24 de setembro de 2015

Capítulo 17 - Visitante

Desnaturalmente rígida e branca, com grandes olhos pretos fixados em mim, a minha visitante me esperava perfeitamente imóvel no centro da sala, linda além da imaginação.
Meus joelhos tremeram por um segundo, e eu quase caí. Depois eu me joguei em cima dela.
— Alice, oh, Alice! — eu chorei, enquanto me chocava com ela.
Eu havia me esquecido quanto ela era dura; era como correr precipitadamente pra cima de uma parede de cimento.
— Bella? — havia uma estranha mistura de alívio e confusão na voz dela.
Eu prendi meus braços ao redor dela, lutando pra inalar o máximo do cheiro da sua pele que fosse possível. Não era mais nada - nada floral ou condimentado, cítrico ou almíscar. Nenhum perfume no mundo poderia se comparar. Minha memória não fazia justiça.
Eu não reparei quando os suspiros se transformaram em algo mais - eu só percebi que os suspiros haviam se transformado em soluços quando Alice me arrastou para o sofá da sala de estar e me colocou no colo. Era como estar curvada numa pedra fria, mas uma pedra que contornava confortavelmente o formato do meu corpo. Ela esfregou as minhas costas num ritmo gentil, esperando que eu me controlasse.
— Me... desculpe—, eu tagarelei. — Eu só estou... tão feliz... de ver você!
— Tudo bem, Bella. Está tudo bem.
— Sim — eu uivei. A, pela primeira vez, parecia estar mesmo.
Alice suspirou.
— Eu havia me esquecido de como você era cheia de vida — ela disse, e o tom dela era de desaprovação.
Eu olhei pra ela por entre os meus olhos mareados. O pescoço de Alice estava apertado, se afastando de mim, os lábios dela estavam apertados firmemente. Os olhos dela estavam, pretos como piche.
— Oh — eu arquejei, quando me dei conta do problema. Ela estava com sede. E eu era apetitosa. Já fazia um tempo que eu não pensava nesse tipo de coisa. — Desculpa.
— É minha própria. Já faz algum tempo que eu estou sem caçar. Eu não devia me deixar ficar com tanta sede. Mas eu estava com pressa hoje — O olhar que ela direcionou pra mim foi resplandecente.
— Falando nisso, será que você poderia me explicar como é que você está viva?
Isso me chamou a atenção e fez os soluços pararem. Eu me dei conta do que havia acontecido imediatamente, e porque Alice estava aqui.
Eu engoli fazendo barulho.
— Você me viu cair.
— Não — ela discordou, com os olhos se apertando. — Eu vi você pular.
Eu torci meus lábios e tentei encontrar uma explicação pra isso que não soasse maluca.
Alice balançou a cabeça.
— Eu disse pra ele que isso ia acontecer, mas ele não acreditou em mim. 'Bella prometeu' — A voz dela imitou tão perfeitamente que eu congelei chocada enquanto a dor arrasava o meu tórax. — 'E não fique olhando para o futuro dela, também' — ela continuou citando ele. — 'Nós já causamos estragos o suficiente'.
Só porque eu não procuro, isso não quer dizer que eu não vejo — ela continuou. — Eu não estava espionando você, eu juro, Bella. É só que eu já estou ligada à você... quando eu te vi pulando, eu nem pensei, eu simplesmente peguei um avião. Eu sabia que podia ser tarde demais, mas eu não podia ficar sem fazer nada. E depois eu cheguei aqui, pensando se eu podia ajudar Charlie de alguma forma, e você aparece — Ela balançou a cabeça, dessa vez com confusão. A voz dela estava tensa. — Eu vi você cair na água e eu esperei e esperei pra que você voltasse, mas você não voltou. O que aconteceu? E como você pode fazer isso com Charlie? Você parou pra pensar no que isso faria com ele? E com o meu irmão? Você tem alguma ideia do que Edward...
Eu cortei ela nessa hora, assim que ela disse o nome dele. Eu deixaria ela continuar, mesmo depois que ela percebesse o mal entendido no qual ela havia se metido, só pra ouvir o tom perfeito da voz dela. Mas era hora de interromper.
— Alice, eu não estava tentando suicídio.
Ela me olhou duvidosamente.
— Você está dizendo que não pulou de um penhasco?
— Não, mas...— eu fiz uma careta. — Era só pra me divertir.
A expressão dela endureceu.
— Eu havia visto alguns dos amigos de Jake mergulhando dos penhascos — eu insisti. — Pareceu que era... divertido, e eu estava aborrecida...
Ela esperou.
— Eu não pensei que a tempestade fosse afetar as correntes. Na verdade, eu nem pensei muito na água.
Alice não acreditou. Eu podia ver que ela ainda pensava que eu estava tentando me matar. Eu decidi mudar de direção.
— Então se você me viu entrar, como é que você não viu Jacob?
Ela deixou a cabeça cair pro lado, distraída.
Eu continuei.
— É verdade que eu provavelmente teria me afogado se Jacob não tivesse pulado atrás de mim. Bem, tá legal, não tem nenhum provavelmente aí. Mas ele pulou, e ele me tirou de lá, e eu acho que ele me guiou de volta para a costa, apesar de eu estar meio por fora nessa parte. Não pode ter se passado nem um minuto de quando eu estava lá em baixo até que ele me puxou. Como é possível que você não tenha visto isso?
Ela fez uma carranca de perplexidade.
— Alguém tirou você de lá?
— Sim. Jacob me salvou.
Eu observei curiosamente enquanto uma enigmática extensão de emoções passava pelo rosto dela. Alguma coisa estava incomodando ela - a sua visão imperfeita?
Mas eu não tinha certeza. Então ela deliberadamente se inclinou e cheirou meu ombro.
Eu congelei.
— Não seja ridícula — ela murmurou, me cheirando um pouco mais.
— O que você tá fazendo?
Ela ignorou minha pergunta.
— Quem era que estava lá fora com você agora mesmo? Pareceu que vocês estavam discutindo.
— Jacob Black. Ele é... meio que meu melhor amigo, eu acho. Pelo menos, ele era...— Eu pensei no rosto enraivecido, traído de Jacob, e me perguntei o que ele era pra mim agora.
Alice balançou a cabeça, parecendo preocupada.
— O que foi?
— Eu não sei — ela disse. — Eu não sei o que isso significa.
— Bem, pelo menos, eu não estou morta.
Ela rolou os olhos.
— Ele foi um tonto de achar que você poderia sobreviver sozinha. Eu nunca vi alguém tão propenso à idiotices que ameaçam a vida.
— Eu sobrevivi — eu apontei.
Ela estava pensando em outra coisa.
— Então, se as correntes eram demais pra você, como é que esse Jacob conseguiu?
— Jacob é... forte.
Ela ouviu a relutância na minha voz, e as sobrancelhas dela se levantaram.
Eu mordisquei o meu lábio por um segundo. Isso era um segredo, ou não? E se fosse, com quem era aminha maior aliança? Jacob ou Alice?
Era difícil demais guardar segredos, eu decidi. Jacob sabia de tudo, porque Alice também não?
— Veja, bem, ele é... meio que um lobisomem — eu admiti com pressa. —Os Quileutes se transformam em lobisomens quando têm vampiros por perto. Eles conhecem Carlisle desde muito tempo atrás. Você já estava com Carlisle naquela época?
Alice olhou pra mim por um momento, e depois se recuperou, piscando rapidamente.
— Bem, eu acho que isso explica o cheiro — ela murmurou. — Mas será que isso explica o que eu não vi? — ela fez uma careta, a sua testa de porcelana se enrugando.
— O cheiro? — eu repeti.
— O seu cheiro é horrível — ela disse ausentemente, ainda fazendo careta. — Um lobisomem? Você tem certeza disso?
— Muita certeza , eu prometi, estremecendo enquanto me lembrava de Paul e Jacob brigando na estrada. — Eu acho que você não estava com Carlisle da outra vez que apareceram lobisomens aqui em Forks?
— Não. Eu ainda não havia encontrado ele — Alice ainda estava perdida em pensamentos. De repente, seus olhos se arregalaram, e ela se virou pra mim com uma expressão chocada. — O seu melhor amigo é um lobisomem?
Eu balancei a cabeça timidamente.
—Há quanto tempo isso está acontecendo?
— Não muito tempo — eu disse, minha voz ainda soando defensiva. — Ele só se tornou um lobisomem há algumas semanas.
Ela me encarou.
— Um lobisomem jovem?? Pior ainda! Edward estava certo - você é um ímã de perigo. Não era pra você se manter longe de problemas?
— Não há nada errado com lobisomens — eu rosnei, picada pelo tom crítico dela.
— Até eles perderem a cabeça — ela balançou a cabeça asperamente de um lado para o outro.— Só você mesmo, Bella. Qualquer outra pessoa ficaria tranquila quando os vampiros deixassem a cidade. Mas você tinha que começar a se meter com os primeiros monstros que encontrasse.
Eu não queria discutir com Alice - eu ainda estava tremendo de felicidade por ela estar realmente, verdadeiramente aqui, por poder tocar sua pele de mármore e ouvir sua voz - mas ela havia entendido tudo errado.
— Não, Alice. Os vampiros não deixaram a cidade de verdade - pelo menos, não todos. Esse é o problema todo. Se não fossem pelos lobisomens, Victória já teriam me pegado a essa hora. Bom, eu acho que, se não fosse por Jake e seus amigos Laurent já teriam me pegado antes dela, então...
— Victória? — ela chiou. — Laurent?
Eu balancei a cabeça, um pouco alarmada pela expressão nos olhos pretos dela. Eu apontei pro meu peito.
— Imã de perigo, lembra?
Ela balançou a cabeça de novo.
— Me conte tudo - comece no início.
Eu contei tudo desde o início, pulando a parte das motos e das vozes, mas contando todo o resto pra ela até a desventura de hoje.Alice não gostou da minha explicação sobre estar enfadada e pular de penhascos, então eu me apressei pra contar sobre a estranha chama que eu havia visto na água e o que eu achava que isso significava. Os olhos dela se apertaram até ficarem como linhas nessa parte. Era estranho ver ela parecer tão... perigosa - como uma vampira. Eu engoli seco e contei o resto da história sobre Harry.
Ela ouviu a minha história sem interromper. Ocasionalmente ela balançava a cabeça, e as rugas na testa dela ficavam tão profundas que pareciam permanentes na sua pele de mármore. Ela não falou, e finalmente, eu fiquei quieta, atingida de novo pelo pesar emprestado da morte de Harry. Eu pensei em Charlie; ele devia estar voltando pra casa logo. Em que condições ele estaria?
— A nossa partida não fez bem nenhum, não foi? — Alice murmurou.
Eu ri uma vez - era um som levemente histérico.
— No entanto, não havia necessidade, não é? Não é como se vocês tivessem ido embora pra me beneficiar.
Alice olhou zangada para o chão por um momento.
— Bem... eu acho que agi impulsivamente hoje. Eu provavelmente não devia ter me intrometido.
Eu podia sentir o sangue sendo drenado do meu rosto. Meu estômago foi derrubado.
— Alice, não vá — eu cochichei. Meus dedos prenderam o colarinho da blusa dela e eu comecei a hiperventilar. — Por favor, não me deixe.
Os olhos dela se abriram mais ainda.
— Tudo bem — ela disse, anunciando cada palavra com uma lenta precisão. — Eu não vou a lugar algum essa noite. Respire fundo.
Eu tentei obedecer, apesar de não saber exatamente como localizar os meus pulmões.
Ela observou meu rosto enquanto eu me concentrava em respirar. Ela esperou até que eu estivesse mais calma pra comentar.
— Você está horrível, Bella.
— Eu quase me afoguei hoje — eu lembrei ela.
— É mais profundo que isso. Você está uma bagunça.
Eu vacilei.
— Olha, eu estou fazendo o que posso.
— O que você quer dizer?
— Isso não foi muito fácil. Eu estou trabalhando nisso.
Alice fez uma carranca.
— Eu disse pra ele — ela disse pra si mesma.
— Alice — eu suspirei. — O que você achou que fosse encontrar? Quer dizer, além de mim morta? Você esperava me encontrar dando piruetas e assobiando melodias? Você me conhece melhor do que isso.
— Eu conheço. Mas eu tinha esperanças.
— Então eu acho que eu não sou a única no mercado dos idiotas.
O telefone tocou.
— Deve ser Charlie — eu disse, ficando de pé. Eu agarrei a mão de pedra de Alice e arrastei ela até a cozinha comigo. Eu não ia deixar ela sair da minha vista.
— Charlie? — eu atendi o telefone.
— Não, sou eu — Jacob disse.
— Jake!
Alice estudou a minha expressão.
— Só tendo certeza de que você ainda está viva — Jacob disse acidamente.
— Eu estou bem. Eu te disse que não era...
— É. Entendi. Tchau
Jacob desligou na minha cara.
Eu suspirei e deixei minha cabeça cair pra trás, olhando para o teto.
— Isso vai ser um problema.
Alice apertou minha mão.
— Eles não estão felizes por eu estar aqui.
— Não exatamente. Mas não é da conta deles, afinal.
Alice colocou o braço ao meu redor.
— Então o que faremos agora? — ela meditou. Ela pareceu falar consigo mesma por um momento. — Coisas a fazer. Ajeitar as coisas.
— Que coisas a fazer?
O rosto dela estava cuidadoso de repente.
— Eu não tenho certeza... eu preciso ver Carlisle.
Ela iria embora tão rápido? Meu estômago revirou.
— Você poderia ficar? — eu implorei. — Por favor? Só por um pouco de tempo. Eu senti tanto a sua falta — Minha voz se quebrou.
— Se você acha que é uma boa ideia — os olhos dela não estavam felizes.
— Eu acho. Você podia ficar aqui - Charlie ia adorar.
— Eu tenho uma casa, Bella.
Eu balancei a cabeça, desapontada mas resignada. Ela hesitou, me estudando.
—Bem, eu preciso pegar uma mala de roupas, pelo menos.
Eu joguei meus braços ao redor dela.
— Alice, você é a melhor!
— E eu acho que preciso caçar. Imediatamente.— ela acrescentou numa voz tensa.
— Oops — Eu dei um passo pra trás.
— Será que você pode ficar fora de problemas por uma hora?— ela perguntou ceticamente. Então, antes que eu pudesse responder, ela levantou um dedo e fechou os olhos. O rosto dela ficou suave e vazio por alguns instantes.
E então ela abriu os olhos e respondeu a sua própria pergunta.
— Sim, você vai ficar bem. Essa noite, pelo menos — ela fez uma careta. Mesmo fazendo caras, ela parecia um anjo.
—Você vai voltar? — eu perguntei com uma voz pequena.
— Eu prometo - uma hora.
Eu olhei para o relógio em cima da mesa da cozinha. Ela sorriu e se inclinou rapidamente pra me dar um beijo na bochecha. Então ela foi embora.
Eu respirei fundo. Alice ia voltar. De repente eu me senti muito melhor. Eu também tinha muitas coisas pra fazer pra me manter ocupada enquanto esperava.
Um banho era definitivamente a primeira coisa na agenda.
Eu cheirei meus ombros enquanto tirava a roupa, mas eu não consegui sentir o cheiro de nada além da salmoura e das algas do oceano. Eu me perguntei o que Alice quis dizer quando disse que eu estava cheirando mal.
Quando eu estava limpa, eu voltei para a cozinha.
Eu não vai nenhum sinal de que Charlie havia comido recentemente, e ele provavelmente estaria com fome quando voltasse. Eu sussurrava pra mim mesma enquanto me movia pela cozinha.
Enquanto a caçarola de quinta girava no microondas, eu forrei o sofá com lençóis e coloquei um travesseiro velho. Alice não precisaria dele, mas Charlie precisaria vê-lo. Eu fui cuidadosa pra não olhar para o relógio. Não havia motivo pra começar a entrar em pânico; Alice havia prometido.
Eu me apressei pra terminar meu jantar, sem sentir o gosto dele - só sentindo a dor enquanto ele escorregava pela minha garganta arranhada.
Eu estava com mais sede; eu devo ter bebido meio galão de água até a hora que eu terminei. Todo o sal no meu sistema havia me deixado desidratada.
Eu fui tentar assistir TV enquanto esperava.
Alice já estava lá, sentada na cama improvisada. Os olhos dela eram líquidos como whisky. Ela sorriu e deu um tapinha no travesseiro.
— Obrigada.
— Você chegou cedo — eu disse, estimulada.
Eu me sentei ao lado dela e inclinei minha cabeça no seu ombro. Ela colocou seus braços frios ao meu redor e suspirou.
— Bella. O que nós vamos fazer com você?
— Eu não sei — eu admiti. — Eu realmente estive tentando como pude.
— Eu acredito em você.
Eu fiquei em silêncio.
— Ele - ele...—, eu respirei fundo. Era mais difícil dizer o nome dele em voz alto, mesmo sendo capaz de pensar nele agora. — Edward sabe que você está aqui? — eu não consegui deixar de perguntar.
Era a minha dor, afinal de contas. Eu ia lidar com ela depois que Alice fosse embora, eu prometi a mim mesma, e me senti mal com o pensamento.
— Não.
Só havia uma forma disso ser verdade.
— Ele não está com Carlisle e Esme?
— Ele entra em contato de mês em mês.
— Oh — ele ainda deve estar aproveitando as distrações dele. Eu foquei minha curiosidade num tópico mais seguro. — Você disse que voou pra cá... De onde você veio?
— Eu estava em Denali. Visitando a família de Tânia.
— Jasper está aqui? Ele veio com você?
Ela balançou a cabeça.
— Ele não aprovou minha interrupção. Nós prometemos...— Ela parou, e então o tom dela mudou. — E você acha que Charlie não vai se incomodar por eu estar aqui? — ela perguntou, parecendo preocupada.
— Charlie acha você maravilhosa, Alice.
Certo o suficiente, alguns segundos depois eu ouvi a viatura estacionando na garagem. Eu me levantei num pulo e corri para a porta.
Charlie se arrastava lentamente pela calçada, os olhos dele estavam no chão e os ombros dele estavam caídos. Eu caminhei para frente para encontrá-lo; ele não havia me visto até que eu o abracei pela cintura. Ele me abraçou de volta impetuosamente.
— Eu lamento por Harry, pai
— Eu vou sentir muita falta dele — Charlie murmurou.
— Como está Sue?
— Ela parece confusa, como se ela ainda não tivesse se dado conta. Sam está ficando com ela...— o volume da voz dele estava desaparecendo e reaparecendo. — Pobres daquelas crianças. Leah só é um ano mais velha que você, e Seth só tem catorze...— Ele balançou a cabeça.
Ele continuou com o braço apertado ao meu redor enquanto voltamos a andar para a porta
— Umm, pai? — eu achei que seria melhor avisá-lo. — Você nunca vai adivinhar quem está aqui.
Ele olhou pra mim com o rosto vazio. A cabeça dele virou, e ele espiou a Mercedes do outro lado da rua, a luz da varanda refletida na brilhante pintura preta.
Antes que ele pudesse reagir, Alice estava na porta.
— Oi, Charlie — ela disse numa voz subjugada. — Eu lamento por ter vindo numa hora tão ruim.
— Alice Cullen? — ele olhou para a pequena figura na frente dele como se duvidasse do que os seus olhos estavam dizendo. — Alice, é você?
— Sou eu — ela confirmou. — Eu estava na vizinhança.
— Carlisle está...?
— Não, eu estou sozinha.
Tanto eu quanto Alice sabíamos que ele não estava querendo saber de Carlisle. O braço dele se apertou no meu ombro.
— Ela pode ficar aqui, não pode? — eu implorei. — Eu já pedi pra ela.
— Mas é claro — Charlie disse mecanicamente. — Nós adoraríamos recebê-la, Alice.
— Obrigada, Charlie. Eu sei que é uma hora horrível.
— Não, está tudo bem, mesmo. Eu vou estar muito ocupado fazendo o que puder pela família de Harry; vai ser bom pra Bella ter um pouco de companhia.
—Tem jantar na mesa, pai — eu disse pra ele.
— Obrigado, Bells — Ele me apertou mais uma vez antes de se arrastar para a cozinha.
Alice voltou para o sofá, e eu segui ela. Dessa vez, foi ela que me colocou no seu ombro.
— Você parece cansada.
— É — eu concordei e levantei os ombros. — Experiências de quase morte fazem isso comigo... Então, o que Carlisle acha de você ter vindo pra cá?
— Ele não sabe. Ele e Esme estavam numa viagem de caça. Eu terei notícia dele dentro de alguns dias, quando ele voltar.
— Mas você não vai contar pra ele... quando ele aparecer de novo? — eu perguntei. Ela sabia que eu não falava de Carlisle agora.
— Não. Ela ia arrancar minha cabeça fora — ela disse severamente.
Eu ri uma vez, e depois suspirei.
Eu não queria dormir. Eu queria ficar acordada a noite toda conversando com Alice. E pra mim não fazia sentido estar cansada, tendo cochilado no sofá de Jacob o dia inteiro. Mas me afogar realmente tinha exigido muito de mim, e meus olhos não conseguiam ficar abertos. Eu descansei minha cabeça no seu ombro de pedra, e me deixei levar por um esquecimento que eu nunca havia esperado.
Eu acordei cedo, de um sono profundo e sem sonhos, me sentindo bem descansada, mas rígida.
Eu estava no sofá, enfiada embaixo dos lençóis que havia colocado pra Alice, e eu podia ouvir ela e Charlie conversando na cozinha. Parecia que Charlie estava cozinhando o café da manhã pra ela.
— Foi muito ruim, Charlie? — Alice perguntou suavemente, e no início eu pensei que eles estivessem falando sobre os Clearwater.
Charlie suspirou.
— Muito ruim.
— Me fale sobre isso. Eu quero saber exatamente o que aconteceu depois que nós fomos embora.
Houve uma pausa enquanto uma porta do armário era aberta e fechada e enquanto um botão do fogão era desligado. Eu esperei, temerosa.
— Eu nunca me senti mais inútil — Charlie começou lentamente. — Eu não sabia o que fazer. Naquela primeira semana - eu pensei que teria que hospitalizar ela. Ela não comia e não bebia nada, ela não se movia. Dr. Gerandy estava soltando palavras como 'catatônico', mas eu não deixei que ele visse ela. Eu estava com medo que isso assustasse ela.
— Mas ela superou isso?
— Eu pedi pra Renée vir pegá-la pra levá-la para a Flórida. Eu só não queria ter que... se ela tivesse que ir para um hospital ou coisa assim. Eu esperava que estar com a mãe fosse ajudá-la. Mas quando começamos a fazer as malas dela, ela se acordou com uma vingança. Eu nunca vi a Bella pirar daquele jeito. Bella nunca teve acessos de raiva, mas, rapaz, ela estava furiosa. Ela jogou as roupas dela pra todo lugar e gritava que nós não podíamos forçá-la a ir embora - e depois ela finalmente começou a chorar. Eu pensei que esse fosse o fim de tudo. Eu não discuti quando ela insistiu em ficar aqui... e no início ela não parecia estar melhorando...
Charlie parou. Era difícil estar escutando isso, sabendo quanta dor eu havia causado pra ele.
— Mas? — Alice incitou.
— Ela voltou pra escola e pro trabalho, ela comia e dormia e fazia o dever de casa. Ela respondia quando alguém a fazia uma pergunta direta. Mas ela estava... vazia. Os olhos dela estavam apagados. Havia um monte de coisas pequenas...  Ela não ouvia mais música. Ela não lia; ela não estaria na sala se a TV estivesse ligada, não que ela já assistisse muito antes. Eu finalmente entendi - ela estava evitando tudo que a fizesse se lembrar... dele. Nós mal podíamos conversar; eu estava sempre tão preocupado em dizer alguma coisa que aborrecesse ela - as menores coisas a faziam vacilar - e ela nunca era voluntária pra nada. Ela só respondia uma coisa se eu perguntasse. Ela estava sozinha o tempo inteiro. Ela não retornava as ligações dos amigos, depois de um tempo, eles pararam de ligar. Era sempre a noite dos mortos vivos por aqui. Eu ainda ouço ela gritando no sono...
Eu quase podia ver ele tremendo.
Eu estremeci, também, me lembrando. E então eu suspirei. Eu não havia conseguido enganá-lo, nem por um segundo.
— Eu lamento, Charlie — Alice disse, a voz mal humorada.
— Não é sua culpa — o jeito que ele disse isso deixou bem claro que ele responsabilizava outra pessoa. —Você sempre foi uma boa amiga pra ela.
— No entanto, ela parece melhor agora.
— É. Desde que ela começou a andar com Jacob Black, eu tenho reparado uma grande melhora. Ela está com cor nas bochechas quando volta pra casa, um pouco de luz nos olhos. Ela está mais feliz — Ele parou e a voz dele estava diferente quando ele voltou a falar. — Ele é um ano mais novo que ela mais ou menos, mas eu acho que tem mais alguma coisa acontecendo, ou pelo menos está nesse caminho — Charlie disse isso num tom que era quase agressivo. Era um aviso, não pra Alice, mas pra que ela passasse. — Jake é velho para a idade dele — ele continuou, ainda parecendo defensivo. — Ele tem tomado conta do pai fisicamente do mesmo jeito que Bella cuida da mãe emocionalmente. Isso o amadureceu. Ele é um garoto bonito também - puxou ao lado da mãe. Ele é bom pra Bella, sabe — Charlie insistiu.
— Então é bom que ela tenha ele — Alice concordou.
Charlie suspirou uma quantidade de ar, mudando rápido demais a sua opinião sobre o assunto.
— Ok, talvez eu esteja apressando as coisas. Eu não sei... mesmo com Jacob, de vez em quando, eu vejo alguma coisa nos olhos dela, e eu me pergunto se por acaso eu tenho noção da verdadeira dor pela ela está passando. Não é normal, Alice, e isso... isso me assusta. Não é nem um pouco normal. Não é como se alguém tivesse... deixado ela, mas como se alguém tivesse morrido.
A voz dele falhou.
Era mesmo como se alguém tivesse morrido- como se eu tivesse morrido. Porque isso foi mais do que apenas perder o mais verdadeiro dos amores, como se isso não fosse suficiente pra matar alguém. Mas também isso era perder um futuro inteiro, uma família inteira - toda a vida que eu havia escolhido.
Charlie continuou no seu tom desesperançado.
— Eu não sei se ela um dia vai superar isso - eu não sei se faz parte da natureza dela se curar de uma coisa assim. Ela sempre foi uma coisinha tão constante.  Ela não esquece as coisas, não muda de ideia.
— Ela é uma em um milhão — Alice concordou com a voz seca.
— E Alice...— Charlie hesitou. — Agora, você sabe a afeição que eu sinto por você, e eu posso dizer que ela está feliz em te ver, mas... eu estou um pouco preocupado com o que a sua visita vai fazer com ela.
— Eu também, Charlie, eu também. Eu não teria vindo se eu tivesse ideia. Me desculpe.
— Não se desculpe, querida. Quem sabe? Talvez seja bom pra ela.
— Eu espero que você esteja certo.
Houve uma longa pausa enquanto garfos arranhavam os pratos e Charlie mastigava. Eu me perguntei onde Alice estava escondendo a comida.
— Alice, eu preciso te perguntar uma coisa — Charlie disse estranhamente.
Alice estava calma.
— Vá em frente.
— Ele não vai voltar pra visitar também, vai? — eu podia ouvir a raiva suprimida na voz de Charlie.
Alice falou num tom macio, tranquilizador.
— Ele nem sabe que eu estou aqui. Da última vez que eu falei com ele, ele estava na América do Sul.
Eu enrijeci quando ouvi essa nova informação, e escutei com mais vontade.
— Pelo menos, isso é alguma coisa — Charlie bufou. — Bem, eu espero que ele esteja se divertindo.
Pela primeira vez, a voz de Alice parecia estar um pouco dura.
— Eu não tiraria conclusões precipitadas, Charlie — Eu sabia como os olhos dela brilhavam quando ela usava esse tom.
Uma cadeira se afastou da mesa, se arrastando com muito barulho no chão da cozinha. Eu imaginei Charlie se levantando; não havia a menor possibilidade de Alice fazer esse barulho todo.
A torneira correu, fazendo um splash no prato.
Não parecia que eles iam dizer mais alguma coisa sobre Edward, então eu decidi que era hora de levantar.
Eu me virei, saltando sobre a mola pra fazê-la ranger. Depois eu bocejei alto.
Estava tudo quieto na cozinha.
Eu me estiquei e gemi.
—Alice? — eu perguntei inocentemente; a inflamação na minha garganta ajudou muito na brincadeira.
— Eu estou na cozinha, Bella — Alice chamou, não havia nenhuma pontada da voz dela que suspeitasse que eu estive escutando escondida. Mas ela era boa em esconder coisas como essa.
Charlie teve que sair nessa hora - ele estava ajudando Sue Clearwater com os arranjos para o funeral. Teria sido um longo dia sem Alice. Ela nunca falou sobre ir embora, e eu não perguntei. Eu sabia que isso era inevitável, mas eu tirei isso da cabeça.
Ao invés disso, nós falamos sobre a sua família - todos menos um.
Carlisle estava trabalhando às noites em Ithaca e ensinando parte do tempo em Cornell. Esme estava restaurando uma casa do século dezessete, um monumento histórico, na floresta ao norte da cidade.
Emmett e Rosalie foram para a Europa por alguns meses para mais uma lua de mel, mas agora eles já estavam de volta. Jasper estava em Cornell também, estudando filosofia dessa vez. E Alice esteve fazendo algumas pesquisas pessoais, envolvendo informações que eu acidentalmente havia revelado pra ela na primavera passada. Ela teve sucesso em encontrar o asilo onde ela passou os últimos anos da sua vida humana. A vida da qual ela não tinha nenhuma memória.
— Meu nome era Mary Alice Brandon — ela me disse baixinho. — Eu tinha uma irmã mais nova chamada Cynthia. A filha dela - minha sobrinha - ainda vive em Biloxi.
— Você descobriu porque te colocaram... naquele lugar? — O que havia levado seus pais a esse extremo? Mesmo se a filha deles tinha visões do futuro...
Ela só balançou a cabeça, seus olhos cor de topázio pensativos.
— Eu não consegui descobrir muito sobre eles. Eu li todos os jornais antigos no estoque. Minha família não era mencionada com muita frequência; eles não faziam parte do círculo de notícias que faziam os jornais. O noivado dos meus pais estava lá, e o de Cynthia — O nome saiu da boca dela sem muita certeza.
— Meu nascimento foi anunciado... e a minha morte. Eu encontrei meu túmulo. Eu também vasculhei as fichas de admissão dos velhos arquivos do asilo. A data de admissão e a data na minha lápide são a mesma.
E não sabia o que dizer, e, depois de uma pequena pausa, Alice mudou para tópicos mais leves.
Os Cullen estavam reagrupados agora, com apenas uma exceção, e eles estão aproveitando as férias de Cornell em Denali com Tânia e a família dela. Eu escutei muito ansiosamente até as notícias mais triviais. Ela nunca mencionou o único no qual eu estava mais interessada, e eu fiquei agradecida por isso. Já era suficiente ouvir as histórias da família da qual um dia eu havia sonhado em fazer parte.
Charlie não voltou até depois que já estava escuro, e ele parecia estar mais cansado do que estava na noite passada. Ele ia para a reserva na primeira hora da manhã para o funeral de Harry, então ele havia voltado mais cedo. Eu fiquei no sofá com Alice de novo.
Charlie era quase um estranho quando desceu as escadas quando o sol apareceu, vestindo um terno velho que eu nunca havia visto ele usando antes. O terno estava aberto; eu acho que estava apertado demais pra fechar os botões. A gravata dele era um pouco larga demais para o estilo atual. Ele foi na ponta dos pés até a porta, tentando não acordar a gente. Eu deixei ele ir, fingindo que estava dormindo, assim como Alice fazia na cadeira reclinável.
Assim que ele havia saído pela porta, Alice se sentou. Por baixo da colcha, ela estava completamente vestida.
— Então, o que vamos fazer hoje? — ela perguntou.
— Eu não sei - você vê alguma coisa interessante acontecendo?
Ela sorriu e balançou a cabeça.
— Mas ainda é cedo.
Todo o tempo que eu estive passando em La Push significou que eu estava negligenciando algumas coisas dentro de casa, e eu decidi recuperar o tempo perdido.
Eu queria fazer alguma coisa, qualquer coisa que tornasse a vida mais fácil pra Charlie - talvez ele se sentisse melhor voltando para uma casa limpa, organizada. Eu comecei pelo banheiro - ele era o que mostrava mais sinais de abandono.
Enquanto eu trabalhava, Alice se encostou no batente da porta e fez perguntas de cortesia sobre os meus, bem, nossos amigos da escola e o que eles andavam fazendo desde que ela foi embora. O rosto dela continuou casual e sem emoção, mas eu sentia a desaprovação dela quando ela viu o quanto eu tinha pouco a dizer. Ou talvez eu só estivesse com a consciência pesada depois de ter bisbilhotado a conversa dela com Charlie ontem de manhã.
Eu literalmente estava de cotovelos no chão, esfregando o chão da banheira, quando a campainha da porta tocou.
Eu olhei pra Alice imediatamente, e a expressão dela estava perplexa, quase preocupada, o que era estranho; Alice nunca era pega de surpresa.
— Espere! — eu gritei na direção geral da porta da frente, me levantando e me apressando para a pia pra limpar meus braços.
— Bella — Alice disse com um traço de frustração na voz. — Eu tenho uma boa ideia de quem pode ser, e eu acho que é melhor eu dar uma saidinha.
— Ideia? — eu ecoei. Desde quando Alice precisava ter uma ideia sobre alguma coisa?
— Se isso for um replay do meu notório lapso de visão de ontem, então é bem possível que seja Jacob Black ou um dos seus... amigos.
Eu encarei ela, juntando as peças.
—Você não consegue ver lobisomens?
Ela fez uma careta.
—Assim parece — Ela estava obviamente aborrecida por esse fato - muito aborrecida.
A campainha tocou de novo - soando duas vezes rapidamente e impacientemente.
—Você não tem que ir a lugar nenhum, Alice. Você estava aqui primeiro.
Ela sorriu o seu pequeno sorriso prateado - ele possuía uma pontada obscura.
— Confie em mim - não seria uma boa ideia ter a mim e Jacob Black juntos na mesma sala.
Ela beijou rapidamente a minha bochecha antes de desaparecer pela porta de Charlie - e pela sua janela sem dúvida.
A campainha tocou de novo.

3 comentários:

  1. ''Ele foi na porta dos pés até a porta'' K está certo?
    XOXO

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  2. Perfeito que bom que alice volto .

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