8 de fevereiro de 2017

Capitulo 39

Eles estudaram a única folha de papel, franzindo a testa quanto ao seu possível significado. Havia uma única palavra escrita nela: Pueblos.
E seis cruzes desenhadas, cada uma numerada. Will coçou a cabeça. Havia algo sobre o arranjo de três daquelas cruzes que lhe parecia familiar.
— O que pueblos quer dizer? — ele perguntou, mais para si mesmo do que para Maddie.
Mas ela respondeu:
— Eu acho que é iberiano. Só não consigo lembrar. Será que significa “cavaleiros”?
Ela fez uma careta. Suas aulas no Castelo Araluen tinham incluído um estudo básico de línguas estrangeiras, incluindo gálico e iberiano. Mas ela não tinha prestado muita atenção a essas aulas – ou quaisquer outras lições que tinham sido ensinadas nessa matéria.
— O benefício de uma educação clássica — Will murmurou.
Maddie ainda estava franzindo o cenho, esfregando a testa furiosamente enquanto puxava pela mente o significado dessa palavra. Não era “cavaleiros”. Estava na ponta da língua. Era...
— Aldeias! — disse ela triunfante. — Pueblo significa aldeia em iberiano!
E, de repente, Will sabia por que o arranjo de três cruzes era familiar. Ele buscou em seu bolso interno pelo mapa de Liam e estendeu-o ao lado da folha da mochila do intruso.
Ele pegou um pedaço de carvão vegetal e rapidamente desenhou linhas que ligavam as três aldeias de Danvers Crossing, Boyletown e Esseldon no mapa de Liam. As linhas formavam um estreito triângulo oblíquo. Então ele pegou a folha que Maddie tinha encontrado e ligou as três primeiras aldeias marcadas lá. Encontrou-se olhando para o mesmo triângulo.
— Estas são as aldeias onde as crianças desapareceram — ele observou, inclinando-se para trás.
Maddie apontou para a folha que ela havia tirado do estranho.
— E há outras três — disse ela.
Will franziu a testa e desenhou uma linha da terceira aldeia, que representava Boyletown, até a vila mais distante marcada no gráfico do estranho. A linha corria de leste a nordeste. Ele mediu o comprimento com o indicador e o polegar, em seguida, comparou a distância entre Esseldon e Boyletown, calculando rapidamente.
Quando Will visitou o Castelo Trelleth, pegara um mapa detalhado do feudo. Ele o tirou agora e desdobrou-o, correndo o dedo na direção leste-nordeste até chegar a uma aldeia que correspondia aproximadamente com aquela na folha que Maddie encontrara na mochila do intruso.
— Willow Vale — ele falou.
Maddie se esticou por cima do ombro de Will para ver o mapa.
— Por que essa vila? Por que não a quarta ou a quinta?
— Porque é a sexta. Então, é a última que eles pretendem visitar. Talvez não tenham chegado lá ainda. Fica a um dia de caminhada a partir daqui — ele falou, pensativo.
— Ou uma noite — ela adicionou. — Afinal de contas, nós não sabemos quanto tempo temos.
— Nesse caso, não temos tempo a perder.


Eles recuperaram seus arcos, aljavas e capas de onde estavam escondidos no carrinho de mão. Maddie entrou em uma das baias vazias e mudou seu vestido velho e remendado para suas calças, camisa e colete. Ela jogou de lado as sandálias de sola fina que estava usando e calçou suas botas de couro macio.
Quando finalmente vestiu a capa mais uma vez, ela soltou um suspiro de satisfação. Era bom sentir-se como uma arqueira novamente.
Permanecendo nas sombras, eles fizeram o seu caminho para fora da aldeia. Ninguém os viu ou os desafiou e, uma vez longe do espaço aberto da rua principal, eles se estabeleceram em uma corrida constante em direção à clareira onde haviam deixado seus cavalos.
— Puxão vai suportar a viagem? — ela perguntou quando eles pararam para respirar. — Afinal de contas, você o montou o dia todo.
— Ele é um cavalo de arqueiro — respondeu Will. — Poderia continuar por outros dois dias se eu lhe pedisse.
Eles partiram de novo, chegando à clareira cinco minutos depois. Puxão e Bumper os ouviram chegando, e os reconheceram e relincharam uma saudação. Os dois rapidamente selaram os cavalos e montaram, então Will tocou Puxão com os calcanhares e se dirigiu para a estrada, Maddie e Bumper logo atrás deles. Eles se estabeleceram em um galope suave, lado a lado. O único som era o batuque ritmado dos cascos dos cavalos na superfície de terra batida da estrada. Atrás deles, uma pequena nuvem de poeira levantou-se ao luar que rompeu por entre as árvores. Eventualmente ela abaixou até não havia nenhum sinal de que eles haviam passado.
Depois de meia hora, reduziram a velocidade dos cavalos e desmontaram. Deram-lhes um pouco da água dos cantis que carregavam em um balde de couro dobrável. Então eles levaram os cavalos, andando ao lado deles por dez minutos para deixá-los descansar. Eles continuaram nesse padrão durante toda a noite, alternadamente seguindo no galope a que os cavalos de arqueiros eram treinados, em seguida caminhando para descansá-los.
Era mais fácil falar agora que eles não estavam galopando.
— O que eu não entendo — Maddie falou — é por que essas pessoas estão roubando as crianças. Não houve pedidos de resgate. E de qualquer maneira, os pais na maior parte são pobres e dificilmente poderiam pagar. Então, qual é o motivo?
Ela estava incomodada há algum tempo com isso. Uma coisa que Will a tinha ensinado era sempre procurar uma razão por trás de um crime. A pergunta a se fazer era “quem se beneficia?” Neste caso, ela não podia ver vantagem para ninguém – a não ser que o Ladrão e seu grupo estivessem simplesmente fazendo isso apenas por maldade.
— Eu não acho que a ideia seja pedir resgate pelas crianças — Will respondeu agora. Ele estava pensando consideravelmente no tema e havia várias pistas agora aparentes. — Acho que estamos lidando com traficantes de escravos.
— Traficantes de escravos? — Maddie parou em surpresa e Bumper, pego desprevenido, trombou nela.
— Pense nisso — disse Will. — Você disse que o homem que arrombou seu quarto era estrangeiro. Ele tinha uma folha com uma palavra ibérica escrita e esses quattros são uma arma ibérica.
— Isso é significativo? — perguntou Maddie.
— É, quando você considera que há um comércio de escravos bastante ativo em Ibérion — Will disse. — E crianças no início da adolescência são particularmente requisitadas.
— Eu não sabia que os ibéricos mantinham escravos — disse Maddie. Mas, em seguida, ela pensou que ela não sabia muito sobre Ibérion e seu povo de qualquer maneira. Ela só tinha uma impressão geral e vaga de que a escravidão era uma coisa do passado no continente principal.
— Eles não mantém. O rei ibérico proibiu a prática. Aparentemente, a sua religião proíbe ter escravos. Mas não diz nada sobre a negociação em si, de modo que permite que seu povo capture escravos e os venda a outros. Há uma frota pequena, mas ativa de navios escravagistas que operam a partir do porto Magala no sul Iberiano.
— Quem os compra? — perguntou Maddie.
— Geralmente, eles são vendidos no mercado em Socorro — ele olhou para ela, que devolveu o olhar fixo. — Você nunca estudou geografia? — ele perguntou. — O que ensinam às crianças nos dias de hoje?
Ele fez uma pausa. As palavras atingiram um acorde estranho em sua memória. Lembrava-se de Halt dizendo algo similar a ele quando era aprendiz de seu antigo mentor. Ele balançou a cabeça para limpar o pensamento. Parecia que quanto mais velho ficava, mais palavras e eventos começavam a se repetir.
— Eu aprendi bastante sobre costura — Maddie respondeu acidamente.
Sempre foi um ponto sensível que ela tivesse aulas sobre bordado quando o que realmente queria era ir caçar na floresta.
— Humf. Lembre-me de chamá-la quando eu rasgar minha camisa — Will resmungou. Então ele continuou com sua lição sobre o comércio de escravos. — Socorro é uma cidade-estado na costa oeste de Arrida. Tem um grande mercado de escravos – um dos maiores do continente Arridi. Escravos são comprados e vendidos e transportados de lá para todos os cantos do interior.
— E você acha que é isso o que está acontecendo aqui?
Ele deu de ombros.
— Faz todo o sentido. O Ladrão, o Roteirista e sua gangue estão operando em aldeias remotas, onde a notícia do desaparecimento das crianças é improvável de sair para o resto do mundo. Quem sabe quantas eles sequestraram? Eles escolhem crianças que são maltratadas e tem uma fuga provável. Isso desvia a atenção ainda mais. As pessoas supõem que as crianças finalmente se rebelaram contra os maus tratos constantes e fugiram.
— Mas como eles sabem quem são essas crianças?
Will tocou o dedo ao lado de seu nariz em um gesto cúmplice.
— É aí que o Roteirista entra. Ele visita a cidade, ganha a confiança das crianças e vê um provável candidato. Afinal de contas, é uma triste realidade que você comumente encontre uma criança maltratada na maioria das aldeias. Ele, então, assusta as crianças para se calarem, para não dizerem nada sobre as perguntas que ele está fazendo. Ele sai da cidade e, algum tempo depois, o Ladrão entra e rapta a criança que o Roteirista apontou para ele. As outras crianças não dizem nada porque lhes foi dito que se o fizerem, serão os próximos alvos do Ladrão. E a criança sequestrada está tão petrificada pela terrível reputação do Ladrão – descrito pelo Roteirista – que ele ou ela vai junto sem protestar. É um sistema bastante engenhoso, quando você olha para ele.
— Isso é horrível — disse Maddie, pensando sobre o que ele tinha explanado.
— Isso não a torna menos engenhoso — Will respondeu.
Ela se virou para olhar para ele.
— É o que há de tão horrível nisso. Então, o que você pretende fazer quando chegarmos a Willow Vale?
— Eu vou descobrir se o Roteirista os visitou recentemente, e se há alguma criança da aldeia que seja gravemente maltratada por seus pais.
— Como é que você pretende fazer isso? — perguntou ela.
A expressão de Will se tornou sombria.
— Eu tenho os meus meios — disse ele. — Venha. É hora de montarmos novamente.

3 comentários:

  1. Amo a inteligência do Will.
    Ass: Lua

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O melhor de tudo é que ele sempre abre espaços pra maddie comentar, mesmo ele já tendo chegado nessa conclusão faz tempo

      Excluir
  2. Quando você pensa que Will amadureceu,ele só tá virando um halt da vida

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)