28 de setembro de 2015

Capítulo 17 - Eu tenho cara de quê? Mágico de Oz? Você precisa de um cérebro? Precisa de um coração? Pode vir. Pegue o meu. Leve tudo o que tenho

Eu, de certo modo, tinha um plano quando corri para a garagem dos Cullen. A segunda parte dele era acabar com o carro do sanguessuga na volta.
Então fiquei perdido quando apertei o botão do controle remoto e não foi o Volvo dele que bipou e piscou as luzes para mim. Foi outro carro – um que se destacava mesmo na longa fila de veículos que eram quase rodos de babar.
Ele realmente quis me dar a chave do Aston Martin Vanquish, ou foi um acidente?
Não parei para pensar nisso, ou se isso mudaria a segunda parte de meu plano. Eu simplesmente me atirei no banco de couro macio e dei a partida no motor enquanto meus joelhos ainda estavam esmagados sob o volante. O ronco do motor poderia ter-me feito gemer num outro dia, mas naquele momento tudo o que eu podia fazer era me concentrar o suficiente para colocá-lo em movimento.
Encontrei a alavanca do banco e deslizei para trás enquanto meu pé afundava no pedal. O carro pareceu praticamente flutuar quando se deslocou para a frente.
Em apenas alguns segundos percorri o caminho estreito e sinuoso que levava até a saída da propriedade. O carro respondia aos comandos como fossem meus pensamentos que estivessem na direção e não minhas mãos.
Quando saí voando do túnel verde e entrei na rodovia, tive um rápido vislumbre do focinho cinza de Leah espiando inquieta em meio às samambaias. Por meio segundo, perguntei-me o que ela pensaria, e então percebi que eu não me importava.
Virei para o sul, porque não estava com a menor paciência para travessias trânsito, nem nada que significasse que eu teria de tirar o pé do acelerador.
De uma forma doentia, aquele era meu dia de sorte. Se por sorte você quiser dizer pegar uma estrada movimentada a 200 km/h sem ver nem sequer um policial mesmo em uma cidade onde o limite de velocidade é 50 km/h. Que decepção! Uma perseguiçãozinha poderia ser legal, para não falar que o registro da placa do carro levaria diretamente ao sanguessuga. Claro que ele pagaria para se safar, mas poderia ser pelo menos um pequeno inconveniente para ele.
O único sinal de vigilância por que passei foi só um vislumbre de pelagem marrom-escura movendo-se rapidamente em meio às árvores, correndo paralelamente comigo por alguns quilômetros no lado sul de Forks. Quil, ao que parecia. Ele devia ter me visto também, porque desapareceu após um minuto, sem alertar ninguém. De novo, quase me perguntei qual seria a versão dele, antes de lembrar que isso não me importava.
Percorri a longa rodovia em U, seguindo para a maior cidade que pudesse encontrar. Essa era a primeira parte do meu plano.
Pareceu durar uma eternidade, provavelmente porque eu ainda estivesse sobre o fio das navalhas, mas na verdade não haviam se passado nem duas horas quando me vi seguindo para o norte, para a região indefinida que era parte Tacoma, parte Seattle. Reduzi então, porque não estava tentando matar nenhum espectador inocente.
Aquele era um plano idiota. Não daria certo. Mas, enquanto procurava em minha mente algum modo de me livrar da dor, o que Leah dissera naquele dia havia me dado um estalo.
Isso passaria, você sabe, se sofresse imprinting. Você não sofreria mais por causa dela.
Parecia que perder a capacidade de decidir talvez não fosse a pior coisa do mundo. Talvez sentir aquilo fosse a pior coisa do mundo.
Mas eu vira todas as garotas em La Push, na reserva Makah e em Forks. Precisava de uma área de caça maior. Então, como se procura uma alma gêmea ao acaso no meio da multidão? Bom, primeiro, eu precisava de uma multidão. Então dei umas voltas, procurando um local apropriado. Passei por alguns shoppings, que provavelmente seriam bons lugares para encontrar garotas da minha idade, mas não consegui me decidir a parar. Será que eu ia querer ter um imprinting com uma garota que roda num shopping o dia todo?
Continuei seguindo para o norte, para lugares cada vez mais abarrotados. Por fim, encontrei um parque grande, cheio de crianças, famílias, skatistas, ciclistas, pipas, piqueniques e tudo isso. Eu não tinha percebido até estar no estacionamento – o dia estava lindo. Sol e tudo mais. As pessoas estavam celebrando o céu azul.
Estacionei tomando duas vagas para deficientes – implorando por uma multa – e me juntei à multidão.
Andei pelo que pareceram horas. Tempo suficiente para o sol mudar de lado no céu. Olhei no rosto de cada garota que passava perto de mim obrigando-me a realmente olhar, observando quem era bonita, quem tinha olhos azuis, quem ficava bem de aparelho nos dentes e quem usava maquiagem demais. Tentei encontrar algo interessante em cada rosto, para saber com certeza que eu havia realmente tentado. Coisas assim: essa tem um nariz bem reto; aquela deveria tirar o cabelo dos olhos; a outra poderia fazer anúncio de batom se o restante do rosto fosse tão perfeito quanto a boca...
Às vezes, elas também olhavam. Às vezes, pareciam assustadas – como se pensassem: Quem é essa coisa enorme me encarando? Às vezes, pensei ter visto algum interesse, mas talvez fosse só meu ego descontrolado.
De qualquer modo, nada aconteceu. Mesmo quando olhei os olhos da garota que era – sem dúvida – a mais gata do parque e, provavelmente, da cidade, e ela me olhou com uma expressão que parecia de interesse, eu não senti nada. Só o mesmo impulso desesperado para encontrar uma saída da dor.
À medida que o tempo passava, comecei a perceber todas as coisas erradas. Coisas de Bella. Essa aqui tem o cabelo da mesma cor. Os olhos daquela outra tinham mais ou menos o mesmo formato. As maçãs do rosto dessa aqui têm o mesmo traçado das dela. Aquela ali tem a mesma ruguinha entre olhos – o que fez com que me perguntasse com o que estaria preocupada...
Foi quando desisti. Porque era mais do que estupidez pensar que eu havia escolhido o lugar e a hora exatos, e iria simplesmente dar de cara com minha alma gêmea só porque estava tão desesperado por isso.
De qualquer modo, não faria sentido encontrá-la ali. Se Sam tinha razão, o melhor lugar para achar minha parceira genética seria em La Push. E, raramente, ninguém de lá preenchia os pré-requisitos. Se Billy tinha razão, então quem poderia saber? O que é necessário para gerar um lobo mais forte? Voltei ao carro, desabei sobre o capô e fiquei brincando com as chaves.
Talvez eu fosse o que Leah pensava ser. Uma espécie de beco sem saída que não devia ser transmitido a outra geração. Ou talvez o problema fosse só que minha vida era uma piada muito cruel e não haveria escapatória a seu desfecho.
— Ei, você está bem? Olá? Você aí, com o carro roubado.
Precisei de um segundo para perceber que a voz falava comigo; depois de outro para me decidir a levantar a cabeça. Uma garota de rosto familiar me fitava com uma expressão um tanto ansiosa. Eu sabia por que estava reconhecendo seu rosto: eu já a catalogara. Cabelo louro-avermelhado, pele clara, algumas sardas douradas espalhadas pelo rosto e pelo nariz, olhos cor de canela.
— Se está sentindo tanto remorso por ter roubado o carro — disse ela, sorrindo de modo que uma covinha apareceu em seu queixo — saiba que é sempre possível se entregar.
— É emprestado, não roubado — respondi. Minha voz soou horrível, como se eu tivesse chorado ou coisa assim. Constrangedora.
— Claro, isso vai colar no tribunal.
Eu a olhei, de cara fechada.
— Precisa de alguma coisa?
— Na verdade, não. Estava brincando sobre o carro. É só que... você parece muito aborrecido com alguma coisa. Ah, ei, meu nome é Lizzie. — Ela estendeu a mão.
Fiquei olhando para a mão até que ela a baixou.
— Seja como for — disse ela sem jeito — eu só estava me perguntando se poderia ajudar. Parecia que você estava procurando alguém.
Ela gesticulou para o parque e deu de ombros.
Ela esperou.
— Não preciso de ajuda. Ela não está aqui.
— Ah. Sinto muito.
— Eu também — murmurei.
Olhei a garota de novo. Lizzie. Era bonita. Legal o suficiente para tentar ajudar um estranho mal-humorado que devia parecer louco. Por que ela não podia ser a garota? Por que tudo tinha de ser tão complicado? Uma legal, bonita e engraçada. Por que não?
— É um belo carro — disse ela. — É mesmo uma pena que não o produzam mais. Quer dizer, o desenho do Vantage também é lindo, mas o Vanquish tem alguma coisa...
Uma garota legal que entendia de carros. Caramba! Olhei seu rosto mais atenção, desejando saber como fazer aquilo funcionar. Vamos lá, Jake, imprinting agora.
— Como é dirigi-lo? — perguntou ela.
— Você não iria acreditar — eu disse.
Ela deu o sorriso de uma covinha, claramente satisfeita por ter arrancado de mim uma resposta quase civilizada, e eu retribuí com um sorriso relutante.
Mas seu sorriso nada pôde contra as lâminas afiadas que subiam e desciam por meu corpo. Por mais que eu quisesse, não era daquele jeito que minha vida passaria a ter sentido.
Eu ainda não tinha a atitude mais saudável de Leah. Eu não conseguiria me apaixonar como uma pessoa normal. Não enquanto estava sangrando por outra. Talvez se dez anos tivessem se passado e o coração de Bella estivesse morto havia muito, e eu tivesse me arrastado por todo o processo de luto e saísse dele inteiro, talvez então eu pudesse oferecer uma carona a Lizzie num carro veloz, conversar sobre marcas e modelos, saber alguma coisa sobre ela e ver se gostava dela como pessoa. Mas isso não aconteceria agora.
A magia não ia me salvar. Eu ia ter de passar pela tortura como um homem. Eu ia ter de suportar. Lizzie aguardava, talvez esperando que eu lhe oferecesse aquela carona. Talvez não.
— É melhor devolver este carro ao cara que me emprestou — murmurei.
Ela sorriu de novo.
— Fico feliz de saber que está se corrigindo.
— É, você me convenceu.
Ela me observou entrar no carro, ainda um pouco preocupada. Eu devia parecer alguém prestes a se jogar de um penhasco. O que talvez eu tivesse feito, se esse tipo de atitude funcionasse para um lobisomem. Ela acenou uma vez, os olhos acompanhando o carro.
De início, dirigi de maneira mais sã no caminho de volta. Não estava com pressa. Eu não queria ir aonde estava indo. De volta à casa, de volta àquela floresta. De volta à dor da qual fugira. De volta à absoluta solidão com ela.
Tudo bem, isso foi melodramático. Eu não estaria completamente só, o que era ruim. Leah e Seth teriam de sofrer comigo. Senti-me feliz por Seth não ter de sofrer por muito tempo. O garoto não merecia ter sua paz de espírito destruída. Leah também não, mas pelo menos isso era algo que ela compreendia. Para Leah, não havia nada de novo na dor. Soltei um suspiro pesado ao pensar no que Leah queria de mim, porque sabia agora que ela conseguiria. Ainda estava irritado com ela, mas não podia ignorar o fato de que eu tinha condições de tornar sua vida mais fácil. E – agora que a conhecia melhor – pensei que ela, provavelmente, faria o mesmo por mim, se nossas posições se invertessem.
Seria interessante, no mínimo, e também estranho ter Leah como companhia – como amiga. Íamos nos colocar muito na pele do outro, isso era certo. Ela não era do tipo que me deixaria mergulhar na tristeza, mas achei que isso seria bom. Eu, provavelmente, precisaria de alguém que me desse umas sacudidelas de vez em quando. Pensando bem, ela era a única amiga com alguma possibilidade de entender o que eu estava passando naquele momento.
Pensei na caçada daquela manhã, em como nossas mentes haviam estado próximas no momento preciso. Não fora ruim. Fora diferente. Meio assustador, meio embaraçoso. Mas também, de uma forma estranha, fora bom.
Eu não precisava ficar completamente só.
E eu sabia que Leah era bastante forte para enfrentar comigo os meses que viriam. Meses e anos. Eu me sentia cansado só de pensar nisso. Era como se estivesse diante de um oceano que eu teria de atravessar a nado, de uma costa a outra, antes de poder descansar.
Tanto tempo ainda por vir, mas por outro lado tão pouco tempo antes de começar! Antes que me lançassem naquele mar. Mais três dias e meio, e ali estava eu, perdendo o pouco de tempo que tinha.
Voltei a dirigir rápido demais.
Vi Sam e Jared, um de cada lado da estrada, como sentinelas, enquanto eu disparava pela rodovia na direção de Forks. Estavam bem escondidos no meio de galhos espessos, mas eu esperava por eles e sabia o que procurar. Acenei com a cabeça enquanto passava voando por eles, sem me incomodar imaginar o que tinham pensado de minha viagem de um dia. Acenei para Leah e Seth também, enquanto percorria o caminho que levava à entrada da casa dos Cullen. Estava começando a escurecer, e as nuvens eram espessas daquele lado do estreito, mas vi seus olhos brilharem na luz dos faróis. Eu explicaria a eles mais tarde. Haveria muito tempo para isso.
Foi uma surpresa encontrar Edward esperando por mim na garagem. Eu não o via longe de Bella havia dias. Pelo seu rosto, percebi que nada de mau acontecera com ela. Na realidade, ele parecia mais tranquilo do que antes. Meu estômago se contraiu quando lembrei de onde vinha aquela tranquilidade.
Pena que eu – com todas as minhas ruminações – tenha esquecido de acabar com o carro. Ah, que fosse! Provavelmente, eu não teria sido capaz de amassar aquele carro, de qualquer forma. Talvez Edward tivesse imaginado isso, e tenha sido esse o motivo de me emprestar justamente ele.
— Algumas coisas, Jacob — disse ele assim que desliguei o motor.
Respirei fundo e prendi o ar por um minuto. Depois, devagar, saí do carro e joguei as chaves para ele.
— Obrigado pelo empréstimo — eu disse, amargo. Ao que parecia, aquilo teria um preço. — O que quer agora?
— Primeiro... Eu sei quão avesso você é a usar sua autoridade com sua matilha, mas...
Eu pisquei, atônito por ele ao menos pensar em começar aquele assunto.
— Como é?
— Se não puder ou não quiser controlar Leah, então eu...
— Leah? — interrompi, falando entre os dentes. — O que houve?
O rosto de Edward era duro.
— Ela veio ver por que você saiu tão de repente. Tentei explicar. Acho que pode não ter saído direito.
— O que ela fez?
— Ela assumiu a forma humana e...
— É mesmo? — interrompi de novo, dessa vez chocado.
Não conseguia processar aquilo. Leah baixando a guarda na boca do covil do inimigo?
— Ela queria... falar com Bella.
— Com Bella?
Edward então estava sibilando.
— Não vou permitir que Bella seja importunada daquela forma de novo. Não ligo se Leah pensa que sua atitude tem justificativa! Eu não a machuquei... é claro que não faria isso... mas vou atirá-la fora da casa se isso acontecer de novo. Vou atirá-la do outro lado do rio...
— Espere aí. O que ela disse? — Nada daquilo fazia sentido.
Edward respirou fundo, recompondo-se.
— Leah foi desnecessariamente dura. Não vou fingir que entendo por que Bella é incapaz de se afastar de você, mas sei que ela não age assim com o intuito de magoá-lo. Ela sofre muito com a dor que inflige a você, e a mim, ao pedir que você fique. O que Leah disse foi inoportuno. Bella está chorando...
— Espere... Leah gritou com Bella por minha causa?
Ele balançou a cabeça uma só vez, asperamente.
— Você foi defendido com muita veemência.
Pare com isso!
— Eu não pedi a ela que fizesse isso.
— Eu sei.
Revirei os olhos. É claro que ele sabia. Ele sabia de tudo.
Mas Leah, agindo assim, era mesmo qualquer coisa. Quem teria acreditado? Leah entrando na casa dos sanguessugas como humana para reclamar de como eu estava sendo tratado.
— Não posso prometer controlar Leah — eu disse a ele. — Não vou fazer isso. Mas vou conversar com ela, O.K.? E não creio que isso vá se repetir. Leah não é de se conter, então deve ter posto tudo para fora hoje.
— Eu diria que sim.
— De qualquer modo, vou falar com Bella sobre isso também. Ela não precisa se sentir mal. Isso é comigo.
— Eu já disse isso a ela.
— É claro que disse. Ela está bem?
— Agora está dormindo. Rose está com ela.
Então a psicopata agora era “Rose”. Ele havia passado completamente para o lado negro.
Ele ignorou esse pensamento, continuando com uma resposta mais completa à minha pergunta.
— Ela está... melhor em alguns aspectos. Excluindo o sermão de Leah e a consequente culpa.
Melhor. Isso porque Edward estava ouvindo o monstro, e tudo agora era só amor. Incrível.
— É um pouco mais que isso — murmurou ele. — Agora que posso entender os pensamentos da criança, é evidente que ele ou ela conta com faculdades mentais extraordinariamente desenvolvidas. Até certo ponto, ele pode nos entender.
Meu queixo caiu.
— Está falando sério?
— Sim. Agora ele parece ter uma vaga ideia do que a fere. Está tentando evitar isso, tanto quanto possível. Ele... a ama. Já.
Encarei Edward, sentindo que meus olhos poderiam saltar das órbitas. Por baixo da incredulidade, pude ver imediatamente que aquele era o ponto crucial. Fora o que havia mudado Edward – o monstro o convencera de seu amor. Ele não podia odiar o que amava Bella. Devia ser por isso que ele também não me odiava. Mas havia uma grande diferença. Eu não a estava matando.
Edward continuou como se não tivesse ouvido tudo isso.
— O progresso, acredito, é maior do que julgávamos. Quando Carlisle voltar...
— Eles não voltaram? — interrompi bruscamente. Pensei em Sam e Jared, vigiando a estrada. Será que ficariam curiosos em relação ao que estava acontecendo?
— Alice e Jasper, sim. Carlisle mandou todo o sangue que conseguiu, mas não era tanto quanto ele esperava... Bella vai usar esse suprimento em um dia, do jeito que seu apetite aumentou. Carlisle ficou para tentar outra fonte. Não acho que seja necessário agora, mas ele quer estar abastecido, para alguma eventualidade.
— Por que não é necessário, se ela precisa de mais?
Dava para perceber que ele estava observando e ouvindo minha reação com cuidado enquanto explicava.
— Estou tentando convencer Carlisle a fazer o parto assim que voltar.
— Como é?
— A criança parece estar tentando evitar movimentos bruscos, mas é difícil. Está grande demais. É loucura esperar, se ela claramente está mais desenvolvida do que Carlisle imaginava. Bella está frágil demais para adiarmos isso.
Eu continuava levando rasteiras. Primeiro, ao contar com o ódio de Edward pela coisa. E, então, ao perceber que dava aqueles quatro dias como certos. Eu apostava neles. O interminável oceano de tristeza que me aguardava estendeu-se diante de mim. Tentei recuperar o fôlego.
Edward esperou. Fitei seu rosto enquanto me recuperava, reconhecendo outra mudança ali.
— Você acha que ela vai conseguir? — sussurrei.
— Sim. Essa é a outra coisa sobre a qual queria falar com você.
Não consegui dizer nada. Depois de um minuto, ele continuou:
— Sim — ele repetiu. — Esperar que a criança esteja pronta, como vínhamos fazendo, foi insanamente perigoso. A qualquer momento pode ser tarde demais. Mas se nos anteciparmos nesse aspecto, se agirmos rapidamente, não vejo motivos para que não saia tudo bem. Conhecer a mente da criança é muitíssimo útil. Felizmente, Bella e Rose concordam comigo. Agora que eu as convenci de que é seguro para a criança fazermos o parto, não há nada que impeça de dar certo.
— Quando Carlisle volta? — perguntei, continuando a sussurrar.
Eu ainda não recuperara o fôlego.
— Amanhã, por volta do meio-dia.
Meus joelhos cederam. Precisei me segurar no carro para me manter de pé. Edward estendeu a mão como se fosse oferecer apoio, mas pensou melhor e a recolheu.
— Sinto muito — sussurrou ele. — Lamento verdadeiramente pela dor que isso causa a você, Jacob. Embora você me odeie, devo admitir que não sinto o mesmo. Eu o vejo como um... um irmão, sob vários aspectos. Um companheiro de armas, no mínimo. Lamento seu sofrimento mais do que você se dá conta. Mas Bella vai sobreviver. — Quando ele disse isso, sua voz soou feroz, até violenta. — E eu sei que é isso que importa para você.
Ele, provavelmente, tinha razão. Era difícil saber. Minha cabeça girava.
— Assim, detesto fazer isso agora, quando você já está enfrentando coisas demais, mas é evidente que há pouco tempo. Devo lhe pedir algo... Implorar, se for necessário.
— Não me resta mais nada — eu disse, sufocado.
Ele ergueu a mão de novo, como se fosse colocá-la em meu ombro, mas a deixou cair como antes e suspirou.
— Sei quanto você tem nos dado — disse ele baixinho. — Mas é uma coisa que você pode fazer, só você. Estou pedindo isso ao verdadeiro alfa, Jacob. Estou pedindo ao herdeiro de Ephraim.
Eu já perdera havia muito a capacidade de responder.
— Quero sua permissão para me desviar do que acordamos em nosso tratado com Ephraim. Quero que nos abra uma exceção. Quero sua permissão para salvar a vida dela. Você sabe que farei isso de qualquer forma, mas, podendo evitar, não quero agir de má-fé com você. Nunca tivemos a intenção de faltar com nossa palavra, e não o fazemos levianamente agora. Quero compreensão, Jacob, porque você sabe exatamente por que estamos fazendo isso. Quero que a aliança entre nossas famílias sobreviva quando isso acabar.
Tentei engolir. Sam, pensei. É Sam que você quer.
— Não. A autoridade de Sam é presumida. Ela pertence a você. Você nunca a tirará dele, mas ninguém pode legitimamente concordar com o que estou lhe pedindo, a não ser você.
Não cabe a mim decidir.
— Cabe, Jacob, e você sabe disso. Sua palavra sobre isso nos condenará ou nos absolverá. Só você pode me dar isso.
Não consigo pensar. Eu não sei.
— Não temos muito tempo... — Ele olhou para a casa.
Não, não havia tempo. Meus poucos dias tinham se transformado em poucas horas.
Não sei. Deixe-me pensar. Me dê só um minuto aqui, está bem?
— Sim.
Comecei a andar na direção da casa, e ele me seguiu. Incrível como era fácil andar pelo escuro com um vampiro ao meu lado. Eu não me sentia em perigo, nem pouco à vontade. Parecia que estava andando ao lado de uma pessoa qualquer. Bem, uma pessoa qualquer que cheirava mal.
Houve um movimento no arbusto na lateral do grande gramado, depois um gemido baixo. Seth passou pelas samambaias e correu para nós.
— Oi, garoto — murmurei.
Ele baixou a cabeça e eu afaguei seu ombro.
— Está tudo bem — menti. — Vou lhe contar tudo depois. Desculpe ter abandonado vocês desse jeito.
Ele sorriu para mim.
— Olhe, diga a sua irmã para recuar agora, está bem? Basta.
Seth balançou a cabeça. Dessa vez empurrei seu ombro com meu corpo.
— Volte ao trabalho. Vou rendê-lo daqui a pouco.
Seth encostou-se em mim, me empurrou de volta, depois correu em direção às árvores.
— Ele tem uma das mentes mais puras, mais sinceras e mais gentis que já ouvi — murmurou Edward depois que ele sumiu de vista. — Você tem sorte de poder compartilhar seus pensamentos.
— Sei disso — grunhi.
Seguimos para a casa, e nós dois erguemos a cabeça quando ouvimos o som de alguém sugando por um canudo. Edward então correu. Disparou pela escada da varanda e se foi.
— Bella, amor, pensei que estivesse dormindo — eu o ouvi dizer. — Desculpe-me: eu não teria saído.
— Não se preocupe. Só fiquei com sede... Foi o que me acordou. Ainda bem que Carlisle está trazendo mais. Essa criança vai precisar, quando sair de mim.
— É verdade.
— Fico imaginando se ele vai querer alguma outra coisa — refletiu ela.
— Acho que vamos descobrir.
Eu passei pela porta.
— Finalmente — disse Alice, e os olhos de Bella dispararam para mim. Aquele sorriso arrasador e irresistível iluminou seu rosto por um segundo. Depois desapareceu, e seu rosto murchou. Os lábios se franziram, como se ela estivesse tentando não chorar.
Eu queria acertar Leah bem no meio de sua boca idiota.
— Oi, Bells — eu disse rapidamente. — Como você está?
— Bem — disse ela.
— Grande dia hoje, hein? Um monte de novidades.
— Não precisa fazer isso, Jacob.
— Não sei do que você está falando — eu disse, indo me sentar no braço do sofá, próximo à sua cabeça. Edward já estava no chão.
Ela me dirigiu um olhar de culpa.
— Me des... — ela começou a dizer.
Prendi seus lábios entre o indicador e o polegar.
— Jake — murmurou ela, tentando afastar minha mão.
Sua tentativa foi tão fraca que era difícil acreditar que ela estivesse realmente tentando. Sacudi a cabeça.
— Só pode falar quando não estiver sendo idiota.
— Tudo bem, não vou dizer isso — foi o que ela pareceu murmurar.
Retirei a mão.
— Desculpe-me! — ela terminou rapidamente, e então sorriu.
Revirei os olhos e sorri para ela.
Quando a olhei nos olhos, vi tudo o que havia procurado no parque. No dia seguinte ela seria outra pessoa. Mas com sorte estaria viva, e era isso o que contava, certo? Ela olharia para mim com os mesmos olhos, mais ou menos. Iria sorrir com os mesmos lábios, quase isso. Ela ainda me conheceria melhor do que qualquer pessoa que não tivesse pleno acesso ao interior de minha cabeça.
Leah talvez fosse uma companhia interessante, talvez até uma amiga de verdade – alguém que tomaria meu partido. Mas não era minha melhor amiga, como Bella. Além do amor impossível que eu sentia por Bella havia também esse outro vínculo, e ele corria fundo.
No dia seguinte, ela seria minha inimiga. Ou minha aliada E, ao que parecia, essa distinção estava em minhas mãos. Eu suspirei.
Tudo bem!, pensei, entregando a última coisa que eu tinha a oferecer. Isso fez com que me sentisse vazio. Vá em frente. Salve-a. Como herdeiro de Ephraim você tem minha permissão, minha palavra de que isso não violará o tratado. Os outros terão de me culpar. Você tinha razão – eles não podem negar que é meu direito concordar com isso.
— Obrigado. — O sussurro de Edward foi suficientemente baixo para que Bella não ouvisse. Mas a palavra soou tão intensa que pelo canto do olho vi que os outros vampiros se viraram para olhar.
— E, então — perguntou Bella, procurando parecer despreocupada — como foi seu dia?
— Ótimo. Fui dar uma volta de carro. Andei pelo parque.
— Parece bom.
— Claro, claro.
De repente, ela fez uma careta.
— Rose? — chamou.
Ouvi a loura rir.
— De novo?
— Acho que bebi uns dez litros na última hora — explicou Bella.
Edward e eu saímos do caminho enquanto Rosalie vinha erguer Bella do sofá e levá-la ao banheiro.
— Posso andar? — perguntou Bella. — Minhas pernas estão tão rígidas.
— Tem certeza? — indagou Edward.
— Rose vai me pegar se eu tropeçar. O que é bem provável, pois não consigo ver meus pés.
Rosalie colocou Bella de pé com cuidado, mantendo as mãos em seus ombros. Bella esticou os braços à frente, estremecendo levemente.
— Ah!, que bom — ela suspirou. — Ai, mas estou imensa.
E estava mesmo. Sua barriga era um continente próprio.
— Mais um dia — disse ela, e afagou a barriga.
Não consegui evitar a dor que me atingiu numa punhalada repentina, mas tentei não deixar transparecer. Eu podia esconder por mais um dia, certo?
— Tudo bem, então. Epa... Ah, não!
O copo que Bella havia deixado no sofá tombou de lado, o sangue vermelho escuro se derramando no tecido claro.
Automaticamente, embora outras três mãos tenham chegado primeiro, Bella se curvou, tentando pegá-lo.
Houve um estranho ruído abafado de algo se rasgando no meio de seu corpo.
— Ah! — ela ofegou.
Depois ficou completamente sem forças, tombando na direção do chão. Rosalie a pegou no mesmo instante, antes que ela pudesse cair. Edward também estava ali, de mãos estendidas, a sujeira no sofá esquecida.
— Bella? — perguntou ele; depois seus olhos perderam o foco e o pânico atravessou suas feições.
Meio segundo depois, Bella gritou.
Não era um simples grito – era um guincho de agonia, capaz de gelar o sangue. O som apavorante foi interrompido por outros, guturais, e os olhos dela se reviraram. Seu corpo se contraiu, arqueando-se nos braços de Rosalie, e então Bella vomitou um jorro de sangue.

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