8 de fevereiro de 2017

Capítulo 33

Eles passaram mais dois dias em Danvers Crossing, e aprenderam um pouco mais sobre o destino de Carrie Clover.
Enquanto Will aplicava-se aos reparos e pintura na taberna, Maddie vagava pela aldeia e tentava fazer amizade com os jovens locais. Eles provaram ser nem amigáveis nem hostis. Mas mostraram certo interesse por ela como uma forasteira.
Era mais fácil para Maddie levantar o assunto da garota desaparecida. Will, depois de já ter discutido com Danvers, dificilmente poderia continuar mostrando interesse por ela. Se o fizesse receberia uma atenção indesejada e perguntas sobre o motivo de sua preocupação. Ele só poderia passar suas noites na taberna e ouvir as conversas em torno dele, na esperança de que alguém pudesse trazer o tópico à tona. Infelizmente, isso não aconteceu.
As crianças, no entanto, tendiam a ser mais francas do que os adultos, e Maddie podia simplesmente perguntar-lhes sobre o desaparecimento de Carrie sob o pretexto de ter ouvido seu pai discutir com o estalajadeiro. Ela esperou até se misturar com as crianças da aldeia em duas ocasiões distintas, em seguida, levantou a questão sem rodeios.
— Meu pai me disse que uma garota desapareceu daqui — ela disse. — Me falou para tomar cuidado ao redor da aldeia, porque o mesmo poderia acontecer comigo.
Ela estava sentada à beira do rio no final da tarde com meia dúzia de moradores, na faixa etária de oito a quinze anos. As crianças trocaram olhares desconfortáveis e por um momento ninguém respondeu. Fingindo não notar a relutância, ela continuou.
— Então, o que aconteceu com ela? Para onde ela foi?
As crianças se entreolharam novamente. Então, um dos meninos mais velhos falou.
— Foi a Carrie Clover — disse ele.
Maddie deu de ombros.
— Ele não disse o nome dela para mim. Então ela fugiu, foi?
Houve uma agitação geral de cabeças entre o grupo. Em seguida, um menino mais novo, cerca de dez anos e com cabelos loiros indisciplinados, respondeu:
 — Ela não fugiu. Foi levada.
Maddie se inclinou para frente, fingindo surpresa.
— Levada? Levada por quem?
— Cale a boca, Clem — disse o garoto mais velho rapidamente. Ele olhou para Maddie. — Nós não falamos sobre isso.
— Por que não? O que a levou? — ela perguntou. Parecia lógico pressionar a questão.
O menino olhou ao redor do resto do grupo. Todos tinham expressões cautelosos, com exceção do garoto, Clem, que estava sofrendo por ter sido repreendido na frente da estranha.
Finalmente, o menino mais velho respondeu.
— Ela foi levada por uma criatura do rio.
Maddie estava olhando o resto das crianças e ela observou algumas expressões de surpresa encoberta às pressas.
— Sim, Simon está certo. Foi uma criatura do rio que a levou — uma das meninas, que era alguns anos mais jovem do que Maddie, concordou, balançando a cabeça enfaticamente.
— E o que é uma criatura do rio? — perguntou Maddie. Ela nunca tinha ouvido o termo antes e estava curiosa.
O menino mais velho, Simon, hesitou alguns segundos, e ela teve a nítida impressão de que ele estava formulando uma resposta na hora.
— É um espírito do rio — disse ele. — Um espírito do rio do mal. Eles se escondem nas águas profundas, então correm de repente e pegam qualquer um que fica muito perto da margem.
— Estamos perto da margem agora — Maddie apontou.
Simon olhou para o rio e percebeu que ela estava certa.
— Sim, estamos. Devemos sair daqui antes que alguém seja pego.
Ele começou a levantar, gesticulando para os outros fazerem o mesmo. Tardiamente, eles todos ficaram de pé.
Ele está mentindo, Maddie percebeu. Ele está inventando e continuando a história. Mas por quê?
Clem, o rapaz que tinha falado primeiro, balançou a cabeça com desdém.
— Espíritos do rio! Não existe tal coi... — ele começou a murmurar, mas a garota que tinha concordado com Simon agarrou seu braço e o arrastou para o lado. Ela falou com ele em um sussurro feroz. — Fecha a boca, Clem! Lembre-se do que o Roteirista disse...
Ela falou um pouco mais alto do que pretendia, e Maddie ouviu as palavras. Sua mente estava correndo. Roteirista? Quem ou o que era o Roteirista? Tendo ouvido a palavra apenas uma vez, ela não sabia se era um nome ou uma descrição. Mas ela fingiu que não tinha ouvido as palavras da menina.
Simon se virou para a garota.
— Cale a boca! Vocês dois calem a boca! — ele percebeu que Maddie estava olhando para ele e continuou. — Agora, é melhor todos nós irmos para casa. Dá azar falar sobre criaturas do rio.
As outras crianças concordaram murmurando e o grupo se separou, indo para suas casas. Um ou dois deles olhou para Maddie, que permaneceu à beira do rio. Ela deu um passo mais perto da margem e olhou para o suave fluxo da água, tentando ver se havia, de fato, uma criatura do rio visível. Então ela percebeu que não tinha ideia de que aparência poderia ter tal criatura. Uma nuvem passou através do sol e o rio, tão alegre e cintilante, de repente se transformou em uma superfície maçante cor de chumbo. Um calafrio de medo a assaltou e ela se afastou do rio, correndo de volta ao longo da rua principal da vila até o estábulo onde ela e Will estavam hospedados.


— O que é uma criatura do rio?
A questão explodiu de seus lábios no momento em que Will entrou no estábulo uma hora mais tarde. Ele tinha acabado de trabalhar o dia inteiro. Na verdade, ele terminou todas as tarefas que Rob Danvers tinha para ele e nenhum outro trabalho aparecera.
Ele olhou com curiosidade para ela. Maddie estava sentada com as costas apoiadas em uma das rodas do carrinho de mão. Seu rosto estava pálido e ela parecia incomodada.
— Uma criatura do quê? — ele perguntou, e ela balançou a cabeça com impaciência.
— Do rio. Um espírito do rio. É algum tipo de criatura.
Ele balançou a cabeça, franzindo os lábios.
— Não me lembro de ter ouvido sobre isso. Há criaturas de túmulos. Ou algumas pessoas dizem que há. Eles são supostamente espíritos que pairam em torno de túmulos antigos. Embora eu não possa dizer que já encontrei uma.
Ele fez uma pausa, quando uma lembrança desagradável agitou em sua mente. Em uma ocasião, muitos anos atrás, quando ele corria para buscar Malcolm e curar Halt, que estava mortalmente ferido, havia sentido alguma coisa depois de passar por alguns túmulos, como antigas sepulturas. Parecia ser uma presença maligna. Mas ele pensou que fosse sua imaginação, desencadeado por seus nervos e pelo cansaço.
— Esta era uma criatura do rio — Maddie insistiu.
A ideia parecia estar incomodando-a.
— Onde você ouviu sobre isso?
— As crianças locais. Elas disseram que Carrie Clover foi levada por uma criatura do rio.
Isso chamou a sua atenção.
— Eles disseram que a arrastou para dentro do rio — Maddie continuou.
— Eles viram isso? — Will perguntou rapidamente.
Poderia ter alguma criatura no rio, ele pensou, um peixe grande de algum tipo. Ou um urso. Alguns ursos sabiam nadar, ele sabia. Ele nunca tinha visto um fazê-lo, mas tinha ouvido as pessoas dizerem que podiam.
— Não. Eles não viram. Na verdade, acho que eles estavam mentindo sobre o espirito.
— O que a faz pensar assim? — Will indagou.
Maddie parou, incapaz de explicar totalmente.
— Apenas um sentimento que eu tenho. Um dos garotos mais jovens não acreditou nisso. Ele estava desdenhando da ideia e uma menina mais velha o fez parar. Simon, o mais velho, me contou a história sobre a criatura do rio. Mas eu senti que ele a estava inventando.
— E o garotinho não acreditou? — Will perguntou e ela assentiu. — Isso é estranho. Normalmente, você pensaria que os mais jovens seriam mais propensos a acreditar em contos sobre monstros no rio.
— Doris, a menina que lhe disse para calar a boca, disse algo sobre um Roteirista, um homem da história.
— Roteirista — Will falou lentamente. — Talvez ele seja o contador de histórias local — ele sugeriu.
— Eles não explicaram. Ela disse: “Lembre-se do que o Roteirista disse”. Então Simon gritou com ela e lhe disse para calar a boca.
Will sentou-se, pensando no que ela havia dito. Ele olhou para cima e viu o rosto ansioso de Maddie.
— Mas não há tal coisa como uma criatura do rio, não é? Não de verdade? — ela perguntou.
— Não. Eu nunca ouvi falar de um e andei ao longo de muitos rios no meu tempo. É apenas uma história — disse ele tranquilizador.
Quando ele disse a palavra “história”, perguntou-se sobre o homem da história. Ele decidiu que perguntaria na taberna mais tarde, e veria se havia um contador de histórias local ou um bardo próximo. Aldeias como esta muitas vezes tinham essas pessoas. Eles ajudavam a manter a história oral da aldeia e dos seus habitantes vivos.
— É a sua vez de verificar os cavalos — disse ele.
Eles haviam se dividido em turnos para sair da aldeia depois de escurecer e se certificarem de que os cavalos estavam bem. Maddie olhou para fora do estábulo. O sol estava se pondo e as sombras se alongavam do outro lado da vila. Para chegar à clareira onde Puxão e Bumper estavam escondidos, ela teria que andar parte do caminho ao lado do rio.
Ela torceu as mãos nervosamente com a ideia de que criaturas da escuridão poderiam estar à espreita por baixo da superfície. Simon estava mentindo. Tinha certeza disso. Mas apesar disso, poderia existir um espírito do rio, mesmo que ele não tivesse levado Carrie Clover. Afinal, Will dissera simplesmente que nunca tinha ouvido falar de tal criatura. Ele não dissera definitivamente que elas não existiam.
— Você vem comigo? — ela perguntou em voz baixa.
Will se virou para ela com surpresa. Ele estava acostumado a uma Maddie segura e autoconfiante. Obviamente, essa conversa de criaturas do rio do mal a tinha afetado. Ele estava prestes a rir de seus medos, então percebeu que ela era jovem e estava ficando escuro, e a imaginação podia ser uma coisa terrível, não importa o que a lógica poderia dizer.
Ele suspirou. Ele teve um dia difícil e estava ansioso para um rápido cochilo na palha antes de ir para a taberna jantar.
Cansado, ele levantou-se, tirando os fios soltos de palha de suas roupas.
— Claro que vou — disse ele.
Os cavalos, como sempre, estavam satisfeitos em vê-los. Eles ficaram ainda mais satisfeitos ao encontrar as maçãs que seus proprietários tinham escondido em seus bolsos.
Havia muita grama para eles pastarem, mas Will trouxera um pequeno saco de aveia também. Ele assumiu que somente grama seria uma dieta chata. Ele certamente acharia isso, pensou.
Os cavalos pareciam concordar, pois mastigavam alegremente a aveia.
Ele deu um tapinha no pescoço musculoso de Puxão quando o cavalo colocou a cabeça na aveia.
— Estaremos indo amanhã, então coma — disse ele.
Maddie o ouviu.
— Nós estamos indo embora? — ela perguntou.
Ela estava alisando o casco de Bumper com uma escova dura. Ela sabia que seu cavalo gostava da atenção.
— Não há mais trabalho, por isso não há razão para ficar. Verei o que posso descobrir sobre esse roteirista esta noite. Mas a menos que algo importante venha à tona, vamos passar para a próxima aldeia.
Maddie assentiu. Ela inclinou a cabeça. Em uma distância próxima, ela podia ouvir o barulho e borbulhar do rio. Quando eles tinham chegado, ele parecia tão alegre e amigável, pensou. Agora, ela não tinha tanta certeza.
— Eu não vou me arrepender de ir — ela falou.
Mais tarde naquela noite, com uma caneca de cerveja pequena, sob o pretexto de ter uma bebida antes de ir dormir, Will tocou no assunto com Danvers.
— Vocês têm um contador de histórias vivendo na aldeia? — ele perguntou, tentando soar casual.
Danvers balançou a cabeça.
— A vila não é grande o suficiente para suportar um — o taberneiro respondeu. — De vez em quando temos itinerantes que passam por aqui. Como o...
Ele estava prestes a acrescentar algo, mas, naquele momento, um grupo barulhento de lavradores pediu alto por mais cerveja. Ele encolheu os ombros se desculpando e se afastou. Will foi arrebatado, servindo por algum tempo e, finalmente, terminou a sua bebida. Ele não tinha mais razão para ficar no bar, então calmamente o deixou, indo para cama.
Perguntou-se brevemente o que o estalajadeiro estava prestes a dizer, mas decidiu que provavelmente era sem importância. A questão importante tinha sido respondida. Não havia nenhum contador de histórias local.

4 comentários:

  1. Karina, um erro aqui:
    "Ns (Nós) estamos indo embora?"

    ResponderExcluir
  2. Eu me pergunto como vaí ser quando Maddie voltar pro castelo e Will ficar sozinho novamente

    ResponderExcluir
  3. Acho que ela vai cursar os 5 anos.
    Ass: Lua

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)