25 de setembro de 2015

Capítulo 11 - Lendas

—Você vai comer esse cachorro quente?— Paul perguntou a Jacob, os olhos dele permaneceram grudados nos últimos vestígios de uma enorme refeição que os lobisomens haviam consumido.
Jacob se encostou nos meus joelhos e brincou com o cachorros quente que estava enfiado num fio de aço esticado, as chamas nas beiras da fogueira lambiam a sua pele empolada. Ele suspirou com força e deu um tapinha no estômago. De alguma forma, ele ainda estava plano, apesar de eu já ter perdido as contas de quantos cachorros quentes ele havia comido depois do décimo. Sem mencionar um saco gigante de batatas e duas garrafas de cerveja preta.
—Eu acho—, Jacob disse lentamente. —Eu estou tão cheio que estou prestes a vomitar, mas eu acho que ainda posso forçá-lo a descer. No entanto, eu não vou gostar disso nem um pouco—. Ele disse de novo tristemente.
Apesar do fato de que Paul havia comido pelo menos tanto quanto Jacob, ele ficou com raiva e as mãos dele fincaram nos pulsos.
—Nossa—, Jacob riu. —Brincando, Paul. Aqui—.
Ele jogou a comida feita em casa através do círculo, eu esperei que o cachorro quente caísse na areia, mas Paul o pegou pela direita sem dificuldade.
Andar por aí com ninguém além de pessoas destras o tempo todo ia acabar me deixando com complexo.
—Valeu, cara—, Paul disse, já superando o seu breve acesso de raiva.
A fogueira de partiu, baixando mais na areia. Faíscas brilharam numa nuvem repentina de um laranja brilhante contra o céu preto. Engraçado, eu não tinha reparado que o sol tinha se posto. Pelo primeiro vez, eu me perguntei quão tarde era. Eu perdi completamente a noção do tempo.
Era mais fácil ficar com os meus amigos Quileute do que eu tinha esperado.
Enquanto Jacob e eu deixávamos a minha moto na garagem – e ele admitia sem vontade que o capacete era uma boa ideia e que ele devia ter pensado nisso – eu comecei a me preocupar em aparecer com ele na fogueira, imaginando que os lobisomens iam me considerar uma traidora agora.
Será que eles ficariam com raiva de Jacob por ter me convidado? Será que eu arruinaria a festa?
Mas quando Jacob me acompanhou pela floresta para o topo dos penhascos no local do encontro – onde o fogo já queimava mais brilhante do que o sol obscurecido pelas nuvens – tudo estava muito leve e casual.
—Ei, garota vampira!—, Embry me cumprimentou alto. Quil tinha levantado pra bater na minha mão e me beijar na bochecha. Emily apertou a minha mão quando eu me sentei no chão frio de pedra ao lado dela e de Sam.
Além das reclamações de brincadeira – em maioria de Paul – sobre estar com fedor de sugadores de sangue, eu fui tratada com alguém que pertencia ali.
E também não foi só uma festa de jovens. Billy estava lá, sua cadeira de rodas estacionada no que parecia ser a cabeça natural do círculo. Ao lado dele, numa cadeira dobrável, parecendo bastante frágil, estava o velho avô de Quil, de cabelos brancos, o Velho Quil. Sue Clearwater, viúva de Harry o amigo de Charlie, estava numa cadeira do outro lado; os dois filhos dela, Leah e Seth, também estavam lá, sentados no chão como o resto de nós. Isso me surpreendeu, mas claramente eles três faziam parte do segredo agora. Pelo jeito que Billy e o velho Quil falavam com Sue, parecia que ela tinha tomado o lugar de Harry no conselho. Será que isso fazia os filhos dela membros automáticos da sociedade mais secreta de La Push?
Eu me perguntei o quanto devia ser horrível pra Leah se sentar num círculo com Sam e Emily. Seu rosto adorável traía a emoção, mas ela nunca desviou o rosto das chamas.Olhando para a perfeição do rosto de Leah, eu não pode deixar de compará-lo com o rosto arruinado de Emily. O que Leah pensava das cicatrizes de Emily, agora que ela sabia a verdade por trás delas? Será que elas pareciam com justiça nos olhos dela?
O pequeno Seth Clearwater já não era mais pequeno. Com o seu enorme sorriso feliz atravessando seu rosto, feito sem força, ele me lembrava de um Jacob muito mais novo.
Essa semelhança me fez sorrir, e depois suspirar. Será que Seth estava predestinado a ter a sua vida tão drasticamente mudada quanto as do resto dos rapazes? Seria esse o futuro pelo qual ele e sua família tinham permissão de ficar aqui?
O bando inteiro estava lá: Sam com a sua Emily, Paul, Embry, Quil, Jared com a sua Kim, a garota com a qual ele tinha tido um imprinting.
A minha primeira impressão de Kim foi de que ela era uma garota legal, um pouco tímida, um pouco normal. Ela tinha um rosto largo, as maçãs do rosto grandes, com olhos pequenos demais pra equilibrá-los. Seu nariz e boca eram largos demais pra se ajustarem ao padrão tradicional de beleza. Seu cabelo liso era fino e assanhado com o vento que nunca parecia parar no topo do penhasco.
Essa foi a minha primeira impressão. Mas depois de algumas horas observando Jared e Kim, eu não conseguia ver mais nada de normal na garota.
O jeito que ele olhava pra ela! Era como um homem cego vendo o sol pela primeira vez. Como um colecionador achando um Da Vinci desconhecido, como uma mãe olhando para o rosto do filho recém-nascido.
Seus olhos sonhadores me fizeram ver coisas novas sobre ela- a pele de cor ruiva dela parecia seda na luz do fogo, como a forma dos lábios dela eram uma curva dupla perfeita, como os dentes dela eram brancos em contraste com eles, como os cílios dela eram longos, varrendo suas bochechas quando ela olhava pra baixo.
As vezes a pele de Kim escurecia quando ela encontrava o olhar fascinado de Jared, e os olhos dela baixavam como se fosse por vergonha, mas ela tinha dificuldade em manter os olhos longe dele por muito tempo.
Observando eles, eu senti que podia entender melhor o que Jacob havia me dito antes sobre o imprinting – é difícil resistir a esse nível de comprometimento e adoração.
Kim estava balançando a cabeça no peito de Jared, os braços dele ao redor dela. Eu imaginei que ela devia estar bem aquecida ali.
—Está ficando tarde—, eu murmurei pra Jacob.
—Não comece com isso ainda— Jacob murmurou de volta – apesar de que certamente metade do círculo tinha ouvidos sensíveis o bastante pra nos ouvir mesmo assim. —A melhor parte está chegando—
—Qual é a melhor parte? Você vai engolir uma vaca inteira?—
Jacob riu seu riso baixo, gutural. —Não. Esse é o final. Nós não nos encontramos só pra comer a comida equivalente a uma semana inteira. Isso é tecnicamente uma reunião do conselho. Essa é a primeira vez de Quil, e ele ainda não ouviu as histórias. Bem, ele havia ouvido elas, mas essa é a primeira vez que ele sabe que elas são verdadeiras. Isso tende a fazer um cara prestar mais atenção. É a primeira vez de Kim e Seth e Leah também—.
—Histórias?—
Jacob inclinou pra trás ao meu lado, onde eu me encostava num cume baixo da pedra. Ele passou o braço pelos meus ombros e falou ainda mais baixo no meu ouvido.
—As histórias que sempre pensamos que fossem lendas—, ele disse. —As histórias de como chegamos a existir. A primeira história sobre os espíritos guerreiros—.
Era quase como se Jacob estivesse sussurrando a introdução. A atmosfera mudou de repente ao redor da fogueira baixa. Paul e Embry se sentaram mais eretos. Jared cutucou Kim e então puxou ela gentilmente pra cima.
Emily pegou um caderno de espiral e uma caneta, parecendo exatamente com uma estudante que havia sido escolhida para uma palestra importante. Sam se virou apenas um pouco ao lado dela – até que ele estivesse olhando na mesmo direção que o velho Quil, que estava do seu outro lado – e de repente eu me dei conta de que os anciões do conselho não eram três, mas quatro em número.
Leah Clearwater, o rosto dela ainda era uma linda máscara sem emoção, fechou os olhos- não como se ela estivesse cansada, mas como se fosse pra ajudar na concentração. O irmão dela se inclinou ansiosamente na direção dos anciões.
A fogueira partiu, mandando outra explosão de faíscas brilhando na noite.
Billy limpou sua garganta, e, sem nenhuma outra introdução além do sussurro dos seu filho, começou a contar a história com sua voz rica, profunda. As palavras fluíam com precisão, como se ele as soubesse com o coração, mas também com sentimento e um súbito ritmo. Como uma poesia recitada pelo seu autor.
—Os Quileute têm sido poucas pessoas desde o início—, Billy disse. —E ainda somos poucas pessoas, mas nós nunca desaparecemos. Isso é porque sempre houve a mágica em nosso sangue. Não era a mágica de mudar de forma – isso veio depois. Primeiro, nós éramos espíritos guerreiros—.
Eu nunca havia reconhecido antes a realeza que havia na voz de Billy, apesar de que agora eu me dava conta de que a autoridade sempre esteve lá.
Emily escrevia nas folhas de papel enquanto tentava acompanhar ele.
—No começo, a tribo se assentou nesse porto e se transformaram em habilidosos construtores de barco e pescadores. Mas a tribo era pequena, e o porto era rico em peixes. Haviam outros que desejavam as nossas terras, e nós éramos poucos pra enfrentá-los. Uma tribo maior se moveu contra nós, e nós entramos em nossos navios pra escapar deles.
—Kaheleha não foi o primeiro espírito guerreiro, mas nós não lembramos de outras histórias que venham antes dessa. Nós não lembramos de quem foi o primeiro a descobrir esse poder, ou como ele havia sido usado antes dessa crise. Kaheleha foi o primeiro grande Espírito Chefe na nossa história. Nessa emergência, Kaheleha usou a sua magia pra defender as nossas terras.
—Ele e todos os seus guerreiros abandonaram o navio – não seus corpos, mas seus espíritos. As suas mulheres cuidaram de seus corpos e das ondas,e os homens levaram seus espíritos de volta ao nosso porto.
—Eles não podiam tocar fisicamente a tribo inimiga, mas eles tinham outros meios. As histórias nos contam que eles puderam fazer um vento feroz soprar nos acampamentos inimigos; eles podiam fazer um grande grito no vento que aterrorizou seus inimigos. As histórias também nos contam que os animais podiam ver os espíritos guerreiros e compreende-los; os animais os licitavam.
—Kaheleha levou o seu exército de espíritos e criou o caos entre os intrusos. Essa tribo invasora tinha grandes bandos de cães grandes, furiosos que eles usavam pra puxar seus trenós no norte congelado. Os espíritos guerreiros fizeram com que os cães se virassem contra seus mestres e trouxessem uma poderosa infestação de morcegos das cavernas no penhascos. Eles usaram o vento gritante pra ajudar os cães a confundir os homens. Os cães e os morcegos venceram. Os sobreviventes fugiram, dizendo que o porto era amaldiçoado. Os cachorros correram livres quando os espíritos guerreiros os libertaram. Os Quileute retornaram pra seus corpos e suas esposas, vitoriosos.
—As outras tribos vizinhas, os Hoh e os Makah, fizeram acordos com os Quileute. Eles não queriam nada com a nossa magia. Nós vivemos em paz com eles. Quando um inimigo vinha contra nós, os espíritos guerreiros os afastavam.
—Gerações se passaram. Então veio o primeiro grande Espírito Chefe, Taha Aki. Ele era conhecido por sua sabedoria, e por ser um homem de paz. As pessoas viviam bem e contentes sob seus cuidados.
—Mas haviam um homem, Utlapa, que não estava contente.—
Um assobio correu pela fogueira. Eu era lenta demais pra descobrir de onde ele tinha vindo. Billy ignorou e continuou com a lenda.
—Utlapa era um dos espíritos guerreiros mais fortes do Chefe Taha Aki – um homem poderoso, mas um homem ganancioso também. Ele achava que as pessoas deviam usar sua magia pra expandir suas terras, escravizar os Hoh e os Makah e construir um império.
—Agora, quando os guerreiros se transformavam em seus espíritos, eles podiam ouvir os pensamentos uns dos outros. Taha Aki viu o que Utlapa sonhava, e ficou bravo com Utlapa. Utlapa foi ordenado a deixar o povo, e nunca usar o seu espírito de novo. Utlapa era um homem poderoso, mas os guerreiros do chefe eram um número que ele. Ele não teve escolha a não ser ir embora. O furioso excluído se escondeu na floresta nas proximidades, esperando pela chance pra se vingar de seu chefe.
—Mesmo em tempo de paz, o Chefe Espírito era vigilante na proteção ao seu povo. Frequentemente ele ia para um lugar secreto, sagrado, nas montanhas. Ele deixava o seu corpo pra trás e andava pelas florestas e pela costa, pra ter certeza de que nenhuma ameaça se aproximava.
—Um dia, quando o Chefe Taha Aki saiu pra fazer o seu trabalho, Utlapa o seguiu. No início, Utlapa apenas planejava matar o chefe, mas seu plano tinha suas desvantagens. Com certeza os espíritos guerreiros iam procurá-lo e destruí-lo, e eles podiam persegui-lo mais rápido do que ele podia fugir. Enquanto ele se escondia nas rochas o observava o chefe se preparar pra deixar seu corpo, outro plano ocorreu a ele.
—Taha Aki deixou seu corpo no local secreto e voou com os ventos pra manter a vigilância sobre seu povo. Utlapa esperou até que ele tivesse certeza de que o chefe havia viajado certa distância com seu ser espírito.
—Taha Aki soube o instante em que Utlapa se juntou a ele no mundo dos espíritos, e também soube do plano de assassinato de Utlapa. Ele correu de volta para o seu local secreto, mas mesmo os ventos não foram rápidos o suficiente pra salva-lo. Quando ele retornou, o seu corpo já tinha ido embora. O corpo de Utlapa estava abandonado, mas Utlapa não tinha deixado Taha Aki com uma escolha – ele havia cortado a garganta do seu próprio corpo com as mãos de Taha Aki.
—Taha Aki seguiu o seu próprio corpo pela montanha. Ele gritou com Utlapa, mas Utlapa o ignorou como se ele fosse apenas o vento.
—Taha Aki observou com desespero enquanto Utlapa pegava o seu lugar como chefe dos Quileute. Por algumas semanas, Utlapa não fez nada além de se certificar de que todos acreditavam que ele era Taha Aki. Aí as mudanças começaram – a primeira ordem de Utlapa foi proibir que qualquer guerreiro entrasse no mundo dos espíritos. Ele clamou que tinha uma visão do perigo, mas na verdade ele estava com medo. Ele sabia que Taha Aki estaria esperando pela chance de contar a sua história. O próprio Utlapa estava com muito medo de entrar no mundo dos espíritos, sabendo que Taha Aki rapidamente clamaria seu corpo. Então seus sonhos de conquista com um exército de espíritos guerreiros era impossível, e ele teve que se contentar em reinar sobre a tribo. Ele se tornou um fardo – procurando privilégios que Taha Aki nunca havia pedido, se recusando a trabalhar junto dos seus guerreiros, se casando com uma segunda jovem esposa, e depois uma terceira, apesar da esposa de Taha Aki ainda viver – em algum lugar desconhecido da tribo. Taha Aki observou furioso sem poder fazer nada.
—Eventualmente, Taha Aki tentou matar seu próprio corpo pra salvar a tribo dos desmandos de Utlapa. Ele trouxe um lobo feroz das montanhas, mas Utlapa se escondeu atrás de seus guerreiros. Quando o lobo matou um jovem que estava protegendo seu falso chefe, Taha Aki sentiu um terrível pesar. Ele ordenou que o lobo fosse embora.
—Todas as histórias nos contam que não eram fácil ser um espírito guerreiro. Era mais assustador do que excitante estar fora do seu próprio corpo. Era por isso que eles só usavam sua magia em tempos de necessidade. As viagens solitárias do chefe pra manter guarda eram um fardo e um sacrifício. Ficar sem corpo era desorientador, desconfortável, aterrorizante. Taha Aki esteve longe de seu corpo por tanto tempo que chegou um ponto que ele sentiu agonia. Ele sentiu que estava sentenciado – a nunca cruzar a linha para a terra final onde todos os seus ancestrais esperavam, preso naquele nada torturante pra sempre.
—O grande lobo seguiu o espírito de Taha Aki se contorcia e se estorcia em agonia pelas florestas. O lobo era muito grande para a sua espécie, e lindo. Taha Aki de repente ficou com inveja do animal. Pelo menos ele tinha um corpo. Pelo menos ele tinha uma vida. Até a vida como um animal seria melhor do que essa horrível consciência vazia.
—E aí Taha Aki teve a ideia que mudou todos nós. Ele pediu ao lobo que dividisse o espaço com ele, pra compartilharem. O lobo permitiu. Taha Aki entrou no corpo do lobo com alívio e gratidão. Não era o seu corpo humano, mas era melhor do que o buraco negro do mundo dos espíritos.
—Pra começar, o homem e o lobo voltaram à vila no porto. As pessoas correram com medo, gritando pra que os guerreiros viessem. Os guerreiros correram pra encontrar o lobo com suas lanças. Utlapa, é claro, ficou seguramente escondido.
—Taha Aki não atacou seus guerreiros. Ele se afastou lentamente deles, falando com seus olhos e tentando uivar as canções do seu povo. Os guerreiros começaram a notar que o lobo não era um animal qualquer, que havia uma influência espiritual nele. Um guerreiro ancião, uma homem chamado Yut, decidiu desobedecer a ordem do falso chefe e tentar se comunicar com o lobo.
—Assim que Yut cruzou para o mundo espiritual, Taha Aki saiu do lobo – o animal esperou pacientemente pelo seu retorno – pra falar com ele. Yut compreendeu a verdade em um instante, e deu as boas vindas ao lar a seu chefe.
—A essa hora, Utlapa veio ver se o lobo havia sido derrotado. Quando ele viu Yut caído sem vida no chão, cercado por guerreiros protetores, ele se deu conta do que estava acontecendo. Ele pegou sua faca e correu pra matar Yut antes que ele pudesse retornar ao seu corpo.
—Traidor’, ele gritou, e os guerreiros não sabiam o que fazer. O Chefe havia proibido viagens espirituais, e era a decisão do chefe como punir aqueles que desobedecessem.
—Yut pulou de volta para o seu corpo, mas Utlapa estava com a faca em seu pescoço em com uma mão em sua boca. O corpo de Taha Aki era forte, e Yut era fraco com a idade. Yut nem sequer pôde dizer uma palavra pra alertar os outros antes que Utlapa o silenciasse pra sempre.
—Taha Aki observou enquanto o espírito de Yut ia embora para as terras finais das quais Taha Aki havia sido barrado pra sempre. Ele sentiu uma grande raiva, mais poderosa do que qualquer coisa que ele já havia sentido. Ele entrou no lobo novamente, com a intenção de rasgar a garganta de Utlapa. Mas, enquanto ele se juntava ao lobo, uma grande mágica aconteceu.
—A raiva de Taha Aki era a raiva de um homem. O amor que ele tinha pelo seu povo e o ódio que ele sentia pelo seu opressor era vasto demais para o corpo do lobo, humano demais. O lobo estremeceu, e – ante os olhos dos guerreiros chocados e de Utlapa – ele se transformou em homem.
—O novo homem não se parecia com o corpo de Taha Aki. Ele era muito mais glorioso. Ele era uma interpretação fresca do espírito de Taha Aki. Os guerreiros reconheceram ele imediatamente, no entanto, pois eles conheciam o espírito de Taha Aki.
—Utlapa tentou correr, mas Taha Aki tinha a força de um lobo em seu novo corpo. Ele agarrou o ladrão e arrancou o espírito dele antes que ele pudesse pular do corpo roubado.
—As pessoas ficaram muito felizes quando se deram conta do que estava acontecendo. Taha Aki rapidamente arrumou as coisas, trabalhando novamente com o seu povo e devolvendo as jovens esposas às suas famílias. A única mudança que ele não desfez foi a proibição das viagens espirituais. Ele sabia que isso era muito perigoso, agora que a ideia de roubar uma vida estava por ali. Os espíritos guerreiros já não existiam.
—Desse ponto em diante, Taha Aki eram mais do que apenas um lobo ou um homem. Eles chamavam ele, Taha Aki, de o Grande Lobo. Ele liderou a tribo por muitos, muitos anos, pois ele não envelhecia. Quando o perigo ameaçava, ele reassumia seu eu lobo pra lutar ou assustar o inimigo.
As pessoas viviam em paz. Taha Aki foi pai de muitos filhos, e alguns deles descobriram que, depois que eles atingiam a maturidade, eles também podiam se transformar em lobos. Os lobos eram todos diferentes, porque eles eram espíritos lobos e refletiam o que o homem era por dentro.—
—Então é por isso que Sam é preto—, Quil murmurou por baixo do fôlego, sorrindo, —Coração negro, pêlo negro—.
Eu estava tão envolvida na história, que foi um choque voltar ao presente, para o círculo ao redor do fogo morrendo. Com outro choque, eu me dei conta de que o círculo já feito dos netos – não importava em que graus – de Taha Aki.
O fogo jogou uma salva de faíscas para o céu, e elas tremeram e dançaram, fazendo formas que eram quase indecifráveis.
—E o seu pêlo cor de chocolate reflete o que?— Sam sussurrou de volta pra Quil. —O quanto você é doce?—
Billy ignorou as piadas deles. —Alguns dos filhos se tornaram guerreiros com Taha Aki, e não mais envelheceram. Os outros, que não gostaram da transformação, se recusaram a se juntar ao bando de homens lobos. Esses começaram a envelhecer novamente, e a tribo descobriu que os homens lobo podiam envelhecer como qualquer outra pessoa, se desistissem de seus espíritos guerreiros. Taha Aki viveu o tempo de vida de três homens. Ele havia se casado com uma terceira esposa depois da morte das duas primeiras, e encontrou nela a sua verdadeira esposa espiritual. Apesar dele ter amado as outras, essa era algo mais. Ele decidiu desistir de seu espírito lobo pra morrer quando ela morreu.
—Foi assim que a mágica veio até nós, mas esse não é o fim da história...—
Ele olhou pra o Velho Quil Atearra, que mudou de posição em sua cadeira, ajeitando seus ombros frágeis. Billy deu um gole numa garrafa de água e enxugou sua testa. A caneta de Emily nunca hesitava enquanto ela escrevia furiosamente no papel.
—Essa foi a história dos espíritos guerreiros—, o Velho Quil começou num voz de tenor. —Essa é a história do sacrifício da terceira esposa.—
—Muitos anos depois de Taha Aki ter desistido de seu espírito lobo, quando ele já era um homem velho, um problema começou ao norte, com os Makah. Várias mulheres jovens da tribo deles havia desaparecido, e eles colocaram a culpa nos lobos das redondezas, a quem eles temiam e desconfiavam. Os homens-lobo ainda podiam ouvir os pensamentos uns dos outros enquanto em sua forma de lobo, assim como seus ancestrais haviam feito enquanto estavam na forma de espíritos. Eles sabiam que nenhum em seu grupo era o culpado. Taha Aki tentou pacificar o chefe de Makah, mas havia medo demais. Taha Aki não queria ter uma guerra em suas mãos. Ele já não era um guerreiro pra liderar seu povo. Ele encarregou seu filho lobo mais velho, Taha Wi, de encontrar o verdadeiro culpado antes que as hostilidades começassem.
—Taha Wi liderou os outro cinco lobos em seu bando em uma procura pelas montanhas, procurando por alguma evidência sobre o desaparecimento das Makah. Eles se depararam com uma coisa que eles nunca haviam visto antes - um cheiro doce, estranho na floresta que queimava seus narizes a ponto de doer.—
Eu fui um pouco mais pro lado de Jacob. Eu ví o canto da sua boca vibrar com o humor, e o braço dele se apertou ao meu redor.
—Eles não sabiam que criatura podia ter deixado aquele cheiro, mas eles o seguiram—, O Velho Quil continuou. Sua voz tremendo não era tão majestosa como a de Billy, mas havia um estranho tom de urgência penetrante nela. O meu pulso acelerou quando as palavras saíram mais rápidas.
—Eles acharam traços fracos de cheiro humano, e de sangue humano, pela trilha. Eles estavam certos de que esse era o inimigo que eles estavam procurando.
—A jornada deles os levou pra tão longe ao norte que Taha Wi mandou metade do bando, os mais novos, de volta pra o porto pra avisar Taha Aki.
—Taha Wi e seus dois irmãos não retornaram.
—Os irmãos mais novos procuraram pelos seus ancestrais, mas só encontraram silêncio. Taha Aki lamentou por seus filhos. Ele desejava vingar a morte dos filhos, mas ele já era velho.—
—Ele foi ao chefe de Makah ainda com as roupas da manhã e o contou o que havia acontecido. O chefe de Makah acreditou em seu pesar, e as tensões acabaram entre as tribos.
—Um ano depois, duas donzelas de Makah desapareceram de suas casas na mesma noite. Os Makah chamaram os lobos Quileute imediatamente, que encontraram o mesmo fedor doce em todo lugar no vilarejo dos Makah. Os lobos foram caçar de novo.
—Apenas um retornou. Ele era Yaha Uta, o filho mais velho da terceira esposa de Taha Aki, e o mais novo no bando. Ele trouxe algo consigo que nunca havia sido antes pelos Quileute - um cadáver estranho, frio de pedra, que ele carregava aos pedaços. Todos aqueles que tinham o sangue de Taha Aki, até mesmo aqueles que não eram lobos, podiam sentir o cheiro forte da criatura morta. Esse era o inimigo dos Makah.
—Yaha Uta descreveu o que havia acontecido: ele e seus irmãos haviam encontrado a criatura, que se parecia com um homem mas era duro como um pedra de granito, com duas filhas de Makah. Uma garota já estava morta, branca e sem sangue no chão. A outra estava nos braços da criatura, a boca dele em seu pescoço. Ela podia estar viva quando eles chegaram na cena odiosa, mas a criatura rapidamente quebrou seu pescoço e jogou seu corpo sem vida no chão enquanto eles se aproximavam. Seus lábios brancos estavam cobertos com o sangue dela, e seus olhos brilhavam vermelhos.
—Yaha Uta descreveu a força feroz e a velocidade da criatura. Um de seus irmãos rapidamente se tornou uma vítima quando subestimou aquela força. A criatura o partiu como se fosse um boneco. Yaha Uta e seus irmãos foram mais cautelosos. Eles trabalharam juntos, chegando nas criaturas pelos seus lados, manobrando-a. Eles tiveram que atingir o limite de sua força e de sua velocidade de lobo, coisa que eles jamais haviam testado antes. A criatura era dura como pedra e fria como gelo. Eles descobriram que seus dentes podiam machucá-lo. Eles começaram a rasgar a criatura em pequenos pedaços enquanto lutavam com ela.
—Mas a criatura aprendeu com velocidade, e logo estava compatível com as manobras deles. Ele pôs as mãos no irmão de Yaha Uta. Yaha Uta encontrou uma abertura em seu pescoço, e atacou. Os dentes dele arrancaram a cabeça da criatura, mas as mãos continuaram apertando o seu irmão.
—Yaha Uta rasgou a criatura em pedaços irreconhecíveis, rasgando os pedaços numa tentativa desesperada de salvar seu irmão. Ele estava atrasado, mas, no final, a criatura foi destruída.
—Ou assim eles pensaram. Yaha Uta espalhou os pedaços para os anciões examinarem. Uma mão destroçada estava ao lado de um pedaço do braço de granito da criatura. Dois pedaços se tocaram quando os anciões os uniram com pontos, e a mão foi em direção ao braço, tentanto se unir novamente.
—Aterrorizados, os anciões tocaram fogo no que restou. Uma grande nuvem de fumaça forte, vil, poluiu o ar. Quando já não haviam nada além das cinzas, eles separaram as cinzas em pequenos sacos e os separou a grandes espaços uns dos outros - uns no oceano, alguns na floresta, alguns nas cavernas dos penhascos. Taha Aki usava um dos saquinhos em seu pescoço, pra que ele pudesse ser avisado se um dia a criatura tentasse se juntar de novo—.
O Velho Quil pausou e olhou pra Billy. Billy puxou uma fita de couro do seu pescoço. Preso na ponta havia um velho saquinho, escurecido com o tempo. Algumas pessoas ofegaram. Eu posso ter sido uma delas.
—Eles o chamaram de O Frio, O Bebedor de Sangue, e viveram com medo de que ele não estivesse sozinho. Eles só tinham mais um lobo protetor, o jovem Yaha Uta.
—Eles não tiveram que esperar muito. A criatura tinha uma parceira, outra bebedora de sangue, que veio até os Quileute em busca de vingança.
—As histórias dizem que A Mulher Fria era a coisa mais linda que os olhos humanos já haviam visto. Ela parecia com a deusa do alvorecer quando entrou na vila naquela manhã; o sol estava brilhando pelo menos dessa vez, e ele cintilava na pele branca dela e iluminava seu cabelo loiro que chegava nos joelhos.—
—O rosto dela era mágico em sua beleza, os olhos eram pretos em seu rosto. Alguns caíram de joelhos pra adorá-la.
—Ela perguntou alguma coisa em uma voz alta, penetrante, em uma linguagem que ninguém nunca tinha ouvido. As pessoas ficaram abobalhadas, sem saber o que dizê-las. Não havia ninguém com o sangue de Taha Aki entre as testemunhas a não ser um garotinho. Ele se apertou a sua mãe e gritou que o cheiro estava machucando o nariz dele. Um dos anciões, que estava a caminho do conselho, ouviu o garoto e se deu conta do que havia chegado pra eles. Ele gritou pra que as pessoas corressem. Ela o matou primeiro.
—Haviam vinte testemunhas da chegada da Mulher Fria. Dois sobreviveram, apenas porque ela ficou distraída com o sangue, e parou pra saciar sua sede. Eles correram pra Taha Aki, que estava no conselho com os outros anciões, seus filhos, e sua terceira esposa.
—Yaha Uta se transformou em seu espírito lobo assim que ele ouviu as notícias. Ele foi sozinho combater a bebedora de sangue. Taha Aki, e sua terceira esposa, e seus anciões seguiram ele.
—No inicio eles não conseguiram encontrar a criatura, só as evidências de seu ataque. Corpos estavam quebrados, alguns completamente sem sangue, espalhados pela estrada por onde ela havia aparecido. Aí eles ouviram os gritos e correram para o porto.
—Vários Quileute haviam corrido para os navios para se refugiarem. Ela nadou atrás deles como um tubarão, e quebrou o casco do navio deles com sua incrível força. Quando o navio afundou, ela agarrou aqueles que tentaram fugir a nado, e quebrou eles também.
—Ela viu o grande lobo na costa, e esqueceu dos nadadores flutuando. Ela nadou tão rápido que se transformou num vulto, pingando e gloriosa, ela veio ficar de pé na frente de Yaha Uta. Ela apontou para ele uma vez com seu dedo branco e fez outra pergunta incompreensível. Yaha Uta esperou.
—Foi uma luta apertada. Ela não era tão boa lutadora quanto o seu parceiro havia sido. Mas Yaha Uta estava sozinho - não havia ninguém pra distraí-la da fúria com ele.
—Quando Yaha Uta perdeu, Taha Aki gritou em desafio. Ele tropeçou para a frente e se transformou em um lobo ancião, com pêlo branco. O lobo era velho, mas esse era o Espírito Homem de Taha Aki, e sua raiva o tornou forte. A luta recomeçou.
—A terceira esposa de Taha Aki havia acabado de ver seu filho morrer diante de seus olhos. Agora o seu marido lutava, e ela não tinha esperanças de que ele pudesse vencer. Ela havia ouvido cada palavra que a vítima havia dito no conselho. Ela havia ouvido a história da primeira vitória de Yaha Uta, e ela sabia que a distração de seus irmãos haviam salvado ele.
—A terceira pegou uma faca do cinto de um dos filhos que estava ao seu lado. Eles eram todos filhos jovens, ainda não eram homens, e ela sabia que eles morreriam quando o seu marido falhasse.
—A terceira esposa correu em direção à Mulher Fria com a adaga erguida. A Mulher Fria sorriu, pouco distraída da sua luta com o lobo velho. Ela não tinha medo de uma mulher humana fraca e nem da faca que não causaria nenhum arranhão em sua pele, e ela estava prestes a dar o golpe de misericórdia em Taha Aki.
—E aí, a terceira esposa fez algo que A Mulher Fria não estava esperando. Ela caiu de joelhos aos pés da bebedora de sangue e enfiou a faca em seu próprio coração.
—O sangue escorreu pelos dedos da terceira esposa e espirrou na Mulher Fria. A bebedora de sangue não pôde resistir à luxuria do sangue fresco que estava deixando o corpo da terceira esposa. Instintivamente, ela se virou para a mulher que estava morrendo, por um segundo inteiramente consumida pelo sangue.
—Os dentes de Taha Aki se fecharam no pescoço dela.
—Aquele não foi o fim da batalha, mas agora, Taha Aki não estava mais sozinho. Vendo a mãe deles morrer, dois filhos mais novos sentiram tanta raiva que se lançaram para a frente como seus espíritos lobos, apesar de ainda não serem homens. Com seu pai, eles exterminaram a criatura.
—Taha Aki nunca se reuniu à tribo. Ele nunca se transformou em homem de novo.—
—Ele deitou por um dia ao lado do corpo da terceira esposa, rosnando toda vez que alguém tentava encostar nela, e aí ele foi para a floresta e nunca mais retornou.
—Problemas com os frios eram raros e aconteciam de vez em quando. Os filhos de Taha Aki guardaram a tribo até que seus filhos fossem velhos o suficiente pra ficarem em seu lugar. Nunca houve mais de três lobos de cada vez. Era o suficiente. Ocasionalmente um bebedor de sangue aparecia por essas terras, mas eles eram pegos de surpresa, sem esperar os lobos. De vez em quando um lobo morria, mas eles nunca foram dizimados de novo como da primeira vez. Eles haviam aprendido como lutar com os frios, e eles passaram o conhecimento de lobo pra lobo, de mente de lobo pra mente de lobo, de espírito pra espírito, de pai pra filho.
—O tempo passou, e os descendentes de Taha Aki já não se transformavam mais em lobos quando atingiam a idade adulta. Só muito raramente, se um frio estava por perto, os lobos retornavam, e o bando continuava pequeno.
—Um grupo maior chegou, e os seus próprios bisavôs se prepararam pra lutar contra eles. Mas o líder falou com Ephraim Black como se fosse um homem, e prometeu não machucar os Quileute. Os seus estranhos olhos amarelos davam alguma espécie de prova do que ele dizia sobre eles não serem iguais aos outros bebedores de sangue.
Os lobisomens estavam em menor número; não havia necessidade dos frios pedirem um acordo sendo que eles podiam ter vencido a batalha. Ephraim aceitou. Eles cumpriram com a sua parte, apesar de que a presença deles tendia a puxar outros.
—E o número deles forçou o bando a atingir um número que a tribo nunca havia visto—, o Velho Quil disse, e por um momento em seus olhos pretos, afundados nas rugas e na pele dobrada ao redor deles, pareceram parar em mim. —Exceto, é claro, no tempo de Taha Aki—, ele disse, e então suspirou. —E então os filhos da nossa tribo carregam novamente o fardo e dividem o sacrifício que seus pais suportaram antes deles—.
Tudo ficou em silêncio por um longo momento. Os descendentes vivos da magia e das lendas olharam uns para os outros através do fogo com tristeza nos olhos. Todos menos um.
—Fardo—, ele zombou em uma voz baixa. —Eu acho que é legal—, o lábio inferior de Quil ficou um pouco pra fora.
Do outro lado do fogo que estava morrendo, Seth Clearwater - seus olhos estavam arregalados de adulação pela fraternidade dos irmãos protetores da tribo - balançou a cabeça concordando.
Billy gargalhou, baixa e longamente, e a mágica pareceu desaparecer nas brasas brilhantes. De repente, era apenas um círculo de amigos de novo. Jared jogou uma pedra pequena em Quil, e todo mundo sorriu quando isso fez ele pular. Conversas baixas murmuravam ao nosso redor, zombeteiras e casuais.
Os olhos de Leah Clearwater não se abriram. Eu achei ter visto alguma coisa como uma lágrima brilhando na bochecha dela, mas quando eu olhei de volta um momento depois já não estava mais lá.
Nem Jacob nem eu falamos. Ele estava tão imóvel ao meu lado, a respiração dele tão profunda e uniforme, que eu pensei que ele devia estar perto de dormir.
A minha mente estava há um milhão de anos de distância. Eu não estava pensando em Yaha Uta ou em outros lobos, ou na linda Mulher Fria - eu podia imaginar ela bem demais. Não, eu estava pensando em alguém de fora de toda essa magia. Eu estava tentando imaginar o rosto da mulher sem nome que havia salvado a tribo inteira, a terceira esposa.
Só uma mulher humana, sem nenhum dom ou poder especial. Fisicamente mais fraca e lenta do que qualquer dos outros monstros na história. Mas ela havia sido a chave, a solução. Ela havia salvado seu marido, seus filhos, a tribo inteira.
Eu queria que eles lembrassem do nome dela...
Alguma coisa balançou meu braço.
—Vamos, Bells—, Jacob disse. —Estamos aqui—.
Eu pisquei, confusa porque o fogo parecia ter desaparecido. Eu olhei para a inesperada escuridão, tentando entender as minhas redondezas. Eu levei um minuto pra me dar conta que eu já não estava mais no penhasco.
Eu ainda estava nos braços dele, mas não estava mais no chão.
Como é que eu cheguei no carro de Jacob?
—Oh, droga!—, eu sufoquei enquanto me dava conta de que havia pego no sono. —Que horas são? Droga, onde está aquele telefone estúpido?— eu tateei meus bolsos, frenética, e encontrando eles vazios.
—Fácil. Ainda não é nem meia noite. E eu já liguei pra ele por você. Olhe - ele está esperando ali—.
—Meia noite?— eu respondi estupidamente, ainda desorientada. Eu olhei para a escuridão, e as batidas do meu coração aceleraram quando os meus olhos encontraram as formas do Volvo, a trinta metros de distância. Eu encontrei a maçaneta da porta.
—Aqui—, Jacob disse, e colocou um coisa pequena na minha mão. O telefone.
—Você ligou pra Edward por mim?—
Os meus olhos estavam ajustados o suficiente pra ver o brilho cintilante do sorriso de Jacob. —Eu achei que se bancasse o bonzinho, eu teria mais tempo com você—.
—Obrigada, Jake—, eu disse, tocada. —Mesmo, obrigada. E obrigada por me convidar essa noite. Aquilo foi... —As palavras me faltaram. —Uau. Aquilo foi algo mais—.
—E você nem sequer ficou acordada pra me ver engolir uma vaca—. Ele riu. —Não. Eu estou feliz por você ter gostado. Foi... legal pra mim. Ter você aqui—.
Houve um movimento à distância na escuridão - alguma coisa pálida estava flutuando entre as árvores. Vagando?
—É, ele não é tão paciente, é?— Jacob disse, reparando na minha distração. —Vá em frente. Mas volte logo, tá legal?—
—Claro, Jake—, eu prometi, abrindo a porta. O ar frio bateu nas minhas pernas e me fez estremecer.
—Durma bem, Bells. Não se preocupe com nada - eu vou estar te observando essa noite—.
Eu pausei, um pé no chão. —Não, Jake. Descanse um pouco, eu vou estar bem—.
—Claro, claro—, mas ele parecia mais estar aceitando do que concordando.
—Boa noite, Jake. Obrigada—
—Boa noite, Bella—, ele sussurrou enquanto eu corria para a escuridão.
Edward me pegou na linha da fronteira.
—Bella—, ele disse, o alívio estava forte na voz dele; seus braços fortemente ao meu redor.
—Oi. Desculpa por eu ter me atrasado. Eu caí no sono e -—
—Eu sei. Jacob explicou—. Ele começou a ir na direção do carro, e eu tropecei cambaleante ao lado dele. —Você está cansada? Eu podia te carregar—.
—Eu estou bem—.
—Vou te levar pra casa e te colocar na cama. Você se divertiu?—
—Sim - foi incrível, Edward. Eu queria que você tivesse vindo. Eu nem posso explicar. O pai de Jake nos contou algumas histórias e elas eram como... como magia.—
—Você vai ter que me contar. Depois que você dormir—.
—Eu não vou contar direito—, eu disse, e aí bocejei enormemente.
Edward gargalhou. Ele abriu a minha porta pra mim, me levantou me colocando lá dentro, e prendeu o cinto de segurança ao meu redor.
Luzes claras brilharam e bateram em nós. Eu acenei na direção dos faróis de Jacob, mas eu não sabia de ele tinha visto o gesto.
Naquela noite - depois que eu passei por Charlie que não me deu tantos problemas quanto eu esperava porque Jacob havia ligado pra ele também - ao invés de colidir na cama imediatamente, eu me inclinei pra abrir a janela enquanto eu esperava que Edward voltasse. A noite estava surpreendentemente fria, quase invernal. Eu não tinha reparado nisso nos penhascos; eu imaginei que isso tinha menos a ver com a fogueira e mais a ver com o fato de estar sentada ao lado de Jacob.
Pedacinhos de gelos se espalharam pelo meu rosto quando a chuva começou.
Estava escuro demais pra ver alguma coisa além dos triângulos das samambaias se inclinando e balançando com o vento. Mas eu forcei os meus olhos mesmo assim, procurando por outras formas na tempestade. Uma silhueta pálida, se movendo feito um fantasma pela escuridão... ou talvez as linhas sombreadas de um enorme lobo... Os meus olhos estava fracos demais.
Então, houve um movimento na noite, bem ao meu lado. Edward entrou pela minha janela aberta, suas mãos mais frias que a chuva.
—Jacob está lá fora?—, eu perguntei, tremendo enquanto Edward me puxava para o círculo dos seus braços.
—Sim... em algum lugar. E Esme está indo pra casa—.
Eu suspirei. —Está tão frio e molhado. Isso é bobagem—. Eu tremi de novo.
Ele gargalhou. —Só está frio pra você, Bella—
Estava frio nos meus sonhos também, talvez porque eu tenha dormido nos braços de Edward. Mas eu sonhei que estava lá fora na tempestade, o vento fazendo o meu cabelo bater em meu rosto e cegando os meus olhos. Eu estava na rocha crescente da praia, tentando entender os movimentos das formas rápidas que eu mal podia enxergar direito na escuridão da beira da costa. Primeiro, não havia nada além de um flash de branco e preto, indo na direção um do outro e dançando pra longe. E então, quando a lua repentinamente apareceu entre as nuvens, eu pude ver tudo.
Rosalie, com seus cabelos molhados se movimentando e dourados, na altura do joelho, estava se jogando na direção em um lobo enorme - os dentes dele brilhavam prateados - que eu reconheci como sendo Billy Black.
Eu comecei a correr, mas me encontrei me movendo frustradamente devagar no sonho. Eu tentei gritar pra eles, dizer que eles parassem, mas a minha voz era roubada pelo vento, e eu não conseguia fazer um som. Eu balancei os braços, esperando chamar a atenção deles. Alguma coisa brilhou na minha mão, e eu reparei pela primeira vez que a minha mão não estava vazia.
Eu estava segurando uma longa lâmina, velha e prateada, suja com sangue seco e empretecido.
Eu me afastei da faca, e os meus olhos se abriram na escuridão do quarto. A primeira coisa que eu reparei foi que eu não estava sozinha, e eu virei meu rosto pra enterrá-lo no peito de Edward, sabendo que o doce cheiro da pele dele afastaria o pesadelo com mais eficácia do que qualquer outra coisa.
—Eu te acordei?—, ele sussurrou. Houve o som de papeis, páginas virando, e um fraco thump quando alguma coisa leve caiu no chão de madeira.
—Não—, eu murmurei, suspirando de contentamento quando os braços dele me apertaram. —Eu tive um pesadelo—.
—Você não quer me contar sobre ele?—
Eu balancei minha cabeça. —Cansada demais. Talvez de manhã, se eu lembrar—.
Eu senti um riso silencioso balançar ele.
—De manhã—, ele concordou.
—O que você estava lendo?—, eu murmurei, não completamente acordada.
—O Morro dos Ventos Uivantes—, ele disse.
Eu fiz uma careta sonolenta. —Eu pensei que você não gostasse desse livro—.
—Você me fez mudar de ideia—, ele murmurou, sua voz suave me lançando para a inconsciência. —Além do mais... quanto mais tempo eu passo com você, mais emoções humanas se tornam compreensíveis pra mim. Eu estou descobrindo que sinto simpatia por Heathcliff de maneiras que eu não julgava possíveis antes—.
—Mmm—, eu suspirei.
Ele disse mais alguma coisa, alguma coisa baixa, mas eu já tinha adormecido.
A manhã seguinte acordou cinzenta e perolada. Edward me perguntou sobre o meu sonho, mas eu não consegui lembrar dele. Eu só me lembrei que estava frio, e que fiquei feliz quando acordei porque ele estava lá. Ele me beijou, por tempo suficiente pra acelerar o meu pulso, e depois foi pra casa pra trocar de roupa de pegar seu carro.
Eu me vesti rapidamente, com poucas opções. Quem quer que tenha pego as minhas coisas havia diminuído o meu guarda-roupa criticamente. Se isso não fosse assustador, seria seriamente incômodo.
Quando estava prestes a descer pra o café da manhã, eu vi a minha cópia já gasta de O Morro dos Ventos Uivantes caída no chão onde Edward havia derrubado ela na noite passada, deixando a capa envelhecida do jeito que eu sempre deixava.
Eu o peguei com curiosidade, tentando lembrar do que ele havia dito. Algo sobre estar sentindo simpatia por Heathcliff, entre todas as pessoas. Isso não podia estar certo; eu devo ter sonhado com essa parte.
As palavras na página aberta me chamaram a atenção, e eu me inclinei pra ler o parágrafo mais de perto. Era Heathcliff falando, e eu conhecia bem aquela passagem.

E aí você vê a distinção entre os nossos sentimentos: se ele estivesse no meu lugar e eu no dele, apesar de eu odiá-lo com um ódio que esfolou a minha vida, eu jamais teria erguido a mão contra ele. Você pode não acreditar, se assim o desejar! Eu jamais o teria banido da sociedade dela enquanto ela desejasse a dele. No momento em que a consideração dela tivesse cessado, eu teria arrancado o coração dele fora, e bebido seu sangue! Mas, até lá - se você não me acredita, não me conhece - até lá, eu teria morrido a poucos centímetros antes de tocar um fio sequer da cabeça dele!

As três palavras que me chamaram a atenção foram —Bebido seu sangue—.
Eu estremeci.

Sim, eu certamente havia sonhado com Edward dizendo alguma coisa positiva sobre Heathcliff. E essa página provavelmente não era a que ele estava lendo. O livro devia ter caído aberto em qualquer página.

4 comentários:

  1. Primeiro, Taha Aki, depois, Malfoy... Mas já voltou

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    1. 😅😅😅😂😂😂😂😂😂

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    2. kkkkkkkkkkkKkkkkkkkkkkkkkkkk mano que bosta kkkkkkkkkkkk

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    3. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkjkkkjjkkkkkkkkkkkk mano que bosta kkkkkkklklkkkkkkk

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