24 de setembro de 2015

Capítulo 12 - Invasão

Meus olhos se abriram com o medo, apesar de eu estar tão exausta e confusa, que eu nem tinha certeza se estava acordada ou dormindo.
Alguma coisa arranhou a minha janela de novo com o mesmo barulho alto, fino.
Confusa e lerda com o sono, eu me arrastei pra fora da cama e fui para a janela, piscando no caminho com as lágrimas que permaneceram nos meus olhos.
Uma enorme sombra escura se moveu erraticamente do lado de fora da minha janela, se lançando na minha direção como se fosse se jogar pra dentro. Eu me inclinei pra trás, aterrorizada, minha garganta se preparando pra gritar.
Victória.
Ela veio pra me pegar.
Eu estava morta.
Charlie também não!
Eu engoli o grito. Eu teria que me manter quieta ao passar por isso.
De alguma forma. Eu tinha que evitar que Charlie viesse investigar...
E aí uma voz familiar, rouca chamou vinda da figura escura.
— Bella — ele assobiou. — Ouch! Droga, abra a janela! OUCH!
Eu levei dois segundos pra me livrar do horror antes de conseguir me mexer, mas depois eu corri para a janela e abri o vidro. As nuvens deixavam uma luz fraca passar por entre elas, luz suficiente pra que eu pudesse identificar as formas.
— Mas o que é que você está fazendo? — eu asfixiei.
Jacob estava se pendurando cuidadosamente no topo da árvore que crescia no meio do pequeno quintal na frente da casa de Charlie.
O peso dele havia feito a árvore se curvar na direção da casa e agora ele estava se balançando - as suas pernas estavam se balançando a vinte metros do chão - a menos de um metro de mim.
Os galhos finos no topo da árvore arranharam o lado da casa de novo fazendo um barulho agudo.
— Eu estou tentando manter —  ele bufou, inclinando seu peso enquanto o topo da árvore balançava com ele  — minha promessa.
Eu pisquei com os meus olhos molhados e turvos, e de repente eu tinha certeza de que estava sonhando.
— Quando foi que você prometeu se matar caindo de uma árvore na frente da casa da Charlie?
Ele bufou, sem se divertir, balançando as pernas pra manter o equilíbrio.
— Saia do caminho — ele ordenou.
— Como é?
 Ele balançou as pernas de novo, pra frente e pra trás, aumentando o ritmo. Foi aí que eu me dei conta do que ele estava tentando fazer.
— Não, Jake!
Mas eu me desviei para o lado, porque já era tarde demais.
Com um grunhido, ele se lançou em direção a minha janela aberta.
Outro grito se construiu na minha garganta enquanto eu esperava que ele caísse para a morte - ou pelo menos que ele se machucasse quando caísse. Pra meu choque, ele se balançou agilmente pra dentro do meu quarto, aterrissando nos calcanhares com um estrondo baixo.
Nós dois olhamos para a porta automaticamente, segurando a respiração, esperando para ver se o barulho havia acordado Charlie.
Mais um breve momento se passou em silêncio, e depois nós ouvimos o som abafado do ronco de Charlie.
Um grande sorriso atravessou o rosto de Jacob; ele parecia extremamente agradado consigo mesmo. Aquele não era o sorriso que eu conhecia e amava - era um sorriso novo, um que era mais uma piada ácida da sua antiga sinceridade, no novo rosto que pertencia a Sam.
Isso era um pouco demais pra mim.
Eu chorei até dormir por causa desse garoto. A rejeição dura dele havia feito um novo buraco no que ainda restava do meu peito. Ele deixou um novo pesadelo pra trás dele, como uma infecção num inchaço - um insulto depois do ultraje. E agora ele estava aqui no meu quarto, sorrindo pra mim como se nada tivesse acontecido. Pior que isso, mesmo a chegada dele tendo sido estranha e barulhenta, ela me lembrou do jeito como Edward costumava se enfiar pela minha janela de noite, e essa lembrança cutucou maldosamente nas minhas feridas não curadas.
Tudo isso, acumulado ao fato de que eu estava cansada feito um cão, não me deixou com um humor muito amigável.
— Se manda! — eu assobiei, colocando tanto veneno no sussurro quanto pude.
Ele piscou, o rosto dele ficando apático com a surpresa.
— Não — ele protestou. — Eu vim pra me desculpar.
— Eu não aceito.
Eu tentei empurrá-lo de volta para a janela - afinal, se aquilo era um sonho, ele não ia se machucar. Porém, foi inútil. Eu não o movi nem um centímetro. Eu baixei as mãos rapidamente e me afastei dele.
Ele não estava usando uma camisa, apesar do vento que soprava pela janela ser frio o suficiente pra me fazer tremer, eu não me senti confortável colocando as minhas mãos no peito nu dele. A pele dele estava queimando de tão quente, como a sua cabeça estava da última vez que eu o toquei. Como se ele ainda estivesse com febre.
Ele não parecia doente. Ele parecia enorme. Ele se inclinou pra mim, tão grande que ele bloqueou a janela, com a língua presa pela minha reação furiosa.
De repente a coisa toda era mais do que eu podia aguentar - era como se todas as noites que eu fiquei sem dormir estivessem se jogando em cima de mim juntas. Eu estava tão brutalmente cansada que eu pensei que podia cair bem ali no chão. Eu balançava instável, e lutava pra manter meus olhos abertos.
— Bella? — Jacob sussurrou ansiosamente. Ele agarrou meu cotovelo quando eu balancei de novo, e me guiou de volta para a cama. Minhas pernas desistiram quando eu alcancei a beira, e eu me deixei cair com tudo no colchão.
— Ei, você tá bem? — Jacob perguntou, a preocupação começou a crescer no rosto dele.
Eu olhei pra ele, as lágrimas ainda não haviam secado nas minhas bochechas.
— Por que motivo eu estaria bem, Jacob?
A angústia foi substituída por um pouco de acidez no rosto dele.
— Certo — ele concordou, e respirou fundo. — Merda. Bem... Eu- Eu lamento muito, Bella — As desculpas foram sinceras, sem dúvida, apesar de ainda haverem algumas pontas de raiva espalhadas pelo rosto dele.
— Porque você veio aqui? Eu não quero desculpas de você, Jake.
— Eu sei — ele cochichou. — Mas eu não podia deixar as coisas do jeito que estavam essa tarde. Aquilo foi horrível. Me desculpe.
Eu balancei minha cabeça cautelosamente.
— Eu não entendo nada.
— Eu sei. Eu quero explicar — Ele parou de repente, quase como se alguma coisa tivesse cortado o ar dele. Então ele sugou o ar com força. — Mas eu não posso explicar — ele disse ainda com raiva. —Eu queria poder.
Eu deixei minha cabeça cair nos meus braços. Minha pergunta saiu abafada pelo meu braço.
— Por quê?
Ele ficou quieto por um momento. Eu virei minha cabeça para o lado - cansada demais pra segurá-la pra cima - pra ver a expressão dele.
Ela me surpreendeu. Os olhos dele estavam apertados, seus dentes trincados, a testa dele enrugada com o esforço.
— Qual o problema? — eu perguntei.
Ele exalou pesadamente, e eu me dei conta de que ele estava segurando a respiração também.
— Eu não posso fazer isso — ele murmurou, frustrado.
— Fazer o que?
Ele ignorou minha pergunta.
— Olha, Bella, será que você nunca teve um segredo que não podia contar pra ninguém?
Ele olhou pra mim com olhos sábios, e os meus pensamentos pularam imediatamente para os Cullen. Eu esperava que a minha expressão não estivesse muito culpada.
— Alguma coisa que você sentia que tinha que esconder de Charlie, da sua mãe...? — ele pressionou. — Uma coisa que você não falaria nem comigo? Nem mesmo agora?
Eu senti meus olhos se estreitarem. Eu não respondi a pergunta dele, apesar de saber que ele consideraria isso uma confirmação.
— Será que você pode entender que talvez eu esteja na mesma... situação? — Ele estava lutando de novo, parecendo batalhar pra encontrar as palavras certas. — Às vezes a lealdade fica no caminho das coisas que você quer fazer. Às vezes, nem é o seu segredo.
Então, eu não podia discutir com isso. Ele estava exatamente certo - eu tinha que guardar um segredo que não era meu, e mesmo assim era um segredo que eu me sentia inclinada a proteger. Um segredo sobre o qual, de repente, ele parecia saber tudo.
Eu ainda não via como isso se aplicava a ele, ou Sam, ou Billy. O que era isso pra eles, agora que os Cullen haviam ido embora?
— Eu não sei o que você veio fazer aqui, Jacob, se você só faz enigmas ao invés de me dar respostas.
— Me desculpe — ele sussurrou. — Isso é tão frustrante.
Nós olhamos para os rostos um do outro na escuridão por um longo momento, os dois rostos sem esperanças.
— A parte que me mata — ele disse de repente. — É que você já sabe. Eu já te contei tudo.
— Do que é que você tá falando?
Ele sugou o ar alarmado, e então se inclinou na minha direção, o rosto dele passou de desesperançoso para brilhante de intensidade em um segundo. Ele me olhava com uma intensidade ardente nos olhos, e a voz dele estava mais rápida e mais ansiosa. Ele falou as palavras diretamente no meu rosto; o hálito dele era tão quente quanto sua pele.
— Eu acho que vejo um jeito de ajeitar as coisas - porque você já sabe disso, Bella! Eu não posso te dizer, mas se você adivinhasse! Isso não estaria me envolvendo!
— O que você quer que eu adivinhe? Adivinhar o que?
— O meu segredo! Você consegue - você sabe a resposta!
Eu pisquei duas vezes, tentando limpar minha cabeça. Eu estava tão cansada. Nada do que ele dizia fazia sentido.
Ele viu minha expressão vazia, e o rosto dele ficou tenso com o esforço de novo.
— Caramba, deixa eu ver se consigo te ajudar — ele disse. O que quer que fosse que ele estivesse tentando fazer, era muito difícil quando ele estava ofegando.
— Ajuda? — eu perguntei, tentando acompanhar. Minhas pálpebras queriam se fechar, mas eu as forcei a ficarem abertas.
— É — ele disse, respirando com força. —Como pistas.
Ele pegou meu rosto entre as suas mãos enormes e quentes demais e o segurou a apenas alguns centímetros do seu. Ele me olhava nos olhos enquanto cochichava, como se estivesse me comunicando algo além das palavras que dizia.
— Se lembra do dia em que nos conhecemos - na praia em La Push?
— É claro que lembro.
— Me fale sobre ele.
Eu respirei fundo e tentei me concentrar.
— Você me perguntou sobre a minha caminhonete...
Ele balançou a cabeça, com pressa de que eu continuasse.
— Nós falamos sobre o Rabbit...
— Continue.
— Nós fomos andar pela beira da praia...— Minhas bochechas estavam ficando quentes embaixo das mãos dele enquanto eu me lembrava, mas ele não ia reparar, de tão quente que a pele dele era. Eu tinha pedido pra ele andar comigo, flertando com ele inaptamente, mas com sucesso, pra arrancar informações dele.
Ele estava balançando a cabeça, ansioso por mais.
Minha voz estava quase sem som.
— Você me contou histórias assustadoras... lendas Quileute.
Ele fechou os olhos e os abriu de novo.
— Sim .
A palavra era tensa, fervente, como se ele estivesse à beira de alguma coisa vital. Ele falou lentamente, tornando cada palavra distinta.
—Você se lembra do que eu disse?
Mesmo no escuro, ele deve ter sido capaz de ver a mudança na cor do meu rosto. Como eu poderia esquecer aquilo? Sem se dar conta do que estava fazendo, Jacob me contou exatamente o que eu queria saber naquele dia - que Edward era um vampiro.
Ele olhou pra mim com olhos que sabiam demais.
— Pense bastante — ele me disse.
— Sim, eu me lembro — respirei.
Ele inalou com força, lutando.
— Você se lembra de todas as histó- — ele não conseguiu terminar a pergunta. A boca dele se abriu como se alguma coisa houvesse agarrado a garganta dele.
— Todas as histórias? , eu perguntei.
Ele balançou a cabeça mudo.
Minha cabeça se agitou. Somente uma história me importava de verdade. Eu sabia que ele havia me contado outras, mas eu não conseguia me lembrar do prelúdio inconsequente, especialmente quando minha mente estava tão nublada de exaustão. Eu comecei a mexer a cabeça.
Jacob grunhiu e pulou da cama. Ele pressionou os punhos na testa e respirou rápido e com raiva.
— Você sabe, você sabe — ele murmurou pra si mesmo.
— Jake? Por favor, Jake, eu estou exausta. Eu não estou muito boa pra isso agora. Talvez amanhã de manhã...
Ele deu um respiro pra se acalmar e balançou a cabeça.
— Talvez as coisas voltem para você. Eu acho que posso entender porque você só se lembra de uma história — Ele acrescentou num tom sarcástico, ácido. Ele se sentou de volta no colchão perto de mim. — Você se importa se eu fizer uma pergunta sobre isso? — ele perguntou, ainda sarcástico. — Eu estive morrendo pra saber.
— Uma pergunta sobre o que? — eu perguntei cautelosamente.
— Sobre os vampiros da história que eu te contei.
Eu encarei ele com olhos reservados, incapaz de responder. Ele fez a pergunta do mesmo jeito.
— Você honestamente não sabia? — ele me perguntou, sua voz ficando áspera. — Fui eu quem te contou o que ele era?
Como é que ele sabe disso? Porque ele havia resolvido acreditar, porque agora? Meus dentes se apertaram. Eu o encarei de volta, sem nenhuma intenção de responder. Ele podia ver isso.
— Está vendo o que eu disse sobre lealdade? — ele murmurou, ainda mais áspero agora. — É o mesmo pra mim, só que pior. Você não pode imaginar o quanto eu estou envolvido...
Eu não gostei disso - não gostei do jeito como os olhos dele se fecharam como se ele estivesse sentindo dor quando falava no quanto estava envolvido. Mais que não gostar - eu ma dei conta de que odiava isso, odiava qualquer coisa que o fizesse sentir dor. Odiava ferozmente.
O rosto de Sam encheu minha mente.
Pra mim, isso tudo era essencialmente involuntário. Eu protegia o segredo dos Cullen por amor; não correspondido, mas verdadeiro. Pra Jacob, isso não parecia ser o mesmo.
— Não há nenhum jeito de você se libertar? — eu sussurrei, tocando a beira áspera na parte de trás do seu cabelo curto.
As mãos dele começaram a tremer, mas ele não abriu os olhos.
— Não. Eu estou nisso pra vida inteira. Uma sentença de vida — Uma risada vazia. — Mais longa, talvez.
— Não, Jake — eu gemi. — E se nós fugíssemos? Só você e eu. E se saíssemos de casa, se deixarmos Sam pra trás?
— Não é uma coisa da qual eu posso fugir, Bella — ele cochichou. — No entanto, eu fugiria com você, se eu pudesse — Agora os ombros dele estavam tremendo também. Ele respirou fundo. — Olha, eu tenho que ir.
— Por quê?
— Pra começar, parece que você vai desmaiar a qualquer segundo. Você precisa do seu sono - você precisa recarregar suas pistolas. Você vai descobrir tudo, você precisa.
— E por que mais?
Ele fez uma careta.
— Eu tive que escapar - eu não tenho permissão de ver você. Eles devem estar imaginando onde eu estou — A boca dele se contorceu. — Eu acho que devo ir e contar pra eles.
— Você não precisa contar nada pra eles — eu assobiei.
— Mesmo assim, eu vou.
A raiva passou por mim com força.
— Eu odeio eles.
Jacob olhou pra mim com os olhos arregalados, surpreso.
— Não, Bella. Não odeie os caras. Não é culpa de Sam e nem de nenhum dos outros. Eu já te disse antes - sou eu. Sam é na verdade... bem, incrivelmente legal. Jared e Paul são ótimos também, apesar de Paul ser meio... e Embry sempre foi meu amigo. Nada mudou aí - a única coisa que não mudou. Eu realmente me sinto muito mal pelas coisas que eu costumava pensar sobre Sam...
— Sam é incrivelmente legal — eu olhei para ele sem acreditar, mas deixei passar.
— E então por que é que você não pode mais me ver?— eu quis saber.
— Não é seguro — ele murmurou, olhando pra baixo.
As palavras mandaram um arrepio de medo pelo meu corpo.
Ele sabia disso também? Ninguém sabia disso além de mim. Mas ele estava certo - era o meio da noite, a hora perfeita para uma caçada. Jacob não devia estar aqui no meu quarto. Se alguém viesse atrás de mim, eu tinha que estar aqui sozinha.
— Se eu achasse que era muito... muito arriscado — ele sussurrou. — Eu não teria vindo. Mas, Bella — ele olhou pra mim de novo. — Eu te fiz uma promessa. Eu não tinha ideia de que seria tão difícil cumpri-la, mas isso não significa que eu não vá tentar.
Ele viu a incompreensão no meu rosto.
— Depois daquele filme estúpido — ele me lembrou. — Eu prometi que nunca te machucaria... Então eu realmente estraguei tudo essa tarde, não foi?
— Eu sei que não era a sua intenção, Jake. Está tudo bem.
— Obrigado, Bella — ele segurou minha mão.
— Eu farei todo o possível pra estar lá por você, assim como prometi — Ele sorriu pra mim de repente. O sorriso não era meu, nem de Sam, mas uma estranha combinação dos dois. — Ia ajudar muito se você pudesse descobrir isso sozinha, Bella. Se esforce muito pra isso.
Eu fiz uma careta fraca.
— Eu vou tentar.
— Eu vou tentar te ver logo — Ele suspirou. — E eles vão tentar me convencer a não vir.
— Não escute eles.
— Eu vou tentar — Ele balançou a cabeça como se duvidasse do seu sucesso. — Venha e me diga assim que você descobrir — Alguma coisa ocorreu a ele nessa hora, alguma coisa que fez as mãos dele tremerem. —Isso se... isso se você quiser.
— Por que eu não iria querer ver você?
O rosto dele ficou duro e ácido. Aquele rosto pertencia cem por cento á Sam.
— Oh, eu posso pensar numa razão — ele disse num tom áspero. — Olha, eu realmente tenho que ir. Você pode fazer uma coisa por mim?
Eu só acenei com a cabeça, assustada pela mudança nele.
— Pelo menos me ligue - se não quiser me ver de novo. Me deixe saber se for assim.
— Isso não vai acontecer.
Ele ergueu uma mão, me cortando.
— Só me deixe saber.
Ele se levantou e foi para a janela.
— Não seja idiota, Jake — eu reclamei. — Você vai quebrar a perna. Use a porta. Charlie não vai te pegar.
— Eu não vou me machucar — ele murmurou, mas se virou para a porta. Ele hesitou enquanto passou por mim, me olhando com uma expressão como se alguma coisa estivesse incomodando ele. Ele levantou uma mão, como se fosse uma declaração.
Eu peguei a mão dele, e de repente ele me puxou - com força demais - pra fora da cama e para o peito dele.
— Só pela dúvida — ele murmurou no meu cabelo, me apertando num abraço de urso que quase quebrou minhas costelas.
— Não consigo – respirar — eu asfixiei.
Ele me soltou imediatamente, mantendo uma mão na minha cintura pra que eu não caísse. Ele me puxou, mais gentilmente dessa vez, de volta para a cama.
— Durma um pouco, Bells. Você precisa fazer sua cabeça trabalhar. Você precisa entender. Eu não vou te perder, Bella. Não por isso.
Ele estava na porta num piscar de olhos, abrindo-a quietamente, e então desaparecendo por ela. Eu escutei para ouvir ele pisar no primeiro degrau da escada, mas não houve nenhum som.
Eu fiquei na minha cama,com a cabeça rodando. Eu estava cansada demais, desgastada demais. Eu fechei meus olhos, tentando entender o sentido de tudo aquilo, apenas pra ser tragada pela inconsciência tão rapidamente que fiquei desorientada.
Não foi o sono em paz, sem sonhos que eu havia pedido - é claro que não. Eu estava na floresta como sempre, e eu comecei a vagar como sempre fazia.
Eu rapidamente me dei conta de que esse não era o mesmo sonho de sempre. Pra começar, eu não sentia a compulsão em continuar a minha procura; eu estava simplesmente vagando por hábito, porque isso era geralmente o que se esperava de mim aqui. Na verdade, essa não era nem a mesma floresta. O cheiro era diferente, e a luz também.
Cheirava, não como o chão molhado das matas, mas como a brisa que vinha do oceano. Eu não podia ver o céu; mas ainda assim, me pareceu que o sol estava brilhando - as folhas acima eram de um verde brilhante cor de jade.
Essa era a floresta que havia em La Push - perto da praia que havia lá, eu tinha certeza disso. Eu sabia que se encontrasse a praia, eu seria capaz de ver o sol, então eu me apressei e segui em frente, seguinte o som fraco das ondas à distância.
E então Jacob estava lá. Ele agarrou minha mão, me puxando de volta para a parte mais escura da floresta.
“Jacob, o que há de errado?” eu perguntei. O rosto dele era o rosto assustado de uma criança, e o cabelo dele estava lindo de novo, colocado pra trás num rabo de cavalo, bem acima da sua nuca.
Ele me puxava com toda a sua força, mas eu resistia; eu não queria ir para o escuro.
“Corra, Bella, você tem que correr!”, ele sussurrou, aterrorizado.
A abrupta onda de déjà vu foi tão forte que quase me acordou.
Agora eu sabia por que reconhecia esse lugar. Era porque eu já tinha estado lá antes, em outro sonho. A um milhão de anos atrás, parte de uma vida inteiramente diferente. Esse foi o sonho que eu tive na noite depois de ter passeado com Jacob na praia, na primeira noite em que eu soube que Edward era um vampiro. Reviver aquele dia com Jacob deve ter desenterrado essas memórias.
Destacada do sonho agora, eu esperei as coisas acontecerem. Uma luz estava vindo na minha direção da praia.
Em apenas um momento, Edward sairia das árvores, a pele dele brilhando fracamente e seus olhos pretos e perigosos. Ele me chamaria e sorriria. Ele estaria tão lindo quanto um anjo, e seus dentes seriam apontados e afiados...
Mas eu estava ultrapassando a mim mesma. Alguma coisa tinha que acontecer antes.
Jacob soltou minha mão e ganiu. Tremendo e se contorcendo, ele caiu no chão a meus pés.
“Jacob!”, eu gritei, mas ele havia desaparecido.
Em seu lugar, havia um enorme lobo marrom avermelhado com olhos escuros, inteligentes.
O sonho mudava de direção é claro, como um trem saindo dos trilhos.
Aquele não era o mesmo lobo com o qual eu havia sonhado na minha outra vida. Esse era o grande lobo ruivo que havia ficado a meio metro de mim na clareira, há apenas uma semana atrás.
Esse lobo era gigante, monstruoso, maior do que um urso.
O lobo olhou atentamente pra mim, tentando me dizer algo vital com seus olhos inteligentes. Os olhos pretos amarronzados, os olhos familiares de Jacob Black.
Eu acordei gritando no limite dos meus pulmões.
Eu quase esperei que Charlie viesse me checar dessa vez. Esse não era o meu grito de sempre. Eu cobri minha cabeça com o travesseiro pra tentar abafar a histeria que meus gritos estavam criando dentro de mim. Eu apertei o algodão com força no meu rosto, imaginando se de alguma forma eu não poderia abafar também a conexão que havia acabado de fazer.
Mas Charlie não entrou, e eu eventualmente fui capaz de estrangular a estranha gritaria saindo da minha garganta.
Eu me lembrava agora - todas as palavras que Jacob havia me dito naquela tarde na praia, mesmo da parte antes de ele falar sobre — os frios —. Especialmente aquela primeira parte.
“Você sabe de alguma das nossas antigas histórias, sobre de onde viemos - os Quileute, eu quero dizer?” ele perguntou.
“Na verdade não” eu respondi.
“Bem, existem muitas lendas, algumas delas datam da época do dilúvio - supostamente, os anciões Quileute amarraram suas canoas no topo das árvores mais altas pra sobreviver, como Noé e a arca.” Nessa hora ele sorriu pra demonstrar o quanto acreditava pouco nessas histórias. “Outra lenda diz que nós somos descendentes dos lobos - e que os lobos ainda são nossos irmãos. É contra a lei da tribo matar eles.”
“E então tem as histórias sobre os frios.” A voz dele ficou um pouco mais baixa.
“Os frios?”
“Sim. Existem histórias sobre os frios tão velhas quanto às lendas dos lobos, e algumas muito mais recentes. De acordo com a lenda, o meu próprio bisavô conheceu alguns deles. Foi ele quem criou o acordo que os mantém fora da nossa terra”. Jacob rolou os olhos.
“Seu bisavô?”
“Ele era um líder tribal, como meu pai. Veja, os frios são naturalmente inimigos dos lobos - bem, não dos lobos exatamente, mas dos lobos que se transformam em homens, como nossos ancestrais. Vocês os chamariam de lobisomens”.
“Lobisomens têm inimigos?”
“Só um.”
Havia alguma coisa presa na minha garganta, me sufocando. Eu tentei engolir, mas estava preso lá, sem se mexer. Eu tentei cuspir.
— Lobisomem — eu asfixiei.
Sim, essa era a palavra que estava me sufocando.
O mundo inteiro sacudiu, girando do jeito errado no seu eixo.
Que espécie de lugar era esse? Será que realmente poderia existir um mundo onde lendas anciãs vagavam nas fronteiras das cidades pequenas, insignificantes, se deparando com monstros míticos? Será que absolutamente todos os contos de fadas impossíveis eram de alguma forma presos na mais absoluta verdade?
Havia alguma coisa sã e normal, ou tudo era simplesmente mágica, histórias de fantasmas?
Eu agarrei minha cabeça com as minhas mãos, tentando evitar que ela explodisse.
Uma voz pequena, seca atrás da minha cabeça me perguntava qual era o grande problema. Eu já não tinha aceito a existência dos vampiros a tanto tempo atrás - e sem ficar histérica?
Exatamente, eu queria gritar para aquela voz. Será que um mito já não era suficiente pra qualquer um? Suficiente pra uma vida?
Além do mais, nunca houve sequer um momento em que eu não soubesse que Edward Cullen era algo acima e além do normal. Eu não fiquei tão surpresa de descobrir o que ele era, porque obviamente ele era alguma coisa.
Mas Jacob? Jacob, que era só Jacob, e nada além disso? Jacob, meu amigo? Jacob, o único ser humano com o qual eu fui capaz de me relacionar...
E ele nem era humano.
Eu lutei contra a urgência de gritar de novo.
O que isso dizia sobre mim?
Eu sabia a resposta pra essa. Isso dizia que havia alguma coisa profundamente errada comigo. Porque outro motivo minha vida estaria tão cheia de personagens de filmes de terror? E porque outro motivo eu me importaria tanto ao ponto de meu peito ficar cheio de buracos quando eles seguissem com os meus caminhos míticos?
Na minha cabeça, tudo rodava e mudava, se reestruturando de um jeito que as coisas que um dia significaram alguma coisa, agora significavam algo mais.
Não havia nenhum culto. Nunca houve um culto, nunca houve uma gangue. Não, era muito pior que isso. Era um bando.
Um bando de cinco lobisomens incrivelmente gigantes, multicoloridos, que havia passado bem ao meu lado na clareira de Edward...
De repente, eu estava com uma pressa frenética. Eu olhei para o relógio - era cedo demais e eu não me importava. Eu tinha que ir à La Push agora. Eu tinha que ver Jacob para que ele me dissesse que eu não havia perdido a cabeça de uma vez por todas.
Eu me vesti com as primeiras roupas que consegui encontrar, sem me importar em ver se elas combinavam, e desci as escadas dois degraus de cada vez. Eu quase esbarrei com Charlie enquanto corria pelo corredor, à caminho da porta.
— Onde você está indo? — ele me perguntou, tão surpreso por me ver quanto eu estava por ver ele. — Você sabe que horas são?
— É. Eu tenho que ir ver Jacob.
— Eu pensei que a coisa com Sam.
— Isso não importa, eu tenho que ir falar com ele agora mesmo.
— É muito cedo — Ele fez uma careta quando a minha expressão não mudou. —Você quer o café da manhã?
— Não estou com fome — as palavras voaram dos meus lábios. Ele estava bloqueando meu caminho para a saída. Eu considerei a ideia de me desviar dele e tentar sair correndo, mas eu sabia que teria que explicar isso pra ele depois. — Eu vou voltar logo, Ok?
Charlie fez uma careta.
— Direto para a casa de Jacob, certo? Sem paradas no caminho?
— É claro que não, onde é que eu ia parar? — Minhas palavras estavam saindo todas juntas com a minha pressa.
— Eu não sei...— ele admitiu. — É só que... bem, houve outro ataque - os lobos de novo. Dessa vez foi bem perto do resort, perto das piscinas quentes - houve uma testemunha dessa vez. A vítima só estava a doze metros da pista quando desapareceu. A esposa dele viu um enorme lobo cinza apenas alguns minutos depois, enquanto ela estava procurando por ele, e correu pra pedir ajuda.
Meu estômago se mexeu como se eu tivesse batido num corvo numa montanha russa.
— Um lobo o atacou?
— Não havia sinal dele - só um pouco de sangue de novo — O rosto de Charlie demonstrava dor. — Os patrulheiros estão saindo armados, e levando voluntários armados. Tem um monte de caçadores que estão loucos pra se envolver - tem uma recompensa sendo paga pela carcaça de lobos. Isso significa que vão haver muitos disparos na floresta, e isso me preocupa — Ele balançou a cabeça.
— Quando as pessoas ficam muito excitadas, acidentes acontecem...
— Eles vão atirar nos lobos?
Minha voz caiu uns três oitavos.
— O que mais podemos fazer? O que há de errado? — ele me perguntou, seus olhos tensos examinando o meu rosto. Eu me senti fraca; eu devo ter ficado mais branca do que o normal. — Você não vai começar a abraçar as árvores, vai?
Eu não consegui responder. Se ele não estivesse me observando, eu teria colocado minha cabeça entre os joelhos. Eu havia esquecido sobre os mochileiros desaparecidos, e sobre as pegadas com marcas de sangue... eu não havia conectado esses fatos às minhas realizações.
— Olha, querida, não deixe que isso te assuste. Só fique na cidade ou na estrada - sem paradas - Ok?
— Ok — eu repeti com uma voz fraca.
— Eu tenho que ir.
Eu olhei pra ele de perto pela primeira vez, e vi que ele estava com a arma amarrada na cintura e as suas botas de caminhada nos pés.
— Você não vai atrás daqueles lobos, vai, pai?
— Eu tenho que ajudar, Bells. As pessoas estão desaparecendo.
Minha voz gritou de novo, quase histérica agora.
— Não! Não, não vá. É perigoso demais!
— Eu tenho que fazer meu trabalho, garota. Não seja tão pessimista - eu vou ficar bem — Ele caminhou para a porta e a segurou aberta.
— Você não vai sair?
Eu hesitei, meus estômago ainda dando cambalhotas desconfortáveis.
O que eu podia dizer pra pará-lo? Eu estava tonta demais pra pensar numa solução.
— Bells?
— Talvez esteja cedo demais pra ir à La Push — eu sussurrei.
— Eu concordo — ele disse, e saiu para a chuva, batendo a porta atrás dele.
Assim que ele estava fora de vista, eu caí no chão e coloquei minha cabeça entre os joelhos.
Será que eu devia ir atrás de Charlie? O que eu ia dizer?
E quanto a Jacob? Jacob era meu melhor amigo; eu precisava avisá-lo.
Se ele realmente fosse um - eu tremi e me forcei a pensar na palavra - lobisomem (e eu sabia que era verdade, eu podia sentir), então as pessoas estariam atirando nele! Eu precisava avisar ele e os seus amigos que as pessoas iam tentar matá-los se eles continuassem correndo por aí como lobos gigantes. Eu precisava dizê-los para parar.
Eles tinham que parar! Charlie estava lá na floresta. Será que eles se importariam com isso? Eu imaginei...
Até agora, só estranhos haviam desaparecido. Isso significava alguma coisa, ou era só uma coincidência?
Eu precisava que Jacob, pelo menos, se importaria com isso.
De qualquer forma, eu tinha que avisá-lo.
Jacob era meu melhor amigo, mas ele era um monstro também? Um de verdade? Um mau? Será que eu devia avisá-los se ele e os seus amigos fossem... fossem assassinos! Se eles estivessem matando mochileiros inocentes a sangue frio?
Se eles realmente fossem criaturas dos filmes de terror em todos os sentidos, seria errado protegê-los.
Era inevitável que eu comparasse Jacob e seus amigos aos Cullen. Eu passei meus braços ao redor do peito, lutando com o buraco, enquanto pensava neles.
Eu não sabia nada sobre lobisomens, claramente. Eu tinha esperado alguma coisa mais próximas dos filmes - criaturas que eram meio homens e cabeludos - se é que eu havia esperado alguma coisa.
Então eu não sabia o que os fazia caçar, se era a fome ou a sede ou se era simplesmente o desejo de matar. Era difícil julgar, sem saber dessas coisas.
Mas isso não podia ser pior do que o que os Cullen tinham que suportar na sua tentativa de serem bons. Eu pensei em Esme - as lágrimas apareceram quando eu pensei em seu rosto gentil, adorável- e em como, mesmo sendo maternal e amorosa como ela era, ela teve que segurar o nariz, toda envergonhada, e correr de mim quando eu estava sangrando. Não podia ser mais difícil do que isso. Eu pensei em Carlisle, nos séculos após séculos que ele havia lutado pra se ensinar a ignorar o sangue, pra que assim pudesse salvar vidas como médico. Nada poderia ser mais difícil do que isso.
Os lobisomens haviam escolhido um caminho diferente.
Agora, qual caminho eu devia escolher?

2 comentários:

  1. Senhor dos céus,da terra e do mar... Ei estou quase tendo um ataque cardíaco aqui!!! A vida da Bella é tipo.. PERFEITA! Cheia de histórias assustadoras e tals... porque não é comigo???😨😩😰😧😨😟😱😲

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  2. Adoro literatura fantástica! Como bem disse Fernando Pessoa: "A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta."

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