28 de setembro de 2015

Capítulo 13 - Ainda bem que eu tenho estômago forte

Carlisle e Rosalie saíram num piscar de olhos, disparando escada acima. Eu podia ouvi-los discutindo se deviam aquecê-lo para ela. Eca. Imaginei quais itens de filme de terror eles deviam guardar por ali. Geladeira abastecida de sangue, O.K. O que mais? Câmara de tortura? Um quarto com caixões?
Edward ficou, segurando a mão de Bella. Seu rosto estava morto de novo. Ele parecia não ter energia para manter nem mesmo aquela centelha de esperança de antes. Eles se entreolharam, mas não de forma melosa. Era como se estivessem conversando. Isso me faz lembrar de Sam e Emily.
Não, não era meloso, mas aquilo só tornava a cena mais difícil de ver.
Sabia o que era para Leah ter de ver aquilo o tempo todo. Ter de ouvi-lo na mente de Sam. É claro que todos nós nos sentíamos mal por ela, não éramos monstros – nesse sentido, pelo menos. Mas acho que a culpávamos pelo modo como lidava com a situação. Flagelando todos, tentando nos deixar tão infelizes quanto ela estava.
Eu nunca mais a culparia. Como alguém poderia evitar espalhar esse tipo de infelicidade? Como alguém poderia não tentar aliviar parte do fardo jogando um pedacinho dele nas costas dos outros?
E se isso me forçou a ter uma matilha, como eu poderia culpá-la por tirar minha liberdade? Eu faria a mesma coisa. Se houvesse uma forma de escapar dessa dor, eu também faria.
Rosalie disparou escada abaixo depois de um segundo, atravessando a sala como uma brisa leve, levantando no ar o cheiro acre. Ela parou na cozinha, ouvi o som de uma porta de armário.
— Transparente não, Rosalie — murmurou Edward. E revirou os olhos.
Bella parecia curiosa, mas Edward limitou-se a sacudir a cabeça para ela. Rosalie voou de volta pela sala e desapareceu novamente.
— Essa ideia foi sua? — sussurrou Bella, a voz soando rouca enquanto ela fazia força para torná-la alta o suficiente para que eu ouvisse. Esquecendo-se de que eu podia muito bem ouvir.
Eu até que gostava do modo como, maior parte do tempo, ela parecia esquecer que eu não era completamente humano. Eu me aproximei, para que ela não tivesse de se esforçar tanto.
— Não me culpe por isso. Seu vampiro só pescou uns comentários indiscretos em minha cabeça.
Ela sorriu um pouco.
— Eu não esperava vê-lo de novo.
— É, nem eu — eu disse.
Sentia-me estranho de pé ali, mas os vampiros haviam tirado toda a mobília do caminho para instalar o equipamento médico. Imaginei que não tinham se incomodado com isso – ficar sentado ou de pé não faz diferença quando se é de pedra. Não teria me incomodado também, se eu não estivesse tão exausto.
— Edward me disse o que você precisou fazer. Sinto muito.
— Está tudo bem. Provavelmente, era só uma questão de tempo até que eu desobedecesse a alguma coisa que Sam me ordenasse — menti.
— E Seth — sussurrou ela.
— Ele, na verdade, está feliz em ajudar.
— Odeio causar problemas a vocês.
Eu ri – mais um latido que uma risada. Ela soltou um suspiro fraco.
— Acho que isso não é nenhuma novidade, não é?
— Não mesmo.
— Não precisa ficar e ver isso — disse ela, mal sussurrando as palavras.
Eu poderia ir embora. Essa era, provavelmente, uma boa ideia. Mas se fosse, do jeito que Bella estava naquele momento, eu poderia perder os últimos quinze minutos de sua vida.
— Não tenho mesmo para onde ir — disse a ela, tentando afastar da voz a emoção. — Essa coisa de lobo ficou bem menos atraente desde que Leah se juntou a nós.
— Leah? — ela arfou.
— Não contou a ela? — perguntei a Edward.
Ele se limitou a dar de ombros, sem tirar os olhos do rosto de Bella. Pude perceber que a notícia não era grande coisa para ele, nada que ele fosse se dar ao trabalho de comentar, diante dos acontecimentos mais importantes que estavam se desenrolando.
Bella não encarou aquilo tão despreocupadamente. Parecia que, para ela, era uma notícia ruim.
— Por quê? — ela sussurrou.
Eu não queria contar aquela longa história.
— Para ficar de olho em Seth.
— Mas Leah nos odeia — sussurrou ela.
— Nós. Que ótimo!
Mas pude ver que ela estava com medo.
— Leah não vai incomodar ninguém. — A não ser a mim. — Ela é da minha matilha — fiz uma careta com estas palavras — então segue minha liderança. — Argh.
Bella não pareceu convencida.
— Você tem medo de Leah, mas está a melhor amiga daquela loura psicopata.
Ouviu-se um silvo baixo vindo do segundo andar. Legal, ela me ouvira.
Bella fechou a cara para mim.
— Não diga isso. Rose... entende.
— É — grunhi. — Ela entende que você vai morrer e não se importa, desde que tenha o filhote mutante em troca.
— Pare de ser tão idiota, Jacob — ela sussurrou.
Ela parecia tão fraca que não dava para eu ficar zangado. Tentei sorrir, então.
— Você fala como se isso fosse possível.
Bella tentou por um segundo não devolver o sorriso, mas no fim não conseguiu; seus lábios ressecados se repuxaram nos cantos.
E então Carlisle e a psicopata em questão chegaram. Carlisle estava com um copo de plástico branco na mão – do tipo com tampa e um canudo torto. Ah! “transparente não”, agora eu entendia. Edward não queria que Bella tivesse de pensar mais que o necessário no que iria fazer. Não dava para ver o que estava no copo. Mas eu podia sentir o cheiro.
Carlisle hesitou, a mão com o copo meio estendida. Bella olhou aquilo, parecendo assustada de novo.
— Podemos tentar outro método — disse Carlisle em voz baixa.
— Não — sussurrou Bella. — Não, vou tentar assim primeiro. Não temos tempo...
De início pensei que ela por fim tivesse entendido a dica e estivesse preocupada consigo mesma, mas depois sua mão ondeou debilmente contra sua barriga, ela estendeu o braço e pegou o copo. A mão tremia um pouco, e pude ouvir o som do líquido dentro do copo. Ela tentou se apoiar em um cotovelo, mas mal conseguiu erguer a cabeça. Um calor desceu por minha espinha quando vi o quanto Bella havia enfraquecido em menos de um dia.
Rosalie pôs o braço atrás dos ombros de Bella, apoiando a cabeça também, como se faz com um recém-nascido. A Loura era toda bebês.
— Obrigada — sussurrou Bella.
Seus olhos correram por todos nós. Ainda bastante consciente para se sentir constrangida. Se não estivesse tão esgotada, aposto que teria corado.
— Não ligue para eles — murmurou Rosalie.
Isso fez eu me sentir inadequado. Eu devia ter ido embora quando Bella me deu a chance. Aquele não era meu lugar, eu não fazia parte daquilo. Pensei em dar o fora, mas percebi que uma atitude dessas só faria Bella se sentir pior – tornaria mais difícil para ela enfrentar aquilo. Ela imaginaria que eu estava enojado demais para ficar. O que era quase verdade.
Ainda assim... Embora eu não reivindicasse a responsabilidade daquela ideia, também não queria que desse errado.
Bella levou o copo até o rosto e cheirou a ponta do canudo. Ela se encolheu e, então, fez uma careta.
— Bella, meu amor, podemos encontrar uma maneira mais fácil — disse Edward, estendendo a mão para o copo.
— Tape o nariz — sugeriu Rosalie.
Ela olhou para a mão de Edward como se fosse mordê-la. Eu queria que ela fizesse isso. Aposto que Edward não aceitaria isso quieto, e eu adoraria ver a Loura perder um braço.
— Não, não é isso. É só que... — Bella respirou fundo. — O cheiro é bom — ela admitiu numa voz fininha.
Engoli em seco, lutando para não deixar transparecer minha repulsa.
— Isso é bom — disse Rosalie, ansiosa. — Significa que estamos no caminho certo. Experimente.
Dada a expressão da Loura, fiquei surpreso com que ela não tivesse começado alguma “dança da vitória”. Bella colocou o canudo entre os lábios, fechou os olhos com força e franziu o nariz. Eu podia ouvir o sangue balançando no copo em sua mão trêmula. Ela bebericou por um segundo e gemeu baixinho, com os olhos ainda fechados.
Edward e eu nos aproximamos ao mesmo tempo. Ele tocou seu rosto. Eu cruzei as mãos, nas costas.
— Bella, meu amor...
— Estou bem — sussurrou ela, abrindo os olhos e fitando-o. Sua expressão era... de quem se desculpava. Suplicante. Assustada. — O gosto é bom também.
O ácido se agitou em meu estômago, ameaçando transbordar. Trinquei os dentes.
— Isso é bom — repetiu a Loura, ainda empolgada. — Um bom sinal.
Edward colocou a mão no rosto de Bella, os dedos curvados em torno de seus ossos frágeis.
Bella suspirou e pôs os lábios no canudo de novo. Dessa vez, tomou um bom gole. O movimento não foi fraco como era tudo mais nela. Como se algum instinto estivesse assumindo o controle.
— Como está seu estômago? Sente-se enjoada? — perguntou Carlisle.
Bella sacudiu a cabeça.
— Não, não estou enjoada — ela sussurrou. — Isso é novidade, certo?
Rosalie estava radiante.
— Excelente.
— Acho que é um pouco cedo para isso, Rose — murmurou Carlisle.
Bella tomou mais um gole de sangue. Depois olhou para Edward.
— Isso vai prejudicar meu total? — sussurrou ela. — Ou vamos começar a contar depois de eu ser vampira?
— Ninguém está contando, Bella. De qualquer forma, ninguém morreu para isso — ele deu seu sorriso sem vida. — Sua ficha ainda está limpa.
Eles estavam me deixando confuso.
— Eu explico depois — disse Edward, tão baixo que as palavras eram só um sussurro.
— O quê? — murmurou Bella.
— Só estou falando sozinho — mentiu ele, tranquilamente.
Se aquilo desse certo, se Bella sobrevivesse, Edward não conseguiria mais se safar tão facilmente quando os sentidos dela fossem aguçados como os dele. Teria que melhorar nessa coisa de honestidade.
Os lábios de Edward se retorceram, reprimindo um sorriso.
Bella bebeu mais um pouco, olhando além de nós, pela janela. Provavelmente fingindo que não estávamos ali. Ou talvez apenas eu. Ninguém mais naquele grupo ficaria enojado com o que ela estava fazendo. Ao contrário – eles deviam achar difícil não arrancar o copo das mãos dela.
Edward revirou os olhos.
Meu Deus, como alguém suporta viver com ele? Era mesmo péssimo que ele não ouvisse os pensamentos de Bella. Assim, ele também a deixaria louca de irritação e ela se cansaria dele.
Edward riu. Os olhos de Bella imediatamente dispararam até ele, e ela deu um leve sorriso ao ver a alegria em seu rosto. Imaginei que fosse algo que não via fazia algum tempo.
— Alguma coisa engraçada? — ela murmurou.
— Jacob — respondeu ele.
Ela olhou para mim com outro sorriso fraco.
— Jake é um piadista — concordou ela.
Que ótimo, agora eu era o bobo da corte.
— Prum pum! — murmurei, numa fraca imitação de um rufar de tambores.
Ela sorriu de novo, depois tomou outro gole do copo. Eu me encolhi quando o canudo sugou o vazio, produzindo um chiado alto.
— Consegui — disse ela, parecendo satisfeita. A voz era clara. Ainda estava rouca, mas pela primeira vez naquele dia não era um sussurro. — Se eu conseguir manter isso no estômago, Carlisle, você vai tirar essas agulhas de mim?
— Assim que for possível — prometeu ele. — Sinceramente, elas não estão adiantando muita coisa aí.
Rosalie afagou a testa de Bella, e elas trocaram um olhar esperançoso.
E qualquer um podia ver – o copo cheio de sangue humano fizera diferença imediatamente. A cor de Bella voltava – havia uma leve incidência de rosa nas bochechas de cera. Ela já não parecia precisar tanto de que Rosalie a apoiasse. Respirava com mais facilidade, e eu podia jurar que seus batimentos cardíacos estavam mais fortes, mais regulares.
Tudo se acelerou.
O fantasma de esperança nos olhos de Edward se transformou em algo real.
— Quer mais? — incentivou Rosalie.
Os ombros de Bella arriaram.
Edward fuzilou Rosalie com o olhar antes de falar com Bella.
— Não precisa beber mais agora.
— É, eu sei. Mas... eu quero — admitiu ela, melancólica.
Rosalie passou os dedos finos e pontudos pelos cabelos lisos de Bella.
— Não precisa ficar constrangida, Bella. Seu corpo tem desejos. Todos entendemos isso. — Seu tom era tranquilizador, a princípio, mas depois ela acrescentou, com aspereza: — Quem não entende, não deveria estar aqui.
Aquilo era para mim, é claro, mas eu não deixaria a Loura me irritar. Estava feliz por Bella ter melhorado. E daí se o que foi feito me dava nojo? Eu nem tinha dito nada.
Carlisle tirou o copo da mão de Bella.
— Volto logo.
Bella me olhou enquanto ele desaparecia.
— Jake, você parece péssimo — disse ela.
— Olhe quem está falando.
— É sério... Quando foi a última vez que você dormiu?
Pensei naquilo por um segundo.
— Hummm. Não sei bem.
— Ai, Jake. Agora estou acabando com sua saúde também. Não seja idiota.
Trinquei os dentes. Ela podia se matar por causa de um monstro, mas eu não podia perder algumas noites de sono para vê-la fazendo aquilo?
— Vá descansar um pouco, por favor — continuou ela. — Há algumas camas lá em cima... Pode usar qualquer uma.
A expressão no rosto de Rosalie deixava claro que eu não era bem-vindo em uma delas. Fez com que eu me perguntasse para que é que a Bela insone precisava de uma cama. Será que ela era assim tão possessiva com seus objetos de cena?
— Obrigado, Bella, mas prefiro dormir no chão. Longe do fedor, sabe como é.
Ela fez uma careta.
— Tudo bem.
Carlisle voltou, e Bella estendeu a mão para o sangue, distraída, como se estivesse pensando em outra coisa. Com a mesma expressão, começou tomá-lo.
Ela realmente parecia melhor. Inclinou o corpo para a frente, tomando cuidado com os tubos, e se sentou. Rosalie a velava, as mãos prontas para segurá-la se ela vacilasse. Mas Bella não precisou. Respirando fundo entre um gole e outro, terminou o segundo copo rapidamente.
— Como se sente agora? — perguntou Carlisle.
— Não estou mal. Meio faminta... Só que não sei bem se estou com fome sede, entende?
— Carlisle, olhe para ela — murmurou Rosalie, tão satisfeita, que parecia gato que acabara de comer um canário. — É evidente que é isso o que o corpo dela quer. Deveria beber mais.
— Ela ainda é humana, Rosalie. Precisa de comida também. Vamos dar tempo para ver como isso a afeta, e talvez possamos tentar lhe dar comida de novo. Há algo em particular que lhe apeteça, Bella?
— Ovos — disse ela imediatamente, e então trocou um olhar e um sorriso com Edward.
O sorriso dele era superficial, mas em seu rosto havia mais vida do que antes. Eu pisquei e quase me esqueci de como se abria os olhos.
— Jacob — murmurou Edward. — Você deveria mesmo dormir. Como Bella disse, você é bem-vindo nas acomodações daqui, embora provavelmente vá ficar mais à vontade lá fora. Não se preocupe com nada... Prometo que o encontrarei se houver necessidade.
— Claro, claro — murmurei.
Agora que parecia que Bella tinha mais algumas horas, eu podia escapulir. Ir me enroscar debaixo de uma árvore em algum lugar... Longe o bastante para que o cheiro não me alcançasse. O sanguessuga me acordaria se alguma coisa saísse errado. Ele me devia essa.
— Devo, sim — concordou Edward.
Assenti e pus a mão na de Bella. Estava supergelada.
— Melhore — eu disse.
— Obrigada, Jacob. — Ela virou a mão e apertou a minha. Senti o arco fino de sua aliança frouxa no dedo esquálido.
— Pegue um cobertor ou algo assim para ela — murmurei ao me virar para a porta.
Antes que eu chegasse lá, dois uivos atravessaram o ar calmo da manhã. Não havia como confundir a urgência do tom. Dessa vez não era um mal-entendido.
— Que droga — rosnei, e disparei pela porta.
Eu me joguei da varanda, deixando que o fogo me dilacerasse em pleno ar. Ouvi o som do tecido se rasgando enquanto meu short se esfarrapava. Porcaria. Era a única roupa que eu tinha. Mas naquele momento não importava. Minhas patas pousaram na terra e parti para o oeste.
O que é?, gritei em minha mente.
Estão vindo, respondeu Seth. Pelo menos três.
Eles se dividiram?
Vou correr o perímetro de volta até Seth na velocidade da luz , prometeu Leah.
Eu podia sentir o ar zunindo por seus pulmões enquanto ela se impelia a uma velocidade incrível. A floresta disparada em torno dela.
Até agora, nenhum outro ponto de ataque. Seth, não os enfrente. Espere por mim.
Eles estão reduzindo o passo. Argh... É tão ruim não poder ouvi-los.
Acha o quê?
Acho que eles pararam.
Esperando pelo restante da matilha?
Shh! Sente isso?
Absorvi as impressões dele. Um tremor fraco e silencioso no ar.
Alguém está mudando de forma?
Parece que sim, concordou Seth.
Leah chegou voando no pequeno espaço aberto onde Seth esperava. Cravou as patas na terra, derrapando como um carro de corrida. Estou com você, mano.
Eles estão chegando, disse Seth, nervoso. Devagar. Andando.
Estou quase aí, eu lhes disse. Tentei voar como Leah. Era horrível estar longe de Seth e Leah, com o perigo em potencial mais perto deles que de mim. Era errado. Eu devia estar com eles, entre eles e o que estivesse se aproximando.
Olhe quem está todo paternal, pensou Leah, irônica.
Concentre-se, Leah.
Quatro, concluiu Seth. O garoto tinha boa audição. Três lobos, um homem.
Então cheguei à pequena clareira, e imediatamente me coloquei à frente deles. Seth suspirou de alívio, e então se endireitou, já em seu lugar junto a meu ombro direito. Leah veio para meu lado esquerdo com um pouco menos de entusiasmo.
Então agora estou abaixo de Seth, grunhiu para si mesma.
Quem chega primeiro, serve-se primeiro, pensou Seth, presunçoso. Além disso, você nunca foi a terceira do alfa. Ainda é um progresso.
Ficar abaixo de meu irmão mais novo não é progresso nenhum.
Shh!, reclamei. Não ligo para onde vocês fiquem. Calem a boca e preparem-se.
Eles apareceram alguns segundos depois, andando, como Seth pensara. Jared na frente, na forma humana, de mãos erguidas. Paul, Quil e Collin nas quatro patas, atrás dele. Não havia agressividade em sua atitude. Eles permaneceram atrás de Jared, de orelhas erguidas, atentos, mas calmos. Mas... era estranho que Sam enviasse Collin em vez de Embry. Eu não faria isso se estivesse mandando uma missão diplomática a território inimigo.
Eu não mandaria um garoto. Mandaria um lutador experiente.
Para nos distrair?, pensou Leah.
Sam, Embry e Brady estariam se aproximando sozinhos? Não parecia provável.
Quer que eu verifique? Posso correr o perímetro e voltar em dois minutos.
Devo alertar os Cullen?, perguntou-se Seth.
E se o objetivo for nos dividir?, perguntei. Os Cullen sabem que algo está acontecendo. Eles estão preparados.
Sam não seria tão idiota..., sussurrou Leah, o medo cortante em sua mente. Ela estava imaginando Sam atacando os Cullen com apenas outros dois a seu lado.
Não, ele não faria isso, garanti a ela, embora também sentisse certa náusea devido à imagem em sua cabeça.
Todo esse tempo, Jared e os três lobos nos fitavam, esperando. Era sinistro não ouvir o que Quil, Paul e Collin diziam uns aos outros. Suas expressões estavam vazias – indecifráveis.
Jared deu um pigarro e assentiu para mim.
— Bandeira branca de trégua, Jake. Viemos conversar.
Acha que é verdade?, perguntou Seth.
Faz sentido, mas...
É, concordou Leah. Mas.
Não relaxamos.
Jared franziu o cenho.
— Seria mais fácil conversar se eu também pudesse ouvir vocês.
Eu o olhei de cima para baixo. Não me transformaria antes de me sentir melhor com aquela situação. Até que fizesse sentido. Por que Collin? Essa a parte que mais me preocupava.
— Tudo bem. Então acho que só eu vou falar — disse Jared. — Jake, queremos que você volte.
Quil soltou um gemido suave atrás dele. Apoiando a declaração.
— Você separou nossa família. Não é assim que deve ser.
Eu não chegava a discordar, mas não era essa a questão. Naquele momento, havia algumas diferenças de opinião não resolvidas entre mim e Sam.
— Sabemos que a questão com os Cullen mexe... demais com você. Sabemos que é um problema. Mas essa é uma reação exagerada.
Seth grunhiu. Reação exagerada? E atacar nossos aliados sem aviso não é?
Seth, você já ouviu falar de “cara de paisagem”? Fique frio.
Desculpe-me.
Os olhos de Jared correram para Seth e de volta a mim.
— Sam está disposto a ir mais devagar nesse assunto, Jacob. Ele se acalmou, conversou com os anciãos. Eles decidiram que agora a ação imediata não é do interesse de ninguém.
Tradução: Eles já perderam o elemento surpresa, Leah pensou.
Era estranho que nosso pensamento conjunto fosse tão diferente. A matilha já era de Sam, já eram “eles” para nós. Algo de fora, estranho. Era especialmente esquisito ter Leah pensando dessa maneira – tê-la como parte genuína do “nós”.
— Billy e Sue concordam com você, Jacob, que podemos esperar que Bella... esteja fora do problema. Nenhum de nós está à vontade com a ideia de matá-la.
Embora tivesse acabado de dar uma bronca em Seth, eu mesmo não consegui reprimir um pequeno rosnado. Então eles não se sentiam exatamente à vontade com o assassinato, hein?
Jared ergueu as mãos de novo.
— Calma, Jake. Você sabe o que eu quis dizer. A questão é que vamos esperar e reavaliar a situação. Decidir mais tarde se há um problema com a... coisa.
, pensou Leah. Quanta bobagem! Você não engoliu? Sei o que eles estão pensando, Jake. O que Sam está pensando. Estão apostando na morte de Bella, de qualquer forma. E depois imaginam que você ficará tão louco...
Que eu mesmo irei liderar o ataque. Minhas orelhas se colaram ao crânio. O que Leah imaginava parecia fazer sentido. E era bastante possível também. Quando... se a coisa matasse Bella, seria fácil eu me esquecer como me sentia com relação à família de Carlisle. Eles provavelmente pareceriam outra vez inimigos para mim – nada mais que sanguessugas.
Eu vou lembrá-lo disso, sussurrou Seth.
Sei que vai, garoto. A questão é se vou ouvir você.
— Jake? — chamou Jared.
Bufei um suspiro.
Leah, dê uma volta – só por precaução. Vou ter de conversar com ele e quero ter certeza de que não há nada acontecendo enquanto eu estiver na outra forma.
Dá um tempo, Jacob. Pode mudar de forma na minha frente. Apesar de meus esforços, eu já vi você pelado – não é grande coisa, então não se preocupe.
Não estou tentando proteger a inocência de seus olhos. Estou tentando proteger nossa retaguarda. Saia daqui.
Leah bufou e se lançou para a floresta. Eu podia ouvir suas patas se enterrando no solo, impelindo-a mais rapidamente.
A nudez era parte inconveniente porém inevitável da vida na matilha. Ninguém achava nada demais antes de Leah aparecer. Então ficou estranho. Leah era mais ou menos controlada quando se tratava de seu gênio – ela demorou o tempo habitual até parar de explodir de dentro de suas roupas toda vez que ficava irritada. Todos nós vimos alguma coisa de relance. E não é que não valesse a pena olhar – o que não valia nada a pena era quando ela nos pegava pensando nisso depois.
Jared e os outros ficaram olhando com uma expressão preocupada o ponto onde ela desaparecera na mata.
— Aonde ela vai? — perguntou Jared.
Eu o ignorei, fechando os olhos e me recompondo. Era como se o ar ao meu redor tremesse, agitando-se em pequenas ondas ao me tocar. Eu me ergui sobre as pernas traseiras, num timing tão perfeito, que estava completamente ereto quando assumi a forma humana.
— Ah — disse Jared. — Oi, Jake. Obrigado por falar comigo.
— Queremos que você volte, cara.
Quil gemeu de novo.
— Não sei se é tão fácil, Jared.
— Venha para casa — disse ele, inclinando-se para a frente. Suplicante. — Podemos resolver isso. Seu lugar não é aqui. Deixe Seth e Leah virem também.
— Tá legal. Como se eu não estivesse implorando a eles que fizessem isso desde o primeiro momento.
Seth bufou atrás de mim. Jared avaliou isso; os olhos de novo cautelosos.
— E agora? O que vai acontecer?
Pensei por um minuto inteiro enquanto ele esperava.
— Não sei. Mas, de qualquer jeito, não tenho certeza de que as coisas possam simplesmente voltar ao normal, Jared. Não sei como funciona, mas não parece que posso entrar e sair desse negócio de alfa quando bem entender. Parece um tanto permanente.
— Você ainda nos pertence.
Ergui as sobrancelhas.
— Dois alfas não podem pertencer ao mesmo lugar, Jared. Lembra a que ponto chegamos ontem à noite? O instinto é competitivo demais.
— Então você simplesmente vai andar com os parasitas pelo resto de sua vida? — perguntou ele. — Você não tem um lar aqui. Já não tem mais roupas — observou ele. — Vai ficar lobo o tempo todo? Sabe que Leah não gosta de comer nessa forma.
— Leah pode fazer o que quiser quando tiver fome. Ela está aqui porque quer. Eu não vou dizer a ninguém o que fazer.
Jared suspirou.
— Sam lamenta pelo que fez com você.
Assenti.
— Minha raiva já passou.
— Mas...?
— Mas não vou voltar, não agora. Também vamos esperar e ver como a coisa se desenrola. E vamos cuidar dos Cullen pelo tempo que for necessário. Porque, apesar do que vocês pensam, não se trata só de Bella. Estamos protegendo aqueles que devem ser protegidos. E isso se aplica aos Cullen também. — Pelo menos a um bom número deles.
Seth ganiu suavemente, concordando. Jared franziu o cenho.
— Então parece que não há nada que eu possa dizer a você.
— Agora, não. Veremos como as coisas vão se desenrolar.
Jared virou-se para Seth, concentrando-se nele agora, afastando-se de mim.
— Sue me pediu que dissesse a você... não, que implorasse a você... que volte para casa. Ela está magoada, Seth. Muito sozinha. Não sei como você e Leah podem fazer isso com ela. Abandoná-la assim, quando seu pai acaba de morrer...
Seth choramingou.
— Calminha aí, Jared — alertei.
— Só estou dizendo a ele como as coisas estão.
Eu bufei.
— Sei.
Sue era mais durona que qualquer pessoa que eu conhecia. Mais que meu pai, mais que eu. Durona o bastante para tirar proveito da solidariedade dos filhos se isso fosse necessário para fazê-los voltar para casa. Mas não era justo manipular Seth daquele jeito.
— Há quantas horas Sue sabe sobre isso? E na maior parte desse tempo ficou com Billy, o Velho Quil e Sam? É, tenho certeza de que ela está morrendo de solidão. É claro que você é livre para ir, se quiser, Seth. Sabe disso.
Seth fungou.
Então, um segundo depois, ele inclinou uma orelha para o norte. Leah devia estar perto. Meu Deus, ela era rápida! O coração bateu duas vezes e Leah alcançou os arbustos a alguns metros. Ela trotou, parando diante de Seth. Manteve o focinho no alto, muito obviamente sem olhar na minha direção.
Eu agradeci por isso.
— Leah? — perguntou Jared.
Ela encontrou o olhar dele, o focinho recuando um pouco sobre os dentes. Jared não pareceu surpreso com a hostilidade dela.
— Leah, você sabe que não quer ficar aqui.
Ela rosnou para ele. Eu lancei um olhar de advertência que ela não viu. Seth gemeu e a cutucou com o ombro.
— Desculpe-me — disse Jared. — Acho que eu não devia fazer suposições. Mas você não tem nenhum vínculo com os sanguessugas.
Leah muito deliberadamente olhou para o irmão e depois para mim.
— Então quer cuidar de Seth, entendo isso — disse Jared. Seu olhos foram até meu rosto e voltaram ao dela. Provavelmente se questionando sobre aquele segundo olhar, assim como eu mesmo me questionava. — Mas Jake não vai deixar que nada aconteça a ele, e ele não tem medo de estar aqui. — Jared fez uma careta. — Seja como for, por favor, Leah, queremos que você volte. Sam quer que você volte.
O rabo de Leah se contorceu.
— Sam me disse que implorasse. Mandou que eu, literalmente, me ajoelhasse, se fosse preciso. Ele quer você em casa, Lee-Lee, onde é seu lugar.
Vi Leah se retrair quando Jared usou o antigo apelido de que Sam costumava chamá-la. E depois, quando ele acrescentou aquelas últimas palavras, pelo se eriçou e ela começou a resmungar uma longa onda de rosnados entredentes. Eu não precisava estar na cabeça dela para perceber os palavrões que dirigia a Jared, e ele também não. Quase dava para ouvir as palavra a usava.
Esperei até que ela acabasse.
— Agora vou ter que discordar e dizer que o lugar de Leah é onde ela quer estar.
Leah grunhiu, mas, como fuzilava Jared com os olhos, imaginei que concordasse.
— Olhe, Jared, ainda somos uma família, O.K.? Vamos superar essa disputa, mas até lá é melhor que vocês fiquem em suas terras. Para não haver mal-entendidos. Ninguém quer uma guerra em família, não é? Sam não que isso também, quer?
— É claro que não — rebateu Jared. — Vamos ficar em nossas terras. Mas onde é sua terra, Jacob? É a dos vampiros?
— Não, Jared. No momento estou sem teto. Mas não se preocupe... isso não vai durar para sempre. — Precisei respirar. — Não nos resta tanto... tempo. Está bem? Depois os Cullen possivelmente irão embora, e Seth e Leah voltarão para casa.
Leah e Seth gemeram juntos, os focinhos voltando-se para mim em sincronia.
— E você, Jake?
— Volto para a floresta, acho. Não posso ficar em La Push. Dois alfas representam muita tensão. Além disso, era para onde eu estava seguindo mesmo. Antes dessa confusão.
— E se precisarmos conversar? — perguntou Jared.
— Uivem... Mas cuidado com a fronteira, O.K.? Nós iremos até vocês. E Sam não precisa mandar tanta gente. Não estamos querendo briga.
Jared fechou a cara, mas concordou. Ele não gostou que eu impusesse condições a Sam.
— A gente se vê, Jake. Ou não. — Ele acenou, desanimado.
— Espere, Jared. Embry está bem?
A surpresa atravessou seu rosto.
— Embry? Claro, ele está bem. Por quê?
— Só estou me perguntando por que Sam mandou Collin.
Eu observei sua reação, ainda desconfiado de que houvesse algo por trás daquilo. Vi o lampejo de alguma coisa em seus olhos, mas não era bem o que eu estava esperando.
— Isso não é mais da sua conta, Jake.
— Acho que não. Só fiquei curioso.
Enxerguei um movimento pelo canto dos olhos, mas fingi não perceber, não queria denunciar Quil. Ele reagia ao assunto.
— Vou informar a Sam suas... instruções. Adeus, Jacob.
Suspirei.
— Certo. Adeus, Jared, e diga a meu pai que estou bem, sim? E que sinto muito e o amo.
— Vou passar o recado.
— Obrigado.
— Vamos, pessoal — disse Jared.
Ele nos deu as costas, saindo de nossas vistas para mudar de forma, por causa de Leah. Paul e Collin estavam bem atrás dele, mas Quil hesitou. Ele ganiu suavemente, e dei um passo em sua direção.
— É, sinto sua falta também, mano.
Quil correu até mim, a cabeça baixa, tristonho. Eu afaguei seu ombro.
— Vai ficar tudo bem.
Ele gemeu.
— Diga a Embry que sinto falta de ter vocês dois em meus flancos.
Ele assentiu e pôs o focinho em minha testa. Leah bufou. Quil ergueu o olhar, mas não para ela. Olhou sobre o ombro, para o caminho por onde os outros partiram.
— É, vá para casa — disse a ele.
Quil ganiu de novo e partiu atrás dos outros. Eu podia apostar que Jared não estava esperando muito pacientemente. Assim que ele se foi, puxei a quentura do centro de meu corpo e deixei que tomasse meus membros. Num lampejo de calor, eu tinha novamente quatro patas.
Pensei que fosse namorar o cara, zombou Leah.
Eu a ignorei.
Foi tudo bem?, perguntei a eles. Aquilo me preocupava, falar por eles daquela maneira, quando eu não podia ouvir o que estavam pensando exatamente, não queria pressupor nada. Não queria ser como Jared nesse aspecto. Disse alguma coisa que vocês não quisessem? Deixei de dizer algo que deveria?
Você foi ótimo, Jake!, Seth me animou.
Podia ter acertado Jared, pensou Leah. Eu não teria me importado com isso.
Acho que sabemos por que Embry não teve permissão para vir, pensou Seth.
Não entendi. Não teve permissão?
Jake, você não viu Quil? Ele está muito mal, não é? Aposto dez contra um que Embry está ainda mais aborrecido. E Embry não tem uma Claire. Quil não pode simplesmente sair de La Push. Embry poderia. Então Sam não vai arriscar que ele seja convencido a abandonar o barco. Ele não quer que nossa matilha fique ainda maior.
É mesmo? Acha isso? Duvido de que Embry fosse se importar de picotar alguns Cullen.
Mas ele é seu melhor amigo, Jake. Ele e Quil prefeririam ficar com você a enfrentá-lo numa briga.
Bom, então fico feliz que Sam o tenha deixado em casa. Essa matilha já está bem grande. Suspirei. Certo. Então, por ora estamos bem. Seth, importa-se de ficar de olho nas coisas por um tempo? Leah e eu precisamos dormir. Aquilo tudo pareceu sincero mas, quem sabe? Talvez fosse para nos distrair.
Eu não era sempre tão paranoico, mas me lembrei da sensação do comprometimento de Sam. Completamente focado em destruir o perigo que ele via. Será que ele tiraria proveito do fato de que agora podia mentir para nós?
Tudo bem! Seth estava ansioso demais por fazer tudo o que fosse possível. Quer que eu explique aos Cullen? Eles ainda devem estar um pouco tensos.
Eu faço isso. Quero dar uma olhada nas coisas, de qualquer modo.
Eles captaram as imagens que voaram por meu cérebro já frito.
Seth gemeu de surpresa. Ai.
Leah balançou a cabeça como se tentasse se livrar da imagem em sua mente. Essa é tranquilamente a coisa mais assustadoramente nojenta que já ouvi na minha vida. Eca. Se eu tivesse algo no estômago, já teria voltado.
Eles são vampiros, afinal, admitiu Seth depois de um minuto, compensando a reação de Leah. Quer dizer, faz sentido. E se isso ajuda Bella, então é bom, não é?
Leah e eu o encaramos.
O que foi?
Mamãe deixou Seth cair muitas vezes quando ele era bebê, Leah me disse.
De cabeça, aparentemente.
Ele também costumava roer as grades do berço.
Tinta com chumbo?
Parece que sim, ela pensou.
Seth bufou. Que engraçado. Por que vocês dois não calam a boca e dormem?

7 comentários:

  1. Leah tbm é engraçada, vou lendo e imaginando às cenas rsrs

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    1. Kkk eu quando li isso pensei c imaginou o cara pelado tbm??

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  2. #leah_melhor_personagem #amo #intifiquei

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  3. Tô rindo muito, imaginei o Jacob pelado e a Leah observando

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  4. Kkk ei eu imagino jacob bebendo sangue de leão da montanha #ele bebe sangue#

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  5. Morrendo aqui a Leah e suas piadinhas

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  6. Morrendo aqui a Leah e suas piadinhas

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