25 de setembro de 2015

Capítulo 16 - Marco

— Eu não tenho nada pra vestir! — gemi pra mim mesma.
Todos os itens de roupa que eu tinha estavam espalhados em cima da minha cama; as minhas gavetas e armários estavam vazios. Eu encarei os recessos vazios, desejando que alguma coisa que servisse aparecesse.
A minha saia khaki estava estendida nas costas da cadeira de balanço, esperando que eu encontrasse alguma coisa que combinasse perfeitamente bem com ela. Alguma coisa que me fizesse parecer linda e adulta. Alguma coisa que dissesse ocasião especial. Eu estava ficando vazia.
Já estava quase na hora de ir, e eu ainda estava usando o meu moletom velho favorito. A não ser que eu conseguisse encontrar alguma coisa melhor lá - e as chances não eram boas até esse ponto - eu ia me formar usando eles.
Eu fiz uma careta para a pilha de roupas em cima da minha cama.
O problema é que eu sabia exatamente o que eu usaria se ela ainda estivesse disponível - a minha blusa vermelha sequestrada. Eu soquei a parede com a minha mão boa.
—Vampiro estúpido, ladrão, chato!—, eu rosnei.
—O que foi que eu fiz?—, Alice quis saber.
Ela estava encostada casualmente ao lado da janela aberta como se tivesse estado lá o tempo todo.
—Toc, toc—, ela acrescentou com um sorriso.
—Será que realmente é tão difícil esperar que eu abra a porta?—
Ela jogou uma caixa branca, plana, em cima da cama. —Eu estou só de passagem. Eu achei que você podia precisar de alguma coisa pra vestir—.
Eu olhei para o pacote grande que estava em cima da minha pilha de roupas insatisfatórias, e fiz uma careta.
—Admita—, Alice disse. —Eu sou uma salvadora—.
—Você é uma salvadora—, eu murmurei. —Obrigada—.
—Bem, é legal entender uma coisa certa só pra variar. Você não sabe o quanto é irritante - perder as coisas do jeito que eu tenho perdido. Eu me sinto tão inútil. Tão... normal—. Ela estremeceu de horror com a palavra.
—Eu nem posso imaginar o quanto isso seria horrível. Ser normal? Ugh—.
Ela riu. —Bem, pelos menos isso ajeita as coisas por eu não ter visto o seu ladrão chato - agora eu só tenho que descobrir o que eu não estou vendo em Seattle—.
Quando ela disse as palavras assim - colocando duas situações juntas em uma frase -bem aí eu tive um clique. A coisa elusiva que esteve me incomodando por dias, a conexão importante que eu não conseguia ligar, ficou clara de repente. Eu encarei ela, meu rosto ficou congelado com qualquer que fosse a expressão que já estava lá.
—Você não vai abrir?—, ela perguntou. Ela suspirou quando eu não me movi imediatamente, e retirou ela mesma o topo da caixa. Ela puxou alguma coisa lá de dentro e segurou, mas eu não consegui me concentrar no que era. —Bonito, você não acha? Eu escolhi azul, porque eu sei que é a cor favorita de Edward em você—.
Eu não estava ouvindo.
—É o mesmo—, eu sussurrei.
—É o que?—, ela quis saber. —Você não tem nada parecido com isso. Pra falar a verdade, você só tem uma saia!—
—Não, Alice! Esqueça as roupas, escute!—
—Você não gostou?— o rosto de Alice ficou nublado de desapontamento.
—Alice, escute, você não consegue ver? É o mesmo! O mesmo que invadiu e roubou as minhas coisas, e os vampiros de Seattle. Eles estão juntos!—
As roupas escapuliram dos dedos dela e caíram de volta na caixa.
Alice se concentrou agora, a voz dela estava afiada de repente. —Porque você acha isso?—
—Lembra do que Edward disse? Sobre alguém estar usando os buracos das suas visões pra evitar que você visse os recém-nascidos? E também o que você disse antes, sobre o timing ser perfeito demais - o quanto o meu ladrão havia sido cuidadoso pra não entrar em contato, como se ele soubesse que você ia ver isso. Eu acho que você estava certa, Alice, eu acho que ele sabia. Eu também acho que ele estava usando os buracos. E quais são as chances de duas pessoas não apenas saberem disso, mas também decidirem agir ao mesmo tempo? Sem chance. É uma pessoa só. A mesma pessoa. A pessoa que está criando o exército é a pessoa que roubou o meu cheiro—.
Alice não estava acostumada a ser pega de surpresa. Ela congelou, e ficou imóvel por tanto tempo que eu comecei a contar na minha cabeça enquanto esperava. Ela não se moveu por dois minutos inteiros. Aí os olhos dela se refocaram em mim.
—Você está certa—, ela disse com um tom superficial. —É claro que você está certa. E quando você coloca as coisas desse jeito...—
—Edward entendeu errado—, eu sussurrei. —Isso era um teste... pra ver se daria certo. Se ele podia entrar e sair em segurança contanto que ele não fizesse nada que você estava esperando pra ver. Como tentar me matar... E ele não levou as minhas coisas pra provar que tinha me encontrado. Ele roubou o meu cheiro... pra que outros pudessem me encontrar—.
Os olhos dela estavam arregalados com o choque. Eu estava certa, e eu podia ver que ela sabia isso também.
—Oh, não—, ela fez com a boca.
Eu já nem esperava mais que as minhas emoções fizessem sentido. Enquanto eu processava o fato de que alguém havia criado um exército de vampiros - o exército que matou horrivelmente dezenas de pessoas em Seattle - com o propósito expresso de me destruir, eu senti um espasmo de alívio.
Parte disso era dissolver aquele sentimento irritante de que eu estava perdendo algo vital.
Mas a maior parte era uma coisa completamente diferente.
—Bem—, eu sussurrei, —Todo mundo pode relaxar. Ninguém está tentando eliminar os Cullen no final das contas—.
—Se você pensa que alguma coisa mudou, você está absolutamente enganada—, Alice disse por entre os dentes. —Se alguém quer uma de nós, vai ter passar por cima de todos nós pra chegar até ela—.
—Obrigada, Alice. Mas pelo menos nós já sabemos de quem eles realmente estão atrás. Isso deve ajudar—.
—Talvez—, ela murmurou. Ela começou a andar pra frente e pra trás pelo meu quarto.
Thud, thud - um pulso bateu na porta.
Eu pulei. Alice nem pareceu reparar.
—Você não está pronta ainda? Nós vamos nos atrasar!— Charlie reclamou, parecendo nervoso.
Charlie odiava ocasiões quase tanto quanto eu. Nesse caso, muito do problema tinha a ver com me vestir.
—Quase. Me dê um minuto—, eu disse roucamente.
Ele ficou quieto por meio segundo. —Você está chorando—.
—Não. Eu estou nervosa. Vá embora—.
Eu ouvi ele descendo as escadas.
—Eu tenho que ir—. Alice sussurrou.
—Porque?—
—Edward está vindo. Se ele ouvir isso...—
—Vá, vá!— eu apressei imediatamente. Edward ia pirar quando soubesse. Eu não podia esconder dele por muito tempo, mas talvez a cerimônia de formatura não fosse a melhor hora para a reação dele.
—Vista isso—, Alice comandou enquanto saia pela janela.
E eu fiz o que ela dizia, me vestindo em meio a uma névoa.
Eu estive planejando fazer alguma coisa mais sofisticada com o meu cabelo, mas eu estava sem tempo, então ele ficou liso e chato como em qualquer outro dia. Isso não importava. Eu não me importei em olhar para o espelho, então eu não fazia ideia de como o suéter e a saia de Alice estavam em mim. Isso também não importava. Eu joguei o robe horroroso de formatura de poliéster amarelo por cima do braço e corri escadas à baixo.
—Você está bonita— Charlie disse, já abobalhado com alguma emoção suprimida. —Isso é novo?—
—É—, eu murmurei, tentando me concentrar. —Alice me deu. Obrigada—.
Edward chegou apenas alguns minutos depois que a irmã dele foi embora. Isso não foi tempo suficiente pra que eu colocasse uma fachada calma. Mas, já que íamos na viatura com Charlie, ele não teve chance de me perguntar o que havia de errado.
Charlie ficou teimoso na semana passada quando ele descobriu que eu pretendia pegar uma carona com Edward para a cerimônia de formatura. E eu entendia o ponto dele - pais deviam ter alguns direitos nos dias de formatura. Eu concedi de boa vontade, e Edward sugeriu alegremente que nós devíamos ir todos juntos. Já que Carlisle e Esme não tinham problema nenhum com isso, Charlie não pôde inventar uma objeção convincente; ele concordou de má vontade.
E agora Edward estava no banco de trás do carro de polícia do meu pai, atrás do vidro de fibra, com uma expressão divertida - provavelmente devida a expressão divertida do meu pai, e do sorriso que se abria no rosto de Charlie toda vez que Charlie olhava pra Edward pelo espelho retrovisor. O que certamente significava que Charlie estava imaginando coisas que iam fazê-lo ter problemas comigo se ele as dissesse em voz alta.
—Você está bem?— Edward sussurrou quando ele me ajudou a sair do banco da frente no estacionamento da escola.
—Nervosa—, eu respondi, e isso nem era uma mentira.
—Você está tão linda—, ele disse.
Ele parecia estar querendo dizer mais, mas Charlie, em uma manobra óbvia que ele pretendia fazer com que fosse súbita, se meteu no meio de nós dois e passou o braço pelos meus ombros.
—Você está excitada?—, ele me perguntou.
—Na verdade não—, eu admiti.
—Bella, esse é um negócio grande. Você está se formando no colegial. Esse agora é o mundo real pra você. Faculdade. Morar sozinha... Você não é mais a minha garotinha—.
Charlie engasgou um pouco no final.
—Pai—, eu gemi. —Por favor não fique choramingando em cima de mim—.
—Quem está choramingando?—, ele rosnou. —Agora, porque você não está excitada?—
—Eu não sei, pai. Eu acho que a ficha ainda não caiu ou algo assim—.
—É bom que Alice esteja dando uma festa. Você precisa de alguma coisa pra te animar—.
—Claro. Uma festa é exatamente o que eu preciso—.
Charlie riu com o meu tom e apertou os meus ombros. Edward olhou para as nuvens, o rosto dele estava pensativo.
O meu pai teve que nos deixar na porta de trás do ginásio e rodear pela entrada principal como os outros pais.
Estava um pandemônio enquanto a Sra. Cope do escritório da frente e o Sr. Varner o professor de Matemática tentavam colocar todo mundo em uma linha na ordem alfabética.
—Para a frente, Sr. Cullen—, o Sr. Varner rosnou.
—Ei, Bella!—
Eu olhei pra cima pra ver Jessica Stanley acenando pra mim no final da linha com um sorriso no rosto.
Edward me beijou rapidamente, suspirou, e foi ficar onde os C's estavam. Alice não estava lá. O que ela ia fazer? Perder a formatura? Que timing pobre que eu tinha. Eu devia ter esperado pra solucionar as coisas quando isso tudo já estivesse acabado.
—Aqui, Bella!— Jessica chamou de novo.
Eu caminhei pela fila pra tomar meu lugar atrás de Jessica, um pouco curiosa pra saber porque ela estava tão amigável de repente. Quando eu cheguei mais perto, eu vi Ângela cinco pessoas atrás, observando Jessica com a mesma curiosidade.
Jess já estava tagarelando antes que eu estivesse no campo de audição.
—... tão incrível. Quer dizer, perece que acabamos de nos conhecer, e agora estamos nos formando juntas—, ela botou pra fora. —Dá pra acreditar que está acabado? Eu estou com vontade de gritar!—
—Eu também—, eu murmurei.
—Isso tudo é tão incrível. Você se lembra do seu primeiro dia aqui? Nós ficamos amigas, tipo, imediatamente. Desde a primeira vez que a gente se viu. Incrível. Agora eu vou para a Califórnia e você vai estar no Alaska e eu vou sentir tanto a sua falta! Você tem que prometer que a gente vai se encontrar de vez em quando! Eu estou tão feliz porque vamos ter uma festa. Isso é perfeito. Porque nós realmente não ficamos muito juntas a algum tempo e agora estamos indo embora...—
Ela tagarelou e tagarelou, e eu tinha certeza de que o retorno repentino da amizade era por causa da nostalgia da formatura e por causa do convite para a festa, não que eu tivesse alguma coisa a ver com isso. Eu prestei tanta atenção quanto podia enquanto entrava no meu robe. E eu descobri que estava feliz que as coisas pudessem acabar em bons termos com Jessica.
Porque as coisas estavam acabando, não importava o que Eric, o discurssor, tivesse a dizer sobre começo significar —início— e todo o resto daquelas bobagens tão usadas.
Talvez eu mais do que para o resto, mas todos nós estavam deixando alguma coisa pra trás hoje.
Tudo acabou tão rápido. Eu me senti como se tivesse apertado o botão de —passar—.
Era pra estarmos todos andando tão rápido? E aí Eric estava falando velozmente com o seu nervosismo, as palavras e as frases estavam correndo juntas até que elas já não faziam mais sentido. O Diretor Greene começou a chamar nomes, um depois do outro sem tempo suficiente pra uma pausa entre eles; a linha da frente do ginásio estava se apressando pra acompanhar. A pobre Sra. Cope estava toda atrapalhada enquanto tentava dar os diplomas certos ao diretor que ia ser entregue ao estudante certo.
Eu observei enquanto Alice, aparecendo de repente, dançou até o palco pra pegar o dela, um olhar de profunda concentração em seu rosto. Edward seguiu atrás dela, com a expressão confusa, mas não aborrecida. Somente eles dois podiam andar por aí usando aquele amarelo odioso e ainda assim ficarem daquele jeito. Eles se destacavam do resto da multidão, com sua beleza e graça além desse mundo. Eu me perguntei como eu havia caído na farsa dele de serem humanos. Um par de anjos, lá de pé com suas asas intactas, seriam menos suspeitos.
Eu ouvi o Sr. Greene chamar o meu nome e me levantei, esperando que a fila na minha frente se movesse. Eu estava consciente dos aplausos no fundo do ginásio, e me virei pra ver Jacob colocando Charlie de pé, eles dois estavam gritando pra me encorajar. Eu só consegui ver o topo da cabeça de Billy embaixo do cotovelo de Jacob. Eu consegui jogar pra eles a aproximação de um sorriso.
O Sr. Greene terminou com a lista de nomes, e depois continuou a nos dar os nossos diplomas com um sorriso envergonhado enquanto passávamos.
—Parabéns, Senhorita Stanley—, ele murmurou enquanto Jess pegou o dela.
—Parabéns, Senhorita Swan—, ele murmurou pra mim, pressionando o diploma na minha mão boa.
—Obrigada—, eu murmurei.
E isso foi tudo.
Eu fui ficar ao lado de Jessica junto com os outros estudantes. Jess estava toda vermelha ao redor dos olhos, e ela ficava limpando os olhos com a manga do robe o tempo inteiro. Eu levei um segundo pra entender que ela estava chorando.
O Sr. Greene disse alguma coisa que eu não ouvi, e todo mundo ao meu redor começou a gritar. Começaram a chover chapéus amarelos. Eu tirei o meu, tarde demais, e só deixei ele cair no chão.
—Oh, Bella!— Jess falou por cima dos rumores repentinos de conversa. —Eu não acredito que acabamos.—
—Eu não acredito que esteja tudo acabado—, eu murmurei.
Ela jogou os braços ao redor do meu pescoço. —Você tem que me prometer que não vamos perder o contato—.
Eu abracei ela de volta, me sentindo estranha enquanto despistava o pedido dela. —Eu estou tão feliz, sabe, Jessica. Foram dois bons anos—.
—Foram—, ela suspirou, e fungou. E aí ela deixou os braços caírem. —Lauren!— ela esguichou, acenando por cima da cabeça e empurrando a massa de roupas amarelas. As famílias estavam começando a se juntar, se apertando com força uns aos outros.
Eu dei uma olhada em Ângela e Ben, mas eles estavam cercados por suas famílias. Seria bom dar os parabéns a eles.
Eu virei a minha cabeça, procurando por Alice.
—Parabéns—, Edward cochichou no meu ouvido, os braços dele passando pela minha cintura. A voz dele estava subjugada; ele não estava com pressa de me ver atingir esse marco em particular.
—Um, obrigada—.
—Parece que você ainda não superou os nervos—, ele reparou.
—Ainda não—.
—O que mais te preocupa? A festa? Não vai ser tão horrível—.
—Provavelmente você está certo—.
—Por quem você está procurando?—
A minha procura não era tão súbita quanto eu pensava. —Alice - onde ela está?—
—Ela saiu correndo assim que pegou o diploma dela—.
A voz dele tomou um novo tom. Eu olhei pra cima pra ver a expressão confusa dele enquanto ele olhava na direção das portas de trás do ginásio, e eu tomei uma decisão impulsiva - o tipo de coisa na qual eu devia pensar duas vezes antes de fazer, mas raramente pensava.
—Você está preocupado com Alice?—, eu perguntei.
—Er...— ele não queria responder a isso.
—O que ela estava pensando afinal? Quer dizer, pra te manter do lado de fora—.
Os olhos dele desceram para o meu rosto, e se estreitaram com suspeita. —Ela estava traduzindo o Hino de Batalha da República pra Árabe, na verdade. Quando ela acabou com isso, ela passou para a linguagem dos sinais Coreana—.
Eu ri nervosamente. —Eu acho que isso manteria a cabeça dela ocupada o suficiente—.
—Você sabe o que ela estava escondendo de mim—, ele acusou.
—Claro—, eu disse com um sorriso fraco. —Fui eu que inventei isso tudo—.
Ele esperou, confuso.
Eu olhei ao redor. Charlie devia estar à caminho no meio da multidão agora.
—Conhecendo Alice—, eu disse apressadamente. —provavelmente ela está tentando esconder isso de você até o final da festa. Mas já que eu estou a fim de que a festa seja cancelada - bem, não fique frenético, não importa o que acontecer, tudo bem? É sempre melhor saber o máximo que for possível. Isso tem que ajudar de alguma forma—.
—Do que você está falando?—
Eu vi a cabeça de Charlie aparecer por cima das outras enquanto ele procurava por mim. Ele me viu e acenou.
—Só fique calmo, tudo bem?—
Ela balançou a cabeça uma vez, a boca dele era uma linha fina.
Em sussurros apressados, eu expliquei meu raciocínio pra ele. —Eu acho que você está errado que diz que as coisas estão vindo pra nós de todos os lados. Eu acho que a maioria está vindo de um lado... e eu acho que está vindo atrás de mim, na verdade. Tudo está conectado, tem de estar. É apenas uma pessoa que está confundindo as visões de Alice. O estranho no meu quarto era um teste, pra ver se alguém desconfiaria dela. Essa tem que ser a mesma pessoa que continua mudando de ideia, e os recém-nascidos, e roubando as minhas roupas - tudo isso vai junto. O meu cheiro é pra eles—.
O rosto dele ficou tão branco que eu tive dificuldade em terminar.
—Mas ninguém está vindo por vocês, você não vê? Isso é bom - Esme e Alice e Carlisle, ninguém quer machucar eles!—
Os olhos dele estavam enormes, arregalados de pânico, ofuscados e horrorizados. Ele podia ver que eu estava certa, assim como Alice tinha visto.
Eu pus a minha mão na bochecha dele. —Calma—, eu implorei.
—Bella!—, Charlie sorriu de felicidade, empurrando as famílias apertadas pelo caminho.
—Parabéns, bebê!— Ele ainda estava gritando, mesmo estando bem no meu ouvido agora. Ele passou os braços ao meu redor, empurrando Edward levemente de lado quando fez isso.
—Obrigada—, eu murmurei, preocupada com a expressão no rosto de Edward. Ele ainda não tinha restabelecido o controle. As mãos dele estavam meio estendidas pra mim, como se ele estivesse prestes a me agarrar e sair correndo. Estando apenas um pouco mais sob controle do que ele estava, sair correndo não parecia ser uma ideia tão terrível pra mim.
—Jacob e Billy tiveram que ir embora - você viu que eles estavam aqui?— Charlie perguntou, dando um passo pra trás, mas deixando suas mãos nos meus ombros. Ele estava de costas pra Edward - provavelmente um esforço pra excluí-lo, mas no momento isso estava bem. A boca de Edward estava aberta, os olhos dele ainda arregalados de medo.
—É—, eu assegurei o meu pai, tentando prestar atenção suficiente. —E vi eles também—.
—Foi legal da parte deles aparecer—, Charlie disse.
—Mm-hmm—
Tudo bem, então dizer pra Edward não foi uma boa ideia. Alice estava certa por ter mantido seus pensamentos nublados. Eu devia ter esperado até que estivéssemos sozinhos em algum lugar, talvez com o resto da família dele. E perto de nada que fosse quebrável - como janelas... ou carros... prédios escolares. O rosto dele trouxe de volta todo o meu medo e um pouco mais. A expressão dele agora estava além do medo - era fúria pura que estava visível nas feições dele.
—Então, onde você quer jantar?—, Charlie perguntou. —O céu é o limite—.
—Eu posso cozinhar—.
—Não seja boba. Você quer ir ao Lodge?—, ele perguntou com um sorriso ansioso.
Eu não gostava particularmente do restaurante favorito de Charlie, mas, nesse ponto, qual era a diferença? Eu não ia conseguir comer do mesmo jeito.
—Claro, o Lodge, legal—, eu disse.
Charlie deu um sorriso maior, e depois suspirou.
Ele virou a cabeça meio na direção de Edward, sem realmente olhar pra ele.
—Você vem também, Edward?—
Eu encarei ele, meus olhos estavam pedintes. Edward arrumou a sua expressão bem antes de Charlie se virar pra ver porque não havia recebido uma resposta.
—Não, obrigado—, Edward disse rispidamente, seu rosto duro e frio.
—Você tem planos com seus pais?—, Charlie perguntou, com uma careta no rosto. Edward sempre foi mais educado do que Charlie merecia; essa hostilidade repentina o surpreendeu.
—Sim. Se você me der licença...—, Edward se virou abruptamente e foi embora por entre a multidão que diminuía.
—O que foi que eu disse?— Charlie perguntou com uma expressão de culpa.
—Não se preocupe com isso, pai—, eu o assegurei. —Eu não acho que seja você—.
—Vocês dois brigaram de novo?—
—Ninguém está brigando. Cuide dos seus assuntos—.
—Você é meu assunto—.
Eu revirei meus olhos. —Vamos comer—.
O Lodge estava lotado. O lugar era, na minha opinião, caro e de baixa qualidade, mas era a única coisa aproximada de um restaurante formal que havia na cidade, então era popular pra eventos. Eu olhei bobamente pra uma cabeça de alce empalhada e com um olhar deprimido enquanto Charlie comia costelas no prato principal e olhava por trás do seu assento para os pais de Tyler Crowley. Estava barulhento - todo mundo havia ido pra lá depois da formatura, e a maioria deles estava fofocando entre os corredores e por cima das cabines, como Charlie.
Eu estava de costas para as janelas da frente, e resisti a vontade de me virar e olhar para os olhos que eu sentia cravados em mim agora. Eu sabia que não seria capaz de ver nada. Assim como sabia que não tinha chance dele me deixar desprotegida, mesmo que por um segundo. Não depois disso.
O jantar foi uma droga. Charlie, ocupado se socializando, comeu devagar demais. Eu mexi com o meu hambúrguer, enfiando pedações dele no meu guardanapo quando eu tinha que a atenção dele estava em outro lugar.
Tudo isso pareceu levar um longo tempo, mas quando eu olhei pra o relógio - o que eu fazia mais do que o necessário - os ponteiros não haviam de movido muito.
Finalmente Charlie recebeu seu troco de volta e colocou uma gorjeta na mesa. Eu levantei.
—Com pressa?—, ele me perguntou.
—Eu quero ajudar Alice a arrumar as coisas—, eu disse.
—Tudo bem—, ele se virou de costas pra mim pra dizer boa noite a todo mundo. Eu fui pra fora pra esperar perto da viatura.
Eu me encostei na porta do passageiro, esperando que Charlie se arrastasse pra fora da festa improvisada. Estava quase escuro no estacionamento, as nuvens estavam tão grossas que era impossível dizer se o sol havia se posto ou não. O ar estava pesado, como se estivesse prestes a chover.
Alguma coisa se moveu entre as sombras.
A minha falta de ar se transformou em alívio quando Edward apareceu na escuridão.
Sem uma palavra, ele me apertou com força contra seu peito. Uma mão fria encontrou o meu queixo, e ele puxou o meu rosto pra cima pra poder pressionar seus lábios com força nos meus. Eu podia sentir a tensão na mandíbula dele.
—Como você está?—, eu perguntei, assim que ele me deixou respirar.
—Não muito bem—, ele murmurou. —Mas eu me controlo. Eu lamento por ter perdido a cabeça lá atrás—.
—Foi minha culpa. Eu devia ter esperado pra te contar.—
—Não—, ele discordou. —Isso é uma coisa que eu precisava saber. Eu não consigo acreditar que não tinha visto isso!—
—Você tem muita coisa na cabeça—.
—E você não tem?—
De repente ele me beijou de novo, sem me deixar responder. Ele se afastou depois de apenas um segundo. —Charlie está vindo—.
—Eu vou deixar ele em casa—
—Eu te sigo até lá—.
—Isso realmente não é necessário—, eu tentei dizer, mas ele já tinha ido embora.
—Bella?—, Charlie chamou da porta do restaurante, tentando enxergar na escuridão.
—Eu estou aqui—.
Charlie entrou no carro, murmurando sobre impaciência.
—Então, como você se sente?—, ele perguntou enquanto dirigia para o norte em direção à estrada. —Esse foi um grande dia—.
—Eu estou bem—, eu menti.
Ele riu, olhando através de mim com facilidade. —Preocupada com a festa?—, ele adivinhou.
—É—, eu menti de novo.
Dessa vez ele não percebeu. —Você nunca gostou de festas—.
—Eu me perguntou de onde foi que eu peguei isso—, eu murmurei.
Charlie gargalhou. —Bem, você realmente está bonita. Eu queria ter pensado em te comprar alguma coisa. Desculpa—.
—Não seja bobo, pai—.
—Não é bobagem. Eu sinto que eu não faço sempre por você o que devia fazer—.
—Isso é ridículo. Você faz um trabalho fantástico. O melhor pai do mundo. E...— Não era fácil falar sobre sentimentos com Charlie, mas eu continuei depois de limpar minha garganta. —E eu realmente estou feliz por ter vindo morar com você, pai. Foi a melhor ideia que eu já tive. Então, não se preocupe - você só está experimentando o pessimismo pós-formatura.—
Ele roncou. —Talvez. Mas eu tenho certeza que escorreguei em alguns lugares. Quer dizer, olha a sua mão!—
Eu olhei pra baixo vaziamente para as minhas mãos. A minha mão estava descansando levemente na tipóia sobre a qual eu raramente pensava. A minha mão quebrada já não doía tanto.
—Eu nunca pensei que precisava te ensinar a dar um soco. Eu acho que estava errado sobre isso—.
—Você não estava do lado de Jacob?—
—Não importa de que lado eu estou. Se alguém te beija sem a sua permissão, você devia esclarecer os seus sentimentos sem se machucar. Você não deixou o polegar dentro do seu pulso, deixou?—
—Não, pai. Isso é muito doce de uma maneira esquisita, mas eu não acho que as suas aulas teriam ajudado. A cabeça de Jacob é muito dura—.
Charlie riu. —Da próxima vez bata no estômago dele—.
—Da próxima vez?—, eu perguntei incredulamente.
—Aw, não seja tão dura com o garoto. Ele é jovem—.
—Ele é um idiota—.
—Ele ainda é seu amigo—.
—Eu sei—, eu suspirei. —Eu realmente não sei a coisa certa a fazer aqui, pai—.
Charlie balançou a cabeça lentamente.
—É. A coisa certa nem sempre é óbvia. As vezes a coisa certa pra uma pessoa é a coisa errada pra outra pessoa. Então... boa sorte tentando descobrir isso—.
—Obrigada—, eu murmurei secamente.
Charlie riu de novo, e depois fez uma careta. —Se essa festa ficar selvagem demais...— ele começou.
—Não se preocupe com isso, pai. Carlisle e Esme estarão lá. Eu tenho certeza que você pode vir também, se quiser—.
Charlie fez uma careta enquanto olhava para a noite através do pára-brisa. Charlie gostava tanto de uma boa festa quanto eu.
—Onde é a curva, de novo?—, ele perguntou. —Eles devem ter limpado a entrada deles - é impossível encontrar no escuro—.
—Bem ao redor da próxima curva, eu acho—, eu torci os lábios. —Sabe, você está certo - é impossível encontrar. Alice disse que colocou um mapa nos convites, mas mesmo assim, talvez todo mundo se perca—. Eu fiquei levemente alegre com a ideia.
—Talvez—, Charlie disse quando a estrada virou para o leste. —Talvez não—.
A escuridão de veludo negro desaparecia à frente, bem onde a entrada dos Cullen devia ser. Alguém havia prendido milhares de pequenas luzes nas árvores de ambos os lados. Era impossível não ver.
—Alice—, eu disse amargamente.
—Uau—, Charlie disse enquanto nós viramos na entrada. As suas árvores na entrada eram as únicas que não estavam iluminadas. A cerca de um vinte metros, outra baliza iluminada nos guiava em direção à grande casa branca. Em todo o caminho - todos os três metros do caminho.
—Ela não faz as coisas pela metade, faz?— Charlie murmurou deslumbrado.
—Tem certeza que você não quer entrar?—
—Extremamente certo. Se divirta, guria—.
—Muito obrigada, pai.
Ele estava rindo pra si mesmo enquanto eu saía e fechava a porta. Eu observei ele ir embora, ainda sorrindo. Com um suspiro, eu marchei escadas à cima para suportar a minha festa.

2 comentários:

  1. Nossa muito bom mesmo ...!!

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  2. —Talvez. Mas eu tenho certeza que escorreguei em alguns lugares. Quer dizer, olha a sua mão!—
    Eu olhei pra baixo vaziamente para as minhas mãos. A minha mão estava descansando levemente na tipóia sobre a qual eu raramente pensava. A minha mão quebrada já não doía tanto.
    —Eu nunca pensei que precisava te ensinar a dar um soco. Eu acho que estava errado sobre isso—.
    —Você não estava do lado de Jacob?—
    —Não importa de que lado eu estou. Se alguém te beija sem a sua permissão, você devia esclarecer os seus sentimentos sem se machucar. Você não deixou o polegar dentro do seu pulso, deixou?—
    —Não, pai. Isso é muito doce de uma maneira esquisita, mas eu não acho que as suas aulas teriam ajudado. A cabeça de Jacob é muito dura—.
    Charlie riu. —Da próxima vez bata no estômago dele—.


    quem não quer um pai assim?
    ameeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei
    ~ Rainha Soberana das tretas e dos sentimentos

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