25 de setembro de 2015

Capítulo 13 - Recém-criado

—A mesma coisa que aconteceu na sua mão—, Jasper respondeu numa voz baixa. —Repetido mil vezes—. Ele sorriu um pouco amargamente e esfregou seu braço. —O nosso veneno é a única coisa que deixa cicatriz—.
—Porque?, eu respirei horrorizada, me sentindo rude mas me sentindo incapaz de desviar os olhos da sua pele subitamente castigada.
—Eu não tive a mesma... criação que os meus irmãos adotivos aqui. O meu começo foi uma coisa inteiramente diferente—. A voz dele estava dura quando ele terminou.
Eu abri uma brecha pra ele, intimidada.
—Antes que eu te conte a minha história—, Jasper disse. —Você precisa entender que existem lugares no nosso mundo, Bella, onde o tempo de vida daqueles que não envelhecem é medida em semanas, e não em séculos—.
Os outros já tinham ouvido isso antes. Carlisle e Emmett viraram sua atenção para a TV de novo. Alice havia se movido um pouco pra se sentar aos pés de Esme. Mas Edward estava tão absolvido quando eu; eu podia sentir os olhos dele no meu rosto, lendo cada mudança de emoção.
—Pra entender realmente o porque, você tem que olhar pra o mundo por uma perspectiva diferente. Você tem que imaginar o jeito como ele parece para os poderosos, os gananciosos... os perpetuamente sedentos.
—Entenda, existem lugares no mundo que são mais desejáveis pra nós do que outros. Lugares onde nós podemos ter menos restrições, e ainda evitar a detecção.
—Imagine, por exemplo, um mapa do hemisfério oeste. Imagine cada vida humana como um pequeno ponto vermelho. Quanto mais vermelho, mas facilmente nós - bem, aqueles que vivem desse jeito - podem se alimentar sem atrair atenção—.
Eu estremeci com a imagem na minha cabeça, com a palavra alimentar. Mas Jasper não estava preocupado em me assustar, ele não era super protetor como Edward era. Ele continuou sem uma pausa.
—Não que os grupos ao sul liguem muito se os humanos vão notar ou não. São os Volturi que mantêm um olho nisso. Eles são os únicos que os grupos do sul temem.—
—Se não fossem os Volturi, o resto de nós seria rapidamente exposto—.
Eu fiz uma careta pelo jeito que ele pronunciou o nome - com respeito, quase gratidão. A ideia dos Volturi como os mocinhos de qualquer maneira era difícil de aceitar.
—O Norte é, em comparação, muito civilizado. A maioria de nós daqui são nômades que gostam do dia tanto quanto da noite, que permitem que os humanos interajam conosco sem levantar suspeitas - anonimato é muito importante pra todos nós.
—É um mundo diferente no Sul. Os imortais de lá só saem à noite. Eles passam o dia planejando seu próximo passo, antecipando seu inimigo. Como houve guerra no Sul, guerra constante por séculos, sem nenhum momento de trégua. Os grupos de lá mal reparam na existência dos humanos, a não ser como soldados que notam um rebanhos de vacas no lado de uma pista - comida pra pegar. Eles só se escondem do conhecimento do rebanho por causa do Volturi—.
—Mas pelo quê eles estão lutando?— eu perguntei.
Jasper sorriu. —Lembra do mapa com os pontos vermelhos?—
Ele esperou, então eu balancei a cabeça.
—Eles lutam pelo controle do maior número de pontos vermelhos.
—Veja, se ocorresse que uma pessoa, se ele fosse o único vampiro, digamos no Novo México, então, ele poderia se alimentar toda noite, duas vezes, três vezes, e ninguém nunca repararia. Ele planeja as formas certas pra se livrar da competição.
—Outros tiveram a mesma ideia. Alguns apareceram com táticas mais efetivas do que outros.
—Mas a tática mais efetiva foi inventada por um vampiro bastante jovem chamado Benito. Da primeira vez que qualquer um ouviu falar nele, ele tinha vindo de algum lugar à norte de Dallas e massacrou dois grupos pequenos que dividiam uma área perto de Houston. Duas noites depois, ele pegou um clã muito mais forte de aliados que controlava Monterrey no norte no México. De novo, ele venceu.—
—Como foi que ele venceu?— eu perguntei com curiosidade cautelosa.
—Benito havia criado um exército de vampiros recém-criados. Ele foi o primeiro a pensar nisso, e, no começo, ele era impossível de parar. Vampiros jovens são muito voláteis, selvagens, e quase impossíveis de controlar. É possível ser razoável com um recém-nascido, ensiná-lo a se controlar, mas dez, quinze juntos são um pesadelo. Eles vão se virar um contra o outro com tanta facilidade como se fosse um inimigo para o qual você aponta. Benito teve que ficar fazendo mais à medida que eles se destruíam, e os grupos que ele derrotava matavam metade de sua força antes de perderem a luta.
—Veja, apesar dos recém-nascidos serem perigosos, eles ainda são possíveis de derrotar se você souber o que está fazendo. Eles são incrivelmente poderosos fisicamente, pelo primeiro ano ou coisa assim, e se eles forem permitidos a usar a força pra aguentar, eles podem derrotar um vampiro mais velho com facilidade. Mas eles são escravos de seus instintos, e por isso são previsíveis. Geralmente, eles não tem nenhuma habilidade com luta, apenas músculos e ferocidade. E nesse caso, maior número.
—Os vampiros ao Sul do México se deram conta do que estava vindo pra eles, e fizeram a única coisa que podiam pra enfrentar Benito. Eles mesmos fizeram exércitos...
—E o inferno correu solto - e eu estou falando da forma mais literal que você possa imaginar. Nós imortais temos as nossas histórias também, e essa guerra em particular nunca será esquecida. É claro, também não era uma época muito boa pra se ser humano no México—.
Eu estremeci.
—Quando a contagem dos corpos tomou proporções epidêmicas - de fato, as suas histórias culpam as doenças pela baixa na população - os Volturi finalmente interviram. A guarda inteira veio junta e acabou com todos os recém-nascidos na metade de cima da América do Norte. Benito estava escondido em Puebla, construindo seu exército o mais rápido que podia pra poder tomar o seu prêmio - a Cidade do México. Os Volturi começaram com ele, e depois passaram pro resto.—
—Qualquer um que fossem encontrado com vampiros recém-nascidos era executado imediatamente, e, já que todos estavam tentando se proteger de Benito, México ficou esvaziada de vampiros por algum tempo.
—Os Volturi ficaram limpando a casa por quase um ano. Esse é outro capítulo da nossa história que será sempre lembrado, apesar de que houveram poucas testemunhas restantes pra falar de como foi. Eu falei com uma pessoa que uma vez tinha, à distância, observado o que aconteceu quando eles visitaram Culiancán—.
Jasper estremeceu. Eu me dei conta de que eu nunca havia visto ele com medo ou aterrorizado antes. Essa era a primeira vez.
—Isso foi o suficiente pra que a febre de conquista não se espalhasse pelo Sul. O resto do mundo ficou são. Nós devemos aos Volturi pelo nosso estilo de vida atual.
—Mas quando os Volturi voltaram para a Itália, os sobreviventes foram rápidos pra apostar em suas posses ao Sul.
—Não demorou muito tempo pra que os grupos começassem a disputar novamente. Havia muito sangue ruim, se você perdoa a expressão. Vinganças por todo lado. A ideia dos recém-nascidos já estava lá, e alguns não foram capazes de resistir. Porém, os Volturi ainda não haviam sido esquecidos, e os grupos do sul foram mais cuidadosos dessa vez. Os recém-nascidos eram escolhidos entre os humanos com mais cuidado, e eram mais treinados. Eles eram usados circunspectamente, e os humanos continuaram, em grande parte, sem saber de nada. Os criadores deles não deram aos Volturi nenhum motivo pra voltar.
—As guerras foram reassumidas, mas em uma escala menor. De vez em quando, se alguém ia muito longe, especulações começavam a aparecer nos jornais dos humanos, e os Volturi voltavam pra limpar a cidade. Mas eles deixavam os outros, os mais cuidadosos, continuarem...—
Jasper estava olhando para o espaço.
—Foi assim que você foi transformado—. A minha realização foi um sussurro.
—Sim—, ele concordou. —Quando eu era humano, eu vivi em Houston, Texas. Eu estava quase com dezessete anos quando eu me juntei ao Exército Confederado em 1861. Eu menti pra os recrutadores e disse que tinha vinte anos. Eu era alto o suficiente pra escapar com a mentira.
—A minha carreira militar foi curta, mas muito promissora. As pessoas sempre... gostaram de mim, escutaram o que eu tinha a dizer. O meu pai dizia que era carisma. É claro, agora eu sei que provavelmente era algo mais. Mas, qualquer que fosse a razão, eu fui rapidamente promovido entre as patentes, acima de homens mais velhos, mais experientes. O Exército Confederado era novo e estava começando a se organizar, então, isso também promoveu oportunidades. Na primeira batalha em Galveston - bem, foi mais um disfarce, na verdade - eu era o Major mais novo do Texas, sem que sequer soubessem minha verdadeira idade.
—Eu fiquei com a responsabilidade de evacuar as mulheres e as crianças da cidade quando os barcos do morteiro Union atracaram no porto. Eu levei um dia pra prepará-los, e então eu parti com o primeiro grupo de civis pra carregá-los até Houston.
—Eu me lembro daquela noite muito claramente.
—Nós chegamos à cidade quando já estava escuro. Eu só fiquei por tempo suficiente pra ter certeza se o grupo inteiro estava seguramente situado. Assim que isso foi feito, eu peguei um cavalo novo pra mim, e voltei pra Galveston. Não havia tempo pra descansar.
—A apenas um metro fora da cidade, eu encontrei três mulheres a pé. Eu pensei que elas estavam perdidas e desmontei imediatamente pra oferecê-las meu auxílio. Mas, quando eu consegui ver o rosto delas na luz difusa da lua, eu fiquei silenciosamente fascinado. Elas eram, sem dúvida, as três mulheres mais bonitas que eu já havia visto.
—Elas tinham uma pele tão pálida, que eu me lembro de ficar maravilhado. Mesmo a garota pequena de cabelos pretos, de quem as feições era claramente mexicanas, pareciam porcelana à luz da lua.—
—Elas pareciam jovens, todas elas, ainda jovens o suficiente pra serem chamadas de garotas. Eu sabia que elas não eram membros perdidos do nosso grupo. Eu teria me lembrado de vez aquelas três.
—Ele está sem voz' disse a garota mais alta com uma voz adorável, delicada - era como uma brisa de vento. Ela tinha bastante cabelo, e a pele dela era branca como neve.
—A outra era mais loira e mesmo assim, sua pele era igualmente branca. O rosto dela era como o de um anjo. Ela inclinou na minha direção com os olhos meio fechados e inalou profundamente.
—Mmm' ela suspirou. 'Adorável'.
—A menor, uma morena pequena, colocou a mão no braço da outra e falou rapidamente. A voz dela estava muito suave e musical pra ser ríspida, mas isso parecia ser o que ela pretendia.
—Se concentre, Nettie', ela disse.
—Eu sempre tive uma boa sensação de como as pessoas se relacionam umas com as outras, e ficou claro imediatamente que a morena estava no comando das outras. Se elas fossem militares, eu diria que ela se sobressaía às outras.
—Ele parece ser certo - jovem, forte, um oficial...' a morena pausou, e eu tentei falar sem sucesso. 'E tem mais alguma coisa... vocês estão sentindo?' ela perguntou às outras duas. 'Ele é... coagente'.
—Oh, sim' Nettie concordou rapidamente, se inclinando na minha direção de novo.
—Paciência', a morena avisou ela. 'Eu quero ficar com esse'.
—Nettie fez uma careta, ela pareceu aborrecida.
—É melhor você fazer isso, Maria', a loira mais alta falou de novo. 'Se ele é importante pra você. Eu os mato duas vezes mais do que os crio'.
—'Sim, eu vou fazer isso', Maria concordou. 'Eu realmente gosto desse. Leve Nettie pra longe, tá? Eu não quero ter que proteger as minhas costas enquanto estou tentando me concentrar.'
—O meu cabelo estava arrepiando na minha nuca, apesar não de eu não entender o significado de nada do que aquelas lindas criaturas estavam falando.—
—Os meus instintos me diziam que eu estava em perigo, que aquele anjo estava falando sério quando falou em matar, mas meu julgamento dominou os meus instintos. Eu nunca fui ensinado a temer mulheres, e sim a protegê-las.
—Vamos caçar', Nettie concordou entusiasticamente, pegando a mão da garota alta. Elas foram embora - elas eram tão graciosas! - e saíram em direção à cidade. Elas pareciam prestes a levantar voo, de tão rápidas que eram - seus vestidos brancos esvoaçavam atrás delas como se fossem asas. Eu pisquei pasmificado, e elas foram embora.
—Eu me virei pra encarar Maria, que estava me olhando com curiosidade.
—Eu nunca havia sido supersticioso em minha vida. Até aquele segundo, eu nunca havia acreditado em fantasmas e nessas bobagens. De repente, eu não tinha certeza.
—Qual é o seu nome, soldado?' Maria me perguntou.
—Major Jasper Withlock, madame', eu gaguejei, incapaz de ser mal educado com a mulher, mesmo se ela fosse um fantasma.
—Eu realmente espero que você sobreviva, Jasper'. Ela disse com uma voz gentil. 'Eu tenho um bom sentimento sobre você.'
—Ela deu um passo mais pra perto, e inclinou a cabeça como se ela fosse me beijar. Eu fiquei congelado no lugar, apesar dos meus instintos estarem gritando pra que eu corresse.—
Jasper pausou, seu rosto estava pensativo. —Alguns dias depois—, ele finalmente disse, e eu não pude ter certeza se ele havia editado a história pro meu bem ou porque ele estava respondendo à tensão que até eu podia sentir exalando de Edward. —Eu fui apresentado à minha nova vida.
—Os nomes delas eram Maria, Nettie, e Lucy. Elas não estavam juntas há muito tempo - Maria havia encontrado as outras duas - todas as três eram sobreviventes de batalhas recentemente perdidas. A parceria delas era de conveniência. Maria queria vingança, e ela queria seus territórios de volta. As outras duas estavam ansiosas pra aumentar suas... terras de rebanho, eu acho que você pode dizer. Elas estavam criando um outro exército, e iam ser mais cuidadosas com isso do que o normal.—
—Foi ideia de Maria. Ela queria um exército superior, então ela escolhia humanos específicos que tivessem potencial. Aí ela nos deu muito mais atenção, muito mais treinamento do que outra pessoa tinha se incomodado em fazer. Ela nos ensinou a lutar, e nos ensinou a ser invisíveis para os humanos. Quando nós fazíamos direito, nós éramos recompensados...—
Ele parou, editando de novo.
—No entanto, ela estava com pressa. Maria sabia que a força massiva dos recém-nascidos ia diminuindo no período de um ano, e ela queria agir enquanto éramos fortes.
—Haviam seis de nós quando eu me juntei ao bando de Maria. Ela fez mais quatro no período de uma noite. Nós éramos todos homens - Maria queria soldados - e isso fez com que fosse um pouco mais difícil não brigarmos entre nós mesmos. Eu lutei minhas primeiras batalhas contra os meus próprios camaradas no exército. Eu era mais rápido que os outros, melhor no combate. Maria estava satisfeita comigo, apesar de ter que continuar repondo aqueles que eu destruía. Eu era recompensado com frequência, e isso me deixava mais forte.
—Maria era uma boa juíza de caráter. Ela decidiu me colocar no comando dos outros - como se eu estivesse sendo promovido. Isso servia perfeitamente com a minha natureza. As brigas diminuíram dramaticamente, e o nosso número aumentou até que éramos cerca de vinte.
—Esse era um número considerável levando em consideração os tempos cuidadosos em que vivíamos. A minha habilidade, ainda que indefinida, de controlar a atmosfera emocional ao meu redor era vitalmente efetiva. Em breve nós começamos a trabalhar juntos de uma forma que os vampiros recém-nascidos jamais haviam cooperado antes. Até Maria, Nettie, e Lucy eram capazes de trabalhar juntas com mais facilidade.
—Maria ficou muito apegada a mim - ela começou a depender de mim. E, de algumas formas, eu adorava o chão em que ela pisava. Eu não fazia ideia de que outra vida era possível. Maria nos disse que esse era o jeito como as coisas eram, e nós acreditamos—.
—Ela pediu que eu dissesse a ela quando os meus irmãos e ela estivéssemos prontos pra lutar, e eu estava ansioso pra me provar. Eu havia juntado um exército de vinte e três no final - vinte e três vampiros inacreditavelmente fortes, organizados e habilidosos com nenhum outro antes. Maria estava extasiada.
—Nós nos movemos em direção à Monterrey, sua antiga casa, e ela no soltou em cima de seus inimigos. Naquela hora eles só tinham nove recém-nascidos, e um par de vampiros mais velhos controlando eles. Nós os derrotamos mais facilmente do que Maria podia acreditar, perdendo apenas quatro no processo. Eu estava na ponta da margem de vitória.
—E nós éramos todos bem treinados. Nós fizemos isso sem atrair atenção. Naquele primeiro ano, ela estendeu seu controle pra controlar a maior parte do Texas e do norte do México. Então os outros vieram do Sul pra enfrentar ela.—
Ele passou dois dedos nas fracas marcas das cicatrizes no braço dele.
—A luta foi intensa. Muitos começaram a se preocupar que os Volturi fossem voltar. Dos vinte e três originais, eu fui o único a sobreviver nos primeiros oito meses. Nós tanto perdemos quanto vencemos. Eventualmente Nettie e Lucy se viraram contra Maria - mas essa nós vencemos.
—Maria e eu fomos capazes de segurar Monterrey. As coisas de acalmaram um pouco, apesar das guerras continuarem. A ideia de conquista estava morrendo; agora a maioria era por vingança e por terras. Muitos deles haviam perdido seus parceiros, e isso é uma coisa que a nossa espécie não perdoa.
—Maria e eu sempre mantínhamos cerca de doze recém-nascidos prontos. Eles significavam pouco pra nós - eles eram moeda de troca, eram descartáveis. Quando eles não eram mais úteis, nós mesmos nos livrávamos deles. A minha vida continuou o mesmo padrão violento e o ano se passou. Eu já estava de saco cheio de tudo muito antes das coisas mudarem...
—Décadas depois, eu desenvolvi uma amizade com um recém-nascido que continuou sendo útil e sobreviveu aos seus três primeiros anos, apesar das chances.—
—O nome dele era Peter. Eu gostava de Peter; ele era... civilizado - eu acho que essa é a palavra correta. Ele não gostava de lutar, apesar de ser bom nisso.
—Ele foi encarregado de lidar com os recém-nascidos - ser babá deles, pode-se dizer. Era um trabalho de tempo integral.
—E aí era hora de fazer uma limpeza de novo. Os recém-nascidos iam perdendo a força; eles precisavam ser repostos. Era pra Peter me ajudar com isso. Nós cuidávamos deles individualmente, entende, um por um... Era sempre uma noite muito longa. Dessa vez, ele tentou me convencer de que alguns tinham potencial, mas Maria havia me dado instruções pra me livrar deles. Eu disse não a ele.
—Nós estávamos quase na metade, e eu podia sentir que isso estava exigindo uma grande carga de Peter. Eu estava decidindo se eu devia ou não mandá-lo embora e acabar com tudo sozinho enquanto eu chamava a próxima vítima. Pra minha surpresa, ele ficou com raiva de repente, furioso. Eu suportei o que quer que fosse que o humor dele queria dizer - ele era um bom lutador, mas não era páreo pra mim.
—O recém-nascido que eu havia chamado era uma fêmea, que havia acabado de completar um ano. O nome dela era Charlotte. Os sentimentos dele mudaram quando ela apareceu; eles o traíram. Ele gritou pra que ela corresse, e ele mesmo correu atrás dela. Eu podia ter perseguido eles, mas não persegui. Eu senti... aversão a destruí-lo.
—Maria ficou irritada comigo por isso.
—Cinco anos depois, Peter voltou pra me ver. Ele escolheu um bom dia pra aparecer.
—Ela estava confusa com o meu humor já deteriorado. Ela nunca sentia uma depressão momentânea, e eu me perguntei porque eu era diferente. Eu comecei a notar a diferença nas emoções dela quando ela estava perto de mim - as vezes ela ficava com medo... e com malícia. Eu estava me preparando pra destruir a minha única aliada, a semente da minha existência, quando Peter retornou.
—Peter me contou sobre sua nova vida com Charlotte, me contou sobre opções que eu nunca sonhei que tivesse.—
—Em cinco anos, eles nunca tiveram uma briga, apesar deles haverem conhecido muitos outros no norte. Outros que podiam co-existir sem viverem em um caos constante.
—Em uma conversa, ele convenceu. Eu estava pronto pra ir embora, e um pouco aliviado por não ter que matar Maria. Eu fui companheiro dela por tantos anos quanto Carlisle e Esme estiveram juntos, e mesmo assim, o laço entre nós nem de perto era tão forte quanto o deles. Quando você vive para a luta, para o sangue, os relacionamentos que você forma são tenazes e facilmente quebrados. Eu fui embora sem olhar pra trás.
—Eu viajei com Peter e Charlotte por alguns anos, tento uma sensação desse mundo novo, mas pacífico. Mas a depressão não foi embora. Eu não entendia o que havia de errado comigo, até que Peter começou a reparar que eu sempre ficava pior depois de caçar.
—Eu pensei nisso. Em tantos anos de matança e carnagem, eu havia perdido praticamente toda a minha humanidade. Eu era um inegavelmente um pesadelo, um monstro do tipo mais odiável. Toda vez que eu encontrava outra vítima humana, eu sentia uma leve pontada de semelhança com aquela outra vida. Observando os olhos delas se abrirem impressionados com a minha beleza, eu me lembrava de Maria e as outras em minha cabeça, o que elas haviam parecido pra mim na última noite em que eu fui Jasper Withlock. Era mais forte pra mim - essa memória emprestada - do que era para os outros, porque eu podia sentir tudo o que a minha presa estava sentindo. E eu vivia as emoções deles enquanto os estava matando.
—Você já experimentou a forma como eu consigo manipular as emoções ao meu redor, Bella, mas eu me perguntou se você se já imaginou o quanto as emoções de uma sala me afetam. Eu vivo todos os dias em uma variação de emoções. Pelo primeiro século de minha vida, eu vivi num mundo de vingança sanguenta. Ódio era o meu companheiro constante. Isso se acalmou um pouco quando eu deixei Maria, mas eu ainda sentia o horror e o medo da minha presa—.
—Isso começou a ser demais.
—A depressão ficou pior, e eu me afastei de Peter e Charlotte. Mesmo civilizados como eles eram, eles não sentiam a mesma aversão que eu começava a sentir. Eles só queriam paz das lutas. Eu estava cansado de matar - matar qualquer um, até meros humanos.
—E mesmo assim eu tinha que continuar matando. Que escolha eu tinha? Eu tentei matar com menos frequência, mas aí eu ficava com muita sede e desistia. Depois de um século de gratificação instantânea, eu achava a auto-disciplina... desafiadora. Eu ainda não havia aperfeiçoado isso.—
Jasper estava perdido na história, assim como eu. Eu fiquei surpresa quando sua expressão desolada se suavizou em um sorriso pacífico.
—Eu estava na Filadélfia. Houve uma tempestade, e eu havia saído durante o dia - coisa com a qual eu ainda não estava completamente confortável. Eu sabia que ficar de pé na chuva ia chamar a atenção, então eu entrei numa lanchonete meio vazia. Os meus olhos estavam escuros o suficiente pra ninguém reparar neles, apesar disso significar que eu estava com sede, e isso me preocupou um pouco.
—Ela estava lá - me esperando, naturalmente—. Ele gargalhou uma vez. —Ela pulou do banco alto no balcão assim que eu entrei e veio andando diretamente em minha direção.
—Isso me chocou. Eu não tinha certeza se ela queria atacar. Essa é a única interpretação de comportamento dela que o meu passado tem a oferecer. Mas ela estava sorrindo. E as emoções que emanavam dela eram uma coisa que eu nunca havia sentido antes.
—Você me deixou esperando por muito tempo', ela disse—
Eu não tinha me dado conta de que Alice tinha vindo ficar de pé atrás de mim novamente.
—E você abaixou a cabeça, como um bom cavalheiro do Sul, e disse 'Eu lamento, madame— Alice riu com a memória.
Jasper sorriu pra ela. —Você levantou a mão, e eu a peguei sem me dar conta do que estava fazendo. Pela primeira vez em um século, eu senti esperança—.
Jasper pegou as mãos de Alice enquanto falava.
Alice deu um sorriso largo. —Eu estava aliviada. Eu pensei que você não fosse aparecer nunca—.
Eles sorriram um pro outro por algum tempo, e aí Jasper olhou de volta pra mim, ainda com a expressão suave.
—Alice me disse que tinha visto sobre Carlisle e a família dele. Eu mal podia acreditar que um experiência assim fosse possível. Mas Alice me fez otimista. Então nós fomos encontrá-los—.
—E matar eles de susto também—, Edward disse, revirando os olhos pra Jasper antes de se virar pra mim e explicar. —Emmett e eu estávamos fora caçando. Jasper aparece, coberto de marcas de batalhas, acompanhando essa estranha pequena— - ele cutucou Alice de brincadeira - —que se refere a todo mundo pelo nome, sabe tudo sobre eles, e quer saber em que quarto ela vai ficar—.
Alice e Jasper riram em harmonia, soprano e baixo.
—Quando eu voltei pra casa, todas as minhas coisas estavam na garagem—, Edward continuou.
Alice levantou os ombros. —O seu quarto tinha a melhor vista—.
Agora todos eles riram juntos.
—Essa é uma história legal—, eu disse.
Três pares de olhos questionaram a minha sanidade.
—Eu estou falando da última parte—, eu me defendi. —O final feliz com Alice—.
—Alice fez toda a diferença—, Jasper concordou. —Esse é um clima que eu gosto—.
Mas a pausa momentânea no estresse não podia durar muito.
—Um exército—, Alice disse. —Porque você não me contou?—
Os outros estavam atentos de novo, os olhos deles presos no rosto de Jasper.
—Eu pensei que pudesse estar interpretando os sinais incorretamente. Porque, qual é o motivo? Porque alguém criaria um exército em Seattle? Não existe história lá, nada de vinganças. Uma disputa por um lugar de destaque também não faz sentido. Os nômades passam por lá, mas não há ninguém pra lutar por isso. Não há ninguém pra defender isso.
—Mas eu já vi isso antes, e não existe outra explicação. Há um exército de vampiros recém-nascidos em Seattle. Pouco menos de vinte, eu acho. A parte difícil é que eles estão completamente destreinados.—
—Quem quer que os tenha criado deixou eles soltos. Isso só vai piorar, e não vai demorar muito até os Volturi intervirem. Na verdade, eu estou surpreso por estar demorando tanto—.
—O que podemos fazer?— Carlisle perguntou.
—Se nós queremos evitar o envolvimento dos Volturi, nós vamos ter que destruir os recém-nascidos, e nós vamos ter que fazer isso em breve—. O rosto de Jasper estava duro. Agora que eu conhecia a história dele, eu podia entender o quanto essa avaliação perturbava ele. —Eu posso ensinar vocês agora. Não vai ser fácil na cidade. Os jovens não estão preocupados em manter segredo, mas nós temos que estar. Isso vai nos deixar limitados de formas que eles não estão. Talvez possamos atraí-los—.
—Talvez nós não tenhamos que fazer isso— a voz de Edward estava vazia. —Já ocorreu a alguém que o único motivo pra se montar um exército nessa área... somos nós?—
Os olhos de Jasper estreitaram, os de Carlisle se abriram, chocados.
—A família de Tanya também está por perto—, Esme disse, sem querer aceitar as palavras de Edward.
—Os recém-nascidos não iam querer tomar um Ancoradouro, Esme. Eu acho que devemos considerar a ideia de que nós somos os alvos—.
—Eles não estão vindo atrás de nós,— Alice insistiu, e depois pausou. —Oh... eles não sabem que estão. Ainda não—.
—O que é isso?— Edward perguntou, curioso e tenso. —O que é isso que você está lembrando?—
—Vestígios—, Alice disse. —Eu não consigo ver uma imagem clara quando eu tento ver o que está acontecendo, nada concreto. Mas eu estou tendo esse flashes estranhos. Não é o suficiente pra entender o sentido deles. É como se alguém ficasse mudando de ideia, movendo de um curso de ação pra outro tão rapidamente que eu nem consigo ter uma boa imagem...—
—Indecisão?— Jasper perguntou sem acreditar.
—Eu não sei...—
—Não é indecisão—, Edward rosnou. —Conhecimento. Alguém sabe que você não consegue ter uma visão até que uma decisão seja tomada. Alguém está se escondendo de nós. Brincando com os buracos das suas visões—.
—Quem saberia disso?— Alice suspirou.
Os olhos de Edward estavam duros como gelo. —Aro sabe tanto sobre você quanto você própria—.
—Mas eu teria visto se eles decidissem vir...—
—A não ser que eles não quisesse sujar as mãos—.
—Um favor—, Rosalie sugeriu, falando pela primeira vez. —Alguém do Sul... alguém que já tenha tido problemas com as regras. Alguém já devia ter sido destruído e a quem uma segunda chance foi oferecida - se eles cuidarem desse pequeno probleminha... isso explicaria a resposta lenta dos Volturi—
—Porque?—, Carlisle perguntou, ainda chocado. —Não há motivo pra os Volturi -—
—Há sim— Edward discordou rapidamente. —Eu estou surpreso por isso ter vindo tão cedo, porque os outros pensamentos eram mais fortes. Na cabeça de Aro, ele me via em um dos seus lados e Alice no outro. O presente e o futuro, como se fossem um só. O poder da ideia intoxicou ele. Eu teria imaginado que ele levaria muito mais tempo pra desistir daquele plano - ele o queria demais. Mas aí havia o pensamento em você, Carlisle, na nossa família, crescendo e ficando mais forte. A inveja e o medo: você tendo... não mais do que o que ele tinha, mas ainda assim, coisas que ele queria. Ele tentou não pensar nisso, mas não conseguiu esconder completamente. A ideia de eliminar a competição já estava lá; além da deles, o nosso grupo é o maior que eles já encontraram...—
Eu olhei horrorizada para o rosto dele. Ele não havia me contado nada disso, mas eu acho que sabia o porque. Eu podia ver isso na minha cabeça agora, o sonho de Aro.
Edward e Alice em robes pretos, esvoaçantes, andando ao lado de Aro, seus olhos frios e vermelhos cor de sangue...
Carlisle interrompeu o meu pesadelo da vida real. —Eles estão comprometidos demais com sua missão. Eles jamais quebrariam as regras. Isso vai contra tudo o que eles trabalharam—.
—Eles vão limpar tudo depois. Uma traição dupla—, Edward disse com uma voz mal humorada. —Nenhum prejuízo—.
Jasper se inclinou pra frente, balançando a cabeça.
—Não, Carlisle está certo. Os Volturi não quebram as regras. Além do mais, é muito descuidado. Essa pessoa... essa ameaça - eles não tinham ideia do que estavam fazendo. É um iniciante, eu posso jurar. Eu não posso acreditar que os Volturi estejam envolvidos. Mas eles vão estar—
Eles encararam uns aos outros, congelados pelo estresse.
—Vamos lá—, Emmett quase rugiu. —O que estamos esperando?—
Carlisle e Edward trocaram um longo olhar. Edward balançou a cabeça.
—Nós vamos precisar que você nos ensine, Jasper—, Carlisle disse finalmente. —Como destruí-los—, a mandíbula de Carlisle estava dura, mas eu podia ver a dor nos olhos dele enquanto ele dizia as palavras. Ninguém odiava violência mais que Carlisle.
Haviam alguma coisa me incomodando, mas eu não conseguia identificar. Eu estava entorpecida, aterrorizada, mortalmente assustada. E mesmo assim, por baixo disso, eu podia sentir que estava esquecendo algo importante. Alguma coisa que fizesse sentido nesse caos. Que o explicaria.
—Nós vamos precisar de ajuda—, Jasper disso. —Você acha que Tanya e sua família estão a fim...? Outros cinco vampiros maduros fariam uma enorme diferença. E Kate e Eleazar seria enormemente vantajosos para o nosso lado. Seria quase fácil, com a ajuda deles—.
—Eu vou perguntar—, Carlisle disse.
Jasper levantou um celular. —Precisamos nos apressar—.
Eu nunca vi a calma inata de Carlisle tão abalada. Ele pegou o telefone, e caminhou na direção das janelas. Ele discou um número, segurou o telefone em seu ouvido, e apoiou a outra mão no vidro. Ele olhou para a névoa da manhã com uma expressão magoada e ambivalente.
Edward pegou a minha mão e me puxou pra o sofá com ele. Eu sentei ao lado dele, olhando para o rosto dele enquanto ele olhava pra Carlisle.
A voz de Carlisle estava baixa e rápida, difícil de ouvir. Eu ouvi ele saudar Tanya, e aí ele passou a situação rápido demais pra que eu pudesse entender, apesar de eu entender que os vampiros do Alaska não eram ignorantes ao que estava acontecendo em Seattle.
Alguma coisa mudou na voz de Carlisle.
—Oh—, ele disse, a voz dele estava mais ríspida com a surpresa. —Nós não havíamos nos dado conta... que Irina se sentia assim—.
Edward rosnou ao meu lado e fechou os olhos. —Maldição. Que Laurent seja amaldiçoado às profundezas do inferno onde ele pertence—.
—Laurent—, eu sussurrei, o sangue escapando do meu rosto, mas Edward não respondeu, concentrado nos pensamentos de Carlisle.
O meu curto encontro com Laurent no início da primavera não havia sido uma coisa que saiu ou ficou esquecida na minha cabeça. Eu ainda me lembrava de cada palavra que ele havia dito antes de Jacob e seu bando interromper.

Na verdade eu venho aqui como um favor pra ela.

Victoria. Laurent foi a primeira manobra que ela fez - ela o mandou pra observar, pra ver quão difícil seria me pegar. Ele não sobreviveu aos lobos pra contar a história.
Apesar de ter mantido seu velho laço com Victoria depois da morte de James, ele também havia formado novos vínculos e relacionamentos. Ele foi viver com Tanyia e sua família no Alaska - Tanya, a loira morango - os amigos mais próximos dos Cullen no mundo dos vampiros, praticamente uma extensão da família. Laurent esteve com eles por quase um ano antes de sua morte.
Carlisle estava falando, sua voz não estava exatamente passiva. Persuasiva, talvez, mas com um tom.
—Não há dúvida disso—, Carlisle disse numa voz externada. —Nós temos um acordo. Eles não o quebraram e nós também não iremos. Eu lamento ouvir isso... É claro. Teremos que fazer o melhor sozinhos—.
Carlisle fechou o telefone sem esperar a resposta. Ele continuou a olhar para a névoa.
—Qual é o problema?— Emmett murmurou pra Edward.
—Irina esteve mais envolvida com o nosso amigo Laurent do que pensávamos. Ela está com rancor dos lobos por terem destruído ele pra salvar Bella. Ela quer -— Ele pausou, olhando pra mim.
—Vá em frente— eu disse tão uniformemente quanto pude.
Os olhos dele se apertaram. —Ela quer vingança. Destruir o bando. Eles trocariam sua ajuda pela nossa permissão—.
—Não!—, eu ofeguei.
—Não se preocupe—, ele disse com uma voz vazia. —Carlisle jamais concordaria com isso—. Ele hesitou, e depois suspirou. —E nem eu. Laurent sabia que isso aconteceria—- isso era quase um rosnado - —e eu ainda devo aos lobos por aquilo—.
—Isso não é bom—, Jasper disse. —É uma luta apertada demais. Nós teríamos uma vantagem com habilidades, mas não em número. Nós venceríamos, mas a que preço?—
Os olhos dele passaram pro rosto de Alice e depois se desviaram.
Eu quis gritar alto quando eu entendi o que Jasper queria dizer.
Nós venceríamos, mas perderíamos. Alguém não ia sobreviver.
Eu olhei ao redor da sala para os rostos deles - Jasper, Alice, Emmett, Rose, Esme, Carlisle... Edward - os rostos da minha família.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!