24 de setembro de 2015

Capítulo 1 - Festa

Eu estava 99% certa de que estava sonhando.
As razões para eu estar tão certa disso eram que, em primeiro lugar, eu estava em pé em um brilhante raio de luz solar – o tipo de sol intenso e ofuscante que nunca brilhava em minha atual chuvosa cidade natal em Forks, Washington – e segundo, eu estava olhando para minha avó Marie. Vovó tinha morrido seis anos atrás, então essa foi minha evidência concreta que comprovou a teoria do sonho.
Vovó não tinha mudado muito, seu rosto parecia o mesmo que eu lembrava. A pele era macia e tinha um aspecto murcho, se dobrava em mil rugas finas debaixo das quais se agarrava suavemente o osso. Como um pêssego seco, mas aureolada por um espesso bolo de cabelos brancos de fisionomia similar a uma nuvem.
Nossos lábios – os dela franzidos em uma grande quantidade de rugas – estendidos num mesmo meio sorriso de surpresa ao mesmo tempo. Aparentemente, ela não esperava me ver também.
Eu estava a ponto de fazer uma pergunta; Eu tinha tantas – O que ela estava fazendo aqui em meu sonho? Aonde ela esteve nos últimos seis anos? Vovô estava bem? Eles haviam se encontrado onde quer que eles estivessem? – mas ela abriu a boca no mesmo tempo que eu, então eu parei para deixá-la falar primeiro. Ela parou também, e então ambas sorrimos um pouco sem jeito.
— Bella?
Não foi ela quem havia dito meu nome, por isso nós duas nos viramos para ver quem havia se juntado a nossa pequena reunião. Na verdade, eu não precisava olhar para saber. Era uma voz que eu teria reconhecido em qualquer lugar, e à qual eu também havia respondido, para saber se estava dormindo ou acordada...ou até mesmo morta, eu tinha quase certeza. A voz que atravessava o fogo – ou, com menos dramatismo, andava na lama diariamente pelo frio e a incessante chuva.
Edward.
Embora eu sempre fosse louca para vê-lo – consciente ou não – e estava quase certa de que se tratava de um sonho, entrei em pânico à medida que Edward se aproximava de nós, caminhando abaixo da deslumbrante luz do sol.
Me apavorei porque vovó não sabia que eu estava apaixonada por um vampiro – ninguém sabia – e de que forma eu iria explicar os brilhantes raios de sol quebrando-se sobre sua pele em milhares de pedacinhos de arco-íris, como se ele fosse feito de cristal ou diamante?
Bem, vovó, só para o caso de você ter notado que meu namorado brilha. É só algo que ele faz quando está no sol. Mas não se preocupe com isso...
O que ele estava fazendo? A única razão para que viva em Forks, é que é o lugar mais chuvoso do mundo, ele podia sair à luz do dia sem expor o segredo de sua família. Mesmo assim, ele estava vindo na minha direção com seu andar bem gracioso e despreocupado - com o mais bonito sorriso em seu rosto angelical – como se eu estivesse sozinha.
Nesse momento, desejei não ser a exceção de seu misterioso dom. Em geral, agradeceria ser a única cujos pensamentos ele não podia ouvir com a mesma clareza como se eles fossem falados em voz alta. Mas agora eu desejei que ele pudesse me ouvir também, então assim ele poderia escutar o aviso que eu estava gritando em minha cabeça.
Lancei um olhar apavorado para vovó, e percebi que já era muito tarde.
Nesse instante, ela apenas se virou para me olhar de volta e seus olhos tão alarmados quanto os meus.
Edward – ainda sorrindo daquela forma tão arrebatadora que fazia com que meu coração acelerasse e parecesse a ponto de estourar no meu peito – passou seu braço em volta de meu ombro e virou seu rosto para minha avó.
A expressão de vovó me surpreendeu. Em vez de horrorizada, ela me olhava timidamente, como se esperando por uma repreensão. E ela estava parada numa posição bem estranha – um braço se separou desajeitadamente do corpo, ela o esticou e o enrolou em volta do ar. Como se estivesse abraçando alguém que eu não podia ver, alguém invisível...
Só então, quando olhei com mais atenção, notei a enorme armação dourada que rodeava a figura da minha avó. Sem entender nada, ergui a mão que não estava em volta da cintura de Edward e a aproximei para tocar minha avó. Ela repetiu exatamente o mesmo movimento, como em um espelho. Mas onde nossos dedos deveriam ter se encontrado, não existia nada além do vidro frio...
Com uma vertiginosa sacudida, o sonho abruptamente se transformou em um pesadelo.
Não havia nenhuma avó.
Aquela era eu. Era minha imagem refletida em um espelho. Era eu, velha, enrugada e acabada.
Edward continuava ao meu lado sem se refletir no espelho, insuportavelmente encantador em seus eternos dezessete anos.
Ele apertou seus lábios frios e perfeitos contra minha decrépita bochecha.
— Feliz aniversário — ele sussurrou.
Acordei assustada – meus olhos a ponto de ficarem fora de órbita – e ofegante. Uma escura luz cinza, a familiar luz de uma manhã nublada, tomou o lugar do ofuscante sol de meu sonho.
Só um sonho, eu disse a mim mesma. Foi só um sonho. Tomei ar e saltei da cama assim que me recuperei do susto. O pequeno calendário no canto do relógio me informou que hoje era treze de Setembro.
Só um sonho, mas profético, sem dúvida, ao menos em um sentido. Era o dia de meu aniversário. Acabava de fazer dezoito anos oficialmente.
Eu temi esse dia durante meses.
Durante o perfeito verão – o verão mas feliz que já tive, o mais feliz que ninguém em lugar nenhum poderia ter, e o verão mais chuvoso da história da Península Olympic – este infeliz dia se espreitava de tocaia, preparado para pular.
E agora que por fim havia chegado era até pior do que eu temia que seria. Eu podia sentir: estava mais velha. Cada dia eu envelhecia um pouco mais, porém isso era diferente e notavelmente pior. Eu tinha dezoito anos.
E Edward nunca teria.
Quando fui escovar os dentes, quase me surpreendeu que o rosto do espelho não tivesse mudado. Olhei para mim mesma à procura de algum sinal iminente de rugas na minha pele. Contudo, não havia outras rugas além das em minha testa, e soube que seu relaxasse, elas desapareceriam. Eu não podia. Minhas sobrancelhas haviam se franzido formando uma linha de preocupação acima dos meus ansiosos olhos castanhos.
Foi só um sonho, lembrei a mim mais uma vez. Só um sonho, e também o meu pior pesadelo.
Eu dispensei o café da manhã, querendo sair de casa o mais rápido possível. Não me encontrava com ânimo de enfrentar meu pai e ter que passar uns minutos fingindo estar feliz. Eu honestamente tentava ficar entusiasmada com os presentes que pedi para ele não me dar, mas sentia que estava a ponto de chorar a cada vez que deveria sorrir.
Fiz um esforço para me distrair enquanto dirigia para a escola. A visão de vovó – eu não deveria pensar nela como se fosse eu – era difícil de tirar da cabeça. Eu não podia sentir nada além de desespero quando entrei no familiar estacionamento que se estendia por detrás do colégio secundário de Forks e encontrei Edward imóvel, recostado em seu lustrado Volvo prateado como um monumento de mármore dedicado a algum esquecido deus pagão da beleza. O sonho não fazia sentido. E ele estava esperando por mim, igual a qualquer outro dia.
O desespero desapareceu momentaneamente e a maravilha tomou seu lugar. Mesmo depois de ter passado quase a metade do ano com ele, não podia crer que merecia tanta sorte.
Sua irmã Alice estava ao seu lado, me esperando também.
É claro que Edward e Alice não eram parentes de verdade (em Forks, a história que ocorria era que todos os irmãos Cullen haviam sido adotados pelo doutor Carlisle e sua esposa Esme, já que ambos tinham uma aparência claramente bem jovem para terem filhos adolescentes), mas suas peles tinham o mesmo tom de palidez, seus olhos na mesma estranha tonalidade de dourado, com as mesmas olheiras arroxeadas, ressaltadas abaixo deles. O rosto de Alice, igual ao de Edward, era surpreendentemente bonito. Aos olhos de alguém – alguém como eu – estas semelhanças revelavam o que eles eram.
A visão de Alice me esperando ali – seus olhos de cor amarelo escuro brilhavam de excitação, e uma pequena caixa quadrada embrulhada em papel prateado em suas mãos – me fez franzir as sobrancelhas. Eu havia lhe dito que não queria nada, nada mesmo, nem presentes e nem nenhum outro tipo de atenção para o meu aniversário. Evidentemente, meus pedidos foram ignorados.
Bati a porta de minha caminhonete Chevy 53 – uma chuva de respingos de ferrugem voaram até a parte externa do pneu preto. Depois caminhei lentamente para onde eles me aguardavam. Alice veio ao meu encontro; seu rosto travesso resplandecia abaixo do pontiagudo cabelo negro.
— Feliz aniversário, Bella!
— Shhh! — eu sibilei enquanto olhava ao redor para ter certeza de que ninguém tivesse ouvido. A última coisa que eu queria era qualquer tipo de comemoração do triste evento.
Ela me ignorou.
— Quando quer abrir seu presente? Agora ou mais tarde? — ela me perguntou entusiasmada enquanto caminhávamos para onde Edward nos esperava.
— Sem presentes — protestei em um murmúrio.
Ela finalmente pareceu ser dar contar de qual era meu estado de ânimo.
— Certo...mais tarde, então. Gostou do álbum de fotografias que sua mãe lhe mandou? E a câmera fotográfica de Charlie?
Eu suspirei. É claro que ela saberia quais seriam os meus presentes. Edward não era o único membro da sua família com habilidades fora do comum. Alice teria “visto” o que meus pais tivessem planejado assim que eles tivessem decidido.
— É. Eles são ótimos.
— Eu acho que essa é uma boa ideia. Só se vive o último ano escolar uma vez. Seria bom documentar a experiência.
— Quantas vezes você cursou o último ano?
— Isso é diferente.
Nós nos aproximamos de Edward nessa hora, e ele levantou sua mão pra mim. Eu a segurei ansiosamente, esquecendo, por um momento, meu mau humor. A pele dele estava, como sempre, macia, dura, e muito fria. Ele apertou meus dedos gentilmente. Eu olhei nos seus olhos de topázio liquido, e meu coração se apertou de forma não tão gentil. Escutando as batidas do meu coração, ele sorriu de novo.
Ele levantou sua mão livre e traçou a ponta de um dedo gelado nos meus lábios enquanto falava.
— Então, como foi discutido, eu não estou autorizado a te desejar feliz aniversário, está correto?
— Sim. Está correto. — Eu não podia imitar a fluência de sua pronúncia perfeita e formal.
Era uma coisa que só podia ter saído do início do século.
— Só checando — Ele passou a mão pelo seu cabelo bagunçado cor de bronze.  — Você bem que podia ter mudado de ideia. A maioria das pessoas costuma gostar de coisas como aniversários e presentes.
Alice sorriu, o som era todo prateado, como um carrilhão passando no vento.
— É claro que você vai gostar. Todo mundo deve ser legal com você e fazer tudo do seu jeito, Bella. O que poderia dar tão errado?
A pergunta era retórica.
— Ficar mais velha — eu respondi do mesmo jeito, e minha voz não era tão uniforme quanto eu havia planejado.
Ao meu lado, o sorriso de Edward se transformou numa linha dura.
— Dezoito não é muito velha. — Alice disse. — As mulheres não costumam esperar até os trinta e nove até ficarem tristes com os aniversários?
— É mais que Edward.
Ele suspirou.
— Tecnicamente — ela disse, mantendo o tom suave. — Porém, é só um aninho.
E eu imaginei... Se eu pudesse ter certeza do futuro que eu queria, certeza que eu passaria a eternidade com Edward, e Alice, e com o resto dos Cullen (preferivelmente não sendo uma velhinha enrugada)... Então um ano ou dois não faria muita diferença pra mim. Mas Edward era mortalmente contra qualquer futuro em que eu fosse transformada. Qualquer futuro que me fizesse como ele - que me deixasse imortal também.
Um impasse, era assim que ele chamava.
Pra ser honesta, eu não entendia o ponto de vista de Edward.
O que é tão maravilhoso na mortalidade? Ser vampira não parecia uma coisa tão horrível - não do jeito como os Cullen diziam, de qualquer forma.
— A que horas você vai estar lá em casa? — Alice continuou, mudando de assunto. Pela expressão dela, ela estava planejando fazer exatamente o tipo de coisa que eu estava tentando evitar.
— Eu não sabia que tinha planos para ir lá.
— Oh, seja boazinha, Bella! — ela reclamou. — Você não vai estragar toda a nossa diversão desse jeito, vai?
— Achei que o meu aniversário era sobre o que eu quisesse.
— Eu a pegarei com Charlie logo depois da escola — Edward disse me ignorando completamente.
— Eu tenho que trabalhar — protestei.
— Na verdade, não — Alice me disse, convencida. — Eu já falei com a Sra. Newton sobre isso, ela vai trocar o seu horário. Ela me pediu para lhe dizer 'Feliz aniversário'.
— Eu- eu não posso aparecer — gaguejei, me atrapalhando pra encontrar uma desculpa. — Eu, bem, eu ainda não assisti Romeu e Julieta para a aula de Inglês.
Alice bufou.
— Você conhece Romeu e Julieta de cor.
— Mas o Sr. Berty disse que precisávamos ver uma representação para apreciá-lo plenamente... Era o que Shakespeare pretendia.
Edward rolou os olhos.
— Você já assistiu o filme — Alice acusou.
— Mas não na versão dos anos sessenta. O Sr. Berty disse que é a melhor.
Finalmente Alice perdeu o sorriso presunçoso e me encarou.
— Isso pode ser fácil, ou pode ser difícil, Bella, mas de um jeito ou de outro...
Edward interrompeu a ameaça dela.
— Relaxe, Alice. Se Bella quer assistir o filme, então ela pode. É o aniversário dela.
— Isso aí — eu acrescentei.
— Eu vou levar ela por volta de sete — ele continuou. — Isso vai dar mais tempo pra você arrumar tudo.
A risada de Alice reapareceu.
— Parece bom. Te vejo de noite, Bella! Vai ser divertido, você verá.
 Ela sorriu com malícia — o grande sorriso exibiu todos os dentes brilhantes, perfeitos — então ela me deu um beliscão na bochecha e foi dançando até a sua primeira aula antes que eu pudesse responder alguma coisa.
— Edward, por favor... — eu comecei a implorar, mas ele pressionou um dedo frio nos meus lábios.
— Vamos discutir isso mais tarde. Nós vamos nos atrasar para a aula.
Ninguém se incomodou em olhar pra nós enquanto sentávamos nos nossos lugares de sempre no fundo da sala (nós tínhamos quase todas as aulas juntos agora - é incrível os favores que Edward pode conseguir com a administração feminina da escola). Edward e eu estavámos juntos havia bastante tempo pra não sermos mais motivo de fofoca. Nem Mike Newton se incomoda em continuar me dando aqueles olhares mal-humorados que me faziam sentir um pouco culpada. Ele sorria agora, e eu estava feliz por ele finalmente parecer estar percebendo que nós só poderíamos ser amigos.
Mike havia mudado durante o verão — o rosto dele estava menos arredondado, fazendo as maçãs do seu rosto mais proeminentes, e ele estava usando o seu cabelo loiro de outro jeito; ao invés de arrepiado, ele estava mais longo e com gel pra causar um efeito casualmente bagunçado. Era fácil ver de onde a inspiração tinha saído — mas o estilo de Edward não era uma coisa que podia ser alcançada através de uma imitação.
Enquanto o dia avançava, eu considerei as possibilidades de escapar do que quer que os Cullen estivessem planejando na casa deles hoje à noite. Já era ruim o suficiente ter que comemorar quando meu humor era colocar luto.
Mas, o pior, isso com certeza iria envolver atenção e presentes.
Atenção nunca é uma coisa boa, qualquer outra pessoa propensa a acidentes concordaria comigo. Ninguém quer um canhão de luz na sua direção quando você está prestes a cair de cara.
Eu muito sugestivamente pedi — bem, na verdade eu ordenei — que ninguém me desse nenhum presente esse ano. Parece que Renée e Charlie não foram os únicos que decidiram ignorar isso.
Eu nunca tive muito dinheiro, e isso nunca me incomodou. Renée me criou com o salário de uma professora de jardim de infância. Charlie também não estava ficando rico com o seu trabalho — ele era o chefe de policia dessa pequenina cidade de Forks. O meu próprio fundo pessoal vinha dos três dias por semana que eu trabalhava numa lojinha de suplementos esportivos da cidade. Numa cidade tão pequena, eu tinha sorte por ainda ter um emprego. Cada centavo que eu ganhava ia direto para os meus microscópicos fundos pra faculdade. (A faculdade era só o plano B. Eu ainda tinha esperanças no plano A, mas Edward ainda era muito teimoso em relação a me deixar humana).
Edward tinha muito dinheiro - eu nem queria pensar no quanto.
Dinheiro significava quase nada para Edward e o restante dos Cullen.
Era só uma coisa que acabava se acumulando quando você tem tempo ilimitado nas mãos e uma irmã que tem uma misteriosa forma de prever as mudanças da bolsa de valores. Edward não parecia entender a minha objeção para que ele não gastasse tanto dinheiro comigo — por que eu não me sentia confortável quando ele me levava pra um restaurante caro em Seattle, ou porque ele não podia me comprar um carro que alcançasse uma velocidade acima de noventa por hora, ou porque ele não podia pagar a minha faculdade (ele estava ridiculamente entusiasmado com o plano B). Edward achava que eu estava sendo desnecessariamente difícil.
Mas como eu podia deixar que ele me desse tantas coisas quando eu não tinha nada em troca?
Ele, por alguma razão insondável, queria estar comigo.
Qualquer coisa que ele me desse além disso, só aumentava ainda mais as diferenças entre nós.
Enquanto o dia passava, nem Edward nem Alice falou sobre o meu aniversário de novo, e eu comecei a relaxar um pouco.
Nós sentamos na nossa mesa de almoço de costume.
Um estranho tipo de trégua existia naquela mesa. Nós três - Edward, Alice e eu - nos sentávamos no cantinho no sul da mesa. Agora que os irmãos Cullen  mais velhos e — assustadores — (no caso de Emmett, certamente) tinham se formado, Alice e Edward não pareciam tão intimidantes, e não nos sentávamos mais sozinhos.
Meus outros amigos, Mike e Jéssica (que estavam passando pela estranha fase pós-término de namoro na amizade), Ângela e Ben (cujo relacionamento sobreviveu ao verão), Eric, Conner, Tyler e Lauren (apesar dessa última não contar na categoria da amizade) todos nos sentávamos na mesma mesa, no outro lado da linha invisível.
Essa linha se dissolvia nos dias de sol, quando Edward e Alice sempre faltavam à escola, e aí a conversa se estendia sem muito esforço pra me incluir também.
Edward e Alice não achavam esse pequeno ostracismo estranho ou ferino, como eu teria achado. Eles praticamente nem reparavam.
As pessoas sempre se sentiam estranhamente doentes de tão á vontade que ficavam perto dos Cullen, quase com medo por alguma razão que ele não podiam explicar.
Eu era rara exceção a essa regra. Ás vezes Edward se incomodava por eu me sentir tão confortável ao lado dele. Ele achava que era um risco á minha saúde — uma opinião que eu rejeitava veementemente toda vez que ele tocava nela.
A tarde passou rapidamente. A aula acabou e Edward me acompanhou até a minha caminhonete como sempre fazia. Mas dessa vez, ele segurou a porta do passageiro aberta pra mim. Alice deve ter levado o carro dele pra casa pra que eles pudessem me impedir de fugir.
Eu cruzei meus braços e não me movi pra sair da chuva.
— É meu aniversário, eu não posso dirigir?
— Eu estou fingindo que não é seu aniversário, assim como você deseja.
— Se não é meu aniversário, então eu não preciso ir á sua casa hoje á noite...
— Tudo bem... — Ele fechou a porta do passageiro e passou por mim para ir para o lado do motorista. — Feliz aniversário.
— Shhhh — eu calei ele sem muita vontade. Eu entrei pela porta aberta, esperando que ele tivesse aceitado o outro pedido.
Edward mexia no rádio enquanto eu dirigia, balançando a cabeça em desaprovação.
— Seu rádio tem uma recepção horrível.
Eu fiz uma careta. Eu odiava quando ele mexia com a minha caminhonete.
A caminhonete era ótima — tinha personalidade.
— Você quer um som legal? Dirija o seu próprio carro. — Eu já estava nervosa com os planos de Alice, com o meu humor negro ainda por cima, que as palavras saíram mais afiadas do que eu planejei. Eu mal conseguia ter um mau temperamento perto de Edward, e as minhas palavras fizeram ele apertar os lábios pra não sorrir.
Quando eu parei na frente da casa de Charlie, ele se inclinou pra pegar meu rosto com as duas mãos. Ele me segurou muito cuidadosamente, pressionando só a ponta dos dedos levemente nas minhas têmporas, nas maçãs do meu rosto, minha mandíbula. Como se eu estivesse especialmente quebrável. Que era exatamente o caso — comparado com ele, pelo menos.
— Você deveria estar de bom humor, hoje entre todos os outros dias — ele sussurrou. O doce hálito dele varreu o meu rosto.
— E se eu não quiser estar de bom humor? eu perguntei, minha respiração desigual.
Seus olhos dourados queimaram.
— Que pena.
Minha cabeça já estava girando quando ele chegou mais pra perto e pressionou seus lábios gelados nos meus.
Como ele pretendia, sem dúvida, eu me esqueci das minhas preocupações, e me concentrei em lembrar de como respirar.
A boca dele permaneceu na minha, fria e suave e gentil, até que eu joguei meus braços no pescoço dele e me joguei no beijo com um pouco de entusiasmo demais. Eu podia sentir os seus lábios se curvando pra cima enquanto ele soltava meu rosto e se inclinava pra trás pra se livrar do meu abraço.
Edward havia desenhado muitas linhas cuidadosas para o nosso relacionamento físico, com a intenção de me manter viva.
Apesar de eu respeitar a necessidade de manter uma distância segura entre minha pele e seus dentes afiados como navalha e cheios de veneno, eu sempre me esquecia de coisas sem importância como essas quando ele me beijava.
— Seja boazinha, por favor — ele respirou na minha bochecha.
Ele pressionou seus lábios gentilmente nos meus mais uma vez e então se afastou, cruzando meus braços no meu estômago.
Meu pulso estava estrondando nos meus ouvidos. Eu coloquei uma mão no meu coração. Ele batia hiperativamente na minha palma.
— Você acha que um dia eu vou melhorar nisso? — eu imaginei, mais pra mim mesma. — Será que um dia meu coração vai parar de querer sair do meu peito toda vez que você me toca?
— Eu realmente espero que não — ele disse, um pouco presunçoso.
Eu rolei meus olhos.
— Vamos assistir os Capuleto e os Montague acabando uns com os outros, certo?
— Seu desejo é uma ordem.
Edward se espalhou no sofá enquanto eu começava o filme, avançando nos créditos iniciais.
Quando eu me sentei no canto do sofá na frente dele, ele passou os braços pela minha cintura e me puxou pro peito dele. Não era exatamente confortável como um sofá, já que o peito dele era frio e duro — e perfeito — como uma escultura de gelo, mas era definitivamente preferível. Ele puxou a velha manta do encosto do sofá e jogou por cima de mim pra que eu não congelasse ao lado do corpo dele.
— Sabe, eu nunca tive muita paciência com Romeu — ele comentou enquanto o filme começava.
— Qual é o problema com Romeu? — eu perguntei, um pouco ofendida. Romeu era um dos meus personagens de ficção favoritos. Antes de conhecer Edward eu meio que tinha uma quedinha por ele.
— Bem, pra começar, ele está apaixonado por essa tal de Rosalina... Não acha que isso o torna um pouco inconstante? E depois, alguns minutos depois do casamento, ele mata o primo de Julieta. Isso não é muito inteligente. Erro depois de erro. Será que ele poderia ter acabado com a sua felicidade mais completamente?
Eu suspirei.
— Você quer que eu assista isso sozinha?
— Não, na maior parte do tempo eu vou estar olhando você, de qualquer jeito — Os dedos dele traçaram linhas no meus braço, me deixando arrepiada. —Você vai chorar?
— Provavelmente — eu admiti. — se eu estiver prestando atenção.
— Então eu não vou te distrair.
Mas eu senti os lábios dele no meu cabelo, e esta era uma distração e tanto.
O filme finalmente capturou meu interesse, em grande parte isso se deveu ao fato de Edward estar citando as falas de Romeu no meu ouvido — a sua voz irresistível e aveludada fez a voz do ator parecer fraca e rouca em comparação. E eu chorei, pra diversão dele, quando Julieta acordou e viu seu novo marido morto.
— Eu admito, eu meio que invejo ele nessa parte — Edward disse, enxugando as minhas lágrimas com uma mecha de cabelo.
— Ela é linda.
Ele fez um som de nojo.
— Não o invejo por causa da garota... Só pela facilidade do suicídio — ele esclareceu num tom de zombaria.
— Vocês humanos morrem tão fácil! Tudo o que vocês têm que fazer é só engolir um extrato de ervas...
— Como é? — eu ofeguei.
— Foi uma coisa na qual eu tive que pensar uma vez, e eu sabia pela experiência de Carlisle que não seria fácil. Eu nem tenho certeza de quantas vezes Carlisle tentou se matar no início... depois que ele viu no que tinha se transformado...— A voz dele que havia ficado séria, ficou suave de novo. — E ele claramente ainda está em perfeita saúde.
Eu me virei pra poder ler o rosto dele.
— Do que é que você pensa que está falando? — eu quis saber. — O que é que você quer dizer com, “isso é uma coisa na qual eu tive que pensar uma vez”?
— Primavera passada, quando você foi... quase morta...— Ele parou pra respirar fundo, lutando pra voltar ao seu tom de zombaria. — É claro que eu estava focado em te encontrar viva, mas parte da minha mente estava fazendo planos alternativos. Como eu disse, não é tão fácil pra mim quanto é pra um humano.
Por um segundo, a memória da minha viagem a Phoenix passou pela minha cabeça e me deixou tonta. Eu podia ver tudo tão claramente — o sol que me deixava cega, as ondas de calor que saiam do concreto enquanto eu corria com pressa desesperada para encontrar o vampiro sádico que queria me torturar até a morte. James na sala dos espelhos com a minha mãe como refém — ou pelo menos eu pensava. Eu não sabia que era tudo uma armação. Assim como James não sabia que Edward estava correndo pra me salvar; Edward chegou a tempo, mas foi por bem pouco. Sem pensar, eu passei o dedo na grande cicatriz na minha mão que estava sempre um pouco mais fria que o resto da minha pele.
Eu balancei minha cabeça — como se isso pudesse levar pra longe todas as memórias ruins — e tentei entender o que Edward estava dizendo. Meu estômago revirou desconfortavelmente.
— Planos alternativos? — repeti.
— Bem, eu não ia continuar vivendo sem você — Ele rolou os olhos como se o fato fosse óbvio até para uma criança. — Mas eu não tinha certeza de como fazer... Eu sabia que Emmett e Jasper nunca iam me ajudar... Então eu pensei que poderia ir para a Itália e fazer alguma coisa pra provocar os Volturi.
Eu não queria acreditar que ele estava falando sério, mas seus olhos dourados estavam distantes, focados em algum lugar longínquo como se ele estivesse contemplando o fim da sua vida. De repente eu estava furiosa.
— O que é Volturi? — perguntei.
— Os Volturi são uma família — ele explicou, seus olhos ainda distantes. — Uma família muito velha e muito poderosa, da nossa espécie. São a coisa mais próxima no nosso mundo da família real, eu acho. Carlisle viveu brevemente com eles nos seus anos mais jovens, na Itália, antes de se assentar na América- você lembra da história?
— É claro que eu lembro.
Eu jamais esqueceria a primeira vez que fui a casa dele, a enorme mansão branca no meio da floresta ao lado do rio, ou da sala onde Carlisle - pai de Edward em muitas formas reais - mantinha uma parede com pinturas que ilustravam a sua história pessoal. A tela mais vívida, com as cores mais vivas de lá, a maior, era dos tempos de Carlisle na Itália. É claro que eu me lembrava do calmo quarteto de homens, cada um com seu estranho rosto de serafim, pintados no balcão mais alto tirando a atenção do restante das cores.
Apesar da pintura ser antiga, Carlisle — o anjo loiro — permanecia igual. E eu me lembrava dos outros, as antigas companhias de Carlisle. Edward nunca usou o nome Volturi para o lindo trio, dois de cabelos pretos e um branco-neve. Ele os havia chamado de Aro, Caius e Marcus, os patronos noturnos das artes.
— De qualquer forma, você não deve irritar os Volturi —,= Edward continuou, interrompendo meu revival. — Não a não ser que você queira morrer — ou o que quer que seja o que nós fazemos — A voz dele estava tão calma, que ele quase parecia entediado com o pensamento.
Minha raiva se transformou em horror. Eu peguei seu rosto de mármore entre minhas mãos e segurei com muita força.
— Você não deve mais pensar nisso nunca, nunca, nunca mais!— eu disse. — Não importa o que possa acontecer comigo, você não tem permissão pra se machucar!
— Eu nunca vou te colocar em risco de novo, então essa discussão é inútil.
— Me colocar em risco! Eu pensei que já tínhamos estabelecido que a má sorte é minha culpa! — eu estava ficando com mais raiva.
— Como é que você ousa pensar em uma coisa dessas? — A ideia de Edward deixando de existir, mesmo eu estando morta, era impossivelmente dolorosa.
— O que você faria se a situação fosse contrária? — ele perguntou.
— Não é a mesma coisa.
Ele não pareceu ver a diferença. Ele gargalhou.
— E se alguma coisa acontecesse com você? — Empalideci com o pensamento. — Gostaria que eu acabasse comigo mesma?
Um traço de dor tocou seu rosto perfeito.
— Eu acho que entendo seu ponto de vista... um pouco — ele admitiu. — Mas o que é que eu faria sem você?
— O que quer que você fazia antes de eu aparecer e complicar a sua existência .
Ele suspirou.
— Você faz parecer tão fácil.
— Devia ser. Eu não sou assim tão interessante.
Ele estava quase discutindo, mas então eu soltei o rosto dele.
— Discussão inútil — ele me lembrou.
De repente ele se sentou ficando numa postura mais formal, me colocando de lado até que não estávamos mais nos tocando.
— Charlie? — eu adivinhei.
Edward sorriu. Depois de um momento, eu ouvi o som da viatura policial entrando na garagem. Eu me inclinei e segurei a mão dele firmemente. Meu pai podia lidar com isso.
Charlie entrou com uma caixa de pizza nas mãos.
— Oi, crianças — ele sorriu pra mim. — Eu achei que você gostaria de uma folga da cozinha e dos pratos e pelo seu aniversário. Com fome?
— Claro. Obrigada, pai.
Charlie não comentou a aparente falta de apetite de Edward. Ele já estava acostumado em ver Edward pulando o jantar.
— Você se incomoda se eu pegar Bella emprestada hoje á noite? — Edward perguntou quando Charlie e eu havíamos terminado.
Eu olhei pra Charlie esperançosamente. Talvez ele tivesse algum conceito sobre aniversários em casa, coisas de família — esse era o meu primeiro aniversário com ele, meu primeiro aniversário desde que minha mãe, Renée, casou de novo e foi pra Flórida, por isso eu não sabia o que esperar.
— Tudo bem  — os Mariners vão jogar com os Sox hoje — Charlie explicou e minha esperança desapareceu. — Então eu não vou ser uma boa companhia... Toma — Ele levantou a câmera que me deu por sugestão de Renée (porque eu precisaria de fotos pra encher meu livro de recordações), e jogou pra mim.
Ele já devia saber — eu sempre tive problemas de coordenação. A câmera escorregou da ponta dos meus dedos, e foi caindo no chão.
Edward a agarrou antes que ela se espatifasse na madeira.
— Bela pegada — Charlie reparou. — Se eles vão fazer alguma coisa divertida essa noite na casa dos Cullen, Bella, você devia fotografar. Você sabe como sua mãe fica... ela vai querer ver as fotos antes que você possa tirá-las.
— Boa ideia, Charlie — Edward disse, me passando a câmera.
Eu virei a câmera pra Edward, e tirei a primeira foto.
— Funciona.
— Que bom. Ei, diga olá pra Alice por mim. Já faz algum tempo que ela não vem aqui. — A boca de Charlie caiu de um dos lados.
— São só três dias, pai — eu lembrei ele. Charlie estava louco por Alice. Ele se apegou na primavera passada quando ela me ajudou na minha estranha convalescência; Charlie seria sempre grato a ela por salvá-lo do horror de uma filha quase adulta precisando tomar banho.
— Eu digo a ela.
— OK. Divirtam-se crianças — Obviamente estávamos sendo dispensados.
Charlie já estava indo em direção á sala e á TV.
Edward sorriu, triunfante, e pegou minha mão, me puxando pra fora da cozinha.
Quando chegamos na caminhonete, ele abriu a porta do passageiro pra mim de novo, e dessa vez eu não discuti. Ainda era difícil encontrar o estranho retorno para a casa dele no escuro.
Edward dirigiu por Forks indo para o Norte, visivelmente vigiando o limite de velocidade imposto pela minha Chevy pré-histórica.
O motor roncou ainda mais alto quando ele tentou andar a mais de oitenta por hora.
— Vai com calma — alertei.
— Sabe o que você adoraria? Um pequeno Audi cupê. Bem quieto, muita força...
— Não há nada de errado com a minha caminhonete. E falando de coisas caras e sem importância, se você sabe o que é bom pra você, você não gastou dinheiro com presentes de aniversário.
— Nem um centavo — ele disse virtuosamente.
— Bom.
— Você pode me fazer um favor?
— Depende do que é.
Ele suspirou. Seu adorável rosto estava sério.
 — Bella, o último aniversário de verdade que um de nós teve foi Emmett em 1935. Poupe-nos um pouco, e não seja tão difícil essa noite. Eles estão todos muito excitados.
Sempre me surpreendia quando ele falava dessas coisas.
— Tá certo, eu vou me comportar.
— Eu provavelmente devo te avisar...
— Por favor avise.
— Quando eu digo que estão todos excitados... eu quero dizer todos eles.
— Todo mundo? — sufoquei. — Eu pensei que Emmett e Rosalie estivessem na África — O resto de Forks achava que os Cullen mais velhos haviam ido para a faculdade, em Dartmouth, mas eu sabia a verdade.
— Emmett queria estar aqui.
— Mas... Rosalie?
— Eu sei, Bella. Mas não se preocupe, ela vai se comportar bem.
Eu não respondi. Como se eu não fosse me preocupar, assim tão fácil. Diferente de Alice, a outra irmã “adotiva”  de Edward, a loira e maravilhosa Rosalie, não gostava muito de mim. Na verdade, o sentimento era um pouco mais forte que isso. Quando se tratava de Rosalie, eu era uma intrusa que sabia o segredo da família.
Eu me sentia horrivelmente culpada pela presente situação, achando que a ausência de Emmet e Rosalie fosse por minha culpa, mesmo não gostando muito de ver ela, de Emmett, o irmão urso de Edward, eu sentia falta. Ele era de muitas formas, o irmão mais velho que eu sempre quis ter... só que era muito, muito mais aterrorizante.
Edward decidiu mudar de assunto.
— Então, se você não quer me deixar te comprar um Audi, tem alguma coisa que você queira de aniversário?
As palavras saíram num sopro.
— Eu sei o que eu quero.
Uma profunda carranca fez linhas na testa dele. Ele obviamente preferia ter ficado no assunto de Rosalie.
Eu sentia que havíamos tido muito essa discussão hoje.
— Hoje não, Bella, por favor.
— Bem, talvez Alice me dê o que eu quero.
Edward rosnou - um som profundo de ameaça.
 — Esse não vai ser o seu último aniversário, Bella — ele prometeu.
— Isso não é justo!
Eu achei ter ouvido seus dentes se cerrando.
Nós estávamos parando na frente da casa dele agora. Luzes claras brilhavam de todas as janelas nos dois primeiros andares. Uma longa fila de lanternas japonesas estava pendurada nos arcos do portal da entrada, refletindo um leve brilho que vinha das enormes árvores que cercavam a casa. Grandes vasos de flores — rosas cor de rosa — enchiam a larga escadaria que levava até a porta.
Eu gemi.
Edward respirou fundo algumas vezes pra se acalmar também.
— Isso é uma festa — ele me lembrou. —Tente se divertir.
— Claro — murmurei.
Ele deu a volta para abrir minha porta, e me ofereceu sua mão.
— Eu tenho uma pergunta.
Ele esperou cautelosamente.
— Se eu revelar esse filme, —  disse, brincando com a câmera nas mãos —vocês vão aparecer nas fotos?
Edward começou a rir. Ele me ajudou a sair do carro, me levou pelas escadas, e ainda estava rindo quando abriu a porta pra mim.
Eles estavam todos esperando na enorme sala de estar branca; quando eu entrei pela porta eles me receberam com um enorme coro de — Feliz aniversário, Bella! —, enquanto eu corava e olhava pra baixo. Alice, eu acho, tinha coberto todas as superfícies planas com velas cor de rosa e dezenas de vasos de cristal com centenas de rosas. Havia uma mesa coberta com uma toalha branca ao lado do grande piano de Edward, havia um grande bolo cor de rosa sobre ela, mais rosas, uma pilha de pratos de vidro, e uma pequena pilha de presentes cobertos com papel prateado.
Era cem vezes pior do que eu havia imaginado.
Edward, sentindo meu estresse, passou um braço encorajador pela minha cintura e deu um beijo no topo da minha cabeça.
Os pais de Edward, Carlisle e Esme — impossivelmente jovens e amáveis como sempre — eram os mais próximos da porta. Esme me abraçou cuidadosamente, seu cabelo macio, cor de caramelo alisando minha bochecha quando ela deu um beijo na minha testa, e então Carlisle colocou seu braço ao redor dos meus ombros.
— Desculpe por isso, Bella — ele sussurrou. — Nós não pudemos deter Alice.
Rosalie e Emmett estavam atrás deles. Rosalie não sorriu, mas pelo menos não me encarou. O rosto de Emmett estava envolvido num enorme sorriso. Já faziam meses que eu não os via; eu tinha esquecido do quanto Rosalie era bonita- — quase doía olhar pra ela. E Emmett sempre foi tão... grande?
— Você não mudou nada — Emmett disse com falso desapontamento. — Eu esperava ver uma diferença notável, mas aqui está você, com o rosto vermelho como sempre.
— Muito obrigada, Emmett — eu disse, ficando mais vermelha ainda.
Ele sorriu.
— Eu tenho que sair rapidinho —  ele piscou eminentemente pra Alice —Não faça nada engraçado até eu voltar.
— Eu vou tentar.
Alice soltou a mão de Jasper e se aproximou, todos os seus dentes brilhando na luz clara. Jasper sorria também, mas continuou distante. Ele se encostou, alto e loiro, no pilar no início da escadas.
Durante os dias que havíamos passado juntos em Phoenix, eu achava que ele havia lidado com a sua aversão por mim. Mas ele voltou a ser como sempre — me evitando o máximo possível — no exato momento que se livrou da obrigação temporária de me proteger.
Eu sabia que não era pessoal, só precaução, e eu tentei não ser sensível demais em relação a isso. Jasper que tinha mais problemas na convivência com os Cullen por causa da dieta do que os outros; o cheiro do sangue humano era muito mais difícil pra ele resistir do que pros outros — ele não estava tentando a tanto tempo.
— Hora de abrir os presentes — Alice declarou. Ela colocou sua mão gelada no meu cotovelo e me guiou até a mesa com o bolo e os pacotes brilhantes.
Eu fiz minha melhor cara de mártir.
— Alice, eu sei que te disse que não queria nada.
— Mas eu não te ouvi — ela me interrompeu, presunçosa. — Abra — Ela pegou a câmera das minhas mãos e a trocou por uma caixa enorme e prateada.
A caixa estava tão leve que parecia vazia. A etiqueta em cima dizia que era de Emmett, Rosalie e Jasper. Envergonhada, eu rasguei o papel e olhei pra ver o que a caixa escondia.
Era algo elétrico, com um monte de números no nome. Eu abri a caixa, esperando por uma iluminação maior. Mas a caixa estava vazia.
— Um... Obrigada.
Rosalie realmente sorriu. Jasper gargalhou.
— É um som para a sua caminhonete — ele explicou. — Emmett está instalando agora mesmo pra que você não possa devolver.
Alice como sempre estava um passo à minha frente.
— Obrigada, Jasper, Rosalie — eu disse sorrindo, enquanto lembrava das reclamações de Edward sobre o meu rádio esta tarde — tudo armação, aparentemente. — Obrigada, Emmett! — eu disse mais alto.
Eu ouvi a risada expansiva dele na minha caminhonete, e não pude evitar de rir também.
— Agora abra o meu e o de Edward — Alice disse, ela estava tão excitada que sua voz era só um ruído alto de alegria. Ela segurou um quadrado achatado nas mãos.
Eu me virei pra encarar Edward.
— Você prometeu.
Antes que ele pudesse responder, Emmett entrou porta adentro.
— Bem na hora! — ele disse alegremente. Ele se empurrou atrás de Jasper, que também tinha chegado mais perto que de costume pra dar uma boa olhada.
— Eu não gastei um centavo — Edward me assegurou. Ele tirou uma mecha de cabelo do meu rosto, deixando minha pele com cócegas pelo seu toque.
Eu inalei profundamente e olhei pra Alice.
— Dê pra mim — Eu suspirei.
Emmett gargalhou deliciado.
Eu peguei o pequeno pacote, rolando meus olhos pra Edward enquanto colocava meu dedo na boda do papel e o puxava por baixo da fita.
— Droga — eu murmurei quando o papel cortou meu dedo; eu o puxei pra examinar o estrago. Uma pequena gota de sangue saia do pequeno corte.
Depois disso tudo aconteceu muito rápido.
— Não!— Edward rugiu.
Ele se jogou por cima de mim, me jogando por cima da mesa. Ela caiu, assim como eu, derrubando o bolo, os presentes, as flores e os pratos. Tudo caiu numa bagunça de cristais quebrados.
Jasper se chocou contra Edward, e o som pareceu com o de um deslizamento de pedras.
Houve outro barulho, um terrível rosnado que parecia ter saído de dentro do peito de Jasper.
Jasper tentou passar por Edward, mostrando seus dentes a apenas alguns centímetros do rosto de Edward.
Emmett pegou Jasper por trás no outro segundo, prendendo ele no seu volumoso aperto de aço, mas Jasper lutou com ele, seus olhos, selvagens, vazios, só se focavam em mim.
Depois do choque só ficou a dor. Eu caí no chão ao lado do piano, com meus braços jogados pra trás instintivamente pra aparar a minha queda, jogando-os nos cacos de vidro quebrado.
Só agora eu sentia a dor queimando, pulsante, que corria desde o meu pulso até a dobra do meu cotovelo.
Confusa e desorientada, eu olhei pra cima por causa do sangue pulsante que saía do meu braço — e olhei para os olhos de seis vampiros repentinamente vorazes.

7 comentários:

  1. A cena no filme n tem nada a ver e é uma bosta a bella voando em cima da mesa e nem tem bolo ou piano perto aff ¬_¬

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  2. Alguém me explica pq a Alice não previu esse incidente? Pensei nisso ao ver o filme é agora pensei nisso ao ler o livro. Nunca entendi essa parte. Seria uma falha na trama? Alguém sabe me responder afinal põe que a Alice não previu que Bella se machucaria na festa e Jasper tentaria ataca-la?

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    1. É que Alice prevê as coisas com base nas decisões das pessoas. Bella não decidiu se cortar, foi um acidente... De modo que ela não previu o que poderia resultar disso. Fora que Alice não é infalível, ela não sabe de tudo, apesar de pensar que sim :P

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    2. Mas em algum momento isso fica claro no livro ou foi uma conclusão que vc tirou? Pq ainda assim acho essa parte bem estranha. É tb acho estranho a Alice prever coisas sobre a Bella se ela é um escudo.

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    3. É só a minha opinião, nada que eu tenha pesquisado ou lido. E pelo o que sei, Bella tem um escudo na mente dela. Alice não precisa entrar na cabeça dela ou influenciar seus pensamentos para ver o futuro,são coisas separadas. Estranho mesmo é o fato de Jasper poder controlar as emoções de Bella. Tudo bem que as emoções são regidas por hormônios, mas devia ser algo mental também, não?

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    4. Mas no primeiro livro, quando ele tenta fazer ela dormir no hotel, ela consegue se livrar e tb ela sempre sente que ele esta influenciando aas emoçoes dela.

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