29 de dezembro de 2016

Capítulo 14

Halt saltou para sela de Abelard enquanto Horace ainda se mostrava indeciso, sem certeza do que fazer.
― Suba logo! — Halt gritou. ― Eles estão vindo.
Na mesma hora, Will chegou de volta ao cercado.
― Eles estão vindo, Halt — falou desnecessariamente.
Havia uma nota de tensão em sua voz e o tom era um pouco mais alto do que o normal.
― Monte no seu cavalo. Uma vez que os touros estiverem correndo, nós vamos conduzi-los — Halt lhe falou. Então ele se voltou para Horace. ― Faça-os se mover, Horace!
Horace finalmente estava reanimado para fazer alguma ação. Ele deu um passo a frente e levantou sua capa enrolada, colocando-a exatamente entre os chifres do touro e atravessando sua face.
Então tudo parece acontecer muito rápido.
O touro guinchou de raiva, piscou três ou quatro vezes, então abaixou sua cabeça e investiu as patas rígidas contra seu atormentador. Ele acertou Horace com sua cabeça bem no meio de sua barriga e se levantou, lançou o azarado guerreiro vários metros, aterrissando pesadamente sobre suas costas com um baque enfadonho e um Ooooof! de fôlego escapado.
Por um momento, parecia que o touro poderia dar seguimento aproveitando sua vantagem. Mas então Kicker interferiu. Treinado por anos para proteger o seu mestre contra ataques em combates, o imenso cavalo de batalha se colocou entre Horace e o touro. O touro bufou um desafio, dando patadas no chão a sua frente, rasgando a grama e a terra, sacudindo sua cabeça em fúria.
Era muito para o Kicker. No mundo animal de Araluen, havia certa ordem de superioridade, e os cavalos de batalha cuidadosamente criados e treinados se classificavam muito acima do que um touro peludo do interior e de raça indefinida. O poderoso cavalo se elevou sobre suas patas traseiras e movimentou para frente, respondendo ao desafio, as patas dianteiras cortando o ar a sua frente.
Suas patas calçadas com ferro passavam na frente do rosto do touro e ele percebeu que fora superado. Berrando de frustração, ele se virou, tomando alguns passos preparando para se retirar.
Mas ele havia desafiado Kicker, o provocado ainda mais, e na cabeça do cavalo, aquele insulto deveria ser pago. Ele se arremessou para frente e rangeu seus grandes e fortes dentes para o touro, o pegando pelo traseiro e removendo um doloroso pedaço de carne e couro.
O touro uivou de dor, fúria e medo. Deu um coice para trás numa tentativa vã de acertar seu agressor. Mas Kicker foi treinado numa escola dura, e já havia recuado. Enquanto o touro ouvia suas patas de trás tocarem o chão de novo, Kicker deu uma pirueta e avançou para sua vez, batendo com força com suas patas traseiras no traseiro já machucado do touro.
Aquele foi o golpe final. Medo, dor e agora o impacto trovejante de um chute duplo. O touro berrou e foi embora, correndo pelo campo. Alarmados por seus gritos, o rebanho foi com ele, com os seus mugidos de pânico e o barulho trovejante de suas patas enchendo o ar.
― Vamos lá! — Halt gritou.
Ele impulsionou Abelard para frente para ir atrás do gado em disparada, batendo no último com seu arco. Will seguiu o exemplo, cavalgando do outro lado do rebanho para mantê-los juntos.
O primeiro dos scottis havia surgido das árvores para o terreno aberto quando o tumulto começou. Os scottis viram o conjunto apertado do gado correndo em sua direção. Uns poucos, mais rápidos do que os outros tentaram correr para o lado para escapar da investida. Halt os viu e freou Abelard, elevando-se nos estribos enquanto ele colocava uma flecha no arco e atirava, fazendo isso rapidamente mais três vezes.
Dois dos assaltantes caíram na grama. Do outro lado do rebanho, Will viu os movimentos de Halt e o copiou. Os scottis logo perceberam o perigo de correr para o lado. Ameaçados pela rajada de flechas, eles se amontoaram, incertos. Poucos segundos depois, o louco rebanho se chocou contra eles.
O impacto de chifres bruscos, afiados cascos fendidos e corpos de músculos duros mandaram os cavaleiros scottis girando e caindo como se fossem pinos de boliche. Enquanto eles caíam, a parte de trás do rebanho continuava a investir neles, machucando ainda mais aqueles que já estavam no chão.
Quando a fuga causada pelo pânico passou, pelo menos metade do grupo invasor estava caído, seriamente machucado no campo. O resto havia conseguido escapar para o ponto onde as árvores eram mais densas.
O rebanho que chegava às árvores virou para a direita e foi embora berrando calmamente. Halt colocou uma flecha preparada na corda de seu arco, com Abelard virado apenas pela metade para os assaltantes que os olhavam das árvores.
A sua volta, alguns sobreviventes estavam vagarosamente voltando mancando ou rastejando para seus companheiros. Praticamente ninguém do grupo de invasores havia escapado sem nenhum tipo de machucado. Três deles ainda estavam deitados imóveis, derrubados pela flecha do arqueiro.
― Voltem para Picta! — Halt avisou a eles. ― Metade de seus homens estão mortos ou seriamente machucados. Uma vez que o povo local souber disso, eles irão caçá-los. Agora vão embora daqui.
O líder do grupo invasor estava caído morto no chão, pisoteado por meia dúzia do rebanho depois que ele foi jogado de seus pés. Seu segundo em comando encarava a figura sinistra sobre seu cavalo desgrenhado. Enquanto ele observava, um segundo cavaleiro cinza camuflado subiu ao seu lado, com seu longo arco os ameaçando também.
Os scottis sabiam que o sucesso de um grupo como o seu dependia da velocidade e da surpresa. Atacar rapidamente. Queimar, matar e fazer o gado correr. Então voltar para o outro lado da fronteira antes que os inimigos pudessem se organizar. Antes mesmo que eles soubessem que havia um grupo de assaltantes na área.
A velocidade e a surpresa já eram. E uma vez que os araluenses locais soubessem de sua presença, seus homens seriam alvos fáceis enquanto mancavam e cuidavam de seus feridos e carregavam outros de volta para a Passagem do Corvo. O pensamento de abandonar seus homens feridos nunca passou pela cabeça deles. Esse não era o estilo dos scottis.
E mais, ele viu a precisão e a velocidade de dois arqueiros que o encaravam agora. Se eles começassem a atirar, ele poderia perder mais meia dúzia de homens em questão de segundos. Balançando sua cabeça em frustração e desespero, ele fez um sinal para seus homens e eles viraram e tomaram seu doloroso rumo para o norte.
Will deixou escapar um suspiro bem profundo e relaxou em sua sela.
― Bem pensado Halt — ele disse. ― Aquilo certamente funcionou como um feitiço.
Halt se encolheu timidamente.
― Oh, não é nada se você sabe como fazer — ele disse. ― Parece que temos companhia — ele acrescentou, apontando com a cabeça pela fazenda, onde Horace estava encostado com dor em Kicker, suas mãos segurando suas costelas.
Atrás da casa, várias figuras estavam visíveis entres as densas árvores. Enquanto Halt e Will os observavam, eles tomaram seus caminhos de volta por entre os edifícios da fazenda.
― Eles deviam estar escondidos nos assistindo — Will disse.
Halt concordou severamente.
― Sim. Muito gentil da parte deles nos dar uma mãozinha, não?
Ele tocou Abelard com os calcanhares e começou a ir vagarosamente para o cercado. Puxão, sentindo o movimento enquanto seu dono enrijecia os músculos, seguiu Abelard alguns passos atrás.
Horace balançou a cabeça os cumprimentando enquanto eles desmontavam. Will franziu um pouco o cenho. Seu amigo ainda estava segurando as costelas e parecia estar tendo problemas para respirar sem sentir dor.
― Você está bem?
Horace agitou seu machucado de lado, então estremeceu enquanto fazia isso.
― Contusões — ele disse. ― Isso é tudo. Aquele pequeno touro certamente sabia como usar sua cabeça.
As pessoas da fazenda os alcançaram e Halt os saudou.
― Sua fazenda está a salvo — ele disse. ― Eles não voltarão por um tempo. — Ele não conseguia evitar uma pequena nota de satisfação em sua voz.
Havia cinco pessoas. Um velho e uma mulher, com seus cinquenta anos, Will julgou. Então um jovem casal com seus trinta anos e um garoto com aproximadamente dez.
Avós, pais e filho, ele pensou. Três gerações.
O velho falou agora.
― O rebanho todo foi embora. Você os enxotou! — Ele disse acusando-o.
Will levantou uma sobrancelha.
― Isso é verdade — Halt disse racionalmente. ― Mas você será capaz de pegá-los de volta. Eles pararão de correr logo.
― Levará dias para juntá-los — disse o fazendeiro tristemente.
Halt respirou fundo. Will o conhecia por anos. Ele sabia que Halt estava fazendo um enorme esforço para manter seu temperamento controlado.
― Provavelmente — ele concordou. ― Mas pelo menos você não terá de reconstruir sua casa nesse meio tempo.
― Humf — o fazendeiro bufou. ― Isso também. Nós vamos ficar dias juntando as vacas de novo. Elas estarão por toda a floresta.
― Isso é melhor do que estarem na barriga dos scottis — Halt respondeu.
Seu limite se tornando menor e menor.
― E quem vai ordenhá-las enquanto elas estão na floresta, hein? — Era o jovem que estava falando. Apesar de sua idade, ele parecia igualmente triste como seus companheiros mais velhos. ― Elas precisam ser ordenhadas todos os dias, senão ficarão secas.
― É claro que isso pode acontecer — Halt disse. ― Melhor vacas secas do que ficar sem vacas, certamente.
― Isso é uma questão de opinião — disse o avô. ― Imagine, se tivéssemos a ajuda de alguns homens a cavalo para encontrá-las, terminaríamos isso rapidamente.
― Homens a cavalo? — Halt disse. ― Você quer dizer nós? — Ele se virou para Will e Horace desacreditado. ― Ele quer. Ele quer dizer nós.
O fazendeiro estava meneando a cabeça.
― Claro. Afinal, vocês foram quem as enxotou em primeiro lugar. Se não fosse por vocês, elas estariam aqui ainda.
― Se não fosse por nós — Halt lhe falou ― elas estariam na metade do caminho para Picta agora!
Ele olhou para Will e Horace e percebeu que os dois estavam escondendo sorrisos. Era muito óbvio na verdade. Parecia que eles estavam fazendo um bom trabalho para que ele percebesse que eles estavam realmente escondendo os sorrisos.
― Eu não acredito nisso — falou a eles. ― Eu não espero exatamente gratidão. Mas ser culpado pelos problemas desse homem é um pouco demais.
Então ele pensou sobre o que tinha acabado de dizer.
― Não. Mude isso. Eu realmente espero gratidão, droga!
Ele se virou para o fazendeiro.
― Senhor — ele disse severamente ― é graças ao nosso esforço que o senhor ainda tem a sua casa, o seu celeiro e seu gado. É graças a nós que suas vacas estão seguras, se elas estão espalhadas. Durante o curso de salvar sua propriedade, meu companheiro aqui sofreu um ataque covarde de seu pequeno touro rancoroso. Agora o senhor pode ter a educação de dizer obrigado. Ou eu pedirei para meus amigos colocarem fogo na sua casa antes de seguirmos nossos caminhos.
O fazendeiro o fitou com teimosia.
― Apenas uma palavra — Halt disse. ― Obrigado.
― Bem, então... — o fazendeiro hesitou, se mexendo pesadamente de um lado para o outro. Ele pensou em Horace e no touro. ― Obrigado... Eu acho.
― O prazer foi nosso — Halt cuspiu as palavras nele, então virou Abelard para o oeste. ― Horace, Will, vamos lá.
Eles estavam na metade do campo quando eles ouviram o fazendeiro adicionar:
― Mas eu não vejo porque vocês tiveram que enxotar o gado.
Will sorriu da figura ereta do arqueiro ao seu lado. Halt estava obviamente fingindo que não tinha ouvido as palavras de despedida do fazendeiro.
― Halt? — ele disse. ― Você não iria realmente queimar a casa, iria?
Halt lhe deu uma olhada triste.
― Não aposte nisso.

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Era só falar que aquele era Will Tratado, pronto.

      Excluir
  2. Será que Halt iria ter coragem de queimar a casa?
    Ass:Bina.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu teria !!!
      gente mal agradecida,
      mal educada ¬¬

      Excluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)