28 de setembro de 2015

Capítulo 15 - Tique-taque, tique-taque, tique-taque

Ei, Jake, pensei que tivesse dito que queria que eu chegasse ao anoitecer. Por que não pediu a Leah que me acordasse antes de ela apagar?
Porque eu não precisava de você. Ainda estou bem.
Ele já estava pegando a metade norte do círculo. Alguma coisa?
Não. Nada mesmo.
Fez algum reconhecimento?
Ele tinha alcançado a beira de um de meus desvios. Seguiu pela nova trilha. É – corri alguns raios. Sabe como é, só verificando. Se os Cullen vão fazer a viagem de caça...
Boa ideia.
Seth voltou ao perímetro principal.
Era mais fácil correr com ele do que com Leah. Embora ela estivesse se esforçando – e muito – sempre havia uma tensão em seus pensamentos. Ela não queria estar ali. Não queria sentir a boa vontade com relação aos vampiros que se passava em minha cabeça. Não queria lidar com a tão confortável amizade de Seth com eles – uma amizade que ia ficando cada vez mais forte.
Era estranho; eu havia pensado que seu maior problema seria comigo: nós sempre provocamos um ao outro quando estávamos na matilha de Sam. Agora não havia antagonismo com relação a mim, eram só os Cullen e Bella. Fiquei me perguntando por quê. Talvez fosse a simples gratidão por eu não obrigá-la a ir embora. Talvez fosse porque agora eu entendia melhor sua hostilidade. O que quer que fosse, correr com Leah não era tão ruim quanto eu havia esperado.
É claro que ela não amolecera tanto assim. A comida e as roupas que Esme mandara àquela altura estavam descendo pelo rio. Mesmo depois de eu ter comido minha parte – não porque o aroma fosse praticamente irresistível longe do futum de vampiro, mas para dar a Leah um bom exemplo de tolerância e autossacrifício – ela recusara. O pequeno alce que ela abatera ao meio-dia não havia satisfeito totalmente seu apetite. Na verdade, tinha piorado seu humor. Leah odiava comida crua.
Quem sabe a gente não devesse correr mais para o leste?, sugeriu Seth. Ir mais fundo ver se eles estão lá esperando.
Eu estava pensando nisso, concordei. Mas vamos fazer isso quando todos estivermos acordados. Não quero baixar nossa guarda. Mas precisamos fazer antes que os Cullen saiam. Em breve.
Tudo bem.
Aquilo me fez pensar.
Se os Cullen conseguissem sair de seu perímetro com segurança, deveriam, na verdade, ir de vez. Aliás, deveriam ter partido no segundo em que fomos alertá-los. Eles certamente tinham como se estabelecer em outros lugares. E tinham amigos no norte, não é? Podiam pegar Bella e fugir. Parecia uma resposta óbvia aos problemas deles.
Eu provavelmente deveria sugerir isso, mas tinha medo de que me ouvissem. E não queria que Bella sumisse – e jamais saber se ela tinha ou não conseguido.
Não, isso era idiotice. Diria a eles que fossem. Não fazia sentido ficarem, e seria melhor para mim – não menos doloroso, porém mais saudável – se Bella partisse.
Naquele momento era fácil falar, quando Bella não estava ali, parecendo toda animada por me ver, ao mesmo tempo agarrando-se à vida com unhas e dentes...
Ah, já perguntei a Edward sobre isso, pensou Seth.
O quê?
Perguntei a ele por que ainda não tinham ido embora. Para a casa de Tanya ou coisa assim. Um lugar longe demais para que Sam fosse atrás deles.
Precisei lembrar a mim mesmo que havia acabado de decidir dar exatamente aquele conselho aos Cullen. Aquilo seria melhor. Então eu não devia ficar irritado com Seth por tirar a tarefa das minhas mãos. Nem um pouco irritado.
E o que ele disse? Estão esperando uma oportunidade?
Não. Eles não vão embora.
E isso não devia parecer uma boa notícia.
Por que não? É idiotice.
Na verdade, não, disse Seth, agora na defensiva. Leva algum tempo para conseguir o tipo de recursos médicos que Carlisle tem aqui. Ele tem tudo de que precisa para cuidar de Bella, e as credenciais para conseguir mais. Esse é um dos motivos por que querem sair para caçar. Carlisle acha que logo vão precisar de mais para Bella. Ela está usando todo o O negativo que estocaram para ela. Não agrada a ele esgotar o estoque. Vai comprar mais. Sabia que se pode comprar sangue? Se você for médico.
Eu ainda não estava preparado para usar a lógica. Ainda parece idiotice. Eles podem levar a maior parte das coisas, não é? E roubar o que precisarem aonde forem. Quem liga para o que é ilegal, quando se é um morto-vivo?
Edward não quer correr nenhum risco levando-a.
Ela está melhor do que antes.
Radicalmente, concordou ele. Em sua cabeça, estava comparando minhas lembranças de Bella presa aos tubos com a última vez que a vira, ao sair da casa. Ela tinha sorrido para ele e acenado. Mas ela não pode andar muito por aí, sabe como é. Aquela coisa está chutando o diabo dentro dela.
Engoli de volta a acidez que subiu do estômago. É, eu sei.
Quebrou outra costela dela, disse ele, sombriamente.
Perdi o passo e cambaleei, antes de retomar o ritmo.
Carlisle a imobilizou de novo. Só outra fissura, disse ele. Depois Rosalie disse algo sobre até os bebês normais quebrarem costelas. Parecia que Edward ia arrancar a cabeça dela.
Pena que não arrancou.
Seth então parecia um relatório ambulante – sabendo que tudo era de interesse vital para mim, embora eu não tivesse pedido para ouvir aquilo. Bella está hoje com uma febre que vai e volta. É uma febre baixa – suores e depois arrepios. Carlisle não sabe o motivo – talvez ela só esteja doente. Seu sistema imunológico não pode estar em boas condições, a essa altura.
É, tenho certeza de que é só coincidência.
Mas ela está de bom humor. Ficou conversando com Charlie, rindo e tudo...
Charlie! Como?! O que quer dizer com ela ficou conversando com Charlie?!
Agora foi a vez de Seth perder o passo; minha fúria o surpreendeu. Acho que ele liga todo dia para falar com ela. Às vezes, a mãe liga também. Bella parece muito melhor agora; então ela o tranquilizou dizendo que estava se recuperando...
Se recuperando?! Mas que diabos eles estão pensando?! Deixar que Charlie tenha esperanças, para ficar ainda mais arrasado quando ela morrer? Pensei que eles o estivessem preparando para isso! Tentando prepará-lo! Por que ela o anima desse jeito?
Ela pode não morrer, pensou Seth.
Respirei fundo, tentando me acalmar. Seth, mesmo que ela consiga superar isso, não vai ser como humana. Ela sabe disso, e todos os outros também. Se ela não morrer, vai ter de fazer uma imitação muito convincente de um cadáver, garoto. Ou sumir. Pensei que eles estivessem tentando tornar as coisas mais fáceis para Charlie. Por que...?
Acho que é ideia de Bella. Ninguém disse nada, mas a cara de Edward de certa forma correspondia ao que você está pensando agora. Em sintonia com o sanguessuga de novo.
Corremos em silêncio por mais alguns minutos. Comecei a andar por uma nova trilha, sondando o sul.
Não vá longe demais.
Por quê?
Bella me pediu para dizer a você que desse uma passada lá. Meus dentes trincaram. Alice também. Ela disse que está cansada de ficar no sótão como o morcego-vampiro do campanário. Seth resfolegou uma risada. Eu estava me revezando com Edward, tentando manter a temperatura de Bella estável. Frio ou quente, conforme necessário. Acho que se você não quiser fazer isso eu poderia voltar...
Não. Eu vou, rebati.
Tudo bem. Seth não fez mais nenhum comentário. Concentrou-se na floresta vazia.
Continuei seguindo para o sul, procurando alguma novidade. Fiz meia-volta quando cheguei perto dos primeiros sinais de habitação. Ainda não estava perto da cidade, mas não queria nenhum boato de lobos por ali de novo. Já fazia algum tempo que estávamos bem e invisíveis.
Atravessei o perímetro ao voltar, seguindo para a casa. Mesmo sabendo que era uma idiotice fazer aquilo, não consegui evitar. Devo ser meio masoquista.
Não há nada de errado com você, Jake. Esta não é uma situação muito normal.
Cale a boca, por favor, Seth.
Já calei.
Dessa vez não hesitei à porta: entrei como se fosse o dono da casa. Imaginei que isso irritaria Rosalie, mas foi um esforço jogado fora. Nem Rosalie nem Bella estavam à vista. Olhei ao redor, apavorado, esperando que tivesse deixado de notá-las em algum canto, o coração espremendo-se contra as costelas de forma estranha e desagradável.
— Ela está bem — sussurrou Edward. — Ou na mesma, eu deveria dizer.
Edward estava no sofá com o rosto entre as mãos; não levantou a cabeça ao falar. Esme estava ao lado dele, o braço firme em seus ombros.
— Olá, Jacob — disse ela. — Fico feliz que tenha voltado.
— Eu também — disse Alice com um suspiro profundo.
Ela desceu a escada numa dança, fazendo uma careta. Como se eu estivesse atrasado para um encontro.
— Ah, oi — eu disse. Era estranho tentar ser educado. — Onde está Bella?
— No banheiro — respondeu Alice. — A dieta dela é basicamente líquida, você sabe. Além de tudo, a gravidez faz isso, ouvi dizer.
— Ah.
Fiquei ali parado, sem jeito, balançando-me nos calcanhares.
— Ah, que maravilha — grunhiu Rosalie. Girei a cabeça e a vi vindo por um corredor meio oculto atrás da escada. Estava com Bella aninhada delicadamente nos braços, e me olhava com uma expressão rude. — Eu sabia que tinha sentido um cheiro desagradável.
E, como antes, o rosto de Bella se iluminou como o de uma criança na manhã de Natal. Como se eu tivesse lhe trazido o melhor presente do mundo. Aquilo era tão injusto...
— Jacob — sussurrou ela. — Você veio.
— Oi, Bells.
Esme e Edward se levantaram. Eu vi o cuidado com que Rosalie deitou Bella no sofá. Vi que, apesar disso, Bella ficou branca e prendeu a respiração – como se estivesse determinada a não emitir nenhum ruído, por mais que sentisse dor.
Edward passou a mão pela testa e pelo pescoço de Bella. Tentou dar a impressão de que só estava colocando o cabelo para trás, mas o gesto me pareceu um exame médico.
— Está com frio? — murmurei.
— Estou bem.
— Bella, sabe o que Carlisle lhe disse — falou Rosalie. — Não desconsidere nada. Isso não nos ajuda a cuidar de nenhum de vocês dois.
— Tudo bem, estou com um pouco de frio. Edward, pode me passar aquele cobertor?
Eu revirei os olhos.
— Não é por isso que eu estou aqui?
— Você acabou de chegar — disse Bella. — Depois de correr o dia todo, aposto. Ponha os pés para cima por um minuto. Provavelmente, logo vou estar aquecida.
Eu a ignorei indo me sentar no chão ao lado do sofá enquanto ela ainda me dizia o que fazer. A essa altura, porém, eu não sabia bem como... Ela parecia frágil demais, e eu tinha medo de mexer nela, até de abraçá-la. Assim, limitei-me a me sentar a seu lado, apoiando meu braço ao longo do dela, e segurei sua mão. Depois pus a outra mão em seu rosto. Era difícil dizer se ela estava mais fria que o normal.
— Obrigada, Jake — disse ela, e senti que tremia.
— Tudo bem.
Edward se sentou no braço do sofá aos pés de Bella, sem nunca tirar os olhos do rosto dela. Era demais esperar, com toda aquela superaudição na sala, que ninguém tivesse percebido meu estômago roncando.
— Rosalie, por que não pega alguma coisa para Jacob na cozinha? — disse Alice.
Ela agora estava invisível, sentada em silêncio atrás do sofá.
Rosalie olhou incrédula para o lugar de onde vinha a voz de Alice.
— Obrigado, de qualquer forma, Alice, mas acho que não vou querer comer alguma coisa em que a Loura tenha cuspido. Acho que meu organismo não lidaria tão bem com o veneno.
— Rosalie jamais constrangeria Esme demonstrando uma falta de hospitalidade tão grande.
— É claro que não — disse a Loura numa voz açucarada que de imediato me deixou desconfiado. Ela se levantou e disparou para fora da sala.
Edward suspirou.
— Vai me dizer se ela envenenar a comida, não vai? — perguntei.
— Sim — prometeu Edward. E por alguma razão acreditei nele.
Houve muito barulho na cozinha e – estranhamente – o som do metal protestando contra maus-tratos. Edward suspirou de novo, mas também sorriu um pouco. Então Rosalie estava de volta antes que eu pudesse pensar no assunto. Com um sorriso malicioso e satisfeito, ela pousou uma tigela prateada no chão ao meu lado.
— Bom apetite, vira-lata.
Provavelmente, aquilo já fora uma grande bacia, mas ela dobrara a borda até que tivesse a forma de uma tigela para cachorro. Fiquei impressionado com a rapidez de sua habilidade manual. E sua atenção com os detalhes. Ela havia rabiscado a palavra Fido na lateral. Numa caligrafia excelente.
Como a comida parecia muito boa – um bife, nada menos, e uma grande batata assada com todas as guarnições – eu lhe disse:
— Obrigado, Loura.
Ela bufou.
— Ei, sabe como se chama uma loura com cérebro? — perguntei, e respondi imediatamente. — Golden Retriever.
— Já ouvi essa também — disse ela, agora sem sorrir.
— Vou continuar tentando — prometi, e em seguida comecei a comer.
Ela fez cara de nojo e revirou os olhos. Depois se sentou em uma das poltronas e começou a zapear pela tevê com tal rapidez que não havia como estar de fato procurando alguma coisa para ver.
A comida estava boa, mesmo com o fedor de vampiro no ar. Com isso eu já estava me acostumando. Hã. Não que fosse algo que eu quisesse mesmo fazer...
Quando terminei – embora estivesse pensando em lamber a tigela, só para Rosalie ter do que reclamar – senti os dedos frios de Bella puxando suavemente meu cabelo. Ela afagou minha nuca.
— Hora de cortar o cabelo, não é?
— Você está ficando meio desgrenhado — disse ela. — Talvez...
— Deixe-me adivinhar, antigamente alguém aqui cortava cabelos num salão de Paris?
Ela riu.
— Talvez.
— Não, obrigado — falei antes que ela pudesse fazer a oferta. — Posso aguentar mais algumas semanas.
O que me fez imaginar quanto tempo ela aguentaria. Tentei pensar numa forma educada de indagar.
— E aí... Hummm. Para, hã, quando é? Você sabe... o nascimento do monstrinho.
Ela bateu na minha cabeça com a força de uma pluma, mas não respondeu.
— Estou falando sério — disse a ela. — Queria saber quanto tempo vou precisar ficar aqui. — Quanto tempo você vai estar aqui, acrescentei mentalmente. E me virei para olhá-la. Seus olhos estavam pensativos; a ruga estresse estava de novo ali, entre as sobrancelhas.
— Não sei — murmurou ela. — Não sei exatamente. É óbvio que não vamos seguir o modelo de nove meses, e não conseguimos ver nada com um ultrassom. Então Carlisle está estimando com base no meu tamanho. As normais costumam ter uns quarenta centímetros aqui — ela passou o dedo pelo meio da barriga imensa — quando o bebê está plenamente desenvolvido. Um centímetro por semana, eu estava com trinta esta manhã, estou ganhando dois centímetros por dia, às vezes mais...
Duas semanas em um dia, os dias voando. A vida dela como num vídeo acelerado. Quantos dias isso lhe dava, se chegasse até quarenta? Quatro? Precisei de um minuto para me lembrar de como se engolia.
— Você está bem? — ela perguntou.
Fiz que sim, sem saber como sairia minha voz. Edward desviara o rosto de nós enquanto ouvia meus pensamentos, mas eu podia ver seu reflexo na parede de vidro. Era de novo o homem em chamas.
Era estranho como ter um prazo limite tornava mais difícil pensar em ir embora, ou em vê-la partir. Fiquei feliz por Seth levantar o assunto, assim eu sabia que eles iriam permanecer aqui. Seria insuportável ficar me perguntando se eles iriam embora, roubando um, dois ou três desses quatro dias. Meus quatro dias.
Também era estranho que, mesmo eu sabendo que estava quase acabando, a atração que ela exercia sobre mim só ficasse ainda mais difícil de romper. Parecia quase proporcional à sua barriga em expansão – como se, ao crescer, ela ganhasse força gravitacional.
Por um minuto tentei vê-la de certa distância, me afastar da atração. Eu sabia que não era minha imaginação o fato de eu precisar dela mais do que nunca. Por que era assim? Porque ela estava morrendo? Ou porque eu sabia que, mesmo que não morresse, ainda assim – na melhor das hipóteses – ela se transformaria numa outra coisa que eu não conheceria nem entenderia?
Ela passou o dedo por meu rosto, e minha pele ficou úmida onde ela tocou.
— Vai ficar tudo bem — ela quase cantarolou.
Não importava que as palavras nada significassem. Ela falou como as pessoas cantarolam aquelas cantigas sem sentido para ninar crianças. Dorme neném.
— Sei — murmurei.
Ela se aconchegou ao meu braço, pousando a cabeça em meu ombro.
— Não pensei que viesse. Seth disse que você viria, e Edward também, mas não acreditei neles.
— E por que não? — perguntei, de mau humor.
— Você não fica feliz aqui. Mas veio assim mesmo.
— Você me queria aqui.
— Eu sei. Mas não era obrigado a vir, porque não é justo que eu queira você aqui. Eu teria compreendido.
Fez-se silêncio por um minuto. Edward recompôs o rosto. Olhava a tevê enquanto Rosalie percorria os canais. Ela já estava no seiscentos. Perguntei-me quanto tempo ia levar para voltar ao inicio.
— Obrigada por vir — sussurrou Bella.
— Posso perguntar uma coisa? — eu disse.
Edward não parecia estar prestando atenção em nós, mas sabia o que eu ia perguntar, então não me enganava.
— Por que você me quer aqui? Seth pode mantê-la aquecida, e ele é uma companhia mais agradável, aquele bobinho alegre. Mas quando eu passo pela porta, seu sorriso dá a impressão de que eu sou a pessoa de quem você mais gosta no mundo.
— Você é uma delas.
— Isso é uma droga, sabia?
— Eu sei. — Ela suspirou. — Desculpe-me.
— Mas por quê? Você não respondeu.
Edward tinha desviado os olhos de novo, como se estivesse olhando pela janela. Seu rosto era inexpressivo no reflexo.
— Parece... completo quando você está aqui, Jacob. Como se toda a minha família estivesse unida. Quer dizer, acho que é assim mesmo... Eu nunca tive uma família grande. É bom. — Ela sorriu por meio segundo. — Mas não fica completo sem você aqui.
— Eu nunca serei parte da sua família, Bella.
Poderia ter sido. Eu teria sido bom nisso. Mas esse era um futuro distante que morrera muito antes de ter a chance de viver.
— Você sempre foi parte da minha família — ela discordou.
Meus dentes rangeram.
— Esta resposta não vale.
— E qual é a que vale?
— Que tal: “Jacob, gosto de ver você sofrer”.
Senti Bella se encolher.
— Você se sentiria melhor? — sussurrou ela.
— Pelo menos seria mais fácil. Eu poderia tentar me acostumar. Poderia lidar com isso.
Olhei para o rosto dela então – tão perto do meu. Seus olhos estavam fechados, e a testa, franzida.
— Nós perdemos o rumo, Jake. Perdemos o equilíbrio. Você devia fazer parte da minha vida... Posso sentir isso, e você também. — Ela parou por segundo sem abrir os olhos, como se esperasse que eu negasse. Como eu não disse nada, ela continuou: — Mas não desse jeito. Fizemos alguma coisa errada. Não. Eu fiz. Eu fiz uma coisa errada e nós perdemos o rumo...
Sua voz falhou, e o rosto, então enrugado, relaxou até se tornar só um repuxado no canto dos lábios. Esperei que ela despejasse mais suco de limão em meus cortes, mas então um ronco suave saiu do fundo de sua garganta.
— Ela está exausta — murmurou Edward. — Foi um longo dia. Um dia difícil. Acho que ela teria ido dormir mais cedo, mas estava esperando você.
Não olhei para ele.
— Seth disse que a coisa quebrou outra costela dela.
— Sim. Por isso ela está com dificuldade para respirar.
— Que ótimo.
— Diga quando ela voltar a ficar quente.
— O.K.
A pele do braço que não estava em contato com o meu ainda estava arrepiada. Eu mal havia levantado a cabeça para procurar um cobertor quando Edward pegou um que estava dobrado sobre o braço do sofá e o estendeu para cobri-la.
De vez em quando, aquilo de ler a mente poupava tempo. Por exemplo, talvez eu não precisasse fazer toda uma cena acusando-os do que estavam fazendo com Charlie. Aquela confusão. Edward ouviria exatamente a raiva...
— Sim — concordou ele. — Não é uma boa ideia.
— Então, por quê?
Por que Bella estava dizendo ao pai que estava se recuperando quando isso só o deixaria mais infeliz?
— Ela não consegue suportar a ansiedade dele. Então é melhor...
— Não. Não é melhor. Mas não vou obrigá-la a fazer uma coisa que a deixe infeliz agora. O que quer que aconteça, isso faz com que se sinta melhor. Vou lidar com o restante depois.
Algo não soava bem nessa história. Bella não iria simplesmente deixar a dor de Charlie para depois, para que outra pessoa cuidasse do assunto. Mesmo morrendo. Ela não era assim. Se eu a conhecia, ela devia ter outro plano.
— Ela tem certeza de que vai viver — disse Edward.
— Mas não como humana — protestei.
— Não, não humana. Mas, de qualquer jeito, ela espera ver Charlie de novo.
Ah!, a história fica cada vez melhor.
— Ver. Charlie. — Eu finalmente olhei para ele, meus olhos arregalados.
Depois. Ver Charlie quando ela estiver cintilando de tão branca e com os olhos vermelhos. Não sou um sanguessuga, então talvez eu esteja deixando passar alguma coisa, mas Charlie parece uma opção meio estranha para uma primeira refeição.
Edward suspirou.
— Ela sabe que não poderá ficar perto dele por no mínimo um ano. Mas acha que pode protelar. Dizer a Charlie que teve de ir para um hospital especial do outro lado do mundo. Manter contato por telefone...
— Isso é loucura. Charlie não é idiota. Mesmo que ela não o mate, ele vai perceber a diferença.
— É mais ou menos nisso que ela está apostando.
Continuei a olhá-lo, aguardando a explicação.
— Ela não vai envelhecer, é claro, então isso teria um limite de tempo, mesmo que Charlie aceitasse qualquer desculpa que ela inventasse para as mudanças. — Ele sorriu desanimado. — Lembra quando tentou contar a ela sobre sua transformação? Como você a fez adivinhar?
Minha mão livre se fechou.
— Ela falou disso?
— Sim. Ela estava explicando a... ideia. Entenda, ela não pode contar a verdade a Charlie... Seria perigoso demais para ele. Mas ele é um homem prático e inteligente. Ela acha que ele vai encontrar uma explicação sozinho. E imagina que vá entender errado — Edward bufou. — Afinal, não seguimos os cânones dos vampiros. Ele vai fazer alguma suposição errada sobre nós, como a própria Bella fez no início, e nós vamos agir de acordo. Ela acha que poderá vê-lo... de vez em quando.
— Loucura — repeti.
— Sim — concordou ele de novo.
Era fraqueza dele permitir que ela fizesse o que queria, só para deixá-la feliz no momento. Aquilo não acabaria bem. O que me fez pensar que ele provavelmente não estava esperando que ela vivesse para executar aquele plano maluco. Ele a estava acalmando, para que ela pudesse ser feliz por mais algum tempo. Mais quatro dias, por exemplo.
— Vou lidar com o que vier depois — sussurrou ele, e virou o rosto para que eu não pudesse ver seu reflexo. — Não vou causar nenhuma dor a ela agora.
— Quatro dias? — perguntei.
Ele não levantou a cabeça.
— Aproximadamente.
— E depois?
— O que quer dizer exatamente?
— Pensei no que Bella tinha dito. Sobre a coisa estar envolta em algo forte como pele de vampiro. Então, como aquilo funcionava? Como iria sair?
— De acordo com a pouca pesquisa que pudemos fazer, parece que as criaturas usam os próprios dentes para sair do útero — sussurrou ele.
Tive de fazer uma pausa para engolir a bile.
— Pesquisa? — perguntei com a voz fraca.
— É por isso que você não tem visto Jasper e Emmett por aqui. É o que Carlisle está fazendo agora. Tentando decifrar histórias e mitos, o máximo que pudermos com o que temos aqui, procurando alguma coisa que nos ajude a prever o comportamento da criatura.
Histórias? Se havia mitos, então...
— Então essa coisa não é a primeira de sua espécie? — perguntou Edward, antecipando minha pergunta. — Talvez. É tudo muito rudimentar. Os mitos podem muito bem ser produto do medo e da imaginação. Mas... — ele hesitou — seus mitos são verdadeiros, não são? Talvez esses sejam também. Eles parecem ser localizados, relacionados...
— Como vocês descobriram...?
— Conhecemos uma mulher na América do Sul. Ela foi criada nas tradições de seu povo. Ouvira o que se falava sobre essas criaturas, antigas histórias transmitidas geração após geração.
— Falavam o quê? — sussurrei.
— Que a criatura deveria ser morta imediatamente. Antes que pudesse ter mais força.
Como Sam pensava. Será que ele tinha razão?
— É claro que as lendas deles dizem o mesmo de nós. Que devemos destruídos. Que somos assassinos sem alma.
Bingo.
Edward soltou uma risada dura.
— O que essas histórias dizem sobre as... mães?
A agonia dilacerou seu rosto, e enquanto eu me encolhia querendo fugir à sua dor, vi que ele não me daria uma resposta. Eu duvidava de que ele desse falar. A resposta veio de Rosalie – que estava tão imóvel e silenciosa desde que Bella dormira que eu quase me esquecera dela.
Ela soltou um ruído de desprezo vindo do fundo da garganta.
— É claro que não houve sobreviventes — disse ela. Não houve sobreviventes, curto e grosso. — Dar à luz no meio de um pântano infestado de doenças com um curandeiro lambuzando seu rosto de saliva de bicho-preguiça para expulsar os espíritos do mal nunca foi o método mais seguro. Mesmo os nascimentos normais davam errado na metade das vezes. Nenhum deles tinha o que esse bebê tem: cuidados de pessoas com uma ideia de quais são suas necessidades e que tentam atender a essas necessidades. Um médico com um conhecimento único da natureza dos vampiros. Um plano para que o bebê nasça com a maior segurança possível. O veneno, que corrigirá qualquer coisa que dê errado. O bebê vai ficar bem. E aquelas outras mães provavelmente teriam sobrevivido se tivessem isso... se é que essas mães existiram, para começo de conversa. Algo de que não estou convencida. — Ela fungou com desdém.
O bebê, o bebê. Como se só isso importasse. A vida de Bella era um detalhe sem importância para ela – fácil de descartar.
O rosto de Edward ficou branco como a neve. Suas mãos se curvaram em garras. Completamente egoísta e indiferente, Rosalie se remexeu na cadeira para ficar de costas para ele. Edward se inclinou para a frente, agachando-se.
Permita-me, sugeri.
Ele parou, erguendo uma sobrancelha. Em silêncio, levantei do chão minha tigela de cachorro. Depois, com um rápido e poderoso giro do pulso, atirei-a na parte de trás da cabeça da Loura com tanta força que – com um bang ensurdecedor – a tigela se achatou antes de quicar pela sala e arrancar o topo redondo do grosso pilar ao pé escada.
Bella se remexeu, mas não acordou.
— Loura burra — murmurei.
Rosalie virou a cabeça devagar. Seus olhos estavam em brasa.
— Você. Jogou. Comida. Em. Meu. Cabelo.
Foi o que bastou. Eu explodi. Afastei-me de Bella para não sacudi-la, e ri tanto que as lágrimas escorriam por meu rosto. Ouvi o riso de sino de Alice vindo de trás do sofá.
Perguntei-me por que Rosalie não atacou. Eu até que esperava por isso. Mas, então, percebi que minha gargalhada tinha acordado Bella, embora ela tivesse continuado a dormir durante o barulho de verdade.
— O que é tão engraçado? — murmurou ela.
— Joguei comida no cabelo dela — eu disse, dando outra gargalhada.
— Não vou me esquecer disso, cachorro — sibilou Rosalie.
— Não é tão difícil apagar a memória de uma loura — contra-ataquei. — É só soprar em sua orelha.
— Arrume umas piadas novas — rebateu ela.
— Vamos, Jake. Deixe a Rose em p... — Bella interrompeu a frase no meio e inspirou o ar com um ruído áspero.
No mesmo segundo, Edward estava inclinado por cima de mim, tirando o cobertor do caminho. Ela parecia em convulsão, as costas erguendo-se em arco do sofá.
— Ele só está — ela ofegou — se alongando.
Seus lábios estavam brancos e os dentes trincados, como se tentasse reprimir um grito. Edward pôs as mãos em seu rosto.
— Carlisle? — chamou ele numa voz baixa e tensa.
— Estou aqui — disse o médico. Eu não o ouvira entrar.
— Tudo bem — disse Bella, ainda respirando mal e superficialmente. — Acho que passou. O pobrezinho não tem espaço suficiente, é só isso. Ele está ficando muito grande.
Era mesmo difícil aceitar aquele tom de adoração que ela usava para descrever a coisa que a estava dilacerando. Em especial depois da insensibilidade de Rosalie. Fez que eu tivesse vontade de atirar alguma coisa em Bella também.
Ela não captou meu estado de espírito.
— Sabe de uma coisa, ele me lembra você, Jake — falou com o tom afetuoso, ainda ofegando.
— Não me compare com essa coisa — soltei entredentes.
— Só estava me referindo ao seu surto de crescimento — disse ela, dando a impressão de que eu havia ferido seus sentimentos. Ótimo. — Você cresceu de repente. Eu via você ficando mais alto a cada minuto. Ele também é assim. Cresce rápido demais.
Mordi a língua, para não dizer o que queria – com tanta força que senti o gosto de sangue. É claro que iria curar antes mesmo que eu pudesse engolir. Era disso que Bella precisava. Ser forte com eu, ser capaz de se curar.
Ela agora respirava com mais facilidade, e então relaxou no sofá, o corpo fincando flácido.
— Hummm — murmurou Carlisle.
Olhei para ele, e seus olhos estavam em mim.
— O que foi? — perguntei.
A cabeça de Edward se inclinou enquanto ele refletia sobre o que estava na mente de Carlisle.
— Você sabe que eu estava me perguntando sobre a composição genética do feto, Jacob. Sobre os cromossomos dele.
— E daí?
— Bem, levando suas semelhanças em consideração...
— Semelhanças? — grunhi, sem gostar do plural.
— O crescimento acelerado e o fato de Alice não poder ver nenhum de vocês.
Senti meu rosto ficar lívido. Havia me esquecido dessa outra.
— Bem, imagino se isso significa que temos uma resposta. Se as semelhanças são genéticas.
— Vinte e quatro pares — murmurou Edward.
— Você não sabe disso.
— Não. Mas é interessante especular — disse Carlisle numa voz tranquilizadora.
— É. É fascinante.
O ronco leve de Bella recomeçou, acentuando meu sarcasmo.
Eles então continuaram, rapidamente levando a conversa sobre genética a um ponto em que as únicas palavras que eu entendia eram os e es. E meu próprio nome, é claro. Alice se uniu a eles, comentando de vez em quando com sua voz de passarinho.
Embora estivessem falando de mim, não tentei imaginar a que conclusões chegavam. Eu tinha outras coisas em mente, alguns fatos que tentava conciliar.
Primeiro fato: Bella disse que a cria era protegida por algo forte como um vampiro, algo que era impenetrável ao ultrassom, duro demais para agulhas. Segundo: Rosalie disse que eles tinham um plano para trazer a criatura com segurança ao mundo. Terceiro: Edward disse que – nos mitos – outros monstros como esse abriam caminho a dentadas para sair da mãe.
Estremeci.
E isso fazia um sentido nauseante porque – quarto fato – poucas coisas podiam ser tão fortes quanto pele de vampiro. Os dentes dessa criatura híbrida – segundo o mito – eram bastante fortes. Meus dentes eram bastante fortes.
E dentes de vampiro também eram bastante fortes.

Era difícil não perceber o óbvio, mas eu queria poder não ver. Porque eu tinha uma ideia muito boa de como Rosalie pretendia que a coisa nascesse “com segurança”.

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