3 de junho de 2015

Um

Toda manhã eu acordo e digo a mim mesmo: É apenas um dia, um período de vinte e quatro horas para passar. Não sei quando exatamente eu comecei a me dar esse autoestímulo diário – ou por quê.
Parece um mantra dos doze passos, e eu não me ligo em nada desses Sei Lá o Quê Anônimos, apesar de que, ao ler parte das bobagens que eles escrevem sobre mim, alguém poderia pensar que eu deveria ligar. Muita gente venderia um rim só para poder experimentar um pouquinho do tipo de vida que tenho. Ainda assim, sinto necessidade de me lembrar da temporalidade de um dia, me assegurar de que passei pelo dia de ontem, que vou passar pelo dia de hoje.
Esta manhã, depois do meu cutucão diário, olhei para o relógio digital minimalista no criado-mudo do hotel. São onze e quarenta e sete, com certeza quase madrugada para mim. Mas a recepção já fez duas ligações para me acordar, seguidas de uma educada mas firme chamada de nosso empresário, Aldous. Hoje pode ser apenas um dia, mas está lotado de coisas.
Tenho estúdio marcado para fazer os acertos finais de guitarra da versão exclusiva para a internet do primeiro single do nosso recém-lançado CD. Que truque! Mesma música, novas guitarras, alguns efeitos no vocal, pague uma graninha extra por isso. “Nos dias de hoje você precisa fazer cada moeda render um dólar”, os chefões da gravadora adoram nos lembrar disso.
Depois do estúdio, tenho uma entrevista durante o almoço com uma repórter da Shuffle. Esses dois compromissos são meio que as bases do que se tornou minha vida: fazer música, o que eu gosto, e falar sobre música, o que eu abomino. No entanto, são os dois lados da mesma moeda. Quando Aldous liga pela segunda vez, eu finalmente empurro o edredom para longe e pego o frasco da mesinha. É um troço prescrito para ansiedade que preciso tomar quando fico agitado.
Agitado é como eu me sinto normalmente. Eu me acostumei a ficar agitado. Mas, desde que começamos nossa turnê com três shows no Madison Square Garden, tenho me sentido outra pessoa. Como se estivesse prestes a ser sugado por algo poderoso e doloroso. Vorticificado.
Existe essa palavra? Eu me pergunto.
Você está falando consigo mesmo, então quem liga? Eu respondo engolindo algumas pílulas. Visto a cueca e vou para a porta do quarto, onde um bule de café já está esperando. Foi deixado ali por um empregado do hotel, que sem dúvida recebeu instruções estritas para ficar fora da minha vista.
Termino o café, me visto e sigo para o elevador de serviço e para a entrada lateral – o gerente gentilmente me deu chaves de acesso especial para eu evitar o desfile de exibidos do saguão. Na calçada, sou atingido por um golpe do ar de Nova York. É meio opressor, mas gosto que o ar seja úmido. Me lembra do Oregon, onde a chuva cai sem parar, e, mesmo no dia mais quente de verão, nuvens carregadas flutuam no céu; suas sombras me lembram que o calor do verão é passageiro e que a chuva nunca está distante.
Em Los Angeles, onde moro agora, dificilmente chove. E o calor nunca termina. Mas é um calor seco. As pessoas usam essa aridez como desculpa para tudo. “Pode estar uns quarenta e dois graus hoje”, elas se vangloriam, “mas pelo menos é um calor seco”.
Nova York, por outro lado, tem um calor úmido; quando chego ao estúdio, a dez quarteirões, numa área afastada na West Fifties, meu cabelo, que mantenho escondido sob um boné, está úmido. Tiro um cigarro do bolso e minha mão treme quando eu acendo. Tive um leve tremor há mais ou menos um ano. Depois de várias consultas, os médicos disseram que não era nada além de nervosismo e me aconselharam a tentar ioga.
Quando chego ao estúdio, Aldous está esperando do lado de fora, debaixo do toldo. Ele olha para mim, para meu cigarro, de volta para meu rosto. Posso ver pela forma como está me olhando se precisa agir como o policial bonzinho ou o malvado. Eu devo estar péssimo, porque ele opta pelo policial bonzinho.
— Bom dia, Raio de Sol — ele diz jovialmente.
— É? O que tem de bom no dia? — Eu tento fazer soar como uma piada.
— Tecnicamente, já é de tarde agora. Estamos atrasados.
Eu apago o cigarro. Aldous coloca uma mão gigante no meu ombro, paradoxalmente gentil.
— Precisamos de um canal de guitarra em Sugar, só para dar um pouco a mais para que os fãs comprem tudo de novo — ele ri, balança a cabeça pelo que o negócio se tornou. — Depois você tem um almoço com a Shuffle, e temos um ensaio de fotos para aquele “troço” do Fashion Rocks para a Times com o resto da banda lá pelas cinco, mais tarde uns drinques com os caras da grana na gravadora, daí saio para o aeroporto. Amanhã você tem um encontro rápido com o pessoal da propaganda e do marketing. Apenas sorria e não fale muito. Depois disso, vai sozinho até Londres.
Sozinho? Tipo o oposto de estar no seio quente de uma família quando estamos todos juntos? Eu digo. Só que digo isso para mim mesmo. Cada vez mais parece que a maioria das conversas é comigo mesmo. Acho que provavelmente é uma boa coisa.
Só que desta vez eu realmente vou estar sozinho. Aldous e o resto da banda voam para a Inglaterra esta noite. Eu deveria estar no mesmo voo com eles até perceber que era sexta-feira 13, e eu disse, tipo, nem fodendo! Já estou apavorado o suficiente com esta turnê do jeito que está, então não vou surtar mais saindo no dia oficial da má sorte. Assim, fiz o Aldous marcar minha passagem para o dia seguinte. Vamos gravar um clipe em Londres e fazer muita divulgação antes de começar a turnê, então não é que eu vá perder um show; é só um encontro preliminar com o diretor do nosso clipe. Não preciso ouvir a visão artística dele. Quando começarmos a gravação, eu faço o que ele mandar.
Sigo Aldous até o estúdio e entro na sala de gravação, onde somos apenas eu e uma fileira de guitarras. Do outro lado do vidro estão nosso produtor, Stim, e os engenheiros de som. Aldous se junta a eles.
— Tá, Adam — diz Stim — mais um canal na ponte e no refrão. Só para ficar mais meloso. Vamos mexer nos vocais e na mixagem.
— Meloso. Entendi.
Coloco os fones e pego minha guitarra para afinar e me aquecer. Tento não notar que, apesar do que Aldous disse alguns minutos atrás, parece que eu já estou solitário. Eu sozinho numa cabine à prova de som. Não pense demais, digo a mim mesmo. É assim que você grava em um estúdio moderno. O único problema é que eu me senti igual há alguns anos no Garden. Lá no palco, na frente de dezoito mil fãs, ao lado das pessoas que havia muito tempo eram parte da minha família, eu me senti tão sozinho como nesta cabine.
Ainda assim, poderia ser pior. Começo a tocar e meus dedos se tornam mais ágeis. Eu me levanto do banquinho e bato e soco minha guitarra, até ela guinchar e gritar da forma como eu quero. Ou quase isso. Há provavelmente muito dinheiro em guitarras nesta sala, mas nenhuma delas soa tão bem quanto minha velha Les Paul Junior – a guitarra que tive por anos, com a qual gravei nossos primeiros CDs, aquela que, num surto de idiotice ou arrogância, ou sei lá o quê, eu permiti que fosse leiloada para caridade. As substitutas brilhantes, caras, nunca soaram ou pareceram exatamente certas.
Ainda assim, quando eu rasgo alto, consigo me perder por um segundo ou dois.
Mas tudo termina rápido demais, então Stim e os engenheiros me cumprimentam e me desejam sorte na turnê, e Aldous me conduz para fora e para uma limusine, e nós seguimos pelo SoHo, para um restaurante que os assessores de imprensa da nossa gravadora decidiram ser um bom lugar para nossa entrevista. Eles pensam que não serei capaz de gritar ou dizer algo que me queime se estiver num local público caro? Eu me lembro lá nos primeiros dias, quando os entrevistadores tinham blogs e eram fãs e queriam principalmente falar de rock – discutir a música – e queriam falar com todos nós juntos. Na maioria das vezes era uma conversa normal, com todo mundo falando ao mesmo tempo.
Naquele tempo eu não me preocupava em frear minhas palavras. Mas agora os repórteres entrevistam a mim e depois a banda separadamente, tentando fazer com que um denuncie o outro.
Preciso de um cigarro antes de entrar, então Aldous e eu ficamos do lado de fora do restaurante, no sol escaldante do meio-dia, enquanto uma multidão de pessoas se junta e olha para mim fingindo não olhar. É a diferença entre Nova York e o resto do mundo. As pessoas são tão loucas por celebridades quanto em qualquer lugar, mas os nova-iorquinos – ou pelo menos aqueles que se consideram sofisticados e caminham pelo quarteirão do SoHo em que estou parado agora – fingem que não ligam, mesmo olhando através de seus óculos escuros de trezentos dólares. Depois agem com indiferença quando alguém corre e pede um autógrafo, como duas garotas de moletom da U Michigan acabaram de fazer, para grande irritação de um trio de esnobes próximos, que viram as meninas e reviraram os olhos, me dando um olhar de solidariedade. Como se as meninas fossem o problema.
— Precisamos arrumar um disfarce melhor para você, Wilde Man — disse Aldous, depois que as meninas, rindo de empolgação, se afastaram.
Ele é o único que tem permissão para me chamar assim ainda. Antes costumava ser um apelido geral, uma brincadeira com meu sobrenome, Wilde. Mas em determinada ocasião eu detonei um quarto de hotel, e, depois disso, Wilde Man, “o homem selvagem”, virou um clichê inevitável dos tabloides.
Daí, como se aproveitasse a deixa, um fotógrafo aparece. Não se pode ficar parado na frente de um hotel de luxo que isso acontece.
— Adam! Bryn está lá dentro?
Uma foto minha com Bryn vale quatro vezes mais que uma minha sozinho. Mas, depois que o primeiro flash se apaga, Aldous coloca uma mão na frente da lente do cara e outra na frente do meu rosto.
Enquanto me conduz para dentro, ele vai me preparando.
— A repórter se chama Vanessa LeGrande. Ela não é um desses tipos pavorosos que você odeia. É jovem. Não mais jovem do que você, mas deve ter uns vinte e poucos, acho. Escrevia em um blog antes de ser contratada pela Shuffle.
— Que blog? — eu interrompo.
Aldous raramente me dá fichas detalhadas sobre os repórteres a não ser que haja uma razão.
— Não tenho certeza. Talvez Gabber.
— Ah, Al, é uma merda de um site de fofocas.
— A Shuffle não é um site de fofocas. E esta é a exclusiva para a capa.
— Ótimo. Que seja — eu digo, empurrando a porta do restaurante.
Dentro há mesas baixas de aço e vidro e banquinhos de couro, como um milhão de outros lugares em que já estive. Estes restaurantes se acham demais, mas na verdade são apenas versões mais caras, mais enfeitadas, do McDonald’s.
— Lá está ela, na mesa do canto, a loira com mechas — Aldous diz. — Ela é uma gata. Não que isso lhe falte. Droga, não diga a Bryn que eu disse isso. Tá, esquece, vou estar lá no bar.
Aldous vai ficar para a entrevista? Isso é trabalho de assessor de imprensa, só que eu me recusei a ser escoltado por assessores de imprensa. Devo parecer mesmo surtado.
— Está de babá? — pergunto.
— Não. Só achei que você poderia precisar de reforços.
Vanessa LeGrande é bem gata. Talvez gostosa seja um termo mais preciso. Não importa. Posso ver pela forma como ela lambe os lábios e joga o cabelo para trás que ela sabe disso, e isso estraga muito do efeito. Uma tatuagem de cobra corre pelo seu pulso, e aposto nosso disco de platina que ela tem um carimbo de vadia. Com certeza, quando ela procura na bolsa um gravador digital, saindo do cós de seu jeans de cintura baixa há uma flechinha apontando para o sul. Classuda.
Oi, Adam — Vanessa diz, olhando para mim de forma conspiratória, como se fôssemos velhos amigos. — Posso já dizer que sou uma grande fã sua? Collateral damage me ajudou a passar por um fim de namoro arrasador no último ano da faculdade. Então, obrigada. — Ela sorri para mim.
— Hum, não tem de quê.
— E agora eu gostaria de retribuir o favor escrevendo sobre o melhor perfil da Shooting Star que já foi visto. Então, que tal nós irmos direto ao ponto e mergulharmos no assunto?
Direto ao ponto? As pessoas ao menos entendem metade da merda que sai de suas bocas? Vanessa pode estar tentando ser abusada ou safada, ou querendo me conquistar com sinceridade, ou me mostrar como ela é real, mas, o que quer que ela esteja tentando, não vou cair nessa.
— Claro — é tudo o que eu digo.
Um garçom chega para anotar o pedido. Vanessa pede uma salada, eu peço uma cerveja. Vanessa folheia seu caderno de anotações.
— Sei que não devemos falar sobre BloodSuckerSunshine... — ela começa.
Imediatamente eu franzo a testa. É exatamente do que devemos falar. É por isso que estou aqui. Não para sermos amiguinhos. Não para trocar segredos. Mas porque é parte do meu trabalho promover os álbuns da Shooting Star.
Vanessa joga charme.
— Estou ouvindo há semanas, e sou uma garota volúvel, difícil de agradar. — ela ri. Ao longe, escuto Aldous pigarrear. Olho para ele. Está com um sorriso falso gigante, me fazendo sinal de positivo. Ele parece ridículo. Eu me viro para Vanessa e me forço a sorrir de volta. — Mas, agora que seu segundo CD saiu e seu som mais pesado está estabelecido, acho que podemos concordar com isso, quero escrever algo definitivo. Marcar sua evolução de banda de emocore para os descendentes do agita-rock.
Descendentes do agita-rock? Essa coisa de se dar importância desconstrucionista era algo que me brochava bem no começo. Até onde eu sei, escrevo músicas: acordes, batidas e letras, versos, pontes e ganchos. Mas daí, conforme a gente cresceu, as pessoas começaram a dissecar as músicas, como um sapo na aula de biologia, até não sobrar nada além de tripas – partes pequenas, muito menos do que a soma.
Eu reviro os olhos levemente, mas Vanessa está focada em suas anotações.
— Eu estava ouvindo uns shows das suas primeiras músicas. É tão pop. E tenho lido tudo sobre vocês, cada post de blog, cada e-zine. E quase todo mundo se refere a esse “buraco negro” da Shooting Star, mas ninguém realmente penetra lá. Vocês tiveram seus lançamentos independentes; foram bem; foram escalados para o primeiro time, mas daí tem esse intervalo. Boatos de que a banda iria se desfazer. Daí vem o Collateral damage. E pau.
Vanessa imita uma explosão vinda de seus punhos fechados. É um gesto dramático, mas não totalmente infundado. Collateral damage saiu há dois anos, e, com um mês de lançamento, o single Animate entrou nas paradas nacionais e viralizou. Costumávamos brincar que não dava para ouvir rádio por mais de uma hora sem que ela tocasse. Daí Bridge explodiu, e logo o CD estava na primeira posição no iTunes, que por sua vez fez cada loja do país ter o CD em estoque, e logo estava tirando a Lady Gaga da primeira posição na lista da Billboard. Por um bom tempo parecia que o álbum estava carregado no iPod de cada pessoa com idade entre doze e vinte e quatro. Em questão de meses, nossa banda semiesquecida do Oregon estava na capa da revista Time sendo considerada o “Nirvana do Novo Milênio”.
Mas nada disso é novidade. Foi tudo documentado, sem parar, até enjoar, inclusive na Shuffle. Não tenho certeza sobre aonde Vanessa quer chegar.
— Sabe, todo mundo parece atribuir o som mais pesado ao fato de Gus Allen ter produzido Collateral damage.
— Certo — eu digo. — Gus é do rock.
Vanessa toma um gole de água. Posso ouvir o piercing de sua língua estalar.
— Mas Gus não escreveu essas letras, que são a base para todo o magnetismo. Você escreveu. Toda essa força bruta e emoção. É como se Collateral damage fosse o álbum mais raivoso da década.
— E pensar que estávamos indo para o mais alegre.
Vanessa olha para mim, estreita os olhos.
— Falei como elogio. Foi bem catártico para muita gente, incluindo eu. E essa é a questão. Todo mundo sabe que alguma coisa rolou durante seu “buraco negro”. Vai acabar saindo, então por que esconder os fatos? A que se refere o “efeito colateral”? — ela pergunta, fazendo aspas com os dedos. — O que aconteceu com vocês? Com você?
Nosso garçom entrega a salada de Vanessa. Eu peço uma segunda cerveja e não respondo à pergunta. Não digo nada. Só mantenho meus olhos abaixados. Porque Vanessa está certa numa coisa: nós controlamos, sim, a verdade. Nos primeiros dias, ouvi essa pergunta o tempo todo, mas apenas dávamos respostas vagas: levou um tempo para encontrarmos nosso som, escrevermos nossas músicas. Mas agora a banda é grande o suficiente para que nossa assessoria lance uma lista de assuntos proibidos para os repórteres: o relacionamento de Liz e Sarah, o meu com Bryn, os antigos problemas com drogas de Mike – e o “buraco negro” da Shooting Star. Mas Vanessa aparentemente não recebeu o recado. Lanço um olhar para Aldous, buscando ajuda, mas ele está mergulhado numa conversa com o barman. Grande apoio.
— O título se refere à guerra — eu digo. — Nós já explicamos isso antes.
— Certo — ela diz, revirando os olhos. — Por isso suas letras são tão políticas.
Vanessa me encara com seus grandes olhos azuis. Essa é a técnica de uma repórter: criar um silêncio desconfortável e esperar que a gente comece a falar tudo, sem parar. Mas não vai funcionar comigo. Posso vencer qualquer olho no olho.
Os olhos de Vanessa de repente ficam frios e duros. Ela abruptamente coloca sua personalidade animada e sedutora de lado e me encara com uma ambição dura. Parece faminta, mas é um avanço porque pelo menos ela está sendo sincera.
— O que aconteceu, Adam? Sei que tem uma história aí, a história da Shooting Star, e sou eu que vou contá-la. O que transformou essa banda de indie pop num fenômeno do rock?
Sinto um soco duro no estômago.
— A vida aconteceu. E levou um tempo para a gente escrever coisas novas...
— Levou um tempo para você — Vanessa interrompe. — Você escreveu os dois discos mais recentes.
Dou de ombros.
— Vamos, Adam! Collateral damage é seu disco. É sua obra-prima. Devia ter orgulho disso. Eu sei a história por trás disso, por trás de sua banda, e sua história também. Uma grande mudança desse tipo, de um colaborativo quarteto indie para uma força punk emocional levada ao estrelato... É tudo você. Quero dizer que você sozinho estava lá no Grammy, aceitando o prêmio pela melhor música. Qual foi a sensação?
Uma merda.
— Caso você tenha esquecido, a banda toda ganhou como revelação. E isso faz mais de um ano.
Ela concorda.
— Olha, não estou tentando diminuir ninguém ou reabrir feridas. Só estou querendo entender a mudança. Na música. Nas letras. Na dinâmica da banda. — Ela me dá um olhar compreensivo. — Todos os sinais apontam para você como o responsável por isso.
— Não há um único responsável. Nós apenas acertamos nossa música. Acontece o tempo todo. Como Dylan indo pro som elétrico. Como Liz Phair tornando-se comercial. Mas as pessoas tendem a surtar quando algo diverge das expectativas.
— Só sei que há algo mais aí — Vanessa continua, empurrando com força a mesa contra mim.
Tenho que me proteger e empurrá-la de volta.
— Bem, você obviamente tem sua teoria, então não deixe a verdade se intrometer.
Os olhos dela reluzem por um rápido segundo e eu percebo que a irritei, mas então ela levanta as mãos. Suas unhas estão roídas.
— Bem, quer saber da minha teoria? — ela fala arrastado.
Não exatamente.
— Solta aí.
— Conversei com algumas pessoas que estudaram com você.
Sinto meu corpo todo congelar, matéria macia virando chumbo. É preciso uma concentração extrema para eu levar o copo aos meus lábios e fingir dar um gole.
— Não sabia que você tinha estudado no mesmo colégio de Mia Hall — ela diz levemente. — Conhece? A violoncelista? Ela está começando um rebuliço no mundo. Ou um alvoroço na música clássica. Talvez certa agitação.
O copo treme na minha mão. Tenho de usar a outra mão para ajudar a baixá-lo para a mesa e evitar que vire em mim. Todas as pessoas que realmente sabem o que aconteceu naquela época não estão falando, eu lembro a mim mesmo. Boatos, até os verdadeiros, são como chamas: tire o oxigênio e eles vacilam e morrem.
— Nossa escola tinha um bom programa de arte. Era meio um solo de cultivo para músicos — eu explico.
— Faz sentido — Vanessa diz, assentindo. — Há um vago boato de que você e Mia foram namorados no colégio. O que é engraçado, porque nunca li sobre isso em lugar nenhum e certamente parece digno de nota.
Uma imagem de Mia aparece diante de meus olhos. Dezessete anos, aqueles olhos escuros cheios de amor, intensidade, medo, música, sexo, mágica, dor. Suas mãos congeladas. Minhas próprias mãos congeladas agora, agarrando um copo de água gelada.
— Seria digno de nota se fosse verdade — eu digo, forçando a voz num tom contido.
Dou outro gole na água e faço sinal para o garçom trazer outra cerveja. É minha terceira, a sobremesa do meu almoço líquido.
— Então não é? — ela diz, desconfiada.
— Está forçando — respondo. — Nos conhecemos por alto da escola.
— É, não encontrei ninguém que conhecesse vocês dois para confirmar. Mas então consegui um antigo anuário e nele há uma foto meiga de vocês dois. Parecem mesmo um casalzinho. O problema é que não tem nome na foto, só uma legenda. Então, a não ser que você saiba como é a aparência de Mia, você pode deixar passar.
Obrigado, Kim Schein: a melhor amiga de Mia, rainha do anuário, paparazzo. Não queríamos aquela foto, mas Kim enfiou lá sem incluir nossos nomes, só aquele apelido idiota.
— A nerd e o descolado? — Vanessa pergunta. — Vocês até têm um apelido.
— Está usando anuários de escola como fonte? O que vem em seguida, Wikipedia?
— Você dificilmente é uma fonte confiável. Você disse que se conheciam “por alto”.
— Olha, a verdade é que talvez tenhamos ficado umas semanas, bem quando essas fotos foram tiradas. Mas, ei, saí com muitas meninas no colégio.
Dou a ela meu melhor sorrisinho de pegador.
— Então você não a vê desde o colégio?
— Desde que ela foi para a faculdade — eu digo. Essa parte pelo menos é verdade.
— Então por que os seus colegas de banda disseram “sem comentários” quando perguntei sobre ela? — ela questiona, me olhando firme.
Porque, por mais que o resto tenha dado errado com a gente, ainda somos leais. Sobre isso. Eu me forço a falar alto:
— Porque não tem nada a ser falado. Acho que pessoas como você gostam do aspecto sensacionalista de, você sabe, dois músicos conhecidos da mesma escola sendo um casal.
— Pessoas como eu? — Vanessa pergunta.
Abutres. Sanguessugas. Ladrões de alma.
— Repórteres, eu digo. — Vocês gostam muito de contos de fadas.
— Bem, quem não gosta? — Vanessa diz. — Apesar de sabermos que a vida daquela mulher não chega perto de um conto de fadas. Ela perdeu a família toda num acidente de carro.
Vanessa simula um tremor, como se faz quando se fala sobre as infelicidades de alguém com quem você não tem nada a ver, que não te atinge e nunca atingirá. Nunca bati numa mulher na minha vida, mas por um minuto quero dar um soco no rosto dela, dar a ela um gostinho da dor que está descrevendo tão casualmente.
— Falando em contos de fadas, você e Bryn Shraeder vão ter um bebê? Eu a vejo em todos os tabloides que estão de olho em barriguinhas.
— Não — eu respondo. — Não que eu saiba.
Estou bem certo de que Vanessa sabe que Bryn é assunto proibido, mas, se falar sobre a gravidez de Bryn vai distraí-la, então vamos nessa.
Não que eu saiba? Vocês ainda estão juntos, certo?
Deus, que fome nos olhos dela. Com toda essa conversa de escrever sobre a banda, por todos os meios investigativos dela, Vanessa não é diferente das outras jornalistas meia-boca e fotógrafos perseguidores, morrendo para serem os primeiros a publicar um furo de reportagem, seja para um nascimento: Adam e Bryn terão gêmeos? Ou uma morte: Bryn fala para seu Wilde Man: “Acabou!”. Nenhuma das duas é verdade, mas às vezes eu vejo ambas nas capas de diferentes revistas de fofocas ao mesmo tempo.
Eu penso na casa em Los Angeles que eu e Bryn dividimos. Ou em que coabitamos. Não consigo me lembrar da última vez em que nós dois estivemos juntos por mais de uma semana. Ela faz dois, três filmes por ano, e acabou de abrir a própria empresa de produção. Então, entre filmar e promover seus filmes e buscar peças para produzir e eu no estúdio e em turnê, nós parecemos estar em calendários opostos.
— Sim, Bryn e eu ainda estamos juntos — digo a Vanessa. — E ela não está grávida. Ela só está naquela fase de usar camisa velha, então todo mundo supõe que seja para esconder a barriga. Não é.
Verdade seja dita, eu às vezes me pergunto se Bryn usa essas camisas de propósito, para atrair os vigilantes de barriga como forma de tentar o destino. Ela quer muito um filho. Mesmo que publicamente Bryn tenha vinte e quatro anos, na verdade ela tem vinte e oito, e alega que seu relógio biológico esteja batendo e tudo o mais. Mas eu tenho vinte e um, e nós só estamos juntos há um ano. E não me importo se Bryn diz que tenho alma velha e já passei por uma vida toda. Mesmo se eu tivesse quarenta e um, e Bryn e eu tivéssemos comemorado vinte anos juntos, eu não iria querer um filho com ela.
— Ela vai com você para a turnê?
À simples menção de uma turnê, sinto minha garganta começar a fechar. A turnê tem sessenta e sete noites de duração. Sessenta e sete. Eu mentalmente pego meu frasco de pílulas, fico mais calmo sabendo que ele está lá, mas sou esperto o suficiente para não pegar uma na frente de Vanessa.
— Hum? — pergunto.
— Bryn vai encontrá-lo na turnê em algum momento?
Eu imagino Bryn na turnê, com seus stylists, seu instrutor de pilates, sua mais recente dieta de comida crua.
— Talvez.
— O que acha de morar em Los Angeles? — Vanessa pergunta. — Você não parece com o pessoal de lá.
— O clima é seco — respondo.
— O quê?
— Nada. Uma piada.
— Ah. Certo. — Vanessa me olha de forma cética.
Eu não leio mais entrevistas sobre mim, mas, quando lia, palavras como impenetrável frequentemente eram usadas. E arrogante. É realmente como as pessoas me veem?
Por sorte, nossa hora acabou. Ela fecha o caderno e pede a conta. Eu procuro os olhos aliviados de Aldous, para que ele saiba que estamos encerrando.
— Foi bacana conhecer você, Adam — ela diz.
— É, você também — eu minto.
— Preciso dizer que você é um quebra-cabeça — Ela sorri, e seus dentes reluzem num branco não natural. — Mas gosto de quebra-cabeças. Como suas letras, todas essas imagens pavorosas em Collateral damage. E as letras do disco novo também são muito enigmáticas. Você sabe que alguns críticos questionam se BloodSuckerSunshine pode se equiparar à intensidade de Collateral damage...
Já sei o que vem. Já ouvi isso antes. É o que os repórteres fazem. Citam a opinião de outros críticos como uma forma duvidosa de expor as deles próprios. E sei o que ela realmente está perguntando, mesmo que não pergunte: Qual é a sensação de saber que a única coisa digna que você já criou veio do pior tipo de perda?
De repente, é demais para mim. Bryn e os vigias da barriga. Vanessa com meu anuário escolar. A ideia de que nada é sagrado. Tudo é ração para animais. Que minha vida pertence a qualquer um menos a mim. Sessenta e sete noites. Sessenta e sete, sessenta e sete. Eu empurro a mesa com força para que os copos de água e cerveja caiam no colo dela.
— Que p...?
— A entrevista terminou — eu rosno.
— Eu sei. Por que está surtando comigo?
— Porque você não é nada além de um urubu! Isso não tem nada a ver com música. É mexerico, bisbilhotice.
Os olhos de Vanessa se agitam enquanto ela mexe no gravador. Antes de ela ter chance de ligá-lo novamente, eu o pego e bato com força na mesa, quebrando-o, então despejo um copo-d’água em cima dele só para completar. Minha mão está tremendo e meu coração bate forte, e eu sinto o início de um ataque de pânico, do tipo que me faz ter certeza de que estou prestes a morrer.
— O que você fez? — Vanessa grita. — Não tenho um gravador reserva.
— Que bom.
— Como vou escrever minha matéria agora?
— Chama isso de matéria?
— É. Algumas pessoas precisam trabalhar para ganhar a vida, seu mimadinho cuzão...
— Adam! — Aldous está do meu lado, colocando três notas de cem na mesa. — Para comprar um novo — ele diz a Vanessa, antes de me conduzir para fora do restaurante e para um táxi. Ele joga outra nota de cem para o motorista depois de impedir que eu acenda um cigarro. Aldous faz uma busca no meu bolso e pega o frasco, tira uma pílula e diz: — Abra a boca — como uma mãe superprotetora.
Ele espera até nos afastarmos do hotel, até eu ter tragado dois cigarros continuamente e engolido outra pílula para ansiedade.
— O que aconteceu lá?
Conto a ele. Sua pergunta sobre o “buraco negro”. Bryn. Mia.
— Não se preocupe. Podemos ligar para a Shuffle. Ameaçar tirar a exclusiva se eles não colocarem outra repórter na matéria. E talvez isso entre nos tabloides ou nas fofocas por alguns dias, mas não é lá uma grande história. Vai desaparecer.
Aldous está falando calmamente, como ei, it’s only rock ’n’ roll , mas posso ler a preocupação em seus olhos.
— Não posso, Aldous.
— Não se preocupe com isso. Não precisa. É só uma matéria. Dá para cuidar disso.
— Não é só isso. Não consigo. Nada disso.
Aldous, que eu acho que não dormiu uma noite inteira desde que fez turnê com o Aerosmith, se permite parecer exausto por alguns segundos. Então ele retorna para o mundo empresarial.
— Você só teve uma crise pré-tour. Acontece com os melhores — ele me assegura. — Quando cair na estrada, na frente da multidão, começar a sentir o amor, a adrenalina, a música, você vai se encher de energia. Quero dizer, diabos, você vai fritar com certeza, mas fritar de alegria. E, chegando novembro, quando acabar, você pode “morgar” numa ilha onde ninguém sabe quem você é, onde ninguém dá a mínima para a Shooting Star. Ou o selvagem Adam Wilde.
Novembro? Estamos em agosto agora. São três meses. E a turnê tem sessenta e sete noites. Sessenta e sete. Eu repito na minha cabeça como um mantra, só que o efeito é o oposto de um mantra. Me faz querer arrancar punhados de cabelo.
Como dizer a Aldous, como contar a qualquer deles que a música, a adrenalina, o amor, todas as coisas que aliviam quão difícil se tornou, tudo se foi? Só sobrou o redemoinho. E estou bem no meio dele.
Meu corpo todo está tremendo. Estou surtando. Um dia pode ter apenas vinte e quatro horas, mas às vezes passar por um parece tão impossível quanto escalar o Everest.

31 comentários:

  1. Confesso que fiquei chateada por eles terem terminado.
    Mas o legal é que o Adam está falando.
    Amo ele <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Duas... A fixa ainda não caiu... Não acredito que os dois terminaram, mas tenho q esperança de que voltem... 😊😍😌

      Excluir
    2. affs cade a mia? cmo ela ta? o adam eh umm idiota!

      Excluir
    3. Maria Eduarda Couto22 de outubro de 2015 15:23

      Também não gostei do Adam. Sei lá. Ele parece um cara triste, infeliz. E ainda fuma, fala palavrão e tem que tomar remédio pra ansiedade. Preferia o livro anterior. Ainda bem que a Mia terminou com ele! Ela merece coisa melhor!

      Excluir
    4. Acho que o Adam ficou assim pq quando a família da Mia morreu, ninguém se importou se ELE estava bem com isso, ele tambem amava eles, e depois ele perdeu a Mia também, e perder alguém que não morreu é pior por que ela escolheu deixá-lo, não e culpa dele estar tão pertutbado, ele também sofreu, e ninguém prestou atenção...

      Excluir
  2. eu achei que o livro fosse sobre depois de alguns dias (semanas) que a Mia acordou,
    nao TRES ANOS DEPOIS DELA TER ACORDADO.

    ResponderExcluir
  3. Eles se amam, e esse é o tipo de livro que tenho que ler até o final mesmo sabendo que é muito provável que eles voltem kkkk

    ResponderExcluir
  4. Nouussa não acredito que eles não estão mais juntos... A Mia muito idiota por ter deixado o Adam!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ela n é idiota, ir para aquela escola era o sonho dela, com diz no primeiro livro: as vezes vc faz escolhas na vida, as vezes as escolhas fazem vc
      Se ela quer seguir seu sonho, é preciso fazer sacrifícios

      Excluir
  5. Não acho que ele seja idiota ,ele sofreu muito com o que aconteceu a Mia.

    ResponderExcluir
  6. Respostas
    1. Pelo visto não né... do jeito como ele fala aqui, deve ter acontecido algo entre Se eu ficar e este livro

      Excluir
  7. Algumas idéias na história sao bem vagas. Como por exemplo, os avós de Mia não falaram em funeral pros pais dela; Ou, a história não deixa claro por que exatamente Mia e Adam terminaram; Fora a nova namorada dele que não sabemos de onde veio e como aconteceu... A história tem um período muito grande entre um livro e outro... Más no geral, to adorando a obra.

    ResponderExcluir
  8. Vey ja gostei do começo imagina o meio e o fim aii #SuperAnimada

    ResponderExcluir
  9. Oiie Karina, gosto muito do seu site, tipo muito mesmo, é o unico site que utilizo, por ser o melhor. Queria pedir uma coisa, posta o livro "As virgens suicidas", to louca pra ler, mas nenhum site com o livro abre no meu celular então peço pra você me fazer esse favor. Obrigado desde já beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Bruna! Adicionarei aos pedidos, postarei se possível :)

      Excluir
  10. qual o nome do primeiro livro

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Preferia que fosse a Mia narrando sobre como lidar com a morte de seus pais, como ela conseguiu seguir em frente e como acabou terminando o namoro com o Adam. Uma história de superação

      Excluir
  11. N gostei disso do Adam fuma e bebe feito louco. axo q c ele voltasse com a Mia, ela endireitava ele; só axo.
    ~jo

    ResponderExcluir
  12. Mia decidiu ficar pelo amor de Adam. O que aconteceu para que a vida dos dois fosse pra caminhos tão diferentes? Como eles se perderam um do outro??

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, oq será que aconteceu? Só sei que partiu meu coração, deu agonia

      Excluir
  13. Eu acho que quando ela conseguiu ir para a faculdade, ela e Adam tiveram que terminar, afinal eles ficariam longe um do outro e namoro a distancia não dar certo. É claro que Adam ficou abalado com a morte dos pais de Mia e com a morte de Teddy, e ficou mais abalado ainda por perder a Mia por isso ele diz que fez a musica por uma perda, a "perda" que ele esta se referindo e a Mia.

    ResponderExcluir
  14. LEGAL, PENA QUE SEPARARAM!! VOU PARA PROXIMO CAPITULO JA!!!

    ResponderExcluir
  15. Vey Eu Queria muito entender pq eles não estão juntos mais isso não é coisa pra lembrar no primeiro capítulo de um livro Okay Okay eles terminaram mais eles tiveram um romance bom de mais Adam está um bbk Okay mais ele sofreu tbm ele quase perdeu o amor da vida dele não faço ideia de quem seja essa bryn oque de que inferno saiu só sei que depois de MT tempo sem ler esse livro me puxou pra outra galáxia ( Obs: Imagino o Adousl Sei lá Como Escreve Igual o Raymitch Dos Jogos Vorazes

    ResponderExcluir
  16. Ok......EU PRECISO Q OS DOIS VOLTEM SCR!

    ResponderExcluir
  17. Lembrem que no 1° livro Adam pediu para que Mia não desistisse da vida, e que se ela vivesse ele a deixaria Livre. Acho que ela apenas seguiu os sonhos dela, e torço muito para eles se reencontrem ❤❤.
    Karina obrigadaaa seu blog é o melhor.

    ResponderExcluir
  18. Gente, eu estava no livro A Seleção, ai eu passei meu dedo pela tela, apareceu uma seta azul que me trouxe pra cá....
    Que livro é esse? Qual é o nome?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É Para onde ela foi, a continuação de Se eu ficar

      Excluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)