28 de setembro de 2015

Capítulo 12 - Algumas pessoas simplesmente não entendem o conceito de “indesejado”

Eu estava prestes a cair no sono.
O sol se erguera por trás das nuvens havia uma hora – a floresta agora estava cinzenta, não negra. Seth tinha se enroscado e desmaiado por volta da uma hora, e eu o acordara ao amanhecer para trocar de turno. Mesmo depois de ter corrido a noite toda, estava difícil fazer minha mente emudecer por tempo suficiente para que eu dormisse, mas a corrida ritmada de Seth ajudava. Um, dois-três, quatro, um, dois-três, quatro – pum pum-pum pum – batidas abafadas das patas na terra molhada, ininterruptas, enquanto ele descrevia o amplo traçado que contornava a terra dos Cullen. Já estávamos marcando uma trilha no chão. Os pensamentos de Seth eram vazios, só um borrão de verde e cinza à medida que a mata passava voando por ele. Era reconfortante. Ajudava ocupar minha cabeça com o que ele via, em vez de deixar que minhas imagens fossem o centro das atenções.
E, então, o uivo penetrante de Seth rompeu o silêncio da manhã.
Levantei cambaleando, as pernas dianteiras começando a correr antes que as traseiras tivessem se erguido. Disparei para o lugar onde Seth estava paralisado, ouvindo com ele a marcha de patas que corriam em nossa direção.
Bom dia, meninos.
Um gemido de choque escapou pelos dentes de Seth. E então nós dois rosnamos ao ler mais a fundo os novos pensamentos. Ah, cara! Vá embora, Leah!, grunhiu Seth.
Parei quando alcancei Seth, que jogava a cabeça para trás, pronto para uivar novamente – desta vez numa queixa.
Chega de barulho, Seth.
Certo. Argh! Argh! Argh! Ele choramingava e batia as patas no chão, cavando fundo na terra.
Leah surgiu trotando em nosso campo de visão, o pequeno corpo cinza abrindo caminho entre os arbustos. Pare de resmungar. Seth. Parece um bebezinho.
Eu grunhi para ela, minhas orelhas achatadas contra o crânio. Ela recuou um passo, automaticamente.
O que acha que está fazendo, Leah?
Ela bufou um suspiro pesado. É bem óbvio, não é? Estou me juntando à porcaria da sua matilhazinha de renegados. Os cães de guarda dos vampiros. Ela ladrou uma risada baixa e sarcástica.
Não está, não. Volte antes que eu arranque um de seus tendões.
Até parece que consegue me pegar. Ela arreganhou os dentes e retraiu o corpo para saltar. Quer apostar corrida, ó destemido líder?
Respirei fundo, enchendo os pulmões até as laterais de meu corpo incharem. Depois, quando tive certeza de que não ia gritar, expirei em uma lufada.
Seth, vá dizer aos Cullen que é só a idiota da sua irmã, pensei com a maior aspereza possível. Eu cuido disso.
É pra já! Seth estava feliz em partir. Ele desapareceu na direção da casa.
Leah gemeu e se inclinou na direção dele, com o pelo dos ombros se eriçando. Vai ficar aí e deixar que ele vá até os vampiros sozinho?
Tenho certeza absoluta de que ele prefere que o peguem, a passar mais um minuto que seja com você.
Cale a boca, Jacob. Epa, desculpe... Eu quis dizer, cale a boca, alfa supremo.
O que diabos você está fazendo aqui?
Acha que vou ficar sentada em casa enquanto meu irmão mais novo se oferece para virar chiclete de vampiro?
Seth não quer nem precisa de sua proteção. Na verdade, ninguém quer você aqui.
Aaah, ai, essa vai deixar uma marca imensa. Rá, ladrou ela. Me diga quem me quer por perto, e eu saio daqui.
Então não se trata de Seth, afinal?
Claro que sim. Só estou dizendo que ser indesejada não é novidade para mim. Não é bem um fator motivador, se é que me entende.
Trinquei os dentes e tentei organizar minha cabeça.
Sam mandou você?
Se eu estivesse aqui a mando de Sam, você não seria capaz de me ouvir. Minha lealdade não está mais com ele.
Ouvi com atenção os pensamentos misturados às palavras. Se o intuito fosse desviar nossa atenção ou se aquilo fosse uma tramoia, eu precisaria ficar bastante atento para perceber. Mas não havia nada. A declaração dela não passava da verdade. Uma verdade indesejada e quase desesperadora.
Agora você é leal a mim?, perguntei com profundo sarcasmo. Arrã. Sei
Minhas opções são limitadas. Estou trabalhando com as alternativas que tenho. Acredite em mim: não estou gostando disso mais do que você.
Não era verdade. Havia uma espécie de excitação irritadiça em sua mente Não estava satisfeita com a situação, mas ao mesmo tempo estava com um ânimo um tanto estranho. Procurei em sua mente, tentando entender.
Ela se eriçou, ressentindo-se da invasão. Em geral, eu tentava me desligar de Leah – nunca antes tentara encontrar sentido nela.
Fomos interrompidos por Seth, pensando a explicação para Edward. Leah gemeu de ansiedade. A expressão de Edward, emoldurada na mesma janela da noite anterior, não demonstrou reação à notícia. Era um rosto vazio e morto.
Nossa, ele parece mal, murmurou Seth consigo mesmo.
O vampiro tampouco mostrou reação a esse pensamento. Desapareceu dentro da casa. Seth deu meia-volta e retornou. Leah relaxou um pouco.
O que está havendo?, perguntou Leah. Pode me informar rapidamente.
Não é preciso. Você não vai ficar.
Na verdade, Sr. Alfa, eu vou. Porque, como aparentemente tenho de pertencer a alguém – e não pense que não tentei ficar por conta própria, você sabe muito bem que isso não dá certo – escolho você.
Leah, você não gosta de mim. Eu não gosto de você.
Obrigada, capitão Obviedade. Isso não me importa. Vou ficar com Seth.
Você não gosta de vampiros. Não acha que há um pequeno conflito de interesses aqui?
Você também não gosta de vampiros.
Mas eu estou comprometido nessa aliança. Você não está.
Vou manter distância deles. Posso fazer patrulhas por aqui, como Seth.
E eu vou ter que confiar em você?
Ela esticou o pescoço, apoiando-se nas garras, tentando ficar tão alta quanto eu ao me olhar nos olhos. Não vou trair minha matilha.
Eu queria atirar a cabeça para trás e uivar, como Seth fizera antes. Essa não é a sua matilha! Isso nem é uma matilha Sou só eu, por minha própria conta! Qual é o problema dos Clearwater? Por que não podem me deixar em paz?
Seth, chegando por trás de nós, gemeu; eu o ofendera. Que ótimo!
Estou sendo útil, não estou, Jake?
Você não está chateando muito, garoto, mas se você e Leah são um pacote... se a única maneira de me livrar dela é mandá-lo para casa... Bom, pode me culpar por querer que você se mande?
Argh, Leah, você estraga tudo!
É eu sei, ela disse a ele, e o pensamento era carregado do peso de seu desespero.
Senti a dor naquelas três palavras, maior do que eu poderia imaginar. Eu não queria me sentir daquele jeito. Não queria me sentir mal por ela. É claro que a matilha era rude com Leah, mas ela provocava aquilo com a amargura que tingia todos os seus pensamentos e tornava um pesadelo estar em sua cabeça.
Seth também se sentia culpado.
Jake... Não vai me mandar de volta de verdade, vai? Leah não é tão ruim assim. É serio. Quer dizer, com ela aqui, podemos ampliar o perímetro. E isso reduz Sam a sete. De jeito nenhum ele vai partir para um ataque com tantas baixas. Provavelmente é bom...
Você sabe que não quero liderar uma matilha, Seth.
Então não nos lidere, propôs Leah.
Bufei. Para mim, está ótimo. Agora, então, voltem para casa.
Jake, pensou Seth. Meu lugar é aqui. Eu gosto dos vampiros. Dos Cullen, pelo menos. Para mim, eles são pessoas, e vou protegê-los, porque é o que devemos fazer.
Talvez este seja seu lugar, garoto, mas não é o da sua irmã. E ela vai aonde você for... Parei de repente, porque percebi algo quando disse isso. Uma coisa em que Leah estivera tentando não pensar. Leah não iria a lugar nenhum. Achei que fosse por causa de Seth, eu pensei, azedo. Ela se encolheu.
É claro que estou aqui por causa de Seth.
E para se afastar de Sam. Seu queixo trincou.
Não preciso me explicar para você. Só tenho que fazer o que me disserem. Eu pertenço à sua matilha, Jacob. Fim de papo.
Caminhei para longe dela, grunhindo.
Droga. Eu nunca iria me livrar dela. Por mais que não gostasse de mim, por mais que odiasse os Cullen, por mais feliz que fosse ficar se matasse todos os vampiros naquele exato momento, por mais que a irritasse ter que, ao contrário, protegê-los – tudo isso não era nada se comparado com o que ela sentia por estar livre de Sam.
Leah não gostava de mim, então não era nenhum drama saber que eu preferiria que ela desaparecesse.
Ela amava Sam. Ainda. E vê-lo querendo que ela sumisse era mais doloroso do que podia suportar, agora que tinha uma escolha. Ela teria aceitado qualquer outra opção. Mesmo que isso significasse mudar-se para a casa do Cullen como seu cãozinho de estimação.
Não sei se eu iria tão longe, pensou ela. Leah tentou tornar as palavras dura e agressivas, mas sua encenação estava muito fajuta. Tenho certeza de que, primeiro, consideraria algumas tentativas de suicídio.
Escute, Leah....
Não, escute você, Jacob. Pare de discutir comigo, porque isso não vai levar a nada. Não vou atrapalhá-lo, está bem? Vou fazer o que você quiser. Menos voltar para a matilha de Sam e ser a patética ex-namorada de quem ele não consegue se livrar. Se quer que eu vá embora, ela se sentou nas patas traseiras e olhou direto em meus olhos, terá de me obrigar a isso.
Eu rosnei por um minuto longo e colérico. Estava começando a sentir alguma simpatia por Sam, apesar do que ele havia feito a mim e a Seth. Não era de admirar que ele estivesse sempre dando ordens à matilha. De que outra maneira se conseguiria que as coisas fossem feitas?
Seth, você vai ficar muito chateado comigo se eu matar sua irmã?
Ele fingiu pensar por um minuto. Bom... É, acho que vou.
Eu suspirei.
Tudo bem, então, Srta. Vou-Fazer-O-Que-Você-Quiser. Por que não se mostra útil nos contando o que sabe? O que aconteceu depois que os deixamos ontem à noite?
Muitos uivos. Mas vocês devem ter ouvido essa parte. Foi tão alto que levamos algum tempo para perceber que não podíamos mais ouvir vocês. Sam estava...
As palavras lhe faltaram, mas podíamos ver em sua cabeça o que acontecera. Tanto Seth quanto eu nos encolhemos.
Depois disso, ficou logo claro que teríamos de repensar as coisas. Sam pretendia falar com os outros anciãos hoje de manhã cedo. Iríamos nos reunir e pensar num plano. Mas sei que ele não vai lançar outro ataque logo. A esta altura, seria suicídio, com você e Seth desertando e os sanguessugas avisados. Não sei o que eles vão fazer, mas, se eu fosse um sanguessuga, não ficaria zanzando pela floresta sozinho. Está aberta temporada de caça aos vampiros.
Você decidiu faltar à reunião desta manhã?, perguntei.
Quando nos dividimos para patrulhar ontem à noite, pedi permissão para ir para casa, contar à minha mãe o que tinha acontecido...
Droga! Você contou à mamãe?, grunhiu Seth.
Seth, para com essa história de irmãos por um segundo. Continue, Leah.
Depois que passei para a forma humana, parei um minuto para pensar nas coisas, na verdade, parei a noite toda. Aposto que os outros acham que eu caí no sono. Essa história de duas matilhas separadas, duas mentes de matilha distintas me deu muito em que pensar. No fim, pesei a segurança de Seth e os, hã, outros benefícios e a ideia de me tornar traidora e sentir fedor de vampiro por sei lá quanto tempo. Você sabe o que decidi. Deixei um bilhete para minha mãe. Estou contando que vamos escutar quando Sam descobrir...
Leah levantou uma orelha na direção oeste.
É, conto com isso, concordei.
E isso é tudo. O que vamos fazer agora?, perguntou ela.
Ela e Seth me olharam em expectativa.
Era exatamente esse tipo de coisa que eu não queria ter que fazer. Acho que por enquanto só podemos ficar de olho. É tudo o que podemos fazer. Você deveria tirar um cochilo, Leah. Você dormiu tanto quanto eu. Pensei que fosse fazer o que mandassem.
Certo. Isso está ficando batido, ela grunhiu, depois bocejou. Bom, tanto faz. Não me importo.
Vou percorrer os limites da propriedade, Jake. Não estou nem um pouco cansado. Seth estava tão feliz por eu não os ter obrigado a ir para casa que quase saltitava de empolgação.
Claro, claro. Vou checar as coisas com os Cullen.
Seth partiu pela nova trilha marcada na terra úmida. Leah ficou observando-o, pensativa. Talvez uma ou duas voltas antes de eu apagar... Ei, Seth, quer ver quantas vezes eu posso ultrapassar você?
NÃO!
Ladrando uma risada baixa, Leah se lançou no bosque atrás dele. Grunhi inutilmente. Adeus paz e silêncio.
Leah estava tentando – para Leah. Ela fazia o mínimo de zombaria enquanto corria o perímetro, mas era impossível não notar seu humor arrogante. Pensei na história de “dois é bom”. Não se aplicava ali, porque um já era muito para a minha cabeça. Mas, se tínhamos mesmo de ser três, era difícil pensar em alguém por quem eu não a trocaria.
Paul? sugeriu Leah.
Talvez, admiti.
Ela riu para si mesma, ansiosa e agitada demais para ficar ofendida. Perguntei-me quanto tempo iria durar a empolgação por ter se livrado da misericórdia de Sam.
Então essa será a minha meta – ser menos irritante que Paul.
É, invista nisso.
Mudei de forma quando estava a alguns metros do gramado. Eu não pretendia passar muito tempo ali como humano. Tampouco pretendia ter Leah em minha mente. Vesti meu short esfarrapado e atravessei o gramado.
A porta se abriu antes que eu alcançasse os degraus, e fiquei surpreso ao ver Carlisle, não Edward, ali para me receber – seu rosto parecia exausto e derrotado. Por um segundo, meu coração parou. Cambaleei até me deter, incapaz de falar.
— Está tudo bem com você, Jacob? — perguntou Carlisle.
— É Bella? — perguntei, sufocado.
— Ela está... na mesma de ontem à noite. Eu o assustei? Desculpe-me. Edward disse que você estava chegando na forma humana e vim recebê-lo, já que ele não quer deixá-la. Ela está acordada.
E Edward não queria perder nenhum segundo que pudesse passar com ela, porque não lhe restava muito tempo. Carlisle não disse isso em voz alta, mas poderia muito bem ter falado.
Já fazia algum tempo que eu não dormia – desde antes da minha última patrulha. Agora eu sentia bastante a falta de sono. Avancei um passo, sentando-me nos degraus da varanda, e me escorei na grade.
Movimentando-se silenciosamente, como só um vampiro podia fazer, Carlisle sentou-se no mesmo degrau, encostado na outra grade.
— Não tive oportunidade de lhe agradecer ontem à noite, Jacob. Você não sabe quanto estou grato por sua... compaixão. Sei que seu objetivo era proteger Bella, mas lhe devo a segurança do restante de minha família também. Edward me contou o que você teve de fazer...
— Não vamos falar nisso — murmurei.
— Como preferir.
Ficamos sentados em silêncio. Eu podia ouvir os outros na casa. Emmett, Alice e Jasper, falando em voz baixa e séria no segundo andar, Esme cantarolando desafinada em outro cômodo. Rosalie e Edward respirando ali perto... Eu não conseguia distinguir quem era quem, mas dava para perceber a diferença no difícil arfar de Bella. Também podia ouvir seu coração batendo. Parecia... irregular.
Era como se o destino estivesse me obrigando a fazer tudo o que jurei que faria, no curso de vinte e quatro horas. Ali estava eu, passando o tempo, esperando para vê-la morrer. Eu não queria ouvir mais. Falar era melhor do que ouvir.
— Você a considera parte de sua família? — perguntei a Carlisle.
Eu havia pensado no comentário antes, quando ele tinha dito que eu ajudara o restante de sua família também.
— Sim. Bella já é uma filha para mim. Uma filha amada.
— Mas vai deixar que ela morra.
Ele ficou em silêncio por tanto tempo que o olhei. Seu rosto estava muito, muito cansado. Eu sabia como ele se sentia.
— Posso imaginar o que pensa de mim por isso — disse ele por fim. — Mas não posso ignorar a vontade dela. Não seria certo tomar uma decisão dessas por ela, coagi-la.
Queria ter raiva dele, mas ele dificultava tudo. Era como se Carlisle estivesse jogando minhas próprias palavras na minha cara, só que embaralhadas. Elas pareciam certas antes, mas não podiam ser certas agora. Não com Bella morrendo. Ainda assim... Lembrei-me de como foi ser forçado por Sam – não ter opção senão ser envolvido no assassinato de alguém que eu amava. Mas não era a mesma coisa. Sam estava errado. E Bella amava aquilo que não devia.
— Acha que há alguma possibilidade de ela conseguir? Quer dizer, como vampira e tudo mais. Ela me falou de... de Esme.
— Eu diria que há uma chance de cinquenta por cento a essa altura — respondeu ele em voz baixa. — Tenho visto o veneno de vampiros operar milagres, mas há problemas que nem o veneno pode vencer. O coração dela está muito sobrecarregado agora; se falhar... não haverá nada que eu possa fazer.
O coração de Bella pulsou e falhou, dando uma ênfase dolorosa às palavras dele.
Talvez o planeta tivesse começado a andar para trás. Talvez isso explicasse por que tudo estava ao contrário do que tinha sido na véspera – como eu poderia estar ansiando pelo que antes parecia ser a pior coisa do mundo?
— O que essa coisa está fazendo com ela? — sussurrei. — Ela estava tão pior na noite passada. Eu vi... os tubos e tudo aquilo. Pela janela.
— O feto não é compatível com seu corpo. Forte demais, para começar, mas isso ela provavelmente poderia suportar por algum tempo. O maior problema é que a coisa não permite que ela se alimente como precisa. O corpo está rejeitando toda forma de nutrição. Estou tentando a alimentação intravenosa, mas ela não está absorvendo. Tudo com relação a seu estado está acelerado. Eu estou vendo Bella... e não só ela, mas também o feto... morrendo de inanição a cada hora. Não consigo impedir e não consigo desacelerar isso. Não consigo descobrir o que a coisa quer — sua voz cansada falhou no fim.
Eu me senti como na véspera, quando vira as manchas escuras em sua barriga – furioso e meio ensandecido.
Fechei as mãos com força para controlar o tremor. Eu odiava a coisa que a estava consumindo. Já não bastava que o monstro a espancasse de dentro para fora. Não, aquilo também a mataria de fome. Provavelmente, só estava procurando algo em que afundar os dentes – um pescoço para sugar. Como ainda não era bastante grande para matar mais ninguém, resignava-se a sugar a vida de Bella.
Eu podia lhes dizer exatamente o que a coisa queria: morte e sangue, sangue e morte.
Senti minha pele quente e formigando. Respirei devagar, concentrando-me, para me acalmar.
— Queria poder ter uma ideia melhor do que é aquilo, exatamente — murmurou Carlisle. — Mas o feto está bem protegido. Não consegui uma imagem de ultrassom. Duvido que haja algum modo de penetrar uma agulha no saco amniótico, mas, de qualquer forma, Rosalie não me deixaria tentar.
— Uma agulha? — murmurei. — Que bem isso faria?
— Quanto mais souber sobre o feto, melhor posso estimar o que será capaz de fazer. O que eu não daria por um pouco do líquido amniótico. Se eu ao menos soubesse a contagem cromossômica...
— Está me deixando perdido, doutor. Pode descomplicar isso, por favor?
Ele riu. Até sua risada parecia exausta.
— Tudo bem. Quanto de biologia você estudou? Chegou aos pares de cromossomos?
— Acho que sim. Temos vinte e três, não é?
— Os humanos têm.
Eu pisquei.
— Quantos vocês têm?
— Vinte e cinco.
Franzi a testa, olhando para as minhas mãos, por um segundo.
— O que isso quer dizer?
— Pensei que significasse que nossas espécies fossem quase completamente diferentes. Menos aparentadas do que um leão e um gato doméstico. Mas essa nova vida... Bem, ela sugere que somos geneticamente mais compatíveis do que eu pensava. — Ele suspirou com tristeza. — Eu não sabia, e não pude alertá-los.
Eu também suspirei. Tinha sido fácil odiar Edward por também não saber. Eu ainda o odiava. Só que era difícil sentir o mesmo por Carlisle. Talvez por que eu não me rasgasse de ciúmes no caso de Carlisle.
— Poderia ser útil saber qual é a contagem... saber se o feto está mais próximo de nós ou dela. Saber o que esperar. — Ele deu de ombros. — E talvez não ajudasse em nada. Acho que eu só queria ter algo que estudar, algo que pudesse fazer.
— Imagino como são meus cromossomos — murmurei.
Pensei de novo naqueles exames de esteroides dos Jogos Olímpicos. Será que eles fazem testes de DNA?
Carlisle tossiu, meio constrangido.
— Você tem vinte e quatro pares, Jacob.
Eu me virei devagar para olhá-lo, erguendo as sobrancelhas. Ele pareceu sem graça.
— Eu fiquei... curioso. Tomei a liberdade quando tratei de você em junho passado.
Pensei por um segundo.
— Acho que isso deveria me deixar chateado. Mas, na realidade, não me importo.
— Desculpe. Eu devia ter pedido.
— Tudo bem, doutor. Não fez por mal.
— Não, juro que não queria lhe fazer mal nenhum. É só que... Acho sua espécie fascinante. Creio que os elementos da natureza vampírica passaram a ser lugar-comum para mim com o decorrer dos séculos. A diferença entre sua família e a humanidade é muito mais interessante. É quase mágica.
— Abracadabra, pé de cabra — resmunguei.
Ele era como Bella com toda aquela baboseira de magia. Carlisle deu outra risada cansada.
Depois, ouvimos a voz de Edward dentro da casa e paramos para escutar.
— Eu voltarei logo, Bella. Quero falar com Carlisle por um momento. Na verdade, Rosalie, você se importaria de me acompanhar? — Edward parecia diferente. Havia um pouco de vida em sua voz morta. Uma centelha de alguma coisa. Não era exatamente esperança, mas talvez o desejo de ter esperança.
— O que é, Edward? — perguntou Bella com a voz rouca.
— Nada com que precise se preocupar, amor. Só vai levar um segundo. Por favor, Rose?
— Esme? — chamou Rosalie. — Pode cuidar de Bella por mim?
Ouvi o sussurro do ar enquanto Esme descia flutuando a escada.
— Claro — disse ela.
Carlisle mudou de posição, virando-se para olhar a porta, com expectativa. Edward saiu primeiro, com Rosalie logo atrás. Seu rosto, como a voz, não era mais de morto. Ele parecia intensamente concentrado. Rosalie parecia desconfiada.
— Carlisle — murmurou ele.
— O que foi, Edward?
— Talvez estejamos lidando com isso da maneira errada. Eu estava ouvindo você e Jacob agora mesmo, e quando você falou do que o... feto quer, Jacob teve um pensamento interessante.
Eu? O que eu pensei? Além de meu ódio evidente pela coisa? Pelo menos nisso eu não estava sozinho. Dava para ver que Edward tinha dificuldade em usar um termo ameno como feto.
— Na verdade não abordamos desse ângulo — continuou Edward. — Estivemos tentando dar a Bella aquilo de que ela precisa. E seu corpo está aceitando tanto quanto o corpo de qualquer um dos nossos. Talvez devamos primeiro cuidar das necessidades do... feto. Talvez, se pudermos satisfazê-lo, possamos ajudá-la com mais resultado.
— Não estou acompanhando, Edward — disse Carlisle.
— Pense, Carlisle. Se essa criatura é mais vampira que humana, não consegue imaginar o que ela anseia... o que não está recebendo? Jacob conseguiu.
Eu? Repassei a conversa, tentando relembrar quais pensamentos guardei para mim mesmo. Lembrei na mesma hora em que Carlisle compreendeu.
— Ah! — disse ele num tom surpreso. — Acha que é... sede?
Rosalie sibilou. Não estava mais desconfiada. Seu rosto revoltantemente perfeito estava todo iluminado, os olhos arregalados de empolgação.
— Claro — murmurou ela. — Carlisle, temos todo aquele tipo O negativo reservado para Bella. É uma boa ideia — acrescentou ela, sem olhar para mim.

— Hummm. — Carlisle pôs a mão no queixo, perdido em pensamentos. — Será?... Além do mais, qual seria a melhor maneira de administrar...
Rosalie sacudia a cabeça.
— Não temos tempo para ser criativos. Eu diria que devíamos começar tentando da forma tradicional.
— Esperem um minuto — sussurrei. — Esperem aí. Vocês estão... Estão falando de fazer Bella beber sangue?
— A ideia foi sua, cachorro — disse Rosalie de cara feia, mas sem nem sequer olhar para mim.
Eu a ignorei e observei Carlisle. O mesmo espectro de esperança que estivera no rosto de Edward estava agora nos olhos do médico. Ele franziu os lábios, especulando.
— Isso simplesmente é... — Não consegui encontrar a palavra certa.
— Monstruoso? — sugeriu Edward. — Repulsivo?
— Demais.
— Mas e se ajudá-la? — sussurrou ele.
Sacudi a cabeça, com raiva.
— O que vai fazer? Enfiar um tubo pela goela dela?
— Pretendo perguntar o que ela acha. Eu só queria a opinião de Carlisle primeiro.
Rosalie assentiu.
— Se disser a ela que isso pode ajudar o bebê, ela vai se dispor a fazer qualquer coisa. Mesmo que tenhamos de alimentá-los com um tubo.
Então percebi – quando ouvi como sua voz ficou toda melosa quando ela disse a palavra bebê – que a Loura concordaria com o que quer que ajudasse o monstrinho sugador de vida. Era isso o que estava acontecendo, o fator misterioso que ligava as duas? Rosalie queria o garoto?
Pelo canto do olho vi Edward assentir uma vez, desatento, sem olhar para mim. Mas eu sabia que ele estava respondendo às minhas perguntas.
Hummm. Eu ia imaginar que a Barbie de gelo teria um lado maternal. Não tinha relação com proteger Bella – Rosalie provavelmente enfiaria o tubo pela garganta de Bella ela mesma.
A boca de Edward formou uma linha rígida, e eu sabia que tinha razão de novo.
— Bem, não temos tempo para ficar sentados discutindo — disse Rosalie com impaciência. — O que você acha, Carlisle? Podemos tentar?
Carlisle respirou fundo e se levantou.
— Vamos perguntar a Bella.
A Loura sorriu presunçosa – certa de que, se cabia a Bella, iria conseguir o que queria. Eu me arrastei da escada e os segui enquanto desapareciam na casa. Não sabia bem por quê. Só curiosidade mórbida, talvez. Era como um filme de terror. Monstros e sangue por toda parte.
Ou, talvez, eu simplesmente não conseguisse resistir a mais uma dose de minha droga, que chegava ao fim.
Bella estava deitada na cama de hospital, a barriga, uma montanha sob o lençol. Ela parecia de cera – sem cor e meio transparente. Dava para pensar que já estivesse morta, a não ser pelo movimento mínimo de seu peito, a respiração fraca. E havia os olhos, seguindo nós quatro com uma desconfiança exaurida.
Os outros já estavam ao lado dela, andando pela sala com movimentos rápidos e repentinos. Era apavorante de ver. Eu andava num passo lento.
— O que está havendo? — perguntou Bella num sussurro áspero.
Sua mão de cera se ergueu, retorcida, como se tentasse proteger a barriga em forma de balão.
— Jacob teve uma ideia que pode ajudá-la — disse Carlisle. Eu queria que ele me deixasse fora daquilo. Não havia sugerido nada. Dê o crédito ao marido sanguessuga, era ele que merecia. — Não vai ser... agradável, mas...
— Mas vai ajudar o bebê — interrompeu Rosalie, impaciente. — Pensamos numa forma melhor de alimentá-lo. Talvez.
As pálpebras de Bella tremeram. Depois ela tossiu, com uma risada fraca.
— Não é agradável? — sussurrou ela. — Nossa, que mudança.
Ela olhou o tubo enfiado em seu braço e tossiu de novo.
A Loura riu com ela. A garota parecia que só tinha horas de vida e devia estar sentindo dor, mas fazia piada. Tão típico de Bella... Tentando aliviar a tensão, tornar tudo melhor para todos.
Edward contornou Rosalie, nenhuma sombra de humor em sua expressão intensa. Fiquei feliz por isso. Ajudava, só um pouquinho, que ele estivesse sofrendo mais do que eu. Ele pegou a mão dela, mas não a que ainda protegia a barriga estufada.
— Bella, amor, vamos lhe pedir que faça uma coisa monstruosa — disse ele, usando os mesmos adjetivos que havia me sugerido. — Repulsiva.
Bom, pelo menos ele era franco com ela.
Ela tornou fôlego de modo entrecortado, agitada.
— É muito ruim?
Carlisle respondeu.
— Achamos que o feto pode ter um apetite mais próximo do nosso que do seu. Acreditamos que esteja com sede.
Ela piscou.
— Ah. Ah.
— Seu estado... o estado dos dois... está se degradando rapidamente. Não temos tempo para perder, para pensar em formas mais palatáveis de fazer isso. A maneira mais rápida de testar essa teoria...
— Eu tenho de beber — sussurrou ela, fazendo que sim levemente, mal encontrando energia para um pequeno movimento de cabeça. — Posso fazer isso. É treinar para o futuro, não? — Seus lábios sem cor se esticaram num sorriso fraco enquanto ela olhava para Edward. Ele não sorriu.
Rosalie começou a bater o pé, impaciente. O som era verdadeiramente irritante. Perguntei-me o que ela faria se eu a atirasse pela parede bem naquele minuto.
— E, então, quem vai me trazer um urso pardo? — sussurrou Bella.
Carlisle e Edward se entreolharam rapidamente. Rosalie parou de bater o pé.
— O que foi? — perguntou Bella.
— Será um teste mais eficaz se evitarmos subterfúgios, Bella — disse Carlisle.
— Se o feto deseja sangue — explicou Edward — não é sangue de animal.
— Não vai fazer diferença para você, Bella. Não pense nisso — encorajou Rosalie.
Os olhos de Bella se arregalaram.
— Quem? — sussurrou ela, e seu olhar pousou em mim.
— Não estou aqui como doador, Bells — grunhi. — Além disso, é sangue humano que a coisa quer, e não acho que o meu vá servir...
— Temos sangue à mão — disse-lhe Rosalie, interrompendo-me, como se eu não estivesse presente. — Para você... caso precise. Não se preocupe com nada. Vai ficar tudo bem. Tenho um bom pressentimento com relação a isso, Bella. Acho que o bebê vai ficar muito melhor.
A mão de Bella deslizou pela barriga.
— Bom — disse ela com a voz quase inaudível. — Eu estou morrendo de fome, então acho que ele também está. — Tentando fazer outra piada. — Vamos com isso. Meu primeiro ato de vampira.

3 comentários:

  1. Barbie de gelo kkkkkk esse Jacob é muito lindo kkkk
    amo a saga Parabéns karina está ótimo

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  2. E então, quem vai me trazer um urso pardo?-bella sussurrou.
    kkk essa bella é doida.

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