29 de dezembro de 2016

Capítulo 12

Halt e Will, inspecionando as pegadas deixadas por Tennyson e seus seguidores, perceberam a diferença de padrões quase simultaneamente.
― Halt... ― Will disse.
Mas seu antigo mentor já estava balançando a cabeça.
― Eu estou vendo.
Ele freou Abelard. Will e Horace pararam também e os dois arqueiros desmontaram para estudar a evidência dos recém-chegados. Horace, sentindo certa tensão no ar, soltou subconscientemente sua espada da bainha. Ele estava estourando para questionar os arqueiros, mas sabia que qualquer distração não seria bem-vinda. Eles iriam informá-lo quando avaliassem a situação, ele sabia.
Will olhou para trás na trilha. Havia um pequeno desfiladeiro no lado esquerdo da passagem a poucos metros atrás – uma fenda nas rochas que se juntava à principal rota para Araluen. Eles haviam montado de volta quase sem perceberem. Tinham visto muitas pegadas estreitas levando para fora do caminho principal. A maioria delas sumiu após vinte ou trinta metros terminando em paredes de pedra lisa.
Este outro era diferente. As pegadas vinham dele.
Will correu levemente para trás e desapareceu na fissura. Ele desapareceu por alguns minutos e então, para o alívio de Horace, reapareceu. O alto e jovem guerreiro estava inconformado assim tão de repente. Então foi Puxão, ele percebeu. O pequeno cavalo tinha se deslocado nervosamente e batido com seu casco quando seu mestre pareceu sumir dentro da rocha.
― Foi de lá que eles vieram ― Will disse pensativo, posicionando seu polegar na abertura da pedra. ― A trilha volta bastante. Eu fui quarenta ou cinquenta metros e não pareceu ter fim. E ela se alargava um pouco.
Halt coçou a barba pensativo.
― Há dezenas de trilhas que levam para a passagem principal ― ele disse. ― Essa é, obviamente, uma delas.
Ele olhou para o chão arranhado diante dele, virando sua boca pensativamente para um lado. Horace decidiu que seus companheiros tinham tido tempo suficiente pra avaliar a situação.
― Quem são eles? ― ele perguntou.
Halt não respondeu imediatamente. Ele olhou para Will.
― O que você diria?
Os dias seriam longos quando Will iria deixar escapar uma resposta considerável à pergunta de Halt. Melhor ser preciso do que rápido, ele sabia. Ele apoiou-se num joelho, tocando uma das pegadas com seu dedo indicador, traçando seu contorno na areia. Ele olhou para a esquerda e direita estudando o fraco contorno das outras pegadas.
― Todas as pegadas são grandes ― ele disse ― e estão bem profundas nessa superfície dura. Então quem quer que seja é realmente grande.
― Então? ― Halt solicitou.
― Então eles são todos homens. Não posso ver nenhuma pegada menor. Nenhuma mulher ou criança com eles. Eu diria que é um grupo de guerra.
― Seguindo Tennyson? ― Horace perguntou.
Sua mente estava retornando para a cena patética na cabana do arrendatário.
Will mordeu seu lábio pensativo. Ele olhou para Halt, mas o arqueiro mais velho fez um gesto para ele continuar com seu pensamento.
― Talvez ― ele disse. ― Eles vieram várias horas após Tennyson. Você pode ver onde suas pegadas se sobrepõem. E elas estão mais frescas. Eu diria que essas foram feitas mais cedo essa manhã.
― Bem, teremos esperanças de capturá-los ― Horace disse.
Para sua maneira de pensar, se um partido de guerra vingativo scotti dizimasse Tennyson e seus forasteiros, isto seria uma solução clara para toda a situação.
― Talvez ― Will repetiu. ― Mas... se eles estão perseguindo Tennyson, porque entraram na estrada principal aqui pelo leste? ― Ele indicou o caminho lateral novamente. ― Qualquer um seguindo Tennyson viria pela passagem atrás de nós – pelo norte.
― Talvez isto seja um atalho ― Horace sugeriu, mas Will já estava balançando a cabeça.
― Se você pudesse ver a maneira que ele serpenteia e vira lá, saberia que não é um tipo de atalho. Eu diria que se origina de outro lugar. Algum lugar mais ao leste.
Ele olhou para Halt por confirmação e o arqueiro barbudo assentiu.
― Eu concordo ― ele disse. ― Acho que é só coincidência que corremos através deles. As probabilidades são de que eles não têm ideia que Tennyson e seus capangas estão à frente deles.
― Eles não poderiam ver os rastros? ― Horace perguntou acenando vagamente para a superfície rochosa coberta por areia.
Halt permitiu a si mesmo um breve sorriso.
― Você poderia? ― ele perguntou.
Horace teve que admitir que se os dois arqueiros não estivessem lá para apontar as impressões na areia, ele provavelmente não teria. Ele balançou a cabeça.
― Os scottis não são bons em rastreamento ― Halt contou para ele.
Ele gesticulou para Will remontar e virou-se na cela de Abelard.
― Então, se os scottis não estão atrás de Tennyson, o que estão fazendo aqui? ― Horace perguntou.
― Meu palpite é que eles estão planejando um cerco em Araluen. Existem muitas aldeias junto à fronteira e eles podem estar se encaminhando para uma delas.
― E se eles estiverem? ― Will perguntou.
Halt encarou-o sem pestanejar.
― Se estiverem, nós teremos que desencorajá-los. O que poderia ser um incômodo.
As intenções do grupo scotti tornaram-se claras logo após eles emergirem da Passagem do Corvo em Araluen propriamente dita. O grupo de Tennyson virou ligeiramente para leste, mas basicamente continuaram seguindo uma rota ao sul. Os invasores scottis viraram quase que imediatamente para uma rota sudeste, levando a uma posição quase perpendicular em relação aos forasteiros.
Halt suspirou profundamente quando interpretou os sinais no chão. Ele olhou para o sudeste, hesitando, depois relutantemente voltou para Abelard para seguir os atacantes.
― Não podemos deixá-los à própria sorte ― ele disse. ― Teremos que cuidar para que eles voltem à trilha de Tennyson novamente.
― Os moradores locais não podem cuidar de si mesmos? ― Will perguntou.
Ele estava relutante em deixar Tennyson e seus seguidores apenas porque algumas vacas poderiam ser roubadas. Halt balançou a cabeça, cansado.
― Este é um grupo bastante grande, Will. Talvez quinze ou dezesseis homens armados. Eles vão escolher uma pequena fazenda com apenas dois ou três homens para defendê-la. Eles vão matar os homens, queimar as construções e plantações e levar o gado. E vão provavelmente levar as mulheres como escravas também, se estiverem de bom humor.
― E se não estiverem? ― Horace perguntou.
― Eles vão matá-las ― Halt disse friamente. ― Você quer deixar isto acontecer?
Os dois jovens homens balançaram a cabeça. Eles podiam ver a cena na cabana do fazendeiro como se fosse ontem.
― Vamos atrás deles ― Will disse com o rosto sombrio.
Montado como estavam, iam rapidamente ganhando terreno sobre os atacantes scottis. A paisagem deste lado da fronteira mudou drasticamente e eles estavam movendo-se através de terras com árvores densas.
Halt chamou Will ao lado dele.
― Vá à frente e olhe o caminho. Eu não quero alcançá-los sem perceber.
Will concordou compreendendo e levou Puxão à frente. Cavalo e cavaleiro desapareceram na bruma entre as árvores. Halt não tinha dúvidas sobre a habilidade de Will de acompanhar os scottis sem ser visto ou ouvido. Os dois – ele e Puxão – foram treinados para esta tarefa. Horace não tinha tanta certeza.
― Talvez nós devêssemos ir com ele ― ele falou alguns minutos após seu amigo desaparecer entre as árvores.
― Três de nós iríamos fazer quatro vezes mais barulho do que ele ― Halt disse.
Horace franziu a testa, sem entender a equação.
― Não seria três de nós fazer três vezes mais barulho?
Halt balançou a cabeça.
― Will e Puxão não farão qualquer ruído. Muito menos Abelard e eu. Mas do jeito que você se move nesse terremoto que chama de cavalo... ― Ele apontou para Kicker sem terminar a frase.
Horace estava subitamente ofendido com esse insulto ao seu fiel cavalo. Ele gostava muito de Kicker.
― Isto foi um pouco grosso, Halt! ― ele protestou. ― De qualquer maneira, não é culpa de Kicker. Ele não foi treinado para mover-se em silêncio... ― Ele calou-se, percebendo que só estava reforçando o que Halt disse.
O arqueiro alcançou seu olhar e inclinou a cabeça de forma significativa. Às vezes, Horace pensou, um simples olhar ou inclinação de cabeça pode transmitir mais sarcasmo que uma torrente de palavras.
Halt, compreendendo a preocupação com Will que estava por trás da sugestão de Horace, decidiu tranquilizá-lo. Mas não por alguns minutos, ele pensou. Estava divertindo-se pegando no pé do jovem guerreiro novamente. Isto é como nos velhos tempos, ele pensou. Depois ele fez uma careta. Estava ficando sentimental.
― Will sabe o que está fazendo ― ele contou a Horace. ― Não se preocupe com ele.
Uma hora depois, Abelard subitamente ergueu a cabeça e bufou. Alguns poucos segundos depois, Will e Puxão deslizaram fora da névoa. Mais uma vez, galopando na direção deles. Cavalos arqueiros são incrivelmente ágeis – Horace pensou. Os cascos de Puxão faziam o mínimo de barulho possível no chão macio. Will freou ao lado de Halt.
― Eles pararam ― Will falou. ― Estão acampados nas árvores a cerca de dois quilômetros à frente. Eles já comeram e a maioria deles está dormindo agora. Mas têm sentinelas, naturalmente.
Halt balançou a cabeça pensativo. Ele olhou para o sol.
― Eles vem viajando duro o dia inteiro ― ele disse. ― Vão provavelmente descansar por uma ou duas horas antes do ataque. Você viu sinal de alguma fazenda à frente?
Will balançou a cabeça.
― Eu não passei deles, Halt. Achei que seria melhor informá-lo do que está acontecendo primeiro ― ele disse desculpando-se.
Halt fez um rápido gesto com a mão, mostrando que não precisava desculpar-se.
― Não importa ― ele disse. ― Haverá uma fazenda próxima, e é pra lá que eles estão se dirigindo. Eles vão atacar mais tarde, quando o sol estiver quase se pondo.
― Como você tem certeza? ― Horace perguntou.
Halt virou-se para olhá-lo.
― Procedimento padrão ― ele disse. ― Eles vão ter luz suficiente para o ataque, mas os fazendeiros não serão capazes de vê-los claramente. E então estarão surpresos e confusos. E uma vez que tenham roubado o gado, a escuridão irá cobrir suas pegadas de algum rastreador. Eles terão a noite inteira para sua fuga.
― Isso faz sentido ― Horace observou.
― Eles tem isto como uma fina arte, acredite ― Halt contou para ele. ― Vêm praticando por centenas de anos.
― Então, o que nós vamos fazer Halt? ― Will perguntou.
O arqueiro de barba grisalha considerou-o por um momento depois disse, falando quase que com si mesmo:
― Não podemos pegá-los à distância neste país arborizado, da maneira que fizemos em Craikennis.
Em Hibernia, ele e Will tinham dizimado um ataque com seus tiros rápidos e de longa distância.
― E a última coisa que queremos é entrar em combate direto com eles. ― Ele olhou para Will. ― Quantos você contou?
― Dezessete ― o jovem arqueiro respondeu prontamente.
Essa era uma das respostas que ele sabia que Halt iria querer respondida.
Halt alisou a barba pensativo.
― Dezessete. E as chances são que haverá apenas dois ou três homens válidos no sentido de estarem preparados para defender a fazenda.
― Se ficarmos nas construções da fazenda, nós poderíamos segurá-los com bastante facilidade ― Horace sugeriu.
Halt encarou-o, concedendo o ponto.
― Isto é verdade, Horace. Mas se eles são teimosos e os scottis tendem a ser assim, poderíamos segurar por um dia ou mais. E todo esse tempo, Tennyson estará mais longe. Não ― ele disse, chegando a uma decisão. ― Eu não quero apenas segurá-los. Eu quero enviá-los numa embalagem.
Os dois jovens homens o assistiram esperançosamente, esperando ouvir o que ele tinha em mente. Após um rápido silencio, ele falou.
― Vamos ignorar o acampamento scotti e chegar à frente deles. Eu quero ver onde eles estão indo. Pode nos levar até eles, Will?
Will assentiu e virou Puxão para as árvores novamente. Halt o parou.
― Um momento.
Ele se virou na sela e remexeu em seus alforjes por alguns momentos, retirando uma peça de roupa dobrada em marrom e cinza. Ele passou para Horace.
― Você deve colocar isto, Horace. Vai ajudar a esconder você.
Horace pegou a roupa e desdobrou-a, revelando uma capa de camuflagem similar a que os arqueiros usavam.
― Pode ficar um pouco apertado. É uma reserva minha ― Halt explicou.
Horace balançou a capa ao redor dele deliciado. Mesmo que ela tenha sido feita para os pequenos quadris de Halt, as capas de arqueiro tinham o formato tão grande que lhe servia razoavelmente bem. Seria demasiado curto, claro, mas a cavalo não importava muito.
― Sempre quis uma dessas ― Horace disse, sorrindo na capa.
Ele puxou o capuz para sua cabeça, escondendo seu rosto nas sombras, e reuniu as pontas da capa camuflada em volta dele.
― Vocês ainda podem me ver? ― ele perguntou.

9 comentários:

  1. - Sempre quis uma dessas.
    -Vocês ainda podem me ver ? kkkkkkkkkkkkkkkkkkk Horace é demais

    ResponderExcluir
  2. kkkkkkkkk, Horace divando!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hahahhaha Ele é demais kkkkkk o mais engraçado.

      Excluir
    2. Não, o Halt é mais 😂😂

      Excluir
  3. Sinto em informar Horace, mas essa n eh a capa da invisibilidade

    ResponderExcluir
  4. Baixou o Harry Potter agora, com esse negócio de capa de invisibilidade. Horace parece uma criança que ganhou uma fantasia do super herói preferido hehehe. Cavaleiros são legais, mas arqueiros são lendários.

    ResponderExcluir
  5. Eu também queria uma dessa!!
    Uma pra mim Halt por favor ;P

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)