28 de setembro de 2015

Capítulo 14 - Você sabe que as coisas vão mal quando se sente culpado por ser grosseiro com vampiros

Quando voltei à casa, não havia ninguém esperando do lado de fora por meu relatório. Ainda em alerta? Está tudo tranquilo, pensei, cansado.
Meus olhos rapidamente captaram uma pequena mudança no cenário que já era familiar. Havia uma pilha de roupas claras no primeiro degrau da varanda. Corri até o local para investigar. Prendendo a respiração, porque o cheiro de vampiro ficara no tecido de um jeito que não dava para acreditar, cutuquei a pilha com o focinho.
Alguém tinha deixado roupas ali. Hã. Edward deve ter percebido meu momento de irritação quando disparei pela porta. Bom. Aquilo era... gentil. E estranho.
Peguei as roupas entre os dentes com cuidado – argh! – e as carreguei de volta até as árvores. Só para o caso de ser alguma piada daquela loura psicopata, e eu ter ali um monte de roupas de mulher. Aposto que ela adoraria ver a expressão em meu rosto humano se eu aparecesse lá nu, segurando um vestidinho de alças.
Encoberto pelas árvores, larguei a pilha fedorenta e mudei para a forma humana. Sacudi as roupas, batendo-as contra uma árvore, para tirar um pouco do cheiro. Eram, sem dúvida, roupas de homem – calça caramelo e uma camisa branca com botões. Nenhuma do tamanho certo no comprimento, mas pareciam caber na largura. Deviam ser de Emmett. Dobrei as mangas da camisa, porém não havia muito que pudesse fazer com a calça. Mas, e daí?
Eu tinha de admitir que me sentia melhor estando vestido, mesmo que fosse uma roupa fedorenta que não cabia muito bem. Era difícil não voltar para casa e pegar outro moletom velho quando eu precisava, uma vez eu era um sem-teto – não tinha lugar para onde voltar. Sem posses, também, o que não me incomodava tanto naquela hora, mas, provavelmente, logo iria me chatear.
Exausto, subi devagarzinho os degraus da varanda dos Cullen com minhas novas roupas de segunda mão, mas hesitei quando cheguei à porta. Deveria bater? Seria estupidez, uma vez que eles sabiam que eu estava ali. Estranhei ninguém ter ido me receber – dizer entre ou caia fora. Tanto fazia. Dei de ombros e entrei.
Outras mudanças. A sala tinha voltado ao normal – quase – nos últimos vinte minutos. A grande tevê de tela plana estava ligada, em volume baixo, exibindo um filme de mulherzinha que ninguém parecia estar vendo. Carlisle e Esme estavam junto à janela dos fundos, que dava para o riacho e, novamente, estava aberta. Alice, Jasper e Emmett não estavam à vista, mas eu os ouvia murmurando, no segundo andar. Bella estava no sofá, como na véspera. Só havia um tubo intravenoso ligado a ela, e uma bolsa de soro pendurada atrás do sofá. Ela estava enrolada em algumas mantas grossas, como se fosse um burrito – sinal de que pelo menos eles tinham me ouvido. Rosalie estava perto de sua cabeça, sentada no chão, de pernas cruzadas. Edward sentava na outra ponta do sofá com os pés enrolados de Bella no colo. Ele levantou a cabeça quando entrei e sorriu para mim – só um pequeno movimento da boca – como se alguma coisa o contentasse.
Bella não me ouviu. Ela só ergueu o olhar quando ele me olhou, e então sorriu também. Com energia de verdade, todo o seu rosto se iluminando. Eu não conseguia me lembrar da última vez em que ela parecera tão animada por me ver.
O que havia com ela? Pelo amor de Deus, ela era casada! Casada e feliz – não havia a menor dúvida de que estava apaixonada por seu vampiro além dos limites da sanidade. E ainda por cima imensa de grávida.
Então, por que ela precisava ficar tão emocionada ao me ver? Como se tivesse ganhado o dia só por eu passar pela porta.
Se ao menos ela não se importasse... Ou, mais que isso – se realmente não me quisesse por perto. Seria muito mais fácil manter distância.
Edward pareceu concordar com meus pensamentos – ultimamente estávamos tão em sintonia, que era de enlouquecer. Ele agora estava com a testa franzida, lendo o rosto de Bella enquanto ela sorria radiante para mim.
— Eles só queriam conversar — murmurei, minha voz arrastada de exaustão. — Nenhum ataque à vista.
— Sim — respondeu Edward. — Ouvi a maior parte.
Isso me despertou um pouco. Conversáramos a uns bons cinco quilômetros dali.
— Como?
— Estou ouvindo você com mais clareza... É questão de familiaridade e concentração. Além disso, seus pensamentos são um pouco mais fáceis de captar quando você está na forma humana. Assim, entendi a maior parte do que se passou por lá.
— Ah — aquilo me incomodou um pouco; não havia motivo, então não liguei. — Que bom. Odeio me repetir.
— Eu ia lhe dizer para dormir um pouco — disse Bella — mas acho que você vai desmaiar no chão daqui a seis segundos, então não tem sentido falar nada.
Era incrível como Bella parecia melhor, quanto parecia mais forte. Senti cheiro de sangue fresco, e vi que o copo estava em suas mãos de novo. Quanto sangue seria necessário para mantê-la? A certa altura, eles começariam a avançar na vizinhança?
Segui para a porta, contando os segundos para ela enquanto caminhava.
— Um Mississipi... Dois Mississipi...
— Onde é a enchente, vira-lata? — perguntou Rosalie.
— Sabe como se afoga uma loura, Rosalie? — perguntei sem parar nem me virar para ela. — Cole um espelho no fundo de uma piscina.
Ouvi Edward rir enquanto eu fechava a porta. Seu humor parecia melhorar na razão exata da saúde de Bella.
Desci os degraus com dificuldade. Meu único objetivo era me embrenhar nas árvores, longe o suficiente para que o ar se tornasse puro de novo. Eu pretendia deixar as roupas a uma distância conveniente da casa, para usar futuramente, em vez de amarrá-las em minha perna – assim também não sentiria o cheiro delas. Enquanto me atrapalhava com os botões da camisa nova, pensei ao acaso que botões nunca seriam moda para os lobisomens. Ouvi as vozes enquanto me arrastava pelo gramado.
— Aonde você vai? — perguntou Bella.
— Há uma coisa que esqueci de dizer a ele.
— Deixe Jacob dormir... Isso pode esperar.
Sim, por favor, deixe Jacob dormir.
— Só vai levar um minuto.
Virei-me devagar. Edward já estava na porta. Sua expressão era de desculpas ao se aproximar de mim.
— Meu Deus, o que é agora?
— Desculpe — disse ele, e então hesitou, como se não soubesse como verbalizar o que pensava.
O que você tem em mente, telepata?
— Quando você estava falando com os emissários de Sam — sussurrou ele — fui narrando o que acontecia a Carlisle, a Esme e aos outros. Eles ficaram preocupados...
— Olhe, não vamos baixar a guarda. Não precisa acreditar em Sam como nós. Vamos ficar de olhos abertos, de qualquer forma.
— Não, não, Jacob. Não se trata disso. Confiamos em sua avaliação. Na verdade, Esme ficou preocupada com o sofrimento que isso está causando à sua matilha. Ela me pediu que falasse com você em particular sobre isso.
Aquilo me pegou desprevenido.
— Sofrimento?
— A questão de não ter para onde ir, principalmente. Ela se preocupa muito por vocês estarem tão... desprovidos.
Eu bufei. A mamãe vampira – que bizarro!
— Somos fortes. Diga a ela que não se preocupe.
— Mesmo assim ela gostaria de fazer o possível. Tive a impressão de que Leah prefere não comer na forma de lobo, não é?
— E...? — perguntei.
— Bem, temos comida normal aqui, Jacob. Para manter as aparências e, é claro, para Bella. Leah pode pegar o que quiser. Todos vocês podem.
— Vou passar o recado.
— Leah nos odeia.
— E daí?
— Então tente passar o recado de maneira que a faça considerar a oferta, se não se importa.
— Farei o que puder.
— E há a questão das roupas.
Olhei para as que eu estava vestindo.
— Ah, sim. Obrigado. — Provavelmente não seria de bom-tom mencionar que cheiravam muito mal.
Ele sorriu, só um pouco.
— Bem, podemos ajudar facilmente com o que for necessário nesse sentido. Alice raramente nos deixa vestir a mesma coisa duas vezes. Temos pilhas de roupas novas em folha que estão destinadas à caridade, e imagino que Leah tenha mais ou menos o tamanho de Esme...
— Não sei como Leah vai se sentir com roupas usadas de sanguessugas. Ela não é tão prática quanto eu.
— Creio que você apresentará a oferta sob a melhor ótica possível. Assim como a oferta de qualquer outro objeto físico ou transporte de que possam precisar qualquer coisa. E chuveiros também, já que preferem dormir ao ar livre. Por favor... não se considerem sem os benefícios de uma casa.
Ele disse a última frase suavemente – dessa vez, não estava tentando falar baixo, tinha algum tipo de emoção verdadeira. Eu o encarei por um segundo, piscando timidamente.
— Isso, hã, é muito gentil da parte de vocês. Diga a Esme que agradecemos, hã, a oferta. Mas o perímetro corta o rio em alguns pontos, então ficamos bem limpos, obrigado.
— Se puder passar o recado, mesmo assim.
— Claro, claro.
— Obrigado.
Eu me afastei dele, mas logo depois fiquei paralisado ao ouvir o grito baixo e dolorido que vinha da casa. Quando olhei para trás, ele não estava mais ali.
O que era agora?
Eu o segui, me arrastando feito um zumbi. Usando a mesma quantidade de neurônios também. Eu não parecia ter alternativa. Algo estava errado. Eu iria lá ver o que era. Não haveria nada que eu pudesse fazer. E eu me sentiria pior.
Parecia inevitável.
Entrei novamente. Bella estava ofegante, curvada sobre o volume no meio de seu corpo. Rosalie a segurava; Edward, Carlisle e Esme estavam a seu redor. Um movimento rápido atraiu meus olhos – Alice estava no alto da escada, olhando para a sala com as mãos nas têmporas. Era estranho – como se, de algum modo, estivesse impedida de entrar.
— Me dê um segundo, Carlisle — disse Bella, arquejando.
— Bella — disse o médico com ansiedade — eu ouvi alguma coisa estalar. Preciso dar uma olhada.
— Com toda a certeza — arquejou — foi uma costela. Ai. É. Bem aqui.
Ela apontou para o lado esquerdo, tomando cuidado de não tocar o local.
Aquilo agora estava quebrando os ossos dela.
— Preciso fazer uma radiografia. Pode haver fragmentos. Não queremos que perfure nada.
Bella respirou fundo.
— Tudo bem.
Rosalie a ergueu com cuidado. Edward deu a impressão de que iria discutir, mas Rosalie mostrou os dentes para ele e grunhiu.
— Eu já a peguei.
Bella já estava mais forte então. Mas a coisa também. Não dava para matar uma de fome sem matar a outra, e a cura funcionava do mesmo jeito. Não havia como vencer.
A Loura carregou Bella rapidamente pela escadaria, com Carlisle e Edward logo atrás; nenhum deles percebera minha presença estupefata na porta.
Quer dizer que eles tinham um banco de sangue e um aparelho de raios X? Então o doutor levara o trabalho para casa com ele.
Eu estava cansado demais para segui-los, cansado demais para me mexer. Encostei-me na parede e escorreguei para o chão. A porta ainda estava aberta e voltei o nariz para ela, grato pela brisa pura que soprava. Encostei a cabeça no batente e fiquei ouvindo.
Podia escutar o som do aparelho de raios X no segundo andar. Ou talvez só imaginasse que fosse isso. E depois o mais leve dos passos descendo a escada. Não olhei para ver que vampiro era.
— Quer um travesseiro? — perguntou-me Alice.
— Não — murmurei.
Mas o que era aquela hospitalidade insistente. Estava me dando arrepios.
— Isso não parece confortável — ela observou.
— E não é.
— Por que não sai daí, então?
— Cansaço. Por que não está lá em cima com os outros? — rebati.
— Dor de cabeça — respondeu ela.
Virei a cabeça para olhá-la.
Alice era uma coisinha mínima. Mais ou menos do tamanho de um dos meus braços. Naquele momento, parecia ainda menor, meio curvada. Sua carinha estava franzida.
— Vampiros têm dor de cabeça?
— Não os normais.
Fiz um muxoxo. Vampiros normais!
— E então: por que você não fica mais com Bella? — perguntei, fazendo da pergunta uma acusação. Aquilo não me ocorrera antes, porque minha cabeça estava ocupada com outras coisas, mas era estranho que Alice nunca estivesse perto de Bella, pelo menos não durante o tempo que eu estava ali. Talvez, se Alice ficasse ao lado dela, Rosalie não ficaria. — Pensei que vocês duas fossem assim. — Uni dois dedos.
— Como eu disse — ela se sentou em uma cerâmica a pouca distancia de mim envolvendo os joelhos magros com os braços esquálidos — dor de cabeça.
— Bella está lhe dando dor de cabeça?
— Sim.
Franzi a testa. Certamente, eu estava cansado demais para enigmas. Deixei minha cabeça girar para o ar fresco e fechei os olhos.
— Não Bella, na verdade — corrigiu ela. — O... feto.
Ah, mais alguém que sentia o mesmo que eu! Era muito fácil de reconhecer. Ela disse a palavra de má vontade, como Edward.
— Não consigo vê-lo — ela me disse, embora pudesse estar falando sozinha. Para ela, eu já estava longe. — Não consigo ver nada a respeito dele. Como acontece com você.
Eu me encolhi, e então trinquei os dentes. Não me agradava ser comparado com a criatura.
— Bella atrapalha. Ela está toda em volta dele, está... borrado. Como uma tevê com recepção ruim... É como tentar focalizar os olhos naquelas pessoas sem definição zanzando pela tela. Está acabando com minha cabeça vê-la. Ainda assim, não consigo enxergar mais que alguns minutos à frente. O... feto é uma parte muito grande de seu futuro. Quando ela decidiu... quando ela soube que o queria, minha visão ficou indistinta. Morri de medo.
Ela ficou em silêncio por um segundo e acrescentou:
— Tenho de admitir que é um alívio ter você por perto... Apesar do cheiro de cachorro molhado, isso tudo desaparece. É como ficar de olhos fechados. Melhora a dor de cabeça.
— É um prazer servi-la, madame — murmurei.
— Fico imaginando o que o feto tem em comum com você... por que são iguais nesse aspecto.
De repente a quentura surgiu no interior de meus ossos. Fechei os punhos para controlar os tremores.
— Não tenho nada em comum com aquele sugador de vida — eu disse entredentes.
— Bem, alguma coisa há.
Não respondi. O calor já estava cedendo. Eu estava cansado demais para ficar furioso.
— Não se importa que eu fique sentada aqui, não é? — perguntou ela.
— Acho que não. Fede de qualquer jeito.
— Obrigada — disse ela. — É a melhor coisa para a dor, imagino, pois não posso tomar aspirina.
— Pode falar menos? Tem gente tentando dormir.
Ela não respondeu, ficou imediatamente em silêncio. Apaguei segundos depois.
Sonhei que estava com muita sede. E havia um copo grande de água na minha frente – geladíssima, dava para ver a condensação escorrendo pelas laterais. Peguei o copo e tomei um gole imenso, descobrindo então que não era água – era alvejante. Engasguei e pus aquilo para fora, cuspindo para todos os lados, e parte do líquido saiu pelas narinas. Queimava. Meu nariz estava pegando fogo...
A dor me despertou o suficiente para que eu lembrasse onde estivera dormindo. O cheiro era muito forte, levando-se em conta que meu nariz não estava dentro da casa. Argh. E havia barulho. Alguém estava rindo muito alto. Uma risada familiar, mas que não combinava com o cheiro. Não pertencia àquele lugar.
Gemi e abri os olhos. O céu estava cinza-escuro – era dia, mas eu não tinha a menor ideia da hora. Talvez perto do pôr do sol – estava bem escuro.
— Já não era sem tempo — murmurou a Loura não muito longe de mim. — A imitação de serra elétrica estava ficando cansativa.
Virei de lado e me sentei. Ao fazer isso, entendi de onde vinha o cheiro. Alguém tinha enfiado um travesseiro grande debaixo do meu rosto. Provavelmente tentando ser gentil, imagino. A menos que tenha sido Rosalie.
Depois que tirei a cara do travesseiro de plumas, senti outros cheiros. Bacon e canela, por exemplo, misturados com o cheiro de vampiro.
Pisquei, olhando a sala.
As coisas não haviam mudado muito, a não ser pelo fato de que agora Bella estava sentada no meio do sofá e não havia mais soro. A Loura estava a seus pés, a cabeça pousada nos joelhos de Bella. Ainda me dava arrepios ver a despreocupação com que eles a tocavam, embora achasse que isso era bastante idiota, considerando tudo. Edward estava ao lado dela, segurando sua mão. Alice também estava no chão, como Rosalie. Seu rosto agora não estava franzido. E era fácil ver por quê – ela havia encontrado outro analgésico.
— Ei, Jake está na área! — exclamou Seth.
Ele estava sentado do outro lado de Bella, o braço pousado despreocupamente em seus ombros, um prato transbordando de comida no colo. Mas que diabos era aquilo?
— Ele veio procurar você — disse Edward enquanto eu me levantava. — E Esme o convenceu a ficar para o café da manhã.
Seth entendeu minha expressão e se apressou a explicar.
— É, Jake... Eu só estava checando, para saber se você estava bem, já que não voltou a se transformar. Leah ficou preocupada. Eu lhe disse que você devia ter apagado na forma humana, mas sabe como ela é. De qualquer forma, eles tinham toda essa comida e, puxa... — Ele se virou para Edward. — Cara, você sabe cozinhar mesmo.
— Obrigado — murmurou Edward.
Respirei fundo lentamente, tentando relaxar os dentes, que estavam trincados. Não conseguia tirar os olhos do braço de Seth.
— Bella estava com frio — Edward apressou-se em dizer.
Está bem. Não era da minha conta mesmo. Ela não me pertencia.
Seth ouviu o comentário de Edward, olhou meu rosto e de repente precisou das duas mãos para comer. Afastou o braço de Bella e mergulhou no prato. Eu me aproximei, parando a alguns passos do sofá, ainda tentando me orientar.
— Leah está fazendo a patrulha? — perguntei a Seth. Minha voz ainda estava rouca de sono.
— Está — disse ele enquanto mastigava. Seth também estava com roupas novas. Assentaram melhor nele que as minhas em mim. — Ela está alerta, não se preocupe. Vai uivar se houver alguma coisa. Trocamos de turno à meia-noite. Eu corri doze horas. — Ele estava orgulhoso disso, dava para ver em seu tom de voz.
— Meia-noite? Espere um minuto... Que horas são?
— Está quase amanhecendo. — Ele olhou pela janela, verificando.
Mas que droga! Eu havia dormido o restante do dia e a noite toda – tinha falhado com eles.
— Porcaria. Desculpe por isso, Seth. De verdade. Você devia ter me acordado com um chute.
— Não, cara, você precisava dormir muito. Desde quando não descansa? Desde a noite anterior à sua última patrulha para Sam? Umas quarenta horas? Cinquenta? Você não é uma máquina, Jake. Além disso, não perdeu nada.
Nada? Olhei rapidamente para Bella. Sua cor voltara a ser como eu lembrava. Pálida, mas com o leve tom rosado. Os lábios estavam cor-de-rosa de novo. Até o cabelo parecia melhor – mais brilhante. Ela viu que eu a avaliava e me abriu um sorriso.
— Como está a costela? — perguntei.
— Bem imobilizada e apertada. Nem estou sentindo.
Revirei os olhos. Ouvi Edward trincar os dentes e imaginei que a atitude de desdém de Bella em relação ao próprio sofrimento o incomodava tanto quanto a mim.
— O que tem para o café da manhã? — perguntei, meio sarcástico. — O negativo ou AB positivo?
Ela mostrou a língua para mim. Totalmente ela mesma de novo.
— Omeletes — respondeu, mas seus olhos baixaram rapidamente, e vi que o copo de sangue estava entre a perna dela e a de Edward.
— Coma alguma coisa, Jake — disse Seth. — Tem de tudo na cozinha. Você deve estar faminto.
Examinei a comida no colo dele. Parecia a metade de uma omelete de queijo e a quarta parte de um pão doce de canela do tamanho de um frisbee. Meu estômago roncou, mas eu o ignorei.
— O que Leah vai comer no café da manhã? — perguntei a Seth num tom de crítica.
— Ei, antes de comer qualquer coisa eu levei comida para ela — ele se defendeu. — Ela disse que preferia comer um bicho atropelado, mas aposto que cedeu à tentação. Esses pães doces de canela... — Ele pareceu não encontrar palavras.
— Vou caçar com ela, então.
Seth suspirou enquanto eu me virava para sair.
— Um minuto, Jacob.
Era Carlisle; assim, quando me virei novamente, meu rosto provavelmente estaria menos desrespeitoso do que estaria se outra pessoa tivesse me chamado.
— Sim?
Carlisle se aproximou de mim enquanto Esme ia para outro aposento. Ele parou a alguns passos, um pouco mais distante que o normal entre dois humanos que conversam. Fiquei grato por ele respeitar meu espaço.
— Por falar em caçar — começou ele num tom sóbrio — esse será um problema para minha família. Entendo que nossa trégua está suspensa no momento, então queria seu conselho. Sam estará nos procurando fora do perímetro que vocês criaram? Não queremos nos arriscar a machucar ninguém da sua família... Nem perder nenhum dos nossos. Se você estivesse no nosso lugar, o que faria?
Curvei-me para trás, meio surpreso quando ele atirou aquilo em cima de mim desse jeito. O que eu ia saber sobre estar no precioso lugar de um sanguessuga? Mas, por outro lado, eu conhecia Sam.
— É um risco — eu disse, tentando ignorar os outros olhares sobre mim e me dirigir somente a ele. — Sam está um pouco mais calmo, mas tenho certeza de que, para ele, o tratado não vale mais. Enquanto ele achar que a tribo ou outros humanos estão mesmo correndo perigo, não vai parar para fazer perguntas, se é que me entende. Mas, ainda assim, a prioridade dele será La Push. Eles, na verdade, não estão em número suficiente para vigiar as pessoas como devem e ainda sair em caçada num bando capaz de causar muito estrago. Eu apostaria que ele vai ficar perto de casa.
Carlisle assentiu, pensativo.
— Acho então que lhes diria para saírem juntos, só por precaução. E provavelmente o melhor é ir durante o dia, porque estaríamos esperando que fizessem isso à noite. Coisas de vampiros tradicionais. Vocês são rápidos... vão além das montanhas e cacem longe o bastante para que não haja possibilidade de ele mandar alguém tão distante de casa.
— E deixar Bella para trás, desprotegida?
Eu bufei.
— O que nós somos, pedaços de carne?
Carlisle riu, depois seu rosto voltou a ficar sério.
— Jacob, você não pode lutar com seus irmãos.
Meus olhos se estreitaram.
— Não posso dizer que não seria ruim, mas se eles realmente estivessem vindo matá-la... eu seria capaz de impedi-los.
Carlisle sacudiu a cabeça, ansioso.
— Não, eu não quis dizer que você seria... incapaz. Mas que seria muito errado. Não posso ter isso em minha consciência.
— Não estaria na sua, doutor. E sim na minha. E eu posso lidar com isso.
— Não, Jacob. Vamos nos certificar de que nossos movimentos não tornem isso necessário. — Ele franziu a testa, ainda pensativo. — Sairemos em grupos de três a cada vez — concluiu ele depois de um segundo. — Creio que é o melhor que podemos fazer.
— Não sei não, doutor. Dividir ao meio não é a melhor estratégia.
— Temos algumas habilidades extras que vão compensar. Se Edward for um dos três, poderá nos dar um raio de segurança de alguns quilômetros.
Nós dois olhamos para Edward. Sua expressão fez Carlisle recuar rapidamente.
— Estou certo de que temos outros meios — disse Carlisle. Estava claro que não haveria necessidade física suficientemente forte para afastar Edward de Bella. — Alice, imagino que possa ver que rotas não seriam adequadas.
— Aquelas que desaparecem — disse Alice, assentindo. — É fácil.
Edward, que ficara muito tenso com o primeiro plano de Carlisle, relaxou. Bella observava Alice com um olhar infeliz, aquela ruguinha entre os olhos que surgia quando ela estava estressada.
— Tudo bem, então — eu disse. — Fica combinado assim. Estou de saída. Seth, vou esperar por você ao anoitecer, então tire uma soneca em algum lugar por aí, está bem?
— Claro, Jake. Mudo de forma assim que acabar. A não ser que... — ele hesitou, olhando para Bella. — Você precisa de mim?
— Ela tem cobertores — eu falei com rispidez.
— Eu estou bem, Seth, obrigada — disse Bella rapidamente.
E então Esme entrou na sala, com um grande prato coberto nas mãos. Parou, hesitante, logo atrás de Carlisle, os olhos dourados e grandes me fitando. Estendeu o prato e se aproximou com um passo tímido.
— Jacob — disse ela baixinho. Sua voz não era tão penetrante quanto a dos outros. — Sei que não é... apetitosa para você a ideia de comer aqui, onde o cheiro é tão desagradável. Mas eu me sentiria muito melhor se levasse alguma comida quando sair. Sei que não pode ir para casa, e isso por nossa causa. Por favor... diminua um pouco meu remorso. Leve alguma coisa par comer.
Ela me estendeu a comida, o rosto delicado e suplicante. Não sei como conseguiu, porque não parecia ter mais do que vinte e poucos anos, e também era branca feito osso, mas algo em sua expressão de repente me lembrar de minha mãe.
Meu Deus!
— Ah, claro, claro — murmurei. — Acho que sim. Talvez Leah ainda com fome ou coisa assim.
Estendi o braço e peguei a comida com uma das mãos, mantendo-a afastada um braço de distância. Eu a largaria sob uma árvore ou coisa parecida.
Não queria que Esme se sentisse mal. Depois me lembrei de Edward.
Não diga nada a ela! Deixe que ela pense que eu comi.
Não olhei para ele para ver se concordava. Era melhor que concordasse. O sanguessuga me devia muito.
— Obrigada, Jacob — disse Esme, sorrindo para mim.
Como um rosto de pedra pode ter covinhas, pelo amor de Deus!
— Hã, obrigada — devolvi. Meu rosto estava quente; mais que o normal.
Esse era o problema de andar com vampiros – você acabava se acostumando com eles. E aí eles bagunçavam sua visão de mundo. Começavam a parecer amigos.
— Vai voltar mais tarde, Jake? — perguntou Bella enquanto eu tentava dar o fora dali.
— Hã, não sei.
Ela apertou os lábios, como se tentasse não sorrir.
— Por favor. Eu posso sentir frio.
Respirei fundo pelo nariz; depois, lembrei, tarde demais, que não era uma boa ideia. Estremeci.
— Jacob? — chamou Esme. Recuei para a porta enquanto ela avançava; ela deu alguns passos na minha direção. — Deixei um cesto de roupas na varanda. São para Leah. Estão recém-lavadas... Tentei tocar nelas o mínimo possível. — Ela franziu a testa. — Pode levar para ela?
— Perfeitamente — murmurei, e saí pela porta antes que alguém pudesse fazer com que me sentisse ainda mais culpado.

2 comentários:

  1. Deixem o Jake dormir por favor Kkkkk coitadinho

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