2 de junho de 2015

O Diário de Malcolm



Registro #1

Finalmente me encontrei com meu filho.
Depois de tantos anos, parece estranho, inclusive escrever essas palavras. Quase havia perdido a esperança. Não – eu havia perdido a esperança. Até que conheci Adam. Pensei que morreria nas entranhas de uma prisão mogadoriana entre experimentos sem nexo. Pensei que nunca veria a luz do dia e muito menos o rosto do meu filho.
Me assombra pensar que Sam também foi prisioneiro deles. A ideia de os mogadorianos torturando-o, interrogando-o da forma como me interrogaram, me dá vontade de despedaçá-los com minhas próprias mãos.
O que torna ainda pior é saber que a culpa é minha. Depois de eu ter desaparecido, Sam nunca descansou até saber o que aconteceu. É um garoto tão brilhante, sempre foi assim. Nunca satisfeito com uma explicação simples quando se pode encontrar uma mais complicada, melhor. O tipo de garoto que nunca recebe um “por quê” como resposta, inclusive de seus pais. Assim, suponho que não seja surpresa que suas teorias sobre meu desaparecimento inevitavelmente o tenham conduzido a descobrir a verdade acerca de John Smith, um dos integrantes da Garde.
Sua busca para me encontrar o colocou no meio desta guerra, apesar de todos os esforços que fiz para mantê-lo em segredo. Nunca esperei encontrar Sam em uma base mogadoriana. Apesar do meu medo por sua segurança, não posso deixar de dizer que adorei revê-lo. Agora que temos um tempo para pôr nossos assuntos em dia e recuperar nossas forças, ele parece melhor, menos pálido e faminto, se recuperando a cada dia. Ele cresceu desde a última vez que o vi.
Uma vez, tive esperança de manter Sam fora disto. Falei-lhe que alienígenas eram algo que pertenciam ao cinema e aos quadrinhos, apenas para mantê-lo longe da frente de batalha dessa guerra. Mas agora... agora estou feliz que esteja aqui.




Registro #2

Minhas lembranças estão voltando em partes, graças à série de experimentos feitos pelos mogadorianos. Nas últimas noites, esse efeito só se manifestou como pesadelos de meus longos anos de prisão. Dez anos perdidos que eu preferia que continuassem perdidos: não preciso dessas recordações.
Desta vez, no entanto, a memória é sobre Sam.
Num Natal, quando Sam era muito pequeno, comprei-lhe uma modelo de ônibus espacial. Pensei que poderíamos construir a miniatura juntos. Beth disse que Sam era pequeno demais para isso, e ela tinha razão. Tive que montá-lo sozinho. Mas Sam me observou, fazendo perguntas e molhando os dedos com a tinta, correndo para brincar de outra coisa quando se entediava. Logo voltava, querendo saber o que era aquela peça e se era importante. Para dizer a verdade, o modelo pode ter saído um pouco torto. Mas Sam não se importava, ele tinha quatro anos. Brincava com ele no quintal e logo conseguiu cobrir o ônibus espacial de barro, ou desprendia uma peça de plástico que eu nunca conseguia encaixar de novo.
Tenho certeza de que poderia construir um melhor agora, mas ele não tem tempo para os modelos de brinquedo. Ele já não é uma criança. Ele cresceu e eu perdi isso. Perdi tudo.
Fui um pai horrível.




Registro #3
Sam e eu ligamos para Beth pela noite. Dizer-lhe que estamos bem, estamos vivos, e que não vamos voltar para casa. Pelo menos eu esperava que ficasse feliz em saber de Sam. Ela não atendeu. Bom. Estava no meio da noite, mas não podia esperar. Não tive a oportunidade de dar adeus à minha família na última vez, não podia deixar que isso voltasse a acontecer.
Esta luta, ajudar a Garde – se fracassarmos nisso, recolher os cacos de nossa família despedaçada será a última das minhas preocupações. Supondo que eu não esteja morto, e haja algum pedaço para recolher.
Sei que Sam sente falta da mãe. E sei que Beth deve estar preocupada com Sam e furiosa comigo. Eu não a culpo. Eu também estaria. Ela tinha todo o direito de me expulsar da casa quando reapareci do nada, depois de tantos anos, com uma explicação que soava louca demais para acreditar. Ali estava, o pai pródigo regressando exatamente depois que o nosso filho havia desaparecido... e agora o estou trazendo para esta busca desesperada. Para ser honesto, eu não me surpreenderia se ela chamasse a polícia. Apenas espero que eu tenha a oportunidade de explicar quando tudo isso terminar. Se ganharmos essa guerra.




Registro #4

Ainda não descobri o verdadeiro alcance da intrusão mogadoriana em minhas lembranças. Minha mente está tão cheia de buracos que faz com que o queijo suíço pareça uma parede sólida de aço.
Sam está otimista que encontraremos uma maneira de reverter os efeitos dos experimentos dos mogs, mas eu não estou tão seguro. Isto não é como um lapso típico de memória, quando algo está fora de seu alcance, na ponta da língua. Isto não é nada como já experimentei antes. Há coisas que sei que devo saber, mas não há rastro delas. Como o esqueleto escondido no bunker de nosso jardim. Sei que deveria lembrar de quem são os ossos, de onde vieram, por que os escondi. Porém não tenho ideia.
Não é como se as recordações tivessem ido. É como se nunca tivessem estado ali, para começar. Para ser completamente honesto, isso me aterroriza. Os mogs estavam tentando encontrar algo, qualquer coisa que pudesse ajudar a derrotar a Garde, e talvez tenham achado. Se o fizeram, se eu traí a Garde – mesmo que sem intenção ou má vontade – então não sei o que poderiam ter descoberto. Há simplesmente informações demais que não me lembro.
Espero que este diário me ajude a organizar meus pensamentos, talvez inclusive a ajudar minhas lembranças a retornar. Mas sei que não posso restaurar tudo o que foi perdido. Nada pode.




Registro #5

Desde que escapamos da base de Dulce, não recebi notícias de Adam. Dizer que me preocupo seria eufemismo. Se ele teve sucesso em sair da base com vida – e é um grande se – não sei por que esperaria tanto tempo para se reportar. Sinto-me muito mal por tê-lo deixado sozinho, mas tenho que me lembrar que era o que ele queria. Não tínhamos outra opção. Seu sacrifício foi o que permitiu que Sam e eu escapássemos.
Mas me nego a renunciar à esperança de que ele esteja vivo. Com o Legado da Número Um e seu próprio conhecimento e força mogadoriana, ele está longe de estar indefeso. É possível que tenha escapado da base, mas não pode ou não quer entrar em contato comigo por alguma razão.
É uma reviravolta tão grande dos acontecimentos. Um mog ajudando um aliado declarado da Garde. Mas talvez Adam tenha herdado mais de Número Um do que apenas seu Legado. Ou talvez nem todos os mogs nasçam malvados.
É tão difícil pensar neles como indivíduos, com seus exércitos de guerreiros nascidos artificialmente e sua incansável busca pela destruição da Garde. Porém talvez devêssemos. Talvez Adam não seja o único aliado que poderíamos encontrar entre os mogadorianos.
Não. Este é um pensamento completamente ridículo. Vi a forma como eles operam, tenho prova mais que o suficiente de que os mogadorianos querem nos ferir. E mesmo que encontremos outro mog como Adam, nunca seríamos capazes de confiar nele. Já era bastante difícil começar a confiar em Adam.
Ainda não há mensagens. Me pergunto onde ele poderia estar.




Registro #6

Não posso deixar de lado a ideia de que os mogadorianos podem ter encontrado algo em minhas recordações. Sou o último integrante vivo do comitê de recepção, o único que sobreviveu a seus cruéis experimentos. Devem ter tido suas razões para me manter vivo. O que estavam buscando? Encontraram?
É muito frustrante não lembrar.
Esta guerra supera todas as outras, mas estamos perdendo em todas as frentes antes mesmo de começar. Três Gardes já estão mortos, o feitiço que protegia os demais se quebrou, e agora os mogadorianos podem ter roubado segredos da minha mente.
Os planos dos mogadorianos sempre envolveram seguir em frente, sem medo de nós. Eles têm certeza de que não precisam ter medo. E por que teriam? Somos um grupo tão pequeno. Como poderíamos enfrentar seus exércitos? Eu gostaria de poder considerar isso como arrogância, uma fraqueza a explorar. Mas é difícil atribuir fraqueza a uma ameaça como Setrákus Ra.
O que eles sabem?




Registro #7

Mal posso acreditar que, em breve, me reunirei com os últimos membros sobreviventes da raça do lorienos, a Garde. E que Sam já o fez – que os considera como amigos, e eles pensam o mesmo dele. Ajudar esses garotos alienígenas tem sido o trabalho da minha vida, mas ainda assim é estranho pensar que um deles é o melhor amigo do meu filho no ensino médio.
O ensino médio. É possível que tenham crescido cedo, porém todos eles são pouco mais que crianças. Crianças com poderes incríveis, sim, mas ainda crianças. E o destino de todo o seu mundo, e do nosso, pesa sobre seus ombros.
Pensamento positivo, não? Bom. O comitê de recepção sempre esteve destinado a ajudar os lorienos aqui na Terra. Assim, é isto o que estou fazendo.
Nossos planos podem ter saído do eixo, mas isso não significa que não possamos seguir lutando. Vamos superar as terríveis probabilidades que estão contra nós. Juntos vamos ganhar esta guerra.
Ao menos, é o que espero.

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Sim, os diários, a origem do número oito e as transmissões são extras dos extras então são bem curtos

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  2. Até agora não sei o que aconteceu com o 8, com o 5, enfim, como termina? Perdi alguma coisa? Pulei algum livro ou capítulo?

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Boa leitura :)