26 de janeiro de 2017

Capítulo 4

A ausência temporária do arqueiro local, Gilan pensou, poderia muito bem ter influenciado a decisão de Foldar de escolher Highcliff como um local de operações – supondo que ele tinha, de fato, feito isso.
Um dia tinha passado desde a sua chegada e ele estava andando pelas terras em torno do castelo. Era terra rica e boa, com a maioria dos agricultores concentrando-se em gado leiteiro. O campo parecia pacífico o suficiente e quando ele parou para a refeição do meio-dia em uma pequena pousada da aldeia, as pessoas pareciam contentes e acolhedoras.
Era um dia ensolarado e que ele escolheu sentar-se em uma mesa do lado de fora da pousada. A estalajadeira era uma mulher atraente, em torno de trinta anos de idade. Ela tinha uma natureza amigável e sorriu quando pegou seu pedido. Ele notou que ela estava usando um anel simples no terceiro dedo da mão esquerda, mas não havia nenhum sinal de um marido em qualquer parte do aposento. Quando ela voltou e colocou uma jarra de cerveja na frente dele, ele olhou ao redor da pousada.
— Seu marido está fora? — Ele perguntou e o sorriso da mulher desapareceu.
Tristeza encheu seus olhos.
— Ele foi morto na guerra.
Gilan balançou a cabeça em desculpas.
— Sinto muito — disse ele, lamentando que tivesse lhe causado dor. — Eu não deveria ter perguntado.
Ela encolheu os ombros filosoficamente.
— Eu não sou a única mulher que ficou sem um homem. E estou melhor que a maioria. Pelo menos eu tenho um negócio que posso dirigir. Algumas viúvas são deixadas com uma fazenda para cuidar por conta própria e isso não é trabalho para uma mulher — ela sorriu de novo, não tão intensamente como antes e mudou de assunto. — Então, o que o traz à nossa porta, arqueiro?
— Por favor, me chame de Gilan — ele falou, e ela estendeu a mão para apertar a dele.
— Sou Maeve.
Ela estudou-o francamente. Ele era alto e de boa aparência, com uma pitada de humor, até mesmo travessura, em seus olhos. E tinha um ar de confiança. Confiança tranquila, não arrogância como alguns jovens. Ele era provavelmente um ou dois anos mais jovem do que ela. Mas não era uma grande diferença de idade e ela se perguntou se ele era casado.
— Você estava dizendo...? — ela solicitou e Gilan se lembrou de sua pergunta.
— Ah... apenas um pequeno negócio no castelo — ele respondeu descuidadamente. — Detalhes administrativos realmente, deixar as coisas em ordem novamente depois da guerra — ele fez uma pausa, em seguida, acrescentou: — Você conhece Philip, o senescal, por acaso?
No passado, ele descobriu que proprietários estavam geralmente bem informados sobre a fofoca local. E eram muitas vezes mais do que dispostos a compartilhar seus conhecimentos.
Maeve provou não ser uma exceção. Ela assentiu com a cabeça.
— Um bom administrador — ela disse — se ele puder manter-se longe dos dados.
— Ele joga? — Gilan perguntou e ela fez uma pausa, franzindo a boca, pensativa antes de responder.
Ela gostava de Philip e não queria deixar Gilan com a ideia errada sobre ele.
— Ele costumava. Ele e alguns dos comerciantes locais costumavam jogar regularmente na taberna Swan — ela virou a cabeça em direção a um prédio de um andar em o outro lado da rua principal da vila — mas eu não o vi lá pelo último mês ou dois. Acho que ele largou isso agora. Ele ficou bastante endividado com os outros jogadores. Alguns deles estavam indo denunciá-lo ao Barão Douglas, mas ele convenceu-os a não fazerem isso.
— Isso não teria feito bem a ele — Gilan concordou.
Como senescal, Philip seria encarregado de tesouraria do castelo. Douglas dificilmente estaria confortável se soubesse que o seu administrador financeiro acumulava dívidas de jogos de azar na aldeia.
— Concordo. Não que alguém por aqui tenha muito tempo para o Barão... — Maeve parou cautelosamente quando percebeu que poderia estar falando fora de hora.
Gilan sorriu com simpatia.
— Eu me encontrei com ele — disse. — Ele é um pouco pomposo, não é?
Maeve pareceu relaxar.
— Como eu disse, nenhum dos outros sentiram que lhe deviam favores. Eles já devem a ele impostos suficientes — acrescentou sombriamente. — Ele é um pouco pesada quando se trata de tributar os negócios locais.
Gilan assentiu, mantendo uma cara séria. Mas por dentro, ele estava sorrindo. Ele ainda estava para encontrar um comerciante que não achasse que ele ou ela estavam sendo solicitados a pagar taxas fiscais em demasiado.
— Então... Philip não vem para a aldeia muito estes dias? — questionou.
Ela balançou a cabeça enfaticamente.
— Não ao Swan. — Então ela fez uma pausa. — Mas eu o vi algumas vezes recentemente, tarde da noite. Eu tenho insônia e com frequência vou sentar na minha janela, olhando a rua lá fora.
Ela não acrescentou que a falta de sono era causada pela solidão na madrugada. Era nesta hora que, sem nada para ocupar sua mente, ela sentia a perda de seu marido com mais intensidade.
— Onde ele estava indo? — Gilan perguntou.
Ela hesitou por alguns segundos.
— Se fosse ele. Embora eu tenha certeza que era. Eu realmente nunca vi seu rosto, mas ele tem essa maneira de caminhar, com sua cabeça impulsionada para frente e os ombros curvados. Ele parecia estar se encaminhando para a casa de Ambrose Turner, no final da rua. Estranho, eu pensei, já que Ambrose era a quem ele devia mais dinheiro.
— Será que ele conseguiu pagar a dívida?
— Eu não sei. Deve ter. Ele dificilmente seria bem-vindo na casa de Ambrose se não tivesse, não é?
Gilan franziu a testa.
— Não. Ele não seria — disse ele, pensativo.
Maeve, que tinha estado à beira de sua mesa enquanto falava, olhou acima quando um grupo de clientes chegou, chamando-a alegremente quando entraram na taverna.
— É melhor eu ver o que querem — ela falou. — Sua refeição vai estar aqui em breve. Prazer em falar com você, Gilan. Procure por mim de novo.
Havia um olhar um pouco melancólico em seus olhos quando ela disse isso.
— Eu vou fazer isso — Gilan confirmou, sorrindo.
Mas sua mente estava fazendo hora extra enquanto refletia sobre o que ela havia dito. Tinha muito em que pensar.


Ele montava de volta ao castelo lentamente naquela tarde, ainda pensando na informação que tinha recolhido, reunindo os fatos em sua mente.
O senescal era, ou tinha sido, um jogador viciado. Pior, ele era um perdedor e arrumou uma grande dívida com alguns dos comerciantes locais. Essa era uma combinação perigosa. Como senescal, Philip tinha acesso aos fundos do castelo. Se ele não tivesse pagado a dívida, como Maeve havia dito, ele dificilmente seria bem-vindo na vila. Se tivesse, então sua fonte mais provável de dinheiro seria o tesouro castelo.
Não havia outra possibilidade. Jogos de azar faziam de Philip alvo principal para a chantagem. Se o Barão descobrisse que ele era um jogador e que devia dinheiro a comerciantes locais, ele seria demitido imediatamente.
E se Foldar tivesse descoberto o segredo de Philip? Ele poderia ter pagado a dívida por ele, então ameaçou denunciá-lo. Uma vez que tivesse escravizado o homem, ele poderia muito bem tê-lo forçado a tornar-se seu informante no Castelo Highcliff, forçando-o dizer-lhe quando os comboios de pagamento ou de impostos estavam sendo transportados através do feudo.
Pagamentos de impostos! O pagamento trimestral do imposto para o Rei seria feito em uma semana. Philip vinha passando informações para Foldar sobre a quantidade de dinheiro que seria enviado ao Castelo Araluen? Ou sobre a data de partida ou a rota que o comboio contendo o dinheiro iria tomar?
Isso pode explicar suas viagens clandestinas, tarde da noite, para a aldeia. E se ele não fosse visitar o comerciante Ambrose, mas reunir-se com Foldar ou seus agentes? Afinal, Maeve nunca o tinha visto entrar na casa de Ambrose, e era no final da rua. Philip podia muito bem ter cruzado a aldeia e continuado para um encontro com Foldar.
Com sua mente girando, Gilan quase perdeu o aviso estrondoso de Blaze ao atirar sua cabeça para a esquerda. Totalmente alerta mais uma vez, ele olhou para a esquerda e viu duas figuras passando para trás da proteção de um tronco caído do outro lado do rio que Gilan acompanhava. Ele registrou os homens e, uma fração de segundo depois, o fato de que ambos estavam armados com bestas e arcos que eram apontados a ele.
Chutando seus pés para fora dos estribos, ele lançou-se de lado na sela, mergulhando à sua direita de modo a manter Blaze entre ele e os dois homens. Ele ouviu um zumbido sinistro perto de sua cabeça quando mergulhou e sentiu algo arrancar violentamente sua capa.
Em seguida, ele caiu no chão ao seu lado, rolando para amortecer a queda. Ele resmungou com o impacto, então disse baixinho:
— Blaze! Entre em pânico!
O baio levantou suas orelhas quando ouviu seu nome. Então, na segunda frase de comando, ele entrou em um desempenho notável. Relinchou alto e ergue-se em suas patas traseiras, as patas dianteiras se debatendo no ar. Quando os cascos da frente caíram de volta para o chão, a montaria girou em um círculo, ainda relinchando e resfolegando. Então correu alguns metros para trás no caminho que eles tinham vindo, parou, hesitou e correu na direção oposta, virando em um grande círculo, balançando a cabeça e crina enquanto isso.
Era um movimento cuidadosamente ensaiado, um dos muitos que os arqueiros e seus cavalos praticaram desde os seus primeiros dias juntos. O barulho, o movimento, o pânico aparente eram todos concebidos para proporcionar uma distração. Quando Gilan deixou a sela e caiu no chão, era quase impossível para um observador não tirar os olhos do arqueiro e, em vez disso, olhar o cavalo mergulhar, correr e relinchar.
Isso deu a Gilan tempo de rolar várias vezes, envolvendo-se em sua capa enquanto isso.
Ele percebeu que seu capuz caiu de sua cabeça enquanto ele saltou. Não houve tempo para recolocá-lo, então enquanto ele rolou, puxou uma dobra do seu manto sobre o rosto como uma máscara. Ele ficou parado deitado no chão, de frente para a direção de onde o ataque viera. Então, ficou absolutamente imóvel, mal respirando, enquanto Blaze, aparentemente recuperado de seu súbito ataque de pânico, parou há dez metros de distância.
Confie na capa. Era um mantra cantado por todos os arqueiros durante seus anos como aprendizes. Gilan seguiu a regra, agora, deitado imóvel na grama enlameada, o padrão cinza e verde da capa deixando-o, para todos os intentos e propósitos, invisível.
Seus atacantes estavam a apenas trinta metros de distância, com o riacho profundo entre eles e Gilan. Ele os ouvia claramente.
— Onde ele foi?
— Eu o peguei. Eu sei que o acertei. — A segunda voz estava animada.
A primeira, quando falou de novo, estava pesada com sarcasmo.
— Então, onde está ele? Não há nenhum sinal
— Deve haver. Eu sei que eu... — a voz sumiu.
Olhos semicerrados abaixo da capa, Gilan viu como os dois homens saíram de trás da cobertura do tronco caído e avançaram cautelosamente até a borda do o fluxo. O mais velho dos dois homens, o sarcástico, olhou em dúvida para as escuras e velozes águas.
— Atravesse o rio e procure por ele então — ele ordenou, mas o outro homem bufou indignado.
— Atravessar? Nada disso! Este rio deve ter três ou quatro metros de profundidade e eu não sou um nadador! Atravesse você mesmo.
Tardiamente, os dois supostos assassinos perceberam que não haviam recarregado suas bestas. Eles fizeram isso agora, grunhindo com o esforço enquanto colocavam as cordas pesadas no lugar. Gilan olhou para onde o seu arco estava, a poucos metros de distância. Ele soltou-o durante a queda, para caso de cair sobre ele e quebrar. Por um momento, pensou em seu próximo movimento. Ele poderia subir e se mover em segundos para recuperá-lo. Outros dois segundos para puxar uma flecha de sua aljava e colocá-la no arco. Em seguida, um segundo tempo para esticar, mirar e atirar. E assumindo que a sua capa, enrolada ao redor de seu corpo como estava, tivesse deixado a sua aljava livre.
Mais provavelmente, a aljava e suas flechas estariam irremediavelmente emaranhadas nas dobras da capa, acrescentando preciosos segundos para o tempo que levaria para atirar.
Não. Ele tinha perdido a sua oportunidade enquanto eles estavam com seus arcos descarregados. Se houvesse apenas um deles, ele poderia arriscar. Mas com dois besteiros em curto alcance, o risco era muito grande. Um segundo depois que tomou essa decisão, ficou feliz. Uma terceira voz juntou-se a discussão.
— Vocês dois! O que está acontecendo?
A voz era mais gutural, mas o tom era forte e exigente. Os olhos de Gilan partiram na direção que ela veio. Ele não se atreveu a mexer a cabeça. Ele podia ver um vulto escuro na beira de sua visão. Quem quer que fosse, parecia estar vestido de preto. Em seguida, sua identidade ficou clara quando o primeiro do besteiros respondeu a sua pergunta.
— Apenas verificando, Lorde Foldar.
Gilan enrijeceu. Então Foldar estava aqui apesar de tudo, ele pensou.
— Verificando? Verificar o quê? Você o acertou?
Os dois atiradores trocaram um olhar preocupado. Em seguida, o homem mais velho falou novamente.
— Sim. Estamos com ele, meu senhor. Ele caiu, bem e verdadeiramente.
— Então, certifique-se disso! — Foldar ordenou, irritado.
Mais uma vez, os dois homens trocaram um olhar preocupado. Se eles não podiam ver Gilan, como poderiam ter certeza de que ele estava morto? Em seguida, o homem mais velho deu de ombros ligeiramente.
— Muito bem, meu Lorde — ele respondeu e levantou seu arco. Apontou para um ponto aleatório três ou quatro metros a esquerda de Gilan e apertou o gatilho na curva. Houve o habitual estalo do mecanismo de besta se libertando, em seguida, um baque quando o dardo curto enterrou-se no solo.
Gilan decidiu que isto tinha ido longe demais. Blaze ainda estava a alguns metros de distância. Ele assobiou, um pulsante apito de três notas, que era outro sinal preparado. Quieto como estava, o arqueiro do outro lado ouviu e olhou para cima de repente, não sabendo de onde o barulho vinha.
— O que foi isso? — o mais jovem perguntou.
Mas, então, Blaze entrou em cena mais uma vez. Ele levantou a cabeça, orelhas em pé e olhou para longe de Gilan, para árvores próximas. Relinchou e começou a trotar na direção em que ela estava olhando.
— Alguém está vindo! — disse o arqueiro mais velho. — Vamos sair daqui!
Gilan viu como eles tropeçaram desajeitadamente pelo mato na margem oposta do rio. Ele ouviu uma breve e raivosa troca entre eles e Foldar, em que asseguravam ao seu líder que Gilan estava morto. Em seguida, todas as três figuras entraram nas árvores do outro lado do córrego.
Gilan esperou alguns minutos, em seguida, sentou-se lentamente. Ele assobiou e Blaze veio trotando de volta para ele.
Como eu fui?
— Você foi notável — Gilan elogiou. — Na verdade, eu estou querendo saber se você não estava realmente em pânico.
Blaze bufou de escárnio. Eu, em pânico? Desses dois besteiros desajeitados? Por que você não atirou neles?
— Eu deixei cair o meu arco — Gilan respondeu e imediatamente desejou que ele não o tivesse feito.
Blaze virou a cabeça de lado para olhar para ele.
É claro que você deixou.
Gilan remontou e partiu pensativo. Depois de alguns quilômetros, ele expressou seus pensamentos em voz alta.
— Por que Foldar enviou homens para me emboscar?
Dificilmente é um bom plano, se ele quer continuar a ser discreto. Você não tenta matar um arqueiro e espera isso passar despercebido.
Talvez ele simplesmente não goste de arqueiros.
— Possivelmente. É mais provável que ele saiba que eu o estou caçando e estava tentando me pegar primeiro.
Como ele poderia saber disso? A menos que alguém lhe contou sobre você. E apenas duas pessoas sabem o que você está fazendo aqui.
— Exatamente — Gilan concordou.

2 comentários:

  1. olha eu gosto quando o Puxão e o Abelarde falam, mas to começando a achar que esses arqueiros são doidões mesmo. 0.o (antes que alguém comece a me xingar EU GOSTO MUITO DOS ARQUEIROS)ufa

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Boa leitura :)