— eu acotovelei o seu corpo tremendo com uma ansiosidade desesperada. — O que nós faremos? — eu implorei pra Alice. Tinha que haver alguma coisa. — Não podemos ligar pra ele? Ligar pra Carlisle?
Ela estava balançando a cabeça.
— Essa foi a primeira coisa que eu tentei. Ele deixou o telefone numa lata de lixo no Rio - Alguém atendeu...— ela cochichou.
—Você disse antes que tínhamos que nos apressar. Apressar como? Vamos fazer isso, seja lá o que for!—
— Bella eu - eu não acho que posso te pedir pra...— Ela parou indecisa.
— Me peça! — eu comandei.
Ela colocou a mão no meu ombro, me segurando no lugar, seus dedos se flexionavam esporadicamente para dar ênfase às suas palavras.
— Nós podemos já estar atrasadas. Eu vi ele indo para os Volturi... e pedindo pra morrer — Nós suas vacilamos, e meus olhos ficaram cegos de repente. Eu pisquei fervorosamente com as lágrimas.
— Tudo depende do que eles escolherem. Eu não posso ver isso até que eles tomem a decisão. — Mas se eles disserem não, e eles podem fazer isso - Aro sente afeição por Carlisle, e não ia querer ofendê-lo - Edward tem um plano reserva. Eles são muito protetores de sua cidade. Se Edward fizer alguma coisa para perturbar a paz, ele acha que isso vai fazer eles o pararem. E ele está certo. Eles vão.
Eu encarei ela com a mandíbula apertada de frustração. Eu ainda não tinha ouvido nada que explicasse porque ainda estávamos aqui.
— Então se eles concordarem em acatar o seu pedido, nós chegaremos tarde. Se eles disserem não, e ele inventar um plano que os aborreça rápido o suficiente, chegaremos tarde. Se ele começar a se deixar levar pelas suas tendências mais teatrais... podemos ter tempo.
— Vamos logo!
— Escute, Bella! Chegando em tempo ou não, estaremos no coração da cidade dos Volturi. Eu vou ser considerada cúmplice dele se ele conseguir o que quer. Você será uma humana que não apenas sabe demais, como também cheira bem demais. Há uma chance muito boa de eles eliminarem todos nós - apesar de no seu caso o castigo não durar mais que a hora do jantar.
— É isso que ainda tá segurando a gente aqui? — eu perguntei sem acreditar. — Eu vou sozinha se você estiver com medo — Eu mentalmente contabilizei o dinheiro que ainda havia na minha conta, e me perguntei se Alice me emprestaria o resto.
— Eu só estou com medo que você acabe morta.
Eu bufei de desgosto.
— Eu quase me mato todos os dias! Me diga o que eu tenho que fazer!
— Escreva um bilhete pra Charlie. Eu vou ligar para a companhia de voo.
— Charlie — eu asfixiei.
Não que a minha presença aqui estivesse protegendo ele, mas eu não podia deixá-lo aqui pra encarar...
— Eu não vou deixar nada acontecer com Charlie — a voz baixa de Jacob estava mal humorada e com raiva. — Dane-se o acordo.
Eu olhei pra ele e ele fez escárnio com a minha expressão assustada.
— Se apresse, Bella! — Alice interrompeu urgentemente.
Eu corri para a cozinha, arrancando as gavetas dos armários e jogando tudo que havia dentro delas no chão enquanto eu procurava uma caneta. Uma mão macia, marrom, passou uma pra mim.
— Obrigada — eu murmurei, arrancando o bocal com os dentes. Ele silenciosamente me passou o bloco de papéis no qual eu escrevi o meu bilhete. Eu arranquei a capa e a joguei por cima do meu ombro.

Pai, eu escrevi. Eu estou com Alice. Edward está com problemas. Você pode me colocar de castigo quando eu voltar pra casa. Eu sei que é uma má hora. Lamento muito. Te amo demais. Bella.

— Não vá — Jacob cochichou. A raiva havia desaparecido agora que Alice estava fora de vista.
Eu não ia perder meu tempo discutindo isso com ele.
— Por favor, por favor, por favor tome conta de Charlie — eu disse enquanto corria de volta para a porta da frente.
Alice estava esperando na porta com uma mala no ombro.
— Pegue a sua carteira - vamos precisar da sua identidade. Por favor me diga que você tem um passaporte. Eu não tenho tempo para falsificar um agor.
Eu balancei a cabeça e corri lá pra cima, meus joelhos fracos de gratidão por minha mãe ter tido vontade de se casar com Phil numa praia no México.
É claro, como todos os planos dela, esse não deu certo. Mas não antes que eu tivesse tempo de lidar com todos os preparativos práticos pra ela.
Eu invadi meu quarto. Eu enfiei minha carteira velha, uma camiseta limpa, e uma calças na minha mochila, e depois joguei a minha escova de dentes no topo. Eu corri lá pra baixo. A sensação de déjà vu já estava me batendo nesse ponto. Pelo menos, diferente da última vez - quando eu tive que fugir de Forks pra escapar de vampiros e não pra encontrá-los - eu não teria que me despedir de Charlie pessoalmente.
Jacob e Alice estavam presos em alguma espécie de confrontação na frente da porta aberta, tão distantes um do outro que eu não podia presumir no início que eles estavam tendo uma conversa. Nenhum dos dois pareceu reparar na minha aparição barulhenta.
— Você pode se controlar na ocasião, mas esses sanguessugas para quem você está a levando — Jacob estava a acusando furiosamente.
— Sim. Você está certo. Cachorro — Alice estava rosnando também.— Os Volturi são a verdadeira essência da nossa espécie - eles são a razão pela qual os cabelos do seu braço se arrepiam quando você me cheira. Eles são a substância dos seus pesadelos, o pavor por trás dos seus instintos. Eu não estou mal informada nesse aspecto.
— E você leva ela até eles como se fosse uma garrafa de vinho para um festa! — ele gritou.
— Você acha que seria melhor se eu deixasse ela aqui sozinha, com Victória perseguindo ela?
— Nós podemos cuidar da ruiva.
— Então porque é que ela ainda está caçando?
Jacob rosnou, e um estremecimento passou pelo seu tórax.
— Parem com isso! — eu gritei para os dois, com uma impaciência selvagem.
— Discutam quando nós voltarmos. Vamos!
Alice se virou para o carro, desaparecendo na sua pressa. Eu corri atrás dela, parando automaticamente para trancar a porta.
Jacob agarrou meu braço com a mão tremendo.
— Por favor, Bella. Eu estou implorando.
Os olhos escuros dele estavam brilhando com lágrimas. Um caroço preencheu minha garganta.
—Jake, eu preciso —
— Mas você não precisa. Você realmente não precisa. Você podia ficar aqui comigo. Você podia ficar viva. Por Charlie. Por mim.
O motor da Mercedes de Carlisle ronronou; o ritmo do ronco se intensificou quando Alice acelerou impacientemente.
Eu balancei minha cabeça, lágrimas saltando dos meus olhos com uma emoção devastadora. Eu puxei meu braço, e ele não lutou comigo.
— Não morra, Bella— ele gaguejou. — Não vá. Não.
E se eu nunca mais visse ele?
O pensamento me afastou das lágrimas silenciosas, um soluço escapou do meu peito. Eu joguei meus braços ao redor do seu tórax e o abracei por um momento curto demais, enterrando o meu rosto molhado de lágrimas no peito dele. Ele colocou sua mão grande na parte de trás do meu cabelo, como que pra me segurar lá.
— Adeus, Jake — Eu tirei a mão dele do meu cabelo, e beijei a palma dele. Eu não consegui olhar para o rosto dele. — Me desculpe — eu cochichei.
Então eu me virei e corri para o carro. A porta do lado do passageiro estava aberta e me esperando. Eu joguei minha mochila por cima do encosto de cabeça e entrei, batendo a porta atrás de mim.
— Tome conta de Charlie — eu me virei pra gritar pela janela, mas Jacob não estava em nenhum lugar à vista. Enquanto Alice acelerava e - com os pneus cantando como se fossem gritos humanos - nos virava pra o lado da estrada, eu vi um pedaço de trapo perto de onde começavam as árvores.
Um pedaço de sapato.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!