28 de setembro de 2015

Capítulo 10 - Por que eu não dei o fora? Ah, sim, porque sou um idiota

Eu me sentia... Não sei como me sentia. Não parecia real.
Como se eu estivesse numa versão gótica de um seriado de tevê ruim. Em vez de ser o atleta prestes a convidar a chefe de torcida para o baile, eu era o lobisomem que tinha perdido o jogo pronto para chamar a mulher do vampiro para fazer sexo e procriar. Que legal!
Não, eu não faria isso. Era degradante, e era errado. Iria me esquecer de tudo o que ele disse. Mas eu conversaria com ela. Tentaria fazê-la me ouvir. E ela não ouviria. Como sempre.
Edward não respondeu nem comentou meus pensamentos enquanto seguia na minha frente de volta à casa. Fiquei pensando sobre o lugar onde ele escolhera parar. Seria bastante longe da casa para que os outros não pudessem ouvir seus sussurros? O motivo era esse?
Talvez. Quando passamos pela porta, os olhos dos outros Cullen estavam desconfiados e confusos. Ninguém parecia enojado ou revoltado. Então, eles não deviam ter ouvido nenhum dos favores que Edward me pedira.
Hesitei na porta aberta, sem saber o que fazer. Ali estava melhor, com um pouco de ar respirável vindo de fora. Edward foi para o meio do grupo, os ombros rígidos. Bella o olhava com ansiedade e seus olhos desviaram-se para mim por um segundo. Depois ela o observou novamente.
O rosto dela adquiriu uma palidez cinzenta, e pude ver o que ele quis sobre o estresse fazê-la sentir-se pior.
— Vamos deixar que Bella e Jacob conversem em particular — Edward falou. Não havia inflexão nenhuma na voz dele. Como um robô.
— Só sobre minhas cinzas — sibilou Rosalie.
Ela ainda pairava sobre a cabeça de Bella, com uma das mãos frias pousada possessivamente no rosto encovado de Bella. Edward não olhou para ela.
— Bella — disse ele no mesmo tom vazio. — Jacob quer conversar com você. Tem medo de ficar sozinha com ele?
Bella me olhou, confusa. Depois olhou para Rosalie.
— Rose, está tudo bem. Jake não vai nos machucar. Vá com Edward.
— Pode ser um truque — alertou a loura.
— Não vejo como — disse Bella.
— Carlisle e eu ficaremos o tempo todo em seu campo de visão, Rosalie. — disse Edward. A voz sem emoção falhava, demonstrando raiva. — É de nós que ela tem medo.
— Não — sussurrou Bella. Seus olhos brilhavam, as pálpebras molhadas. — Não, Edward, eu não...
Ele sacudiu a cabeça, sorrindo um pouco. O sorriso era doloroso de ver.
— Eu não quis dizer dessa maneira, Bella. Estou bem. Não se preocupe comigo.
Repugnante. Ele tinha razão – ela se martirizava por magoar os sentimentos dele. A garota era uma mártir clássica. Tinha mesmo nascido no século errado. Deveria ter vivido no passado, quando poderia ter se atirado aos leões por uma boa causa.
— Todos — disse Edward, a mão rigidamente indicando a porta. — Por favor.
A compostura que ele tentava manter para Bella era instável. Eu podia ver quanto ele estava perto do homem ardendo em chamas que tinha sido lá fora. Os outros viram isso também. Em silêncio, passaram pela porta enquanto eu saía do caminho. Eles andavam rápido; com duas batidas do meu coração a sala estava vazia, exceto por Rosalie, que hesitava, e Edward, que ainda esperava à porta.
— Rose — disse Bella baixinho. — Eu quero que você vá.
A loura fuzilou Edward com os olhos e gesticulou para que ele saísse primeiro. Ele desapareceu pela porta e ela me lançou um longo olhar de alerta, depois desapareceu também.
Quando ficamos a sós, atravessei a sala e me sentei no chão ao lado de Bella. Peguei suas mãos frias, esfregando-as com cuidado.
— Obrigada, Jake. Isso é bom.
— Não vou mentir, Bells. Você está horrível.
— Eu sei. — Ela suspirou. — Estou de dar medo.
— Como o monstro do pântano — concordei.
— É tão bom ter você aqui. É bom sorrir. Não sei quanto drama mais eu posso suportar.
Revirei os olhos.
— Eu sei, eu sei — ela concordou. — Eu mesma provoquei isso.
— É, provocou mesmo. O que está pensando, Bells? Fale sério!
— Ele pediu a você para gritar comigo?
— Mais ou menos. Mas nem imagino por que ele acha que você me ouviria. Você nunca me ouviu.
Ela suspirou.
— Eu te disse... — comecei.
— Você não sabe que “Eu te disse” tem um irmão, Jacob? — perguntou ela, interrompendo-me. — O nome dele é “Cala essa boca”.
— Essa é boa.
Ela sorriu para mim. A pele se esticou sobre os ossos.
— Não posso ficar com o crédito... Tirei de uma reprise dos Simpsons.
— Perdi esse.
— Foi engraçado.
Não falamos nada por um minuto. As mãos dela começavam a se aquecer um pouco.
— Ele realmente pediu que você conversasse comigo?
Fiz que sim.
— Para colocar algum juízo na sua cabeça. Está aí uma batalha que já começa perdida.
— Então, por que você concordou?
Não respondi. Eu não sabia bem por quê.
Mas de uma coisa eu sabia: cada segundo que eu passava com ela só iria aumentar a dor que eu sentiria depois. Como um viciado com seu suprimento limitado, o dia do ajuste de contas estava chegando. Quanto mais doses eu tomasse agora, mais difícil seria quando meu estoque acabasse.
— Vai dar certo, você sabe? — disse ela depois de um minuto em silêncio. — Eu acredito nisso.
Isso me fez ver vermelho de novo.
— A demência é um dos sintomas? — rebati.
Ela riu, embora minha raiva fosse tão real que minhas mãos tremiam torno das dela.
— Talvez — respondeu ela. — Não estou dizendo que as coisas vão se resolver facilmente, Jake. Mas como eu poderia ter vivido tudo o que vivi e, a essa altura, não acreditar em magia? Especialmente para você — disse. Ela sorria. Livrou uma das mãos e colocou em meu rosto. Mais quente que antes, mas ainda fria em minha pele, como a maioria das coisas. — Mais do que qualquer outro, você tem uma magia esperando para tornar sua vida certa.
— De que bobagem está falando?
Ela continuava sorrindo.
— Edward uma vez me contou como era... a história do imprinting. Ele disse que era como em Sonho de uma Noite de Verão, como magia. Você vai encontrar quem procura de fato, Jacob, e talvez, então, tudo isso vá fazer sentido.
Se ela não parecesse tão frágil, eu estaria rosnando. Naquela situação, o que fiz foi grunhir.
— Se acha que o imprinting pode dar algum sentido a essa insanidade... — Eu lutava para encontrar as palavras. — Você acha realmente que só porque um dia eu posso ter imprinting com uma estranha isso passaria a ser certo? — Apontei para seu corpo inchado. — Me diga que sentido tem, Bella! Que sentido tem eu amar você? Que sentido tem você amar a ele? Quando você morrer — as palavras eram um rosnado — como é que vai ficar tudo certo? Que sentido tem toda essa dor? A minha, a sua, a dele! Você o está matando também, não que eu me importe com isso. — Ela se encolheu, mas eu continuei. — Então, que sentido tem sua história de amor distorcida, no fim das contas? Se há algum sentido, mostre, por favor, Bella, porque eu não o vejo.
Ela suspirou.
— Eu ainda não sei, Jake. Mas eu só... sinto... que isso vai acabar em algo bom, que é difícil de ver agora. Acho que pode chamar isso de fé.
— Você está morrendo a troco de nada, Bella! Nada!
A mão dela foi do meu rosto para a barriga estufada, acariciando-a. Ela não precisava falar para que eu soubesse o que estava pensando. Estava morrendo por aquilo.
— Eu não vou morrer — disse ela entre os dentes, e eu sabia que ela estava repetindo coisas que já falara antes. — Eu vou fazer meu coração continuar batendo. Sou bastante forte para isso.
— Isso é um monte de besteira, Bella. Você tem tentado viver com o sobrenatural há tempo demais. Nenhuma pessoa normal pode fazer isso. Você não é forte o bastante.
Peguei seu rosto em minhas mãos. Não precisei lembrar a mim mesmo que fosse gentil. Tudo nela parecia gritar frágil.
— Eu vou conseguir. Eu posso — murmurou ela, parecendo o personagem teimoso de um livro infantil.
— Não é o que parece. Qual é o seu plano? Espero que tenha um.
Ela fez que sim, sem olhar nos meus olhos.
— Sabia que Esme pulou de um penhasco? Quer dizer, quando era humana. Daí que ela chegou tão perto da morte que nem se incomodaram em levá-la para um hospital... Eles a levaram direto para o necrotério. Mas seu coração ainda batia quando Carlisle a encontrou...
Então foi a isso que ela se referiu antes, em relação a continuar com o coração batendo.
— Não está planejando sobreviver a isso como humana — afirmei estupidamente.
— Não. Eu não sou idiota. — Ela agora me olhava. — Mas acho que você deve ter sua opinião sobre isso.
— Vampirização de emergência — murmurei.
— Deu certo para Esme. E Emmett, e Rosalie e até Edward. Nenhum deles estava em ótima forma. Carlisle só os transformou porque estavam à beira da morte. Ele não tira vidas – ele as salva.
Senti de repente uma pontada de culpa em relação ao bom vampiro médico, como antes. Afugentei o pensamento e comecei a implorar.
— Escute, Bells. Não faça assim. — Como antes, quando surgiu a ligação de Charlie, eu podia ver quanta diferença aquilo realmente fazia para mim. Percebi que precisava que ela ficasse viva, de alguma forma. De qualquer forma. Respirei fundo. — Não espere até que seja tarde demais, Bella. Não desse jeito. Viva. Está bem? Apenas viva. Não faça isso comigo. Não faça isso com ele. — Minha voz ficou mais dura e mais alta. — Você sabe o que ele vai fazer quando você morrer. Já viu isso antes. Quer que ele volte para aqueles assassinos italianos?
Ela se encolheu no sofá.
Deixei de fora a parte sobre isso não ser necessário dessa vez. Lutando para suavizar o tom de voz, perguntei:
— Lembra quando aqueles recém-criados me estropiaram? O que foi você me disse?
Esperei, mas ela não respondeu. Ela comprimia os lábios.
— Você me disse para ser bonzinho e ouvir Carlisle. — lembrei a ela. — E o que foi que eu fiz? Ouvi o vampiro. Por você.
— Você ouviu porque era a coisa certa a fazer.
— Tudo bem... Escolha o motivo que quiser.
Ela respirou fundo.
— Não é a coisa certa agora.
Seu olhar tocou a barriga grande e redonda e ela sussurrou:
— Eu não vou matá-lo.
Minhas mãos tremeram de novo.
— Ah, eu não sabia da grande novidade! Um meninão, hein? Eu deveria ter trazido alguns balões azuis.
O rosto dela ficou rosa. A cor era tão bonita! Retorcia em meu estômago como uma faca – uma faca de serra, enferrujada e rombuda. Eu ia perder aquilo. De novo.
— Não sei se é um menino — admitiu ela, meio tímida. — O ultrassom não funcionou. A membrana em volta do bebê é dura demais... Como a pele deles. Assim, ele é um pequeno mistério. Mas sempre vejo um menino em minha mente.
— Não é um bebezinho lindo que está aí dentro, Bella.
— Veremos — disse ela, quase presunçosa.
— Você não vai ver — rosnei.
— Você é muito pessimista, Jacob. Sem dúvida, há uma chance de eu sair dessa.
Não pude responder. Baixei a cabeça e respirei fundo e lentamente, tentando controlar minha fúria.
— Jake — disse ela, e afagou meu cabelo, e acariciou meu rosto. — Vai ficar tudo bem. Shhh. Está tudo bem.
Não levantei a cabeça.
— Não. Não vai ficar tudo bem.
Ela enxugou alguma coisa em meu rosto.
— Shhhh.
— Qual é a jogada, Bella? — Eu olhava para o carpete claro. Meus pés descalços estavam sujos, deixando manchas. Que ótimo. — Pensei que você quisesse o seu vampiro mais que qualquer outra coisa. E agora está desistindo dele? Isso não faz sentido nenhum. Desde quando você é tão desesperada para ser mãe? Se queria tanto isso, por que se casou com um vampiro?
Eu estava perigosamente perto daquela oferta que ele queria que eu fizesse, podia ver as palavras me conduzindo, mas não conseguia mudar de rumo. Ela suspirou.
— Não é assim. Eu realmente não ligava para ter um filho. Nem pensava nisso. Não é só ter um filho. É... bem... este bebê.
— É um assassino, Bella. Olhe para si mesma.
— Não é. O problema sou eu. Eu sou fraca e humana. Mas posso passar por essa, Jake, eu posso...
— Ah, pare com isso! Cale a boca, Bella. Você pode despejar essa porcaria em cima do seu sanguessuga, mas a mim você não engana. Você sabe que não vai conseguir.
Ela me olhou, feroz.
— Eu não sei disso. Estou preocupada, claro.
— Preocupada — repeti entredentes.
Ela então arfou e abraçou a barriga. Minha fúria desapareceu como uma luz sendo desligada.
— Eu estou bem — disse ela, ofegante. — Não é nada.
Mas eu não a ouvia; suas mãos tinham repuxado o moletom e eu vi, horrorizado, a pele exposta. A barriga parecia ter grandes manchas de tinta roxa. Bella viu meu olhar e puxou de volta o moletom.
— Ele é forte, só isso — disse ela, na defensiva.
As manchas de tinta eram hematomas.
Eu quase vomitei, e entendi o que ele dissera, sobre ver a coisa machucá-la. De repente, eu mesmo me sentia meio louco.
— Bella — eu disse.
Ela ouviu meu tom de voz mudar; olhou para mim, ainda com a respiração pesada, os olhos confusos.
— Bella, não faça isso.
— Jake...
— Escute. Não fique irritada. Está bem? Só escute. E se...?
— E se o quê?
— E se essa não for sua única chance? E se não for tudo ou nada? E se você ouvidos a Carlisle, como uma boa menina, e continuasse viva?
— Eu não vou...
— Ainda não terminei. Então você fica viva. Então pode recomeçar. Essa não deu certo. Tente novamente.
Ela franziu a testa. Ergueu uma das mãos e tocou o lugar onde minhas sobrancelhas se uniam. Seus dedos afagaram minha testa por um momento enquanto ela tentava compreender.
— Não entendo... O que quer dizer com tentar de novo? Não está pensando que Edward me deixaria...? E que diferença faria? Tenho certeza de que qualquer bebê...
— Sim — cortei. — Qualquer criança dele seria igual.
Seu rosto exaurido ficou ainda mais confuso.
— Como é?
Mas não consegui dizer mais nada. Não fazia sentido. Eu nunca seria capaz de salvá-la de si mesma. Jamais conseguiria fazer isso. Depois ela piscou, e pude ver que havia entendido.
— Ah! Ugh. Francamente, Jacob. Acha que eu deveria matar meu filho e substituí-lo por um genérico? Inseminação artificial? — Ela agora estava irritada. — Por que eu iria querer o filho de um estranho? Imagino que daria no mesmo? Que qualquer bebê serviria?
— Eu não quis dizer isso — murmurei. — Não de um estranho.
Ela se inclinou para a frente.
— Então, o que está dizendo?
— Nada. Não estou dizendo nada. Como sempre.
— De onde isso saiu?
— Esqueça, Bella.
Ela franziu o cenho, desconfiada.
— Ele falou para você dizer isso?
Hesitei, surpreso que ela tivesse chegado a essa conclusão tão rapidamente.
— Não.
— Foi ele, não foi?
— Não, é sério. Ele não disse nada sobre sei lá o que artificial.
Seu rosto relaxou e ela afundou nos travesseiros, visivelmente exausta. Então, olhou para o lado, não estava mais falando comigo.
— Ele faria qualquer coisa por mim. E eu o estou magoando tanto... Mas o que ele está pensando? Que eu trocaria esse... — sua mão deslizou sobre a barriga — pelo de um estranho... — Ela murmurou a última parte, depois a voz falhou. Seus olhos estavam úmidos.
— Não precisa magoá-lo — sussurrei. Pedir por ele ardia como veneno em minha boca, mas eu sabia que essa atitude era provavelmente minha melhor chance de mantê-la viva. Ainda assim, era uma em um milhão. — Você pode fazê-lo feliz de novo, Bella. E eu realmente acho que ele está enlouquecendo. Com sinceridade, é o que penso.
Ela não parecia estar me ouvindo; sua mão traçava pequenos círculos na barriga maltratada enquanto ela mordia o lábio. Fez-se silêncio por um bom tempo. Imaginei se os Cullen estariam bem longe. Será que estavam ouvindo minhas tentativas patéticas de argumentar com ela?
— Se não for um estranho? — murmurou ela consigo mesma. Eu me encolhi. — ... o que exatamente Edward disse a você? — perguntou ela em voz baixa.
— Nada. Ele só pensou que você me ouviria.
— Isso não. Sobre tentar novamente.
Seus olhos se fixaram nos meus e pude ver que eu já havia falado demais.
— Nada.
Sua boca se abriu um pouco.
— Caramba.
O silêncio durou algumas batidas do coração. Baixei a cabeça para meus pés de novo, incapaz de encará-la.
— Ele realmente faria qualquer coisa, não é? — sussurrou ela.
— Eu lhe disse que ele está ficando louco. Literalmente, Bells.
— Estou surpresa de você não o ter denunciado imediatamente. Para deixá-lo mal.
Quando olhei, ela estava sorrindo.
— Pensei nisso. — Tentei retribuir, mas pude sentir o sorriso desfigurado em meu rosto.
Bella sabia o que eu estava propondo, e não ia pensar duas vezes. Eu já sabia que ela não aceitaria. Mas ainda me doía.
— Não há muito que você não fizesse por mim também, não é? — sussurrou ela. — Eu realmente não sei por que vocês se incomodam. Não mereço nenhum dos dois.
— Mas não faz diferença, faz?
— Desta vez, não. — Ela suspirou. — Queria poder explicar a você de modo que entendesse. Não posso machucá-lo — ela apontou a barriga — como não poderia pegar uma arma e dar um tiro em você. Eu o amo.
— Por que você sempre precisa amar as coisas erradas, Bella?
— Não acho que eu faça isso.
Pigarreei, desfazendo o nó na garganta, para deixar minha voz dura como eu queria.
— Confie em mim.
Comecei a me levantar.
— Aonde você vai?
— Não estou fazendo nenhum progresso aqui.
Ela estendeu a mão fina, implorando.
— Não vá.
Pude sentir o vício me tragando, tentando me manter ao lado dela.
— Meu lugar não é aqui. Preciso voltar.
— Por que você veio hoje? — perguntou ela, ainda com a mão débil estendida.
— Só para ver se você realmente estava viva. Eu não acreditava que estivesse doente, como Charlie disse.
Não deu para saber, pela expressão dela, se tinha engolido aquilo ou não.
— Vai voltar? Antes...
— Não vou ficar por aqui vendo você morrer, Bella.
Ela se retraiu.
— Tem razão, tem razão. Você deve ir.
Segui para a porta.
— Tchau — ela sussurrou às minhas costas. — Eu amo você, Jake.
Eu quase voltei. Quase me virei, caí de joelhos e comecei a implorar novamente. Mas sabia que precisava deixar Bella, parar com as crises de abstinência de Bella, antes que ela me matasse, como ia matá-lo.
— Claro, claro — murmurei ao sair.
Não vi nenhum dos vampiros. Ignorei minha moto, solitária no meio da campina. Não era mais rápida o bastante para mim. Meu pai devia estar em pânico... Sam também. O que o bando tinha pensado do fato de não ter ouvido minha metamorfose? Será que pensariam que os Cullen tinham me pegado primeiro? Tirei a roupa, sem me importar que alguém estivesse vendo, e comecei a correr. Enquanto corria, indistintamente eu me transformei em lobo.
Eles estavam esperando. É claro que estavam.
Jacob, Jake, oito vozes num coro de alívio.
Venha para casa agora, ordenou a voz do alfa. Sam estava furioso. Senti Paul sumir, e eu sabia que Billy e Rachel esperavam para saber o que tinha acontecido comigo. Paul estava ansioso demais por lhes dar as boas-novas – de que eu não havia virado comida de vampiro – e não conseguir ouvir a história toda.
Não tive de contar ao bando que estava a caminho – eles podiam ver a floresta passar por mim como um borrão enquanto eu disparava para casa.
Não precisei dizer a eles que eu também estava meio ensandecido. A náusea em minha mente era evidente.
Eles viram todo o horror – a barriga machucada de Bella; sua voz áspera: ele é forte, é só isso; o homem ardendo no rosto de Edward: vendo-a adoecer e definhar; Rosalie agachada sobre o corpo débil de Bella: a vida de Bella não significa nada para ela – e, pela primeira vez, ninguém tinha nada a dizer.
O choque de todos eles era como um grito mudo em minha cabeça. Sem palavras.
!!!
Eu já estava a meio caminho de casa antes que alguém se recuperasse. Depois todos começaram a correr ao meu encontro.
Estava quase escuro – as nuvens cobriam completamente o sol que se punha. Arrisquei-me a atravessar a via expressa – e o fiz sem ser visto.
Nós nos encontramos a cerca de quinze quilômetros de La Push, em uma clareira abandonada por lenhadores. Era fora de mão, espremida entre dois contrafortes da montanha, onde ninguém nos veria. Paul os encontrou ao mesmo tempo que eu cheguei, então, o bando estava completo.
O falatório em minha cabeça era um caos completo. Todos gritavam ao mesmo tempo.
Os pelos da nuca de Sam estavam eriçados e ele rosnava num fluxo ininterrupto ao andar de um lado para o outro no alto do círculo. Paul e Jared moviam-se como sombras atrás dele, as orelhas achatadas nas laterais da cabeça. O círculo todo estava agitado, de pé e soltando rosnados baixos.
De início sua raiva era indefinida, e pensei que o motivo fosse eu. Estava desnorteado demais para me importar com isso. Eles podiam fazer o que quisessem comigo por burlar as ordens.
E depois a confusão sem foco de pensamentos começou a se encaixar. Como pode ser? O que isso significa? O que acontecerá? Não é seguro. Não é direito. Perigoso. Não é natural. É monstruoso. Uma abominação.
Não podemos permitir isso. O bando agora andava em sincronia, pensando em sincronia, todos, exceto eu e um outro. Sentei-me ao lado de um dos irmãos, confuso demais para olhar, fosse com os olhos, fosse com a mente, e ver quem estava ao meu lado enquanto o bando nos cercava.
O tratado não abrange isso. Isso coloca todos em perigo.
Tentei entender as vozes que subiam e desciam; tentei seguir o caminho retorcido que os pensamentos faziam, e ver aonde levavam, mas nada tinha sentido. As imagens no ceptro dos pensamentos eram as minhas – as piores imagens. Os hematomas de Bella, o rosto de Edward enquanto ardia.
Eles também têm medo disso.
Mas eles não vão fazer nada a respeito.
Protegendo Bella Swan.
Não podemos deixar que isso nos influencie.
A segurança de nossas famílias, de todos aqui, é mais importante que uma humana.
Se eles não o matarem, nós teremos de matar. Proteger a tribo. Proteger nossas famílias.
Temos de matar aquilo antes que seja tarde demais.
Outra de minhas lembranças, dessa vez as palavras de Edward: A coisa está crescendo. Rapidamente.
Esforcei-me para me concentrar, para ouvir vozes individuais.
Não há tempo a perder, pensou Jared.
Isso significará uma luta, alertou Embry. Das feias.
Estamos preparados, insistiu Paul.
Vamos precisar do fator surpresa a nosso favor, pensou Sam.
Se os pegarmos divididos, poderemos derrubá-los separadamente. Isso aumentara nossas chances de vitória, pensou Jared, começando a montar a estratégia.
Sacudi a cabeça, levantando-me devagar. Eu me sentia sem equilíbrio – como se os lobos em círculo estivessem me deixando tonto. O lobo ao meu lado também se levantou. Seu ombro empurrou o meu, impelindo-me para cima.
Esperem, pensei.
O círculo parou de repente, depois recomeçou a andar. O tempo é curto, disse Sam.
Mas... o que vocês estão pensando? Não os atacariam por quebrar o tratado esta tarde. Agora estão planejando uma emboscada, quando o tratado ainda se mantém intacto?
Isso não é algo que nosso tratado tenho previsto, disse Sam. É um perigo para humanos na região. Não sabemos que tipo de criatura os Cullen geraram, mas sabemos que é forte e cresce rapidamente. E será jovem demais para seguir algum tratado. Lembra os vampiros recém-criados contra os quais lutamos? Loucos, violentos, além da razão ou do limite. Imagine um assim, mas protegido pelos Cullen.
Não sabemos... tentei interromper.
Nós não sabemos, concordou ele. E, nesse caso, não podemos nos arriscar com o desconhecido.
Só podemos permitir que os Cullen existam enquanto tivermos certeza absoluta de que podemos acreditar que eles não causarão danos. Essa... coisa não merece confiança.
Eles não gostam dela mais do que nós.
Sam puxou de minha mente o rosto de Rosalie, agachada em posição protetora, e o exibiu para todos.
Alguém está pronto para lutar por ele, independentemente do que seja.
É só um bebê, pelo amor de Deus.
Não por muito tempo, sussurrou Leah.
Jake, amigão, este é um grande problema, disse Quil. Não podemos ignorá-lo.
Vocês estão transformando isso numa coisa maior do que é, argumentei. Só quem está em perigo é Bella.
Mais uma vez por opção dela, disse Sam. Mas dessa vez a opção dela afeta todos nós.
Não acho isso.
Não podemos nos arriscar. Não vamos permitir que um bebedor de sangue cace em nossas terras.
Então diga a eles para irem embora, disse o lobo que ainda me apoiava. Era Seth. É claro.
E infligir a ameaça a outros? Quando bebedores de sangue cruzam nossas terras, nos os destruímos, independentemente de onde pretendam caçar. Protegemos todos os que podemos.
Isso é loucura, eu disse. Hoje à tarde vocês temiam colocar o bando em perigo.
Hoje à tarde eu não sabia que nossas famílias corriam risco.
Não acredito nisso! Como vão matar essa criatura sem matar Bella?
Não houve palavras, mas o silêncio era cheio de significado.
Eu uivei. Ela também é humana! Nossa proteção não se aplica a ela?
Ela está morrendo de qualquer forma, pensou Leah. Nós só vamos encurtar o processo.
Foi o que bastou. Saltei para longe de Seth, na direção da irmã dele, com os dentes à mostra. Estava prestes a pegá-la pela perna traseira esquerda quando senti os dentes de Sam cortando meu flanco, arrastando-me para trás.
Gemi de dor e raiva e voltei-me para ele.
Pare!, ordenou ele na voz dual do alfa.
Minhas pernas pareceram vergar debaixo de mim. Parei bruscamente conseguindo me manter de pé por pura força de vontade.
Ele desviou os olhos de mim. Não seja cruel com ele, Leah, ordenou. O sacrifício de Bella é um preço alto, e todos vamos reconhecer isso. Tirar uma vida humana contraria tudo o que defendemos. Abrir uma exceção a esse código é algo triste. Todos vamos lamentar o que fizermos esta noite.
Esta noite?, repetiu Seth, chocado. Sam... acho que deveríamos conversar mais um pouco. Consultar os Anciãos, pelo menos. Não pode estar falando sério que nós...
Não podemos nos dar ao luxo de aceitar sua tolerância com os Cullen agora. Não há tempo para o debate. Você fará o que lhe for ordenado, Seth.
Os joelhos dianteiros de Seth se dobraram e sua cabeça caiu sob o peso do comando do alfa.
Sam andava num círculo fechado em volta de nós dois.
Precisamos de todo o bando para isso. Jacob, você é nosso combatente mais forte. Você lutará conosco hoje. Entendo que isso é difícil para você, então se concentrará nos lutadores deles — Emmett e Jasper Cullen. Não precisa se envolver com... a outra parte. Quil e Embry lutarão com você.
Meus joelhos tremeram; esforcei-me para me manter de pé enquanto a voz do alfa açoitava minha vontade.
Paul, Jared e eu cuidaremos de Edward e Rosalie. Pelas informações que Jacob nos trouxe, acho que eles estarão guardando Bella. Carlisle e Alice também estarão por perto, possivelmente, Esme. Brady, Collin, Seth e Leah se concentrarão neles. Quem tiver caminho livre para... todos o ouvimos gaguejar mentalmente o nome de Bella – a criatura cuidará dela. Destruir a criatura é nossa prioridade.
O bando ressoou uma aquiescência nervosa. A tensão eriçava os pelos de todos. As passadas tornaram-se mais rápidas, e o som das patas no chão áspero era mais forte, as garras rasgando o solo.
Só Seth e eu nos mantínhamos imóveis, o olho de um furacão de presas expostas e orelhas achatadas. O focinho de Seth quase tocava o chão, curvado sob os comandos de Sam. Senti sua dor com a deslealdade que viria. Para ele, era uma traição – naquele único dia de aliança, lutando ao lado de Edward Cullen, Seth havia verdadeiramente se tornado amigo do vampiro.
Apesar disso, ele não resistia. Seth obedeceria, por mais que isso o machucasse. Não tinha escolha. Que alternativa eu tinha? Quando o alfa falava, o bando obedecia. Sam nunca havia levado sua autoridade tão longe; eu sabia que ele odiava sinceramente ver Seth ajoelhando-se diante dele como um escravo aos pés do seu senhor. Não o obrigaria a isso se não acreditasse que não tinha outra opção. Não podia mentir para nós quando estávamos mentalmente conectados daquele jeito. Ele, de fato, acreditava ser nosso dever destruir Bella e monstro que ela carregava. Acreditava que não tínhamos tempo a perder. Acreditava que era justo morrer por isso.
Vi que ele próprio enfrentaria Edward; para Sam, a capacidade de Edward de ler nossos pensamentos fazia dele a ameaça maior. Sam não deixaria que outro assumisse esse risco.
Ele via Jasper como o segundo maior adversário, e por isso o destinou a mim. Sabia que, do bando, eu tinha mais probabilidade de vencer essa luta. Sam deixou os alvos mais fáceis para os lobos mais jovens e para Leah. A pequena Alice não era perigo sem sua visão do futuro para orientá-la, e nós sabíamos, por nossa época de aliança, que Esme não era uma lutadora. Carlisle seria um desafio maior, mas seu ódio à violência o atrapalharia.
Eu me sentia pior do que Seth enquanto via Sam desenvolver seu plano, tentando analisar todos os ângulos para dar a cada membro do bando a melhor possibilidade de sobrevivência.
Tudo estava às avessas. Naquela tarde, eu estivera prestes a atacá-los. Mas Seth tinha razão – eu não estava preparado para aquela luta. Havia ficado cego com o ódio. Não tinha me permitido analisar tudo com cuidado – porque eu devia saber o que veria, se o fizesse.
Carlisle Cullen. Olhando para ele sem aquele ódio que me toldava a visão, eu não podia negar que matá-lo era assassinato. Ele era bom. Bom como qualquer ser humano que protegíamos. Talvez melhor. Os outros também, imagino, mas eu não sentia tanto por eles. Não os conhecia tão bem. Era Carlisle que odiaria lutar, mesmo para salvar a própria vida. Por isso, conseguiríamos matá-lo – porque ele não iria querer que nós, seus inimigos, morrêssemos.
Aquilo era um erro.
Eu não só porque matar Bella era como me matar, como cometer suicídio. Acalme-se, Jacob, ordenou Sam. A tribo vem em primeiro lugar.
Eu estava enganado hoje, Sam.
Seus motivos estavam errados então. Mas agora temos um dever a cumprir.
Criei coragem. Não.
Sam rosnou e parou de andar na minha frente. Fitou meus olhos e um grunhido profundo deslizou entre os seus dentes.
Sim, decretou o alfa, a voz dual virulenta com o calor de sua autoridade. Não haverá escapatórias esta noite. Você, Jacob, vai lutar conosco contra os Cullen. Você, Quil e Embry cuidarão de Jasper e Emmett. Você é obrigado a proteger a tribo. É por isso que você existe. Você vai cumprir essa obrigação.
Meus ombros arriaram à medida que o edito me esmagava. Minhas pernas desabaram, eu estava caído de bruços debaixo dele.
Nenhum membro do bando podia se opor ao alfa.

3 comentários:

  1. Camilla (Filha de Athena e Estudante de Hogwarts na Casa Corvinal)10 de fevereiro de 2016 17:05

    "[...]O choque de todos eles era como um grito mudo em minha cabeça. Sem palavras.
    !!!"
    Jake é tão expressivo!

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  2. Meu Deus estou maluca com essa saga ,todo dia eu leio nao perco um capitulo! Parabens!

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  3. "Ah sim por que eu sou um idiota" Esse nome desse capítulo é muuito engraçado kkkkkkkk

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