29 de dezembro de 2016

Capítulo 13

Eles fizeram um desvio para circundar o acampamento dos scottis. Quando Will julgou que estavam seguros, voltaram ao caminho novamente. As árvores começaram a rarear nos últimos cem metros, até que chegaram a uma pequena clareira.
Havia uma casa de fazenda e um grande celeiro no outro lado, situado no meio de um bosque de árvores mais grossas. Um fio de fumaça subia da chaminé da casa. Entre a casa e o celeiro, havia um cercado onde se podia-se ver formas marrom-escuras se movendo lentamente.
― É disso que eles vieram atrás — Halt disse. ― O gado. Deve haver vinte cabeças ou mais naquele cercado.
Horace farejou um cheiro agradável de fumaça de madeira queimada que vinha da chaminé.
— Espero que eles estejam cozinhando alguma coisa — disse. ― Estou com fome.
― Quem disse isso? — Will perguntou fingindo surpresa e olhando ao redor em todas as direções. Então ele fingiu relaxar. ― Ah, é você, Horace. Eu não o vi por causa da capa.
Horace devolveu a Will um olhar de sofrimento.
― Will, já não foi engraçado nas primeiras meia dúzia de vezes que você falou isso, por que acha que seria agora?
E para desgosto de Will, Halt soltou um curto riso pela resposta de Horace. Então voltaram ao assunto novamente.
― Onde será que todos estão?
Nessa hora do dia – no meio da tarde – seria de esperar que as pessoas estivessem trabalhando em torno da fazenda. Mas não havia ninguém à vista.
― Talvez eles estejam dormindo — sugeriu Horace.
Halt olhou de soslaio para ele.
― Os agricultores não tiram um cochilo — disse ele. ― Cavaleiros sim.
― Então é daí que vem a expressão “um bom sono de cavaleiro” — Will disse sorrindo de sua piada.
Halt lançou um olhar maligno sobre ele.
― Horace está certo. Você não é nada engraçado. Venha.
Ele abriu caminho através do pequeno campo. Horace observou que ambos os seus companheiros já tinham seus longos arcos a mão, descansando atrás de suas selas. E as abas de suas capas que protegiam suas aljavas da umidade foram dobradas para trás.
Ele tocou o punho da espada com a mão direita. Por um momento, considerou pegar o escudo que estava pendurado atrás dele, do lado esquerdo da sela. Logo deixou de lado essa ideia. Estavam agora quase chegando na casa.
O telhado de palha era inclinado para baixo, formando um pequeno pórtico ao lado da casa, de onde eles estavam vindo. Halt puxou as rédeas e inclinou-se na sela para olhar sob a borda do telhado.
― Ô de casa — experimentou chamar.
Mas não houve resposta.
Ele olhou para seus companheiros e sinalizou para que desmontassem. Normalmente, um cavaleiro chegando em uma fazenda não faria isso sem um convite, mas parecia que ninguém iria recepcioná-los.
Horace e Will seguiram Halt enquanto ele caminhava até a porta. Ele bateu com os nós dos dedos na porta pintada e ela balançou entreaberta sob o impacto, com o couro das dobradiças rangendo.
― Alguém em casa? — ele chamou.
― Aparentemente não — Will falou após alguns segundos de silêncio.
― Ninguém em casa e a porta destrancada — disse Halt. ― Muito curioso.
Ele foi entrando na pequena casa de fazenda. Eles se encontravam em pé em uma pequena cozinha conjugada a uma sala de estar. Era equipada com uma mesa de madeira bruta e várias cadeiras de madeira entalhada – obviamente feitas em casa. Uma panela pendia em um braço giratório ao lado da lareira. O fogo ainda ardia, mas estava apenas em brasas. Fazia algum tempo que havia sido colocada alguma madeira naquela fogueira.
Dois outros cômodos davam naquela grande sala central e uma pequena escada ao lado conduzia a um sótão abaixo do telhado de palha. Will subiu a escada e olhou ao redor, enquanto Horace verificou os outros quartos.
― Nada — relatou Will.
Horace concordou.
― Nada em nenhum lugar. Onde eles podem ter ido?
Era evidente que, a partir da condição da casa, do fogo, dos utensílios domésticos, inclusive de alguns pratos e talheres sobre a mesa, a casa havia sido habitada até recentemente. Não havia sinal de luta, nenhum estrago aparente. O chão tinha sido varrido e a vassoura repousava ao lado da porta. Halt passou o dedo sobre uma estante ao lado da lareira, onde os utensílios de cozinha estavam dispostos. Ele inspecionou a ponta do dedo procurando sinais de sujeira, mas não havia nenhuma.
― Eles fugiram — disse Halt. ― Devem ter sido avisados que os scottis estavam chegando e foram embora.
― E deixariam tudo aqui? — Horace perguntou, acenando com o braço ao redor da sala.
Halt encolheu os ombros.
― Bem, na verdade não há muita coisa aqui. E se você observar, não há capas ou casacos ali ao lado da porta, só aquele cabide vazio.
Ele indicou uma fileira de pinos suspensos na parede ao lado da porta de entrada – seria o local onde pendurariam seus casacos ao entrar na casa. Ou onde os pegariam se estivessem saindo, Will percebeu.
― Mas por que deixar o gado para os scottis? — Horace perguntou.
― Eles não podiam levá-los junto, não é? — Halt respondeu.
Ele foi até a porta e saiu.
Horace e Will, o seguiram até o pátio cercado com o gado.
― Eles tentaram expulsá-los — disse indicando o portão do cercado que estava aberto. ― O comedouro ainda tem alimento e também há água. Acho que quando as pessoas se foram, o gado que estava vagando por aí, simplesmente voltou.
As vacas os olhavam pacificamente. A maioria delas estava ocupada mastigando e parecia completamente calmas com a presença deles ali. Eram animais encorpados e sólidos, com pelos felpudos para protegê-los dos meses de inverno do norte. E acima de tudo, eram animais mansos.
― Talvez pensaram que se os scottis ficassem com o gado, não se dariam ao trabalho de queimar a casa e o celeiro — Will sugeriu.
Halt levantou uma sobrancelha.
― Talvez. Mas não ia ser trabalho nenhum. Queimar a casa e o celeiro seria uma diversão para os scottis.
― Então o que faremos? — Horace perguntou. ― Simplesmente vamos embora? Afinal, agora o agricultor e sua família vão estar a salvo dos invasores.
― Verdade — disse Halt. ― Mas se o gado se for, e se a casa e o celeiro forem perdidos e a plantação for queimada, provavelmente no inverno vão morrer de fome.
― Então o que você sugere que façamos, Halt? — Will perguntou.
Halt hesitou. Ele parecia estar considerando um plano de ação. Então disse:
― Eu acho que devemos dar-lhes o gado.
Will ficou observando seu mentor, querendo saber se estava brincando com ele.
― Se era para fazer isso, então porque nos incomodamos em voltar aqui? — ele perguntou. ― Nós podíamos ter continuado a seguir Tennyson.
Então, notou que Halt estava com um sorriso cruel em seu rosto.
― Quando digo dar-lhes o gado, não me refiro como um presente. Vamos jogar o gado bem na cara deles.
Will e Horace começaram a entender a situação. Will estava preste a dizer algo mais, quando Halt o deteve e apontou para o outro lado da clareira.
― Volte lá e vigie. Eu quero saber quando eles estiverem chegando. Quando aparecerem na clareira, vamos estourar a boiada em cima deles.
Will assentiu com a cabeça, um sorriso aparecendo em seu rosto conforme imaginou a surpresa que os scottis teriam. Ele pulou para a sela de Puxão e galopou para o outro lado da clareira, depois entrou uns trinta ou quarenta metros para dentro da linha das árvores.
As árvores aqui eram mais espaçadas do que dentro da floresta, observou ele. E os troncos eram mais finos e pequenos. Provavelmente foi uma área explorada ao longo dos anos, proporcionando madeira para construção e lenha para o fogo. As mudas espaçadas dariam pouco abrigo aos scottis contra um rebanho de gado enlouquecido.
Ele encontrou um arbusto grande entre duas mudas, colocou Puxão atrás dele e desmontou. Olhou para trás rapidamente na direção da fazenda, podia ver as duas figuras distantes de seus dois amigos, de pé ao lado do cercado do gado. Ocorreu-lhe que não tinha ideia de como provocar um estouro de um rebanho de gado. Mas deu de ombros para esse fato, com certeza Halt saberia. Afinal, não havia nada que Halt não soubesse.


― Como vamos espantar o gado? — Horace perguntou.
― Você os assusta. Grita com eles. Depois vamos montar e guiá-los direto para os scottis quando despontarem na clareira — disse-lhe Halt.
Ele caminhava entre o rebanho, que o observava sem curiosidade. Empurrou um deles. Era como se encostasse ao lado de uma casa e tentasse mexê-la, ele pensou. Acenou com os braços experimentalmente.
― Xô! — disse.
Uma vaca quebrou o silêncio com um pum ruidoso, mas não se moveu.
― Certamente estão apavoradas com você — disse Horace sorrindo.
Halt olhou para ele.
― Talvez se você arrancasse sua capa, elas poderiam se assustar com sua cara feia — sugeriu ele com azedume.
Horace abriu um largo sorriso. Ele de fato tirou a capa, mas não pareceu ter efeito sobre o rebanho. Uma ou outra vaca virou para olhá-lo. Várias outras peidaram.
― Elas fazem muito isso, não é? — observou ele. ― Talvez se nós conseguíssemos apontar todas de uma vez para os scottis, poderíamos explodi-los de volta pelo caminho.
Halt fez um gesto impaciente.
― Vamos em frente com isso. Afinal, você foi criado em uma fazenda.
Horace balançou a cabeça.
― Eu não fui criado em uma fazenda. Fui criado num castelo em Redmont — disse ele. ― Você foi um príncipe hiberniano. Vocês não tinham rebanhos de gado?
― Nós tínhamos. Mas também tínhamos grandes idiotas como você para cuidar deles. — Ele franziu a testa pensativo. ― O touro é a chave. Se espantarmos o touro, as vacas irão segui-lo.
Horace olhou ao redor do pequeno rebanho.
― Qual deles é o touro?
As sobrancelhas de Halt subiram imediatamente – uma rara expressão de emoção do arqueiro.
― Você realmente cresceu no castelo, não foi? — Então ele apontou. ― Aquele é o touro.
Horace olhou para o animal que Halt estava indicando. Seus olhos se arregalaram.
― Certamente que é — ele concordou. ― O que faremos com ele?
― Assustá-lo. Aborrecê-lo. Espantá-lo — disse Halt.
Horace parecia em dúvida.
― Eu não estou certo se quero fazer isso.
Halt bufou de desgosto.
― Não seja tolo! — disse. ― Afinal, o que ele pode fazer com você?
Horace considerou o touro de um jeito desconfiado. Ele não era tão grande quanto alguns touros que tinha visto nas pastagens em torno de Redmont. Mas era solidamente construído e bem musculoso. E ao contrário das vacas, ele não olhava para os dois estranhos com um olhar plácido e dócil. Horace acreditava que podia ver uma luz de desafio em seus pequenos olhos.
― Você quer dizer além de me chifrar? — ele perguntou e Halt acenou em protesto e desdém.
― Com esses pequenos chifres? Eles parecem mais dois galos saindo de testa dele.
Na verdade, embora os chifres não fossem tão grandes como as do gado de outras propriedades do norte, eles tinham um bom tamanho. As extremidades eram arredondadas e sólidas, em vez de pontiagudas. Mas ainda parecia que seriam capazes de machucar muito.
― Venha! — Halt pediu a ele. ― Tudo o que você tem a fazer é enrolar sua capa e bater na cara dele. Isso deve aborrecê-lo.
― Eu já disse, não quero mexer com ele — Horace protestou.
― Pelo amor de Deus! Você é o famoso Guerreiro da Folha de Carvalho! Você é o matador do maligno Morgarath! O vencedor de uma dúzia de duelos! — Halt disse.
― Nenhuma daquelas batalhas eram contra touros — Horace lembrou Halt.
Ele definitivamente não gostou do que viu no olhar do touro, pensou.
― Você acha que depois disso todos os touros do norte vão querer enfrentá-lo? — Halt perguntou. ― Acerte-o com sua capa e ele vai fugir. E as vacas vão atrás dele.
Mas antes que Horace pudesse responder, ouviram um assobio cortante. Olhando de volta para a clareira, eles podiam ver Will vindo na direção deles com Puxão trotando atrás. Mais adiante entre as árvores finas, podiam ver sinais de movimento.
Os scottis estavam chegando.

5 comentários:

  1. Acho que não é uma boa ideia espantar o touro desse jeito.

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  2. Boi, boi, boi da cara preta pega esse menino que tem medo de careta! kkkkkkkk. Amei Halt espantando o boi como se fosse uma galinha!
    Ass: Bina.

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Boa leitura :)