18 de dezembro de 2016

Capítulo 26

Eles tomaram um caminho tortuoso de Mountshannon. Halt não tinha certeza se Tennyson estava observando seus movimentos, mas se estivesse, o forasteiro teria visto eles partirem para o sudoeste. Depois de estar longe da aldeia, porém, eles seguiram uma série de estradas escondidas e trilhas menores que os levou em uma volta gigante, até que se dirigiam para leste, para Craikennis.
— Qual era o nome do homem que liderou o ataque falso?  Halt perguntou a Will em um momento.
— Driscoll  Will disse.
— Bem, nós precisamos ter certeza de que não corremos na direção dele e de seu grupo desalinhado. Mantenha seus olhos no chão para qualquer sinal de trilhas.
Will assentiu com a cabeça. Eles estavam conscientes de que Driscoll e seus trinta homens estavam indo na mesma direção que eles, indo se encontrar com Padraig e o grupo principal a poucos quilômetros de Craikennis. Mas à medida que o dia avançava no fim da tarde, eles não viram nenhum sinal deles. Halt assumiu que eles tinham tomado um caminho diferente.
Havia a luz da lua e eles continuaram cavalgando depois de escurecer. Para compensar o tempo que tinham perdido, tendo a sua rota inicial para o sudoeste, Halt os levou para fora da estrada e eles cortaram através do país indo diretamente para Craikennis.
Quando era cerca de nove da noite, eles viram as luzes da pequena cidade através dos campos. Os três viajantes aliviaram seus cavalos até parar e fizeram um balanço da situação. Eles estavam em uma posição ligeiramente elevada e podiam ver a estrada principal que conduzia para fora de Craikennis – a estrada que Padraig e seus homens deviam usar no dia seguinte. Não havia tráfego na estrada no momento, nenhum sinal do grupo fora da lei. Halt grunhiu de satisfação.
— Parece bastante tranquilo  disse ele. — Mas mantenham seus olhos e ouvidos abertos.
Ele tocou Abelard com o calcanhar e o pequeno cavalo trotou para frente. O trio atravessou mais dois campos, em seguida, cavalgaram para fora na estrada. Como em sua visita anterior, o posto de guarda estava tripulado por dois vigias. Halt esperava que eles encontrassem os guardas da sua visita anterior. Iria economizar tempo identificando-se. Mas, infelizmente, estes dois eram homens novos. Eles saíram para a rua, um deles segurando a mão no alto como um sinal para os três cavaleiros pararem.
— Idiotas  Halt murmurou para seus companheiros. — Se estivéssemos aqui para causar problemas, poderíamos simplesmente cavalgar para cima deles.
A sentinela que tinha sinalizado para eles pararem deu um passo à frente e olhou desconfiado para eles. Estes viajantes não eram viajantes de celeiros, pensou ele. Dois deles usavam capas com capuz manchadas, montavam pequenos cavalos peludos e levavam enormes arcos longos. O outro cavaleiro era mais alto, e montava um cavalo de batalha corpulento. Uma longa espada estava pendurada ao seu lado e havia um escudo redondo preso aos laços da garupa.
Estes homens eram guerreiros e a sentinela estava subitamente consciente do fato de que ele estava em desvantagem.
— O que vocês querem? — perguntou.
Sua incerteza tornou seu tom de voz abrupto e mais estridente do que ele esperava.
O líder dos três cavaleiros, o barbudo, inclinou-se e cruzou os braços sobre a sela.
— Não queremos te causar nenhum dano  disse ele.
A voz era calma e tranquilizadora. Mas isso não era garantia de que as palavras eram verdade.
— Não se aproxime!  a sentinela gritou.
Ele desejava que tivesse trazido a sua lança para fora do abrigo de proteção. Seu companheiro tinha uma lança, mas ele estava armado apenas com uma clava pesada e pouco longa.
— Não vamos  Halt disse-lhe, num tom razoável. — Estamos satisfeitos em permanecer aqui. Mas precisamos falar com seu comandante.
— O nosso... o quê?  o sentinela perguntou.
Ele não era um militar, Horace pensou.
Halt revisou o seu pedido.
— O chefe de sua aldeia. Ou o membro sênior da guarda. Precisamos falar com alguém em posição de autoridade.
A sentinela olhou-o desconfiado. Se ele mandasse Finneas, o outro guarda, buscar o chefe, ele seria deixado aqui enfrentando estes três sozinho. Ele não gostava da ideia. Mas pelo menos, se chamasse o chefe, poderia entregar o problema para outra pessoa, ele pensou. Ele hesitou, depois decidiu.
— O chefe está dormindo  disse ele, mesmo não sabendo se o homem estava ou não. — Volte amanhã.
— Desmontem, meninos  Halt disse e os três oscilaram para baixo da sela, apesar das ordens do guarda estridente.
— Não! Você fica onde está! Vire-se e vá embora, você me ouviu?
A voz da sentinela sumiu quando ele percebeu que os três estrangeiros não estavam ligando para ele. Seu líder falou novamente.
— Nós estamos colocando nossas armas para baixo.
Ele liderou o caminho, se deslocando para o lado da estrada, retirando seu arco e colocando-o à beira da grama. O jovem arqueiro seguiu o exemplo. O rapaz alto soltou a bainha de seu cinto e a espada de cavalaria longa se juntou aos dois arcos longos na grama. Isto feito, os três estranhos voltaram para a estrada, longe de suas armas.
— Pronto  disse Halt. — Agora, busque seu chefe ou o comandante da guarda.
Ele fez uma pausa de alguns segundos e acrescentou enfaticamente:
— Por favor.
Os dois guardas trocaram um olhar. Finneas levantou em um encolher de ombros. O desconhecido parecia confiável, ele pensou. Ele sentiu o que estava incomodando o seu amigo.
— Você busca Conal. Vou ficar de olho neles.
O homem mais velho soltou um suspiro de alívio involuntário. Qualquer coisa para ter esse problema fora de suas mãos. Ele chegou a uma decisão. Então pensou que seria melhor fazê-lo parecer como se esta fosse sua ideia e ele estava dando as ordens.
— Tudo bem. Você os mantém aqui. Vou pegar Conal.
Finneas olhou para ele e levantou uma sobrancelha. Ele não foi enganado pela forma de decisão fingida de seu companheiro.
— Sim, nós podemos fazê-lo dessa maneira ao invés do que eu falei  ele disse sarcasticamente.
— Podemos fazê-lo algum tempo antes do amanhecer?  Halt perguntou em um tom exasperado.
O guarda deu um passo em direção a ele, sua mão sobre a alça de sua maça.
— Eu vou quando estiver bem e pronto!  ele rosnou.
— Que é agora, certo?  Finneas atravessou ele.
O guarda sênior empertigou-se, tentando resgatar sua dignidade.
— Err... Sim. É agora.
Ele virou-se e correu em direção à vila. Ele olhou para trás várias vezes, mas os três estrangeiros não tinham movido, e Finneas ficou à vontade, encarando-os, apoiando-se casualmente em sua lança. Ele virou-se e aumentou o seu ritmo um pouco, até que estava quase correndo.


Quinze minutos depois, ele retornou com Conal. Halt estava discretamente satisfeito por ver que Conal, que acabava por ser o guarda-sênior, era o mesmo homem que ele e Horace tinham falado várias noites antes. O homem tinha lhe parecido sensato e razoável. Ele seria, sem dúvida mais fácil de lidar do que o guarda em pânico que tinha ido buscá-lo.
Isso não dizia que Conal não via os três viajantes com suspeita. Halt notou que ele tinha tomado a precaução de se armar. Ele usava uma espada e um punhal longo de seu cinto. Quando ele se aproximou, o guarda disparou nervoso para o abrigo para buscar sua lança.
Conal olhou para Finneas, em seguida, as três figuras em pé por seus cavalos na estrada.
— Bem, Finneas, o que temos aqui?  ele perguntou.
Finneas estava em pé diante deles, a sua lança à terra, ao lado de seus pés. Ele tocou a cabeça da lança levemente a testa na saudação.
— Três viajantes, a sua honra  disse ele, sorrindo. — Eles não me deram nenhum problema.
Conal olhou mais de perto para Halt e Horace.
— Eu conheço vocês dois  disse ele e Halt assentiu.
Em seguida, o comandante deslocou seu olhar para Will, franzindo a testa.
— E você? Você não estava aqui na outra noite também?
O jovem parecia familiar, pensou ele, mas ele não conseguia lembrar dele.
— Ele é o cantor, Conal  Finneas acrescentou e Conal acenou com a cabeça lentamente quando o reconhecimento ocorreu.
— É claro  disse ele lentamente. — Mas você não estava usando aquela capa. Ou carregando aquele arco. O que você está fazendo?
A pergunta foi feita para todos os três quando o olhar dele passou de um para o outro. Havia algo suspeito aqui e nestes tempos, as suspeitas não eram para ser desconsideradas. Sua mão caiu no punho da sua espada. Então ele percebeu que as armas do trio estavam colocadas ao lado da estrada e ele relaxou um pouco. Só um pouco. Ele olhou para Halt.
— Acho que você não é um pastor procurando por novos reprodutores.
O homem de barba assentiu.
— Não. Você está certo sobre isso.
— Então você mentiu para mim naquela noite. Por quê?
O desafio era rude e intransigente. Halt parecia não ter tomado nenhuma ofensa ao ser chamado de mentiroso. Ele respondeu em tom calmo e razoável.
— Não tínhamos certeza de onde estávamos entrando  disse ele. — Estes são tempos difíceis, como você bem pode saber.
— Sim, e eles não são ajudados por pessoas escondidas por aí dizendo ser o que não são — Conal respondeu com um pouco de calor.
Ele podia ouvir um farfalhar de movimento por trás dele. Olhou rapidamente por cima do ombro e descontraiu um pouco quando outra dúzia de membros da guarda vinha correndo no meio da rua elevada. Quando ele foi alertado para a presença de três estranhos no posto de guarda, Conal enviou seu filho para despertar um pelotão da guarda da cidade, dizendo-lhes para se armarem e se juntarem a ele. Agora eles haviam chegado e ele sentiu um pouco mais no controle da situação. Os números estavam confortavelmente ao seu lado.
Horace suspirou. Ele era uma pessoa direta e esta conversa vaga estava começando a irritá-lo. Ele e seus amigos estavam aqui para ajudar o povo de Craikennis, não para ficar de conversa fiada na rua no meio da noite. Conal ouviu a exclamação leve e se virou para ele.
— Alguma coisa a dizer, menino?  ele exigiu.
A sobrancelha de Halt subiu.
— Eu não usaria palavra “menino” ao se dirigir a ele se eu fosse você — falou em advertência.
Mas Conal ignorou-o e Horace já estava respondendo.
— Sim. Eu tenho algo a dizer. Meus amigos e eu estamos aqui para ajudá-lo. Se você vai nos manter aqui de pé por muito mais tempo, enquanto joga acusações e insultos, vamos montar e deixar-lhe aos bandidos.
Ele era extremamente autoconfiante para alguém tão jovem, Conal pensou, sua testa franzindo a última palavra.
— Bandidos? Que bandidos seriam esses?
— Há oitenta deles vindo por esse caminho. Eles estão planejando atacá-lo amanhã e destruir sua aldeia. Nós viemos para avisá-lo e lhe oferecer a nossa ajuda. Mas se você preferir, pode voltar para a cama e vamos apenas continuar cavalgando. Realmente não é a nossa pele ou nosso nariz.
Halt olhou de soslaio para Horace. O rosto do rapaz estava corado com aborrecimento.
— Eu acho que é “deixar o nariz de fora do assunto”  ele apontou.
Horace olhou rapidamente para ele.
— Tanto faz. Ele pegou o meu significado.
E Conal pegou. Até agora, Craikennis tinha permanecido intocada. Mas havia bandidos e ladrões furiosos andando no sul de Clonmel, e os problemas estavam gradualmente se espalhando para o norte, como uma mancha escura de tinta derramada avançando sobre um mapa.
— Como eu sei que vocês não estão com eles?  ele perguntou e imediatamente lamentou a questão.
Se fossem, eles nunca iriam admitir isso e perguntar só tinha mostrado a sua indecisão.
— Quem são vocês, afinal?  ele acrescentou com raiva, tentando cobrir o erro.
— Nós somos arqueiros do reino de Araluen  Halt disse ele, indicando ele e Will. — E este alto, e bastante agravado rapaz ao meu lado é um cavaleiro da corte de Araluen.
Conal franziu a testa. Ele não tinha ideia do que arqueiros podiam ser. Ele supôs que deviam ser mateiros ou batedores. Mas sabia o que era um cavaleiro e o alto estranho, apesar da sua juventude, tinha o aspecto de um guerreiro.
— O rei de Araluen não tem autoridade aqui. Rei Ferris governa – em uma maneira de falar — disse Conal a eles.
Interessante, Will pensou. Havia uma pitada de desgosto na voz de Conal quando ele falava do rei. Ele olhou para Halt para ver se seu mentor tinha notado isso. Mas a face de Halt era uma máscara em branco.
— No entanto, somos todos guerreiros treinados e isso pode ser útil  disse Halt.
Conal coçou a orelha, inspecionou as unhas e depois respondeu.
— Exatamente. E eu estou pensando que se há um ataque vindo, talvez não seja o mais sábio mover-se para deixar três homens armados entrarem na aldeia.
— Então não deixe  disse Halt imediatamente. — Nós vamos acampar nas árvores ali. Se não houver nenhum ataque amanhã, vamos continuar o nosso caminho. Se existir, você pode ser feliz com um pouco de apoio.
— E quanto uso três homens vão ter contra oitenta?  Conal perguntou.
Ele fez isso para ganhar mais tempo do que qualquer outra coisa. Ele podia ver que não havia nenhum perigo real se estes três estavam contentes em esperar fora das barricadas construídas às pressas da aldeia.
— Isso depende dos três  disse o terceiro membro do grupo, o que se passou como um menestrel algumas noites atrás.
O barbudo virou-se para sorrir para ele.
— Bem dito, Will  ele disse calmamente. Então, para Conal: — Por menos ajuda que nós podemos fornecer, vai ser mais do que nada. Meu objetivo principal é ter certeza de que você tenha suas defesas prontas, os seus homens armados e advertidos. Os bandidos vão tentar surpreendê-lo. Se os encontrarem prontos e esperando, podem perder um pouco da iniciativa.
Conal considerou o ponto e balançou a cabeça lentamente.
— Sim, isso faz sentido  disse ele. — Vou ter os homens vigiando na madrugada. Fazemos isso todos os dias.
Halt sorriu sombriamente.
— Então, faça isso amanhã. Mas as chances são de que eles não vão atacar em seguida. — Ele sorriu. — O inimigo espera que você esteja pronto durante a madrugada. A maioria dos lugares “aguenta até o amanhecer”, como você colocou. Meu palpite é que eles vão esperar você baixar a guarda, quando não acontecer nada. Se eu fosse eles, eu os atacaria ao meio-dia, quando as pessoas estão relaxando, cansadas do trabalho da manhã e procurando a sua refeição do meio-dia.
Conal considerou o homem barbudo. Ele era pequeno para um guerreiro, pensou o hiberniano. Mas carregava um ar de confiança e autoridade. De repente, ele pensou que se houvesse uma briga, ele preferia lutar com este homem que contra ele.
— Bom conselho  disse ele. — Eu vou ter certeza de que todos estão prontos. Onde você estará?
Halt apontou para a floresta ao norte de Craikennis.
— Nós vamos dormir lá entre as árvores. Então vamos tomar uma posição sobre essa colina fora da linha delas.
Conal se adiantou e ofereceu sua mão para Halt. Ele estava um pouco embaraçado, sabendo que este homem tinha vindo avisar a aldeia e, até agora, tinha sido tratado com suspeita e desconfiança.
— Devo-lhe um obrigado — disse ele.
Halt pegou sua mão.
— Agradeça a mim amanhã, se todos nós ainda estivermos aqui — respondeu.
Então ele e seus dois companheiros recuperaram as suas armas da grama, montaram em seus cavalos e se afastaram para os campos para o norte.
Eles passaram de uma centena de metros, ou algo assim, quando Horace levou Kicker ao lado de Abelard.
— Halt?  ele disse e o arqueiro olhou para ele.
— Alguma coisa te incomoda?
— Sim. Acabei de perceber, deixamos todo nosso equipamento de acampar em Mountshannon  disse Horace.
Halt soltou um suspiro profundo.
— Sim. Lembrei-me disso também, só depois que eu disse a ele que iríamos acampar nas árvores.
Horace olhou para o céu acima deles. Havia nuvens escuras correndo através dele, apagando as estrelas que passavam.
— Você acha que vai chover hoje?  disse ele.
— Provavelmente  Halt respondeu melancolicamente.

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