25 de setembro de 2015

Capítulo 10 - Cheiro

Tudo foi muito infantil. Porque nesse mundo Edward precisava ir embora pra que Jacob viesse? Nós não havíamos superado esse tipo de imaturidade?
—Não é que eu sinta algum antagonismo pessoal em relação a ele, Bella, é só que é mais fácil pra nós dois—, Edward me disse na porta. —Eu não estarei longe. Você estará segura—.
—Eu não estou preocupada com isso—.
Ele sorriu , e então um olhar astuto apareceu em seus olhos. Ele me puxou mais pra perto, enterrando o rosto no meu cabelo. Eu podia sentir a respiração dele fazer meu cabelo flutuar enquanto ele exalava; isso fez o meu pescoço arrepiar.
—Eu volto logo—, ele disse, e depois riu alto como se tivesse acabado de contar uma piada.
—O que é tão engraçado?—
Mas Edward só sorriu e saiu em direção às árvores sem responder.
Murmurando pra mim mesma, eu fui limpar a cozinha. Antes mesmo que a pia estivesse cheia de água, a campainha da porta soou. Era difícil me acostumar com quão mais rápido Jacob era sem o seu carro. Como todo mundo parecia muito mais rápido que eu...
—Entre, Jake!—, eu gritei.
Eu estava me concentrando em empilhar os pratos na água com sabão, e eu tinha me esquecido que Jacob se movia como um fantasma nesses dias. Então quando de repente eu ouvi a voz dele por trás de mim, isso me fez pular.
—Você devia mesmo deixar a porta destrancada desse jeito? Oh, desculpe—.
Eu espirrei a água com sabão em mim mesma quando ele me assustou.
—Eu não estou preocupada com ninguém que seria detido por uma porta—, eu disse enquanto enxugava a frente da minha camisa com uma toalha de pratos.
—Bem lembrado—, ele concordou.
Eu me virei pra olhar pra ele, olhando-o criticamente. —É realmente impossível usar roupas, Jake?— Eu perguntei. Mais uma vez, Jake estava com o peito nu, usando nada além de um jeans velho rasgado. Secretamente, eu me perguntei se ele estava tão orgulhoso dos seus novos músculos que não conseguia cobrí-los. Eu tinha que admitir, eles eram impressionantes - mas eu nunca pensei nele como vaidoso.
—Eu quero dizer, eu sei que você não fica mais com frio, mas mesmo assim—.
Ela passou uma mão pelo seu cabelo molhado; ele estava caindo em seus olhos.
—É mais fácil—, ele explicou.
—O que é mais fácil?—
Ele sorriu condescendentemente. —Já é incômodo suficiente carregar um par de shorts comigo, imagina uma roupa completa. O que eu pareço, uma mula de carga?—
Eu fiz uma careta. —Do que você está falando, Jacob?—
A expressão dele era superior, como se eu estivesse deixando passar algo óbvio. —As minhas roupas não desaparecem simplesmente quando eu me transformo - eu tenho que carregá-las comigo enquanto eu corro. Perdoe-me por esconder a luz do meu fardo—.
Eu mudei de cor. —Eu não tinha pensado nisso—, eu murmurei.
Ele riu e apontou para uma tira de couro preto, fina como uma fita de estame, que estava amarrada três vezes no tornozelo dele, como uma tornozeleira. Eu não havia notado antes que ele estava de pés descalços também. —Isso é mais do que apenas uma tendência de moda - é muito ruim carregar jeans na boca—.
Eu não sabia o que dizer.
Ele sorriu. —O meu semi-nú te incomoda?—
—Não—.
Jacob riu de novo, e eu me virei de costas pra ele pra me concentrar nos pratos. Eu esperei que ele se desse conta de que eu estava corada porque estava envergonhada com a minha própria estupidez, e que isso não tinha nada a ver com a pergunta dele.
—Bem, eu acho que devia começar a trabalhar— Ele suspirou. —Eu não quero que ele tenha nenhuma desculpa pra dizer que há desleixo do meu lado—.
—Jacob, não é seu trabalho -—
Ele levantou as mãos pra me cortar. —Eu estou trabalhando como voluntário aqui. Agora, onde o cheiro do intruso é mais forte?—
—Meu quarto, eu acho—.
Os olhos dele estreitaram. Ele não parecia ter gostado disso mais que Edward.
—Eu volto em um minuto—.
Eu esfreguei metodicamente o prato que eu estava segurando. O único som era o da escova de plástico arranhando a cerâmica de novo e de novo. Eu tentei escutar alguma coisa lá de cima, um rangido do chão, o clique da porta. Não houve nada.
Eu me dei conta de estava lavando o mesmo prato por mais tempo que o necessário, e tentei prestar atenção no que eu estava fazendo.
—Whew!—, Jake disse, centímetros atrás de mim, me assustando de novo.
—Nossa, Jake, pára com isso!—
—Desculpe. Aqui -— Jacob pegou a toalha a removeu o novo meu molhado. —Eu vou me desculpar com você. Você ensaboa, eu lavo e seco—.
—Tá bom—, eu dei o prato a ele.
—Bem, o cheiro foi suficientemente fácil de sentir. Aliás, o seu quarto está fedendo—.
—Eu vou comprar um purificador de ar—.
Ele riu.
Eu lavei e ele secou em um silêncio de companheirismo por alguns minutos.
—Posso te perguntar uma coisa?—
Eu dei outro prato a ele. —Isso depende do que você quer saber—.
—Eu não vou ser um idiota nem nada assim - eu estou honestamente curioso—, Jacob me assegurou.
—Tá bom. Vá em frente—.
Ele pausou por meio segundo. —Como é - ter um vampiro como namorado?—
Eu revirei meus olhos. —É o máximo—.
—Eu estou falando sério. Essa ideia não te incomoda - isso nunca te assusta?—
—Nunca—.
Ele estava em silêncio enquanto pegou a tigela das minhas mãos. Eu dei uma olhada para o rosto dele - ele estava fazendo careta, o lábio inferior dele estava pra fora.
—Mais alguma coisa?—, eu perguntei.
Ele enrugou o nariz de novo. —Bem... eu estava me perguntando... você... você sabe, beija ele?—
Eu ri. —Sim—.
Ele estremeceu. —Ugh—.
—Cada um tem o que merece—.
—Você não se preocupa com as presas?—
Eu bati no braço dele, molhando ele com a água dos pratos. —Cala a boca, Jacob! Você sabe que ele não tem presas!—
—Chega bem perto—, ele murmurou.
Eu apertei meus dentes e esfreguei uma faca com mais força do que o necessário.
—Posso perguntar mais uma?— ele perguntou suavemente quando eu passei a faca pra ele. —Só curiosidade, de novo—
—Tá—, eu disparei.
Ele virou e virou a faca nas mãos embaixo do jato de água. Quando ele falou, era apenas um cochicho. —Você disse algumas semanas... Quando, exatamente...?— Ele não conseguiu terminar.
—Formatura—, ei cochichei de volta, observando o rosto dele cautelosamente. Isso ia tirar ele do sério de novo?
—Tão cedo—, ele respirou, seus olhos fechando. Isso não parecia ser uma pergunta. Parecia com um lamento. Os músculos dele se apertaram e seus ombros estavam rígidos.
—OW!— Ele gritou; tudo havia ficado tão quieto na cozinha que eu dei um pulo de um metro por causa da explosão dele.
A mão direita dele tinha se encurvado tensamente no pulso na lâmina da faca - ele abriu a mão e a faca resvalou no balcão. Na palma dele, havia um corte longo, profundo. O sangue correu pelos dedos dele e pingou no chão.
—Droga! Ai!—, ele reclamou.
Minha cabeça rodou e meu estômago revirou. Eu me agarrei no balcão com uma mão, respirei fundo pela boca, e me forcei a ficar bem pra poder cuidar dele.
—Oh, não, Jake!Oh, droga! Aqui, feche com isso aqui!—, Eu joguei a toalha de pratos pra ele, pegando a mão dele. Ele se afastou de mim.
—Não é nada, Bella, não se preocupe com isso—.
A cozinha começou a tremer um pouquinho nas beiras.
—Eu respirei fundo de novo. —Não se preocupe?! Você fatiou a sua mão!—
Ele ignorou a toalha que eu havia jogado pra ele. Ele colocou a mão embaixo da torneira e deixou a água correr pela ferida. A água ficou vermelha. A minha cabeça girou.
—Bella—, ele disse.
Eu tirei os olhos da ferida, olhando pra rosto dele. Ele estava fazendo uma careta, mas a expressão dele estava calma.
—O quê?—
—Você está com cara de quem vai desmaiar, e você vai arrancar o seu lábio. Pare com isso. Relaxe. Respire. Eu estou bem—.
Eu inalei pela minha boca e removi os meus dentes do meu lábio inferior. —Não seja corajoso—.
Ele revirou os olhos.
—Vamos lá. Eu vou te levar para o pronto socorro— eu tinha certeza de que estava bem pra dirigir. As paredes estavam paradas agora, pelo menos.
—Não é necessário— Jacob fechou a água e pegou a toalha das minhas mãos. Ele a passou folgadamente pela palma.
—Espere—, eu protestei. —Deixe eu dar uma olhada—. Eu agarrei o balcão com mais força, pra me manter de pé se a ferida me deixasse tonta de novo.
—Você tem algum diploma de medicina do qual nunca me contou?—
—Só me dê uma chance de decidir se eu vou ou não dar um piti pra te levar pro hospital—.
Ele fez uma cara de horror de brincadeira. —Por favor, um piti não!—
—Se você não me deixar ver a sua mão, um piti está garantido—.
Ele inalou profundamente, e deixou a respiração sair num suspiro forte. —Tá bom—.
Ele retirou a toalha e, quando eu me inclinei pra tirar ela, ele colocou a mão na minha.
Eu levei alguns segundos. Eu até virei a mão dele, apesar de ter certeza de que ele havia cortado a mão. Eu virei a mão dele pra cima de novo, finalmente me dando conta de que a linha inchada, num cor de rosa forte, era tudo o que havia restado da ferida.
—Mas... você estava sangrando... tanto—
Ele puxou a mão de volta, seus olhos diretos e sombrios nos meus.
—Eu saro rápido—.
—Eu que o diga—, eu murmurei.
Eu tinha visto o longo corte claramente, tinha visto o sangue que fluía na pia. O cheiro de sal e ferrugem dele quase me fez desmaiar. Ele devia precisar de pontos. Aquilo devia ter levado dias pra fechar e depois levado semanas pra se transformar naquela linha rosada que agora marcava a pele dele.
Ele rasgou a boca pra cima num meio sorriso no rosto e bateu com o pulso uma vez no peito. —Lobisomem, lembra?—
Os olhos dele seguraram os meus por um momento imensurável.
—Certo—, eu disse finalmente.
Ele riu da minha expressão. —Eu te disse isso. Você viu a cicatriz de Paul—.
Eu balancei minha cabeça pra limpá-la. —É um pouco diferente, ver a ação em sequência em primeira mão—.
Eu me ajoelhei e puxei o desinfetante do gabinete embaixo da pia. Então, eu coloquei um pouco no esfregão e comecei a esfregar o chão. O cheiro forte do desinfetante limpou o resto da tontura da minha cabeça.
—Deixe eu limpar—, Jacob disse.
—Deixa comigo. Jogue a toalha na máquina, tá?—
Quando eu tive certeza que o chão não cheirava a mais nada além de desinfetante, eu me levantei e limpei o lado direito da pia com desinfetante também. Aí eu fui para o armário da lavanderia ao lado da dispensa, e despejei um copinho dele dentro da máquina antes de ligá-la. Jacob me observou com um olhar de desaprovação no rosto.
—Você tem transtorno obsessivo compulsivo?— ele perguntou quando eu acabei.
Huh. Talvez. Mas pelo menos dessa vez eu tinha uma boa desculpa. —Nós somos um pouco sensíveis a sangue por aqui. Eu tenho certeza que você pode entender isso—.
—Oh—, ele enrugou o nariz de novo.
—Porque não fazer tão fácil quanto for possível pra ele? O que ele está fazendo já é difícil o suficiente—.
—Claro, claro. Porque não?—
Eu puxei o ralo e deixei a água suja descer pela pia.
—Posso te perguntar uma coisa, Bella?—
Eu suspirei.
—Como é - ter um lobisomem como melhor amigo?—
Essa pergunta me pegou fora de guarda. Eu ri alto.
—Isso te assusta?—, ele pressionou antes que eu pudesse responder.
—Não. Quando o lobisomem está sendo legal—, eu qualifiquei. —é o máximo—.
Ele deu um sorriso largo, os dentes dele brilhando contra a pele ruiva. —Obrigado, Bella—, ele disse, e depois pegou a minha mão e me puxou pra mais um dos seus abraços de quebrar os ossos.
Antes que eu tivesse tempo de reagir, ele me soltou de seus braços e se afastou.
—Ugh—, ele disse, seu nariz enrugando. —O seu cabelo está fedendo mais que o seu quarto—.
—Desculpe—, eu murmurei. De repente eu entendi do que Edward estava rindo mais cedo, depois de respirar em mim.
—Um dos muitos riscos de se socializar com vampiros—, Jacob disse, levantando os ombros. —Faz você cheirar mal. Um risco menor, em comparação—.
Eu encarei ele. —Eu só cheiro mal pra você, Jake—.
Ele sorriu largamente. —Te vejo por aí, Bells—
—Você vai embora?—
—Ele está esperando que eu vá. Eu posso ouví-lo lá fora—.
—Oh—.
—Eu vou por trás—, ele disse, e então pausou.
—Espere um pouco - ei, você acha que pode ir até La Push hoje à noite? Nós vamos fazer uma festa de fogueira. Emily estará lá, e você podia conhecer Kim... E eu sei que Quil quer ver você. Ele está bem irritado porque você descobriu o que ele fez—.
Eu sorri disso. Eu bem que podia imaginar como isso tinha afetado Quil - o amiguinho humano de Jacob estava andando entre lobisomens sem sequer saber. E aí eu suspirei. —É, Jake, eu não sei. Entenda, as coisas estão um pouco tensas agora...—
—Vamos, você acha que alguém vai conseguir passar por cima - por cima de nós seis?—
Houve uma pausa estranha e ele estremeceu no fim da sua pergunta. Eu me perguntei se ele tinha problemas em dizer a palavra lobisomem em voz alta, do mesmo jeito que eu frequentemente tenho dificuldade com vampiro.
Os grandes olhos dele estavam cheios de rogo desavergonhado.
—Eu vou pedir—, eu disse duvidosamente.
Ele fez um barulho no fundo de sua garganta. —Agora ele é seu carcereiro também? Sabe, eu vi essa história no jornal semana passada sobre relacionamentos adolescentes controladores, abusivos e -—
—Tá legal!— Eu cortei ele, e depois bati em seu braço. —Hora do lobisomem dar o fora!—
Ele sorriu. —Tchau, Bells. Tenha certeza de que pediu permissão—.
Ele se abaixou pra sair pela porta da cozinha antes que eu pudesse encontrar alguma coisa pra jogar nele. Eu rosnei incoerentemente para a cozinha vazia.
Segundos depois que ele foi embora, Edward entrou lentamente na cozinha, gotas de chuva reluzindo como diamantes no seu cabelo cor de bronze. Os olhos dele estavam cautelosos.
—Vocês dois brigaram?—, ele perguntou.
—Edward!— eu cantei, antes de me jogar em cima dele.
—Oi, aí—. Ele riu e jogou seus braços ao meu redor. —Você está tentando me distrair? Está funcionando—.
—Não, eu não briguei com Jacob. Muito. Porque?—
—Eu só estava me perguntando porque você esfaqueou ele. Não que eu me oponha—. Com o queixo, ele fez um gesto para a faca em cima do balcão.
—Droga! Eu pensei que tivesse limpado tudo—.
Eu me separei dele e corri pra colocar a faca na pia antes de lavá-la com o desinfetante.
—Eu não esfaqueei ele—, eu expliquei enquanto trabalhava. —Ele esqueceu que estava com a faca na mão—.
Edward gargalhou. —Não é nem de perto tão engraçado quanto o jeito que eu imaginei—.
—Seja bonzinho—.
Ele pegou um grande envelope de dentro do casaco dele e o jogou no balcão. —Você recebeu correspondência—.
—Alguma coisa boa?—
—Eu acho que sim—.
Os meus olhos se estreitaram suspeitosamente com o tom dele. Eu fui investigar.
Ele havia dobrado o grande envelope no meio. Eu o abri, surpresa com o peso do papel caro, e li o endereço do remetente.
—Dartmouth? Isso é uma piada?—
—Eu tenho certeza que é uma aceitação. É exatamente igual ao meu—.
—Belo consolo, Edward - o que você fez?—
—Eu mandei a sua inscrição, só isso—.
—Eu posso até não ser material pra Dartmouth, mas eu não sou estúpida o suficiente pra acreditar nisso—.
—Dartmouth parece pensar que você é material pra Dartmouth—.
Eu respirei fundo e contei lentamente até dez. —Isso é muito generoso da parte deles—, eu disse finalmente. —No entanto, aceita ou não, esse ainda é o menor problema com a instituição. Eu não posso pagar, e eu não vou deixar você gastar o dinheiro de outro carro esporte só para fingir que eu vou pra Dartmouth ano que vem—.
—Eu não preciso de outros carros esporte. E você não precisa fingir nada—, ele murmurou. —Só um ano de faculdade não vai te matar. Talvez você até gostasse. Pense nisso, Bella. Imagine o quanto Renée e Charlie ficariam excitados...—
A voz de veludo dele pintou um quadro na minha cabeça antes que eu pudesse bloqueá-lo. É claro que Charlie ia explodir de orgulho - ninguém em Forks seria capaz de escapar da explosão dessa alegria. E Renée ficaria histérica de alegria pelo meu triunfo - apesar de que ela ia jurar que não estava surpresa...
Eu tentei sacudir a imagem da minha cabeça. —Edward. Eu já estou preocupada em sobreviver até a formatura, imagine até o próximo inverno ou verão—.
Os olhos dele se fecharam ao meu redor. —Ninguém vai te machucar. Você tem todo o tempo do mundo—.
Eu suspirei. —Eu vou enviar o extrato da minha conta para o Alaska amanhã. Esse é o único álibi que eu preciso. Isso é longe o suficiente pra que Charlie não espere que eu venha visitá-lo até o Natal pelo menos. Até lá eu tenho certeza que consigo pensar em uma desculpa. Sabe—, eu brinquei sem muita vontade. —esse segredo todo e essa coisa de decepção é um pouco chata—.
A expressão de Edward endureceu. —Fica mais fácil. Depois de alguma décadas, todos que você conhece terão morrido. Problema resolvido—.
Eu enrijeci.
—Desculpe, isso foi duro—.
Eu olhei para o grande envelope branco, sem vê-lo. —Mas ainda é a verdade—.
—Se eu resolver isso, o que quer que seja com o que estamos lidando, você por favor consideraria esperar?—
—Não—.
—Sempre tão teimosa—.
—Sim—.
A máquina de lavar fez um barulho e parou de funcionar.
—Pedaço de lixo estúpido—, eu murmurei enquanto me afastava dele. Eu retirei a toalha que era a única peça na máquina, e a liguei de novo.
—Isso me lembra—, eu disse. —Será que dá pra você perguntar a Alice o que ela fez com as coisas que ela limpou no meu quarto? Eu não consegui encontrar em lugar nenhum—.
Ele me olhou com olhos confusos. —Alice limpou o seu quarto?—
—É, eu acho que era isso que ela estava fazendo. Quando ela veio pegar os meus pijamas e o meu travesseiro e essas coisas pra me fazer de refém. —Eu encarei ele brevemente. —Ela pegou tudo que estava jogado, as minhas camisas, minhas meias, e eu não sei onde ela os colocou—.
Edward continuou a parecer confuso por um breve momento, e depois, abruptamente, ele ficou rígido.
—Quando você reparou que as suas coisas estavam faltando?—
—Quando eu voltei da falsa festa do pijama. Porque?—
—Eu não acho que Alice pegou nada. Nem as suas roupas, nem o seu travesseiro. Essas coisas são coisas que você havia usado... e tocado... e dormido?—
—Sim. O que é, Edward?—
A expressão dele estava repuxada. —Coisas com o seu cheiro—.
—Oh!—
Nos olhamos nos olhos um do outro por um longo momento.
—O meu visitante—, eu murmurei.
—Ele estava juntando pistas... provas. Pra provar que ele havia te encontrado?—
—Porque?— eu sussurrei.
—Eu não sei. Mas, Bella, eu juro que eu vou descobrir. Eu vou—.
—Eu sei que vai—, eu disse, colocando a minha mão no peito dele. Inclinada ali, eu senti o telefone dele vibrar no bolso dele.
Ele puxou o telefone e olhou para o número. —Exatamente a pessoa com quem eu precisava falar—, ele murmurou e abriu o telefone. —Carlisle, eu -— Ele parou e escutou, o rosto dele ficou enrugado de concentração por alguns minutos. —Eu vou checar isso. Ouça...—
Ele explicou sobre as coisas desaparecidas, mas do lado que eu estava ouvindo, parecia que Carlisle não tinha intuições pra nós.
—Talvez eu vá...—Edward disse, parando quando os seus olhos passaram pra mim. —Talvez não. Não deixe Emmet ir sozinho, você sabe como ele fica. Peça a Alice que fique de olho nas coisas. Nós vamos descobrir isso depois—.
Ele fechou o telefone. —Onde está o jornal?—, ele me perguntou.
—Um, eu não tenho certeza. Porque?—
—Eu preciso ver uma coisa. Charlie já o jogou fora?—
—Talvez...—
Edward desapareceu.
Ele estava de volta em meio segundo, novos diamantes em seus cabelos, um jornal molhado nas mãos. Ele o espalhou na mesa, os olhos dele passando rapidamente pelas manchetes. Ele se inclinou, atento em alguma coisa que ele estava lendo, um dedo passando sobre as passagens que mais o interessavam.
—Carlisle estava certo... sim... muito espirradinho. Jovem e enlouquecido? Ou procurando a morte?— ele murmurou pra si mesmo.
Eu fui espionar por cima do ombro dele.
A manchete do Seattle Times dizia: —Epidemia de Assassinatos Continua - Polícia Não Tem Novas Pistas—.
Era quase a mesma história sobre a qual Charlie estava reclamando semanas atrás - a violência das grandes cidades que estava colocando Seattle no topo da lista nacional de assassinatos.
No entanto, não era exatamente a mesma história. Os números eram muito mais altos.
—Está ficando pior—, eu murmurei.
Ele fez uma careta. —Completamente fora de controle. Isso não pode ser trabalho de apenas um vampiro recém-criado. O que esta acontecendo? É como se eles nunca tivessem ouvido falar dos Volturi. O que é impossível, eu acho. Ninguém explicou as regras pra eles... então quem os está criando?—
—Os Volturi?—, eu repeti, estremecendo.
—Esse é exatamente o tipo de coisa que eles rotineiramente exterminam - imortais que ameaçam nos expor. Eles limparam uma bagunça exatamente igual a essa ha alguns anos em Atlanta, e aquilo não tinha sido nem de perto tão ruim. Eles vão interferir em breve, muito em breve, a não ser que nós encontremos uma forma de acalmar a situação. Eu realmente preferiria que eles não viessem a Seattle por enquanto. Enquanto eles estiverem tão perto... eles podem decidir dar uma olhada em você—.
Eu estremeci de novo. —O que nós podemos fazer?—
—Nós precisamos saber mais antes de decidir isso. Talvez, se nós conseguirmos falar com esses jovens, explicar as regras, isso se resolva pacificamente—. Ele fez uma careta, como se não achasse que as chances disso acontecer fossem boas. —Nós vamos esperar até que Alice tenha alguma ideia do que está acontecendo... Nós não queremos nos meter até que seja absolutamente necessário. Afinal, não é nossa responsabilidade. Mas é bom que tenhamos Jasper—, ele acrescentou quase pra si mesmo. —Se nós estamos lidando com recém-criados, ele vai ajudar—.
—Jasper? Porque?—
Edward sorriu obscuramente. —Jasper é uma espécie de expert em vampiros recém-criados—.
—O que você quer dizer, um expert?—
—Você vai ter que perguntar a ele - a história dele está envolvida—.
—Que confusão—, eu murmurei.
—É isso que parece, não é? Como se isso estivesse nos atingindo por todos os lados ultimamente—. Ele suspirou. —Você já pensou que a sua vida podia ser mais fácil se você não estivesse apaixonada por mim?—
—Talvez. Porém,não seria exatamente uma vida—
—Pra mim—, ele emendou baixinho. —E agora, eu acho— ele continuou com um sorriso torto, —Você tem alguma coisa pra perguntar pra mim?—
Eu olhei pra ele sem entender. —Tenho?—
—Ou talvez não—, ele sorriu. —Eu estava com a impressão de que você havia me prometido que pediria permissão pra ir a algum tipo de festa de lobisomens hoje à noite—.
—Ouvindo escondido de novo?—
Ele sorriu. —Só um pouquinho, no final—.
—Bem, eu não ia te pedir do mesmo jeito. Eu entendi que você já tem bastante coisas pra se estressar—.
Ele colocou a mão embaixo do meu queixo, e segurou o meu rosto pra que ele pudesse ver meus olhos. —Você gostaria de ir?—
—Não é nada demais. Não se preocupe—.
—Você não tem que me pedir permissão, Bella. Eu não sou o seu pai - graças aos céus por isso. No entanto, talvez você devesse pedir a Charlie—.
—Mas você sabe que Charlie vai dizer sim—.
—Eu tenho um pouco mais de intuição sobre a resposta dele do que outras pessoas teriam, é verdade—.
Eu olhei pra ele, tentando entender o que ele queria, e tentando tirar da minha mente a vontade que eu estava de ir à La Push pra que eu não fosse enganada pelos meus próprios desejos. Era estupidez querer sair com um monte de garotos-lobos estúpidos quando haviam muito mais coisas assustadoras e inexplicadas acontecendo. É claro, isso era exatamente o motivo pelo qual eu queria ir. Eu queria escapar das ameaças de morte, só por algumas horas... ser menos madura, ser mais a Bella irresponsável que podia rir com Jacob, mesmo que brevemente. Mas isso não importava.
—Bella—, Edward disse. —Eu disse que ia ser razoável e confiar no seu julgamento. Eu falei sério. Eu confio nos lobisomens, então eu não vou me preocupar com eles—.
—Uau—, eu disse, como havia dito na noite passada.
—E Jacob está certo - sobre uma coisa, pelo menos - uma bando de lobisomens deve ser o suficiente pra te proteger até você por uma noite—.
—Você tem certeza?—
—É claro. Só...—
Eu me segurei.
—Eu espero que você não se importe em tomar algumas precauções? Me deixando te levar até a linha da fronteira, pra começar. E também levando um celular, pra que eu saiba quando ir te buscar—.
—Isso soa... muito razoável—.
—Excelente—.
Ele sorriu pra mim, e eu não pude ver nenhum traço de apreensão em seus olhos que parecia, jóias.
Para a surpresa de ninguém, Charlie não teve problema nenhum em me deixar ir à La Push pra uma fogueira. Jacob gritou com uma exultação indisfarçável quando eu liguei pra ele pra dar as notícias, e ele pareceu suficientemente ansioso pra aceitar as medidas cautelosas de Edward. Ele prometeu nos encontrar na linha que dividia os territórios às seis.
Eu havia decidido, depois de um curto debate interno, que eu não ia vender a moto. Eu ia levá-la de volta à La Push, onde ela pertencia, e quando eu não precisasse mais dela... bem, aí, eu insistiria que Jacob ele cuidasse do seu trabalho de alguma forma. Ele podia vendê-la ou dar a uma amigo. Eu não me importava.
Essa noite parecia ser uma boa pra devolver a moto para a garagem de Jacob. Me sentindo sensível como eu estava nos últimos dias, todo dia parecia ser possivelmente o último. Eu não tinha tempo para adiar nenhuma tarefa, não importava o quão pequena fosse.
Edward apenas balançou a cabeça quando eu expliquei o que eu queria, mas eu pensei ter visto uma faísca de consternação nos olhos dele, e eu sabia que ele não estava mais feliz com a ideia da moto do que Charlie estava.
Eu o segui de volta para casa dele, para a garagem onde eu havia deixado a moto. Não foi até que eu estacionei a caminhonete e desci que eu percebi que talvez dessa vez a consternação não fosse em relação a minha segurança.
Ao lado da minha moto antiga, obscurecendo-a, havia outro veículo. Chamar esse outro veículo de moto não parecia muito justo, já que ela não parecia pertencer a mesma família que a minha moto, repentinamente rota.
Essa era grande e esguia e prateada - e mesmo totalmente imóvel - ela parecia rápida.
—O que é isso?—
—Nada—, Edward murmurou.
—Isso não parece ser nada—.
A expressão de Edward estava casual; ele parecia determinado a esquecer isso. —Bem, eu não sabia se você ia perdoar o seu amigo, e nem ele a você, e eu me perguntei se você ia querer andar na sua moto mesmo assim. Parecia ser algo que você gostava de fazer. Eu pensei que eu podia ir com você, se você quisesse—. Ele levantou os ombros.
Eu encarei a linda máquina. Ao lado dela, a minha moto parecia ser um triciclo quebrado. Eu me senti repentinamente triste quando me dei conta de que essa provavelmente era uma analogia à forma como eu parecia ao lado de Edward.
—Eu não seria capaz de te acompanhar—, eu sussurrei.
Edward colocou sua mão embaixo do meu queixo e puxou o meu rosto pra que ele pudesse vê-lo direito. Com um dedo, ele tentou puxar o canto da minha boca pra cima.
—Eu vou acompanhar você, Bella—
—Isso não seria muito divertido pra você—.
—É claro que seria, se estivéssemos juntos—.
Eu mordi o meu lábio e imaginei isso por um momento. —Edward, se você pensasse que eu estava indo rápido demais ou perdendo o controle da moto ou algo assim, o que você faria?—
Ele hesitou, obviamente tentando encontrar a resposta certa. Eu sabia a verdade: ele ia tentar encontrar uma forma de me salvar antes que eu caísse.
Aí ele sorriu. Pareceu ser sem esforço, exceto pelo pequeno aperto defensivo que havia nos olhos dele.
—Isso é uma coisa que você faz com Jacob. Agora eu entendo—.
—É só que, bem, eu não quero ele tão triste, sabe. Eu podia tentar, eu acho...—
Eu olhei para a moto prateada duvidosamente.
—Não se preocupe com isso—, Edward disse, e aí ele sorriu levemente. —Eu vi Jasper admirando ela. Talvez seja hora dele descobrir um novo jeito de viajar. Afinal, agora Alice tem o Porsche dela—.
—Edward, eu -—
Ele me interrompeu com um beijo rápido. —Eu disse pra não se preocupar. Mas você faria uma coisa por mim?—.
—Qualquer coisa que você precise—, eu prometi rapidamente.
Ele soltou o meu rosto e se inclinou ao lado da moto grande, retirando alguma coisa que ele havia colocado lá.
Ele voltou com um objeto que era preto e sem forma, e com outro que era vermelho e com um formato facilmente identificável.
—Por favor?— ele pediu, mostrando o sorriso torto que sempre destruía as minhas defesas.
Eu peguei o capacete vermelho, medindo o peso em minhas mãos. —Eu vou parecer estúpida—.
—Não, você vai parecer esperta. Esperta o suficiente pra não se machucar.— Ele jogou a coisa preta, o que quer que fosse, por cima do braço e pegou o meu rosto nas mãos. —Existem coisas entre minhas mãos agora sem as quais eu não posso viver. Você podia cuidar delas—.
—Tudo bem, tá certo. Qual é a outra coisa?—, eu perguntei suspeitosamente.
Ele sorriu e desenrolou uma espécie de jaqueta. —É uma jaqueta de montaria. Eu sei que estradas molhadas são bem desconfortáveis, não que eu mesmo pudesse saber—.
Ele a segurou pra mim. Com um profundo suspiro, eu coloquei o meu cabelo pra trás e coloquei o capacete na cabeça. Aí eu passei os meus braços pelas mangas da jaqueta. Ele fechou o zíper, um sorriso brincando nos cantos da boca dele, e deu um passo pra trás.
Eu me senti boba.
—Seja honesto, quão odiosa eu estou?—
Ele deu outro passo pra trás e torceu os lábios.
—Ruim assim, hein?— eu murmurei.
—Não, não, Bella. Na verdade...— ele pareceu estar lutando pra encontrar a palavra certa. —Você está... sexy—.
Eu ri alto. —Certo—.
—Muito sexy, na verdade—.
—Você só está dizendo isso pra que eu use—, eu disse. —Mas está tudo bem. Você está certo, é mais inteligente—.
Ele passou os braços ao meu redor e me trouxe para o peito dele. —Você é boba. Eu acho que isso é parte do seu charme. No entanto, eu tenho que admitir, esse capacete tem suas desvantagens—.
Então ele retirou o capacete pra poder me beijar.
Enquanto Edward me levava até La Push algum tempo mais tarde, eu me dei conta de que a falta de precedentes dessa situação parecia estranhamente familiar. Eu levei algum tempo pra entender a fonte.
Eu levei algum tempo pra entender qual era a fonte do déjà vu.
—Sabe do que isso me lembra?— eu perguntei. —É igual a quando eu era criança e Renée me deixava com Charlie pra passar o verão. Eu me sinto como se tivesse sete anos—.
Edward riu.
Eu não mencionei isso em voz alta, mas a única diferença entre as duas situações era que Renée e Charlie se davam bem.
A cerca de meio caminho de La Push, nós fizemos um curva e encontramos Jacob encostado do lado do seu Volkswagen vermelho que ele havia construído sozinho desde as peças. A expressão cuidadosamente neutra de Jacob se dissolveu em um sorriso quando eu acenei no banco da frente.
Edward estacionou o Volvo a uns trinta metros de distância.
—Me ligue quando você quiser voltar pra casa—, ele disse. —E eu estarei aqui—.
—Eu não vou demorar—, eu prometi.
Edward puxou a minha moto e minhas novas vestimentas do porta-malas do seu carro - eu fiquei bem surpresa por tudo ter entrado. Mas isso não era tão difícil de conseguir quando você é forte o suficiente pra levanta vans, quanto mais pequenas motos.
Jacob observou, sem fazer nenhum movimento pra se aproximar, o sorriso dele tinha obscurecido e os olhos dele eram indecifráveis.
Eu coloquei o capacete embaixo do braço e joguei a jaqueta no acento.
—Você pegou tudo?—, Edward perguntou.
—Sem problema—, eu o assegurei.
Ele suspirou e se inclinou pra mim. Eu virei meu rosto pra cima pra um beijo de despedida, mas Edward me pegou de surpresa, passando seus braços ao meu redor com força e me beijando com tanto entusiasmo quanto ele havia feito na garagem - em pouco tempo, eu estava sem ar.
Edward riu baixinho de alguma coisa, e depois me soltou.
—Tchau—, ele disse. —Eu realmente gostei da jaqueta—.
Enquanto eu virei de costas pra ele, eu pensei ter visto um flash de alguma coisa nos olhos dele que não era pra eu ter visto. Eu não podia dizer com certeza o que era. Preocupação, talvez. Por um segundo, eu pensei que fosse pânico. Mas provavelmente eu estava imaginando algo que não existia, como sempre.
—O que é isso tudo?—, Jacob perguntou, sua voz cautelosa, observando a moto com uma expressão enigmática.
—Eu achei que eu devia colocar isso de volta onde ela pertence— eu disse a ele.
Ele pensou nisso por um segundo, e aí um sorriso se abriu no rosto dele.
Eu sabia exatamente que estávamos em território de lobisomens porque Jacob se afastou rapidamente do seu carro e veio pra cima de mim, fechando a longo distância com apenas três passos longos. Ele pegou a moto de mim, colocando-a no tripé, e me pegou em outro abraço de urso.
Eu ouvi o motor do Volvo roncar, e lutei pra ficar livre.
—Pare com isso, Jake!— eu ofeguei, sem ar.
Ele riu e me colocou no chão. Eu me virei pra acenar um adeus, mas o carro prateado já estava desaparecendo na curva da estrada.
—Legal—, eu comentei, deixando que um pouco de ácido escapasse na minha voz.
Os olhos dele se arregalaram com falsa inocência. —O que foi?—
—Ele está sendo muito tolerante com essa coisa toda; você não precisa testar sua sorte—.
Ele riu de novo, mais alto que antes - ele realmente achou o que eu disse muito engraçado. Eu tentei ver qual era a piada enquanto ele rodeava o Rabbit pra abrir a porta pra mim.
—Bella—, ele disse finalmente - ainda gargalhando - enquanto fechava a porta atrás de mim. —Você não pode testar aquilo que você não tem.

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