18 de dezembro de 2016

Capítulo 28

— Esses tualaghi são bons com isso — Gilan disse enquanto ele e Halt balançavam para trás em respectivas suas selas.
Selethen estava sentado em sua própria montaria, esperando para ouvir o que os arqueiros tinham encontrado. Era a quinta vez nessa tarde que eles haviam perdido o rastro deixado pelo grupo de guerra tualaghi à frente deles, e tiveram de lançar ao redor de pé por algum sinal fraco, mostrando a direção que eles haviam tomado.
Halt grunhiu em resposta à medida que eles cavalgavam novamente. No primeiro dia, os tualaghi tinham continuado sem fazer qualquer tentativa de esconder o seu progresso. Mas depois disso, tinham começado a cobrir seus rastros, deixando um pequeno grupo para seguir atrás e apagar os sinais deixados pelo grupo principal, que gradualmente mudou de direção. Claro, eles não conseguiam remover todos os vestígios da sua passagem, mas apenas perseguidores com a habilidade de Halt e Gilan veriam os sinais fracos demais.
— Esta é a forma como tem sido toda vez que tentei segui-los — disse Selethen. — Nós víamos claramente sua fuga por um tempo, então eles simplesmente desapareciam.
— Faz sentido — Halt lhe disse. — Você precisa de luz para cobrir faixas como esta, assim como precisamos de dia para segui-los. No primeiro dia, eles estariam interessados em colocar quantos quilômetros atrás deles possível. Meu palpite é que eles montam antes do amanhecer e continuam avançando até o meio do dia. Em seguida, eles descansam e continuam no fim da tarde e à noite. Então, quando estabelecerem uma vantagem sobre seus perseguidores, começam a andar em ziguezague e criam varias pistas — ele olhou para Selethen. — Isso é quando seus perseguidores perdem a trilha e você tem que desistir — disse ele.
Selethen assentiu com tristeza.
— Pelo menos isso está os deixando mais lento — Gilan acrescentou.
Halt assentiu.
— Eles têm que viajar durante o dia, o mesmo que nós fazemos. E não estão tomando um caminho direto. Meu palpite é que diminuiremos a distância pela metade em um dia.
Os dois arqueiros tinham sido capazes de cortar alguns caminhos em sua perseguição. Logo se tornou aparente que os tualaghi, talvez com excesso de confiança em sua habilidade para confundir os perseguidores arridi, haviam caído em um padrão de trilhas falsas e ziguezagues. Depois de várias horas, o padrão se tornou previsível e Gilan e Halt tinham sido capazes de ignorar algumas das pistas falsas e manterem-se em uma rota mais direta, pegando o caminho real alguns quilômetros mais à frente. Tinha também rapidamente se tornado aparente que, quando lançavam uma pista falsa, eles iriam ter menos esforço para cobri-la. Eles eram bons, como notou Gilan. Mas faltava o elemento importante de sutileza.
Claro, ajudou que Halt e Gilan pudessem trabalhar como uma equipe. Quando chegavam a um desvio, Gilan o seguia por algum tempo, por segurança, enquanto Halt levava o grupo arridi ao longo do caminho que o inimigo havia tomado anteriormente. O fato de que o grupo perseguidor estava viajando no início da manhã e no final da tarde era outro golpe de sorte. O ângulo oblíquo da luz facilitava a visão das perturbações e marcas de cascos leves deixadas na areia fina que cobre o deserto.
Até agora, sempre que haviam adotado essa tática, tinham redescoberto o caminho real a poucos quilômetros, a altura em que Gilan voltaria a eles. Felizmente, o terreno era plano e eram capazes de manter a linha de comunicação de visão por distâncias consideráveis.
Como Halt tinha dito, eles tinham coberto metade do caminho mais perto dos tualaghi em um dia. Mas ele queria chegar mais perto. Ele olhou para o sol, protegendo os olhos com a mão. Estava chegando perto do meio do dia, quando iriam descansar do calor.
— Estou pensando — ele disse a Selethen — que esta tarde, três de nós poderíam avançar adiante. Vamos avançar mais rapidamente dessa maneira, e podemos deixar sinais claros para o resto do grupo nos seguir. Eu quero chegar perto o suficiente amanhã à noite para Gilan dar uma olhada nesses tualaghi.
Selethen assentiu em acordo. A sugestão fazia sentido. Com um grupo de cinquenta homens, eram limitados pelo cavalo mais lento do grupo. A natureza contínua de “andar e parar” de seu progresso quando Halt e Gilan tinham de procurar pistas sobre o chão duro, era somado ao tempo que eles estavam tomando. Cada vez que paravam, tinham montar o grande grupo e começar a avançar novamente.
Havia sempre um perímetro a ser reforçado, uma pedra no casco de um cavalo, uma peça de equipamento necessitando ajuste, uma bebida para ser tomada. Poderia ser apenas alguns minutos aqui e ali, mas tudo isso somado ao longo de um dia significada muito.
— Nós vamos continuar por mais alguns quilômetros — disse ele — então vamos descansar. Esta tarde, nós três iremos em frente.
Era uma indicação significativa da mudança em seu relacionamento, Halt pensou. Após a sua suspeita inicial na cena do massacre, o wakir tinha depositado sua confiança nos dois arqueiros para guiar seu grupo. Agora ele estava disposto a isolar-se de seus próprios homens e andar na frente com Halt e Gilan.
Por sua parte, o wakir sentiu uma crescente satisfação com a perspectiva de dar um golpe nas tribos tualaghi. Os nômades sabiam que ele não tinha perseguidores bedullins trabalhando com ele e estavam confiantes, como o arqueiro barbudo tinha explicado. Se ele e seus guerreiros fossem capazes de criar um ataque surpresa em algum momento nos próximos dias, o antigo inimigo poderia não estar tão pronto para atacar no futuro com a sua capacidade aparente para desaparecer no deserto. Eles nunca saberiam como o wakir conseguiu localizá-los através do deserto e faria com que tal conhecimento nunca chegasse a eles.
De certa fora, estava impressionado com a habilidade dos dois nortenhos de ler as pistas no chão. Eles tinham-lhe mostrado várias vezes o que estavam procurando e o que eles tinham visto: um recuo em um pedaço de areia mais suave, um ligeiro raspar de uma unha sobre um pedaço de solo pedregoso, um pedaço de uma sela ou de um manto capturado em um dos sempre presentes arbustos. Pequenos sinais que ele nunca iria perceber. No entanto, os olhos afiados dos estrangeiros os viam como se os fatos estivessem escritos no chão, em letras grandes. Ele também refletia ironicamente sobre sua vontade de andar sozinho com eles. Tinha sido tentado a trazer um ou dois de seus soldados também. Mas rejeitou a ideia. Era importante, segundo ele, mostrar a estes homens que confiava neles.
Gilan estava descendo da sela de novo e andando alguns passos à frente, olhando para o chão. Seu cavalo seguia obedientemente atrás dele, poupando-lhe o tempo necessário para voltar e montar. O arqueiro jovem lembrava a Selethen um cão rastreador com sua energia e vontade de seguir a trilha dos tualaghi.
— Esse é o caminho — ele estava falando, apontando ligeiramente para a esquerda, e o grupo arridi balançou seus cavalos para seguir a direção que ele havia indicado.


Depois de descansar no meio do dia, Selethen e os dois arqueiros se moveram à frente do grupo principal, tendo arranjado para deixar para trás os sinais para os outros seguirem. A cada mudança de direção, o trio desenharia uma flecha grande no chão. Ou, se o terreno fosse duro, formariam uma flecha com pedrinhas e rochas.
Após as primeiras duas horas, era óbvio que eles estavam se movendo mais rapidamente do que soldados de Selethen. A pequena nuvem de poeira levantada pelo corpo de cavalaria era pouco visível no horizonte. Halt franziu a testa pensativamente enquanto estudava isso.
— Melhor manter isso em mente quando chegarmos a uma distância plausível — disse ele. — Não queremos que eles saibam que estamos atrás deles.
Eles cavalgaram rápido no meio da tarde, até que o sol estava quase no horizonte ocidental, e a luz era muito incerta para monitoramento. Selethen tinha notado que os arqueiros tinham aumentado o seu ritmo, às vezes, trotando e galopando quando a trilha era fácil de seguir. Os cavalos que montavam eram resistentes e não mostravam desconforto ao viajar mais rápido do que a lenta caminhada que a tinham sido reduzidos antes. Seu próprio cavalo estava despreocupado pela mudança de ritmo, mas ele era um puro-sangue, de uma longa linhagem de alguns dos melhores cavalos dos arridi.
Selethen sabia que alguns dos cavalos montados pelos seus soldados teriam sido um obstáculo quando o ritmo aumentasse e ele olhou com mais cuidado para a montaria peluda dos arqueiros. Ao lado de seu belo e preparado cavalo arridi eles pareciam anódinos e surrados. Mas tinham enorme resistência e velocidade incrível, ele pensou. No curto prazo, acreditava que seu garanhão, Senhor do Sol, provavelmente os ultrapassaria. Mas, então, a capacidade deles de manter a velocidade quilômetro após quilômetro provavelmente começaria a diferenciá-los.
“Talvez eu deva saber mais sobre estes cavalos”, pensou, conforme ele considerava as vantagens de ter uma cavalaria equipada com tais montarias.
O grupo principal estava bem longe da vista pelo tempo que os três pararam na noite. Eles tiraram a sela, prenderam os cavalos e levantaram acampamento. Selethen se dispôs a recolher lenha para uma pequena fogueira. Halt e Gilan moveram-se para ajudá-lo, mas ele os acenou de lado.
— Vocês trabalharam o dia todo — disse ele. — Eu fui um passageiro.
Ele viu o olhar um pouco surpreso que se passou entre eles e sentiu secretamente feliz que ele tinha ganhado a sua gratidão e, talvez, um pouco de respeito. Eles não eram homens de cerimônias, pensou, e sabiam que a verdadeira autoridade vinha de compartilhar o trabalho duro, não tentando colocar-se acima dele.
Eles logo tinham uma fogueira que lançava um círculo de luz brilhante ao seu redor. Seria visível na escuridão com certa distância, ele sabia. O grupo seguinte não teria nenhuma dificuldade em encontrá-los no escuro.
— Isso é outra coisa que teremos que pensar à medida que nos aproximamos — disse Halt.
A cinco ou seis quilômetros de distância, o fogo seria um pontinho brilhante. E antes que a lua subisse, seu brilho poderia ser bem visível no céu a partir de muito mais longe.
Eles comeram quando o principal grupo finalmente se juntou a eles, três horas após o anoitecer. Enquanto as tropas relaxavam após a sua refeição, bebiam café e conversavam tranquilamente, Selethen movia entre eles, como um bom comandante deve. Parava em cada pequeno grupo, sentando com eles e falando calmamente, valorizando-lhes os progressos realizados durante o dia, verificando se eles ou os seus suportes estavam tendo problemas.
Halt e Gilan estavam acompanhados por Svengal e os outros araluenses. Assistiam Selethen com aprovação enquanto apreciavam o rico café arridi. Eles sabiam que o wakir deveria estar cansado e com desejo de deitar confortavelmente no chão ainda quente com uma xícara de café. Mas ele continuava a mover-se entre os seus homens, com uma piada aqui para um velho companheiro ou uma palavra de conselho ou preocupação existe para um jovem recruta.
Finalmente, a figura alta e vestida de branco completou sua ronda. Para sua surpresa, ele caminhou em direção ao local onde os estrangeiros estavam sentados.
— Posso acompanhá-los? — disse ele.
Halt fez um gesto de boas vindas.
— Por favor.
Horace começou a levantar.
— Eu vou arranjar-lhe uma xícara de café — disse ele, mas Selethen acenou de volta para baixo.
— Sidar fará isso — ele respondeu e eles perceberam que um dos soldados, antecipando as necessidades de seu líder, estava trazendo um copo da pequena fogueira.
Conforme Selethen sentava-se, ele suspirou satisfeito, então aceitou o copo de seu soldado. Ele bebeu profundamente, então suspirou outra vez – o suspiro contente que vem da dor, os músculos cansados que estão finalmente autorizados a descansar.
— O que faríamos sem kafay? — ele perguntou-lhes, usando o nome arridi, o nome original, para a bebida.
— Se você é um arqueiro, muito pouco — respondeu Horace, e todos eles sorriram.
Selethen já havia observado que os arqueiros eram tão entusiasmados com a bebida como qualquer arridi. O guerreiro alto parecia compartilhar o mesmo vício de perto, enquanto o escandinavo geralmente resmungava sobre o café à noite, desejando que em vez dele fosse uma cerveja preta de sua pátria. No que diz respeito a Svengal, essa era a única bebida que valia a pena beber após um longo dia.
— Não sei como vocês continuam sem uma boa cerveja — disse ele. — Acalma a mente à noite, a bebida.
Evanlyn sorriu para ele.
— Sentindo saudades, Svengal? — perguntou ela.
O grande pirata estudou-a por um momento, considerando sua resposta.
— Para dizer a verdade, Vossa Majestade — ele disse — eu não fui feito para este clima.
Svengal insistia em chamar Evanlyn como Vossa Majestade. Isto apesar do fato de que ela lhe tinha pedido várias vezes a chamá-la de Evanlyn ou Cassandra. Ela ainda salientou que, como uma princesa, devia ser corretamente tratada como Vossa Alteza, e não Vossa Majestade. Mas Svengal persistia. Ela suspeitava que fosse uma forma não muito sutil de piada escandinava e uma afirmação do igualitarismo escandinavo que rejeitava a ideia de linhagem real e dos reis hereditários pré-destinados a governarem pelo simples fato de seu nascimento. Escandinavos elegem seus líderes pela sua capacidade e popularidade, ela sabia. E, olhando para trás em alguns dos reis que Araluen tinha colocado em sua história, não estava completamente certa de que os escandinavos não tinham a melhor ideia.
— Você não foi feito para montar, também — Horace acrescentou. — Eu diria que é mais dor de sela do que saudade.
Svengal suspirou tristemente, mudando de posição, pela vigésima vez para encontrar um local mais confortável.
— É verdade — disse ele. — Eu estou descobrindo músculos da minha parte traseira que eu nunca soube que existia.
Selethen sorriu, desfrutando do bom humor calmo e da amizade desses estrangeiros. Mas ele não tinha vindo para conversar. Ele tossiu delicadamente e vi que a atenção de Halt foi atraída imediatamente.
— Algo em sua mente, Selethen? — Halt perguntou.
Eles passaram do tempo em que ele poderia resolver o wakir por seu título ou pelo título honorífico “Vossa Excelência”. Selethen inclinou-se, alisando a areia na frente dele.
— Por uma questão de fato, sim. Um dos meus cabos levantou um ponto interessante, enquanto eu estava conversando com os homens.
Ele sacou sua adaga curva e riscou um X na areia.
— Digamos que esta é a nossa posição no momento — disse ele. Então ele desenhou um ziguezague, curvando-se para até ao X em um metro ou mais. — E para chegar até aqui, que nós temos seguido os tualaghi enquanto eles ziguezagueavam e criavam ilusões e voltavam. — Ele olhou para Halt. — Como você apontou, isso nos deu a chance de chegar neles.
Halt assentiu. Ele esperou para ver o que arridi estava querendo mostrar.
— Apesar de tudo isso cortando e mudando, os tualaghi continuavam a voltar para uma rota básica. — Ele cortou uma linha reta pelo meio da linha em ziguezague. — E se continuarem, vai levá-los aqui.
Ele arrancou um ponto na areia mais ao longo da linha projetada que indicava o curso base dos tualaghi.
— E o que poderia estar lá? — Evanlyn perguntou.
Selethen olhou para ela para responder.
— Os Poços Khor-Abash — disse ele. — A melhor fonte de água em duzentos quilômetros.
Horace franziu o cenho para raspar as marcas na areia.
— Você acha que eles precisam de água? — Ele perguntou.
Selethen virou o seu olhar para o jovem. Seu rosto estava muito sério quando ele respondeu.
— No deserto, você sempre precisa de água — disse ele. — Um viajante sábio nunca deixa passar a oportunidade de encher seus cantis.
— Existe outro lugar eles poderiam fazer isso? — Halt perguntou.
Selethen bateu outra marca na areia com sua adaga.
— Há os Poços Orr-San — disse ele. — Eles são menores e não tão confiáveis. E estão quarenta quilômetros mais a oeste. Se os tualaghi estão indo para onde acho que estão, eles estão muito longe de seu curso.
— Onde você acha que eles estão indo? — Halt o perguntou.
Para a maior parte, os outros estavam contentes em deixá-lo falar.
— Aqui. — A faca riscou novamente. — Para o norte. O maciço do Norte está aqui.
Ele raspou uma linha de leste a oeste.
— Há montanhas, morros, cavernas e penhascos. E várias cidades que eles podem usar como base.
Halt franziu a testa.
— Eu pensei que você disse que os tualaghi eram nômades?
Selethen assentiu.
— Eles são. As cidades são cidades arridis, mas os tualaghi as capturam e as usam por um mês, seis semanas em um momento. Então voltam para o deserto de novo, ou ainda para as colinas.
Halt coçou o queixo pensativo, estudando as marcas que Selethen tinha feito.
— Portanto, se você está certo e eles estão indo para esses poços, nós poderíamos simplesmente parar de seguir os tualaghi e atravessarmos em linha reta em direção a eles? Com alguma sorte, podemos estar à espera deles quando eles chegarem.
Selethen encontrou seu olhar, segurou-o e balançou a cabeça.
— É uma aposta, é claro — disse ele. — Mas eu não consigo pensar em nenhum outro lugar eles poderiam estar indo.
Halt hesitou. Ele olhou ao redor nos rostos de seus companheiros. Afinal, Erak era um amigo de todos eles e se seguissem o plano Selethen, arriscariam perdê-lo de vista.
Silenciosamente, um após o outro, todos eles concordaram com a cabeça. Ele olhou para Selethen.
— Vamos fazer isso — disse ele.

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