28 de setembro de 2015

Capítulo 11 - Os dois primeiros itens na minha lista de “coisas que jamais quero fazer”

Sam começou a organizar os outros em formação, enquanto eu ainda estava no chão. Embry e Quil, um de cada lado, esperavam que eu me recuperasse e tomasse a frente.
Eu podia sentir o ímpeto, a necessidade de me levantar e liderá-los. A compulsão crescia e eu lutava contra ela inutilmente, encolhendo-me no chão.
Embry gemeu baixinho em meu ouvido. Ele não queria pensar as palavras, com medo de novamente chamar a atenção de Sam para mim. Senti sua súplica muda para que eu me erguesse, acabasse com aquilo de uma vez por todas.
Havia medo nos membros da matilha – não tanto por si mesmos, mas pelo grupo. Não podíamos acreditar que todos sairiam vivos naquela noite. Que irmãos perderíamos? Que mentes nos deixariam para sempre? Que famílias de luto estaríamos consolando pela manhã?
Minha mente começou a trabalhar com a deles, a pensar em uníssono, enquanto lidávamos com esses medos. Automaticamente, levantei-me e sacudi o pelo.
Embry e Quil bufaram de alívio. Quil tocou o focinho na lateral do meu corpo. Suas mentes estavam tomadas por nosso desafio, nossa missão. Lembramos juntos as noites em que vimos os Cullen treinando para a luta com os recém-criados. Emmett Cullen era o mais forte, mas Jasper seria o maior problema. Ele se movimentava como um raio – poder, velocidade e morte em um só corpo. Quantos séculos de experiência ele tinha? O suficiente para que todos outros Cullen procurassem sua orientação.
Ficarei à frente, se quiser flanquear, propôs Quil. Havia mais excitação sua mente que na dos outros. Quando vira as instruções de Jasper naquelas noites, Quil havia ficado morrendo de vontade de testar sua habilidade contra os vampiros. Para ele, aquilo seria uma competição. Mesmo sabendo que era sua vida que estava em jogo, ele via dessa maneira. Paul também via assim, e ainda os garotos que nunca estiveram em batalha: Collin e Brady. Seth, provavelmente, teria sentido o mesmo – se os adversários não fossem seus amigos.
Jake?, Quil me cutucou. Como quer fazer?
Eu apenas sacudi a cabeça. Não conseguia me concentrar – a compulsão de seguir ordens dava a sensação de cordões de marionete enganchados em todos os meus músculos. Um pé para a frente, agora outro.
Seth se arrastava atrás de Collin e Brady – Leah tinha assumido a dianteira. Ela ignorava Seth enquanto planejava com os outros, e pude ver que teria preferido deixá-lo fora da luta. Havia um viés maternal em seus sentimentos pelo irmão mais novo. Ela queria que Sam o mandasse para casa. Seth não registrava as dúvidas de Leah. Também estava se adaptando aos cordões de marionete.
Talvez, se você parasse de resistir..., sussurrou Embry.
Simplesmente concentre-se em nossa parte. Os grandões. Podemos derrubá-los. Eles são nossos! Quil estava se animando – como numa preleção antes de um grande jogo.
Eu via como poderia ser fácil – não pensar em nada, a não ser na minha parte. Não era difícil visualizar o ataque a Jasper e Emmett. Já havíamos estado perto disso antes. Por muito tempo eu pensara neles como inimigos. Poderia fazer isso de novo.
Eu só devia esquecer que eles estavam protegendo o que eu também protegeria. Devia esquecer o motivo de eu talvez desejar que eles vencessem...
Jake, alertou Embry. Mantenha a cabeça no jogo.
Meus pés se arrastavam, resistindo ao puxar das cordinhas.
Não tem sentido resistir, sussurrou Embry de novo.
Ele tinha razão. Eu acabaria fazendo o que Sam queria, se ele estivesse disposto a me forçar. E ele estava. Era evidente.
Havia um bom motivo para a autoridade do alfa. Até uma matilha forte como a nossa não era de muito valor sem um líder. Precisávamos nos movimentar juntos, pensar juntos, para sermos eficazes. E isso exigia que o corpo tivesse uma cabeça.
E se Sam estivesse errado? Não havia nada que pudéssemos fazer. Ninguém podia contestar sua decisão. A não ser...
E lá estava – uma ideia que eu nunca, jamais, quisera ter. Mas ali, com minhas pernas presas a cordões, reconheci a exceção com alívio – mais do que alívio: com uma alegria feroz. Ninguém podia contestar as decisões do alfa – a não ser eu.
Eu não havia conquistado nada. Mas algumas coisas nasceram comigo, coisas que nunca reivindicara. Jamais quisera ser o líder da matilha. Não queria ser naquela hora. Não queria que meus ombros carregassem a responsabilidade pelo destino de todos. Sam era melhor nisso do que eu jamais seria.
Mas, naquela noite, ele estava errado. E eu não tinha nascido para me ajoelhar diante dele. As amarras caíram de meu corpo no segundo em que assumi meu direito de nascença.
Eu podia senti-los crescendo em mim, tanto a liberdade quanto um poder estranho e vazio. Vazio porque o poder de um alfa vem de sua matilha, e eu não tinha nenhuma. Por um segundo, a solidão me sufocou.
Eu não tinha mais matilha.
Mas fui decidido e forte ao me dirigir até onde estava Sam, traçando planos com Paul e Jared. Ele se virou quando me ouviu avançar, e seus olhos negros se estreitaram.
Não, eu disse a ele de novo.
Ele ouviu no mesmo instante – ouviu a decisão que eu tinha tomado na voz de alfa em meus pensamentos.
Então, saltou meio passo para trás, com um ganido chocado. Jacob? O que você fez?
Não vou seguir você, Sam. Não por um motivo tão errado.
Ele me encarou, atordoado. Você... preferiria seus inimigos a sua família?
Eles não são – sacudi a cabeça, clareando a mente – eles não são nossos inimigos. Nunca foram. Até eu realmente pensar em destruí-los, até refletir sobre o assunto, eu não via isso.
Não se trata deles, Sam rosnou para mim. Trata-se de Bella. Ela nunca foi certa para você, nunca o escolheu, mas você continua a destruir sua vida por ela! Eram palavras duras, mas verdadeiras. Inspirei profundamente, e assimilei-as junto com o ar.
Talvez você tenha razão. Mas vai destruir a matilha por causa dela, Sam. Não importa quantos sobrevivam esta noite, sempre terão a morte nas mãos.
Precisamos proteger nossas famílias!
Sei o que você decidiu, Sam. Mas você não decide por mim, não mais.
Jacob, não pode dar as costas à sua tribo.
Ouvi o eco dual de seu comando de alfa, mas dessa vez não tinha peso. Não se aplicava mais a mim. Ele trincou a mandíbula, tentando me obrigar a reagir a suas palavras.
Fitei seus olhos furiosos. O filho de Ephraim Black não nasceu para seguir o filho de Levi Uley.
Então é isso, Jacob Black? Seus pelos se eriçaram e o focinho recuou acima dos dentes. Paul e Jared rosnaram e se eriçaram ao lado dele. Mesmo que possa me derrotar, a matilha jamais seguirá você!
Agora eu saltei para trás com um ganido de surpresa escapando de minha garganta.
Derrotar você? Não vou lutar com você, Sam.
Então, qual é seu plano? Não vou abrir caminho para você proteger o filhote de vampiro à custa da tribo.

Eu não estou lhe dizendo que saia do caminho. Se você ordenar a eles que o sigam... Eu nunca tirarei a vontade de ninguém.
A cauda de Sam chicoteava de um lado para outro enquanto ele recuava com a crítica das minhas palavras. Em seguida, ele deu um passo adiante, de modo que ficamos frente a frente, seus dentes expostos a centímetros dos meus. Até esse momento eu não tinha percebido que ficara mais alto do que ele.
Não pode haver mais de um alfa. A matilha me escolheu. Vai nos separar esta noite? Vai se voltar contra seus irmãos? Ou vai parar com essa insanidade e se juntar a nós? Cada palavra vinha carregada de comando, mas dessa vez não me atingiam. O sangue do alfa corria puro em minhas veias.
Eu podia ver por que nunca havia mais de um macho alfa em uma matilha. Meu corpo reagia ao desafio. Eu conseguia sentir o instinto de defender meus direitos crescendo em mim. A essência primitiva de minha identidade de lobo se preparava para a batalha da supremacia.
Concentrei minha energia em controlar essa reação. Eu não entraria numa briga inútil e destrutiva com Sam. Ele ainda era meu irmão, embora eu estivesse rejeitando.
Só há um alfa nesta matilha. Não estou contestando isso. Só estou decidindo seguir outro caminho.
Seu grupo agora são os vampiros, Jacob?
Eu me encolhi.
Não sei, Sam. Mas sei de uma coisa...
Ele se retraiu ao sentir o peso do alfa em meu tom. Isso o afetava mais do que as palavras dele a mim. Porque eu tinha nascido para liderá-lo.
Eu vou ficar entre vocês e os Cullen. Não vou simplesmente assistir enquanto a matilha mata pessoas inocentes – era difícil aplicar essa palavra a vampiros, mas era a verdade. A matilha é melhor do que isso. Lidere-a na direção certa, Sam.
Dei as costas a ele e um coro de uivos rasgou o ar à minha volta.
Cravando as garras na terra, afastei-me correndo do alvoroço que causara. Eu não tinha muito tempo. Pelo menos Leah era a única que podia me vencer na velocidade, e eu tinha uma boa dianteira.
O uivo desaparecia com a distância, e eu me reconfortei enquanto o som continuava a romper o silêncio da noite. Eles ainda não estavam atrás de mim.
Eu precisava alertar os Cullen antes que a matilha pudesse se reorganizar e me impedir. Se os Cullen estivessem preparados, Sam teria um motivo para repensar, antes que fosse tarde demais. Disparei para a casa branca que ainda odiava, deixando meu lar para trás. O lar que não era mais meu. Eu lhe voltara as costas.
O dia tinha começado como qualquer outro: eu fiz minha patrulha durante o amanhecer chuvoso, houve o café da manhã com Billy e Rachel, programas ruins na tevê, a implicância com Paul... Como foi que mudou tanto, que ficou tão surreal? Como tudo ficou fora de lugar e distorcido a ponto de eu estar ali, completamente só, um alfa contra a minha vontade, separado dos irmãos, escolhendo os vampiros em vez deles?
O som que eu temia interrompeu meus pensamentos confusos – o impacto suave de patas grandes no chão, perseguindo-me. Lancei-me para a frente, disparando como um foguete pela floresta escura. Eu só precisava chegar perto o suficiente para que Edward ouvisse o alerta em minha mente. Leah não seria capaz de me deter sozinha.
E, então, captei a disposição dos pensamentos atrás de mim. Não era raiva, mas entusiasmo. Não me caçava... me seguia. Perdi o passo. Cambaleei duas passadas antes de retomar o ritmo.
Espere. Minhas pernas não são tão compridas quanto as suas.
Seth! O que pensa que está fazendo? Vá para casa!
Ele não respondeu, mas pude sentir sua empolgação enquanto se mantinha bem atrás mim. Eu podia ver por seus olhos e ele podia ver pelos meus. A cena noturna era triste para mim – cheia de desespero. Para ele, era cheia de esperança.
Não percebi que tinha desacelerado, mas, de repente, ele estava no meu flanco, correndo ao meu lado.
Não estou brincando, Seth! Isto não é lugar para você. Saia daqui.
O lobo caramelo e desajeitado resfolegou. Estou do seu lado, Jacob. Acho que tem razão. Não vou apoiar Sam se...
Ah, sim, você vai apoiar Sam, sim! Volte com essa sua bunda peluda para La Push e faça o que Sam mandar.
Não.
Vá, Seth!
Isso é uma ordem, Jacob?
A pergunta dele me fez parar. Derrapei no chão, minhas garras cavando sulcos na lama.
Não estou ordenando que ninguém faça nada. Só estou dizendo o que você já sabe.
Ele se sentou sobre as patas traseiras ao meu lado. Vou dizer o que eu sei: eu sei que está um silêncio horroroso. Não percebeu?
Pisquei. Minha cauda cortava o ar nervosamente à medida que eu percebia o que ele estava querendo dizer. Em um sentido, não havia silêncio. Os uivos ainda enchiam o ar, longe, a oeste.
Eles não se transformaram de volta, disse Seth.
Eu sabia disso. A matilha agora estaria em alerta vermelho. Eles estariam usando o elo mental para ver todos os lados com clareza. Mas eu não conseguia ouvir o que estavam pensando. Só podia ouvir Seth. Mais ninguém.
Parece que matilhas separadas não têm vínculo. Hum. Acho que não houve motivo para nossos pais saberem isso. Porque não houve motivo para separar matilhas. Nunca houve lobos suficientes para duas. Caramba. Está muito silencioso. É meio sinistro. Mas também é bom, não acha? Aposto que era mais fácil assim, para Ephraim ,Quil e Levi. Bem menos falatório, só com três. Ou só dois.
Cale a boca, Seth.
Sim, senhor.
Pare com isso! Não existem duas matilhas. Só existe a matilha, e eu. É só isso. Agora pode ir para casa.
Se não existem duas matilhas, então por que podemos nos ouvir, mas não ouvimos os outros? Acho que o fato de você dar as costas para Sam foi uma atitude muito significativa. Uma mudança. E quando eu segui você, acho que foi significativo também.
Você tem razão, cedi. Mas o que pode mudar, também pode reverter.
Ele se levantou e começou a trotar para o leste. Não há tempo para discutir sobre isso. Precisamos continuar antes que Sam...
Ele tinha razão sobre essa parte. Não havia tempo para aquela discussão. Voltei a correr, sem acelerar tanto. Seth ficou nos meus calcanhares, ocupando o tradicional lugar do Segundo em meu flanco direito.
Posso correr em qualquer outro lugar, ele pensou, o focinho baixando um pouco. Não segui você porque queria uma promoção.
Corra onde quiser. Não faz diferença para mim.
Não havia som de perseguição, mas nós dois aceleramos um pouco ao mesmo tempo. Agora eu estava preocupado. Se eu não pudesse entrar na mente da matilha, as coisas ficariam mais difíceis. Minha capacidade de antecipar o ataque não seria melhor que a dos Cullen.
Vamos correr em patrulhas, sugeriu Seth.
E o que faremos se a matilha os desafiar? Meus olhos se estreitaram. Atacar nossos irmãos? Sua irmã?
Não, soamos o alarme e recuamos.
Boa resposta. Mas e depois? Não acho...
Eu sei, concordou ele, agora menos confiante. Também não acho que eu possa lutar com eles. Mas eles não estarão mais felizes com a ideia de nos atacar do que nós com a de atacá-los. Isso pode bastar para detê-los onde estiverem. Além disso, agora eles são apenas oito.
Pare de ser tão... Precisei de um minuto para escolher a palavra certa. Otimista. Isso me dá nos nervos.
Tudo bem. Quer que eu fique para baixo e desanimado, ou que só cale a boca?
Só cale a boca.
Posso fazer isso.
É mesmo? Não parece.
Ele finalmente ficou em silêncio.
E então estávamos do outro lado da estrada, passando pelo bosque que circulava a casa dos Cullen. Será que Edward já podia nos ouvir?
Talvez devêssemos pensar em algo como: “Viemos em paz.”
Vai nessa.
Edward? Ele chamou o nome, inseguro. Edward, está aí? Tudo bem, agora eu me sinto meio idiota.
E parece um idiota.
Acha que ele pode nos ouvir?
Estávamos a menos de um quilômetro e meio. Acho que sim. Ei, Edward. Se puder me ouvir...
Levante as barricadas, sanguessuga. Você tem um problema.
Nós temos um problema, corrigiu Seth.
Depois saímos das árvores para o grande gramado. A casa estava escura mas não vazia. Edward estava de pé na varanda, entre Emmett e Jasper. Brancos como a neve, na luz pálida.
— Jacob? Seth? O que está havendo?
Reduzi o passo e avancei um pouco. O cheiro era tão forte com aquele focinho que, sinceramente, parecia queimar. Seth resmungou baixo, hesitando e de repente recuou para trás de mim.
Para responder à pergunta de Edward, deixei minha mente repassar o confronto com Sam, indo de trás para a frente. Seth pensou comigo, preenchendo as lacunas, mostrando a cena de outro ângulo. Paramos quando chegamos à parte sobre a “abominação”, pois Edward sibilou furioso e saltou da varanda.
— Eles querem matar Bella? — rosnou, sem entonação.
Emmett e Jasper, sem ter ouvido a primeira parte da conversa, tomaram a falta de inflexão de Edward como uma declaração. No mesmo segundo estavam ao lado dele, os dentes à mostra ao avançarem em nossa direção.
Ei, espere aí, pensou Seth, recuando.
— Em, Jazz... eles não! Os outros. A matilha está vindo.
Emmett e Jasper se assustaram. Emmett virou-se para Edward enquanto Jasper ficava de olho em nós.
— Qual é o problema deles? — perguntou Emmett.
— O mesmo que eu tenho — sibilou Edward. — Mas eles têm seus próprios planos para lidar com isso. Fale com os outros. Ligue para Carlisle! Ele e Esme precisam voltar para cá agora.
Gemi, inquieto. Eles estavam separados.
— Eles não estão longe — falou Edward na voz sem vida que usara antes.
Vou sair para dar uma olhada, disse Seth. Correr o perímetro oeste.
— Estará em perigo, Seth? — perguntou Edward.
Seth e eu trocamos um olhar.
Não acredito nisso, pensamos juntos. E, então, acrescentei: Mas talvez eu devesse ir. Só por precaução...
É menos provável que eles me desafiem, observou Seth. Eu sou só um garoto para eles.
É só um garoto para mim também, garoto.
Vou sair daqui. Você precisa se organizar com os Cullen.
Ele girou e disparou para a escuridão. Eu não ia ordenar que Seth voltasse, então deixei que partisse.
Edward e eu ficamos nos encarando na campina escura. Eu podia ouvir Emmett murmurando ao telefone. Jasper estava observando o lugar onde Seth desaparecera no bosque. Alice apareceu na varanda e então, depois de me fitar com olhos ansiosos por um bom tempo, seguiu rapidamente para o lado de Jasper. Imaginei que Rosalie estivesse lá dentro com Bella. Ainda protegendo-a... dos perigos errados.
— Esta não é a primeira vez que lhe devo minha gratidão, Jacob — sussurrou Edward. — Eu nunca teria pedido isso a você.
Pensei no que ele me pedira mais cedo. Quando se tratava de Bella, não havia limites que ele não ultrapassasse. Sim, você teria.
Ele pensou um pouco e assentiu.
— Creio que você tenha razão.
Soltei um suspiro pesado. Bem, essa não é a primeira vez que faço algo e não é por você.
— Certo — murmurou ele.
Lamento não ter conseguido nada hoje. Eu lhe disse que ela não me daria ouvidos.
— Eu sei. Não acreditei mesmo que ela daria. Mas...
Você precisava tentar. Eu sei. Ela está melhor?
Sua voz e seus olhos ficaram vazios.
— Pior — sussurrou ele.
Eu não queria aceitar essa palavra. Fiquei grato quando Alice falou.
— Jacob, importa-se de mudar de forma? — perguntou ela. — Quero saber o que está acontecendo.
Sacudi a cabeça ao mesmo tempo que Edward respondeu.
— Ele precisa ficar sintonizado com Seth.
— Bom, então você faria a gentileza de me contar o que está havendo?
Ele explicou em frases entrecortadas e sem emoção.
— A matilha acha que Bella se tornou um problema. Eles preveem um perigo potencial com... com o que ela está carregando. Sentem que é dever deles eliminar o perigo. Jacob e Seth se separaram da matilha para nos alertar. Os outros estão planejando atacar esta noite.
Alice sibilou, inclinando-se para longe de mim. Emmett e Jasper trocaram um olhar; em seguida seus olhos percorreram as árvores.
Não há ninguém lá fora, reportou Seth. Tudo está tranquilo no fronte ocidental.
Eles podem dar a volta.
Vou fechar o círculo.
— Carlisle e Esme estão a caminho — disse Emmett. — Vinte minutos no máximo.
— Precisamos estudar uma posição defensiva — disse Jasper.
Edward assentiu.
— Vamos entrar.
Vou percorrer o perímetro com Seth. Se eu estiver longe demais para ouvir meus pensamentos, fique atento ao meu uivo.
— Combinado.
Eles voltaram para a casa, os olhos disparando para todos os lados. Antes que entrassem, virei-me e corri para o oeste.
Ainda não estou encontrando nada, disse-me Seth.
Vou fazer metade do círculo. Ande rápido, eles não podem ter a oportunidade de passar sem ser notados.
Seth avançou numa explosão repentina de velocidade. Corremos em silêncio, e os minutos se passaram. Eu ouvia os ruídos em volta dele, certificando-me de sua avaliação.
Ei, alguma coisa vem vindo rápido!, alertou ele depois de quinze minutos de silêncio. Na minha direção!
Mantenha posição, não acho que seja a matilha. Parece diferente. Seth...
Mas ele captou o cheiro que se aproximava na brisa, e eu li sua mente.
Vampiro. Aposto que é Carlisle.
Seth, recue. Pode ser outro.
Não, são eles. Eu reconheço o cheiro. Espere aí, vou me transformar para explicar a eles.
Seth, não acho...
Mas eu o tinha perdido.
Ansioso, corri ao longo da margem oeste. Não seria simplesmente esplêndido se eu não conseguisse cuidar de Seth pela droga de uma noite? E se alguma coisa acontecesse a ele sob minha supervisão? Leah faria picadinho de mim.
Pelo menos o garoto foi rápido. Não se passaram nem dois minutos e o senti em minha mente de novo.
É Carlisle e Esme. Rapaz, eles ficaram surpresos quando me viram! Devem estar lá dentro agora. Carlisle agradeceu. Ele é um bom sujeito.
É. Esse é um dos motivos por que temos razão nesta história. Espero que sim.
Por que está tão deprimido, Jake? Aposto que Sam não vai trazer a matilha esta noite. Ele não vai se lançar numa missão suicida.
Suspirei. De qualquer forma, aquilo não parecia importar. Ah! Então não é tanto por Sam, não é?
Fiz a volta no fim de minha patrulha. Captei o cheiro de Seth onde ele havia virado. Não estávamos deixando nenhum hiato.
Você acha que, de qualquer jeito, Bella vai morrer, sussurrou Seth. E ela vai. Coitado do Edward. Ele deve estar louco. Literalmente.
O nome de Edward trouxe outras lembranças fervilhantes à superfície. Seth as leu, estupefato.
E então começou a uivar. Ah, cara! De jeito nenhum! Você não fez isso! Isso é uma bobagem sem tamanho, Jacob! E você sabe disso! Não acredito que disse que o mataria. Por quê? Precisa dizer a ele que não.
Cale a boca, cale a boca, seu idiota! Eles vão pensar que a matilha está vindo.
Epa! Ele se interrompeu no meio do uivo.
Girei e comecei a me dirigir para a casa. Fique fora disso, Seth. Patrulhe o perímetro todo agora.
Seth estava fervendo de raiva e eu o ignorei.
Alarme falso, alarme falso, eu pensava à medida que me aproximava correndo. Desculpe. Seth é jovem. Ele se esquece das coisas. Ninguém está atacando. Alarme falso. Quando cheguei à campina, pude ver Edward olhando de uma janela escura. Eu corri, querendo me certificar de que ele tinha entendido a mensagem. Não há nada lá fora... Entendeu? Ele assentiu uma vez.
Seria muito mais fácil se a comunicação não fosse de mão única. Mas, por outro lado, eu me sentia feliz por não estar na cabeça dele.
Ele olhou por cima do ombro, para dentro da casa, e vi um tremor percorrer seu corpo. Ele me dispensou com um gesto, sem voltar a olhar para mim e saiu do meu campo de visão.
O que está havendo?
Como se eu fosse obter uma resposta. Sentei-me completamente imóvel na campina e fiquei ouvindo aqueles barulhos, eu quase podia ouvir os passos suaves de Seth a quilômetro na floresta. Era fácil ouvir qualquer som dentro da casa escura.
— Foi um alarme falso — explicava Edward naquela voz morta, repetindo o que eu dissera a ele. — Seth ficou aborrecido com alguma coisa e se esqueceu de que estávamos esperando por um sinal. Ele é muito jovem.
— Que ótimo ter bebês guardando o forte — grunhiu uma voz grave. Emmett, pensei.
— Eles nos prestaram um grande serviço hoje, Emmett — disse Carlisle. — A custa de um grande sacrifício pessoal.
— É, eu sei. Só estou com inveja. Queria estar lá fora.
— Seth não acha que Sam vá nos atacar agora — disse Edward mecanicamente. — Não se estamos de sobreaviso, e eles sem dois membros da matilha.
— O que Jacob acha? — perguntou Carlisle.
— Ele não é tão otimista.
Ninguém falou. Eu ouvia um gotejar baixo que não consegui identificar. Ouvi a respiração baixa deles – e pude distinguir a respiração de Bella das demais. Era mais áspera, mais difícil. Disparava e se interrompia em ritmos estranhos. Eu podia ouvir seu coração. Parecia... rápido demais. Tentei comparar o batimento cardíaco com o meu, mas não sabia se servia de parâmetro. Eu não era lá muito normal.
— Não toque nela! Vai acordá-la — sussurrou Rosalie.
Alguém suspirou.
— Rosalie — murmurou Carlisle.
— Não comece, Carlisle. Deixamos que você tentasse de seu jeito mais cedo, mas aquilo foi a única concessão.
Parecia que Rosalie e Bella agora falavam no plural. Como se formassem um clã só delas.
Andei em silêncio na frente da casa. Cada passo me deixava mais perto. As janelas escuras eram como aparelhos de tevê em alguma sala de espera idiota – era impossível tirar os olhos dali por muito tempo.
Mais alguns minutos, mais alguns passos, e meu pelo estava roçando a lateral da varanda.
Eu podia ver pelas janelas – o alto das paredes e o teto, o lustre pendente. Eu era tão alto que tudo o que precisaria fazer era esticar um pouco o pescoço... e talvez colocar uma pata na beira da varanda...
Espiei pela grande porta da frente, aberta, esperando ver algo semelhante à cena da tarde. Mas tudo estava tão diferente que a princípio fiquei confuso, por um segundo pensei que estivesse olhando a sala errada.
A parede de vidro não estava mais ali – agora parecia de metal, e a mobília fora toda arrastada. Bella estava enroscada de uma forma estranha em uma cama estreita no meio do espaço aberto. Não uma cama comum – uma com grades, como um leito de hospital. Também como num hospital, havia monitores ligados a seu corpo, tubos enfiados em sua pele. As luzes nos monitores piscavam, mas não havia som. O gotejar que eu tinha ouvido vinha do tubo intravenoso preso a seu braço – algum fluido espesso e branco, opaco.
Bella engasgou levemente, em seu sono inquieto, e tanto Edward quanto Rosalie se aproximaram para observá-la. Seu corpo sacudiu e ela gemeu. Rosalie passou a mão na testa de Bella. O corpo de Edward enrijeceu – ele estava de costas para mim, mas sua expressão deve ter chamado a atenção, porque Emmett se pôs entre os dois num piscar de olhos. Ele ergueu as mãos para Edward.
— Esta noite não, Edward. Temos outras coisas com que nos preocupar.
Edward se afastou deles, e era de novo o homem em chamas. Seus olhos encontraram os meus por um momento e eu voltei a ficar de quatro.
Corri de volta para a floresta escura, para me juntar a Seth, fugindo do que ficou atrás de mim. Pior. Sim, ela estava pior.

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