28 de setembro de 2015

Capítulo 16 - Perigo: excesso de informação

Saí de lá cedo, muito antes de o sol nascer. Tinha tirado um cochilo, desconfortável, encostado na lateral do sofá. Edward me acordou quando o rosto de Bella estava afogueado, e assumiu meu lugar para esfriá-la de novo. Eu me espreguicei e concluí que tinha descansado o suficiente para trabalhar um pouco.
— Obrigado — disse Edward baixinho, vendo meus planos. — Se o caminho estiver desimpedido, eles irão hoje.
— Eu aviso.
Era bom voltar à minha identidade animal. Eu estava rígido de ficar sentado imóvel por tanto tempo. Alonguei minha passada, tentando me livrar das cãibras.
Bom dia, Jacob, Leah me cumprimentou.
Que bom que você está acordada. Há quanto tempo Seth está dormindo?
Ainda não dormi, pensou Seth, sonolento. Estou quase lá. Do que precisa?
Acha que aguenta mais uma hora?
Claro. Sem problemas. Imediatamente Seth se colocou de pé, sacudindo o corpo.
Vamos avançar mais agora, eu disse a Leah. Seth, siga o perímetro.
Entendido. Seth partiu numa corrida tranquila.
Lá vamos nós em outra missão para os vampiros, grunhiu Leah.
Algum problema com isso?
Claro que não. Adoro mimar aqueles adoráveis sanguessugas.
Que bom. Vamos ver que velocidade podemos atingir.
O.K., é claro que estou dentro!
Leah estava no trecho mais a oeste do perímetro. Em vez de cortar caminho perto da casa dos Cullen, ela se manteve no círculo enquanto corria para me encontrar. Eu corri para leste, sabendo que mesmo com aquela dianteira ela logo me ultrapassaria se eu relaxasse por um segundo que fosse.
Focinho no chão, Leah. Isso não é uma corrida, é uma missão de reconhecimento.
Posso fazer as duas coisas e ainda deixar você para trás.
Tive que concordar. Eu sei.
Ela riu.
Pegamos um caminho sinuoso pelas montanhas a leste. Era uma trilha conhecida. Corremos por aquelas montanhas quando os vampiros partiram, um ano antes, como parte da rota de patrulha para proteger melhor o povo dali. Depois recuamos com as linhas, quando os Cullen voltaram. Aquele era o território deles no tratado.
Mas agora esse fato provavelmente não devia significar nada para Sam. O tratado estava morto. A questão ali era até que ponto ele estava disposto a estender sua força. Será que ele estava procurando algum Cullen desgarrado para atacar, fosse ou não fosse em seu território? Será que Jared falara a verdade, ou estava tirando proveito do silêncio entre nós?
Avançamos cada vez mais nas montanhas, sem encontrar nenhum vestígio da matilha. Havia rastros sutis de vampiro em toda parte, mas os cheiros agora eram familiares. Tinha sentido o cheiro deles aquele dia inteiro.
Encontrei uma boa concentração, mais ou menos recente, em um rastro em particular – todos eles indo e vindo por ali, exceto Edward. Houve algum motivo para a reunião, que deve ter sido esquecido quando Edward levou para casa a mulher grávida e moribunda. Trinquei os dentes. O que quer que fosse, não era da minha conta.
Leah não tentou me ultrapassar, embora naquele momento pudesse ter feito isso. Eu estava prestando mais atenção em cada cheiro novo que na disputa. Ela se manteve do meu lado direito, correndo comigo em vez de contra mim.
Já estamos bem longe, comentou ela.
É. Se Sam estivesse caçando os desgarrados, já devíamos ter cruzado seu rastro a essa altura.
Agora faz mais sentido que ele fique entrincheirado em La Push, pensou Leah.
Ele sabe que somos três jogos extras de olhos e patas a favor dos sanguessugas. Não vai conseguir surpreendê-los. Na verdade, isso é só uma precaução.
Não queremos que nossos preciosos parasitas se arrisquem sem necessidade.
Não, concordei, ignorando o sarcasmo.
Você mudou muito, Jacob. Da água para o vinho.
Você também não é exatamente a mesma Leah que sempre conheci e amei.
É verdade. Agora estou menos irritante do que Paul?
Por incrível que pareça... sim.
Ah, o doce sucesso.
Meus parabéns.
Então voltamos a correr em silêncio. Já devia estar na hora de darmos meia-volta, mas nenhum de nós queria isso. Era bom correr daquele jeito. Estávamos observando o pequeno perímetro de uma mesma trilha havia muito tempo. Era bom alongar os músculos e pegar um terreno irregular. Não tínhamos muita pressa, então pensei que talvez devêssemos caçar no caminho de volta. Leah estava com muita fome.
Nham, nham, pensou ela, pouco animada.
Está tudo na sua cabeça, disse a ela. É assim que os lobos comem. É natural. O gosto é bom. Se você não pensasse nisso da perspectiva humana...
Deixe esse papo motivacional para lá, Jacob. Vou caçar. Não preciso gostar disso.
Claro, claro, concordei prontamente. Não era da minha conta se ela queria dificultar as coisas para si mesma. Ela não acrescentou nada por alguns minutos; comecei a pensar em voltar.
Obrigada, disse de repente Leah, em um tom muito diferente.
Por?
Por me deixar em paz. Por me deixar ficar. Você tem sido mais legal do que eu tinha o direito de esperar, Jacob.
Hã, tudo bem. Na verdade, estou sendo sincero. Não me importo de ter você aqui como pensei que me importaria.
Ela bufou, mas era de brincadeira. Que elogio!
Não deixe que isso lhe suba à cabeça.
Tudo bem – se não deixar que esse suba à sua. Ela parou por um segundo. Acho que você dá um bom alfa. Não da mesma forma que Sam, mas à sua própria maneira. Vale a pena seguir você, Jacob.
Minha mente ficou vazia com a surpresa. Precisei de um segundo para me recuperar o suficiente para responder.
Hã, obrigado. Mas não sei se vou conseguir impedir que isso suba à minha cabeça. De onde saiu isso?
Ela não respondeu de imediato, e eu segui a direção muda de seus pensamentos. Ela estava pensando no futuro – sobre o que eu tinha dito a Jared na outra manhã. Sobre como logo chegaria a hora, e então eu voltaria para a floresta. Sobre eu ter prometido que ela e Seth voltariam à matilha quando os Cullen fossem embora...
Quero ficar com você, disse ela.
Uma descarga elétrica subiu por minhas pernas, travando minhas articulações. Ela passou voando por mim e freou. Devagar, voltou para onde eu estava paralisado.
Eu não vou encher a paciência, juro. Não vou ficar seguindo você por aí. Pode ir aonde quiser, e eu irei aonde eu quiser. Você só vai precisar me aturar quando formos lobos. Ela andava de um lado para o outro na minha frente, balançando nervosamente a longa cauda cinza. E como pretendo me livrar disso assim que puder... talvez isso não vá ser muito frequente.
Eu não sabia o que dizer.
Estou mais feliz agora, como parte de sua matilha, do que fui em anos.
Eu quero ficar também, pensou Seth baixinho. Não tinha percebido que ele estava prestando tanta atenção em nós enquanto percorria o perímetro. Gosto dessa matilha.
Espere aí! Seth, isso não será uma matilha por muito tempo. Tentei recompor meus pensamentos para que o convencesse. Agora temos um propósito, mas quando... depois que isso acabar, vou voltar à vida de lobo. Seth, você precisa de um propósito. Você é um bom garoto. É o tipo de pessoa que sempre tem uma cruzada. E deforma alguma vai deixar La Push agora. Você vai terminar a escola e fazer alguma coisa de sua vida. Vai cuidar de Sue. Meus problemas não vão atrapalhar seu futuro.
Mas...
Jacob tem razão, reforçou Leah.
Está concordando comigo?
Claro que sim. Mas nada disso se aplica a mim. Eu estava mesmo indo embora lá. Vou arrumar um emprego em algum lugar longe de La Push. Talvez fazer alguns cursos politécnicos numa faculdade. Fazer ioga e meditação para resolver meus problemas de temperamento... E fazer parte dessa matilha pelo meu bem-estar mental. Jacob – você consegue ver como isso faz sentido, certo? Não vou incomodar você, você não vai me incomodar – todo o mundo fica feliz.
Fiz meia-volta e comecei a retornar devagar para o oeste. É muita coisa para eu digerir, Leah. Deixe-me pensar um pouco, está bem?
Claro. Sem pressa.
Demoramos mais para correr de volta. Eu não estava tentando ser veloz. Só tentava me concentrar o bastante para não dar uma cabeçada numa árvore. Seth grunhia um pouco no fundo de minha mente, mas consegui ignorá-lo. Ele sabia que eu tinha razão. Ele não iria abandonar a mãe. Iria voltar para La Push e proteger a tribo, como devia fazer.
Mas eu não conseguia ver Leah fazendo o mesmo. E isso era assustador.
Uma matilha composta de nós dois? Por maior que fosse a distância física, eu não conseguia imaginar a... a intimidade dessa situação. Imaginei se ela realmente tinha pensado bem naquilo ou se só estava desesperada para ficar livre. Leah não disse nada enquanto eu ruminava o assunto. Era como se tentasse provar como seria fácil se fôssemos apenas nós dois.
Encontramos um rebanho de cervos de rabo preto no momento em que o sol se levantava, iluminando um pouco as nuvens atrás de nós. Leah suspirou consigo mesma, mas não hesitou. Seu bote foi simples e eficiente – gracioso até. Ela derrubou o maior, o macho, antes que o animal assustado percebesse plenamente o perigo.
Para não ficar para trás, abati a segunda maior fêmea do rebanho, quebrando-lhe rapidamente o pescoço entre minhas mandíbulas, para que ela não sentisse dor desnecessária. Eu podia sentir o nojo de Leah em conflito com sua fome, e tentei facilitar para ela, deixando que o lobo dominasse minha mente. Eu tinha vivido como lobo por tempo suficiente para saber ser integralmente o animal – ver e pensar como ele. Deixei que os instintos práticos me dominassem, permitindo que ela também sentisse isso. Ela hesitou por um segundo, mas depois, aos poucos, pareceu que sua mente tinha chegado lá e tentava ver do meu modo. Era muito estranho – nossas mentes estavam mais ligadas do que nunca, porque nós dois estávamos tentando pensar juntos.
Foi estranho, mas ajudou Leah. Os dentes dela cortaram o pelo e a pele do ombro de sua presa, rasgando um grosso naco de carne sangrenta. Em vez de recuar, como seus pensamentos humanos queriam que fizesse, ela deixou que seu eu-lobo reagisse instintivamente. Era algo de certo modo entorpecente, automático. E permitiu que ela comesse em paz.
Foi fácil para mim fazer o mesmo. E fiquei feliz por não ter me esquecido daquilo. Aquela logo voltaria a ser minha vida. Será que Leah faria parte dessa vida? Uma semana antes eu teria achado essa ideia para lá de apavorante. Não teria sido capaz de suportá-la. Mas agora eu a conhecia melhor. E, aliviada da dor ininterrupta, ela não era a mesma loba. Não era a mesma garota. Comemos juntos até estarmos satisfeitos.
Obrigada, ela me disse mais tarde, enquanto limpava o focinho e as patas na relva molhada.
Eu não me dei a esse trabalho; tinha acabado de começar a chuviscar e teríamos que atravessar o rio novamente no caminho de volta. Eu ficaria bastante limpo.
Não foi tão ruim, pensando do seu jeito.
De nada.
Seth estava se arrastando quando chegamos ao perímetro. Eu disse a ele que fosse dormir um pouco; Leah e eu assumiríamos a patrulha. A mente de Seth caiu na inconsciência segundos depois.
Está voltando para os sanguessugas?, Leah perguntou.
Talvez.
É difícil para você estar lá, mas também é difícil ficar longe. Sei como é isso.
Sabe de uma coisa, Leah, talvez você queira pensar melhor no futuro, no que realmente quer fazer. Minha cabeça não vai ser o lugar mais feliz da Terra. E você terá de sofrer comigo.
Ela pensou em como me responder. Caramba, isso vai soar mal. Mas, honestamente, vai ser mais fácil lidar com sua dor do que enfrentar a minha.
É bastante razoável.
Sei que será ruim para você, Jacob. Eu entendo... talvez melhor do que você pensa. Não gosto dela, mas... ela é seu Sam. Ela é tudo o que você quer e tudo o que não pode ter.
Não consegui responder.
Sei que é pior para você. Pelo menos Sam está feliz. Pelo menos ele está vivo e bem. Eu o amo bastante para querer isso. Quero que ele tenha o que for melhor para ele. Ela suspirou. Só não quero ficar perto para assistir.
Precisamos falar disso?
Acho que sim. Porque quero que saiba que não vou piorar as coisas para você. Que droga, talvez eu até ajude! Não nasci uma bruxa sem compaixão. Antigamente, eu era legal, sabe?
Minha memória não vai tão longe. Nós dois rimos.
Sinto muito por isso, Jacob. Lamento que esteja sofrendo. Lamento que tudo esteja piorando, em vez de melhorar.
Obrigado, Leah.
Ela pensou nas coisas que estavam piores, as imagens negras em minha mente, enquanto eu tentava me desligar dela, sem muito sucesso. Ela conseguia olhar tudo aquilo com algum distanciamento, alguma perspectiva, e eu tinha de admitir que isso ajudava. Permitia que eu imaginasse que talvez também fosse capaz de enxergar as coisas daquela maneira em alguns anos.
Ela via o lado engraçado das irritações de todo dia, que vinham com a convivência com os vampiros. Ela gostava das minhas implicâncias Rosalie, rindo consigo mesma e até repassando mentalmente algumas de loura que eu talvez pudesse usar. Mas depois seus pensamentos ficaram sérios, demorando-se no rosto de Rosalie de um jeito que me confundia.
Sabe o que é maluco?, perguntou ela.
Bom, quase tudo agora é maluco. Mas a que você está se referindo?
Aquela vampira loura que você odeia tanto... Entendo perfeitamente a perspectiva dela.
Por um segundo pensei que ela fosse fazer uma piada de péssimo gosto. E então, quando percebi que falava seriamente, foi difícil controlar a fúria que me tomou. Foi bom termos nos separado em nossa vigilância. Se ela estivesse à distância de uma dentada...
Espere aí! Deixe-me explicar!
Não quero ouvir. Vou dar o fora daqui.
Espere! Espere!, ela pediu enquanto eu tentava me acalmar o suficiente para mudar de forma. Ah, vamos, Jake!
Leah, essa não é a melhor maneira de me convencer de que no futuro vou querer passar mais tempo com você.
Puxa! Que reação exagerada. Você nem sabe do que estou falando.
Então me diga: do que está falando?
E ela de repente era a Leah endurecida pela dor. Estou falando de ser um beco sem saída genético, Jacob.
O tom cruel em suas palavras me fez vacilar. Eu não esperava ter minha raiva vencida.
Não entendo.
Você entenderia se não fosse igual ao restante deles. Se minhas “coisas de fêmea” – ela pensou as palavras com um tom sarcástico e duro – não o afastassem para longe como a qualquer macho idiota, você conseguiria realmente presta no que tudo isso significa. Ah!
Nenhum de nós gostava de pensar nessas coisas com ela. Quem iria gostar? É claro que eu me lembrava do pânico de Leah no primeiro mês depois que se juntara à matilha – e me lembrava de ter fugido daquilo, como todos os outros. Porque ela não podia engravidar – a menos que acontecesse alguma monstruosa concepção imaculada. Ela não estivera com ninguém desde Sam. E depois, quando as semanas se arrastavam e o nada se transformava em mais nada, ela havia percebido que seu corpo não mais seguia os padrões normais. O pavor – o que ela era, então? Será que seu corpo tinha mudado por que ela se tornara lobisomem? Ou ela havia virado lobisomem por que tinha algo errado com seu corpo? A única lobisomem fêmea na história do mundo. Será que aconteceu porque ela não era tão fêmea quanto deveria ser?
Nenhum de nós queria encarar aquele problema. Não era, obviamente, algo com que conseguíssemos nos identificar.
Você sabe por que Sam acha que temos imprinting, ela pensou, mais calma.
Claro. Para dar seguimento à linhagem.
Sim. Para fazer um monte de novos lobisomenzinhos. A sobrevivência da espécie, a dominância genética. Você é atraído à pessoa que lhe dá as melhores chances de transmitir o gene de lobo.
Esperei que ela me dissesse aonde queria chegar.
Se eu tivesse alguma utilidade nesse sentido, Sam teria se sentido atraído por mim.
Sua dor era tamanha, que me fez interromper a corrida.
Mas não tenho. Tem alguma coisa errada comigo. Não sou capaz de passar adiante os genes, ao que parece, apesar de minha linhagem estelar. Então me tornei uma aberração, a lobisomem mulherzinha – que não serve para mais nada. Sou um beco sem saída genético, e nós dois sabemos disso.
Não sabemos, argumentei. Essa é apenas a teoria de Sam. O imprinting acontece, mas não sabemos por quê. Billy acha que é outra coisa.
Eu sei, eu sei. Ele acha que o imprinting acontece para gerar lobos mais fortes, porque você e Sam são monstros imensos – maiores do que nossos pais. Mas, seja com for, eu não me enquadro. Eu... estou na menopausa. Tenho 20 anos e já estou na menopausa.
Argh. E não queria mesmo ter aquela conversa. Você não sabe, Leah. Provavelmente, é só essa coisa de ficar parada no tempo. Quando você se livrar da forma de lobo e começar a envelhecer de novo, sei que as coisas vão... hã... voltar a seu ritmo.
Eu posso até pensar assim... Só que ninguém sofreu imprinting comigo, apesar do meu impressionante pedigree. Sabe de uma coisa?, acrescentou ela, pensativa, se não fosse por você, Seth provavelmente seria quem teria mais direito de ser o alfa... ao menos por causa do sangue. É claro que ninguém jamais pensaria em mim.
Você quer mesmo sofrer imprinting, ou que alguém sofra por você, ou seja o que for?, perguntei. O que há de errado em se apaixonar como uma pessoa normal, Leah? O imprinting é só mais uma maneira de ter suas escolhas arrancadas de suas mãos.
Sam, Jared, Paul, Quil... eles não parecem se importar.
Nenhum deles pensa por si mesmo.
Você não quer o imprinting?
Não, Deus me livre!
Isso é só porque você já é apaixonado por ela. Isso passaria, você sabe, se sofresse imprinting. Você não sofreria mais por causa de ninguém.
Quer esquecer o que sente por Sam?
Ela pensou por um momento. Acho que sim.
Suspirei. A atitude dela era mais saudável do que a minha.
Mas, voltando ao meu argumento original, Jacob, eu entendo por que sua vampira loura é tão fria – no sentido figurado. Ela está focada. Está de olho no prêmio, certo? Porque o que mais queremos é sempre o que jamais poderemos ter.
Você agiria como Rosalie? Você mataria alguém – porque é o que ela está fazendo, cuidando para que ninguém interfira na morte de Bella – você faria isso para ter um bebê? Desde quando você é uma reprodutora?
Eu só quero as opções que não tenho, Jacob. Talvez eu nunca pensasse no assunto se não houvesse nada de errado comigo.
Você mataria por isso?, perguntei, sem deixar que ela escapasse de minha pergunta.
Não é o que ela está fazendo. Acho que é mais como se ela estivesse, indiretamente, vivendo aquilo. E... se Bella pedisse a mim que a ajudasse... Ela parou, refletindo. Embora não ligue muito para ela, eu provavelmente faria o mesmo que a sanguessuga.
Um rosnado alto rompeu entre meus dentes.
Porque, se fosse o contrário, eu iria querer que Bella fizesse o mesmo por mim. E Rosalie também. Nós duas agiríamos como ela.
Argh! Você está tão louca quanto eles!
É isso que é engraçado em saber que você não pode ter uma coisa. Você fica desesperado.
É... esse é meu limite. Aqui mesmo. Esta conversa acabou.
Tudo bem.
Não era suficiente que ela concordasse em parar. Eu queria um fim mais definitivo do que isso.
Estava a cerca de um quilômetro de onde tinha deixado minhas roupas, então passei para a forma humana e caminhei. Não pensei em nossa conversa. Não porque não houvesse em que pensar, mas porque eu não suportava. Eu não queria ver a questão daquela maneira – mas ficara mais difícil evitar isso depois de Leah ter colocado os pensamentos e emoções em minha cabeça. É, eu não iria correr com ela quando aquilo terminasse. Ela que ficasse infeliz em La Push. Um pequeno comando de alfa antes de partir para sempre não mataria ninguém.
Era muito cedo quando cheguei à casa. Bella ainda devia estar dormindo. Pensei em dar uma espiada, ver o que estava acontecendo, dar a eles sinal verde para que fossem caçar e, então, encontrar um pedaço de grama bastante macio para dormir como humano. Eu só iria voltar a mudar de forma quando Leah estivesse dormindo.
Mas havia muito burburinho dentro da casa – então talvez Bella não estivesse dormindo. Em seguida ouvi novamente o barulho do equipamento no segundo andar – o aparelho de raio X? Que ótimo! Parecia que o quarto dia na contagem regressiva começava de forma explosiva.
Alice abriu a porta para mim antes que eu pudesse entrar sozinho. Ela balançou a cabeça.
— E aí, lobo.
— E aí, baixinha. O que está acontecendo lá em cima? — A grande sala estava vazia; todos os murmúrios vinham do segundo andar.
Ela encolheu os ombrinhos ossudos.
— Talvez outra fratura.
Ela tentou falar de forma despreocupada, mas eu podia ver as chamas no fundo de seus olhos. Edward e eu não éramos os únicos que estavam se consumindo com aquilo. Alice também amava Bella.
— Outra costela? — perguntei com a voz rouca.
— Não. A bacia dessa vez.
Era estranho que aquilo continuasse me atingindo, como se cada novo acontecimento fosse uma surpresa. Quando é que eu pararia de me surpreender? Cada novo desastre parecia meio óbvio depois de ter acontecido. Alice olhava minhas mãos, vendo-as tremer, depois ouvimos a voz de Rosalie no andar de cima.
— Viu, eu disse que não tinha ouvido um estalo. Alguém precisa examinar seus ouvidos, Edward.
Não houve resposta. Alice fez uma careta.
— Acho que Edward vai acabar fazendo Rosalie em pedacinhos. Estou surpresa de que ela não veja isso. Ou talvez ache que Emmett poderá detê-lo.
— Eu pego Emmett — ofereci. — Você pode ajudar Edward com a parte de picar em pedacinhos.
Alice abriu um meio sorriso. A procissão então desceu a escada – dessa vez, Edward carregava Bella, que estava segurando seu copo de sangue com as duas mãos, o rosto lívido. Eu podia ver que, embora ele compensasse cada movimento mínimo de seu corpo para não movê-la bruscamente, ela sentia dor.
— Jake — ela sussurrou, e sorriu em meio à dor.
Eu a fitei, sem nada dizer.
Edward colocou Bella com cuidado no sofá e se sentou no chão, perto de sua cabeça. Imaginei por um segundo por que não a deixavam no andar de cima, então concluí de imediato que devia ser ideia de Bella. Ela devia querer agir como se as coisas estivessem normais, evitar o equipamento hospitalar. E ele estava cedendo aos desejos dela. Naturalmente.
Carlisle desceu devagar, o último deles, o rosto vincado de preocupação. Pela primeira vez, parecia ter idade suficiente para ser médico.
— Carlisle — eu disse. — Fomos até a metade do caminho para Seattle. Não há sinal da matilha. Vocês podem ir.
— Obrigado, Jacob. É uma boa hora. Estamos precisando de muitas coisas. — Seus olhos negros voaram para o copo que Bella segurava com tanta firmeza.
— Sinceramente, acho que pode levar mais de três com segurança. Tenho certeza de que Sam está se concentrando em La Push.
Carlisle assentiu. Surpreendeu-me ver a facilidade com que ele aceitou meu conselho.
— Se pensa assim. Alice, Esme, Jasper e eu iremos. Depois Alice pode levar Emmett e Rosa...
— De jeito nenhum — sibilou Rosalie. — Emmett pode ir com vocês agora.
— Você precisa caçar — disse Carlisle numa voz gentil. O tom de voz dele não atenuou o dela.
— Vou caçar quando ele for — grunhiu ela, apontando Edward com a cabeça e jogando o cabelo para trás.
Carlisle suspirou. Jasper e Emmett chegaram ao primeiro andar num piscar de olhos, e no mesmo segundo Alice se juntou a eles perto da porta de vidro dos fundos. Esme flutuou para o lado de Alice.
Carlisle pôs a mão em meu braço. O toque gelado não era agradável, mas eu não me afastei. Permaneci imóvel – em parte por surpresa, em parte porque não queria ferir seus sentimentos.
— Obrigado — disse ele de novo, e então disparou porta afora com os outros quatro.
Meus olhos os seguiram enquanto eles voaram pelo gramado e desapareceram antes que eu pudesse inspirar novamente. As necessidades deles deviam ser mais urgentes do que eu imaginara.
Por um minuto, não ouvi nenhum som. Eu podia sentir alguém me fuzilando com os olhos, e sabia quem era. Eu havia planejado sair e dormir um pouco, mas a oportunidade de estragar a manhã de Rosalie parecia boa demais para ser desperdiçada.
Então caminhei até a poltrona ao lado da de Rosalie e me acomodei, esparramando-me de modo que minha cabeça estivesse inclinada na direção de Bella e meu pé esquerdo quase na cara de Rosalie.
— Argh. Alguém coloque o cachorro para fora — murmurou ela, franzindo o nariz.
— Conhece esta, psicopata: sabe como os neurônios de uma loura morrem?
Ela não disse nada.
— E então? — perguntei. — Sabe o final da piada ou não?
Ela olhava para a tevê com determinação, ignorando minha presença.
— Ela já ouviu essa? — perguntei a Edward.
Não havia humor em seu rosto tenso – seus olhos não se desgrudavam de Bella. Mas ele respondeu.
— Não.
— Beleza! Então vai gostar desta, sanguessuga... Os neurônios de uma loura morrem de solidão.
Rosalie continuou sem olhar para mim.
— Já matei cem vezes mais do que você, sua besta nojenta. Não se esqueça disso.
— Um dia, Rainha da Beleza, você vai cansar de ficar só me ameaçando. Estou louco para que esse dia chegue.
— Chega, Jacob — disse Bella.
Olhei para baixo, e ela estava de cara feia para mim. Parecia que o bom humor da véspera se fora. Bom, eu não queria aborrecê-la.
— Quer que eu vá embora? — propus.
Antes que eu pudesse esperar – ou temer – que ela finalmente tivesse se cansado de mim, ela piscou, e a cara feia desapareceu. Parecia completamente chocada com que eu chegasse a tal conclusão.
— Não! É claro que não.
Suspirei, e ouvi Edward suspirar bem baixinho também. Eu sabia que ele, igualmente, queria que ela me deixasse de lado. Pena que nunca fosse pedir a ela algo que a fizesse infeliz.
— Você parece cansado — comentou Bella.
Morto de cansaço — admiti.
— Bem que eu gostaria disso — murmurou Rosalie, baixo demais para que Bella ouvisse.
Eu me afundei mais na poltrona, acomodando-me melhor. Meus pés descalços ficaram mais próximos de Rosalie, e ela enrijeceu. Depois de alguns minutos, Bella pediu a Rosalie que tornasse a encher o copo. Senti o vento enquanto ela subia para pegar mais sangue. Estava muito silencioso. Talvez eu pudesse tirar um cochilo, pensei.
E então Edward perguntou:
— Você disse alguma coisa?
Seu tom era confuso. Estranho. Porque ninguém tinha dito nada, e porque a audição de Edward era tão boa quanto a minha – então ele deveria saber disso.
Ele olhava fixamente para Bella, e ela o fitava também. Os dois pareciam confusos.
— Eu? — perguntou ela depois de um segundo. — Eu não disse nada.
Ele se ajoelhou, inclinando-se na direção dela, a expressão de repente intensa, de uma forma totalmente diferente. Seus olhos negros estavam focados no rosto de Bella.
— No que está pensando agora?
Ela o encarou, perplexa.
— Em nada. O que está acontecendo?
— No que estava pensando um minuto atrás? — perguntou ele.
— Só na... ilha de Esme. E nas plumas.
Parecia sem sentido para mim, mas então ela corou, e eu deduzi que melhor não saber.
— Diga mais alguma coisa — sussurrou ele.
— Como o quê? Edward, o que está acontecendo?
Sua expressão mudou de novo, e ele fez algo que me deixou de queixo caído. Ouvi um arquejo atrás de mim, e soube que Rosalie estava de volta, e tão chocada quanto eu. Edward muito suavemente, pousou as mãos na barriga imensa e redonda.
— O f... — ele engoliu em seco. — A... o bebê gosta do som da sua voz.
Mais uma fração de segundo de completo silêncio. Eu não conseguia mover nenhum músculo, nem mesmo piscar. Então...
— Santo Deus, você pode ouvi-lo! — gritou Bella.
No segundo seguinte, ela estremeceu. A mão de Edward deslizou para o alto da barriga e gentilmente afagou o local onde a coisa devia tê-la chutado.
— Psiu — murmurou ele. — Você assustou a coi... ele.
Os olhos dela se arregalaram e ficaram cheios de admiração. Ela afagou a lateral da barriga.
— Desculpe-me, bebê.
Edward ouvia com atenção, a cabeça inclinada na direção da protuberância.
— O que ele está pensando agora? — perguntou ela, ansiosa.
— A cois... ele, ou ela, está... — Ele fez uma pausa e fitou os olhos de Bella. Os olhos dele também estavam cheios de admiração, só que mais cautelosa e relutante. — Está feliz — disse Edward, num tom incrédulo.
Ela perdeu o fôlego, e era impossível não ver o brilho fanático em seu olhar. A adoração e a devoção. Lágrimas enormes transbordaram de seus olhos e escorreram em silêncio pelo rosto e pelos lábios sorridentes.
Enquanto a fitava, o rosto dele não estava apavorado, nem colérico, nem em chamas, nem com nenhuma das expressões que ele exibia desde que voltaram. Ele estava maravilhado, como ela.
— É claro que você está feliz, bebê lindo, é claro que está — ela murmurou, afagando a barriga enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. — Como poderia não estar, aí todo seguro, aquecido e amado? Eu o amo tanto, pequeno EJ. É claro que você está feliz.
— Como você o chamou? — perguntou Edward com curiosidade.
Ela corou de novo.
— Eu mais ou menos o batizei. Não achei que você fosse querer... Bem, você sabe.
— EJ?
— O nome do seu pai também era Edward.
— Sim, era. O que...? — Ele parou e disse: — Hã.
— O que foi?
— Ele também gosta da minha voz.
— É claro que gosta — agora o tom da voz dela era quase de júbilo. — Você tem a voz mais linda de todo o Universo. Quem não amaria?
— Você tem um plano B? — perguntou Rosalie, inclinando-se sob costas do sofá com o mesmo olhar maravilhado de Bella. — E se ele for ela?
Bella enxugou o rosto molhado com as costas da mão.
— Andei brincando com alguns nomes. Com Renée e Esme. Eu estava pensando em... Ré-nes-mee.
— Renesmei?
— R-e-n-e-s-m-e-e. É muito esquisito?
— Não, eu gosto — Rosalie a tranquilizou. As cabeças das duas estavam unidas, ouro e mogno. — É lindo. E único, então combina.
— Ainda acho que é Edward —  Bella apontou.
Edward fitava o vazio, o rosto inexpressivo enquanto ouvia.
— O que foi? — perguntou Bella, diante. — O que ele está pensando agora?
De início ele não respondeu, e então – voltando a chocar todos nós, três arquejos distintos – ele pôs o ouvido ternamente na barriga de Bella.
— Ele a ama — sussurrou. Edward, parecendo pasmado. — Ele simplesmente adora você.
Nesse momento, eu vi que estava sozinho. Completamente só. Tive raiva de mim mesmo quando percebi quanto estivera contando com aquele vampiro nojento. Que idiotice – como se você pudesse confiar num sanguessuga! É claro que ele me trairia no fim.
Contava que ele ficasse do meu lado. Contava que ele sofresse mais do que eu. E, acima de tudo, contava que ele odiasse mais do que eu aquela coisa revoltante que estava matando Bella.
Tinha acreditado nele nesse sentido.
Entretanto, agora eles estavam juntos, os dois curvados sobre o monstro invisível que estava chegando, com os olhos iluminados, como uma família feliz.
E eu estava completamente só com meu ódio e aquela dor tamanha, era como se eu estivesse sendo torturado. Era como ser arrastado lentamente sobre um leito de navalhas. Doía tanto, que eu receberia a morte com um sorriso, só para me livrar daquilo.
O calor destravou meus músculos paralisados, e eu me levantei. Os três ergueram a cabeça, e vi minha dor ondular pelo rosto de Edward quando ele invadiu de novo minha mente.
— Ahh — disse ele, sufocado.
Eu não sabia o que fazer; fiquei de pé ali, tremendo, pronto para correr, desabalado, para a primeira saída que me ocorresse. Movendo-se como uma cobra, Edward disparou para uma mesinha de canto e pegou algo na gaveta. Atirou-o para mim, e eu peguei o objeto por reflexo.
— Vá, Jacob. Vá embora daqui. — Ele não disse isso asperamente. Lançou as palavras para mim como se fossem um bote salva-vidas. Estava me ajudando a encontrar a saída que eu procurava desesperadamente.
O que eu tinha na mão eram as chaves de um carro

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