18 de dezembro de 2016

Capítulo 43

Umar se agachou atrás de uma pedra de granito no alto da ravina com os olhos voltados para a torre de vigia que ele e Will haviam escolhido no dia anterior. A viga caída tornava mais fácil distinguir seus vizinhos.
Houve um movimento atrás dele e ele se virou para ver Hassan. O rapaz tinha saído do fundo da ravina, onde a força bedullin principal esperava calmamente.
— Qualquer sinal dele, aseikh? — Hassan perguntou.
Umar sacudiu a cabeça.
— Ele deve estar em posição agora. É quase nove.
— Talvez as execuções tenham sido adiadas? — Hassan sugeriu.
Umar coçou a barba, pensativo.
— Talvez. Mas eu não posso ver porque diabos Yusal desistiria da chance de impressionar a população local.
Ele ergueu a mão como se estivesse pedindo silêncio, a cabeça ligeiramente voltada para escutar. De dentro de Maashava, o ribombar rítmico e profundo de um tambor veio a eles sobre a suave brisa da manhã.
— Não — disse. — A execução vai em frente. O que diabo aconteceu com Will e Aloom?
— Devo trazer os homens para cima, aseikh? — Hassan perguntou.
Umar hesitou. As chances eram de que não haveria ninguém olhando nesta direção e eles poderiam ter começado a descer a trilha poeirenta que levava à cidade. Mas ele rejeitou a ideia. Tudo que precisava era um par de olhos curiosos para vê-los e o alarme seria levantado.
— Vamos aguardar o arqueiro — disse ele.


Rodeado pelos guardas, os sete presos foram conduzidos por uma longa rampa da caverna do armazém para as ruas da cidade.
Empurrados e açoitados, eles tropeçaram no terreno irregular amarrados juntos em uma longa fila, proibidos de falar uns aos outros. Em sua maioria, o povo arridi assistia-os com uma mistura de apatia e piedade mórbida. No entanto, como sempre no meio da multidão, houve aqueles que escolheram ridicularizar os prisioneiros e jogar pedras, pedaços de terra e lixo neles. Halt olhou para um grupo de jovens na casa dos vinte anos. Ao contrário da maioria dos arridis, eles tinham obviamente tomado a forte bebida conhecida como arariki. Eles tropeçavam e cambaleavam em conjunto, com os olhos vermelhos e suas bocas moles ao jogar insultos para a linha de prisioneiros. Halt virou e olhou por cima do ombro a Selethen, o próximo na fila atrás dele.
— Eu pensei que a sua religião proibia álcool — disse ele.
Selethen olhou com aversão ao barulhento grupo e deu de ombros.
— Há uma escória em toda sociedade — disse ele. — As pessoas como eles estão simplesmente felizes por não serem eles a serem levados à morte hoje.
Um guarda deu um passo adiante e bateu nos dois homens com uma extremidade da corda atada.
— Calem a boca! — ele gritou. — Nada de conversas, entenderam?
Eles saíram para a praça. Ela estava repleta de pessoas e sua escolta teve de empurrar para fazer um caminho para eles. Metade estava assistindo os tualaghis, Halt viu. Eles estavam se divertindo, esperando que os nervos dos prisioneiros fossem quebrar no último momento e reduzisse-os a gritos chorosos de misericórdia. Não que eles seriam ouvidos. Os conceitos de piedade e misericórdia eram desconhecidos dos tualaghis.
No outro lado da praça, ao lado da plataforma de madeira levantada que agora eles podiam ver claramente pela primeira vez, o ribombar de um tambor começou. Continuou em um ritmo lento, como o bater de um coração grande. Era um sinal para a multidão à sua volta para duplicar seus ruídos. A fila única de prisioneiros foi forçada através da multidão até que eles estavam perto dos degraus que levava à plataforma.
Halt olhou para cima. Yusal estava acima deles, vestido hoje em túnicas azul escuras, os pés afastados, mãos nos quadris. Como sempre, seu rosto estava escondido atrás do véu azul-escuro. Apenas seus olhos eram visíveis, frios como sempre. Ele enfrentou a multidão, examinando os rostos diante dele, esperando o silêncio cair.
Aos poucos, os gritos extinguiram a uma exclamação ocasional. Em seguida, os demais se calaram quando soldados tualaghis no meio da multidão bateram em alguém que iria interromper o seu líder. Um silêncio forçado caiu sobre a praça.
— Traga os presos para cima — disse Yusal, sua voz áspera agora era ouvida com clareza em todos os cantos da praça.
Os guardas mandaram seus reféns para frente e Halt liderou o caminho até os degraus brutos para a plataforma. Ele sentiu o tremor sob seus pés conforme Selethen subiu atrás dele seguido por Svengal.
Yusal agarrou o ombro Halt quando ele foi se mover ao longo da plataforma, abrindo caminho para aqueles que estavam seguindo.
— Você fica aqui — o tualaghi falou. — Vai ser o primeiro.
Houve um rugido de aprovação dos guerreiros tualaghi no meio da multidão. Os outros prisioneiros poderiam proporcionar esporte e diversão com as suas execuções. Os dois arqueiros eram odiados.
O tambor, que tinha cessado seu crescente e ameaçador som, começou mais uma vez. Quando Gilan subiu para a plataforma, seguindo por Erak e Evanlyn, Yusal gesticulou para ele ficar ao lado Halt. Outro grito de prazer veio dos tualaghis que assistiam. Houve um movimento de agitação nas fileiras da multidão abaixo deles e Toshak empurrou seu caminho até a frente. Ele sorriu para Halt.
— É aqui que você vai perder o pescoço, arqueiro! — ele chamou.
Halt o ignorou, olhando para longe, fazendo a varredura da multidão, esperando apesar de tudo ver Will em algum lugar. Por mais irracional que fosse, ele ainda acreditava que seu aprendiz havia sobrevivido ao deserto e que não iria deixá-los ir para a morte sem tentar um resgate de algum tipo.
Se lhe perguntassem por que alimentava essa esperança, ele não poderia ter dado uma resposta racional. Era fé. A fé na criatividade e coragem do jovem que ele tinha aprendido a amar como se fosse um filho. Will estaria lá porque ele era necessário. E Will nunca o tinha deixado na mão no passado.
Vagamente, ele estava ciente de Erak responder a Toshak, convidando-o para cima da plataforma.
— Mesmo com as mãos atadas, tenho certeza de que eu poderia quebrar o seu pescoço traiçoeiro, Toshak! — disse ele.
Toshak sorriu irritantemente.
— Vou levar sua cabeça de volta a Escandinávia, Erak — disse ele. — Vou usar o crânio como uma caneca de cerveja.
Yusal olhou para os dois nortenhos. Ele tinha um senso de teatro e de ocasião e um dom para o dramático. Suas incultas brigas ruidosas não tinham lugar aqui.
— Fique em silêncio! — ele ordenou.
Toshak olhou para ele, encolheu os ombros com indiferença e encostou-se em uma das colunas que sustentavam a plataforma. Yusal, convencido de que não haveria outra interrupção, ergueu uma das mãos.
— Vamos Hassaun avance! — gritou ele.
O grito foi acompanhado pelo grupo tualaghi da praça.         
— Hassaun! Hassaun! Hassaun!
O grito ecoou as frentes de construção, mantendo o ritmo com a incessante expansão do tambor. Alguns dos arridis foram apanhados no momento e juntaram a sua voz ao coro. Eles tinham visto execuções antes. Tinham uma boa ideia do que estava para acontecer. Os gritos aumentaram de intensidade, volume e urgência. Em seguida, uma enorme figura surgiu de um lado da praça, parada acima das cabeças dos espectadores. Por um momento, ele parecia estar flutuando no ar, então Halt percebeu que ele estava em um grande escudo de madeira, sendo suportado na altura do ombro por quatro tualaghis enquanto eles forçaram seu caminho através da multidão para o local da execução.
Os tambores intensificaram-se em ritmo e os gritos também. Hassaun era uma figura enorme, vestido inteiramente de preto. Seu manto longo fluía na brisa da manhã e as pontas de seu kheffiyeh negro arrastavam atrás de si enquanto os quatro guerreiros o levaram para frente. A metade inferior do rosto estava coberta pelo sempre presente véu azul-escuro tualaghi. Suas mãos, cruzadas na frente do peito, repousavam sobre o punho de uma enorme espada preta de duas mãos.


Will e Aloom tinham chegado mais perto da torre quando a batida começou, profunda e sonora.
— Eles estão começando! — Aloom chorou. — Mexa-se! Nós não temos muito tempo!
Will não disse nada. Ele tirou o pano que envolvia seu arco, curvado atrás de sua panturrilha direita, colocando-o no lugar com o seu tornozelo esquerdo, e deslizou até a corda em seu encaixe, grunhindo ligeiramente com o esforço de superar a força de tração de cinquenta quilos do arco.
Ele jogou sua capa para um lado, revelando a aljava com duas dúzias de flechas ao ombro, o arco pendurado ao lado dela e começou a escalar a estrutura de madeira podre da torre.
Foi uma subida lenta. Apesar dos estímulos de Aloom e seu próprio senso crescente de urgência, ele sabia que tinha que apoiar as mãos e pés cuidadosamente. A torre estava em pior condição do que ele esperava e havia uma chance excelente que poderia entrar em colapso sob um movimento apressado.
Will tinha subido quatro metros, passando pelo topo da parede em si e estava dando com cuidado sua última passada, antes que ganhasse a plataforma de observação.
O tambor cessou por alguns minutos, mas, à distância, ele podia ouvi-lo novamente crescendo, chegando mais e mais rápido agora. Então, um canto de centenas de vozes foi levado a ele:
— Hassaun! Hassaun! Hassaun!
— Quem raios é Hassaun? — ele murmurou para si mesmo, avançando cuidadosamente ao longo de uma madeira decididamente desconfiável.
Ele estava pendurado no ar, o pé procurando por um apoio mais sólido, seu peso suportado pelos braços de modo que ele estava completamente indefeso quando ouviu uma voz atrás dele.
— Quem diabos é você? E o que está fazendo?
Ele olhou para baixo. Aloom estava abaixo dele virado para o caminho que eles tinham vindo. A dez metros de distância, três guerreiros tualaghis os olhavam com desconfiança. Atrás deles, sorrindo vingativamente, estava o gordo comerciante que eles tinham visto na pousada na noite anterior.

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Boa leitura :)