24 de setembro de 2015

Capítulo 15 - Pressão

Eram as férias de primavera em Forks de novo.
Quando eu acordei na segunda de manhã, eu fiquei deitada na cama por uns minutos absorvendo isso. Nas últimas férias de primavera, eu fui caçada por um vampiro também. Eu esperava que essa não fosse uma espécie de tradição se formando.
Eu já estava caindo nos padrões das coisas em La Push. Eu passei a maior parte do domingo na praia, enquanto Charlie ficava com Billy na casa dos Black. Era pra eu ter ficado com Jacob, mas Jacob tinha outras coisas pra fazer, então eu fiquei vagando sozinha, pra manter o segredo escondido de Charlie.
Quando Jacob parou pra vir me ver, ele se desculpou por me deixar sozinha por tanto tempo. Ele me disse que a sua agenda não era sempre tão louca, mas até que Victoria fosse parada, os lobos estavam em alerta vermelho.
Quando nós andávamos pela praia agora, ele sempre segurava a minha mão.
Isso me fez meditar sobre o que Jared tinha dito, sobre Jacob estar envolvendo a sua “namorada”. Eu acho que isso era exatamente o que parecia pelo lado de fora. Enquanto Jake e eu soubéssemos o que era, eu não devia me incomodar com esses tipos de suposições.
E talvez elas não me incomodassem, se eu não soubesse que Jacob teria adorado que as coisas fossem como aparentavam ser.
Mas as mãos dele eram boas aquecendo as minhas, e eu não protestei.
Eu trabalhei na terça à tarde - Jacob me seguiu na sua moto pra ter certeza de que eu chegaria à salvo - e Mike reparou.
—Você tá namorando aquele garoto de La Push? O do segundo ano? — Ele escondeu, escondendo muito mal o ressentimento na sua voz.
Eu levantei os ombros.
— Não no sentido técnico da palavra. Porém, eu passo a maior parte do tempo com Jacob. Ele é o meu melhor amigo.
Os olhos de Mike se apertaram maliciosamente.
— Não se engane, Bella. O cara tá apaixonado por você.
— Eu sei — eu suspirei. — A vida é complicada.
— E as garotas são cruéis — Mike disse por baixo do fôlego.
Eu acho que essa era uma suposição fácil de fazer, também.
Naquela noite, Sam e Emily se juntaram a Charlie e eu para a sobremesa na casa de Billy. Emily levou um bolo que teria feito um homem menos duro que Charlie se render.
Eu podia ver, enquanto a conversa saía fluentemente apesar da casual troca de assuntos, que todas as preocupações que Charlie podia ter sobre a gangue de La Push estavam desaparecendo.
Jake e eu escapamos cedo, pra ter um pouco de privacidade. Nós fomos para a garagem dele e nos sentamos no Rabbit.
Jacob encostou a cabeça no encosto do banco, seu rosto coberto de exaustão.
— Você precisa dormir um pouco, Jake.
— Eu vou me virar.
Ele se aproximou e pegou minha mão. A pele dele estava queimando na minha.
— Isso é uma daquelas coisas de lobo? — eu perguntei. — Quer dizer, o calor.
— É. Nós ficamos um pouco mais quentes que as pessoas normais. Cerca de uns quarenta e quatro, quarenta e cinco graus. Eu nunca mais fico com frio. Eu podia ficar assim — ele fez um gesto para o seu tórax nú — numa tempestade de neve e isso não ia me incomodar. Os flocos iam virar chuva onde eu estivesse.
— E você sara mais rápido - isso é uma coisa de lobo também?
— É, quer ver? É bem legal. — Os olhos dele se abriram e ele abriu um sorriso. Ele se inclinou para o porta-luvas e cavou lá por um minuto. A mão dele saiu de lá de dentro com um canivete.
— Não, eu não quero ver!— eu gritei assim que me dei conta do que ele estava pretendendo fazer. — Põe isso pra lá!
Jacob gargalhou, mas jogou a faca lá dentro onde ela pertencia.
— Tá bom. Contudo, é bom que a gente sare rápido. Você não pode ir ver nenhum médico quando está com uma temperatura que significa que você devia estar morto.
— Não, eu acho que não — Eu pensei nisso por um minuto. — ...E ser tão grande - é parte disso também? É por isso que você está preocupado com Quil?
— Isso e o fato de que o avô de Quil diz que o garoto é capaz de fritar um ovo na testa — o rosto de Jacob ficou sem esperança. — Não vai demorar muito. Não há idade exata... isso só se constrói, e então de repente.... — Ele parou, e demorou um momento até que ele pudesse falar de novo.
— Às vezes, se você se aborrece muito com uma coisa, isso se libera mais cedo. Mas eu não estava aborrecido com nada - eu estava feliz — Ele sorriu acidamente. — Por sua causa, em grande parte. Por isso que não aconteceu comigo antes. Ao invés de só continuar me construindo por dentro - eu era como uma bomba relógio. Você sabe o que me disparou? Eu voltei pra casa do cinema naquela noite e Billy disse que eu parecia estranho. Isso foi tudo, mas eu simplesmente disparei. E então eu - eu explodi. Eu quase arranquei o rosto dele - meu próprio pai!— Ele levantou os ombros, e seu rosto empalideceu.
— É tão ruim assim, Jake? — eu perguntei ansiosamente, desejando que houvesse alguma forma de eu ajudá-lo. — Você está infeliz?
— Não, eu não sou infeliz — ele me disse. — Não mais. Não agora que você sabe. Isso foi difícil, antes — Ele se inclinou até que a bochecha dele estava descansando na minha mão.
Ele ficou quieto por um momento, eu imaginei o que ele estava pensando. Talvez eu não quisesse saber.
— Qual é a parte mais difícil? — eu sussurrei, ainda desejando poder ajudar.
— A parte mais difícil é se sentir... fora de controle — ele disse lentamente. — Sentir que eu não posso ter certeza de mim mesmo - como se talvez você não devesse estar perto de mim, como talvez ninguém devesse. Como se eu fosse um monstro que pode machucar as pessoas. Você viu a Emily. Sam perdeu o controle do seu temperamento por um segundo... e ela estava muito perto. E agora não há nada que ele possa fazer pra concertar as coisas de novo. Eu ouço os pensamentos dele - eu sei como ele se sente... Quem quer ser um pesadelo, um monstro? Então, o jeito como vem mais fácil pra mim, o jeito que eu sou melhor nisso do que eles - isso me torna menos humano que Embry ou Sam? Às vezes eu tenho medo de me perder.
— É difícil? Se encontrar novamente?
— No começo — ele disse. — É preciso um pouco de prática pra se transformar e voltar. Mas é mais fácil pra mim.
— Por quê? — eu imaginei.
— Porque Ephraim Black era avô do meu pai, e Quil Ateara era avô da minha mãe.
— Quil? — eu perguntei confusa.
— O bisavô dele — Jacob esclareceu. — O Quil que você conhece é meu primo de segundo grau.
— E porque importa quem eram os seus avós?
— Porque Ephraim e Quil estavam no último bando. Levi Uley era o terceiro. Isso está no meu sangue dos dois lados. Eu nunca tive uma chance. Assim como Quil não tem uma chance.
A expressão dele era vazia.
— Qual é a melhor parte? — eu perguntei, esperando animá-lo.
— A melhor parte — ele disse, sorrindo de novo de repente. — É a velocidade.
— Melhor do que as motos?
Ele balançou a cabeça, entusiasmado.
— Não tem comparação.
— Quão rápido você pode...?
— Correr? — ele terminou minha pergunta. — Rápido o suficiente. Como é que eu posso medir isso? Nós pegamos... como era o nome dele? Laurent? Eu imagino que isso seja mais do que pra outras pessoas.
Isso significava algo pra mim. Eu não conseguia imaginar isso - os lobos correndo mais rápido que os vampiros. Quando os Cullen correm, eles ficam nada menos que invisíveis com a velocidade.
— Então, me diga uma coisa que eu não sei — ele disse. — Alguma coisa sobre vampiros. Como foi que você aguentou, ficar ao redor deles? Isso não te assustou?
— Não — eu disse curtamente.
Meu tom deixou ele pensativo por um momento.
— Diga, porque o seu sugador de sangue matou aquele James, afinal? — ele perguntou de repente.
— James estava tentando me matar - era como um jogo pra ele. Ele perdeu. Você se lembra da primavera passada quando eu estava no hospital em Phoenix?
Jacob prendeu a respiração.
— Ele chegou assim tão perto?
— Ele chegou muito, muito perto — Eu toquei minha cicatriz. Jacob percebeu, porque ele segurou a mão que eu havia mexido.
— O que é isso? — Ele trocou as mãos, examinando a minha direita.
— Isso é a sua cicatriz engraçada, a fria — Ele olhou mais de perto, com outros olhos, e asfixiou.
Seus olhos incharam, e o rosto dele ficou de uma cor estranha, superficial, por baixo da cor de cobre. Parecia que ele estava prestes a passar mal.
— Mas se ele te mordeu...? Você não devia ser...? — Ele engasgou.
— Edward me salvou duas vezes — eu sussurrei. — Ele sugou o veneno pra fora - você sabe, como uma cascavel. — eu me contorci com a dor que se lançou nas beiras do buraco.
Mas eu não era a única me contorcendo. Eu podia sentir o corpo de Jacob tremendo todo perto do meu. Até o carro tremeu.
— Cuidado, Jake. Calma. Acalme-se.
— É — ele arquejou. — Calma —. Ele balançou a cabeça pra frente e pra trás rapidamente. Depois de um momento, apenas as suas mãos estavam tremendo.
—Você tá bem?
— É, quase. Me fale outra coisa. Me dê outra coisa pra pensar.
— O que você quer saber?
— Eu não sei — ele estava com os olhos fechados, se concentrando. — As coisas extras, eu acho. Algum outro dos Cullen tem... talentos extras? Como ler mentes?
Eu hesitei por um segundo. Essa parecia o tipo de pergunta que ele faria a sua espiã, não a sua amiga. Mas qual era a necessidade de esconder o que eu sabia? Isso não importava agora, e isso ajudaria ele a se controlar.
Então eu falei rapidamente, com a imagem do rosto arruinado de Emily na minha cabeça, e o cabelo dos meus braços se levantando. Eu não tinha ideia de como o lobo ruivo caberia dentro do Rabbit - Jacob ia acabar com a garagem inteira se ele se transformasse agora.
— Jasper conseguia... meio que controlar as emoções das pessoas ao seu redor. Não de um jeito ruim, só acalmar uma pessoa, esse tipo de coisa. Isso provavelmente ajudaria muito Paul — eu adicionei, brincando fracamente. — E depois Alice pode ver coisas que vão acontecer. O futuro, sabe, mas não absolutamente. As coisas que ela vê mudam quando as pessoas mudam o caminho onde estão...
Como quando ela me viu morrendo... e ela havia visto eu me tornando uma deles. As duas coisas não haviam acontecido. E uma delas nunca iria.
Minha cabeça começou a girar - eu não parecia conseguir tirar oxigênio suficiente do ar. Sem pulmões.
Jacob estava inteiramente sobre controle agora, muito rígido ao meu lado.
— Por que você faz isso? — ele perguntou. Ele cutucou levemente em um dos meus braços, que estava agarrado no meu peito, e depois desistiu quando viu que eu não soltaria tão facilmente. — Você faz isso quando está chateada. Por quê?
— Dói pensar neles — eu sussurrei. — É como se eu não pudesse respirar... como se eu estivesse me quebrando em pedaços...— Era bizarro o quanto eu podia contar pra Jacob agora. Nós não tínhamos mais segredos.
Ele alisou meu cabelo.
— Está tudo bem, Bella, está tudo bem. Eu não vou mais falar nisso. Me desculpe.
— Eu estou bem — eu asfixiei. — Acontece o tempo todo. Não é culpa sua.
— Nós somos um par bem bagunçado, não somos? — Jacob disse. —Nenhum de nós consegue se segurar da maneira certa.
— Patético — eu concordei, ainda sem fôlego.
— Pelo menos nós temos um ao outro — ele disse, claramente confortado com o pensamento.
Eu estava confortada também.
— Pelo menos tem isso — eu concordei.
E quando nós estávamos juntos, eu estava bem. Mas Jacob tinha um trabalho horrível, perigoso, que ele se achava compelido a fazer, então eu estava frequentemente sozinha, presa em La Push para a minha segurança, sem nada pra afastar minha mente das preocupações.
Eu me sentia estranha, sempre ocupando o espaço de Billy. Eu estudei um pouco para um teste de Cálculo que teria na semana que vem, mas não consegui ficar presa na matemática durante muito tempo.
Quando eu não tinha nada óbvio pra fazer nas mãos, eu me sentia obrigada a conversar com Billy - a pressão das regras normais da sociedade.
Mas Billy não era muito bom pra preencher silêncios longos, e então a estranheza continuava.
Eu tentei dar uma volta na casa de Emily na quarta à tarde, pra variar um pouco. No início foi bem legal. Emily era uma pessoa alegre que nunca ficava sentada.
Eu me arrastava atrás dela enquanto ele flutuava entre sua pequena casa e o quintal, esfregando o chão impecável, cortando uma pequena erva daninha, concertando uma dobradiça quebrada, recolocando um fio de lã num novelo velho, sempre cozinhando também. Ela reclamava um pouco do apetite crescente dos garotos por causa da corrida extra, mas era fácil ver que ela não se incomodava em cuidar deles.
Não era difícil estar com ela - afinal, agora nós duas éramos garotas lobo.
Mas Sam apareceu depois que eu fiquei lá por algumas horas. Eu só fiquei lá por tempo suficiente pra me certificar de que Jacob estava bem e de que não havia novidades, e depois eu tive que escapar.
A aura de amor e contentamento que cercava os dois era difícil de tomar em doses concentradas, sem ninguém ao seu redor para diluí-la.
Isso me deixou a opção de ir vadiar na praia, passeando na encosta de pedras pra frente e pra trás, de novo e de novo.
O tempo sozinha não era bom pra mim. Graças à nova honestidade com Jacob, eu estive falando e pensando demais nos Cullen. Não importava o quanto eu tentasse me distrair - e eu tinha muito no que pensar: eu estava honestamente e desesperadamente preocupada com Jacob e com seus irmãos-lobos, eu estava aterrorizada por Charlie e pelos outros que achavam que estavam caçando animais, eu estava me aproximando mais e mais de Jacob sem ter decidido conscientemente progredir nessa direção e não sabia o que fazer sobre isso - nenhuma dessas preocupações muito reais, muito merecedoras de pensamentos, muito opressoras, conseguiam tirar a minha cabeça da dor do meu peito por muito tempo. Eventualmente, eu nem conseguia mais caminhar, porque eu não conseguia mais respirar.
Eu me sentei num pedaço de rochas semi-secas e me curvei numa bola.
Jacob me encontrou assim, eu podia ver pela expressão dele que ele entendia.
— Eu lamento — ele disse imediatamente. Ele me puxou do chão e passou ambos os braços pelos meus ombros. Eu não havia percebido que estava com frio até essa hora.
O calor dele me fez tremer, mas pelo eu podia respirar com ele lá.
— Eu estou arruinando as suas férias de primavera — Jacob se acusou enquanto caminhávamos de volta para a praia.
— Não, não está. Eu não tinha outros planos. De qualquer jeito, eu acho que não gosto de férias de primavera.
—Amanhã eu vou tirar a manhã de folga. Os outros podem correr sem mim. Nós vamos fazer alguma coisa divertida.
A palavra pareceu fora de contexto pra minha vida agora, mal era compreensível, era bizarro.
— Divertida?
— Diversão é exatamente o que você precisa. Hmm...— ele olhou para as ondas escuras, pensando. Enquanto os olhos dele olhavam para o horizonte, ele teve um flash de inspiração.
— Já sei! — ele anunciou. — Outra promessa a cumprir.
Ele soltou a minha mão e apontou na direção da costa oeste da praia, onde estavam as rochas planas, com formato de meia lua que acabavam nos recifes de corais transparentes. Eu olhei, sem compreender.
— Eu não prometi que te levaria pra mergulhar nos penhascos?
Eu tremi.
— É, vai estar bem frio - não tão frio quanto está hoje. Você consegue sentir o tempo mudando? A pressão? Vai estar mais quente amanhã. Você tá a fim?
A água escura não parecia convidativa, e, por esse ângulo, os penhascos pareciam ainda mais altos que antes.
Mas já faziam dias que eu não ouvia a voz de Edward.
Isso era provavelmente parte do problema. Eu estava viciada no som das minhas alucinações. As coisas pioravam se eu passava muito tempo sem ouvi-las. Pular de um penhasco certamente ia remediar essa situação.
— Claro, eu estou a fim. Diversão.
— É um encontro — ele disse, e passou o braço ao redor dos meus ombros.
— Ok - agora vamos fazer você dormir um pouco — Eu não gostava do jeito como os círculos embaixo dos olhos dele pareciam estar grudados permanentemente na pele dele.
Eu acordei cedo na manhã seguinte e carreguei uma muda de roupas comigo para a caminhonete. Eu tinha a sensação de que Charlie aprovaria os planos de hoje tanto quanto ele aprovaria as motos.
A ideia de distração quase me deixou excitada. Talvez isso fosse divertido. Um encontro com Jacob, um encontro com Edward... eu sorri obscuramente pra mim mesma. Jake podia dizer o que quisesse sobre nós sermos um par bagunçado- mas era eu que era realmente bagunçada. Eu fazia um lobisomem parecer absolutamente normal.
Eu esperei que Jacob esperasse por mim na frente, do jeito que ele sempre fazia quando minha caminhonete barulhenta anunciava a minha chegada. Quando ele não apareceu, eu imaginei que talvez ele ainda estivesse dormindo. Eu ia esperar - deixar ele descansar o quanto pudesse. Ele precisava do sono, e isso ia dar tempo pro dia esquentar mais. No entanto, Jake estava certo sobre o tempo; ele havia mudado durante a noite.
Uma grossa camada de nuvens se apertava na atmosfera agora, deixando ela quase abafada; estava quente e aconchegante em baixo do cobertor cinza. Eu deixei meu suéter na caminhonete.
Eu bati baixinho na porta.
— Entre, Bella — Billy disse.
Ele estava na mesa da cozinha, comendo cereal frio.
— Jake tá dormindo?
— Er, não — ele abaixou sua colher, e suas sobrancelhas se apertaram.
— O que aconteceu? — Eu quis saber. Eu podia dizer pela expressão dele que alguma coisa havia acontecido.
— Embry, Jared e Paul cruzaram numa trilha fresca essa manhã. Sam e Jake foram ajudar. Sam estava esperançoso - ela está indo na direção das montanhas. Ele acha que eles têm uma boa chance de acabar com isso.
— Oh, não, Billy — eu cochichei. — Oh, não.
Ele gargalhou, profundamente e baixo.
— Você realmente gosta tanto de La Push que quer permanecer presa aqui?
— Não faça piadas, Billy. Isso é assustador demais pra isso.
— Você está certa — ele concordou, ainda complacente. Seus olhos anciões eram impossíveis de ler. — Essa é difícil.
Eu mordi meu lábio.
— Não é tão perigoso pra eles quanto você pensa que é. Sam sabe o que está fazendo. É com você mesma que você devia se preocupar. A vampira não quer lutar com eles. Ela só está tentando despistá-los... pra chegar até você.
— Como é que Sam sabe o que está fazendo? — Eu quis saber, colocando de lado a sua preocupação por mim. — Eles só mataram um vampiro - aquilo pode ter sido sorte.
— Nós levamos muito a sério o que fazemos, Bella. Nada foi esquecido. Tudo o que eles sabem foi passado de pai pra filho por gerações.
Isso não me confortou do jeito que ele provavelmente intencionava.
A memória de Victória, selvagem, parecendo uma gata, letal, estava forte demais na minha cabeça. Se ela não conseguisse passar pelos lobos, ele eventualmente iria passar por cima deles.
Billy voltou para o seu café da manhã; eu me sentei no sofá e fiquei passando os canais da TV à toa. Isso não durou muito tempo. Eu comecei a me sentir fechada na sala pequena, claustrofóbica, chateada pelo fato de que eu não conseguia enxergar através das cortinas da janela.
— Eu vou estar na praia — eu disse pra Billy abruptamente, e corri para a porta.
Estar do lado de fora não me ajudou tanto quanto eu esperava. As nuvens empurravam um peso invisível que não permitia que a claustrofobia fosse embora. A floresta parecia estranhamente vazia enquanto eu caminhava na direção da praia. Eu não via os animais - nada de pássaros, nada de esquilos. Eu também não ouvia os pássaros.
O silêncio era melancólico; não havia nem o som do vento nas árvores.
Eu sabia que isso era só um produto do tempo, mas isso ainda me deixou nervosa. A pressão pesada, quente da atmosfera era perceptível até para os meus fracos sensos humanos, e isso significava algo mais no departamento climático. Uma olhada para o céu levou minhas suspeitas embora; as nuvens estavam se agitando preguiçosamente apesar do pouco vento que havia no chão. As nuvens mais próximas eram de uma cor cinza de fumaça, mas entre as aberturas, eu podia ver uma outra camada que era de uma horrível cor roxa. Os céus tinham um horrível plano pra hoje. Os animais deviam estar se escondendo.
Assim que eu cheguei na praia, eu desejei não ter vindo - eu já tinha aguentado esse lugar o suficiente.
Eu havia estado aqui quase todos os dias, vagando sozinha. Será que isso era tão diferente dos meus pesadelos? Mas onde mais eu poderia ir? Eu me abaixei para a árvore de salgueiro, e me sentei no seu fim pra poder me encostar nas raízes emaranhadas. Eu olhei para o céu raivoso sangrando, esperando que as primeiras gotas de chuva quebrassem a quietude.
Eu tentei não pensar no perigo que Jacob e seus amigos estavam correndo. Porque nada podia acontecer com Jacob. O pensamento era insuportável. Eu já havia perdido muito - será que o destino iria levar embora os únicos trapos de paz que foram deixados pra trás?
Isso parecia injusto, fora de equilíbrio. Mas talvez eu tivesse violado alguma regra desconhecida, cruzado alguma linha que havia me condenado. Talvez fosse errado estar envolvida com tantos mitos e lendas, para a minha volta para o mundo dos humanos. Talvez...
Não. Nada aconteceria com Jacob. Eu tinha que acreditar nisso ou nunca seria capaz de funcionar direito.
— Argh! — eu rosnei, e pulei pra fora do tronco. Eu não podia ficar sentada, isso era pior que ficar vagando.
Eu realmente estava contando com ouvir Edward essa manhã. Parecia que essa era a única coisa que faria esse dia suportável de viver.
O buraco estava em chamas ultimamente, como se ele estivesse se vingando pelos momentos em que a presença de Jacob o acalmava. As extremidades queimavam.
As ondas aumentaram enquanto eu andava, começando a se chocarem com as rochas, mas ainda não havia nenhum vento. Eu me senti esmagada pela pressão da tempestade. Tudo estava girando ao meu redor, mas eu estava perfeitamente imóvel onde estava. O ar sofreu uma leve alteração elétrica - eu podia sentir a estática nos meus cabelos.
À distância, as ondas estavam mais raivosas do que estavam na costa.
Eu podia as ver banhando a fila de precipícios, espalhando grandes nuvens brancas que saiam do mar em direção ao céu.
Ainda não havia nenhum movimento no ar, apesar das nuvens estarem se movendo mais rapidamente agora.
Era uma vista melancólica - como se as nuvens estivessem se movendo por vontade própria. Eu tremi, apesar de saber que isso era só um truque da pressão.
Os precipícios pareciam a ponta de uma faca preta indo contra o céu lívido. Olhando pra eles, eu me lembrei do dia em que Jacob me contou sobre Sam e sua  — gangue —. Eu pensei nos garotos - nos lobisomens - jogando a si mesmos no espaço vazio. As imagens das figuras caindo, rodopiando, ainda estavam vívidas na minha memória. Eu imaginei a liberdade infinita da queda... eu imaginei o jeito como a voz de Edward soaria na minha cabeça - furiosa, aveludada, perfeita... A queimadura no meu peito ardendo de forma agonizante.
Tinha que haver um jeito de extinguir isso. A dor estava mais intolerável a cada segundo. Eu olhei para os precipícios e para as ondas batendo.
Bem, porque não? Porque não extingui-lo agora?
Jacob havia me prometido o mergulho nos penhascos, não havia? Só porque ele não estava disponível, será que eu devia abrir mão da distração que eu precisava tanto - e precisa ainda mais porque Jacob estava arriscando sua vida?
Se arriscando, em essência, por mim. Se não fosse por mim, Victória não estaria matando pessoas aqui... só alguma outra pessoa, em um lugar distante. Se alguma coisa acontecesse com Jacob, seria minha culpa. Essa realização me atingiu profundamente como uma facada e eu saí correndo pela estrada na direção da casa de Billy, onde minha caminhonete estava esperando.
Eu sabia o caminho para a rua que passava mais próxima dos penhascos, mas eu tive que fazer um pequeno desvio para o caminho que me levaria à beira deles.
Enquanto eu seguia por aí, eu procurei por retornos ou encruzilhadas, sabendo que Jake havia planejado me levar para o penhasco mais baixo e não para o mais alto, mas o caminho acabava numa única linha fina na direção dos penhascos me deixando sem opção.
Eu não tinha tempo pra procurar outro caminho pra baixo - a tempestade estava se movendo mais rapidamente agora.
O vento finalmente havia começado a me tocar, as nuvens se aproximando ainda mais do chão. Assim que eu cheguei no fim do caminho de terra que levava ao precipício de pedra, as primeiras gotas começaram a cair e bater no meu rosto.
Não foi muito difícil me convencer de que eu não tinha tempo pra procurar outro caminho - eu queria pular do topo. Essa era a imagem que havia ficado grudada na minha cabeça. Eu queria a longa queda que faria parecer que eu estava voando.
Eu sabia que essa era a coisa mais estúpida e irresponsável que eu já havia feito. Esse pensamento me fez sorrir. A dor já estava se acalmando, como se o meu corpo soubesse que a voz de Edward estava a apenas alguns segundos de distância...
O oceano parecia muito distante, de alguma forma mais do que antes, quando eu estava passeando perto da árvore. Eu fiz uma careta quando pensei na provável temperatura da água. Mas eu não ia deixar isso me impedir.
O vento soprava mais forte agora, soprando a chuva como um redemoinho ao meu redor.
Eu pisei na beira do precipício, mantendo meus olhos no espaço vazio à minha frente. Meus pés seguiram em frente cegamente, acariciando a margem da pedra quando a encontraram. Eu respirei fundo e segurei a respiração... esperando.
“Bella.”
Eu sorri e exalei.
“Sim?” Eu não respondi em voz alta, com medo que o som da minha voz alta fizesse a minha linda ilusão desaparecer. Ele parecia tão real, tão próximo. Era só quando mentir era reprovável como nessa hora que eu conseguia ouvir a memória real da sua voz - a textura aveludada, a entonação musical que fazia a mais perfeita das vozes.
“Não faça isso” ele implorou.
“Você queria que eu fosse humana.” eu lembrei ele. “Bem, me observe.”
“Por favor. Por mim”
“Mas de outro jeito você não vai ficar comigo.”
“Por favor” era só um sussurro na chuva forte que soprava os meus cabelos e encharcava as minhas roupas - me deixando tão molhada como se eu estivesse dando o segundo mergulho do dia.
Eu rolei nos calcanhares.
“Não, Bella!” ele estava com raiva agora, e a raiva era tão adorável.
Eu sorri e ergui meus braços pra fora, como se eu fosse mergulhar, levantando o meu rosto para a chuva.
Mas eu estava bem treinada demais por causa dos anos de piscinas públicas - pés primeiro, primeira vez. Eu me inclinei para a frente, me abaixando pra conseguir mais impulso...
E me joguei no penhasco.
Eu gritei enquanto caia no espaço como um meteoro, mas era um grito de excitação, não de medo. O vento resistiu, tentando inutilmente lutar contra a invencível gravidade, se empurrando contra mim e me girando em espirais como um foguete caindo na terra.
“Sim!” A palavra ecoou na minha cabeça enquanto eu entrava cortando na superfície da água. Ela estava mais fria, mais gelada do que eu temia, e mesmo assim o frio só aumentou a adrenalina.
Eu estava orgulhosa de mim mesma enquanto mergulhava mais fundo na água negra congelante. Eu não tive nenhum momento de terror - só pura adrenalina. Realmente, a queda não foi nem um pouco assustadora. Onde estava o desafio?
Foi aí que a corrente me pegou.
Eu estive tão preocupada com o tamanho dos penhascos, com o óbvio perigo da sua altura, das suas faces afiadas, que eu não havia me preocupado nem um pouco com a água negra esperando. Eu nunca sonhei que a verdadeira ameaça estivesse embaixo de mim, embaixo da maré alta.
Eu senti que as ondas estavam brigando comigo, me jogando pra frente pra trás, como se estivessem determinadas a se juntarem pra me partir ao meio.
Eu sabia o jeito certo de evitar a maré cheia: era melhor nadar paralelamente até a praia do que lutar pra chegar na praia. Mas esse conhecimento não ajudou muito já que eu não sabia pra que lado a costa estava.
Eu nem sabia dizer pra que lado estava a superfície.
A água raivosa era preta em todas as direções; não havia nem um brilho pra me guiar. A gravidade era toda poderosa quando lutava com o ar, mas ela não era nada nas ondas - eu não conseguia me sentir sendo puxada pra baixo, ser guiada em nenhuma direção.
Eu só podia sentir o banho das correntes que me jogavam pra lá e pra cá como se eu fosse uma boneca de pano.
Eu lutei pra manter o meu ar pra dentro, pra manter os meus lábios selados na minha última reserva de oxigênio.
Não me surpreendeu que a minha ilusão de Edward estava lá. Ele me devia muito, levando em consideração que eu estava morrendo. Eu estava surpresa de ver o quanto esse conhecimento era certo. Eu ia me afogar. Eu estava me afogando.
“Continue nadando!” Edward implorou urgentemente na minha cabeça.
Pra onde? Não havia nada além da escuridão. Não havia nenhum lugar pra nadar.
“Pare com isso!” ele ordenou. “Não se atreva a desistir!”
A água gelada estava deixando meus braços e pernas dormentes. Eu nem sentia mais as ondas batendo. Agora era mais como uma vertigem, como um rodopio sem esperança na água.
Mas eu escutei ele. Eu forcei meus braços a continuarem avançando, minhas pernas a chutarem com mais força, apesar de estar indo para uma direção diferente a cada segundo. Isso não estava levando a nada. Qual era o ponto?
“Lute!” ele gritou. “Droga, Bella, continue lutando”
“Por quê?”
Eu não queria mais lutar. E não era a cabeça leve, o frio, e nem os meus braços falhando quando os meus músculos desistiram de exaustão, que me deixaram contente por estar aqui onde eu estava.
Eu estava quase feliz por estar tudo acabado. Essa era uma morte mais fácil do que as outras que eu enfrentei. Estranhamente tranquila.
Eu pensei brevemente nos clichês, de como você devia ver a sua vida passando na frente dos seus olhos. Eu tinha muito mais sorte. Quem queria ver um replay, afinal?
Eu via ele, e eu não tinha vontade de lutar. Era tão claro, quase mais definido do que qualquer memória. Meu subconsciente havia guardado Edward com perfeição de detalhes, guardando ele para esse momento final.
Eu podia ver seu rosto perfeito como se ele estivesse realmente lá; o tom exato da sua pele gelada, o formato dos seus lábios, a linha da sua mandíbula, o brilho nos seus furiosos olhos dourados.
Ele estava com raiva, naturalmente, por eu estar desistindo. Seus dentes estavam trincados e suas narinas estavam infladas de raiva.
“Não! Bella, não!”
Meus ouvidos estavam cheios da água gelada, mas a voz dele estava mais clara que nunca. Eu ignorei as palavras dele e tentei me concentrar no som da sua voz. Porque eu iria lutar quando estava tão feliz por estar aqui?
Mesmo com os meus pulmões queimando por mais ar e com minhas pernas congeladas pela água fria, eu estava feliz. Eu havia me esquecido do que é a verdadeira felicidade.
Felicidade. Isso fazia toda a coisa de estar morrendo ser bem suportável.
A corrente ganhou nesse momento, me jogando abruptamente contra alguma coisa dura, uma rocha invisível na escuridão. Ela bateu solidamente no meu peito, me atingindo como uma barra de ferro, e então o ar foi roubado dos meus pulmões, escapando com uma grossa nuvem de bolhas prateadas.
A água entrou pela minha garganta, me engasgando e queimando. A barra de aço parecia estar me arrastando, me puxando pra longe de Edward, mais profundamente para a escuridão, para o fundo do oceano.
Adeus, eu te amo, foi meu último pensamento.

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