23 de setembro de 2015

Capítulo 10 - Interrogações

Foi muito difícil, de manhã, discutir com a parte de mim que tinha certeza que a noite de ontem havia sido um sonho. A lógica não estava ao meu lado, nem o senso comum. Eu me agarrei ás coisas que eu não podia ter imaginado – como o cheiro dele. Eu estava certa de que não poderia ter inventado isso tudo sozinha.
Estava nebuloso e escuro lá fora, absolutamente perfeito. Ele não tinha motivos pra não ir á escola hoje. Eu me vesti com roupas pesadas, me lembrando de que não estava com meu casaco. Mais uma prova de que eu não estava imaginando coisas.
Quando eu desci, Charlie já tinha ido embora, eu estava mais atrasada do que havia imaginado. Eu engoli uma barra de granola em três mordidas, bebi leite na boca da garrafa, e corri para a porta.
Com alguma sorte a chuva não começaria antes que eu encontrasse Jéssica.
Estava mais nebuloso do que o normal, parecia que havia fumaça no ar. A névoa estava muito gelada quando entrou em contato com as partes expostas do meu rosto e do meu pescoço. Eu mal podia esperar pra ligar o aquecedor na minha caminhonete. A névoa estava tão forte que eu já estava a alguns passos da entrada dos carros quando eu percebi que havia outro carro lá, um carro prateado.
Meu coração estrondou, tremeu, e depois voltou a bater duas vezes mais rápido.
Eu não vi de onde ele tinha vindo, mas de repente ele estava lá, abrindo a porta pra mim.
— Você quer dar uma volta comigo hoje? — Ele perguntou, se divertindo com a minha expressão de surpresa de novo. Havia uma incerteza na voz dele. Ele realmente estava me dando uma escolha, eu estava livre para recusar, e parte dele esperava que eu fizesse isso. Ele esperou em vão.
— Sim, obrigada. — Disse, tentando manter minha voz calma.
Quando eu entrei no carro quentinho, percebi que o seu casaco estava pendurado no banco do passageiro. Ele fechou a porta atrás de mim, e tão rápido quanto era possível, ele já estava sentado a meu lado, ligando o carro.
— Eu trouxe o casaco pra você. Não queria que você ficasse doente nem nada parecido.
Sua voz estava cautelosa. Eu percebi que ele não estava usando casaco nenhum, só uma blusa de tricô cinza clara com uma gola em formato de V e mangas compridas. De novo, o tecido se ajustava no seu peito perfeitamente musculoso. Era uma homenagem colossal ao seu rosto e eu não conseguia tirar os olhos do seu corpo.
— Eu não sou tão delicada. — Disse, mas coloquei o casaco no meu colo, enfiando os braços nas mangas compridas demais, curiosa pra ver se o cheiro era mesmo tão bom quanto eu me lembrava.
Era melhor.
— Não é? — Ele contradisse com uma voz tão baixa que eu não tenho certeza se ele queria que eu ouvisse.
Nos dirigimos pela rua encoberta de neblina, indo sempre rápido demais, nos sentindo estranhos. Pelo menos, eu estava. Na noite passada, as paredes tinham desaparecido... Quase todas. Eu não sabia se continuaríamos sendo tão transparentes hoje. Eu senti minha língua presa. Eu esperei que ele falasse.
Ele se virou sorrindo pra mim.
— O que foi? Não tem mais umas vinte perguntas pra mim hoje?
— As minhas perguntas te incomodam? — Perguntei aliviada por ele ter falado.
— Não tanto quanto as suas reações ás minhas respostas. — Ele parecia estar brincando, mas eu não tinha certeza.
Eu fiz uma careta.
— Eu reajo mal?
— Não, e esse é o problema. Você aceita tudo tão naturalmente, não é normal. Me faz imaginar o que você está pensando de verdade.
— Eu sempre te digo o que eu penso.
— Você edita algumas partes. —Ele acusou.
— Não muitas.
— É o suficiente pra me deixar louco.
— Você não quer ouvir. — Murmurei, quase sussurrei.
Assim que as palavras saíram, eu me arrependi por tê-las falado. A dor na minha voz era quase uma dor física, eu só esperava que ele não tivesse reparado.
Ele não respondeu, e eu imaginei se tinha estragado o seu bom humor. Seu rosto era impossível de ler enquanto entrávamos no estacionamento da escola. Um pensamento retardado passou pela minha cabeça.
— Onde está o resto da sua família? — Perguntei feliz por estar sozinha com ele, mas lembrando de que o carro costumava estar sempre cheio.
— Eles vieram no carro de Rosalie. — Ele levantou os ombros enquanto estacionava ao lado de um carro vermelho chamativo conversível e com a capota levantada. — Chamativo, não é?
— Uhn, uau. — Suspirei. — Se ela tem isso, então porque vem de carona com você?
— Como eu disse, é chamativo. Nós tentamos nos misturar.
— Vocês não têm muito sucesso.
Eu sorri e balancei minha cabeça enquanto saíamos do carro. Eu não estava mais atrasada, esse motorista lunático me levou para a escola em tempo suficiente.
— Então porque Rosalie veio dirigindo hoje se seria mais notável?
—Você ainda não percebeu? Eu estou quebrando todas as regras agora.
Ele me encontrou na frente do carro e caminhou muito próximo de mim enquanto entrávamos na escola. Eu queria diminuir ainda mais a distância, erguer a mão e tocá-lo, mas eu tinha medo que ele não gostasse.
— Porque vocês têm carros assim? — Eu imaginei em voz alta. — Se vocês procuram privacidade?
— Um prazer. — Ele deu um sorriso sem graça. — Todos nós gostamos de dirigir rápido.
— Dá pra notar. — Murmurei por baixo do fôlego.
Embaixo do telhado de proteção da cafeteria, Jéssica estava me esperando, seus olhos estavam prestes a sair das órbitas. Sobre o braço dela, seja louvada, estava o meu casaco.
—Oi, Jéssica. — Disse quando estávamos a apenas alguns passos de distância. — Obrigada por lembrar.
Ela me passou o casaco sem falar nada.
— Bom dia, Jéssica. — Edward disse educadamente.
Realmente ele não tinha culpa que a sua voz era tão irresistível. E do que os seus olhos eram capazes de fazer.
— Er... Oi. — Ela passou os seus olhos arregalados pra mim, tentando recompor seus pensamentos bagunçados. — Eu acho que a gente se vê na aula de Trigonometria.
Ela me deu uma olhada cheia de significância. Eu prendi um suspiro.
O que eu ia dizer a ela?
— É, te vejo lá.
Ela foi embora, parando duas vezes pra olhar pra nós por cima do ombro.
— O que você vai dizer pra ela? — Edward sussurrou.
— Ei! Eu achava que você não podia ler minha mente! — Falei por entre os dentes.
— Eu não posso. —Ele disse assustado. Então o entendimento brilhou nos seus olhos. — Contudo, eu posso ler a dela, e ela está esperando pra te pegar na sala de aula.
Eu gemi enquanto tirava o casaco dele e devolvia pra ele, vestindo o meu próprio. Ele o dobrou nos braços.
— Então, o que você vai dizer pra ela?
— Uma ajudinha? — Implorei. — O que ela quer saber?
Ele balançou a cabeça, sorrindo estranhamente.
— Isso não é justo.
— Não, não compartilhar o que você sabe, isso não é justo.
Ele pensou por um momento enquanto caminhávamos. Nós paramos na porta da sala onde eu ia ter minha primeira aula.
— Ela quer saber se nós estamos namorando em segredo. E ela quer saber o que você sente em relação a mim. — Ele disse finalmente.
— Maravilha. O que eu devo dizer? — Eu tentei manter minha expressão bem inocente.
As pessoas estavam passando por nós a caminho de suas salas, provavelmente olhando pra nós, mas eu não estava prestando atenção neles.
— Hm... — Ele pausou para colocar uma mecha do meu cabelo que estava se soltando atrás da minha orelha. Meu coração começou a bater rápido demais. — Eu acho que você deve dizer que sim para a primeira... Se você não se incomodar, é mais fácil que dar outras explicações.
— Eu não me incomodo. — Disse com a voz fraca.
— E quanto á outra pergunta... Bem, eu vou escutar pra ouvir a resposta dessa. — Um dos cantos dos seus lábios se levantou colocando o meu sorriso favorito no rosto dele.
Eu não consegui recuperar o meu fôlego a tempo de responder a isso. Ele se virou e foi embora.
— A gente se vê no almoço. —Ele falou por cima do ombro.
Três pessoas que estavam passando pela porta pararam pra olhar pra mim.
Eu corri pra dentro da sala, envergonhada e irritada. Ele era um traidor. Agora eu estava ainda mais preocupada com o que eu ia dizer para Jéssica.
Sentei no meu lugar de sempre, derrubando a minha mochila no chão com raiva.
— Bom dia, Bella. — Mike disse na cadeira em frente a minha. Eu olhei pra cima pra ver um rosto estranho, quase resignado. — Como foi em Port Angeles?
— Foi... — Não tinha jeito de encontrar uma palavra que descrevesse com honestidade. — Ótimo. — Terminei insatisfeita. — Jéssica encontrou um vestido lindo.
— Ela te falou alguma coisa sobre segunda á noite? — Ele me perguntou, seus olhos estavam brilhando.
Eu sorri com o rumo que a conversa tinha tomado.
— Ela disse que se divertiu muito. — Garanti pra ele.
— Ela disse? — Ele perguntou ansiosamente.
— Definitivamente.
O Sr. Mason pediu ordem na sala, pedindo que nós entregássemos os nossos trabalhos. Inglês e depois História se passaram num sopro, enquanto eu estava preocupada com o que falaria pra Jéssica e agoniada pra saber se ele realmente estaria ouvindo os pensamentos de Jess. O talento dele podia ser bem inconveniente, quando não estava salvando a minha vida.
O nevoeiro já tinha se dissolvido quase completamente no fim da segunda aula, mas o dia ainda estava escuro, cheio de nuvens pesadas. Eu sorri para o céu.
Edward estava certo, é claro. Quando eu entrei na aula de Trigonometria, Jéssica já estava sentada, quase se embolando na cadeira de tanta agitação. Eu estava relutante quando me sentei ao lado dela, tentando me convencer de que seria melhor acabar logo com isso de uma vez por todas.
— Me conte tudo! — Ela ordenou antes que eu estivesse sentada.
— O que você quer saber? —Testei.
— O que aconteceu na noite passada.
— Ele me pagou um jantar e depois me levou pra casa.
Ela me encarou, sua expressão estava cética.
— Como é que você chegou em casa tão rápido?
— Ele dirige como um louco. Eu fiquei morrendo de medo.
Eu esperava que ele estivesse ouvindo isso.
— Foi tipo um encontro, você pediu pra ele te encontrar lá?
Eu não tinha pensado nisso.
— Não, foi muito surpreendente encontrar com ele lá.
Ela fez um biquinho por causa do tom honesto da minha voz
— Mas ele foi te buscar em casa hoje? — Ela perguntou.
— Sim, isso também me surpreendeu. Ele percebeu que eu estava sem casaco ontem. — Expliquei.
— Então vocês vão sair de novo?
— Ele se ofereceu pra me levar até Seattle no Sábado porque ele acha que o meu carro não consegue chagar até lá, isso conta?
— Conta. —Ela balançou a cabeça
 —Bom, então sim.
— U-A-U. — Ela dividiu a palavra em três sílabas. — Edward Cullen.
— Eu sei. — Concordei.
'Uau' não conseguia descrever tudo.
— Pera aí... — Ela levantou as duas mãos, com as palmas na minha direção como se ela estivesse parando o trânsito. — Ele já te beijou?
—Não. — Murmurei. — Não é bem assim.
Ela pareceu desapontada. Com certeza, eu também estava.
— Você acha que sábado...? — Ela ergueu as sobrancelhas.
— Eu realmente duvido. — O tom triste da minha voz não dava pra ser disfarçado.
— Sobre o que foi que vocês conversaram? — Ela me pressionou por mais informações num cochicho. A aula já havia começado, mas o Sr. Varner não estava prestando a mínima atenção em nós, e não éramos as únicas conversando.
— Eu não sei Jess, um monte de coisas. — Cochichei de volta. — Nós falamos um pouco sobre o trabalho de Inglês. Pouco, muito pouco. Eu acho que ele mencionou isso de passagem.
— Por favor, Bella. — Ela implorou. — Me dê alguns detalhes.
— Bom... Tudo bem, eu te digo um. Você precisava ter visto a garçonete flertando com ele, foi até um pouco demais. Mas ele não estava prestando nem um pouco de atenção.
Deixe-o pensar o que quiser disso, pensei.
— Isso é um bom sinal. — Ela balançou a cabeça. — Ela era bonita?
— Muito, e provavelmente tinha dezenove ou vinte anos.
— Melhor ainda. Ele deve gostar de você.
— Eu acho que sim, mas é difícil dizer. Ele é sempre tão enigmático.
Eu disse isso para o seu próprio bem, suspirando.
—Eu não sei como você tem coragem suficiente pra ficar sozinha com ele. — Ela falou.
— Por quê? — Eu estava chocada, mas ela não entendeu minha reação.
— Ele é tão... Intimidante. Eu não saberia o que dizer pra ele.
Ela fez uma careta, provavelmente lembrando-se dessa manhã ou da noite passada, quando ele usou o poder devastador do seu olhar sobre ela.
— Eu tenho alguns problemas com minha coerência quando estou perto dele. — Admiti.
— Oh, bem. Ele é inacreditavelmente lindo. — Jéssica levantou os ombros como se esse fato apagasse qualquer falha.
E, na cabeça dela, provavelmente apagasse.
— Ele é mais que só isso.
— É mesmo? O que mais?
Eu devia ter deixado pra lá. Eu esperava que ele não estivesse falando sério sobre ouvir a conversa.
— Eu não sei explicar direito... Mas ele é ainda mais inacreditável por trás do rosto. — Um vampiro que tentava ser bom, que corria pra cima e pra baixo salvando as pessoas pra não se tornar um monstro...
Olhei para frente da sala.
— E isso é possível?
Eu a ignorei, fingindo que estava prestando atenção no que o Sr. Varner estava dizendo.
— Você gosta dele, então? — Ela não ia desistir.
— Sim. — Disse simplesmente.
— Eu quero dizer, você gosta dele de verdade? —Ela pressionou.
— Sim. — Disse de novo, corando.
Eu esperava que esse detalhe não ficasse gravado na mente dela.
Ela estava cansada de respostas monossilábicas.
— Quanto você gosta dele?
— Demais. — Cochichei de volta. — Muito mais do que ele gosta de mim. Mas eu não sei como posso evitar isso. — Suspirei, corando uma vez atrás da outra.
Então, por sorte, o Sr. Varner chamou Jéssica pra responder uma pergunta.
Ela não teve outra oportunidade de tocar no assunto, e assim que o sinal tocou, eu bolei uma tática evasiva.
— Na aula de Inglês, Mike me perguntou o que você tinha achado do passeio de Segunda. — Contei para ela.
— Você tá brincando! O que foi que você disse?! — Ela tentou recuperar o fôlego, completamente alucinada.
— Eu disse que você tinha se divertido muito, ele pareceu satisfeito.
— Me diga exatamente o que ele disse, e o que você respondeu exatamente!
Nós passamos o resto do tempo da aula de Espanhol falando sobre as expressões de Mike. Eu não teria me demorado tanto as explicando, mas estava com medo que o assunto voltasse pra mim.
E então o sinal tocou para o almoço. Eu pulei da minha cadeira, enfiando os meus livros rapidamente dentro da bolsa, minha expressão deve ter alertado Jéssica.
— Você não vai almoçar com a gente hoje, vai? — Ela adivinhou.
— Eu acho que não. — Não tinha como saber se ele não ia desaparecer convenientemente de novo.
Mas do lado de fora da sala de Espanhol, encostado na parede, parecendo mais um Deus grego do que uma pessoa tinha o direito de parecer, Edward estava esperando por mim.
Jéssica deu uma olhada, revirou os olhos e desapareceu.
— A gente se vê mais tarde, Bella.
A voz dela estava cheia de significado. Eu achei que seria melhor desligar o telefone quando chegasse em casa.
— Olá. — A voz dele estava divertida e irritada ao mesmo tempo.
Ele estava ouvindo, era óbvio.
— Oi.
Eu não consegui pensar em outra coisa pra dizer, e ele não disse mais nada. Sem assunto, eu imaginei então. Nós ficamos quietos até a cafeteria. Caminhar com Edward pela cafeteria foi como no meu primeiro dia de aula. Todo mundo estava me olhando.
Ele me guiou até a fila, ainda sem falar, apesar de os seus olhos se virarem pro meu rosto a cada segundo, com uma expressão especulativa. Parecia que a irritação estava se sobressaindo á diversão. Eu brinquei nervosamente com o zíper do meu casaco.
Ele entrou na fila e começou a encher uma bandeja com comida.
— O que você tá fazendo? Isso tudo é pra mim?
Ele balançou a cabeça, dando um passo á frente para pagar pela comida.
— Metade é pra mim, claro.
Ergui uma sobrancelha.
Ele me guiou para a mesma mesa onde havíamos nos sentado da primeira vez. Da outra mesa, um grupo de alunos do último ano olhou pra nós estarrecidos enquanto nos sentávamos na frente um do outro.
Edward parecia obscuro.
— Pegue o que quiser. — Ele disse, empurrando a bandeja na minha direção.
— Eu estou curiosa. — Disse enquanto pegava uma maçã, virando ela nas mãos. — O que você faria se uma pessoa te desafiasse a comer alguma coisa?
— Você está sempre curiosa. — Ele brincou, balançando a cabeça. Ele olhou pra mim, prendendo o meu olhar enquanto pegava um pedaço de pizza da bandeja, e deliberadamente deu uma mordida grande, mastigou rapidamente, e depois engoliu.
Eu observei com os olhos arregalados.
— Se alguém te desafiasse a comer areia, você poderia, não poderia? — Ele perguntou.
Eu torci meu nariz.
— Eu já fiz isso uma vez... Num desafio. Não foi tão ruim.
Ele sorriu.
— Eu acho que não estou muito surpreso.
Algo acima do meu ombro pareceu chamar a atenção dele.
— Jéssica está analisando tudo que eu faço, ela vai falar com você sobre isso depois.
Ele empurrou o resto da pizza pra mim. A menção do nome de Jéssica pareceu deixá-lo irritado de novo.
Eu coloquei a maçã na mesa e dei uma mordida na pizza, olhando pra longe, sabendo que ele ia começar a falar.
— Então a garçonete era bonita, não era? — Ele perguntou casualmente.
— Você realmente não reparou?
— Não. Eu não estava prestando atenção. Eu tinha muitas coisas na cabeça.
— Pobre garota. — Podia me dar ao luxo de ser generosa.
— Algo que você disse pra Jéssica... Bem, me incomodou.
Ele se recusava a se distrair. Sua voz estava áspera, e ele olhou por baixo dos cílios com um olhar perturbado.
— Eu não estou surpresa que você tenha ouvido algo de que não tenha gostado. Você sabe o que as pessoa dizem sobre espionar. — Avisei.
— Eu te disse que estaria ouvindo.
— E eu te avisei que você não ia querer saber tudo o que eu pensava.
— Você avisou, — ele concordou, mas sua voz ainda estava dura — porém, você não estava precisamente certa. Eu quero saber o que você pensa, tudo. Eu só queria que você não estivesse pensando em... algumas coisas.
Eu fiz uma cara feia.
— É uma honraria e tanto.
— Mas não é isso que importa no momento.
— Então o que é?
Nós dois estávamos inclinados sobre a mesa na direção um do outro agora. Suas longas mãos estavam dobradas embaixo do queixo, eu me inclinei para frente, minha mão direita estava ao redor do meu pescoço. Eu tinha que me lembrar que estávamos numa sala lotada, provavelmente cheia de olhos curiosos. Era fácil demais ficar presa na privacidade da nossa pequena bolha de tensão.
— Você realmente acredita que gosta de mim mais do que eu gosto de você? — Ele murmurou, se inclinando pra mais perto enquanto falava, seus olhos dourados eram penetrantes.
Eu tentei me lembrar de respirar. Eu tive que olhar pra outro lugar até que ela voltasse.
— Você está fazendo isso de novo. — Murmurei.
Os olhos dele ficaram grandes de surpresa.
— O que?
— Me deixando deslumbrada. — Admiti, tentando me concentrar enquanto olhava pra ele.
— Oh. — Ele fez uma careta.
— Não é sua culpa. — Suspirei. — Você não consegue evitar.
— Você vai responder a pergunta?
Eu olhei pra baixo.
— Sim.
— Sim, você vai responder, ou sim, você realmente acha isso?
Ele estava irritado de novo.
— Sim, eu realmente acho isso.
Mantive os meus olhos na mesa, meus olhos traçavam os seus contornos de madeira. O silêncio se arrastou. Eu estava teimosamente decidida a não ser a primeira a falar, lutando com a vontade de dar uma espiadinha na expressão dele.
Finalmente ele falou, sua voz aveludada estava macia.
— Você está errada.
Eu olhei pra cima pra ver que seus olhos estavam gentis.
—Não tem como saber disso. — Discordei num murmúrio.
Balancei a cabeça em dúvida, apesar das palavras dele terem balançado meu coração e de eu querer tanto acreditar nelas.
— O que te faz pensar isso?
Seus olhos da cor do topázio eram penetrantes.
Tentando futilmente, pensei, ver a verdade diretamente da minha mente.
Eu o encarei de volta, tentando pensar claramente a despeito do rosto dele, para achar alguma explicação. Eu procurei as palavras, eu podia vê-lo ficando impaciente, ficando frustrado com o meu silêncio.
Ele estava começando a ficar carrancudo. Eu levantei minha mão do pescoço, e levantei um dedo.
— Me deixe pensar. — Insisti.
A expressão dele ficou mais amena, agora que ele sabia que eu estava planejando uma resposta. Eu coloquei minha mão na mesa e movi a mão esquerda para que as duas palmas ficassem juntas. Eu olhei para as minhas mãos, cruzando e descruzando os dedos, e finalmente falei.
— Bem, tirando o óbvio, às vezes... — Hesitei. — Eu não posso ter certeza, não leio mentes, mas às vezes parece que você está querendo dizer adeus, mas diz outra coisa.
Foi o melhor que eu pude fazer para avaliar a angústia que suas palavras me causavam às vezes.
— É uma questão de perceptiva. — Ele cochichou.
E então lá estava a angústia de novo, sua expressão confirmou os meus medos.
— Porém, é exatamente por isso que você está errada. —Ele começou a explicar, mas seus olhos reviraram. — O que você quis dizer com 'o óbvio'?
— Bem, olhe pra mim. — Disse desnecessariamente, ele já estava olhando. — Eu sou absolutamente normal, bem, com exceção das experiências de quase morte e de ser tão atrapalhada que eu quase chego a ser uma inválida. E olhe pra você.
Eu abanei minha mão na direção da sua perfeição desconcertante.
As sobrancelhas dele se uniram por um instante, mas depois se suavizaram quando ele fez uma cara de sabe tudo.
— Você não se vê muito claramente, Bella. Eu tenho que admitir que você estava certa sobre as experiências de quase morte, — ele sorriu obscuramente —mas você não ouviu o que todos os seres humanos do sexo masculino nessa escola pensaram de você no seu primeiro dia.
Eu pisquei desnorteada.
— Eu não acredito... — Murmurei pra mim mesma.
— Confie em mim, você não tem nada de comum.
Minha vergonha foi muito maior do que o meu prazer quando eu vi o seu olhar enquanto ele dizia essas palavras. Rapidamente me lembrei do assunto original da discussão.
— Mas não sou eu que quero me despedir. – Apontei
— Você não vê? É isso que prova que eu estou certo. Eu me importo mais, se eu não posso fazer isso. — Ele balançou a cabeça, parecendo lutar contra esse pensamento. — Se ir embora é a coisa certa a se fazer, então eu vou me machucar pra não machucar você, pra te manter a salvo.
Meus olhos faiscaram na direção dele.
— E você acha que eu não faria a mesma coisa?
— Você nunca teria que tomar essa decisão.
Abruptamente, seu humor imprevisível mudou de novo um sorriso travesso, devastador transformou o seu rosto.
— É claro que manter você viva é um trabalho em período integral que requer minha presença constante.
— Ninguém tentou me matar hoje. — O lembrei feliz com o assunto mais leve.
Não queria mais falar de despedidas. Se eu tivesse que fazer isso, eu colocaria a minha vida em perigo constante só pra mantê-lo perto... Eu bani esse pensamento antes que seus olhos rápidos pudessem lê-los no meu rosto. Essa ideia definitivamente ia me meter em encrenca.
— Ainda. —Ele adicionou.
— Ainda. – Concordei, eu podia ter discutido, mas agora eu queria que ele estivesse preparado pra enfrentar desastres.
— Eu ainda tenho outra pergunta. — Seu rosto ainda estava casual.
— Manda.
— Você realmente precisa ir á Seattle esse Sábado ou só está fazendo isso pra ficar longe dos seus admiradores?
Eu fiz uma careta quando me lembrei disso.
— Você sabe, eu ainda não te perdoei pelo lance com Tyler. — Avisei. — É por sua culpa que ele fica tendo essas ilusões sobre me levar para o baile de fim de ano.
— Oh, ele teria encontrado uma chance de te convidar sem a minha ajuda, eu só queria olhar a sua cara quando ele fizesse isso. — Ele deu uma gargalhada.
Eu teria ficado com mais raiva se o sorriso não fosse tão fascinante.
— Se eu tivesse te convidado, você teria me dispensado? — Ele perguntou, ainda rindo pra si mesmo.
— Provavelmente não. — Admiti. — Mas eu teria ligado depois pra desmarcar, dizendo que estava doente ou que tinha torcido o tornozelo.
Ele pareceu confuso.
— Porque você faria isso?
Eu balancei a cabeça tristemente.
— Você nunca me viu na aula de Educação física eu acho, mas se você tivesse visto você entenderia.
— Você está se referindo ao fato de que não consegue andar sobre uma superfície plana e estável sem encontrar algo em que tropeçar?
— Obviamente.
— Isso não seria um problema. — Ele disse confiante. — Tudo depende de quem conduz.
Ele viu que eu estava prestes a protestar, então me cortou.
— Mas você não me disse, está resolvida a ir á Seattle ou não se incomodaria se fizéssemos algo diferente?
Contanto que o "nós" estivesse envolvido, eu não me importava muito com o resto.
— Eu estou aberta a alternativas. — Falei. — Mas eu tenho que te pedir um favor.
Ele me olhou cauteloso, já que eu havia feito uma pergunta aberta.
— O que é?
— Eu posso dirigir?
Ele fez uma careta.
— Por quê?
— Bem, pra começar, quando eu disse que ia a Seattle, Charlie me perguntou especificamente se eu ia sozinha, e na época, eu ia. Se ele tivesse perguntado de novo, eu provavelmente não mentiria, mas eu não acho que ele vai perguntar de novo, e deixar o meu carro em casa só vai levantar suspeitas desnecessárias. E também, o seu jeito de dirigir me assusta.
Ele revirou os olhos.
— Com todas as coisas que podiam te assustar, você se preocupa com o jeito que eu dirijo. — Ele balançou a cabeça, cheio de desgosto, mas então seus olhos ficaram sérios de novo.
— Porque você não contou ao seu pai que passaria o dia comigo? — Havia outro significado nessa pergunta, que eu não consegui entender.
— Com Charlie, menos é sempre mais. — Eu estava resolvida sobre isso.
— Pra onde vamos afinal?
— O clima vai estar ensolarado, então eu vou me manter longe dos olhares do público... E você pode ficar comigo se quiser. — De novo, ele estava me deixando escolher.
— E você vai me mostrar o que acontece com o sol? — Perguntei, excitada com a ideia de ver mais um dos seus segredos sendo revelados.
— Sim. — Ele sorriu e depois pausou. — Mas se você não quiser... Ficar sozinha comigo, eu ainda preferiria que você não fosse á Seattle sozinha. Eu tremo só de pensar nos problemas que você pode encontrar numa cidade daquele tamanho.
Eu estava zangada.
— Phoenix é três vezes maior, só em população. No tamanho físico...
— Mas aparentemente, — ele me interrompeu — você não estava marcada para morrer em Phoenix. Então eu preferiria que você ficasse perto de mim. —Seus olhos estavam flamejantes daquele jeito injusto de novo.
Eu não podia discutir, nem com os olhos nem com a motivação, e era uma discussão que eu ia perder do mesmo jeito.
— Acontece que eu não me incomodo de ficar sozinha com você.
— Eu sei. — Ele suspirou, meditando. — Contudo, eu acho que você devia contar para o Charlie.
— E porque razão eu faria isso?
Seus olhos ficaram ferozes de repente.
— Pra me dar um pequeno incentivo pra te trazer de volta.
Eu engoli seco. Mas depois de alguns segundos, minha decisão estava tomada.
— Eu acho que vou me arriscar.
Ele exalou o ar com raiva, e desviou o olhar.
— Vamos falar de outra coisa. — Sugeri.
— Sobre o que você quer falar? — Ele perguntou.
Ainda estava aborrecido.
Eu dei uma olhada ao nosso redor, me certificando de que ninguém poderia nos ouvir. Enquanto passava os olhos pelo lugar, meus olhos encontraram os da irmã de Edward, Alice, que estava me observando.
Os outros estavam olhando para Edward. Eu desviei o olhar depressa, olhando pra Edward, e perguntei a primeira coisa que me passou pela cabeça.
— Porque você foi á Great Rocks no último fim de semana... Pra caçar? Charlie disse que não é um bom lugar para caminhadas, porque lá tem muitos ursos.
Ele me encarou como se eu estivesse deixando passar algum detalhe óbvio.
— Ursos? —Engasguei e ele sorriu. — Sabe, não é temporada de ursos. —Falei por fora pra esconder o meu choque.
— Se você ler cuidadosamente, as leis impedem as pessoas de caçar com armas de fogo. — Ele me informou.
Ele observou o meu rosto com prazer enquanto a minha ficha caía.
— Ursos? — Repeti com dificuldade.
— Os pardos são os favoritos de Emmett. — A sua voz ainda estava normal, mas os seus olhos estavam analisando a minha reação.
Tentei me recompor.
— Hm... — Disse comendo outro pedaço da pizza como um desculpa pra olhar pra baixo.
Mastiguei lentamente, e bebi um gole de refrigerante sem olhar pra cima.
— Então... —Disse depois de um momento, finalmente encontrando seus olhos que agora estavam ansiosos. — Qual é o seu favorito?
Ele ergueu uma sobrancelha e os cantos da boca dele se curvaram pra baixo, em desaprovação.
— Leão da Montanha.
— Ah. — Disse num tom de desinteresse educado, olhando para a minha lata de refrigerante.
— É claro, — disse, com um tom que imitava o meu — que nós temos que tomar cuidado para não causar um grande impacto no meio ambiente com as nossas caçadas. Nós tentamos nos manter nas áreas onde os índices predatórios são menores, indo pra tão longe quanto for necessário. Sempre têm muitos veados e alces por aqui, e eles servem, mas onde está à graça nisso?
Ele sorriu me provocando.
— Realmente. — Murmurei mordendo outro pedaço de pizza.
         — O começo da primavera é a época de ursos favorita de Emmett, eles estão saindo da hibernação, então estão mais irritáveis. — Ele sorriu se lembrando de alguma piada.
— Nada mais divertido que irritar um urso pardo. — Concordei, balançando a cabeça.
Ele sorriu silenciosamente, balançando a cabeça.
— Me diga o que você realmente está pensando, por favor.
— Eu estou tentando imaginar a cena, mas não consigo. — Admiti. —Como você caça um urso sem armas de fogo?
— Oh, nós temos armas. — Ele mostrou seus dentes num breve sorriso ameaçador.
Lutei contra um arrepio antes que ele me expusesse.
— Só que elas não são do tipo que se leva em consideração quando fazem as leis de proibição. Se você já viu um ataque de ursos na televisão, você deve ser capaz de imaginar Emmett caçando.
Não consegui evitar o calafrio que percorreu a minha espinha. Olhei pela cafeteria na direção de Emmett, feliz por ele não estar olhando pra mim. Os grossos músculos que envolviam seus braços e o seu tórax eram de alguma forma ainda mais ameaçadores agora.
Edward seguiu o meu olhar e deu uma gargalhada. Eu olhei pra ele enervada.
— Você é como um urso também? — Perguntei em voz baixa.
— Mais como um leão, ou pelo menos é o que eles me dizem. — Disse levemente. — Talvez as nossas preferências sejam indicativas.
Eu tentei sorrir.
—Talvez. — Repeti.
Mas minha cabeça estava cheia de imagens contraditória que eu não conseguia agrupar.
— Isso é algo que eu posso ver um dia?
— Absolutamente não! — Seu rosto ficou ainda mais pálido que o natural, e seus olhos estavam furiosos.
Eu me inclinei pra trás, assustada e, apesar de eu nunca ser capaz de admitir pra ele, com medo da sua reação. Ele também se inclinou pra trás, cruzando os braços no peito.
— Assustador demais pra mim? — Eu perguntei quando consegui controlar minha voz de novo.
— Se o problema fosse só esse, eu te levaria lá hoje á noite. — Ele disse com uma voz cortante. — Você precisa de uma dose saudável de medo. Nada poderia ser mais beneficial pra você.
— Então por quê? — Pressionei, tentando ignorar a sua expressão de raiva.
Ele olhou pra mim por um longo minuto.
— Mais tarde. —Ele disse finalmente, se levantando com um movimento gracioso. — Nós vamos nos atrasar.
Olhei ao redor, alarmada de ver que ele estava certo, e a cafeteria já estava quase vazia.
Quando eu estava com ele, o tempo e o espaço eram tão escorregadios que eu acabava perdendo a noção dos dois. Eu me pus de pé num pulo, pegando a minha mochila que estava atrás da cadeira.
— Mais tarde, então. — Eu concordei.
Não ia me esquecer.

6 comentários:

  1. Esse Bela é louca pra querer ver ele caçando hahaha

    Mikaela

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  2. Vdd... mas tbm fiquei imaginando a cena..kk
    Edward Deus grego...<3

    Mikaeli

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  3. obrigado pelo postagem do livro, o blog é ótimo parabéns Karina.

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  4. "Mas do lado de fora da sala de Espanhol, encostado na parede, parecendo mais um Deus grego do que uma pessoa tinha o direito de parecer, Edward estava esperando por mim"
    ..Amei essa parte! Acho que não tem essa no filme... Infelizmente...

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  5. Maravilhoso seu blog, so tenho a agradecer por ter postado o livro aqui, adoro e amo essa Saga...

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